segunda-feira, 3 de agosto de 2026

27º dia pedalanças Belo Horizonte à Belém do Pará-Taguatinga-TO à Novo Jardim-TO

 14/08/2014
Tocantins, um estado surpreendente!


     A noite no posto de gasolina em Taguatinga foi novamente agitada, por conta das festividades da padroeira da cidade. Os feirantes e alguns visitantes foram ao local para tomar um banho. Mas, por volta da meia noite a situação foi ficando tranquila e deu para dormir relativamente bem.
    O dia de descanso de ontem foi bom não somente para as canelas como também para a mente. Mudar a rotina é sempre bom, apesar de que nas estradas os dias nunca são iguais, você acaba conhecendo lugares e pessoas diferentes. Mas sinto a necessidade de parar pelo menos uma vez por semana durante essas minhas viagens de bike pelo Brasil. Nem tanto pelo cansaço físico, mas como relatei, mais para mudar um pouco a rotina, enfim, fazer nada mesmo. Sentar no banco de uma pracinha e ficar ali, parado, deixando o tempo passar sem maiores problemas e preocupações. 
Por incrível que pareça o cansaço físico não é um grande problema. Não sei qual neurotransmissor seja o responsável pelo fato de ficar pedalando tanto tempo sem parar, mas sei que na estrada acho motivação para fazer coisas que em casa não tenho. Talvez seja um pouco de adrenalina com um pouco de endorfina. E,claro, a sensação de liberdade. Ser livre não somente para ir onde quiser, a maior liberdade que podemos ter é de sermos o que somos de verdade, sem máscaras e subterfúgios. 
   Depois do bom café da manhã na mesma padaria do dia anterior, sigo pedalando em um bom ritmo até chegar a cidade de Ponte Alta. Uma típica cidade interiorana daquele estado. Poucas pessoas nas ruas. 
    A natureza de Tocantins é muito bela, surpreende quem não conhece o estado. Parei em um belo rio e fiquei ali, descansando, apenas curtindo a natureza, o silêncio, a paz, a quietude do local. Acredito que fiquei naquele estado contemplativo por cerca de uma hora, até o momento em que  a barriga começou a roncar, anunciando que era hora de almoçar. 


    Mais adiante seguindo o rio encontrei um clube que servia almoço. Entrei sem cerimônia. Também fico menos inibido durante as minhas pedalanças. O lugar era lindo, havia alguns brinquedos,e eu, para despertar a minha criança interior, fui para a balança, sem me preocupar com os olhares dos nativos da cidade. Sou um cara caladão, e sei que as pessoas têm curiosidade para saber quem é essa pessoa esquisita que surge em uma bicicleta também meio esquisita. Mas não forço a barra me tornando o rei da comunicação. Tento falar o básico, às vezes consigo fazer amizades e aí converso igual pobre na chuva. Não sei de onde veio essa expressão, mas é um momento que curto muito também. Mas também me sinto bem no meu cantinho, não sou um ser muito sociável mesmo, acho que tenho uma cota, um certo limite de socialização por dia. E tem dias que nem quero seguir essa  cota mínima. 
Descansando as canelas


   O almoço estava ótimo, excelente comida do restaurante daquele clube. Tinha quadras de futebol, mas o maior atrativo era o rio mesmo. 
    Resolvi não ficar mais tempo naquela linda cidade, pois o céu estava começando a ficar nublado. Até que uma chuvinha naquele calor não atrapalha muito, pois a mochila está com lonas. Só a bike mesmo é que sofre, precisando de uma limpeza e lubrificação no dia  seguinte. 
A estrada neste trecho não está ok, o acostamento tomado pelo mato em vários pontos, e tive que redobrar o cuidado para não ser atropelado por uma carreta. 
    Apesar desses perrengues, está sendo ótimo pedalar por Tocantins. Não estou preocupado com o final da viagem, que não tem um objetivo, uma meta a ser alcançada. É apenas pedalar, curtir a vida e a natureza. Não quero saber quantos quilômetros faltam para chegar em Belém, o maior barato da viagem é a viagem e não o destino final. Aliás, muitas pessoas param para conversar comigo, perguntando de onde venho e para onde vou. Quando esboçam dizer quantos kms faltam para se chegar à Belém interrompo a pessoa. É um pouco psicológico, se a gente ficar contando todos os dias a distância a ser percorrida acabamos ficando mais cansados ainda. 
    Por volta das duas da tarde o sol apareceu novamente, com poucas nuvens. Resolvi dar uma parada e evitar o calor que tomou conta da estrada.  Estou pensando em fazer pedaladas noturnas. Só tive duas experiências de viajar a noite em 2019. E foi complicado pois nem lanterna tinha, um breu total. Mas eram estradas com pouco movimento e sem nenhuma carreta. Com o forte calor, o jeito foi tirar um cochilo mesmo na parte da tarde. 
Ao contrário do esperado, está sendo muito bom pedalar no Tocantins



    Depois do descanso, volto a pedalar com mais disposição. Deve ser umas quatro horas da tarde, ou um pouco mais. O sol está mais brando, o céu começando a ficar rosado. É a parte do dia em que me sinto melhor fisicamente. Pedalar e sentir aquela brisa no rosto é revigorante. Acho que vou fazer isso todos os dias, apesar do receio de pedalar à noite por uma região que acabei de conhecer. 
    Cheguei em Jardim Novo em boas condições e achei um local ótimo para dormir: um galpão ao lado do posto de gasolina da cidade. O local era sossegado, nem muito escuro e nem muito claro. E tinha várias tomadas para carregar meus eletrônicos. Enfim, um dia feliz e tranquilo no estado de Tocantins. 



