quarta-feira, 12 de abril de 2017

Paranoias diárias do dia a dia de um esquizofrênico

   

    Estava fazendo o meu roteiro diário para almoçar no restaurante popular de Belo Horizonte, quando, ao passar próximo à uma "boca de fumo" ouvi um dos meliantes gritar:
    - "Tá normal, tá!".
    Esse é um aviso de que está tudo bem, de que não há presença de policiais ou homens da lei à paisana no local. Sempre passo por este lugar, não tem como fugir, a não ser que eu ande mais uns 500 metros, ao fazer o desvio passando pela rodoviária. Já são 1.1km para ir mais 1.1km para voltar, e com as condições em que está o meu "hálux rigidus" (=dedão do pé detonado) parece que andei mais de 50km pela estrada real. Sem chances...
    Sempre fico meio tenso nesse local, apesar de ser um pacato cidadão que procura estar sempre de acordo com a lei. Fico imaginando que os pequenos traficantes estejam com a certeza de que eu seja um policial à paisana e que assim que dobrar a esquina, irei dar o aviso pelo rádio para dar uma geral na galera.  Mas o contrário também acontece, quando os policiais estão fazendo uma busca no local, tenho a certeza quase absoluta de que os homens da lei estão pensando que eu esteja no local para pegar alguma droga. Ai faço questão de passar perto deles, para mostrar que não tenho nada a ver com a movimentação daquele local, só faltando pegar a minha identidade e mostrar para eles. Bem que poderia ser uma piada, mas infelizmente já perdi a conta de quantas vezes me deu vontade de mostrar a minha identidade para os policias, e dizer:
    - Trabalhei 17 anos como operador de som!...
    Mas dessa vez que o vigia da boca de fumo gritou "Tá normal, tá", fiquei um pouco preocupado. Geralmente eles dizem somente o "Tá normal". Notei que dessa vez o rapaz falou o 'Tá normal, Tá", frisando bem  o "tá" no finalzinho da frase. Não é paranoia minha não, deu para ouvir claramente.
Ai pensei: Seria um novo código secreto criado pelos meliantes, tipo para dizer que está "mais ou menos" normal? Que tem elemento suspeito na área?
    Confesso que já deu vontade de parar naquele lugar e dizer para os caras que não sou da polícia e que também não sou "caguete", pois de problemas a minha vida já está cheia e que não quero mais confusão para o meu lado. Mas só fiquei na vontade, não tenho previsão nenhuma de qual será a reação do pessoal daquele lugar.
    Não tem como sair desse tipo de pensamento. É a mania de perseguição que me persegue... Quando frequentei uma igreja, pensava que todos os outros membros estavam  afirmando que eu era dado às coisas do tinhoso. Se por acaso for no mineirão, para assistir o clássico do futebol mineiro "atlético x Cruzeiro", e ficar na torcida atleticana, tenho certeza de que ficarei cismado de que os atleticanos estarão pensando que eu sou cruzeirense, e o contrário também acredito que irá acontecer, mas não torço para nenhum time daqui de Minas, apesar de ter nascido na minha querida Beuzonte.
Acredito que a maioria já deve saber que torço para o time mais querido do Brasil, que tem a maior torcida, o melhor time, o ônibus mais bonito, as cores mais bonitas. Mas não irei revelar o nome dese time para não haver discórdias aqui no blog... Brincadeira, não sou mais fanático só sou um, ops, já ia falar o nome do time, mas hoje sou um saudável torcedor do time mais querido do Brasil.
   -"Ah, mas se você tomar o remedinho tudo vai melhorar e esses pensamentos irão passar"... Já me disseram e ainda me dizem por ai. Mas o que eles nãos sabem é que não foi por falta de tentativa que parei com os antipsicóticos. Os pensamentos e delírios de perseguição podem passar, mas junto também passam a vontade de acordar, de levantar da cama, de tomar banho, de andar, enfim, de viver como qualquer cidadão normal. Este é um caminho que decidi trilhar, entre a loucura e  a razão, mas sempre do lado do bem e com a consciência tranquila, acima de tudo (só devo aos bancos mesmo, mas isso não faz pesar a minha consciência, não me lembro de ter atrasado um mês de aluguel nesses últimos 12 anos de minha vida de aposentado).
    Esse é o caminho que resolvi seguir, e não quero dizer que é o melhor, pode ser para mim, mas não para todos. Vou seguindo nos trilhos da vida, às vezes saio dele, mas confesso que a cada dia que passa me sinto uma pessoa normal, ao ver por aí que os "zé maias"  da vida acham normal tocarem no que nem sempre deve ser tocado, ao constatar que o jornal mais vendido é o que mais violência mostra, que o que dá audiência na tv é a desgraça alheia e os bbbs que vez ou outra tem seus integrantes envolvidos em caso de polícia...
 Não aconselho a ninguém que pare de tomar suas medicações, mas também posso sugerir que conversem com seus respectivos médicos caso não estejam sentindo bem com os medicamentos que estejam tomando. A minha loucura pode fazer mal, às vezes, mas somente para a minha pessoa. A partir do momento que eu esteja sentindo que eu esteja prejudicando alguém, serei o primeiro a procurar algum tipo de ajuda, mesmo que essa ajuda seja os detonadores antipsicóticos, que tiram a minha vontade de viver e de me emocionar.
 
