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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Complexo messiânico


    Complexo de messias é um estado psicológico no qual o indivíduo acredita que ele ou ela é ou está destinado a se tornar o salvador de algum campo de atuação específico, grupo, evento, período de tempo ou até mesmo do mundo inteiro.
    Afligidos pelo Complexo de Messias louvam sua própria glória ou alegam absoluta confiança em seus próprios destinos e capacidades e nos efeitos que terão sobre um grupo de pessoas ou aspecto da vida. Em alguns casos o complexo de messias pode estar associado à esquizofrenia onde a pessoa ouve vozes, tem alucinações e acredita que é Deus, espíritos, anjos, deuses ou outros que falam com ele o que, na visão da pessoa, confirmaria sua messianidade. Nos casos mais graves, pessoas com Complexo de Messias podem se ver literalmente como Messias espirituais/religiosos com poderes transcendentes e destinados a salvar o mundo.
     - Fonte: Wikipédia
Traduzindo: o cara pode chegar a pensar que é o salvador da pátria.


    Ano de 2005. Havia acabado de receber do psiquiatra o laudo para que eu pudesse fazer a minha primeira perícia para conseguir o auxílio doença, depois de ir para as ruas novamente. Dessa vez fui resgatado por uma assistente social, que me levou para o albergue da cidade de Ipatinga. Assim que sai do consultório, li a folha e finalmente descobri o que atormentava minha mente durante anos e anos em minha vida: esquizofrenia paranoide. Aliás, não havia descoberto o que eu tinha, isso até hoje estou fazendo, pesquisando e aprendendo a cada dia sobre essa patologia. Apenas fiquei sabendo o nome do transtorno que eu tinha.