85km bem percorridos, apesar do forte calor típico da região. 

domingo, 12 de julho de 2026

26º dia pedalanças Belo Horizonte à Belém do Pará-Taguatinga de Tocantins

 

13/08/2024
Descansando em Taguatinga de Tocantins

Igreja matriz de Taguatinga-TO

  Ontem encontrei um ótimo posto de gasolina para dormir, com uma ótima estrutura para os caminhoneiros, e, claro, para os viajantes de bike, como eu. Não são muitos, mas existem. 
    O problema foi que não somente os caminhoneiros, mas todo mundo que passava por ali aproveitava a estrutura do local para tomar um banho. E estava tendo a tradicional festa da padroeira da cidade, e por isso a noite foi bem agitada por ali. Muitos visitantes e também feirantes estavam na cidade. 
    Acordei bem cansado e desci para o centro da cidade, a fim de encontrar uma boa padaria, coisa que não encontrei ontem de noite. Sou mineiro né?
    Existe uma outra cidade chamada Taguatinga, situada no distrito federal. Notei que na região existem muitas cidades com o mesmo nome em outros estados. Aliás, no distrito federal tem uma cidade chamada Planaltina, e, curiosamente, fazendo divisa existe outra cidade com o mesmo nome, só que pertencente ao estado de Goiás. Acho que muita gente que não conhece a região deve fazer confusão ao andar por ali.

                                                       O susto do bolo de chocolate

    Encontrei uma excelente padaria, que estava bem movimentada, por causa da festa da padroeira. Comi um pãozinho com manteiga e um bolo de chocolate, que pedi para pesar. Claro que pedi um generoso pedaço, mas levei um susto na hora em que a atendente colocou na balança. Onze reais! Fiquei meio sem graça, pois não teria como devolver o pedaço, que já foi cortado do bolo né? Seria muito deselegante de minha parte. ( a verdade é que se pudesse devolver iria sim fazer a devolução, mas minhas lombrigas estavam assanhadas ao ver um bolo tão bonito!)
    Mas valeu a pena o sacrifício financeiro. O bolo estava não somente bonito, estava uma delícia, bem molhadinho. Na verdade, parecia mais uma torta de chocolate do que um bolo mesmo. Aliás, resolvi sair logo da padaria, pois tinha muita coisa gostosa por lá. Tinha uns potes de doce de leite que me deram água na boca. Mas consegui resistir e ir para a pracinha central. 
Pracinha central


    Na praça central estava o palco das festividades da festa da padroeira. Aliás, a estátua dela no meio da praça é bem grande. Perguntei o nome da santa e me disseram que é Nossa Senhora D’Abadia. No palco tinha um som excelente, profissional mesmo. Tudo arrumadinho com as cases que são as caixas que guardam os equipamentos. Muitas cadeiras de plástico na praça com tendas por causa do calor. 
    Sentei em um banco e comecei a escrever o diário da viagem. Praticamente todos os dias faço o diário em um caderno, para não esquecer dos acontecimentos. Somente quando estou cansado ou passo por muitos perrengues é que deixo para o dia seguinte. 

Gaúchos em Tocantins

    Estava entretido nos meus escritos quando ouvi um drone sobrevoando a minha cabeça. Olhei para trás e vi que era um cara de uns 25 anos que o manobrava. Ele estava com uma mulher que aparentava ser sua mãe. Pensei que fosse a polícia monitorando o local, afinal, sou um forasteiro esquisito em uma bicicleta também esquisita. Não devo nada a polícia, sou um pacato cidadão aposentado que quer curtir a vida, não se importando com a opinião alheia. Se a gente se importar com a opinião dos que não têm nada o que fazer, não saímos  de casa. É o que gosto de fazer, viajar, sair por aí, sem pressa mas com documento. Não devo nada à polícia, mas, como bom paranoico que sou, imagino que todos estão me perseguindo. Falo um pouco sobre minhas paranoias durante a viagem, afinal a esquizofrenia me acompanha por onde quer que eu vá, é a mania de perseguição que me persegue. Não tem como falar para a esquizofrenia: “Olha, vou dar uma viajada, tem como você ficar aqui em Belo Horizonte por um tempo? (obs: essas letrinhas em azul são links para ver outras postagens do blog referente ao tema do qual estou narrando no diário)
os gaúchos visitando Taguatinga


    A mulher que estava no banco da praça parecendo a mãe do menino começou a conversar comigo. Perguntou se eu viajei por causa da padroeira, se eu era devoto. Disse que não ligava muito para essas coisas, mas que respeitava a crença das pessoas. Conversamos sobre viagens, ela me disse que se aposentou e que agora vai aproveitar a vida para curtir e descansar. Ela é do Rio Grande do Sul e trabalhava na propriedade da família, cultivando maçã, uva e outras coisas típicas do sul do país. 
   Ela me ofereceu chimarrão. Ela disse que era como se fosse o cafezinho dos mineiros. E que ficava com dor de cabeça se ficava algumas horas sem tomar. Ela preparou ali mesmo na praça. Me passou a sua própria cunha. Não tive receio de tomar no mesmo bico que ela. A bebida tem um gosto difícil descrever. Não é forte, não é doce e também não amargo. Talvez ela tenha feito um chimarrão fraco, sei lá. Não curti, ela me perguntou se havia gostado: 
   - “A sim, é muito bom” - respondi meio sem graça, tentando fazer cara boa. 
    E logo percebi que fiquei um pouco animado, e a gaúcha me disse que a bebida contém cafeína também, assim como o cafezinho da mineirada. 
    Depois do bate-papo com os gaúchos fui almoçar e logo depois aproveitei para descansar, afinal ciclista viajante solitário também tem que ter seu dia de folga para descansar as canelas. E o calor estava muito forte na região. Estou um pouco receoso como será a temperatura daqui pra frente, à medida que vou me aproximando de Belém. Já me disseram que no Pará é bem calorento e faz suar bastante. 

