segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Pedalanças- 1° trajeto

     Está decidido o primeiro trajeto de minhas pedalanças, que começará no início do mês que vem. 
    Apesar da mania de perseguição que me persegue, irei sim fazer esta e mais outras caminhadas de bike. Estava com algumas dúvidas onde começar, pois estamos no período das chuvas. 
    A verdade é que se eu der atenção para a mania de perseguição, não sairei de casa. E minha vida sempre foi assim, enfrentando inimigos reais e imaginários que segui o meu caminho até os dias de hoje. 
    A bike não é das melhores, e por isso farei o trajeto bem devagar, andando cerca de 30 a 40km por dia. É o que consigo andar nessa "magrela" sem muita sofrência, isso se o caminho não tiver muitas subidas bruscas. E também não tenho a intenção de correr, se quisesse velocidade compraria uma moto usada e aprenderia a digirir, sei lá. Quero é curtir o caminho, sentir o vento no rosto, enfim, me desligar um pouco desse mundo em que estou vivendo. 
    Irei fazer este percurso do mapa da imagem, não irei fazer agora o caminho da estrada real por que estamos no período das chuvas. E qualquer chuvinha mais forte atrapalha e muito a caminhada na estrada real, pois 90% do percurso é de estrada de terra. É o caminho onde me sinto em casa, no meio do mato, subindo e descendo as serras e respirando um pouco de ar puro. 
    Conto com a força de todos os leitores do blog, cada um na sua fé, é claro, e também na força de quem não tem uma fé religiosa, pois procuro respeitar à todos, inclusive quem não tem fé nenhuma. 
    Serão 660 km entre Belo Horizonte e o litoral do Espírito Santo, que já tive oportunidade de conhecer na época que estava viajando a pé mesmo. 
    O segundo trajeto ainda não decidi, a viagem não quero planejá-la com tanta antecedência, pois até mesmo minha vida não a planejei. 
    Obrigado à todos os leitores do blog e continuarei postando aqui, falando de saúde mental e outros assuntos, e, claro, postando algumas fotos dessa viagem maluca. 
    Quem quiser contribuir mande mensagem pelos comentários ou pelo email, ainda faltam algumas coisinhas, mas nada que me impeça de começar a viagem.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Podemos nos curar permanecendo no mesmo ambiente em que adoecemos?

