sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Pedalanças-Belo Horizonte à Belém-7º dia-Desafio dos 100km sem almoço!

 20/07/2024
Luizlândia-João Pinheiro-MG
Solitude na BR


    Na noite anterior ajustei o despertador para tocar mais cedo, às 4:30 da madruga. Afinal hoje tem um grande desafio para o esquizo:100km entre as cidades de Luizlândia e João Pinheiro! E, para completar, o caminho é praticamente deserto, não irei encontrar nenhum estabelecimento no horário de almoço. Terei que levar lanche para enganar o estômago. 
    Na padaria no centro de Luizlândia tomo um bom café e compro um salgado e pão de queijo para a viagem. Estava me sentindo muito bem e animado para o dia, não temendo a quilometragem. Às vezes gosto de me impor certos desafios. 
     A BR040 neste trecho é boa, a temperatura não está tão alta e as tradicionais serras mineiras não aparecem por aqui. Maior parte do caminho é reta. Para melhorar ainda mais, uma brisa suave me acompanha pelo trajeto.
     Logo no início avisto uma lanchonete e paro para encher as garrafinhas e tomar um café com leite. Sei que esse será o último ponto de apoio que avistarei antes de João Pinheiro. 
     Sentado em uma mesa encontro um ciclista com o mesmo capacete que estou usando e brinco:
     -Bonito capacete, hein? Só quem tem 50 anos ou mais irá entender a brincadeira, que é de um comercial de camisas em que o dono da empresa e o funcionário usam a mesma vestimenta e o dono diz: "Bonita camisa, hein Fernandinho?"
        O cara gentilmente me convidou para sentar em sua mesa e pagou uma deliciosa pamonha. Entre a doce e a salgada, preferi a doce, é óbvio. E ficamos um bom tempo conversando sobre um assunto que não poderia ser outro: bikes. E sobre a viagem, é claro.
O ciclista gente boa que conheci no caminho para João Pinheiro. 

                                        As propagandas mais antigas eram bem mais criativas 
    Com muita dificuldade, me despedi do amigo de pedal e segui em frente, determinado. Essa é a parte dolorida de fazer amizades durante a viagem: a despedida. Mas, não tem jeito, temos que seguir viagem.
    Tenho aprendido a planejar a viagem do mesmo jeito que levo a vida: um dia de cada vez. Não gosto de montar dois dias à frente- a estrada é imprevisível, e a vida sempre foi assim comigo. Nunca fui de controlar o futuro, sempre deixando tudo acontecer naturalmente. Mas agora estou me informando melhor sobre o trajeto com as pessoas que encontro pelo caminho, gosto de surpresas e do inesperado, mas até certo ponto. 
     Com as condições favoráveis, sigo em um bom ritmo. As retas ajudam bastante, mas tem a parte negativa, pois deixa a pedalada um pouco monótona e sonolenta. O jeito é cantar para espantar o sono. Muitos acidente acontecem em retas, pois os motoristas perdem o foco e acabam se distraindo. 
      Dou uma parada para descansar e curtir a solitude na BR. Nessas viagens uma das coisas que mais aprecio é conhecer pessoas de diferentes lugares, mas também gosto de curtir o silêncio e a paz das estradas. É o encontro com nossa essência, que muitas vezes esquecemos no dia a dia. 
Trecho bem isolado e deserto do caminho 


     As melhorias que fiz na Margarida estão surtindo efeito nessa viagem em relação a outra  que fiz em 2019. Estou pedalando mais rápido e cobrindo maiores distâncias em um dia. Paro por volta do meio dia para "almoçar" e me arrependo de ter comprado apenas um salgado e um pão de queijo. Não deu aquela sustância. A verdade é que um arroz, um feijãozinho e uma carninha fazem toda a diferença. 
     Perco um pouco do entusiasmo matinal e mesmo assim vou na raça e vontade.  Quero estar em João Pinheiro à tempo de pegar um rango de verdade.
   Cheguei em João Pinheiro por volta das duas e meia da tarde. Mas, como era uma cidade grande e bem movimentada, resolvo seguir adiante. Chega a lembrar um pouco Belo Horizonte, pois, debaixo do viaduto havia alguns usuários de droga. Apesar do cansaço, sigo em frente, à 10km me informaram que encontraria um posto de gasolina, que é onde me sinto mais tranquilo. Não gosto muito da muvuca das cidades grandes e médias. 
     Arranco energia lá do fundo da minha alma e chego ao posto de gasolina exausto. Foram 115km em uma bike aro 26 com mais de 30 kg na bagagem. O cansaço falou mais alto do que a fome e então abro o colchonete para dar uma boa descansada atrás do restaurante. O problema maior não foi a distância, e sim o fato de ter me alimentado mal na hora do almoço.
      Depois do descanso, vou para o restaurante e pego um rango, que estava muito bom por sinal.O tornozelo voltou a ficar inchado, resultado do esforço dos 115km e da serra do Jacaré. Mas não estava doendo tanto. Um cachorro enorme e amigável sem pedir licença pega o meu marmitex com o resto de comida que havia deixado. Claro que não fiquei bravo e brinquei com o dog. Aliás, praticamente todos os postos de gasolina que avistei tinha seus cachorros, principalmente caramelos. 
      Na parte da tarde fico proseando com alguns caminhoneiros, que me perguntam o motivo da viagem. Simplesmente digo que não tem significado espiritual e nem mental ou outra coisa qualquer. Digo que estou viajando de bike pelo simples fato de gostar de viajar. É isso. 
      Planejo montar minha barraca na frente do restaurante, assim que o estabelecimento fechar. Na maior calma, na maior tranquilidade. Nessas viagens fico mais zen, não ligando muito para horários, para as notícias do dia a dia, se o meu time ganhou ou perdeu. Simplesmente pedalo, simplesmente vivo um dia de cada vez. 
Entardecer em João Pinheiro


     Quando tudo caminhava para um final de dia tranquilo, mais um perrengue perrengoso: as funcionárias me avisam, meio sem jeito,  que o dono não permite que ninguém monte barraca ali.
     Fiquei um pouco desolado, pois não havia visto nenhum lugar coberto que fosse possível montar acampamento. O sereno da madrugada chega a deixar as laterais da barraca bem úmidas, e isso baixa bastante a temperatura na minha humilde residência. Mas, do nada aparece um cara sorridente me oferendo um cantinho de sua oficina de carros e caminhões. Salvo bem na hora!. 
Hoje foram 115km de raça, amor e paixão pela BR!


