sábado, 23 de agosto de 2014

Minha vida é um video game?

   
Como disse no post anterior, o esquizo aqui não aguentou a correria e o stress da megalópole paulista. Minha mania de perseguição havia atingido índices perigosos. Não importando o lugar onde estivesse, sentia-me observado, e que queriam me prejudicar.
    No albergue, durante as refeições, chegava a ficar olhando os pedaços de carne que eram servidos às pessoas que estavam na minha frente. Quando ganhava um pedaço menor do que a galera, logo pensava que o pessoal da cozinha estava fazendo um complô contra a minha pessoa:
    - "Deem o menor pedaço para o mineiro"- era a ordem que eu pensava que fosse dita aos funcionários.
    O negócio é complicado, chegava até a observar se estavam colocando algo em minha comida...
    No centro então, a situação ficava crítica. chegando a quase entrar em pânico certa vez. Andar de metrô, nem pensar. O jeito foi mesmo me retirar em parques e bibliotecas públicas, depois que quase fui assaltado. Mas até mesmo na solidão dos parques me sentia vigiado. E até tinha um pouco de razão nisso, pois os guardas municipais fazem o seu trabalho. Apesar de não usar drogas e ser um correto cidadão, a presença da polícia me incomoda um pouco, ao mesmo tempo que me dá uma certa sensação de segurança. Quando morava em Ipatinga, perto da crackolândia, depois que essa droga tomou conta do lugar, me sentia duplamente perseguido: ora imaginava que os traficantes pensassem que eu era quem os denunciava, pelo fato de não usar drogas. Por outro lado, tinha a quase certeza de que a polícia tinha a certeza absoluta que eu era um traficante. Ou seja, estava, em minha imaginação, cercado pelos dois lados.
    Na biblioteca lia alguns livros no notebook e, às vezes jogava calheiros do zodíaco. Apesar de permanecer em silêncio e me comportar adequadamente, pensava que os funcionários não gostavam muito de minha presença.
    Na hora de dormir, não me sentia à vontade. Os beliches do segundo albergue que fiquei são bem próximos uns dos outros. E parecia que estava na ala dos roncadores. Eram roncos dos mais variados estilos e tons. Parecia uma sinfonia, e, para piorar, são os roncadores é que conseguem geralmente pegar no sono primeiro. .
    Outra coisa que me incomodava bastante na megalópole é que os preços também são megas. Sentia-me assaltado toda vez que comprava algo e sempre me lembrava das padarias e sacolões de Belo Horizonte.
    Enfim, não conseguia ficar sozinho um minuto sequer, e isso é quase uma necessidade para mim. E um dia o caldo entornou, quando o metrô apresentou um pequeno defeito e ficou parado por cerca de cinco minutos. Ao sair da estação, não aguentei: falei alguns palavrões e rasguei um cartaz que estava no mural.
    O segundo albergue que fiquei em São Paulo é bem simples, e deve abrigar umas duzentas pessoas, entre homens, mulheres e crianças. No arsenal da esperança, as coisas eram diferentes. Por ser muito grande, era como também se estivéssemos em uma grande cidade. Quase não conversava com os outros usuários e a relação com os funcionários era profissional mesmo, parece que eram recomendados a não terem muita intimidade com a galera. Já no segundo albergue, pelo fato de ser menor, havia bastante diálogo entre os funcionários e os usuários. Chegava a conversar com poucas pessoas. Não me considero nem melhor nem pior do que os outros abrigados, mas não faço muita questão de conversar com pessoas que adotam o funk como estilo de música predileto.
    Então, depois do stress no metrô vi que era hora de voltar para Belo Horizonte. Poderia pirar a qualquer momento se continuasse naquela situação. O dia da despedida foi difícil, como sempre. Aliás, não me despedi de ninguém, não gosto muito, acho muito triste dar adeus para as pessoas. Notei que algumas pessoas ficaram tristes ao me ver com a mochila nas costas.
    Me surpreendi quando percebi que alguns usuários pediram para permanecer um pouco mais de tempo na casa. Alguns funcionários perguntaram:
    - Mas já vai?
