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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Por que sair por ai?

     A maioria das pessoas encaram com naturalidade a decisão de uma pessoa de sair andando por ai, só com a mochila nas costas. Comigo não foi diferente, quase todos os meus amigos, virtuais ou não, acharam a decisão normal. Mas boa parte chegou a pensar que eu estava ficando maluco, que eu tinha parado de vez com os medicamentos.
    Muitas pessoas fazem isso no mundo todo, por que eu não posso fazer? Por que tenho esquizofrenia? Sei que alguns portadores passam por problemas sérios e graves, e até nem saem de suas casas, devido a patologia. Estou ciente dos perigos que as andanças podem trazer, mas, sinceramente, me sinto mais seguro nas ruas do que no local onde estava morando, ao lado de homicidas, traficantes, de pessoas que fingem ser seu amigo para ganhar a sua confiança para depois te roubar.
    Certo dia, uma vizinha simplesmente resolveu fazer um churrasco bem em frente de minha janela, e, pra variar, colocou o funk na maior altura. O vento trouxe toda a fumaça para dentro do meu quarto, e tive que passar a tarde de domingo no kartródomo, deitado na grama, vendo aqueles carrinhos dando voltas no circuito. Essa vizinha é traficante e possui uma arma. Alguém iria reclamar?
    Foi naquele dia que criei a coragem de tomar a decisão de sair por ai, com as mochilas nas costas. Antes, dei uma olhada em alguns quartos para alugar em Ipatinga. O preço de um quarto com espaço para colocar as minhas coisas variava entre 280 a 300 reais, ou então teria que vender algo para alugar um quarto menor, e com telha de amianto, o que é quase uma sauna na cidade de Ipatinga no verão. Para complicar ainda mais as coisas, o restaurante popular foi fechado, e, com os empréstimos que havia feito, o meu orçamento estava e muito comprometido.
    Então pensei: não tenho nenhum compromisso com ninguém, sou uma pessoa livre, e como estava me sentindo mais seguro na rua do que em casa, por que não sair andando por ai? A situação estava complicada mesmo, e, para piorar, o proprietário me colocava como uma espécie de sindico, de bombeiro, encanador, eletricista, porteiro, segurança, etc. Certo dia ele me pediu que revistasse uma inquilina sua, alegando que foi roubado por ela, ou seja, ele bota qualquer pessoa para morar em seus quartos e depois eu que tenho que resolver os problemas. Ele havia trocado a chave do portão, e não passou as cópias para quem não trabalhava, ou seja, os traficantes. Então eu tinha que ficar abrindo e fechando o portão, dia e noite, para os caras, e, quando deixava trancado, eles queriam partir para a briga. Ninguém aguenta né?
    Estou há um bom tempo fora daquele lugar e já estou me sentindo bem melhor. As dores musculares foram embora e já estou caminhando com mais disposição. Voltei até a fazer um pouco de exercícios físicos( em plena calçada mesmo!). Claro que não faço isso na Av. Afonso Pena, no centro da cidade. Escolho uma rua pouco movimentada e coloco um pedaço de papelão para me exercitar. Algumas pessoas me olham com estranheza, talvez pensando que eu seja maluco, mas para mim não tem nada de loucura querer cuidar da saúde, seja em qualquer lugar.
   Cheguei a pensar que estava doente, fazia exames, mas estava tudo em ordem, com exceção dos triglicerideos, que estavam o triplo do limite. Conclui que então que o stress e a tristeza de morar naquele ambiente é que estavam me deixando desanimado. Não me arrependi até hoje de vender as coisas que tinha a preço de banana, inclusive o computador com apenas três meses de uso, com uma boa configuração. O vendi por um pouco menos da metade do preço, tamanha  era a vontade de sair daquele local. Até que ultimamente o local estava mais tranquilo, pois a polícia botou uma boa parte para a rua, pois estavam morando ali ilegalmente, sem o proprietário saber. Espero que ele tenha aprendido a lição de que não vale a pena ter quantidade de moradores sem qualidade.
    Posso falar por experilência própria: nada é mais importante do que a nossa saúde, tanto física quanto mental. Pretendo sair por ai, fazer o Caminho do Padre Anchieta, visitar amigos que não via há muito tempo, passear, enfim, viver um pouco a vida, coisa que não fazia há muitos anos por estar na prisão em que eu mesmo me havia colocado. Digo prisão no sentido figurado, mas que também não difere muito de uma prisão verdadeira, pois saia de casa apenas para almoçar e fazer coisas estritamente necessárias. Provavelmente, muitos político e outras pessoas influentes que foram presas tem mais regalias que estava tendo, porém não têm duas coisas importantíssimas: a consciência tranquila e a liberdade para ir aonde achar melhor.