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Pedalanças-Belo Horizonte à Belém-6º dia- Quase fui atropelado!

 19/07/2024
       Três Marias-Luizlândia do Oeste-MG
       Por pouco não fui dessa para outra!

Quase um acidente na saída do lago de Três Marias. 

     Excelente noite de sono às margens do  lago de Três Marias. Acordo bem cedo e descansado da noite anterior em que a família do barulho não me deixou pegar no sono. Como não havia nada aberto pelas redondezas, o jeito foi caçar café e pãozinho com manteiga no centro da cidade. São cerca de 5km, mas a distância não é o problema e sim uma íngreme subida. Normal aqui em Minas Gerais, mas sem tomar um bom café para aumentar a dopamina, tudo fica um pouco mais difícil.
    Subo sonolento e distraído. E quase paguei caro por isso.
Ao tentar atravessar a BR avisto um caminhão descendo em boa velocidade. Em vez de seguir, hesitei.
E fiquei parado no meio da pista, esperando que ele passasse.  Mas o problema é que não havia combinado nada com o motorista e ele imaginou que eu iria seguir adiante. 
    Ao se aproximar e perceber que não me movia, o caminhoneiro começou a fazer manobras para se desviar de mim e, para piorar a situação, vinha um outro caminhão em  sentido contrário. O caminhão fez um ziguezague e vi as rodas do veículo perderem o contato com o asfalto. Mas continuei parado em meu lugar, de tanto sono que estava. Felizmente, o motorista conseguiu estabilizar o caminhão e não houve maiores incidentes...  O motorista do caminhão que subia a BR disse:
     -Essa foi por pouco hein?

As pontes requerem um cuidado extra na viagem 
    Fiquei calado e com um sentimento que não sei explicar qual, mas que me deixou bastante triste. Essa minha distração quase resultou em um terrível acidente. Poderia ter tirado involuntariamente uma vida de uma pessoa que poderia ter outras esperando em sua casa. Agradeço à Deus por ter me livrado mais uma vez de ter ido dessa para outra. Fiz uma postagem em meu blog contando as vezes em que passei por situações realmente perigosas que poderiam ter tirado a minha estadia neste mundo. 
    Sigo até o centro da cidade meio cabisbaixo. Entro em uma padaria e tomo o meu café, que não pode faltar o tradicional pãozinho com manteiga, como todo bom mineiro gosta. 
    O café, ajudou um pouco a espantar o desânimo inicial provocado pelo quase acidente na BR. Mas, aos poucos, pedalando pela estrada o entusiasmo volta com a mesma intensidade de antes da parada em Três Marias. O tornozelo deu uma melhorada, mas ainda estou sentindo um pouco de dor. 
    Passo pela ponte sobre o Rio São Francisco. Apesar do belo visual, sinto um pouco de tontura, pois não gosto muito de alturas, principalmente em pontes. 
Ponte sobre o Rio São Francisco na saída de Três Marias

     Acredito que por conta do descanso chego no meu destino por volta das duas da tarde. Não  havia muita serra íngreme, acho que a partir de agora a geografia da região irá mudar um pouco, com menos subidas e mais retas! Esse é o Brasil que quero!
    A parte da cidade que fica às margens da BR sofre com a poeira constante. A funcionária que cuida da limpeza da rodoviária trabalha bastante para manter o local limpo. 
     Estava descansando quando o gerente de um restaurante próximo parou para conversar comigo e me oferecer um um belo almoço! Ele não pegou um marmitex e me ofereceu,  simplesmente disse para entrar e pegar o que eu quisesse. Estou com muitos empréstimos para pagar e a vida na estrada é um pouco cara para quem não sabe fazer comida. E, então não recusei e aceitei a comida, que estava maravilhosa. 
      Ainda são três horas da tarde, e, como a próxima cidade fica quase à 100km de Luizlândia, resolvo ficar. Agora estou me informando melhor sobre o trajeto, e descobri que essa parte do caminho é bem deserta, com apenas um restaurante logo no início, ou seja, na hora do almoço não encontrarei nenhum lugar para rangar. Terei que levar comida no bauleto. Aprender a fazer comida vai ser o meu próximo objetivo para a próxima pedalança. 
                                             Nascer do sol no Rio São Francisco

     Passei a tarde, na pacata, simples e simpática cidade de Luizlândia. Aproveitei o tempo para consertar a gambiarra do bauleto, que estava dando folga no guidão. Consegui com os moradores da cidade duas barrinhas de ferro e arame e prendi o ferro do bauleto no garfo da bike. O mecânico de bike da cidade foi muito legal e atencioso, me emprestando as ferramentas necessárias para a execução da gambiarra. A direção parecia melhor e mais estável, o bauleto não balançava mais. O acostamento nos últimos dias não é de uma qualidade boa, e a bike trepida muito. 
     Gambiarra pronta, fui dei umas voltinhas pela cidade, até encontrar uma sombrinha para descansar. Sentei na calçada e relaxei, mas logo o dono de um barzinho me convidou para sentar. E, como bons mineiros, trocamos um dedo de prosa. Depois ele me levou até a sua casa para tentar me arrumar um retrovisor, pois disse que iria comprar um, para olhar melhor o trânsito na BR. O que ele me deu não era para bicicletas, mas agradeci a boa vontade dele. O senhor tinha um belo fusca na garagem. Pintura nova e sem nenhum arranhão e brilhando muito. 
    A tarde foi caindo, e fui para a rodoviária, que foi o local que escolhi para acampar. 
    E fico diboa, no meu cantinho, observando as pessoas e deixando o tempo passar, sem pressa, sem pressão, e sem stress. Essas viagens me fazem um bem danado em relação à ansiedade e isso me deixa mais comunicativo. 
    Por volta das dez da noite aparece o Ronald, que conversou comigo de tarde. O cara me deu uma excelente lanterna e ficamos conversando um bom tempo. Ele disse que também iria seguir o meu canal no youtube e o blog. Não sou muito de usar celular e postar muitos vídeos durante a viagem. No meu caso sinto que deixo de curtir a viagem um pouco ficando mais tempo registrando o dia a dia. 
    Nos despedimos e fui dormir, mas antes agradeci à Deus por mais um dia e por ter me livrado do acidente que poderia ter sido fatal na parte da manhã. 
    