Surtei, e agora? 
    Quando surtamos pela primeira vez, uma série de indagações invadem nossa mente. No início pensamos que todas aquelas paranoias e pensamentos persecutórios são uma realidade, e então às vezes literalmente fugimos. Não é raro parentes de portadores de esquizofrenia entrarem em contato com a polícia à procura de seus entes queridos desaparecidos. E não raramente boa parte está perambulando por alguma BR do Brasil. 
    Mas quando a situação se estabiliza outras indagações tomam conta de nossa cabeça. O que eu tenho que fazer para não surtar novamente?
    Mudar de ambiente e evitar pessoas e situações que nos afligem obviamente é uma boa saída. Gente negativa que se preocupa mais com a vida alheia do que com si própria faz mal à qualquer pessoa, independente ou não de ser portadora de algum tipo de transtorno mental.
    E ainda tem aquelas pessoas que, não sei por qual motivo, querem por que querem que você se dê mal na escola, no trabalho, no amor, enfim em tudo em nossas vidas. São pessoas que não têm vida própria e seu objetivo é atrasar a vida dos outros. 
    No meu caso em particular ter saído de um ambiente hostil foi a única solução que havia encontrado. Em uma pequena cidade do interior de Minas Gerais inúmeras situações me estressaram a tal ponto que ajudaram e muito a desencadear um surto psicótico.
    O que me fez adoecer não foi uma pessoa, não foi uma única situação. Não culpo ninguém pelo fato de ser um portador de esquizofrenia. Costumo dizer que tenho esse transtorno desde quando nasci, ao analisar diversos fatos e fatores que apareceram em minha vida. Talvez tenha algum componente genético na minha esquizofrenia, mas o que posso dizer que minha existência neste planeta foi um pouco confusa e difícil.
    Ainda não se sabe exatamente a causa desse transtorno, mas o que pude observar é que muitos portadores de esquizofrenia têm algum parente na família com o mesmo problema.
Não culpo ninguém por estar nessa situação, Aconteceram certas coisas em que não houveram culpados, a falta de informação é uma das principais causas de certos conflitos na família, no ambiente de trabalho, etc... Pouco se sabe ou se fala sobre transtorno mental. Os portadores são confundidos com preguiçosos, que o comportamento rebelde é coisa de aborrecente, etc..
    O que acontece na vida da gente não determina se somos ou não portador de algum tipo de transtorno mental, mas pode desencadear um surto psicótico, uma depressão, etc.. Ou seja, não é a causa principal, mas os traumas, o stress podem sim ser o gatilho de uma crise. 
Sair de um ambiente negativo não irá te curar, mas ajudará e muito na recuperação. Energias negativas e ambiente carregado faz mal à qualquer pessoa do bem e que queira apenas ser ela mesmo. 
    No meu caso em particular um certo local, um certo ambiente me fez adoecer.  Nessa pequena cidade do interior de Minas Gerais sentia que os outros funcionários sentiam uma certa inveja de mim, pois procurava executar o meu serviço da melhor maneira possível e por isso conseguia ter um salário melhor do que os demais empregados. E era sempre escolhido pelos clientes, ou seja, a galera da firma não digeriu bem a ideia de um cara da capital ter se mudado para o interior e ter meio que roubado seus clientes. 
    Aquela carga de sentimentos negativos começou a me fazer mal. E a mania de perseguição, que antes era apenas uma cisma, foi se tornando uma neurose. A situação foi piorando e comecei a imaginar que não somente os funcionários da firma queriam me prejudicar.  Já estava imaginando que o bairro também queria o meu mal. 
    Em pouco tempo, a mania de perseguição, que havia se tornado uma neurose acabou se transformando em psicose, pois eu não havia procurado ajuda e pensava que poderia enfrentar aquilo tudo sozinho.
    Não queria ir embora daquela firma, pois gostava da cidade e ainda tinha a vantagem de morar na firma, economizando boa grana com o transporte. E esse foi o meu maior erro.
    Fui ficando cada vez paranoico e o trabalho de operador de som deixou de ser um prazer para se tornar um martírio.  O contato com as pessoas já não estava me fazendo bem. 
    E então aquele cara alegre e brincalhão e distraído deixou de existir para dar lugar à um paranoico que pensava que o mundo inteiro queria prejudica-lo.
Colecionei algumas inimizades depois que comecei a adoecer. E logo o boato de que eu estava com aids tomou conta da cidade. Talvez cismaram que eu tinha HIV por engordar e emagrecer inúmeras vezes. Comia muito doce e depois corria muito para emagrecer. E conseguia. 
    Uma mentira dita muitas vezes pode acabar se tornando realidade. Até para mim mesmo. 
Estava com receio de fazer os exames e então planejei dar fim a minha vida assim que os sintomas da aids aparecessem. 
    Essa situação me deixou deprimido e em consequência disso comecei a emagrecer, a perder energia e me tornei apático e cada vez mais recluso. Não sei se por coincidência ou não, nesse período peguei dengue duas vezes, tive algumas diarreias e fui algumas vezes ao posto de saúde por causa de viroses, diagnóstico que os médicos dão quando não sabem exatamente a causa do mau estar do paciente. 
    Já estava no limite, ouvindo vozes e a única solução que havia encontrado era pedir demissão para fugir daquele ambiente. Mas era tarde demais, já estava paranoico e imaginando que o mundo inteiro queria me pegar. Mudei de cidade mas as vozes me perseguiam onde eu fosse. O jeito então era fugir para outro estado e a perambular pelas Brs. 
    E então foi uma longa história até conseguir me recuperar. Se talvez tivesse fugido daquela ambiente hostil logo no início provavelmente não teria surtado. Não tem como fugir de inimigos interiores, poderia ir até para outro país naquela situação, mas não iria adiantar muita coisa.
será que conseguimos estar bem em um ambiente negativo?