    É que o meu prazo na casa ainda não havia se encerrado, e ainda poderia permanecer por mais dois meses. Tinha caras que estavam lá há mais de um ano. Em minha paranoica mente, todo mundo detestava o esquizo caladão e sério. Mas, analisando os fatos, eu fui um bom albergado, me comportando exemplarmente. Não tive sérios atritos, só pequenos perrengues mesmo. O ato de conviver com as pessoas é muito difícil para mim, mas consegui levar numa boa esse tempo todo que fiquei morando com várias pessoas em um mesmo local. Tive alguns perrengues com alguns corinthianos, que são muito fanáticos e não toleram zoação, que, para mim é o que resta fazer desse atual e pobre futebol brasileiro.
    Foi uma decisão difícil essa de voltar para Belo Horizonte. Em São Paulo deve ter uns vinte albergues. Já na capital mineira, apenas dois. Um é o tia Branca, que deve abrigar umas quinhentas pessoas. Mas lá o negócio costuma ficar tenso durante a noite, ocorrendo algumas brigas. Tem um outro abrigo menor, que é relativamente tranquilo, mas não tinha certeza se seria acolhido novamente, pois estive no ano passado por lá. Caso não fosse aceito,  teria que voltar a morar na minha barraca e carregar a mochila nas costas todos os dias, até conseguir a grana para concluir o meu projeto.
    Depois de alguns dias refletindo, cheguei a conclusão de que não dava mesmo para continuar em Sampa. Mas não é uma crítica à cidade, apenas ela não tem as características mas adequadas à minha pessoa. Não é para mim toda aquela agitação, e creio que tive a tal da síndrome do estrangeiro. Não precisa estar em um outro país para ter esta síndrome. A pessoa pode não se sentir bem em casa, na escola, no trabalho, etc. Sou grato à esta cidade, pois foi nela que consegui finalmente quitar os meus empréstimos e concluir a primeira parte do projeto, que é comprar um notebook.
A viagem
    Comprei a passagem de volta para o horário das 22:45hs, assim estaria em "Beuzonte" por volta das sete da manhã. Cheguei na rodoviária por volta das cinco da tarde! Preguei alguns panfletos do blog em torno do terminal tietê e entrei. Tentei dormir um pouco, mas, nos auto falantes o cara não parava de dar avisos sobre horários e também alertava as pessoas a tomarem cuidado com os seus pertences. O pior é que ele repetia tudo em espanhol e depois em inglês. O jeito foi dar algumas voltas, pois o terminal é bem grande. Consegui encontrar uma deliciosa canjica geladinha, que me fez sentir em Minas Gerais. O preço é que me remetia de volta para São Paulo: cinco reais um copinho!
    A viagem não foi tranquila. Havia uns dez nordestinos que não paravam de falar e contar piadas. Não tenho nada contra os nordestinos, muito pelo contrário, mas, depois das dez horas da noite, o silêncio é bem vindo, ainda mais em uma cansativa viagem. No ônibus também vieram dois caras que falavam francês, deviam ser haitianos que estavam no Acre.
    Na chegada, a primeira coisa que fiz foi comprar um pão de queijo e o tradicional cafezinho. Além de estarem deliciosos, o preço era razoável. Já na saída da rodoviária, logo senti a diferença da qualidade do ar. Respirei profundamente por diversas vezes. Foi uma sensação muito boa, fazendo com que eu me perguntasse se a qualidade do ar não chega a interferir no raciocínio das pessoas, pois me senti bem mais tranquilo e disposto. Em São Paulo o clima estava quase desértico, e a umidade do ar na capital mineira naquele dia estava girando em torno dos 60%.
    Era como se estivesse voltando de uma grande batalha. E a tinha vencido! Consegui ficar oito meses na agitada São Paulo, sem maiores problemas. A sensação é que minha vida é um jogo de video game. Tenho que passar por fases e ganhar créditos para alcançar o meu objetivo. É preciso muita paciência e uma certa inteligência neste jogo, pois não é nada fácil conviver com muitas pessoas em um albergue, pois cada um chega lá com os seus problemas, e a situação às vezes chega a ficar tensa. Não são raros os roubos de celulares e dinheiro.
    Algumas pessoas podem pensar que eu seja um vagabundo por não trabalhar, mas, se hoje estou aposentado, é por que trabalhei bastante em minha vida e procurei sempre ser uma pessoa correta.
Permanecer em São Paulo por tanto tempo foi difícil, não por causa da cidade em si, e sim por causa das minhas paranoias e medos. Era com se estivesse vencido a mim mesmo. Às vezes o nosso maior adversário é a gente mesmo.

