quinta-feira, 21 de março de 2013

Caminho do Padre Anchieta: 4ºdia

nascer do sol na praia deserta

    Acordo por volta das seis horas da manhã, com muitas dores musculares e mal conseguindo me apoiar na perna esquerda, pois o tornozelo esquerdo amanheceu muito inchado. 
    Olho para a frente e só consigo avistar praia e vegetação. Por alguns instantes, penso em desistir, já que a  minha água está acabando e por temer em ficar perdido naquela praia deserta. 
    Me imagino voltando para Belo Horizonte e sinto que nunca me perdoaria por ter desistido no meio do caminho. Me lembro do filme "Retroceder sim, desistir jamais" e também do "Tropa de Elite" com o seu famoso bordão: " Missão dada é missão cumprida". E, como sou muito teimoso, resolvo continuar, mesmo que tenha que chegar a Anchieta de muletas. 
    O vento é muito forte nesta praia, e qualquer vacilo na hora de desmontar a barraca pode ser fatal, pois não tenho condições físicas de sair correndo atrás de minha humilde residência com toda essa ventania. 
    A viagem, que a principio tinha um misto de espiritualidade, diversão e aventura, toma rumos dramáticos. A sensação agora é de que estou pagando alguma promessa ou pagando pelos meus pecados. A areia fofa não deixa a caminhada render e, com a mochila pesando quase oito quilos, chego a cambalear algumas vezes. Me sinto um pouco Jesus Cristo, mas nada a haver com complexo messiânico, a situação mesmo é que me faz pensar nisso. 
    Depois de cerca de uma hora de caminhada, bate um certo desespero em mim. Nenhum sinal de vida por perto, a água acabando e as dores aumentando, principalmente na musculatura da perna direita, que tem que trabalhar dobrado, já que não consigo firmar por completo a perna esquerda no chão.
perdido na praia deserta
      Resolvo ligar o meu celular e, por incrível que pareça, há sinal naquele local. Ligo então para a polícia
(sempre ligamos 190 para resolver qualquer problema!) e uma voz muito sexy atende no outro lado da linha. Pergunto qual a distância entre Barra do Jucu e Setiba, mas  a atendente não soube me responder, se limitando a dizer apenas que é longe, já que Barra do Jucu fica em Vila Velha e Setiba em Guarapari. Xinguei a atendente(mentalmente, é claro) por não ter nem se dado ao trabalho de ter consultado o google, já que havia dito que estava perdido em uma praia deserta. Resolvi ligar para a polícia, pois não tinha a noção exata do quanto havia andado. A areia fofa deixa a caminhada bem lenta e cansativa, e a sensação que tenho é a de que andei o dobro do que realmente havia andado. 
    Bebo o resto de água que havia na garrafinha e continuo a caminhada. Após quase uma hora de sofrimento, consigo avistar, bem ao longe, um conjunto de casas. Fico aliviado e um peso enorme sai de minhas costas. 
    Os lugares, na praia, parecem, no visual, estarem bem mais perto do que imaginamos. Andei por um bom tempo e as casas não se aproximavam de acordo o tempo que caminhava. Estava quase no meu limite, quase me arrastando, o calor fazia a minha garganta implorar por água quando avistei uma pequena casa branca meio que isolada na praia. Ouvi um barulho de motor e avistei um antigo ônibus azul se aproximando. Peguei minhas garrafinhas de água e fiz sinal para que parassem. Pedi para que enchessem as garrafinhas dizendo que estava meio perdido na praia. O motorista estava quase enchendo a primeira garrafinha quando um dos ocupantes pediu para que parasse, dizendo que eu iria encontrar vilarejos pela frente. Fiquei espantado diante de tanta falta de compaixão e agradeci, ironicamente:
    - Obrigado pela gentileza, vocês são muito legais. 
    Bebo a água toda e não consigo matar toda a minha sede. A solução é a casinha branca, que está há uns 200 metros de distância. Reúno todas as minhas forças e rapidamente chego ao local. Bato palmas e sou recebido amistosamente por dois cães vira latas. Brinco um pouco com eles e volto a insistir nas palmas. Começo a pensar que não há ninguém na casa naquele momento. Quando já estava pensando em desistir, aparece uma loira, aparentando ter no máximo uns 35 anos. Se parecia fisicamente com a princesa Diana, só que bronzeada. Até o corte de cabelo é igual. 
    Desesperadamente peço água e pergunto quanto ela me cobraria para tomar um banho de ducha em sua casa, mas, para o meu azar, ela responde:
    - I am not understanding!
