segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Vozes na esquizofrenia

 

Vozes que escuto na esquizofrenia

    A alucinação auditiva é um dos sintomas clássicos da esquizofrenia. Nem toda pessoa com esse transtorno tem esse tipo de alucinação. Ouvir vozes também não é exclusividade de quem tem esquizofrenia. Quem está em depressão  também pode ouvir vozes (depressão psicótica). Assim como os bipolares em crise, que podem ter delírios e psicoses. 
    Uma das curiosidades principais que as pessoas têm acerca da esquizofrenia são as vozes. O que elas nos dizem? São vozes dos “amigos” imaginários que talvez possamos ter ou criar? São vozes do bem ou do mal? ou são vozes do além?
  Até hoje os cientistas não sabem explicar o verdadeiro motivo pelos quais as pessoas com esquizofrenia ouvem vozes. Estudos não faltam, mas até hoje não foram conclusivos. Existe a teoria de que seja a área responsável pela audição que fica com uma superatividade durante um surto psicótico. Devem existir várias outras, mas explicar a origem deste fenômeno não é o objetivo principal desta postagem. Afinal, sou apenas uma pessoa com esquizofrenia, que, além de curiosa, procura também ajudar a esclarecer esse transtorno que ainda é um mistério para a ciência. 
    Em primeiro lugar, gostaria de dizer que a maioria das pessoas com esquizofrenia não tem amigos imaginários, e sim muitos inimigos imaginários, devido, principalmente, a mania de perseguição. Também se faz necessário ressaltar que cada esquizofrenia é única, pois é um transtorno que envolve muito o lado psicológico do indivíduo, não sendo apenas um mero desequilíbrio químico do cérebro (aumento de dopamina). Obviamente existem os sintomas e comportamentos semelhantes, como a desconfiança exagerada, a reclusão, etc. Por isso irei citar as minhas vozes e algumas que já ouvi dizer que muitos ouvem por ai, mas que não aconteceram comigo.
    Antes dos surtos, já era uma pessoa um bocado desconfiada e um pouco retraída. Mas nada que me impedisse de ter uma vida relativamente normal. Ia à shows, cinema, trabalhava, etc... Às vezes saía sozinho e às vezes com uma namorada ou outra.(meus relacionamentos não duravam mais do que duas semanas). 
    Mas, por volta dos 28 anos as coisas começaram a mudar em minha vida. Morava em uma pequena cidade do interior de Minas Gerais e realmente era uma pessoa bem comentada por lá. Mas geralmente falavam bem de mim, por ser uma pessoa honesta e trabalhadora. Era um bom operador de som e não sei por que muitas garotas e mulheres daquela cidade me achavam bonito. O fato de morar na capital também acredito que ajudou para que eu tornasse uma pessoa bem falada naquele lugar.
- Olha, um gato andando com um cachorro. (cheguei a ouvir quando estava passeando com um cão)
- Ele está magro.
-Ele está gordo.
-Ele é bonito.
-Ele é feio.
    Acima alguns dos comentários que eu ouvia logo quando cheguei na cidade. Isso me incomodava um pouco, mesmo os elogios, pois as pessoas pareciam ter um pouco de receio de falar com aquele cara esquisito e caladão que eu era. 
   Também ouvia de verdade muitos comentários a respeita de minha sexualidade. Não ficava com todas as garotas que se aproximavam de mim, e muitos pensam que todos os homens tem que “pegar” todas que aparecem pela frente, caso contrário o cara é gay.
   E, como já relatei,  era um cara caladão, um pacato cidadão mesmo. E isso, para alguns moradores daquela cidade  era legal, mas, para outros era sinônimo de “mitidez”. Acredito que quem seja muito calado e que não saia cumprimentando todo mundo seja visto com um pouco de antipatia. Acho engraçado as pessoas não gostarem tanto das pessoas caladas e já acharem normal a fofoca e um monte de merdas que algumas pessoas saem falando por aí. Ou seja, para ser bem visto é melhor falar bobagem do que ficar calado... Vá entender os "normais"...  Não tenho paciência para ficar falando do tempo e da vida alheia, os assuntos mais usados para quem não tem assunto para conversar... 
pessoas fofoqueiras existem em todo lugar, tudo o que é ruim se alastra mais rapidamente...