    Mas as coisas às vezes não são tão simples assim. O mercado de trabalho não está nada fácil e nem sempre é possível ficar mudando de emprego sempre quando percebemos que uma ou outra pessoa não quer o nosso bem. Às vezes só o fato de estarmos bem e em paz conosco já é o suficiente para atrair sentimentos negativos. 
    Às vezes o ambiente negativo está dentro de nossas casas, nossas famílias. E sair de casa nem sempre é fácil quando não estamos estabilizados financeiramente. 
    O que fazer então? É uma pergunta difícil de se responder, mas acredito que o primeiro passo seja o diálogo para tentar resolver qualquer rusga, seja em um ambiente familiar ou no trabalho. Praticar o perdão também pode ajudar e muito. Mas ficar calado e não resolver a situação pode trazer inúmeros prejuízos à saúde mental de uma pessoa. 
    Se a situação não foi resolvida com diálogo e nem com a tentativa do perdão aí sim uma mudança de ares seja muito benvinda. No meu caso no primeiro surto grave naquela cidade, tive uma boa melhora depois de uns três meses morando nas ruas. Por incrível que pareça o ambiente nas ruas era melhor do que um local de trabalho com muitas pessoas não aceitando o fato de você ter um salário um pouco melhor do que os demais. 
    Mas, antes de tudo devemos olhar para dentro de nós mesmos e tentar de alguma forma descobrir se não estamos exagerando uma situação. Se o problema não está em nós. A fuga de nós mesmos é praticamente impossível. 
    Também devemos sempre aprender com essas situações e nos fortalecemos e também aprendermos a evitar que aconteçam de novo. Nem sempre é possível mudar de ares quando encontramos um ambiente hostil e negativo. 
     Também existem as alternativas espirituais para os casos de ambientes negativos. Mas não irei entrar nesse campo. Não é a finalidade do blog falar sobre religião e espiritualidade. Tenho minhas crenças e procuro respeitar a fé alheia também. E a não fé também procuro respeitar, não sou de julgar alguém só por que é ateu. O católico reza, o evangélico ora, o devoto de Hare Khrisna acende um incenso e por aí vai....


Música The enemy inside
Banda   Dream Theather

O Inimigo Interior
De novo e de novo
Eu revivo o momento
Estou carregando um fardo em meu interior
Feridas abertas escondidas sob minha pele

A dor é real
Como um corte que sangra
A face que eu vejo
Toda vez que eu tento dormir
Olhando para mim chorando

Estou fugindo do inimigo interior
(O inimigo interior)
Procurando pela vida que deixei para traz
(A vida que deixei para traz)
Essas memórias sufocantes
Estão gravadas em minha mente
E eu não posso escapar do inimigo interior

Eu me separo do mundo
Desligo-me completamente
Sozinho em meu próprio inferno
Triunfo com o medo irracional

Sob o peso do mundo em meu peito
Se eu cair e quebrar enquanto tento recuperar o fôlego
Diga-me que eu não estou morrendo

Estou fugindo do inimigo interior
(O inimigo interior)
Procurando pela vida que deixei para traz
(A vida que deixei para traz)
Essas memórias sufocantes
Estão gravadas em minha mente
E eu não posso escapar do inimigo interior

Eu sou um fardo, eu sou uma farsa
Eu sou um prisioneiro do pesar
Entre flashbacks e sonhos violentos
Estou pendurado na borda

O desastre a espreita ao virar da curva
O paraíso chega ao fim
E nenhuma pílula mágica
Pode trazê-lo de volta

Estou fugindo do inimigo interior
Procurando pela a vida que deixei para trás
Estas memórias sufocantes
São gravadas em minha mente
E eu não posso fugir do inimigo interior

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Paranoias diárias do dia a dia: O conserto da bike