    Fico mais desesperado ainda, falo vagarosamente "eu querer tomar banho", "lavar cabelo", "quanto custa, money", mas tudo em vão. Ela apenas me olhava com uma cara de quem não está entendendo nada. Devido ao cansaço e ao meu desespero, esqueço o pouco do que sei do inglês básico e nem pergunto "Whats your name?" ou "How are you?".
     Apenas consigo lembrar que água em inglês é water e, mostrando as garrafinhas, finalmente  entende alguma coisa do que estou falando. Ela entra em sua casa, e ao voltar, um outro cachorro aparece, só que ele é pequenino e nada amistoso e me dá uma leve mordida em minha perna. Comento com ela: "Cachorro grande legal, cachorro pequeno bravo", mas não adianta, ela realmente não entende nada de português. 
    Ela é bonita, mas tem um olhar meio triste, parecido com o da princesa Diana. Ficamos um tempo em silêncio, um olhando para a cara do outro. Queria conhecê-la, saber sobre a sua vida, o motivo de morar em uma praia meio deserta. Fiquei com raiva de mim mesmo por não saber inglês e então me despedi:
    -Thank you. 
    Ela disse algo que não entendi e retomo o caminho. Logo avisto uma placa indicando o caminho do Padre   Anchieta e fico mais animado, só lamentando o fato de haver tantas placas em Vila Velha e nenhuma na praia deserta.
Praia em Setiba
     Poucos metros depois, começo a avistar as casas de Setiba, todas muito bonitas. O lugar está praticamente deserto e penso que as casas são de propriedade de  pessoas com boa situação financeira que passam o final de semana naquele lugar. Consigo encontrar uma ducha na praia e tomo um banho e finalmente consigo lavar o meu cabelo, já que o local é pouco movimentado. Depois, tomo um belo café da manhã e continuo no caminho. Avisto uma outra placa indicando o Caminho do Padre e nela vejo que estou no quilometro 51, ou seja, estou no meio do caminho. A essa altura, nenhuma dor me faria desistir. 
    Depois de Setiba, o caminho ainda é feito em praias, só que povoadas. Caminho pela calçada, para não me cansar mais ainda. Por volta das onze horas, paro para almoçar e descansar. O dono do restaurante foi muito legal comigo e até me deixou descansar na mesa durante uma hora, enquanto a bateria da câmera carregava. Foi a pessoa com quem mais conversei durante o percurso até o momento. 
    Depois do descanso, tento me levantar.  Como sempre, quando dou uma parada, as dores aparecem e tenho a impressão que o tornozelo está mais inchado. O dono do restaurante, ao ver o meu tornozelo, diz:
    - Hoje você não chega a Guarapari não!
    - Chego sim, quando o corpo esquenta, as dores diminuem. - respondi.
na metade do caminho
     Comprei algumas bananas e continuo o caminho, que muda um pouco de cenário nesse trecho. Saio da praia e entro em um trilha no meio de uma densa mata. Aqui falta algumas setas que indicam o caminho, fico meio perdido mas alguns moradores me informam o caminho a seguir.
    Saindo da trilha, o caminho é feito em sua maior parte em pedras ao redor da praia, onde foram construidas belíssimas casas. Alguns pontos são perigosos, mas nada que assuste, desde que se preste atenção aonde está se pisando. Cheguei a pisar em uma pedra escorregadia e quase cai na água, o que poderia levar tudo a perder(câmera, documentos, cartões de bancos, etc).
    Esse trecho é um pouco cansativo e enjoado também. É um vai e vem pelas pedras que avançam pelo mar, um sobe e desce que parece não ter fim. Já da para se avistar Guarapari, e poderia se chegar rapidamente  a essa cidade se o trajeto fosse em linha reta.
    Após quase três horas nesse trecho, finalmente chego a cidade das areias medicinais, por volta das 17 horas. A orla é toda cercada por prédios modernos. Encontro um amigo de Ipatinga, o Breno, que também é operador de som. Conversamos por quase duas horas e ele sugeriu, ao ver o meu tornozelo, que eu fosse ao pronto socorro, mas descartei a ideia, dizendo que quem está quase morrendo já é mal atendido, imagine um andarilho com uma contusão no tornozelo.
    Na hora de reiniciar a caminhada as dores voltam com mais intensidade, como sempre. Parece que o corpo tem que esquentar ou então o cérebro emitir uma substância meio mágica para aliviar um pouco as dores. Faltam cerca de 10km para se chegar a Meaípe, que, teoricamente, seria o ponto de parada do terceiro dia de caminhada, mas, como meu tornozelo está muito inchado e dolorido, decido parar em uma praça na Praia da Areia Preta.
    São sete horas da noite e, como ainda há muito movimento, espero um bom tempo até que as coisas se acalmem. Armo minha barraca e entro para dormir e descansar, para enfrentar o último dia de caminhada.
minha humilde residência