Hoje foram apenas 52km de uma pedalada. Agradecer a Deus por mais um dia e por mais um livramento.



segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Pedalanças-Belo Horizonte à Belém do Pará-4º e 5º dia- Conhecendo a bela cidade de Três Marias

 Dias 17 e 18/07/2024
Descanso em Três Marias
O mar de Minas... 


        A noite foi de uma mansidão profunda. Mais tranquila do que em muitas vezes quando estava pagando aluguel. Dormi cedo e acordei por volta das três e meia. Meu celular estava descarregado e tive que perguntar as horas para o segurança do posto de gasolina. Não tinha a mínima ideia do horário, mas muitas vezes acordo neste horário. Dizem que acordar as mais ou menos nesse horário tem um significado espiritual.
     Não consegui voltar a dormir e fiquei ali, sentado na frente da barraca. Os funcionários do posto começam a chegar por volta das quatro e meia. O dia hoje será para comprar a manteiga de cacau e um manguito para proteger os braços, que foram um pouco castigados pelo sol. O que havia comprado pela internet ficaram um pouco curtos. 
    Fiquei no posto até às seis da manhã, quando o sol apareceu novamente no horizonte. Agora estou começando a conseguir a melhorar a organização da carga na bike e não perco muito tempo desmontando o acampamento. 
     Vou para o centro de Três Marias, uma pequena e simpática cidade por sinal. Não resisti e parei novamente para tomar mais um café. Quando estou em casa não tomo café de manhã, mas viajando... E também como um bolo e um doce, para variar. 
   Os funcionários da loja de bike foram super legais comigo. Além do tradicional cafezinho, não faltou o dedo de prosa. Aproveitei a manhã de folga e fiz algumas gambiarras para segurar o bauleto, que ainda estava  dando folga no parafuso do guidão. Estava muito perigoso pedalar nesta situação. Qualquer descuido em uma curva ou um movimento brusco posso  parar no meio da BR. 
    Comprei o manguito e uma garrafinha de água maior para suportar o calor, que não imaginei ser tão forte assim no inverno. Mas no cerrado mineiro é bem forte. Os funcionários da loja de bike sugeriram que eu descansasse na prainha, onde fica na verdade um imenso lago artificial das águas do Rio São Francisco.
    Como o meu tornozelo ainda está inchado, resolvo seguir a sugestão. Estava me sentindo orgulhoso de pedalar em um ritmo bom, mas a pedalança não é só correria, é também lazer e diversão, e, obviamente, descanso. 
Resultado de minha teimosia em subir a serra do Jacaré sem empurrar a bike...


      O meu GPS costumo dizer que são Gente e Pessoas Solicitas. E, perguntando daqui e dali chego à prainha. O visual é lindo mesmo, parecendo um mar de verdade. Fico alguns minutos apreciando o lago no alto, na entrada. 
    Havia espaço para camping, tudo muito bem organizado. Haviam poucas pessoas, boa parte andarilhos que montaram suas barracas e ficavam ali por alguns meses até o pessoal da prefeitura chegar e pedir que se retirassem. 
    E realmente o local tem tudo para a pessoa morar. A área para montar a barraca, tomadas, internet, banho, lagoa... 
     O almoço, claro, é peixe. Peixe com arroz, feijão e salada. Como é um ponto turístico, foi difícil encontrar um rango mais em conta. Aprender a cozinhar vai ser o meu próximo objetivo para tornar a viagem um pouco menos cara para o meu parco orçamento financeiro. Não gosto muito de lugares turísticos, por dois motivos: a muvuca e os preços. 
     O lago é realmente muito bonito, uma imensidão que lembra o mar, só faltando as ondas. Aproveito a boa infraestrutura do local e lavo minhas roupas. O restante do dia aproveito para descansar e tentar melhorar o inchaço do tornozelo. 
    Era um local tranquilo, perfeito para o descanso. Que delícia aquele visual, na sombra e na maior paz. Era uma folga merecida. Mas, de repente chega uma família de mais ou menos sete pessoas, com um cachorro pequenino. Ligaram o som na maior altura e começaram a conversar alto. A maioria estava chapada de cachaça e cerveja. 
    A noite chegou e não paravam de falar e beber. E assim foi até por volta das quatro da madrugada. Uma mulher ficou a noite inteira cantando. As outras pessoas que estavam acampando nas proximidades não reclamaram do barulho. E, como não queria confusão,  fiquei ouvindo aquilo tudo quietinho, dentro da minha barraca. Um pouco triste por ter sido tirada a minha paz e uma noite de sono. E ainda tive que ficar a mulher que estava cantando vomitar ate a alma de madrugada. Se fosse um adolescente tudo bem, mas a partir de uma certa idade já sabemos o quanto e como podemos beber... 
      Quando começo a pegar no sono, a família do barulho começa a desmontar o acampamento, por volta das seis da manhã. Todos com aquela cara de ressaca. 
      Também fiquei com cara de ressaca, mas de uma noite mal dormida....
  
Dia de descanso, para mim e para a Margarida. 

Dia 18

Enfim, paz no acampamento. 


