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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O esquizo responde- parte 3

Esquizofrenia- Perguntas e respostas
    O título das postagem pode parecer e talvez seja, à princípio, um pouco pretensioso. Afinal, o que um cara com esquizofrenia e cheio de perrengues pode responder sobre um assunto que nem os "profissionais" da área da saúde mental conseguiram até hoje uma resposta definitiva? Digo que ainda não encontraram pois dia após outro aparecem matérias dos cientistas afirmando que foram encontrados novos medicamentos, novas fórmulas, novas descobertas de se ter um melhor controle sobre o transtorno.
Abaixo mais um link de mais uma nova "descoberta" dos cientistas acerca da esquizofrenia.
http://entendendoaesquizofrenia.com.br/website/?p=6668
    Voltando ao assunto, não sou dono da verdade e nem tenho a pretensão de ser. Sempre errei e vou continuar errando, pois sou um ser humano como qualquer outro. Lógico que não vou usar essa condição como pretexto para sair por aí fazendo um monte de cagadas. A grande vantagem é que podemos sempre aprender com os nossos erros. Estou sempre aberto à críticas e sugestões, e aprendi muito com os comentários dos leitores aqui no blog.

    Não me considero uma pessoa inteligente para fazer uma postagem com esse título. Apenas sou um cara esforçado e que procura sempre se cercar de pessoas inteligentes. Já perdi a conta de quantas vezes fiquei em uma roda de conversa (digitei à princípio "rede de conversa" pois ultimamente ando mexendo muito em computadores) apenas ouvindo, ouvindo e ouvindo as ideias e teorias das pessoas, a fim de absorver alguma coisa de interessante. A inteligência também se "pega"....
    E na época em que era uma pessoa sociável procurava sempre me cercar de pessoas inteligentes. Mas ai vem a questão do conceito "inteligência", aquele lance de ser um sábio e também da inteligência emocional. Enfim, é algo bem complexo para se discutir, mas só sei dizer que inteligência não necessariamente é sinônimo de um diploma de curso superior.

    Então, pelo fato de estudar o assunto e por também sentir na pele o que é a esquizofrenia e seus complicados sintomas é que me considero capaz de pelo menos tentar ajudar e responder algumas questões que cercam esse ainda misterioso transtorno da mente chamado esquizofrenia.

1- O esquizofrênico conversa sozinho?
    Sim e não.
    A pessoa que tem esquizofrenia pode conversar consigo mesma como qualquer pessoa dita "normal". Na minha opinião conversar não é o gesto de abrir os lábios, podemos dialogar sobre nossas dúvidas e outras questões em silêncio mesmo.
    E algumas pessoas  costumam pensar alto, ou seja, falam o que pensam quando estão sozinhas, o que pode ser considerado uma loucura para algumas pessoas.
    Quando estamos surtados, podemos sim dialogar com os nossos delírios e alucinações, que, naquele momento específico se tornam reais em nossas mentes. No meu caso em particular não me lembro de ter falado alguma coisa quando estava sozinho, pois acreditava que as pessoas ao meu redor podiam 'ler" os meus pensamentos. Então respondia também através do pensamento, como se fosse uma telepatia mesmo.
    Já fora das crises converso muito comigo mesmo, sou bastante introspectivo, como todo bom mineiro. Converso comigo mesmo, me peço opiniões sobre diversos assuntos, já que depois que descobri um pouco de mim mesmo após os surtos passei a acreditar mais na minha própria pessoa.
E acho muito válido essa conversa, pois é melhor conversar sozinho do que se abrir para uma pessoa que pensamos ser nosso amigo. Se não tem em quem confiar, confie em si mesmo.

2- Quais são os efeitos colaterais dos antipsicóticos que você já usou?
    Bem, já dediquei postagens inteiras sobre as reações adversas que tive ao usar alguns antipsicóticos. Por isso vou dar uma resumida aqui bem breve. Caso o leitor queira achar uma postagem sobre um assunto específico, basta procurar no motor de busca, uma ferramenta que existe no próprio blog e que se situa no lado superior direito da página.
o blog tem o seu próprio "google"...

