quarta-feira, 14 de maio de 2014

O novo lar


Novo albergue, antigos preconceitos

    Me adaptei mais rápido do que imaginava neste abrigo que estou no momento. Ele é simples e deve acomodar no máximo umas 180 pessoas. É um albergue misto, com homens, mulheres e crianças.
    É um lugar tranquilo, e isso é o mais importante para mim. A maioria dos caras trabalham e chegam cansados, só querendo saber de tomar banho, jantar e dormir. No arsenal as coisas são mais agitadas, devido ao grande número de "bocas de rango" que estão por lá albergados. Caras de uns 20 anos não querem nada de trabalho, apenas desejam passar uma temporada no arsenal, comendo, bebendo e dormindo. E de dia frequentam as bocas de rango e telecentros da cidade. Eu faço um pouco disso, mas tenho  projeto e objetivos definidos, que é pagar os meus empréstimos. Que saudades eu tenho da minha televisãozinha de tubo, do meu home theather e do meu pc novinho que havia acabado de comprar! 
   Neste abrigo tem muitos caras idosos com problemas de saúde e que ficam lá o dia inteiro. Então não tem muita confusão por lá. Tem alguns tipos curiosos por lá, como, por exemplo:
    Um espanhol marrento, que fica xingando não sei quem quando vai deitar para dormir. Chega a ser engraçado o jeito dele falar:
    - Por que não te calas?- intervi certo dia, em tom de brincadeira, pois já eram nove horas da noite e o cara não parava de resmungar. Depois comecei a conversar com ele para aprimorar o meu portunhol.
    Tem também um cara que parece ser turco, pelos seus traços e pelo bigode. Pouco conversa, mas já fala o português fluentemente. Tem um casal de haitianos e algumas pessoas portadoras de transtornos mentais:
    Uma mulher que aparenta ter uns 23 anos. Ela também quase não conversa, ficando a maior parte do tempo assistindo TV e às vezes solta uma risadinha. Não sei qual o CID dela, mas talvez tenha esquizofrenia hebrefrênica. 
    Tem uma outra mulher, de uns 50 anos mais ou menos. Fala muito quando está sozinha e faz um gestos com as mãos, como se estivesse pedindo para alguém sair da frente. Pelo seu olhar parece mesmo que está enxergando algo na sua frente. Conversei com ela e não aparentava ter transtornos mentais, dialogando normalmente e logicamente.
    Tem uma outra mulher, de uns 45 anos, mais ou menos. Ela é bem quietinha e só fica na dela mesmo. Quando a vi, até cheguei a pensar comigo mesmo:
    - Como seria bom se todas as pessoas dos abrigos fossem como ela!
    Fiquei sabendo que tinha transtornos mentais quando a ouvi dizer que tomava remédios controlados para a "cabeça". Analisando bem, percebe-se que toma algum medicamento mesmo, pois seu rosto quase não demonstrava nenhuma expressão, parecendo estar robotizada emocionalmente. Seus gestos também eram lentos e quase não a vejo sorrir. 
    Mas tem uma outra que é "doida de pedra" mesmo: uma corinthiana que não fala outra coisa a não ser sobre o seu time. Ela é aposentada e chega a pagar as pessoas para gritarem e torcerem para o seu time. Claro que não tenho nada a haver com o que ela faz com o seu dinheiro, mas acho uma bobeira total gastar dinheiro e brigar por causa de futebol hoje em dia. Mas sinto que ela teve e ainda tem uma vida sofrida, e ai tenta se apoiar no futebol para ter algum motivo para sorrir e brincar. 