     A minha intenção era ficar um dia apenas em Três Marias. Mas, como não havia dormido nada, e a família do barulho estava indo embora, resolvi ficar mais um dia, para conhecer o centro da cidade e descansar um pouco mais. 
    Com alguma dificuldade subo a serra do lago até o centro da cidade, com a intenção de comprar frutas, biscoitos e outras coisas mais para comer, pois no lago só vendem almoço, sorvetes e outras coisas bem caras para o meu orçamento de cicloviajante. 
    Almoço pelo centro da cidade mesmo, atraído pelo preço do marmitex: 11 reais! Mas, ali naquele lugar o marmitex grande seria o marmitex pequeno de outros lugares. E o marmitex pequeno teria que ser chamado de micro marmitex. Nessas minhas viagens, minha ansiedade diminui bastante, fico mais tranquilo, em paz com o restante do mundo. A paz interior tenho, mas quando estou no meu cantinho. 
    Cicloviajando fico bem comigo mesmo e isso reflete exteriormente, fico mais comunicativo e menos ansioso. Converso com estranhos, brinco às vezes e sorrio bastante. Acho que em um mês de pedalada converso mais do que em um ano quando estou dentro de casa. Essa paz me deixa menos ansioso e como pouco doce, não fico me empanturrando. Acho que se não fosse a violência e outras questões, seria um eterno viajante de bike, um pedarilho. 
Muitos famosos possuem casas no lago 


    Volto para a prainha, que está agora parecendo um paraíso. Silêncio quase que total Apenas ao fundo se ouve as vozes das pessoas conversando. E bem no fundo, alguém está ouvindo bem baixinho o disco "Música para acampamentos", do Legião Urbana. Aí sim estou me sentindo em um local para se acampar, nada daquele breganejo universitário da família do barulho da noite anterior. 
     E assim foi o restante da tarde e a noite. Paz e tranquilidade, o que todos buscam em um acampamento de verdade. 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Pedalanças-Belo Horizonte à Belém do Pará-3º dia- Serra brava de 8KM!

 16/07/2024

Felixlândia-Três Marias MG
Minas não tem mar, ou o mar é que não tem Minas?
Quem disse que Minas não tem mar?


     Não dormi bem. Montei a barraca próxima ao bebedouro. E, pelo visto, era o ponto oficial de encontro dos caminhoneiros na madrugada. Gente indo e vindo, passos, vozes e ruídos amplificados pelo silêncio da noite. Apesar do frio fiquei surpreendentemente bem aquecido no meu casulo.
      Acordei bem cansado, por volta das quatro e meia da manhã. E a batalha começa antes mesmo de pedalar: ajeitar a carga na bike.  Tenho que conseguir arrumar tudo da melhor maneira possível, para que as coisas fiquem mais acessíveis. A mochila fica bem amarrada no bagageiro traseiro, e tem coisas que preciso durante o dia que fica difícil de pegar.
    E a carga tem que estar bem amarrada e protegida para que não caia nada na estrada. Estou perdendo muito tempo e, o pior, gastando energia em algo que poderia ser mais prático. E de manhã sinceramente não é a hora em que estou mais animado. 
     Tomo o café e o roteiro nas primeiras horas da manhã se repete: frio congelante na BR, dedos congelados e doendo de tão frio e os lábios ardendo como se tivesse beijado um cubo de gelo. Manteiga de cacau entra na lista do meu kit de sobrevivência, pelo menos nesse trecho da viagem. 
    Por volta das nove horas o solzinho dá as caras e o meu humor também aparece. Cantarolo algumas músicas, já que não tem nenhuma plateia para ouvir, ou jogar tomates podres. Canto tão mal que uso esse artifício para apoquentar as pessoas, tipo o vizinho chatão de Belo Horizonte que ficava a madrugada inteira falando no celular, atrapalhando o meu sono. E então, para descontar de dia ficava cantando músicas, principalmente do Roberto Carlos e outras bregas. Tentei cantar heavy metal, mas minhas cordas vocais ficavam irritadas. 
estrada entre Felixlândia e Três Marias. 


     Mas logo esse bom humor fica um pouco diminuído. Uma longa e íngreme serra à minha vista! A encaro por alguns segundos e me propus um desafio: vencê-la sem empurrar a bike!
Teimosia, coragem e determinação são itens indispensáveis em uma cicloviagem. 
      No meio do caminho encontrei um andarilho, com apenas a roupa do corpo, uma trouxa e  uma garrafa pet com água. Pelo sotaque vi que era gaúcho, e estava encarando o calor das estradas mineiras. Penso em gravar uma entrevista com ele, mas, não consigo. Acho muito interessante a história de vida dos andarilhos. Já fui um por algum período de tempo, quando tive meus primeiros surtos. Mas o gaúcho era lúcido e tinha boa aparência. Fico imaginando como deve ser cansativo andar por vários quilômetros no asfalto quente. Já fiz algumas viagens a pé, mas a maioria por estradas de terra, como no caminho velho, de Outro Preto, em Minas Gerais, até Parati, no Rio de Janeiro. O pouco de percurso que andei no asfalto senti muito cansaço, por conta do calor e do vapor que vem debaixo, somado ao calor que vem em nossa cabeça. 
O andarilho do Rio Grande do Sul


     A temperatura não estava tão alto como no primeiro dia, e vou subindo a serra em boas condições, só parando para beber água e tirar algumas fotos pois a vista do alto da serra é muito bonita. Aliás para quem gosta de mato qualquer visão de serra é bonita. A diferença é que algumas fazem mais força para nos impressionar. 
     Fui subindo aos poucos, e aprendi um pouco de psicologia para vencer as serras íngremes. Não olhar para o alto, apenas se concentrar nos próximos dez metros. A gente cansa só de olhar as subidas de Minas Gerais, a verdade é essa. 
     E assim, de pouquinho em pouquinho fui vencendo a serra do Jacaré, no caminho para a cidade de Três Marias. Foram cerca de 8km somente de subidas! Obviamente fiquei envaidecido com a proeza, afinal estou em uma bike antiga, aro 26 e com uns 30 quilos de bagagem. E fora a bagagem de vida que eu tenho, são 56 anos de muitas alegrias, tristezas, perrengues, arrependimentos, etc.. Mas foram vividos, e isso é o mais importante. Se chorei ou se sorri...
    Por sorte (ou ajuda lá de cima) assim que acabei de subir a serra, a temperatura esquentou.
Acho que estava na faixa de uns 37ºC. 
                                             serra braba vencida com sucesso!

