Muitas pessoas fazem isso no mundo todo, por que eu não posso fazer? Por que tenho esquizofrenia? Sei que alguns portadores passam por problemas sérios e graves, e até nem saem de suas casas, devido a patologia. Estou ciente dos perigos que as andanças podem trazer, mas, sinceramente, me sinto mais seguro nas ruas do que no local onde estava morando, ao lado de homicidas, traficantes, de pessoas que fingem ser seu amigo para ganhar a sua confiança para depois te roubar.
Certo dia, uma vizinha simplesmente resolveu fazer um churrasco bem em frente de minha janela, e, pra variar, colocou o funk na maior altura. O vento trouxe toda a fumaça para dentro do meu quarto, e tive que passar a tarde de domingo no kartródomo, deitado na grama, vendo aqueles carrinhos dando voltas no circuito. Essa vizinha é traficante e possui uma arma. Alguém iria reclamar?
Foi naquele dia que criei a coragem de tomar a decisão de sair por ai, com as mochilas nas costas. Antes, dei uma olhada em alguns quartos para alugar em Ipatinga. O preço de um quarto com espaço para colocar as minhas coisas variava entre 280 a 300 reais, ou então teria que vender algo para alugar um quarto menor, e com telha de amianto, o que é quase uma sauna na cidade de Ipatinga no verão. Para complicar ainda mais as coisas, o restaurante popular foi fechado, e, com os empréstimos que havia feito, o meu orçamento estava e muito comprometido.
Então pensei: não tenho nenhum compromisso com ninguém, sou uma pessoa livre, e como estava me sentindo mais seguro na rua do que em casa, por que não sair andando por ai? A situação estava complicada mesmo, e, para piorar, o proprietário me colocava como uma espécie de sindico, de bombeiro, encanador, eletricista, porteiro, segurança, etc. Certo dia ele me pediu que revistasse uma inquilina sua, alegando que foi roubado por ela, ou seja, ele bota qualquer pessoa para morar em seus quartos e depois eu que tenho que resolver os problemas. Ele havia trocado a chave do portão, e não passou as cópias para quem não trabalhava, ou seja, os traficantes. Então eu tinha que ficar abrindo e fechando o portão, dia e noite, para os caras, e, quando deixava trancado, eles queriam partir para a briga. Ninguém aguenta né?
Estou há um bom tempo fora daquele lugar e já estou me sentindo bem melhor. As dores musculares foram embora e já estou caminhando com mais disposição. Voltei até a fazer um pouco de exercícios físicos( em plena calçada mesmo!). Claro que não faço isso na Av. Afonso Pena, no centro da cidade. Escolho uma rua pouco movimentada e coloco um pedaço de papelão para me exercitar. Algumas pessoas me olham com estranheza, talvez pensando que eu seja maluco, mas para mim não tem nada de loucura querer cuidar da saúde, seja em qualquer lugar.
Cheguei a pensar que estava doente, fazia exames, mas estava tudo em ordem, com exceção dos triglicerideos, que estavam o triplo do limite. Conclui que então que o stress e a tristeza de morar naquele ambiente é que estavam me deixando desanimado. Não me arrependi até hoje de vender as coisas que tinha a preço de banana, inclusive o computador com apenas três meses de uso, com uma boa configuração. O vendi por um pouco menos da metade do preço, tamanha era a vontade de sair daquele local. Até que ultimamente o local estava mais tranquilo, pois a polícia botou uma boa parte para a rua, pois estavam morando ali ilegalmente, sem o proprietário saber. Espero que ele tenha aprendido a lição de que não vale a pena ter quantidade de moradores sem qualidade.
Posso falar por experilência própria: nada é mais importante do que a nossa saúde, tanto física quanto mental. Pretendo sair por ai, fazer o Caminho do Padre Anchieta, visitar amigos que não via há muito tempo, passear, enfim, viver um pouco a vida, coisa que não fazia há muitos anos por estar na prisão em que eu mesmo me havia colocado. Digo prisão no sentido figurado, mas que também não difere muito de uma prisão verdadeira, pois saia de casa apenas para almoçar e fazer coisas estritamente necessárias. Provavelmente, muitos político e outras pessoas influentes que foram presas tem mais regalias que estava tendo, porém não têm duas coisas importantíssimas: a consciência tranquila e a liberdade para ir aonde achar melhor.
Hoje, entendo melhor por que o decalque do corcel bege com uma frase em espanhol me chamou tanto a atenção quando criança:
A liberdade sempre foi uma nessecidade para mim. Liberdade de ir e vir para onde quiser, de me expressar, e principalmente de ser eu mesmo, apesar de todas as minhas imperfeições e defeitos. A frase do corcel bege, que não sei se era o de 73 do Raul Seixas, dizia o seguinte:
"Mi sonho és ser libre como el pássaro"
E ainda tem um lado espiritual nisso tudo, o fato de caminhar, de poder refletir melhor sobre a vida, essas andanças me elevam espiritualmente, não tenho palavras para definir esse sentimento. Mas, se olharmos bem a história, a caminhada está bem presente em algumas religiões: Jesus e seus apóstolos caminhavam e muito pelos desertos, os mulçumanos fazem a sua peregrinação a Meca, tem o caminho de Santiago, o do Padre Anchieta, que pretendo realizar, enfim, exemplos que não faltam para explicar o motivo de muitas pessoas sairem caminhando por ai, afinal, a vida é uma caminhada, cheio de estradas de todos os tipos: tortuosos, bonitos, obscuros, alegres,etc. Não sei se existe um caminho certo para ser seguido, mas que podemos escolhê-lo, isso podemos sim.
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| caminho do Padre Anchieta- ES |