    Paranoias diárias do dia a dia
    Em uma paranoica mente pequenos problemas acabam virando um tsunami. Pequenos detalhes, coisas simples que vão se somando e se multiplicando, causando enormes prejuízos no dia a dia de uma pessoa com esquizofrenia. 
O conserto da bike
    Comprei uma bicicleta usada e estava tendo muitas dificuldades para alinhar a parte traseira. 
    Na minha paranoica mente imaginava que o dono da magrela havia me passado para trás e que o quadro da bike estava danificado. 
    Fiquei horas e horas tentando improvisar algo para que amenizasse a “tortura” traseira da bike, mas tudo em vão. Cheguei a ficar cerca de sete horas seguidas tentando alinhar os raios da roda traseira em um dia. Desapertei todos os aros para alinhar novamente cerca de quatro vezes. Acredito que fiquei debruçado sobre esse pneu traseiro um total de 48 horas.
    “Como existem pessoas más neste mundo”... – pensei. 
    Já estava pensando em comprar um outro quadro, pois a bicicleta estava fazendo um rangido estranho e tinha receio de que viesse a danificar nas minhas viagens que irei fazer por aí pelo Brasil afora. 
    Então tive a ideia de levar a bike em um mecânico que um conhecido havia me recomendado. Queria uma análise dele para confirmar que o quadro estava realmente torto e que teria que comprar um outro. 
    Não demorei a encontrar o endereço e cheguei em sua oficina. Relatei o ocorrido e ele de primeira afirmou:
    - É a roda da bike que está torta....
    Para o meu alívio o mecânico tinha no seu estoque duas boas rodas aero usadas que serviram muito bem nessa minha bike, que passou a andar com mais fluidez.
    Muitos pensam que tenho boa vida, mas é que procuro disfarçar bem, acho que sou um bom ator de gente normal. Um simples defeito em uma roda, mas, devido as paranoias, o meu primeiro pensamento era de que o antigo dono da bike quisesse me prejudicar. Perdi muitas horas vendo vídeos no youtube e tentando achar uma solução. Pensava somente que era o quadro da bike que estava com problemas e não a roda propriamente dita, que seria a primeira opção ao se fazer análise da situação da magrela. 
    Foi um grande stress por um defeito tão simples e corriqueiro em bicicletas.... Mas a esquizofrenia para mim é isso mesmo, uma luta diária, e não desisto fácil. 
    “Ah, mas por que você não toma os remédios?”. Me perguntam costumeiramente.
    Oras, se eu estivesse tomando os maleditos antipsicóticos simplesmente não teria vontade de andar de bicicleta como tenho andado ultimamente, às vezes chego a andar quase 40km em um dia, o que é uma distância razoável para uma bike aro 26 e para um cara que está com 50 anos. É uma decisão difícil a ser tomada no meu caso, mas não tenho sombra de dúvidas que é o melhor caminho para mim, o caminho que eu mesmo escolhi(acho que já ouvi essa frase antes...) que é de ser eu mesmo, sem máscaras, sem tranquilizantes, enfrentando o mundo de cara limpa. Drogas eu estou fora, sejam elas ilícitas ou lícitas, sem condenar quem optou pelo uso dos remédios
    Quero me emocionar, senti o vento no meu rosto quando estiver andando de bicicleta, que foi o melhor investimento que fiz em minha vida. Quero me emocionar, mesmo que seja para chorar em alguns momentos. Não estou aqui incentivando ninguém a seguir o mesmo caminho que escolhi, cada um tem o seu jeito de ser e de pensar. E no meu caso não tive muitas escolhas, pelo fato de morar sozinho e ter que ter disposição para resolver meus problemas do dia a dia, algumas vezes tendo que acordar cedo, coisa que não consigo fazer tomando antpsicóticos. Até consigo levantar da cama, mas fico meio que sendo um zumbi, acordar de fato é outra coisa. 
    Queria agradecer de coração à todos que estão me ajudando nesta jornada, que é o “Pedalanças”. Graças à ajuda de vocês estou conseguindo montar a minha bike e adquirir os itens necessários para se fazer uma viagem de longa distância com uma bicicleta.