     A estrada não tem muitos estabelecimentos, mas consigo encontrar um bom restaurante por volta do meio dia. Apesar de ser grande, havia apenas um cliente almoçando. Resolvo, depois do almoço, descansar mais um pouco, para não pegar o sol forte, ao contrário dos outros dias, em que comecei a pedalar logo após o almoço. 
     O tempo passou mas o sol não diminuiu sua intensidade e o jeito foi começar a pedalar. Muitas subidas íngremes e, não orgulhoso, resolvo empurrar a bike em alguns trechos. Depois de duas horas pedalando, paro para descansar e percebo que o tornozelo do pé esquerdo está um pouco inchado. Como tenho o dedão do pé esquerdo quebrado, uso um pouco a lateral do pé para andar e para pedalar. Venci a Serra do Jacaré, mas ela me cobrou um certo preço... 
    Como irei melhorar do inchaço do pé pedalando? Essa dúvida ficou na minha cabeça até a chegada em Três Marias. A dor não era forte, mas me impedia de pedalar normalmente, fazendo mais força com o pé direito. 
    Paro em um posto de gasolina e um senhor começa a conversar comigo, perguntando de onde vinha, para onde ia, etc... Gentilmente ele me ofereceu o chuveiro do posto de gasolina, que veio como uma benção caída do céu, pois o dia foi cansativo, principalmente por conta do calor e da íngreme serra do Jacaré. 
    Esses pequenos gestos renovam minhas energias. O banho também. Já me sinto melhor, tirando a dor no tornozelo. Tomo um lanche e o pessoal também foi hospitaleiro, permitindo que eu montasse a barraca assim que o estabelecimento fechasse. Mais do que isso, o fato de conversarem com a gente, admirando nossa coragem de percorrer parte do Brasil de bike, o sentimento de ser acolhido faz qualquer cansaço ir embora rapidamente. 
     Esse ambiente tranquilo e generoso me acalmou, já não estou mais ansioso como no primeiro dia, em que tive alucinações. Já estou mais esperançoso para seguir a viagem. Mas acho que amanhã irei conhecer a tão falada cidade de Três Marias, com sua represa que mais parece um mar. Afinal, o esquizo pedarilho também merece descansar um pouco.
     
81km sob um forte calor e uma serra bem íngreme. 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Pedalanças -Belo Horizonte à Belém do Pará 2º dia-Tive alucinações!

 15/07/2024
Paraopeba-MG à Felixlândia 

Adentrando o cerrado mineiro



    Não dormi bem, apesar de dormir em um bom posto de gasolina. O silêncio tomava conta da madrugada, ao contrário de minha inquieta mente. Afinal era o primeiro dia de viagem. Os leitores do blog sabem que faço essas viagens malucas desde o ano de 2012. Mas estava há um bom tempo trancado no meu quartinho em Belo Horizonte. E, como todo bom paranoico, sempre tenho minhas cismas, em quaisquer circunstâncias. 
    Poucas pessoas no posto. Entrei na minha barraca por volta das oito da noite. Não sei à que horas exatamente, mas o som inconfundível de chinelos se arrastando rompeu o silêncio. Abri o zípper da barraca, mas, lá fora, ninguém... Me lembrei da minha viagem em 2019, quando dormi na calçada sem montar a barraca, por conta do sufocante calor da cidade de São Mateus, no Espírito Santo. A bike estava presa com cadeado, e minha mochila amarrei com corda em meu corpo, uma armadilha para meliantes. E não demorou muito para aparecer um indivíduo desses. O chinelo arrastado era sua tática para testar meu sono. Por três vezes ele apareceu, mas, quando me viu abrindo os olhos seguiu em frente. Provavelmente na quarta vez não acordei, mas, graças a corda, salvei meus documentos e minha viagem naquele dia. 
     E agora estava ouvindo esse arrastar de chinelos cinco anos depois em um posto de gasolina. Mas a diferença é que esse som estava vindo de dentro de minha cabeça. E foram umas três vezes que tive essa alucinação auditiva. E o posto estava uma tranquilidade, poucos caminhoneiros pararam para dormir ali.
Seria a esquizofrenia ecos do passado?
     E, para piorar a situação, comecei a ter alucinações tácteis. É isso mesmo, na esquizofrenia a pessoa não só ouve coisas, enxerga coisas que não existem. Ela também pode ter a sensação de que estão tocando nela ou outra sensação tátil. Naquela madrugada senti mãos atravessando a barraca e encostando em mim. E não era sonho, não estava dormindo. E também não estava completamente acordado. Estava no meio termo, quase pegando no sono. 
      Como tenho anos e anos de esquizofrenia e aquilo não era uma novidade para mim, apenas levei um enorme susto. Mas não me desesperei como no início dos surtos, quando não tinha a mínima ideia do que era esquizofrenia. E continuei a tentar a pegar no sono. 
      Fez bastante frio de madrugada. Mas isso não foi o maior problema desse primeiro e segundo dia.
     Acordei bem cedo, tomei 700ml de água em jejum e comecei a desmontar o acampamento. A carga da bike estava bastante desorganizada. Não estava achando nada, ficava tudo misturado na mochila.Não sabia qual o melhor lugar minhas coisas. Demorei bastante para ajeitar a bike para começar a pedalar. Não havia preparado a Margarida para essa viagem, essa é a verdade. Primeiro foi o guidão que não tinha fixação suficiente para aguentar o peso do bauleto frontal. Apesar do aperto na rosca, ainda estava dando uma pequena folga com o passar do tempo e tive que redobrar a atenção a cada curva e obstáculo na minha frente. 
    Tomei um bom café no posto de gasolina. Ainda tive que esperar um pouco para o sol aparecer, pois no inverno os dias são mais curtos, com o sol se pondo mais cedo e nascendo mais tarde.
      E o frio se tornou intenso quando desci a serra. Meus dedos congelaram com o vento. Meus lábios começaram a arder. 
    Mas Minas Gerais todo mundo sabe como é. Muita serra e tem regiões em que se você não está subindo você está descendo. E é bem desse jeito na saída de Belo Horizonte para Brasília. Mas estou em um bom ritmo, acho que as modificações na mecânica da bike ajudaram bastante. Coloquei rolamentos bons nas rodas e no pedal. Em 2019 a Margarida usava esferas e era complicada a manutenção. Já o esquizo pode ter perdido um pouco de força, mas, a resistência continua a mesma. 
Acidentes...