    Hoje, entendo melhor por que o decalque do corcel bege com uma frase em espanhol me chamou tanto a atenção quando criança:
    A liberdade sempre foi uma nessecidade para mim. Liberdade de ir e vir para onde quiser, de me expressar, e principalmente de ser eu mesmo, apesar de todas as minhas imperfeições e defeitos. A frase do corcel bege, que não sei se era o de 73 do Raul Seixas, dizia o seguinte:
"Mi sonho és ser libre como el pássaro"
    E ainda tem um lado espiritual nisso tudo, o fato de caminhar, de poder refletir melhor sobre a vida, essas andanças me elevam espiritualmente, não tenho palavras para definir esse sentimento. Mas, se olharmos bem a história, a caminhada está bem presente em algumas religiões: Jesus e seus apóstolos caminhavam e muito pelos desertos, os mulçumanos fazem a sua peregrinação a Meca, tem o caminho de Santiago, o do Padre Anchieta, que pretendo realizar, enfim, exemplos que não faltam para explicar o motivo de muitas pessoas sairem caminhando por ai, afinal, a vida é uma caminhada, cheio de estradas  de todos os tipos: tortuosos, bonitos, obscuros, alegres,etc. Não sei se existe um caminho certo para ser seguido, mas que podemos escolhê-lo, isso podemos sim.
caminho do Padre Anchieta- ES


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Nas ruas 19/02

   
Quatro dias nas ruas de Belo Horizonte e não fui incomodado por ninguém. Muito pelo contrário, as pessoas tem sido muito legais comigo, não tenho do que reclamar. Tem um morador de rua, que não sei qual o seu nome, que fez questão de me chamar quando um senhor estava distribuindo marmitex para moradores de rua. Obviamente que não aceitei, pois tenho dinheiro para me alimentar e não quero me aproveitar da boa vontade alheia. Esse morador de rua me parece ser um cara bom, até me indicou um lugar onde eu poderia ganhar uma grana vigiando carros. Ele não tem nada e mesmo assim se preocupaca com o bem estar dos outros. Claro que não vou confiar nele, morar nas ruas é algo bem complicado e traiçoeiro, talvez ele esteja querendo se aproximar de mim para tentar pegar a minha mochila, pois ela já me viu com a câmera fotográfica na mão Para ele, eu sou um desempregado, não contei a verdade para ele, não sei se entenderia. Mas a verdade é que eu estava correndo mais perigo naquele lugar, cercado de traficantes, do que agora nas ruas.
    Peço a Deus que continue me protegendo  e que o meu anjo da guarda não se canse aqui do maluquinho. Provavelmente ele estava adorando a tranquilidade dos últimos anos e deve estar meio chateado agora que resolvi continuar as minhas  andanças por ai.
    Sempre fui assim, não gosto tanto assim de estabilidade e acho que meu anjo da guarda  já deve ter pedido aposentadoria por stress devido ao excesso de trabalho. Mas no fundo, sei que ele gosta de mim, pois já me livrou de muitas situações perigosas e complicadas. É uma boa relação que tenho com ele, de muita confiança, e acho que até exagerada, por não temer algumas situações. Claro que primeiramene acredito em Deus, não o Deus de igrejas, denominações religiosas, de seitas, etc. Acredito no meu Deus, um ser superior, que criou a terra e não é um ser castigador e cruel, como muitos andam pregando por ai. O meu Deus também não dá riqueza em troca de sua fidelidade, e também não vende salvação para ninguém.
     Hoje foi um dia sem novidades. Dormi em frente a Defensoria Pública, para resolver o problema do cara lá da China que me ofereceu dinheiro fáci na internet. A fila para ser atendido é bem grande, e então, para ser o primeiro da fila, dormir em frente ao estabelecimento. Como disse anteriormente, a ideia de ganhar dinheiro fácil me atraiu, pois não estava bem na época, já que estava morando em meio aos traficantes e não estava dormindo. Pelo que deu para entender, o cara lá da China me enviaria dinheiro e eu teria que repassar para seus contatos. Em troca, eu poderia ficar com 10% da transação. Queria sair de qualquer jeito daquela situação, ir morar em um lugar melhor e  então resolvi responder os emails do cara. Isso me parecia algo haver com lavagem de dinheiro, sonegação de impostos, sei lá, finanças não é o meu forte. Mas, por fim acabei desistindo do negócio, não é do meu gênero fazer isso, sem contar que ter a consicência tranquila não tem preço. Colocar a cabeça no travesseiro ou no papelão à noite com a cabeça tranquila é a melhor coisa do mundo.