    Então vamos a pequena lista dos principais antipsicóticos que já experimentei. Antes, gostaria de deixar bem claro que essas reações variam de pessoa para pessoa e também da dose usada. Não gostaria de desencorajar aqui ninguém a não tentar usar os medicamentos para controlar uma crise.
    -Diazepan; Apesar de não ser um antipsicótico, resolvi colocar o diazepan na lista pois ele funcionou por um bom tempo como um s.o.s para mim, já que na época dos primeiros surtos ainda trabalhava e não conseguia ter muita disposição tomando o haldol, que foi um dos antipsicóticos que já experimentei.
     O diazepan dá uma ressaca, de leve a moderada, dependendo da dose usada, principalmente na parte da manhã. E tive um prejuízo muito grande na memória recente. Hoje em dia com muita dificuldade consigo decorar um número de celular, por exemplo. Mas lembro com alguns detalhes coisas que me aconteceram antes de começar a tomar o diazepan. A diferença é muito grande, não sei o que acontece com as informações, mas simplesmente quando vamos a procurar em nosso "HD" não a encontramos. Já os fatos do passado distante parecem estar preservados, bastando um acontecimento para reavivá-las em nossas cabeças, talvez no subconsciente.
    E atualmente também tenho a sensação de boca seca, e constantemente tenho que "molhar o bico", o que é um pequeno inconveniente, pois também consequentemente tenho que ir ao banheiro para urinar.

- Melleril: Na primeira vez que o usei, em 2003, creio que deva ter tomado uma dose bem baixa (25mg), pois me lembro que conseguia acordar bem às sete horas da manhã, apesar de estar dormindo na rua, naquela época. Dormia em frente ao prédio do Instituto Estadual de Florestas, no bairro barro preto, aqui em Belo Horizonte. Acordava com o movimento dos pedestres indo para o trabalho. Me lembro que as primeiras pessoas que via eram as meninas do Macdonald's sentadas, à espera do horário para começarem a trabalhar.
    Já na segunda vez que usei, por volta do ano de 2005 tive muita sonolência,  sentia também que meu coração dava uma batida desordenada quando eu subia alguma escada.

- Clorpromazina: Foi o antipsicótico com o qual mais me dei bem, apensar de ser um dos mais antigos da categoria. A "clô" conseguia, juntamente com o fenergan, colocar os meus pensamentos em ordem. O problema é que dava uma "penitenciária de segurança máxima de ventre", além de torcicolo. Mas até hoje uso  por um breve período de tempo quando sinto que as coisas não estão bem e que estou prestes a surtar.
a clorpromazina até que ajudava, mas... 
- Haldol: É o "azulzinho" que não quero nem de graça.... Me dava uma acatisia danada. Para quem ainda não sabe, acatisia é, basicamente e essencialmente uma vontade insana de sair andando por ai sem rumo, uma inquietação enorme na hora de dormir. E também dava uma certa sonolência ao mesmo tempo. Então, quando tomava esse medicamento não sabia o que fazia: se andava ou se ficava deitado na cama....
    E também senti a "impregnação" tomar conta dos meus músculos. Era algo tão incômodo e irritante que dava vontade de pegar uma pedra e quebrar alguma vidraça qualquer.
    E, como a maioria dos antipsicóticos, fiquei bastante lento, o que me ocasionou um pequeno acidente na época em que trabalhava como operador de som. Deixei a mesa de som cair, e, para não rasgar a minha canela coloquei a mão, sofrendo um pequeno corte, que demorou um tempinho para cicatrizar...
espero nunca mais precisar desse "azulzinho"...

- Stellazine: Praticamente tive os mesmos sintomas do haldol, porém mais brandos.

- Orap: Não senti nenhum efeito colateral, mas também não senti nenhuma melhora em relação às minhas paranoias e desconfianças excessivas. Ou seja, era como se não estivesse tomando nada.