    O céu está limpo e lindo, sem nuvens. Mas essa beleza cobra um preço, por volta das dez da manhã o calor já estava castigando. As garrafinhas esvaziavam rapidamente, e as casas e postos de gasolina iam ficando raras. 
    Às onze horas a situação se complicou. A água havia acabado, estava levando apenas duas garrafinhas na bike. Carrego um cantil no bauleto, mas não havia colocado água nele, pois cada litro de água significa um quilo a mais de bagagem. Na minha cabeça só iria precisar de encher o cantil depois de ultrapassar o estado de Goiás. 
     Aos poucos vejo a vegetação se modificando. As árvores baixas e tortuosas com poucas folhas indicam que estou adentrando o cerrado. Em todas as minhas andanças e pedalanças não havia visto um bioma diferente. Todas as minhas viagens foram na região sudeste, com suas matas e florestas densas. 
Adentrando o cerrado. Um pouco de medo do calor. 


    Por volta das onze horas a situação ficou insustentável em uma serra braba. Não estava com fome, apesar de ter tomado café da manhã bem cedo. Era a sede que me incomodava e tirava minhas forças. Convenhamos que a sede é pior do que a fome. O estômago pode esperar algumas horas, sobrevivemos vários dias sem comer, mas sem água a situação fica complicada, afinal somos feito de 75% desse elemento da natureza. Dizem que podemos ficar no máximo quatro dias sem água, dependendo do indivíduo. E, como boto bastante doce para dentro da barriga, acho que não consigo ficar três horas sem beber nada. 
    Subindo a serra avistei algumas casas no meio da montanha. Alguns carros passavam e eu erguia a minha garrafinha, em um gesto silencioso, porém já com um pouco de angústia. Ninguém parou. Não restou outra alternativa a não ser entrar pela estrada de terra e seguir em direção ao vilarejo, que, para o meu desespero, parecia abandonado. Casas vazias, portões fechados e silêncio. Quando avistei um carro, eram de pessoas que trabalhavam na empresa de abastecimento de água. E, por incrível que pareça, eles estavam sem água. O jeito era seguir pela estrada de terra até encontrar alguma alma caridosa. O meu medo era de não encontrar ninguém e me afastar mais ainda da BR. 
    Mas tinha que escolher um caminho. Já estava meio debilitado e era mais fácil descer. E prossegui pela estrada de terra até encontrar uma sorveteria! Isso mesmo, uma sorveteria naquele lugar deserto!
Não poderia encontrar lugar melhor para me refrescar. 
  
Não é miragem, uma sorveteria no meio do nada!

    A dona do local, a dona Jemecina, estava fazendo almoço, e era um pouco séria. E como também sou meio caladão e difícil de iniciar conversas, um silêncio um pouco constrangedor tomou conta do local. A ausência de sons só era quebrada quando algumas crianças estudando nas mesas falavam alguma coisa. 
    Pedi água e sorvete para enganar o calor. Meu estômago estava roncando mais do que os motores dos caminhões da estrada. E perguntei se ela poderia me vender um almoço, pois a BR naquela região era um pouco deserta. Acho que já estávamos no cerrado, com as árvores mais baixas. Ela disse que poderia sim servir o almoço, com a cara mais séria ainda. Estava um pouco constrangido por aquela situação, mas não tinha por onde recorrer. E enquanto esperava o rango, pluguei o celular e a câmera compacta velha de guerra. Sou um cicloviajante bem raiz mesmo, não tenho GPS, nem GOPRO, sou guiado por minhas intuições e por Deus. 
Rumo à Felixlândia. 


     Depois do rango, sigo em frente, apesar do forte sol do meio dia da região. Na BR tenho a confirmação de que tomei a decisão correta de entrar pela estrada de terra. Só 20km em frente que encontro algum lugar para pegar água. Se seguisse pela BR teria que ter a sorte de encontrar algum caminhoneiro que me parasse seu veículo para matar a minha sede.  
    Pedalo mais um pouco e por volta das cinco da tarde encontro um posto de gasolina na cidade de Felixlândia. Foram 98km e para minha surpresa estou em boas condições. Como não tenho lanterna e não conheço a região e muito menos tenho GPS, não tenho dúvidas em parar para descansar e procurar um local para montar acampamento. 
    Foi um dia difícil. Aprendi que tenho que estar melhor preparado na questão da água e me informar melhor com as pessoas sobre o caminho. Não sou muito de planejar o quanto irei pedalar no dia, vou seguindo e pronto. Mas tenho que pelo menos organizar um dia de cada vez, para não passar nenhum perrengue por conta de mau planejamento. Não tenho pressa para chegar em Belém, quero curtir o caminho, sem neuras e sem pressa. Mas um dia de cada vez, assim como faço na minha vida. 
98km debaixo de um sol escaldante no cerrado de Minas. 


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Pedalanças-Belo Horizonte à Belém do Pará - 1º dia