    Com o passar do tempo e pelo fato de ser um bom empregado criei algumas inimizades no trabalho, já que eu ganhava um pouco mais do que o restante dos funcionários da empresa em que trabalhava. Aquela situação de ter algumas inimizades no trabalho me fez uma pessoa mais retraída e desconfiada do que eu já era.
    Após alguns anos trabalhando naquela cidade passei a ouvir mais comentários do que costumava ouvir no início. Ouvia comentários depreciativos das pessoas, mesmo elas estando há uns trinta ou mais metros de distância de mim. 
   No início eram comentários zombeteiros, depreciativos mesmo. As vozes comentavam coisas banais do dia a dia, falavam coisas que eu estava fazendo:
- Ele nem consegue correr direito. - ouvi quando estava fazendo caminhada.
- Ele está com a mesma roupa de ontem.
- Ele gosta de Roberto Carlos...
- Ele está com aids...
    Esse último comentário foi o que mais me prejudicou. Isso aumentou principalmente em uma fase em que estava um pouco triste e parecia que o meu sistema imunológico estava em baixa, pois foi um período em que tive muita diarreia e outros problemas que os médicos classificavam como virose, depois da ida ao hospital. Também peguei dengue duas vezes quase que seguidamente.
   E, numa dessas emagrecidas o boato de que eu estava com aids acabou meio que se tornando real naquela cidade. Se tornou tão real que até eu mesmo acreditei e nem fiz o exame, por medo do resultado e também por acreditar que realmente estava com aids, apesar de não ser uma pessoa promiscua e sempre usar o preservativo. E, para piorar a situação, os sintomas  que eu estava apresentando eram bem parecidos com os da aids: fraqueza, diarreia, emagrecimento rápido e exagerado. O jeito era esperar os sintomas mais severos aparecerem para dar um fim a minha vida.
    As vozes começaram a disparar com o tempo:
    - Ele está se preparando para virar um mendigo. – tinha ouvido essa voz bem nítida em minha mente, mas o engraçado é que o cara estava na outra ponta do quarteirão. E a voz era sussurrada, logo o cara teria que gritar para que eu ouvisse esse comentário.
    Comecei a ouvir também que os evangélicos viviam comentando que eu estava com demônio no corpo, tanto que cheguei a procurar algumas igrejas para expulsar o suposto tinhoso que tinha se apossado do meu corpo.
    Com o tempo as vozes que eram comentaristas e zombeteiras passaram a ser ameaçadoras:
    -Vamos pegar ele hoje de noite?
    Essas vozes ameaçadoras eram as piores. Acho que são elas que fazem boa parte das pessoas com esquizofrenia a terem algum tipo de reação violenta. Mas a maioria se tranca em casa mesmo, ao contrário do que muita gente pensa.
    Essas vozes ameaçadoras são tão complicadas que resolvi pedir demissão do meu serviço e ir parar nas ruas. Tinha que fugir desses “inimigos imaginários” que queriam me pegar de qualquer jeito.
  Também tive algumas vozes sem noção, ou seja, não diziam coisa com coisa. Uma vez, de madrugada, comecei a ouvir uma voz que parecia estar falando em alemão. Era alta parecia estar falando ao microfone e também gritava. E isso me fez pensar que era o pastor da igreja que ficava perto do local onde morava na época.
    Fiquei rindo por um bom tempo com aquela gritaria toda, pois ela não parava um instante sequer. Cheguei a pensar que o dono dessa voz iria ter um ataque do coração, pois não parava nem para respirar. Hoje sei que essa voz foi uma grande alucinação, pois aconteceu de madrugada e provavelmente a vizinhança teria reclamado por causa do suposto som alto vindo da igreja. 
    Tive outras vozes sem noção.Quando estava surtado morando nas ruas de Belo Horizonte, uma voz aguda e feminina ficou horas seguidas pedindo para que entrasse em alguns locais. Eu obedecia, entrava e ficava esperando ela dar mais ordens. Como ela não me dizia mais nada, ia embora e voltava a ficar sentado nas calçadas das ruas. Essa voz era bem estranha mesmo, não dizia coisa com coisa, ainda bem que durou apenas algumas horas. 
    E também tem a voz da nossa consciência, que acredito que muitas pessoas confundem com alucinações. Acho que em determinada fase de nossas vidas começamos a refletir se fomos boas pessoas, se agimos corretamente diante dos fatos. Talvez seja a crise da meia idade, ou a idade de Cristo. Muitas pessoas começam a se culpar exageradamente por certas atitudes que tiveram pelo caminho de suas vidas. Dependendo da pessoa e da situação, podem até surtar. (foi o meu caso).  Na bíblia (não sou evangélico e nem católico), dizem que Judas se matou depois de ter traído Jesus. (é só um exemplo).
   O sentimento de culpa exagerado é também um dos sintomas da esquizofrenia. Não está atualmente citada no CID atual, mas já esteve. Também retiraram o complexo messiânico dos sintomas que constavam no CID, o motivo por qual não sei. Talvez alguns queiram reduzir a esquizofrenia a somente um desequilíbrio químico, ou seja, o excesso de dopamina. Já ouvi psiquiatra afirmando que esquizofrenia é igual a diabetes, é só tomar o remedinho que tudo está bem e controlado. O problema é que a dopamina é necessária ao nosso organismo, na dosagem certa, é claro. Os antipsicóticos reduzem essa substância para diminuir nossa reação diante dos pensamentos e alucinações, mas também diminuem a nossa vontade de realizar as tarefas básicas do dia a dia. A dopamina é a responsável pela motivação, pela vontade de executar as ações. 
a luta entre o bem e o mal em nossas consciências 

