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domingo, 1 de julho de 2012

Sobre mim

                                                         Infância
    Se fazer uma auto análise para que as outras pessoas vejam ou ouçam é uma tarefa meio complicada para as pessoas ditas normais, imagine para quem teve uma vida complicada com um transtorno mais complicado ainda. 
    Para começar a complicação já vem na data de nascimento, que foi trocada no cartório quanto eu tinha cerca de oito anos de idade. Minha mãe me levou ao cartório para tirar a segunda via do documento, que deve ter sido perdida. Ao pegá-lo, notei que o dia do meu nascimento foi trocado, apenas o mês e o ano estavam corretos. Nasci no dia 26/09/1969 e na certidão nova estava dia 27/09/1969. Olhei para minha mãe, mas, como ela não havia dito nada, resolvi deixar para lá esse assunto. Pensei que poderia até ter dois aniversários para comemorar
    Costumo dizer que não "fiquei" esquizofrênico após o primeiro surto, aos 32 anos de idade, e sim que já nasci esquizofrênico, ao relembrar e analisar meus pensamentos e atitudes durante minha infância, adolescência e na fase adulta também. Fui criança até os 14 anos de idade, brincando de esconde esconde, queimada, banco imobiliário e outras coisas daquela época. Quando não estava fazendo isso, ou estava fazendo bagunça ou jogando bola. Virei adolescente por volta dos 15 anos de idade e virei adulto aos 17, quando minha avó faleceu e tive que começar a trabalhar. Foi uma mudança muito repentina e resolvi sair de casa, pois a sensação que eu tinha era de que estava sobrando naquela casa.
    Nunca houve um diálogo em nossa casa. Não brigávamos, mas também não conversávamos. Somente minha avó conversava um pouco comigo, às vezes. Minha mãe tinha problemas de audição e se isolava do mundo. Mas, além disso, creio que também deveria ter algum transtorno mental, pois até hoje me lembro do dia em que ela teve uma crise e foi levada ao hospital. Quando minha avó chegou em casa, disse, meio que reclamando.
- O médico disse que a minha filha é louca".
    Não tenho nenhuma lembrança do meu pai. Provavelmente deve ter se separado de minha mãe antes que eu completasse quatro anos de idade.
    Por não ter alguém para me educar e me impor limites, fui um menino bem bagunceiro. Qualquer coisa de errado que acontecesse na rua os vizinhos não pensavam duas vezes em bater em nossa porta para tirar satisfações. Confesso que, na maioria das vezes eles tinham razão.
    Era tão bagunceiro que, no dia da primeira comunhão, pensei em fazer uma lista de todos os meus pecados, com medo de esquecê-los na hora de me confessar para o padre. Estava preocupado, com receio de que Deus iria me castigar cruelmente caso não contasse todas as minhas peraltices. Estudava em um colégio de freiras, e tinha ouvido falar que certa vez a hóstia se transformou em  sangue na boca de um menino que tinha resolvido ocultar os seus pecados. Também estava preocupado com a cerimônia, pois, se resolvesse contar tudo, certamente iria atrasá-la em cerca de meia hora. No dia da primeira comunhão lembro-me que acordei febril e suando frio, mas, quando chegou a minha hora de confessar, só contei dois "pecadinhos" e o padre pediu para que eu rezasse cinco ave marias e cinco pai nossos.
                                                        Adolescência
    Como disse anteriormente, fui criança até os quatorze anos de idade, o que era algo normal para a época.  Já sentia que havia algo estranho em mim, me sentia diferente e pressentia que algo de não muito bom estaria por vir, pois não estava gostando muito da ideia de me tornar um adulto.
    Fiquei um pouco rebelde, e para demonstrar essa minha nova fase, virei metaleiro. Deixei o cabelo crescer e comecei a ouvir bandas de heavy metal. Não cheguei a usar drogas, já era meio maluquinho por natureza mesmo e, para me enturmar com os metaleiros, bebia um pouco e fingia estar bêbado, também com o pretexto de poder fazer minhas brincadeiras e palhaçadas.
    Aos dezessete anos, prestes a terminar o curso técnico de eletrônica, minha avó faleceu e então comecei a trabalhar. Como a única referência de família não estava mais em casa, resolvi ir embora.
    Meu primeiro serviço foi em uma firma que vendia e consertava equipamentos hidráulicos, compressores, etc. Era ajudante de mecânico, e, como detestava graxa, fiquei nesse trabalho por apenas sete meses.
    Como gostava de música, meio que por acaso consegui um trabalho em uma firma de sonorização para shows, festas e outros eventos. Trabalhar nessa área me fazia feliz e desisti da eletrônica, pois a grana que eu ganhava não dava para pagar o colégio também.
                                                       