Dormindo na missa

    Estava descansando debaixo de uma árvore na pracinha central da cidade. Por volta das cinco da tarde o local mais parecia uma igreja lotada. Muita gente chegando, principalmente famílias. 
    Resolvi ver a missa, não somente por me interessar pela cultura local, mas para ver como era o som da igreja. Pelo visual o som parecia ser muito bom. Trabalhei 17 anos como operador de som, e até hoje a música é uma das minhas paixões. Mas antes fui na padaria "jantar" um potão de doce de leite que havia visto no café da manhã. 
Secretária de cultura


    Comer meio quilo de doce de leite me deu uma moleza danada, ainda mais naquele calor. Estava uma delicia, era um pouco diferente do doce de leite que se vende em supermercado, mas era muito bom. Rapidinho desceu goela abaixo. E desceu também a pressão, por conta do calor. 
   Voltei para a praça, que estava quase que lotada, Consegui achar uma cadeira bem no canto, um pouco distante do palco. E não parava de chegar gente. À medida que a praça enchia de pessoas, mas desconfortável eu ia ficando. E também me senti deslocado pois estavam todos bem vestidos, e eu, de bermuda e tênis bem usado. 
    Sou um cara bastante introvertido, e a esquizofrenia nos deixa um pouco mais fechado. Queria ser mais comunicativo, e às vezes até sou, mas isso depende de uma série de circunstâncias favoráveis à uma paranoica mente que acha inimigo em todas as pessoas. Almocei com o pessoal da igreja, eles gentilmente me ofereceram um almoço, que foi servido para as pessoas que estavam trabalhando nos preparativos da festa. Conversei com algumas pessoas e inclusive com o operador do som da igreja. Nessas viagens em dois meses acho que converso mais do que em um ano quando estou em casa. A verdade é que essas pedalanças me fazem um bem danado. 
A missa estava bem cheia

     Notei que as crianças quando viam os parente mais velhos pediam a benção. Não me lembro a última vez que vi esse costume. Estava numa moleza danada por conta do doce de leite que havia comido, e o calor parece ter abaixado ainda mais a minha pressão. Tentei encontrar em vão alguma lanchonete para comer algo salgado para dar uma animada. E, quando a missa começou, o sono bateu com força. O padre rezava a missa daquela forma mais tradicional, ritualística, falando frases repetidas. "Eeeeem nomeeee do paiiiiii, do filhoooooooo, do espiríto santooooooo. Amééééénnnn. 
      Isso aumentou ainda mais o meu sono. E nessas viagens peguei o costume de acordar cinco horas da manhã e dormir entre oito e nove horas da noite. Senti que iria dormir ali mesmo. Então, para não cair da cadeira e passar vergonha,  resolvi ir embora logo no início da celebração. Em minha mente, todos estavam reparando em mim e condenando essa minha atitude, achando uma total falta de respeito sair no meio da missa. 
Voltei para o posto de gasolina e montei a barraca no mesmo lugar da noite anterior .

Estou gostando muito de pedalar por essa região, apesar do calor. 


quarta-feira, 24 de junho de 2026

25º dia pedalanças Belo Horizonte à Belém do Pará-Combinado-TO à Taguatinga de Tocantins

 12/08/2024
Conhecendo o menor rio do mundo!


                                            A Noite Mágica Que Se Transformou em Pesadelo

     O dia ontem foi maravilhoso, a pedalada, a satisfação de pedalar por mais um estado brasileiro, no caso, Tocantins. As pessoas que conheci no posto de gasolina. Foi tudo excelente, até por volta da meia noite. Os frentistas com quem fiz amizade foram embora às dez da noite, hora em que encerra o pesado turno de trabalho deles, que começa às oito da manhã. 
    Montei minha barraca como de costume e me preparei para dormir. Mas, para o meu desespero, algo inusitado e inesperado aconteceu e acabou tirando o meu sono. 

                                                                   O galo da madrugada
    Um galo começou a cantar bem em cima da minha barraca. Ele estava no meio da mangueira. Queria pegar alguma coisa para espantá-lo, mas estava tudo muito escuro. E o infeliz cantava alto e sem parar. Como se quisesse dizer que era o dono do pedaço. Não estava com ânimo para desmontar tudo e procurar outro lugar para dormir. O jeito foi entrar para minha humilde residência e tentar pelo menos descansar, pois pegar no sono era quase impossível com um galo em cima de mim. 
    Tirando o galo, a madrugada foi tranquila na cidade de Combinado. Só um cara de madrugada passou correndo fugindo da polícia. Ele passou bem próximo à barraca. Logo atrás vieram os policiais em uma viatura, mas passaram direto. Como estou vulnerável em uma barraca, não me envolve nessas confusões.
    Mas o galo cantou a madrugada inteira sem parar, imponente, sem parar. Aliás, parou, às cinco e meia da manhã. Exatamente no momento em que saí da barraca para desmontar acampamento. Isso não era coisa de Deus, pensei. Era um demônio da noite disfarçado de galo. 
    Acordei detonado. E cometi o erro de comer muito no café da manhã, pensando que a energia dos alimentos iria suprir o cansaço de uma noite mal dormida. Engano meu, fiquei  mais na moleza ainda. 