    Existem vários outros tipos no abrigo, cada um com sua história de vida e suas dificuldades. Claro que existem os acomodados e acostumados com o apoio que os albergues dão. Acho que ficaram viciados nessa situação e eu mesmo tenho que me vigiar para não ficar assim também. Mas creio que não ficarei, pois a liberdade e a privacidade para mim não tem preço. 
    Se compararmos com o arsenal da esperança, esse abrigo é duas estrelas. A comida às vezes fica com o gosto de queimado, o guarda volumes é bem pequeno, poucos banheiros e horários complicados. A cozinha não é limpa com muita frequência. Mas está tudo bem, não posso ficar escolhendo muita coisa no momento em que conseguir uma vaga fixa em abrigos está muito difícil, talvez por causa do frio e da copa do mundo. O importante é não dormir nas ruas, para fugir não somente do vento frio das noites paulistanas como também dos perigos noturnos. O meu prazo neste abrigo já está vencendo, este mês passou muito rápido. Vamos ver o que o assistente social irá me dizer, já que me comportei exemplarmente, não me metendo em nenhuma discussão. Em agosto os meus empréstimos com o INSS estarão quitados e assim poderei voltar para BH e alugar um cantinho para descansar. 
    A princípio esse assistente social havia me dado três meses de permanência, mas, depois de dizer que tenho esquizofrenia ele mudou o tom da conversa e resolveu me conceder apenas um mês, talvez para avaliar o meu comportamento. A única coisa  que sei é que, por mais lucidez e serenidade que eu demonstre na entrevista, esses assistentes sociais sempre ficam com um pé atrás na hora de acolher o esquizo. É como se os ditos normais tivessem sempre um comportamento exemplar, que não usassem drogas, que não brigassem, etc. 
   Mas o que irei falar então nas entrevistas? Que não sou aposentado? Se disser isto, talvez eles me proponham algum serviço de carteira assinada. Poderia dizer que sou aposentado por ter problemas na coluna, talvez. Mas a verdade é que não gosto muito de ficar inventando historinhas. Por maior que seja o preconceito, quero ser eu mesmo, sem disfarces e sem ter que ficar pensando muito na hora de responder certas perguntas. No início de minha vida na internet eu mentia para os meus amigos virtuais, dizendo que trabalhava e tals. Para outros que eu me sentia à vontade, eu abria o jogo e falava a verdade. Com o tempo, a lista dos meus amigos acabou ficando meio confusa. Quando entrava no antigo msn e no orkut, e começava a dialogar com os amigos, não sabendo quem eu era para determinada pessoa; se era o esquizofrênico aposentado ou o técnico em eletrônica. Com o tempo fui assumindo que era portador de esquizofrenia, e algumas pessoas se espantaram com a minha revelação e sumiram. Poucas trataram o assunto com naturalidade. 
    Esse abrigo em que estou se situa no bairro Tatuapé, que é bem mais tranquilo do que a Mooca. Têm dois parques muito legais por perto, com muita natureza e sossego. No parque Belém tem aqueles aparelhos para fazer exercícios físicos, assim poderei tentar tirar os dois quilos que ganhei na capital paulista. 
    Ao lado desse parque tem um centro cultural, onde são realizados vários cursos. Em junho serão abertas novas vagas. Se ainda estiver em Sampa, farei o de fotografia, para assim tirar melhores fotos de minhas andanças. Enquanto a minha "carcunda" aguentar, pretendo fazer as minhas viagens com a minha barraca por este Brasil lindo por natureza.  
    Já em julho tem o curso para se ingressar na cruz vermelha. Também pretendo fazer este curso, mesmo se estiver em Belo Horizonte. Ajudar outras pessoas é também uma forma de terapia. Só espero que esta instituição aceite portadores de esquizofrenia.  
    Falo um pouco sobre mim na intenção de mostrar que, nós, os portadores, devemos buscar um sentido para a vida. Se tivermos um trabalho renumerado, ótimo. Caso contrário, não devemos ficar inertes esperando que a cura deste transtorno apareça, assim do nada. Se nos aposentamos, devemos continuar a vida, ficar parado não irá resolver nada. 
   Bem, algumas pessoas me pedem para falar mais sobre a esquizofrenia. A esquizofrenia não é só alucinação e mania de perseguição, acho que, falando um pouco de mim, infelizmente também estarei falando desse transtorno. Os posts relacionados diretamente a esquizofrenia podem ser todos acessados na parte inferior da página, onde os mesmos estão separados por assuntos. No lado direito da página tem os links dos mais acessados e alguns que sinto que são importantes. Basta clicar nas imagens para acessá-los.
    Em relação ao meu livro, gostaria de dizer que ainda está a venda, mas somente no formato PDF. No momento estou em São Paulo, mas a minha agência é de Ipatinga-MG. Todas as instruções estão também no lado direito da página. Por favor ao efetuarem o depósito, me enviem o comprovante do mesmo. Não por desconfiança, e sim para controle mesmo e facilitar o envido do livro por email. Algumas pessoas me enviam um email dizendo que efetuaram o depósito mas depois não entram em contato, e talvez não tenham recebido o livro. 
   Quem tiver alguma dúvida sobre o assunto pode me enviar perguntas pelos comentários. Se estiver ao meu alcance respondê-las, o farei com o maior prazer. Estudei um pouco o assunto enquanto morava em Ipatinga e tinha internet ilimitada. Agora já não posso ficar tanto tempo assim em uma lan house. Mas, felizmente ou não, também tenho um bom conhecimento prático da esquizofrenia. Talvez a junção desses dois fatores me façam ter a noção de certas coisas que alguns profissionais da área da saúde mental tenham alguma dificuldade em ter acesso. 
Até o próximo post pessoal.

Essa música é tema do filme Mente Brilhante

Tudo o Que Amor Pode Ser

Eu te assistirei no escuro
Te mostrarei que o amor pode ver através
Quando os pesadelos te acordam em prantos
Eu te mostro tudo o que o amor pode fazer
Tudo o que pode fazer

Eu te assistirei pela noite
Te segurarei em meus braços
Te darei sonhos onde não há nenhum
Te assistirei através do escuro
Até a manhã chegar

Pra as luzes te levarem
Pela noite para ver
Todo amor mostrando-nos o que o amor pode ser

Eu te guardarei com minhas asas brilhantes
Fique até seu coração aprender a ver
tudo o que o amor pode ser

3 comentários:

  1. Gosto muito do seu blog. Tenho experiência de convivência com apenas um esquizofrênico que não se trata corretamente. Ao começar a seguir seu blog e ver sua coerência, inteligencia e como você lida com sua doença, limpou meu olhar para os esquizofrênicos. A vontade que me dá é de que todos pudessem ler seu blog , pelo menos um post, qualquer um.

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  2. Obrigado. Realmente a falta de informação é o principal problema nesse caso. E não culpo as pessoas, acho que a mídia em geral deveria ter um pouco mais de atenção a esse tema. Eu mesmo tinha um pouco de preconceito em relação as pessoas portadoras de sofrimento mental antes de ter os surtos.

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  3. Tenho um filho esquizofrênico que me da muito trabalho faz 20 anos que sofremos muito só Deus que me dar muita força

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