    Então, quem tem esquizofrenia pode ter o sentimento de culpa exagerado, e as vozes de nossa consciência podem se tornar tão brutais que podem nos levar á uma crise de consciência braba e nos julgar por atos que não foram tão cruéis assim. No meu caso me senti culpado por tudo. A voz foi incessante e me culpou por muita coisa, de coisas que havia feito e outras que não havia feito. Me senti muito culpado também pelo fato de achar que estava com aids e supostamente ter contaminado as poucas pessoas com quem tive relacionamento sexual sem preservativo. Na época em que comecei minha vida sexual a aids ainda era quase que exclusividade dos homossexuais, os casos de mulheres infectadas com o vírus do HIV estavam começando a aparecer. Como penso que quem transmite o vírus da aids conscientemente seja um assassino, também passei a me consideram um, e a voz foi cruel comigo e não me perdoou, tanto é que cheguei a pedir para um policial me prender durante a fase aguda do meu segundo surto psicótico.
    Essas vozes parecem vir de fora, é como se fossem ecos. Elas parecem bater em alguma coisa e voltar para nossas mentes, talvez por isso temos a convicção de que são outras pessoas falando.
    Como podem ter observado, tive quatro tipos de vozes: comentaristas, zombeteiras ameaçadoras e as sem noção. Ainda existem as vozes de comando, que são bem comuns nas pessoas com esquizofrenia. Tive a sorte de não ter esse tipo de voz, pois poderia representar algum perigo para outras pessoas. Mas por sorte só representei perigo para mim. e talvez por isso não cheguei a ser internado. E do jeito que falam sobre os manicômios, foi melhor ficar nas ruas mesmo até melhorar. Tive a sorte de encontrar muita gente boa pelo caminho. 
    Até hoje ouço essas vozes, mesmo estando com o fone de ouvidos na maior altura ouvindo um heavy metal. Mas elas não me fazem tanto mal como antigamente. A gente meio que se acostuma com elas, tudo o que é novidade pode nos assustar, mas hoje não dou tanta importância a elas e parece que elas acabam ficando meio sem graça para continuar a me importunar.

15 comentários:

  1. Escuto vozes desde criança,já me acustumei com elas...é um homem que fala comigo as vezes ele comenta com uma mulher.tenho 19 anos e meu cid é f29...meu diagnostico não está fechado ainda.