    Mas ainda a luta não acabou. Fui aceito novamente no abrigo, mas não sei por quanto tempo. Ainda não conversei com a assistente social e talvez outras pessoas precisem da vaga. Mas, mesmo que tiver que voltar a morar na barraca não vou desistir de terminar  a segunda parte do projeto: comprar uma tv lcd e um home theather, além de um frigobar. Assim, estarei até em uma situação melhor do que há mais de um ano atrás, quando morava em Ipatinga, pois lá a tv que tinha era de tubo e o home theather não era muito bom.
    Mas, além disso, o que ganhei de aprendizado e vivências nestas andanças não tem preço. Foi tão bom andar por ai pelas estradas de Minas que vou continuar com este projeto. Muitos não entendem o motivo de sair andando pelo mato, só com a barraca e a mochila, mas só quem gosta desse contato com a natureza é que sabe do que estou dizendo. Não tem como achar as palavras para explicar.
    Me sinto em casa na cidade onde nasci. Não sou uma unanimidade, não sou uma simpatia de pessoa. Sei que muitas pessoas não gostam muito do meu jeito de ser, mas isso não me importa, quem tem que gostar ou não sou eu mesmo. Aprendi com a vida que não podemos agradar a todos se formos verdadeiros e originais. Aprendi na prática que não podemos prestar atenção ao que pensam sobre nós.
    É isso ai, estou mais animado. A cada dia conto as horas que faltam para conseguir juntar a  grana, me vejo assistindo uma tv na minha cama, e isso é o que me motiva a não gastar todo o meu dinheiro com comida. Vai ser difícil, mas sei que vou conseguir, não sei o que vem pela frente, mas creio que o mais difícil já passou.

11 comentários:

  1. ah, cara! Tu és nota 10! Tu mereces todos bons comentários.
    Não me sinto bem a vontade de escrever outra coisa a não ser te elogiar e dizer que eu sou muito parecido contigo e que nós somos boas pessoas kkk
    Li tudinho e um dia quero conversar contigo uma boa conversa tá?

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    1. Olá, obrigado pelas palavras. São os comentários que me fazem continuar. Se dizem que estou fazendo algo de bom, a única coisa que tenho a fazer é continuar, apesar das pouquíssimas críticas que recebo. Se quiser me add no facebook é só me mandar um email.

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  2. Olá, você é muito corajoso e com certeza está ajudando muitas pessoas. Parabéns!

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  3. Olá julio,

    sim, entre jun e jul, minha esposa e eu fizemos de novo o caminho dos anjos, o caminho do sabarabucu, parte do caminho novo.......e mais algumas trilhas no sul de minas(monte verde, extrema, pedra do bau)........FOI MARAVILHOSO.

    Estivemos em sampa no início de agosto, pensei ateh em te ligar, mas estava com o tempo curto.......

    Li uma reportagem de um empresário alemão que, apesar de ser rico, prefere viver uma vida praticamente igual a tua.

    VC TEM O PRIVILEGIO DA LIBERDADE.....ENTÃO, APROVEITA AO MÁXIMO!
    A vida eh muito curta.