                                                             O cansaço tomou conta
Apesar de estarmos no cerrado, o caminho é repleto de árvores grandes e natureza exuberante

    Pedalei cerca de 25km até a cidade de Aurora por uma estrada legal de ser percorrida. A vegetação nessa região do Tocantins tem mais verde, apesar de estarmos ainda no cerrado. Mesmo percorrendo pouca distância, meu corpo pediu descanso, fruto da noite mal dormida por causa do galo da madrugada de Combinado. 
     O jeito foi procurar uma grama com uma boa árvore para dar aquela sombra. Tirei o tênis e fiquei ali deitado por quase duas horas. Sinto uma energia boa ao andar descalço pela grama e pela areia. Dizem que absorvemos a energia da mãe terra.  Alguns moradores me olhavam curiosos, mas estava tão cansado que não tive ânimo para conversar com as pessoas. Aliás, naturalmente não sou muito de conversar, mas nessas viagens até que falo bastante. 
                                                                                                   
Aurora do Tocantins



                                                                        A ressureição


    Lentamente senti o ânimo voltar e comecei a pedalar novamente. Conheci os Rios Azuis, que é um ponto turístico naquela  região do Tocantins. O local é lindo, onde fica um dos menores rios do mundo. No estado é conhecido como o menor rio do mundo. Ele tem 147 metros de extensão. Na verdade é o menor rio da América Latina e o terceiro menor rio do mundo. Mas, independentemente do tamanho, vale a pena conhecer a região pela sua beleza. É pequeno em extensão, mas gigante pela sua beleza.
    O lugar é bem agradável, com quiosques, restaurantes servindo comidas maravilhosas. Aliás, o estado de Tocantins está me surpreendendo pela sua beleza, com seus rios de cor verde e a natureza em volta das estradas. Alguns caminhoneiros haviam me dito que era um estado deserto, e até cogitei atravessá-lo de ônibus. Mas, como sou teimoso, disse que iria até Belém de bike. E é isso o que tenho em mente, missão dada é missão cumprida para o esquizo cicloviajante!
Rio azuis, o terceiro menor rio do mundo. Mas gigante pela sua beleza. 

    O pessoal da entrada de Rio Azuis foi super gente boa e me deixaram entrar sem pagar. Dei uma volta e tirei algumas fotos. Era domingo e o local estava bem cheio. Fiquei meio sem graça de tomar um banho de rio e então negociei um rango em um restaurante do local, pois ali tudo era um pouco caro para minhas parcas condições financeiras. 
     Segui a pedalada do dia e encontrei um rio legal para lavar minhas roupas. Estava mais animado na parte da tarde. O visual do caminho até Taguatinga de Tocantins é muito bonito mesmo, com formações rochosas imponentes que faziam uma linda combinação com o céu avermelhado de um fim de tarde em Tocantins. Tirei várias fotos, apesar de estar escurecendo.

                                            Final de tarde contemplativo e a escuridão da BR
Belo final de tarde na chegada de Taguatinga de Tocantins

   Aliás, aconteceu algo engraçado. Estava pedalando por volta das cinco horas e, como usava  óculos escuros, imaginei que já anoitecia. Me acostumei tanto com os óculos no rosto que havia me esquecido dele. E comecei a pedalar um pouco mais rápido. Me lembrei alguns quilômetros depois que estava usando óculos e o dia ainda estava claro. 
    E continuei a pedalada, parando às vezes não para tirar fotos, apenas para contemplar a beleza daquele lugar com o pôr do sol maravilhoso. As formações rochosas, o céu avermelhado e as nuvens formavam uma linda combinação que só Deus poderia ter criado. 

   E então escureceu de verdade. E não tinha uma lanterna sequer. Aliás, tinha a lanterna que havia ganho em Minas Gerais, mas não inventei uma gambiarra para colocá-la no guidão. O jeito foi pedalar por aquela BR escura e sem acostamento. Tive que tomar muito cuidado pois sabia que com muita dificuldade os motoristas me veriam naquelas condições. Acredito que pedalei cerca de dez quilômetros naquela escuridão. O cuidado foi redobrado para não cair em algum buraco da estrada ou então passar por cima da algum galho de árvore e perder o equilíbrio. A estrada ficava um breu quando não passava veículo e tive que pedalar bem devagar. 
Essa era a minha visão na BR. A imagem está um pouco mais escura, por causa da câmera

   Com muita cautela consegui chegar em Taguatinga de Tocantins por volta das nove horas da noite. A cidade também era bem escura na entrada. E logo imaginei que poderia ser ponto de venda de drogas. E o medo toma conta de mim. Sigo observando tudo e à todos. Todo mundo parecia suspeito. Encontrei um bom posto de gasolina com uma boa estrutura para os caminhoneiros. Dois banheiros com ducha quente, uma área para jogar sinuca, uma mesa, tanque e cadeiras em volta de uma mesa. Conversei com alguns caminhoneiros e me tranquilizei. Antes de montar a barraca procuro algo para comer, mas só encontrei salgados e lugares que vendiam “jantinhas”. Não queria comer arroz com feijão e carne, queria algo de padaria, tipo um pedaço de bolo, yougurte, etc... Com muito custo encontrei uma, mas estava meio vazia. Comprei biscoitos e yougurte, meio insatisfeito. Mas era o que tinha, estava tudo muito escuro e não gosto de chegar nas cidades de noite. 
      Mais um dia de belas surpresas e natureza exuberante. Um dia feliz. 