    14/07/2024
Belo Horizonte-MG à Paraopeba-MG


     Enfim, o dia da viagem havia chegado. Passei o dia dando os últimos ajustes na bike. Na verdade não tive o tempo necessário de prepará-la do jeito que queria. Porém as minhas dívidas já não podiam esperar mais e já havia passado a hora de meter o pedal na estrada. 
     De noite não estava conseguindo dormir devido à ansiedade e resolvi tomar um diazepan para relaxar. Com muita dificuldade consegui parar de tomar esse viciante medicamento, que mais atrapalha do que ajuda. A verdade é que o sono artificial não é tão bom quanto o natural e, quando acordamos não sabemos se dormimos ou apenas fomos desligados por um tempo. Meu ditado é: "Mais vale quatro horas de sono natural do que dez de sono artificial". 
    Coloquei o relógio para despertar às três e meia. Era domingo e queria sair o mais cedo possível, não estava muito afim de pegar o trânsito da via expressa que é o ponto de partida dessa minha saga para Belém do Pará.
    Apesar de ser inverno, tomei um bom banho gelado para espantar a ressaca do diazepan. Depois fiz dois capuccinos e comi com um biscoito recheado de chocolate, para aumentar os níveis de  dopamina no meu cérebro. Fiquei bem elétrico. Obviamente a agitação também era pelo fato de ser o primeiro dia de viagem. Seria a minha primeira pedalança fora da região sudeste. Para qualquer pessoa um fato normal, mas, para um extremo fóbico social, uma imersão no desconhecido. 
    Coloquei meus pertences na Margarida com muito cuidado, para não acordar os vizinhos. Moro em um lugar que aluga quartos e de madrugada qualquer barulhinho vira um barulhão. Apesar da precaução o vizinho da direita começa a resmungar. A verdade é que ele é também um outro insone, passando quase todas as madrugadas conversando no celular. Ou falando sozinho? Dificilmente encontraria uma outra pessoa a ficar ouvindo as conversinhas dele da meia noite até às seis da manhã. Era um cara tão chato que pelo fato de passar a noite acordado exigia o máximo silêncio durante a manhã e boa parte das tardes. 
    Saí por volta das quatro e meia e ainda estava tudo escuro. Senti no rosto aquele ventinho gelado das madrugadas de Belo Horizonte. Estava ansioso, mas era uma ansiedade boa, aquele friozinho na barriga que me impulsionava a pedalar com prazer e energia.  Estava morando no mesmo endereço há quase sete anos e só havia feito uma viagem de bike pela região sudeste no ano de 2019.  
Na madrugada de Belo Horizonte


    Passei pelo centro de BH que está um pouco abandonado pelo poder municipal. Muitos usuários de crack e outras drogas vagando pelas ruas e avenidas. Tive que tomar muito cuidado para que não acontece nenhum imprevisto e minha viagem fosse interrompida logo no primeiro dia. Não tinha um plano B caso fosse assaltado. Era eu e Deus nessa viagem meio maluca. 
     Aos poucos o dia foi clareando e já estava na BR040, que liga Belo Horizonte à Brasília. Que nascer do sol lindo! Aliás tudo fica mais bonito quando estamos felizes. O calor do astro rei em meu rosto me encheu de energia e coragem para prosseguir o caminho.  Como era um domingo, encontro vários ciclistas pelo caminho que me desejavam uma boa viagem. 
     Desta vez fiz um bauleto para a Margarida, que coloquei no bagageiro dianteiro. Na minha primeira cicloviagem a carga ficava um pouco desorganizada, com uma mochila amarrada na frente da bike. 
    Mas o bauleto improvisado estava fazendo com que a porca que segura o guidão se afrouxasse, deixando a direção um tanto o quanto perigosa. Qualquer movimento brusco eu poderia ir parar no meio da movimentada BR040. Com muito cuidado pedalei por uns 5km até chegar em um mecânico que me emprestou uma chave para que eu fizesse o devido aperto. 
Acima, a Margarida em 2019. Embaixo após a reforma. 

    Porca apertada, volto para a BR e, para a minha alegria o guidão estava funcionando bem. Pedalo com confiança e em um bom ritmo, afinal estava pedalando cerca de 6km todos os dias para almoçar no restaurante popular de Belo Horizonte. E a sensação da liberdade, do ventinho no rosto me davam um gás extra. E a estrada tinha um bom acostamento, item essencial para um bom rendimento. 
    Estou pedalando com mais calma do que em 2019, fazendo paradas para me alongar e dar uma descansada. E, claro para dar uma aliviada na poupança, pois, por melhor que seja o selim e a bermuda, sempre tem aquela dorzinha que incomoda bastante. Acho que o selim é a parte mais difícil de se escolher. Não é a regra de quanto maior e mais macio melhor. Dizem que o selim tem que ser do tamanho da distância entre os ísqueos de nossa bunda. Ìsqueos são os ossos de nossa poupança. Por isso tem ciclista com selins bem duros. 
    Hora do almoço e eu já havia pedalado pouco mais de 50km! Pego um marmitex em um restaurante e vou para perto de uma carreta para me abrigar do escaldante sol do meio dia. Os dias também são quentes nessa região de Minas Gerais, apesar de estarmos no inverno. E hora do almoço é aquela dúvida: como comer pouco com uma comida tão gostosa? Não consigo e o jeito é comer bem e dar uma boa descansada para conseguir pedalar sem problemas depois da refeição. Pedalar com sol quente e barriga cheia de comida do almoço não é nada bom, pois ainda vem a sede e enchemos mais ainda a barriga de água.  Encontro o dono da carreta onde peguei uma sombra e começamos a jogar conversa fora. Ele fazia o seu próprio almoço, no baú da carreta tinha um fogãozinho, o gás e muito mantimento. Me pergunta o motivo da viagem e apenas respondo : É por que gosto ué!"
     Depois do descanso, pego a BR novamente e sempre encontro vários motociclistas indo sentido Brasília. Um movimento não muito normal, eram muitas motos mesmo. Daquelas pretas e enormes. A maioria me cumprimenta e depois fico sabendo que em Brasília irá ter um encontro nacional de motociclistas. 
Sol escaldante na parte da tarde. 