 

8 comentários:

  1. amigo. eu lhe entendo, passo por isso varias vezes, é dificil lidar com isso !mas vamos sequindo em frente

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    1. Sim, temos que seguir em frente, fiz esta postagem não em tom de reclamação ou lamento, apenas um relato de uma situação comum em minha vida, para ilustrar um pouco como é a vida de uma pessoa com esquizofrenia. A maioria das pessoas só acreditam no que vêem, ou seja, na questão do sofrimento apenas acreditam no físico, e pensam que é frescura o que passamos e sentimos.

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  2. O que você acha do remédio risperidona? Tomo esse remédio há 2 anos e me sinto muito bem. 0 vozes, mania de perseguição quase que inexistente, e uma vida quase normal. Já tentou tomar ele por mais de 1 mês? No primeiro mês ele te deixa dopado, mas isso acontece com todos os antipsicoticos.

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    1. Tomei por alguns dias e, devido a fome que ele me dá, cheguei à conclusão de que não tem como arcar com o prejuízo financeiro que esse medicamento iria me dar. E também tem o fato de morar sozinho e ter que me virar, sendo difícil ficar muito dopado e realizar as tarefas do dia a dia.

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  3. Falta de vontade de tomar banho, de sair da cama, trocar de roupa, sair, interagir. É triste. Tomo medicação e estou assim.

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    1. É complicado mesmo, no meu caso, quase que impossível, pois, como já relatei, moro sozinho e tenho que resolver os meus problemas. Mas tente conversar com o seu psiquiatra, talvez ele seja uma exceção e entenda a situação e talvez tente encontrar um medicamentou ou uma dosagem que te deixe um pouco melhor fisicamente.

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  4. Eu tomo citalopram e mesmo assim sinto um desânimo muito grande, uma vontade de só ficar na cama, sem amigos e vendo a vida passar diante dos meus olhos. O pior de tudo é que nem sou aposentado, dependo de familiares para me tornar um morador de rua. Você acha que eu posso tentar a aposentadoria? Eu tenho sorte de ter pessoas que me amam, mas não quero explorar essas pessoas.

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    1. Olá
      Esse não cheguei a tomar, mas a sonolência acredito que seja uma reação adversa presente em 90% dos antipsicóticos, claro que tudo depende da dosagem também.
      Em relação à aposentadoria, se você tem a carteira assinada há pelo menos um ano atrás deve tentar sim, caso não tenha condições de trabalhar. Caso nunca tenha assinado a carteira de trabalho, sugiro que procure uma assistente social ou advogado para lhe orientar sobre um benefício chamado Loas. Mas o inss está endurecendo muito essa questão da aposentadoria. Acredito que mais dia menos dia irão me chamar e cortar o meu benefício e ai o jeito vai ser voltar para as ruas.
      Obrigado pela visita ao blog.

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