domingo, 14 de junho de 2026

24º dia pedalanças Belo Horizonte à Belém do Pará- Monte Alegre-GO à Combinado-TO

 11/08/2024
Entrando em Tocantins

Cidade de Combinado, em Tocantins

    Noite mais do que revigorante em Monte Alegre.  Consegui recuperar as energias do dia anterior, que foi muito desgastante, por ter pedalado quase 100km sem almoço e sob um forte calor típico do Tocantins. Seria uma prévia do que iria encontrar mais para frente?
    Tudo colaborou para que tivesse uma excelente noite de sono: havia dormido no lava jato, tomado um bom banho, me alimentado bem e tudo mais. E também dormir com uma pessoa conhecida ajuda a aumentar a sensação de segurança. E havia conhecido pessoas legais, que eram os proprietários do estabelecimento. Conversamos muito na noite anterior e rimos muito. E rir sempre é o melhor remédio, inclusive para pegar no sono. 
    O ciclista cearense disse que não havia dormido tão bem, por conta dos mosquitos. Estava  usando uma rede. Ele é bem prático, leva apenas uma mochila que não é muito grande, e a rede, é claro. Todas as três vezes que o encontrei pelo caminho estava usando a mesma roupa preta. Rapidamente desmonta seus apetrechos e está pronto para partir. Pacientemente ele me espera desmontar acampamento. Fomos até a padaria mais próxima e tomamos o café da manhã, cada um pagando a sua conta. Ele tinha um celular de tela grande e a bike dele era uma aro 29. Não sei se ele tinha condições financeiras boas, mas pelo tipo de conversa parecia sim ser de classe média ou mais. 
Estradas desertas vão tomando conta do caminho à medida que avanço sentido Belém


    Pensei que ele fosse viajar para outros rumos, mas ele foi me seguindo pelo caminho. Gosto de viajar sozinho, estava meio sem jeito de dizer isso para ele, mas segui na frente boa parte do caminho e acelerei um pouco, e ele ficou para trás. Foi a forma que encontrei de dizer que gosto da solitude das estradas. 
     Mas, como ele era bem mais jovem do que eu e tinha uma bike melhor, com facilidade acabou me passando sem me dizer nada. Acho que ele entendeu que a minha caminhada é solitária. 
    E segui viagem, no meu ritmo, pela quase deserta estrada. Percebo que, à medida que vou me aproximando de Tocantins, as estradas vão ficando mais solitárias também. Me disseram na entrada de Goiás que em Tocantins existem muitos trechos semi desertos. E, como não tenho GPS terei que tomar o máximo de cuidado para não cair em um trecho longo e pouco habitado, pois não levo muita água e nem comida na bagagem. Terei que me informar o máximo possível com os moradores da região sobre os percursos e os melhores caminhos a seguir. 
     O meu GPS está sendo Gente e Pessoas Solicitas. E é melhor do que o google maps, afinal os moradores da região conhecem os atalhos e as belezas dos lugares onde moram melhor do que ninguém. 
    A estrada para Campos Belos é muito boa, como a maior parte das Brs de Goiás. Parece que as “estradas ruins” desse estado são melhores do que as estradas boas de Minas Gerais. E, como havia descansado bem na noite anterior, segui em um bom ritmo e cheguei em Campos Belos por volta do meio dia. Foram quase 80km só na parte da manhã!  Meu rendimento em relação à primeira pedalança em 2019 está bem melhor. Fiz alguns ajustes na Margarida e eu, apesar de quase seis anos depois, continuo pedalando bem. 
    Parei em uma pracinha, e, antes de me sentar, o pessoal da igreja assembleia de Deus me chamou para lanchar. Eles estavam distribuindo lanches para os moradores de rua e outras pessoas naquela praça. Era o dia dos pais. Nem sabia, já sou meio alheio às datas comemorativas, e nessas minhas viagens fico por fora de tudo. 
Pracinha em Campos Belos onde tomei um gostoso lanche que serviu como almoço


    Comi cachorro quente, melancia, e tomei uns quatro copos de refrigerante. Foi o meu almoço. Além da barriga, a cabeça está cheia, só que de dúvidas. Não sei qual rota seguir até Palmas, capital de Tocantins. Monte Alegre é a última cidade de Goiás, antes de entrar no estado mais novo do Brasil. Me falaram que seguindo pela cidade de Arraias, que é o caminho mais usado pelos veículos, eu iria enfrentar grandes percursos desertos. Não quero me desgastar muito, como foi no dia anterior. Além de não almoçar, ainda tem o problema de ficar sem água nessas estradas solitárias. Perguntei para várias pessoas um caminho alternativo para a capital de Tocantins. Ninguém soube me responder. Estava quase desistindo e pensando em dormir em Monte Alegre quando uma mulher me disse que se eu seguisse em direção à cidade de Dianópolis iria pegar estradas mais habitadas e o caminho seria mais interessante em termos de atrações. Ela me disse que essa rota passa pelo menor rio do mundo, conhecido como Rios Azuis. Teria que pedalar cerca de 150km a mais, mas como já disse, pressa é uma palavra que não existe no meu vocabulário de cicloviajante. O importante é curtir o caminho, e não a chegada, afinal é uma cicloviagem e não uma corrida contra o tempo. 
Qual caminho seguir? O mais curto ou o mais agradável?