    Quando fui atendido pelo advogado na defensoria, ele até achou engraçada a minha história. Pois, o que o cara lá da China me passou foi uma réplica de um cheque que não tem nenhum valor. Confesso que fiquei com medo no dia que recebi o  cheque, queria de qualquer jeito devolvê-lo, mas o envelope não tinha o remetente. Cheguei a cogitar a conversar com a policia federal sobre o caso, pois o cara lá da China não parava e ainda não me para de me mandar emails chatos. O advogado da defensoria riu muito dos emails que imprimi e passei para ele. Me disse que se trata de um caso de extorsão, ou seja, dentro de alguns dias o carinha lá da China vai começar a me ameaçar querendo dinheiro para não fazer algo contra mim. Mas acho que não vai acontecer nada, pois só passei o meu endereço para ele, apenas. O advogado me aconselhou a parar de responder os emails e não fornecer mais nenhum dado para o carinha lá da China.
    O lugar onde eu guardava o papelão(que é a minha cama) agora abre durante o dia, ao contrário de quando tive o meu primeiro surto. Então agora terei que sair procurando papelão todos os dias se não quiser dormir no chão. Confesso que não tenho vergonha de sair andando no centro da cidade com pedaços de papelão entre os braços. Tenho vergonha sim de roubar, de viver vendendo drogas, ou seja, ganhando o dinheiro com a desgraça alheia, etc.
    Ontem a tarde fui no centro de referência para moradores de rua, para tomar um banho, já que na rodoviária isso custa seis reais, ou seja, teria que gastar quase 200 reias por mês, no mínimo, já que costumava tomar banho duas vezes por dia. Um pela manhã, bem frio, para dar uma despertada, e outro, a noite, pois não consigo dormir direito sem tomar um bom banho. O centro de referência é um pouco triste, pessoas sem saber o que fazer, sem perspercitiva de um futuro bom. Lá tem uma pequena quadra de futebol, televisão, uma pequena biblioteca, e várias oficinas. Também é possível lavar as roupas por lá.
    Com o tempo vou me familiarizando com os lugares que tenho que frequentar. Encontrei uma lan house que cobra apenas 1,80 reias por hora( na rodoviária do Rio era 5 reais meia hora!). Já encontrei lugares onde encontro o yakult e também onde tem uma comida self service boa e barata. Não compro marmitex, pois, como não sou de comer muito, o preço no self fica o mesmo, e ainda tem  a vantagem da escolha, pois gosto mais de salada do que de arroz e feijão. Bem, não é gostar, e sim por causa da saúde mesmo. As coisas que gosto, e creio que da maioria também, são coisas que engordam e fazem mal a saúde, como doces, sorvete, chocolate, carne em excesso, etc.
  Só não encontrei ainda um lugar que venda ovo cozido, pois como a Leda Nagle, o ovo foi abolido pelos nutricionistas. Antes, comer ovo era uma temeridade, pois tinha ouvido falar que um ovo continha o dobro de colesterol que uma pessoa precisa durante um dia, ou seja, nem pensava em comer ovo. Mas hoje ele está em alta e foi absolvido, só não é legal comer ovo frito encharcado em gordura né?
   Hoje realizei um desejo de onze anos atrás. Quando tive o meu primeiro surto, ficava com água na boca toda vez que passava em frente a uma loja que vendia produtos derivados do milho, como pamonha, bolos, etc. Não tinha grana para comprar, ás vezes ficava sentado em frente a loja e ficara encarando a pamonha, e um dia fiz uma promessa para mim mesmo, dizendo que voltaria ali para comer uma pamonha, mas em outra situação. Já havia me esquecido dessa promessa, mas, ao passar em frente a loja, me lembrei desse antigo desejo, e não hesitei de comprar uma pamonha, apesar do preço não ser muito convidativo. Foi uma sensação legal, além da pamonha estar deliciosa, foi como um cumprimento de um dever.
    Estou vivendo um dilema: não posso tomar remédios à noite, pois senão seria uma presa fácil para qualquer pessoa que queira pegar minha bolsa. No primeiro surto, conseguia dormir até na calçada mesmo, sem papelão, não sei o que acontece com o nosso cérebro quando estamos surtados, mas a sensação é de que estamos quase que totalmente desligados do mundo, não sentia tantos incomodos como estou sentindo agora. Não me preocupava com nada, só tinha a roupa do corpo mesmo, e conseguia dormir em qualquer lugar. Confesso que sinto um pouco de inveja desse periodo em que estava surtado e não ligava para nada, vivendo apenas a minha realidade, se bem que não é nada agradável ficar imaginando que tem um monte de gente querendo te pegar. Mas houve um momento do surto que já não estava assim tanto com essa paranoia. e já estava no centro de Belo Horizonte, e confesso que foi legal esse estágio, em que estava fora da realidade mas sem tantas paranoias, ou seja, despreocupação total, ao contrário de hoje.

no zoológico de BH