9 comentários:

  1. teus relatos estão cada vez mais emocionantes. só não gosto quando acabam: fico ansioso pra saber o que vem depois! abraço do stefano.

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    1. Valeu por seguir o blog, a viagem está sendo proveitosa, apesar da contusão. Gostaria de postar com mais frequência, mas nem sempre no caminho existem lan houses.

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    2. pretende ficar viajando por mais quantos dias? vai morar em bh ou voltar pra ipatinga?

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    3. Olá, pretendo voltar para Bh, Ipatinga é uma cidade boa para se viver, mas estou com saudades da cidade onde nasci. Ipatinga faz muito calor, mais do que no Rio e algumas cidades do nordeste, mas só tenho que agradecer a toda ajuda que recebi por lá. Obrigado por visitar o blog.

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    4. mais quente que o rio de janeiro? duvido que faça quarenta e cinco graus como eu vi fazer aqui esse ano. te convido para uns dias na minha casa. mas tem que ser no verão. quero ver se tu aguenta! abraço, stefano.

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    5. Já estive ai no Rio no carnaval e deu para comparar mais ou menos, o problema é que em Ipatinga, além de fazer calor, quase não tem vento e não chove muito. Quando chove, às vezes até piora, por que sobe um vapor quente do chão. O negócio lá é meio complicado mesmo, só não sei se é mais quente do que em Bangu.

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  2. Amigo, espero que todo esse esforço valha a pena. Sob meu ponto de vista tem mais sofrimento que prazer. Mas cada um sabe de si. Eu bem que queria sentir o vento da liberdade batendo no meu rosto e sair desta "prisão" que a doença me colocou. Mas vamos seguindo nossas vidas da melhor forma possível. Sucesso nas suas caminhadas e cuide direito do tornozelo para não infeccionar e complicar sua vida. Fique bem. Boa sorte.

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    1. Obrigao Hulk por estar sempre seguindo o blog. Até antes do me machucar, estava ótimo, gosto de caminhar e ainda mais vendo lindas paisagens, mas é isso ai, vou seguir até o final, já que comecei mesmo. Você nunca tentou mudar a medicação? Muitas pessoas estão falando bem dos novos, pena que existe muita burocracia para consegui-los pelo governo.

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    2. Já tomei diversos medicamentos e toda vez que tenho que trocá-los é aquela luta que você conhece para conseguir que o governo forneça o medicamento novo. Fazem tudo para dificultar. Mas vou seguindo meu tratamento e tentando levar uma vida mais "normal" dentro do possível. Adoro ler seus posts e fico torcendo para que tudo dê certo para você. Como não tenho histórico de agressividade, como também é o seu caso, às vezes tenho a impressão que as pessoas (até os familiares) dão pouca importância ao que está acontecendo. Parece que estou fazendo "corpo mole", é o que sinto. Talvez seja também só as manias de perseguição de sempre. É que tive um surto no final do ano e agora que já passou ficou a danada da depressão que não quer ceder nem por "reza brava". Mas vamos tocando o barco. Sucesso no seu caminho. E que a espiritualidade (não sei se você acredita) te proteja. Fique bem.

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