    Havia chegado meio desanimado e cheio de dúvidas em Campos Belos. Mas, depois do lanche amigável e de descobrir uma rota bacana para Palmas, já fico um pouco mais animado e depois de um breve descanso sigo adiante em direção ao estado de Tocantins.
    Na saída de Campos Belos encontro um senhor fazendo manutenção em uma “Kombihome”, que, basicamente é uma Kombi transformada em uma casa sobre quatro rodas. O veículo é bem conservado e as adaptações ficaram ótimas. Conversamos por um bom tempo e nos despedimos.  
Uma linda Kombihome na saída do estado de Goiás 

Entrando em Tocantins...


    Entro em Tocantins na cidade de Novo Alegre e resolvo continuar, estou bem fisicamente hoje. Uma noite bem dormida recupera bem o meu físico. E a estrada é ótima, cercada de verde para todos os lados. Ainda estamos no cerrado, mas a impressão é de as árvores são mais altas e a vegetação um pouco mais verde do que em Minas Gerais e em Goiás. 
    Chego na cidade de Combinado por volta das cinco da tarde. É uma pequena cidade com poucas pessoas nas ruas, e, além de tudo era um domingo. Ainda tinha forças para continuar a pedalar, mas, como não tenho lanternas, resolvo parar ali. Foram quase 80km que começaram cheio de dúvidas e incertezas, mas que terminaram bem em uma simpática cidade do interior do Tocantins. 
   Parei em um posto de gasolina e os frentistas foram muito atenciosos comigo, ficamos conversando por um bom tempo, até o momento em que resolvi montar a barraca, por volta das dez horas da noite. Fiquei sabendo que o nome da cidade se deu por que no início haviam vários proprietários de terra no local e que combinaram de juntar suas posses para inaugurar a cidade. Dai o nome de Combinado. 
 O proprietário do posto apareceu por lá e trocamos ideias também. O povo de Tocantins parece ser bem hospitaleiro e muito comunicativo. Hoje foi um belo dia, com boas energias e um ritmo bom sem se cansar muito. 
A vegetação em Tocantins ainda é cerrado, mas com mais árvores e verde. 


Centro de Combinado-TO



segunda-feira, 8 de junho de 2026

Um dia feliz

 

    

Hoje foi um dia feliz.

    Estava morando em um apartamento bacana, todo mobiliado e com um preço bacana. A mãe da proprietária adoeceu e teve que se mudar para ficar perto de sua progenitora.  Mas nem tudo é perfeito, o imóvel fica situado em um bairro com morros altíssimos. Acho que é o ponto mais alto de Ipatinga, aqui em Minas Gerais. Foram cinco meses de uma rotina entediante, apesar do belo visual da janela do apartamento. 
    Estava pedalando uma vez por semana, apenas para fazer as compras básicas.
   O lugar era agradável, cercado por montanhas e com uma brisa refrescante, algo importantíssimo na quentíssima região do vale do aço. Tinha até uma seriema que se aproximava bem das pessoas, e que arrumava uma gritaria gostosa na parte da manhã. Seu canto mais parecia uma risada escandalosa, mas que me fazia sentir estar no meio do mato. 
    Mas, sou viciado em pedalar e resolvi mudar para um barracão mais simples. Tem muita coisa para fazer: pintar, arrumar vidros, reboco, etc..E isso também é uma terapia, ver uma transformação, seja de pessoas, ambientes, coisas, objetos, etc... 
Ipatinga-MG  Em primeiro plano, a siderúrgica Usiminas


    Agora estou morando em um bairro com retas e voltei a pedalar normalmente, ou melhor, quase normalmente. Estou pegando ritmo aos poucos. A primeira vez que saí para andar de bike foi um pouco difícil, os músculos ficaram doloridos e tive uma pequena câimbra. 
    Hoje pedalei cerca de 16km e cheguei inteiro em casa, sem maiores problemas. Foi tão gostoso pedalar bem na subida e não ficar ofegante, sentindo aquele arzinho gelado entrando pelos pulmões. 
    Isso é motivo de estar feliz, pois pedalar faz parte do meu tratamento da esquizofrenia, reduzindo o stress, a ansiedade e liberando endorfinas e outras "inas" mais.
    E cuidar da Margarida (minha querida bike) é uma terapia, a gente vai aprendendo a cuidar dos freios, dos câmbios, dar uma lavada e polida. É um prazer vê-la brilhando e andando bem. É uma bike antiga, de 1990. Foi amor à primeira vista. Ela estava jogada no quintal de uma casa, só o quadro. A pessoa a vendeu por 20 reais em 2017. Ela tem avarias que a desvalorizam bem, e também é um quadro aro 26, que já não faz tanto sucesso assim. A maioria das pessoas estão comprando bicicletas aro 29, que andam bem mais. 
    Mas eu não me importo, já viajei 11 estados do Brasil com a Margarida. Enfrentei serras fortíssimas, serração, chuva, sol escaldante do nordeste e outros perrengues mais comuns em uma cicloviagem. E já consegui pedalar 140km em um único dia, ou melhor, noite também. Foi no Piauí, e tive que dar um intervalo de meio dia às quatro e meia da tarde, por conta do forte calor. 
    Infelizmente o tratamento da esquizofrenia no Brasil é centrado nos antipsicóticos, e os resultados não são tão satisfatórios. Esquizofrenia por aqui é quase sinônimo de benefício, seja aposentadoria ou LOAS, também conhecido como BPC. 
    Enfim, cada caso é um caso, mas o tratamento deveria incluir uma série de alternativas saudáveis, tanto na parte física como mental. 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Mudanças

 

        Depois de ter viajando por cerca de dez mil quilômetros pelo Brasil voltei a morar em Ipatinga, no interior de Minas Gerais. É uma cidade que gosto e morei por vários anos seguidos, entre os anos de 2004 e 2012.