      De tarde o solzinho veio rachando, mas logo apareceram algumas nuvens que suavizaram a pedalada, deixando o calor suportável. Nesse trecho da BR não faltam restaurantes e postos de gasolina, e sempre foi possível encher as garrafinhas com uma deliciosa água gelada. 
     Também de tarde o asfalto do acostamento não estava tão bom quando no início, na saída de Belo Horizonte. A má qualidade do piso fazia a bicicleta trepidar muito e não consegui imprimir a mesma velocidade do que na parte da manhã. 
    Mas, apesar disso o entusiasmo inicial dessa segunda pedalança me fez chegar até a cidade de Paraopeba, distante de Belo Horizonte 110km! Nada mal para o primeiro dia. Para alguns parece muito, mas alguns ciclistas que só pedalam com bikes caríssimas e sem carga irão dizer que é pouco. São ciclistas bem mais jovens do que eu esses que falam que 110km é pouco para um dia. Mas tenho certeza de que não fazem isso em uma bike de 1990 e com uma carga de mais ou menos 30kg.
Acampamento montado


Parei em um posto de gasolina. Os frentistas foram gente boa comigo e me deixaram tomar um bom banho relaxante. A água era fria, mas estava muito boa e também não tenho do que reclamar. Imaginem dormir sem tomar banho depois de um dia inteiro de pedal? 
     Na verdade não consigo dormir nessas condições. Raramente fico sem banho, mas já aconteceu. E o corpo da gente fica coçando com aquele suor e ficamos nos revirando dentro da barraca. 
    De noite, tomei um lanche e montei minha barraca por volta das oito da noite. Queria acordar por volta das cinco da manhã para aproveitar mais o dia e evitar o sol escaldante do meio dia. Estava um pouco agitado, afinal era o primeiro dia da viagem. A primeira noite dormindo na barraca, que viria a ser a minha residência por vários meses. 
    
110km! Nada mau para o primeiro dia. 

domingo, 18 de janeiro de 2026

Minha viagem de bike Belo Horizonte à Belém do Pará

Por que viajar de bike?

Loucura ou liberdade?


    Cartão de crédito estourado, dívidas e mais dívidas, empréstimos bancários. E, ainda por cima, aluguel caro na minha querida Belo Horizonte. Coisas que meu salário de aposentado não conseguiria pagar sem um enorme sacrifício se ficasse em casa. 
    Essas dívidas dividiam minha cabeça e o meu coração. O que fazer? O tédio também me corroía por dentro, esperando o meu fim, como dizia a música da banda Biquini Cavadão. 
    A situação estava ficando insustentável, tendo que fazer empréstimos para pagar o cartão de crédito, já que os juros são bem menores. Mas essa bola de neve cresceu tanto que já não estava conseguindo pagar minhas contas. E o aluguel sempre foi sagrado para mim, só atrasando o pagamento na época quando trabalhava e a firma atrasava os salários. 

    No ritmo do asfalto e o coração de aço

Margarida, minha fiel companheira (só eu que ando nela!)

    Existem decisões que não tomamos somente com a cabeça, mas com o espírito. Ou com os dois. Diante das dívidas e do tédio que me corroía a alma, decidi novamente pegar a estrada. E o destino? Um lugar meio que aleatório, era cismado com Belém desde criança e botei na cabeça que um dia iria conhecer. Como, não importa. Se não tem carro, vamos de bicicleta. E não estava sozinho, comigo, além de Deus, estava a Margarida, minha fiel companheira desde 2018, carregando as marcas em seu alumínio resistente que já aguentou muita estrada esburacada por esse nosso país. E agora ela guarda também a poeira de dez estados brasileiros percorridos por minhas finas canelas de ciclista. 
    Quando saí de Belo Horizonte em julho de 2024, o horizonte não era apenas uma linha no mapa, era um desafio não só físico como mental e silencioso que se estendia por mais de 3000km até as águas da cidade de Belém do Pará. Queria também conhecer a ilha de Marajó que um dia vi na TV com seus búfalos. 
    Este livro não é apenas um relato de quilometragens ou coordenadas geográficas. É o registro de quase dois meses em que o tempo passou a ser medido pelas pedaladas e a segurança passou a ser o teto de minha barraca montada entre o barulho das carretas em postos de gasolina e a solidão das madrugadas nas rodoviárias das pequenas cidades do interior do Brasil (para mim os melhores lugares para se dormir na barraca em uma cicloviagem).




    Pelas páginas que se seguem, você encontrará o diário visual e escrito de uma jornada de extremos. Vivi o sol impiedoso que deforma o horizonte, a chuva que lava a alma e encharca o equipamento. E o frio das madrugadas de inverno em Minas Gerais, que chegavam a queimar os meus lábios. Vivi a angústia da sede em trechos isolados e o vento deslocado pelas gigantes carretas que dividiam comigo o espaço vital do acostamento, passando a centímetros de minha bike. Mas vivi, vivi um sonho de liberdade, a liberdade não somente de ir e vir, mas também de ser quem realmente somos, sem máscaras ou limites. 
Todo cuidado é pouco nas estradas. 

    Pedalar de Minas ao Pará em uma bike fabricada em 1990 não é só um exercício físico intenso e desgastante, também é um exercício de paciência e humildade. A Margarida me ensinou que não precisamos do mais moderno e do mais caro para se chegar ao destino, mas sim de coragem(muita coragem) de continuar girando os pedais, mesmo quando nosso corpo pede parar. Como disse no início, a cicloviagem é uma atividade que requer tanto do físico como do psicológico. Nas enormes serras, aprendi que não devemos ficar focando muito no fim, fixando nosso olhar para o alto. Nessas horas o melhor a se fazer é baixar a cabeça e focar nossa mente nos próximos dez metros à nossa frente. E assim, aos poucos, chegamos ao pico das serras, tão comuns em nosso país. Encontrei serras que me cansavam só de olhar para o alto. 



    Entre as fotos das diversas paisagens - do cerrado ao norte com suas matas, relato encontros com desconhecidos que se tornaram anjos da estrada. Nos dias de extremo desânimo, essas almas apareciam nas horas e lugares exatos, me oferecendo aquela água gelada, alimento e, o principal, uma palavra de incentivo que recarregava minhas energias. Sem esses anjos disfarçados de humanos não teria concluído o meu projeto. 
    Convido você a montar na garupa dessa história e sentir o cheiro da estrada, o peso da bagagem e a liberdade indescritível de atravessar o Brasil no ritmo do próprio coração. 
    Bem vindo à estrada. Prepare-se para o suor, para a poeira e para a beleza de um país que só se conhece de verdade quando se tem a coragem de percorrê-lo sobre duas rodas. 
Obs: todos os dias irei postar o diário com as fotos dessa viagem. 


Lugares maravilhosos que valeram a pena todo o esforço