    Fui direto para a biblioteca municipal tentar encontrar alguma coisa a respeito do assunto. Estava ansioso para saber a razão e o motivo de me sentir uma pessoa diferente das demais.  Na seção de livros sobre psicologia encontrei um Cid antigo e, no capítulo de transtornos mentais, achei F-20, que é o código de classificação dessa patologia. Comecei a ler os sintomas desse transtorno e dois me chamaram a atenção, por eu me identificar muito com eles, mesmo antes dos surtos: o complexo messiânico e o sentimento de culpa exagerado. Não tenho certeza, mas no Cid atual, esses dois sintomas não são mais relatados, o motivo não sei. Me corrijam se eu estiver enganado, por favor.
    Assim que acabei de ler, lembrei-me de situações em que eu apresentava um pouco desse complexo messiânico. Sentia-me um salvador da pátria principalmente quando trabalhava em uma firma de sonorização no interior de Minas. E até que havia um fundo de realidade nisso, pois nessa cidade não havia bons profissionais na área de sonorização e fui contratado para mudar as coisas nesta firma.
    Chegava a trabalhar exaustivamente, operando duas mesas de som ao mesmo tempo, e isso me desgastava muito. Gostava também de me martirizar, ao carregar nas costas enormes caixas de som, que chegavam a pesar cerca de 120 kg. Isso me fazia sentir um pouco Jesus Cristo, carregando sua cruz no calvário.
    Também tinha um enorme sentimento de culpa. Não fui um bom filho. Minha mãe também tinha um transtorno mental, mas, na época não suspeitava disso. Ficava sem entender o motivo dela ficar o dia inteiro calada, em seu mundo, apenas assistindo televisão. Ela apenas balançava a cabeça afirmativamente, como que dizendo que estava entendendo o que falávamos. Ela era um ponto de interrogação, não conseguia descobrir o que ela sentia por mim. Seu semblante não expressava nenhum sentimento ou emoção. Não entendia como ela não fazia nada quando eu chegava em casa machucado e era socorrido pela empregada, que chamava a minha avó para cuidar dos meus ferimentos, pois fui um menino muito bagunceiro. Não conseguia notar nenhuma expressão em sua face quando ela me via machucado e sangrando. Pensava que ela não gostasse de mim, aliás, até hoje eu penso isso, mas agora sei que ela deve ter passado por alguma situação que a deixou daquele jeito.
    Talvez ela tivesse o embotamento afetivo, que é a ausência de emoções, de uma forma simplificada. Hoje eu tenho um pouco disso, a sensação é que os sentimentos não foram embora, mas que estão escondidos em algum lugar dentro de nós. Ela também tinha problemas de audição, mas isso não explicava o fato dela ficar em seu mundo, quase que sem comunicar com as pessoas. Pessoas com essa deficiência se comunicam, ou fazendo gestos e tentando falar alguma coisa, ou então estudam a libras. Só sei que até hoje não sei quase nada sobre minha mãe, só sei que ela sofreu muito comigo, pois não fui um bom filho. Confesso que, quando criança, até por volta dos oito anos de idade, chegava a ser agressivo com ela algumas vezes. A verdade é que eu queria que ela fizesse alguma coisa, que falasse algo comigo, que me corrigisse como a mãe dos meus amigos faziam com seus filhos. Eu chegava a ficar o dia inteiro na rua e ela não me procurava para saber onde eu poderia estar, como as mães dos meus amigos faziam. Não quero aqui dar uma de vítima, de coitadinho, mas a falta de um diálogo com os pais fazem muita falta a uma criança. Sem contar o fato de que não tinha lembranças de meu pai. Mas hoje eu sei que ela tinha seus problemas e que foi uma santa e que sofreu muito com seu filho arteiro.
    O meu complexo messiânico tomou dimensões maiores quando tive meu segundo surto. Estava com 32 anos de idade na época e cheguei a pensar que morreria aos 33. Em alguns momentos pensei que tinha que pregar o evangelho para os moradores de rua e quase pedi demissão do eu serviço, com esse intuito. E, para complicar tudo, meu nome também começava com JC. No segundo surto, sofri muito também, pois morava sozinho e tinha que trabalhar para me sustentar. Foi uma época em que fui muito caluniado e injustiçado, o que me fez sentir mais ainda como Jesus Cristo. Acho que toda pessoa se sente um pouco Jesus Cristo quando é injustiçada. Esses pensamentos messiânicos foram embora quando voltei a tomar a medicação, que estava em falta na cidade na época.
    Outro comportamento messiânico que eu apresentava tinha a haver com a minha vontade de não viver mais neste mundo. Queria morrer, mas não tirando minha própria vida. Queria morrer de uma forma heroica, salvando pessoas ou por alguma causa nobre. Diversas vezes sonhei acordado salvando uma linda mulher de um tiro de revólver. Na cena, eu, ao perceber que a mulher seria atingida, me interpunha entre a bala e o corpo dela, sendo atingido em cheio no coração. No final da cena, ela, colocava minha cabeça em seu colo e dizia que me amava. Eu, apenas balbuciava algumas palavras e depois fechava meus olhos. Acho que estava vendo muitos filmes. rsrsrsrsrs.
    Outro sintoma da esquizofrenia que não está mais no Cid é o sentimento de culpa exagerado. Cheguei a conversar com alguns amigos meus, e eles também me disseram que já chegaram a ter esse sintoma também. Durante o surto, as vozes me culpavam de tudo o que havia de acontecido errado em minha vida. E não era a voz da minha consciência, pois sempre procurei ser uma pessoa correta. Só me culpo de não ter sido um bom filho e um bom neto. Gostaria de ter conversado mais com minha mãe e com minha avó, de ter agradecido a minha avó por ter se sacrificado tanto para pagar os meus estudos.
    Mas a voz durante os surtos me culpava de coisas sem sentido, que estavam completamente fora da realidade. Isso me levou a uma tentativa frustrada de suicídio na época. Acho que, se o atentado nas torres gêmeas nos Estados Unidos tivesse ocorrido naquela época, eu assumiria a autoria do atentado, tamanha era a minha sensação de culpa