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    1. Olá
      Como relatei na postagem as alucinações auditivas não são exclusividade das pessoas com esquizofrenia, talvez por isso o seu diagnóstico não tenha sido fechado ainda.
      As vozes no início assustam bastante, mas com o tempo a gente meio que se acostuma com elas mesmo.
      Obrigado pela visita ao blog.

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  2. Obrigado por sua coragem e honestidade, seu relato é muito interessante.

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    1. Eu que agradeço a sua visita ao blog. No livro que escrevi conto com detalhes como foram meus surtos psicóticos.
      https://memoriasdeumesquizofrenico.blogspot.com/2012/08/mente-divida-memorias-de-um.html

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  3. Você enfrenta a esquizofrenia sem medicação? Gosto muito de seus relatos. Como conseguiu sair dos surtos? Teve ajuda de alguém?

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    1. Uso o diazepan como um s.o.s quando sinto que a coisa está ficando complicada. E quando sinto que está mais do que complicada tomo clorpromazina com fenergan.
      Tive a sorte de encontrar muita gente bacana quando morei nas ruas de Belo Horizonte quando surtei pela segunda vez. Escrevi tudo no livro Mente Dividida.
      https://memoriasdeumesquizofrenico.blogspot.com/2012/08/mente-divida-memorias-de-um.html

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  4. Olá julio não sei se vc está acompanhando a candidatura da presidência mas tem um cadidato o cabo daciolo ele tem um discurso bem polemico que eu mesmo o identifiquei com alguns sintomas de uma possível psicose. O que vc acha ? Se não o conhece ainda dá uma pesquisada...

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    1. Olá
      Confesso que não sou um exemplo de cidadão quando o assunto é política. Não acompanho os debates, pois sempre sai ladrão e corrupto para entrar outro corrupto. Se o cara não é, acaba se contaminando com o ambiente que toma conta da política brasileira.
      Mas vou pesquisar sobre ele sim.
      Obrigado pela visita ao blog e pela dica.

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  5. Ola, tudo bem? Descobri seu blog pesquisando sobre a esquizofrenia no Google, estou com um projeto de escrever um conto sobre (pra me testar mesmo, ver o quanto de emocao consigo passar para o leitor) e ler o que vc escreveu e tem escrito tem ajudado muito! Parabéns pela iniciativa de escrever sobre suas experiências, sem dúvida ajuda muitas pessoas, tanto as portadoras quanto as "normais", para saberem como lidar com esse distúrbio. Adorei seu blog, de verdade! Abraços!

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    1. Obrigado. Fico feliz em saber que o que escrevo agrada várias pessoas. Também escrevi um livro em que faço uma narrativa dos surtos psicóticos que tive.
      http://memoriasdeumesquizofrenico.blogspot.com/2012/08/mente-divida-memorias-de-um.html

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  6. Excelente relato, eu também tenho esquizofrenia e escuto vozes, as vezes não consigo sair na rua com medo

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    1. Obrigado.
      Mas elas continuam mesmo usando os medicamentos?
      No meu caso meio que acostumei com elas, mas até que atualmente elas estão caladinhas. De vez em quando é que comentam algo. O problema maior hoje nem é ouvi-las e sim saber se foram reais ou não.
      Mas dá para ir levando numa boa.
      Obrigado pela visita ao blog.

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  7. Cara, muito bom seu blog. Eu comecei a ler pq tive uma crise leve de depressão e a psiquiatra me indicou sertralina e meio comprimido de quetiapina antes de dormir. E sabendo que cada caso é um caso, não posso me comparar a ninguém. Mas seus relatos são ótimos e apartir desse primeiro texto que li não parei mais. Muito obrigada por expor sua vida dessa.maneira tão genial e verdadeira.

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    1. Eu que agradeço a sua participação e visita ao blog. Realmente não é nada bom se prender à um diagnóstico e se comparar a outros casos. Claro que existem comportamentos semelhantes, mas igual não existe.

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  8. Obrigada por seus relatos. Está me ajudando a entender essa doença para que possa cuidar melhor do meu filho de 20 anos que está tomando medicação para esquizofrenia, embora ainda não tenha um diagnóstico fechado. Obrigada!

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