     Nesse ano resolvi começar as minhas andanças pelo Brasil. Fiz os quatro caminhos da estrada real, andei pelo litoral de São Paulo e do Espírito Santo. Conheci a cidade de São Paulo e fiz outras viagens mais. 

     Me transformei como pessoa e passei a enxergar o mundo de uma outra maneira. E viajar sempre esteve no meu sangue. Se não tem como viajar de avião ou de carro, vai a pé ou de bike mesmo. 

     Estou mudando para um outro bairro de Ipatinga. O condomínio onde moro está sem água, por que é um medidor para quatorze prédios e 240 apartamentos. O corte foi devido à inadimplência de muitos moradores e a dívida já chega à 750 mil reais. 

     A solução é mudar de local. Terei um gasto com frete e o ajudante. E além de tudo terei que comprar fogão, panelas e outras coisas mais, pois o imóvel onde estou é mobiliado e o que irei mudar não tem móveis. 

    Quem puder ajudar o PIX é 31 97231 7098 Julio Cesar dos Santos de Oliveira

     Qualquer valor é bem vindo.

    Obrigado pela atenção e visita ao blog. 

domingo, 3 de maio de 2026

23º dia pedalanças Belo Horizonte à Belém do Pará- Teresina-GO à Monte Alegre-GO Dia difícil de muito calor

 10/08/2024
Sofrência no calor e sem almoço na viagem cansativa

Um belo rio no meio do caminho

    Noite agitada em Teresina de Goiás. A praça estava repleta de pessoas tomando cerveja e ouvindo um forrozinho. Afinal era sexta feira... 
    Acordei detonado, mas, para minha alegria havia uma excelente padaria perto do posto de gasolina. Comi um pãozinho com manteiga bem quentinho e um bolo de chocolate. E um cafezim, claro, para animar e tirar o cansaço de uma noite mal dormida. 
   Na estrada, à medida que vou avançando o sol vai esquentando. Um pouco mais de calor do que na chegada em Alto Paraíso. Agora não tem tantas subidas ou serras, boa parte do caminho são aqueles retões que chega a dor sono... E, para completar, estradas quase que completamente desertas. Para me precaver comprei alguns biscoitinhos na padaria. Serão 80km sem almoçar... 
Retão de dar sono no esquizo... E muito calor e sem pontos de apoio.

    No caminho avistei o rio Paranã, com um lindo visual. Pensei que, se soubesse fazer comida e tivesse na bagagem um fogareiro, iria montar acampamento naquele belo lugar. Só sei fazer ovo cozido e então minhas pernoites quase que obrigatoriamente são em postos de gasolina ou então em cidades pequenas ou médias, onde ainda a violência não tomou conta. 
    Hoje são 80km e exatamente no meio do caminho encontro um pequeno povoado. Na entrada consigo água com uma senhora, com cara de poucos amigos. Sempre gosto de conversar com as pessoas nessas viagens, mas sei quando não estão afim de um dedo de prosa. Alguns não dialogam por desconfiança mesmo, outros por não serem muito de conversar. 
   O povoado tem ruas de terra e parece um pouco deserto. Ninguém nas ruas, uma ou outra casa com sinal de vida. Fui recebido por alguns cachorros,  querendo morder o meu calcanhar quando estava em movimento com a bike. Na rua senti um cheirinho de mortadela no ar. Segui meu faro e encontrei uma família lanchando na varanda da casa. Eles me olhavam com um pouco de espanto, talvez por não ser todo dia que avistam por ali um ciclista viajante um pouco maluco. 
     Perguntei se poderiam me vender um pão com mortadela e um copo de refrigerante. Eles apenas disseram que eu poderia encontrar comida no bar do povoado. Seguindo as instruções entrei pelas ruas de terra até o estabelecimento, que, para o meu desespero, estava fechado. Parecia não haver ninguém naquelas casas do povoado. Voltei então para a casa da família que estava lanchando, mas, para minha surpresa, eles haviam recolhido tudo e sumido. Ou estavam trancados dentro de suas casas. Nunca havia visto tamanha “pão durice”, afinal eu estava querendo comprar o sanduíche. Ali realmente era difícil conseguir fazer as compras, pois as cidades estavam à 40km de distância. Mas negar um pão era a primeira vez que havia visto na minha vida. 



    Bateu um leve desespero em mim. Afinal faltavam 40km e já havia comido os biscoitinhos que comprara na padaria de Teresina. O calor estava demais e sem comer algo iria penar e muito para chegar à Monte Alegre. Desci em direção à BR um pouco desolado. 
   No final, quase na outra saída para a BR encontro um senhor descansando na varanda de sua casa, que parece ser um barzinho. Perguntei se poderiam me vender um pão com salame e um refrigerante. O senhor disse que não tinha. Nem biscoitos. Agora cachaça tinha... 
    Então ele disse que poderia fazer uma farofa com ovo, que, obviamente, aceitei. Não tinha outra alternativa, apesar de não encher muito a barriga. Ficamos conversando enquanto uma senhora preparava a minha refeição. 
    Sou uma pessoa simples, como de tudo, mas farofa com ovo não estava muito boa e não combinou com a coca cola. Não senti o ânimo renovado e o sol estava castigando. Pedalar nesse calor em uma estrada deserta chega a ser um pouco angustiante. Cansa fisicamente e mentalmente também. Às vezes bate um desespero por conta da água que fica prestes a acabar. Não havia muito movimento de carros ou caminhões também. Mas fazer o que, era a única coisa que tinha para comer e paguei oito reais como forma de agradecimento.