    DICA: vc que gosta de salgado......quando for fazer o caminho de sabarabucu, coma o famoso PASTEL DE ANGU de acurui perto de bh......MARAVILHOSO.
    disparado o melhor salgado que comi na vida.

    abs
    marioluc

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    1. Verdade, eu conheço um dono de uma empresa de porte médio que almoça com os funcionários. O caminho de sabarubuçu eu também já fiz, é o mais curto porém é o mais difícil, pelas subidas íngremes. O pastel da angu infelizmente não provei não, mas, sem puxar a sardinha pra Minas, realmente a culinária aqui do estado é uma das melhores do Brasil. Liberdade realmente não tem preço, ouvi dizer que um cara, há alguns anos atrás, resolveu ir para a Suiça somente para ser preso. Ele agrediu algumas pessoas e foi preso, e sua justificativa foi de que os presídios na Suiça são bons. Realmente são bons, em relação a algumas moradias do Brasil, mas como disse liberdade não tem preçõ. Abraços e sempre conte as novidades e caminhos que percorrer.

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  4. Oi Júlio,

    Achei seu blog bem interessante. É legal a forma como você compartilha a sua doença. É escrito de uma forma bem mais aberta e o seu português é muito bom!

    Eu faço tratamento psiquiátrico há 6 anos, com medicação (leponex e rivotril atualmente. Mas nem estou tomando direito pra falar a verdade) e já fui até internado.

    É bom saber que outras pessoas também passam pelo que passamos(acho que não passei nem metade que você), e isso me ajuda de algum a forma. O sofrimento é grande, a sociedade não compreende, e nem a própia família. O pior é que é uma coisa que prejudica a vida muito, seja na pessoal, profissional, familiar...

    Eu mesmo acabo de perder um emprego por causa da minha doença. Era visto como um cara muito "esquisito" e ninguém sabia por que. Se contasse, ou as pessoas não iam ver bem ou não iam entender. Eu trabalhava em uma espécie de escritório, em um computador com 6 pessoas. Era um cara muito "mecânico". não interagia com nimguém, não falava nada, muito quieto. Comecei a entrar em crise e pronto. Tentei levar o trabalho mas não deu. Comecei a ter dificuldade pra dormir, pra comer e não deu.

    É isso. O post ficou meio longo, espero que leia. Quem sabe, depois compro o seu livro.

    Melhoras pra ti, (Vinícius).

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    1. Imagino como deve ser no trabalho. Eu trabalhava em algo mais informal, que é sonorização, mas devido ao stress e som alto, não deu para voltar. Mas você conseguiu o auxílio doença?

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  5. Vi você falando em outro post que não tem muita tolerância a sons agudos... eu tambem não e o estranho é que as vezes eu sinto até uma vibração no ouvido aumentando a irritação...

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  6. No fundo todo mundo tem, mas parece que os portadores de esquizofrenia não toleram muito essa frequencia do som. Me lembro que, na época em que trabalhava nem colocava microfones nos pratos da bateria. Era como se o som estivesse entrando dentro de minha cabeça. Valeu por visitar o blob

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  7. Guardas Municipais não tem a função de coibir ou reprimir tráfico de drogas, quem faz isso são as polícias(militar ,civil , federal).Guardas Civis Municipais não são policiais.E não tem as mesmas funções que policiais.O que eles fazem é preservar e proteger o patrimônio, bens e serviços do munícipio ou seja da prefeitura.Ser Guarda Municipal é uma coisa ser policial é outra.As polícias é que previnem , investigam e reprimem crimes não as guardas municipais.

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    1. Mas qual atitude os guardas municipais devem ter em um flagrante, por exemplo? Uma briga? Em BH tem muita briga entre polícia civil e militar. Os civis não aceitam ser abordados pela PM, mesmo estando bêbados e aprontando por ai. Tenho medo da polícia civil...

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