                                                      Fase meio adulta...
    Com o tempo, fui deixando de ser o rebelde metaleiro para ser o pacato cidadão, o que sou até hoje. Comecei a me fechar para o mundo depois que minha avó faleceu. Ficava sempre na minha mesmo, apesar de ser um cara engraçado e até meio esquisito. Chamava a atenção das garotas, apesar de não ser bonito. Tinha o cabelo comprido e cheguei até dar autógrafos quando estava trabalhando em um show. Às vezes, as garotas prestavam mais atenção em mim do que na banda que estava tocando em cima do palco.
     E, desde então passei a só trabalhar na área de sonorização. Era o que eu gostava: música, shows, conhecer novos lugares e pessoas. Não me importava nem um pouco de ter que trabalhar mais nos finais de semana e feriados do que nos dias de semana. Chegava a ficar meio deprimido, quando chegava o mês de janeiro, época de pouco serviço. Um mês de férias era muito para mim.
    Fui um bom funcionário por todos os lugares onde havia passado. Era meio cigano, não ficava muito tempo em um serviço e mudava constantemente de cidade, como se estivesse à procura de algo, que hoje sei que está dentro de mim. Consegui trabalhar bem até por volta dos trinta anos de idade, quando os primeiros sinais da esquizofrenia começaram a aparecer. A sensação de que estava sendo observado e de que estavam todos contra mim começou a atrapalhar o meu rendimento no trabalho e o meu convívio social.
Houve uma época em que realmente havia algumas pessoas contra mim, principalmente na firma onde eu trabalhava, simplesmente pelo fato de eu ganhar mais e ser um profissional mais requisitado para os serviços da empresa.
    Esses pensamentos e sensações viraram uma bola de neve e então tive meu primeiro surto aos trinta e dois anos de idade.Abandonei o serviço e morei nas ruas por aproximadamente cinco meses, até me estabilizar novamente, e então voltei a trabalhar. Um ano depois, voltei a surtar e, após voltar para as ruas, fui levado para um albergue, onde fiquei por cerca de um ano e meio, até conseguir o auxílio doença.
    Depois de cinco exaustivos anos fazendo perícias no INSS, consegui me aposentar.
                   
                                                        Hoje em dia
    A aposentadoria foi um mal necessário e que trouxe um grande vazio em minha vida. A sensação de inutilidade é muito grande e procuro preencher isso fazendo cursos, aprendendo coisas novas e escrevendo este blog.
    Também escrevi um livro contando sobre os meus surtos até os dias de hoje. É uma história diferente, pois, ao contrário da maioria dos portadores de esquizofrenia que são internados quando surtam, eu, acho que por não ser agressivo, ia para as ruas até conseguir me estabilizar novamente. Não posso contar muita coisa do livro neste blog, pois, apesar das dificuldades, sonho em vê-lo sendo publicado algum dia.
    Quem souber de uma ideia ou alguém que possa me ajudar nisso, entre em contato comigo. Queria deixar bem claro que não estou escrevendo este blog para conseguir alguma ajuda para o livro, queria apenas compartilhar minhas experiências com as pessoas sobre a minha visão sobre a esquizofrenia, tentando ajudar a diminuir o preconceito e o estigma que cerca essa patologia.