Pracinha e igrejinha do povoado de Paranã

     De volta à Br, à medida que vou pedalando, o calor vai aumentando. As estradas vão ficando um pouco desertas à medida que me aproximo do estado de Tocantins. Me falaram que é um estado com poucas cidades, restaurantes ou postos de gasolina nas estradas. 
    Cheguei a cogitar em pegar um ônibus e atravessar o estado de Tocantins até o Maranhão, por conta dessa questão. Mas isso não é comigo, disse que chegaria à Belém de bike e é isso o que vou fazer. 
    Por volta de uma hora paro para descansar. Pouca sombra pelo caminho, poucas árvores, a vegetação é baixa com árvore bem pequenas. Acho que ainda estamos no cerrado. 
    Volto a pedalar, dessa vez com algumas subidas. Sempre no finalzinho tem subida, reparei isso desde a época das minhas andanças. Não havia nenhuma placa pelo caminho indicando quantos kms faltam para chegar em Monte Alegre. Acho que isso mais ajuda do que atrapalha na vida de um cicloviajante. Vou pedalando sem pensar muito no final. O astro rei estava castigando demais. 
      O finalzinho foi tenso. Subidas fortes, assim como o sol. E o almoço que não comi começou a cobrar o seu preço. Muita fraqueza e tive que tirar forças lá do fundo de minha alma, por que o corpo já não estava mais respondendo como deveria responder. 

                                                                            Igrejinha em Monte Alegre

     Depois de muito sacrifício e sofrência, chego finalmente em Monte Alegre, uma pequena cidade, assim como Teresina. Mas achei Teresina uma cidade mais bonita, com casas simples, mas bem pintadas e coloridas. As ruas de Teresina são mais bonitas também. Procuro um lugar para almoçar, apesar de estar mais cansado do que com fome. Mas procuro comer tudo para não emagrecer muito. Geralmente nessas viagens de bike perco uns cinco quilos. 
    Para recuperar do cansaço resolvo tomar um bom banho, apesar de ser umas quatro horas da tarde. A água do posto de gasolina estava morninha, mesmo sem o chuveiro. 
    E passei a tarde sentado naquele posto de gasolina, carregando o celular e esperando o tempo passar para montar a minha barraquinha e descansar. Assim que escureceu fui para o supermercado comprar um potão de sorvete Kibon para espantar o calor. 
    Assim que voltei para o posto de gasolina e comecei a tomar o sorvete avistei o cicloviajante que havia encontrado em Alto Paraíso e na entrada de Teresina. É muita coincidência isso, o meu nível de paranoia me fez imaginar que o cara estava me seguindo. Mas acabei conversando com ele, apesar da desconfiança. Ele era do Ceará e havia viajado por diversos estados do Brasil e alguns países da América do Sul, tendo inclusive ido para Ushuaia, na Argentina. Esse lugar é considerado o fim do mundo, por que é a cidade situada mais ao sul do planeta. É o último ponto habitado da América do Sul antes de chegar na Antártida. 
    Conversamos bastante sobre bikes, viagens, etc... Ele também dorme em postos de gasolina, só que, ao invés de barracas usa uma rede. Não gostou muito daquele posto, e resolveu procurar em um aplicativo de celular um local que ofereça ajuda aos viajantes. É um aplicativo onde os aventureiros das Brs que hospedam ou procuram hospedagens se cadastram e assim se encontram. 
       Era sábado e já era noite, mas, por sorte uma pessoa respondeu no aplicativo e fomos em direção ao local indicado. Era um lava jato, mas o dono não estava no local. Provavelmente estava em casa ou então saído para se divertir. Ficamos um pouco desolados, afinal dormir em um local mais seguro e fechado ajuda bastante no sono. 
Depois de um dia difícil um pôr do sol tranquilo em Monte Alegre


     O ciclista cearense resolveu mandar uma última mensagem e começamos a voltar para  o posto, já sem esperanças. Deparamos com um veículo que ia apressadamente em direção ao lava jato e deduzi que ele seria o dono. Resolvemos voltar e, para nossa alegria e alívio era ele realmente. A noite tranquila estava garantida! Ele veio com sua esposa e os filhos. Conversamos bastante e demos boas risadas. Isso ajudou bastante a esquecer as dificuldades que passei durante o dia. Ele mostrou as acomodações do lava jato e deixou a cozinha aberta para pegarmos banana e água durante a madrugada. Como é bom ter um fim de dia assim, com pessoas bacanas e acolhedoras. Se sempre fosse desse jeito, acho que iria pedalar o ano inteiro!
     O dono do lava jato foi embora e fiquei conversando um pouco mais com o ciclista cearense. Ele tinha a vantagem de estar apenas com a rede e facilmente se instalou. E ele levava pouca bagagem. Me lembro que as três vezes que o avistei ele estava com a mesma roupa preta.
     O lugar era isolado e silencioso, mas não tive medo nenhum de ficar ali. O fato de estar acompanhado ajuda um pouco, acredito que se estivesse sozinho iria ficar um pouco receoso. Enfim um dia que comecei o continuou complicado acaba terminando bem e na calmaria. Espero que seja assim até o dia amanhecer.