- Risperidona: Nos dois primeiros dias, não sei por qual motivo, fiquei animado e bem alegre e motivado, pensando que finalmente tinha encontrado o medicamento ideal para o meu problema. Estava morando em um albergue, em São Paulo, me lembro que nesses dias estava muito comunicativo e conversei bastante com caras que nem conhecia direito. Nesse albergue tinha caras vindo de todos os cantos do Brasil. Cheguei até a conversar com os haitianos, ou melhor a tentar a conversar, pois a maioria deles falam francês e inglês. Digo até não por preconceito, a tal da xenofobia, é que detesto o francês mesmo, tem que ficar fazendo biquinho para se pronunciar certas palavras corretamente...
    Mas no terceiro dia as minhas pernas estavam pesadas, principalmente na parte da manhã. Pesquisei no google e constatei que esse sintoma era do medicamento. E também sentia uma fome danada, ou melhor, mais fome ainda, principalmente em relação aos doces e massas.
- Quetiapina: Além da fome de leão, da sensação do estômago não ter fundo, triplicando a minha vontade de comer doces, tive muita sonolência e lentidão. "Você vai pagar a minha conta na padaria?", perguntei ao psiquiatra quando me interrogou sobre o não continuamento da medicação...


-Levozine: Esse medicamento é quase um sossega leão, me derrubava mesmo. Só não apagava de uma vez, o efeito ia vagarosamente aparecendo. Era complicado quando sentia vontade de urinar de madrugada, o corredor ficava estreito demais. Era como se tivesse tomado uns dez diazepans de 10mg. Tomei o levozine uma noite só, pois a ressaca também era enorme, só desaparecendo por completo por volta das quatro horas da tarde. Recomendo a quem deseje usar que compre um pinico e deixe debaixo da cama.

-Zyprex: O mais detonador de todos na questão da sonolência. Mas acho que tomei uma dose alta, para quem estava começando. Dormi praticamente dois dias seguidos, só me lembro de acordar no segundo dia e ir me arrastando até a padaria para comer um pedaço de bolo. Depois apaguei de novo. Mas, como disse, creio que deva ter tomado uma dose alta, pois conheço pessoas que tomam e as vi em boas condições na parte da manhã. Não sei se sou meio fraco para esses medicamentos, mas devolvi a caixa para a psiquiatra, pois é um medicamento muito caro.


3- As pessoas com esquizofrenia se lembram dos fatos que aconteceram durante os surtos?
    Ao contrário do que algumas pessoas devam pensar, não ficamos possuídos por espíritos ou uma entidade do outro mundo, ficamos sim acreditando em nossas paranoias e delírios. Alguns se descontrolam totalmente e outros não. Isso varia muito de pessoa para pessoa e também da gravidade do caso e do tipo de alucinação ou delírio que ela está tendo. Afinal, quem não iria pelo menos fugir ao imaginar que tem uma "galera" querendo te pegar?
    Também nos surtos não temos amnésia, pelo menos no meu caso consigo me lembrar com detalhes o que me aconteceu durante os surtos, tanto que escrevi um livro sobre eles (ainda estou vendendo, no formato PDF). O esquecimento de alguns fatos é o natural mesmo, devido ao tempo e também ao diazepan. Conversei com algumas pessoas que têm esquizofrenia e maioria delas relataram se lembrar dos fatos. Poucos relataram não ter algum tipo de lembrança de quando estiveram surtadas.

4- Você acredita ter passado por momentos traumáticos que possam ter desencadeado a doença?
    Creio que sim. Esses acontecimentos traumáticos são chamados de gatilhos. Qualquer pessoa pode pirar com algum evento traumático. E pirar não quer dizer ter esquizofrenia, pode ser um stress pós traumático, por exemplo.
    No meu caso em particular acredito que já tenha nascido com algum tipo de pré-disposição à esquizofrenia, por isso não culpo algumas pessoas pelo fato de atualmente ter os sintomas que os cientistas chamam de esquizofrenia. Mas, infelizmente o mundo está cheio de pessoas más  que querem a qualquer custo te derrubar. Basta ter paz e ser feliz para ter inimigos. Basta gostar de seu trabalho e ter uma renumeração maior do que outros funcionários da firma para ter alguns inimigos. E essas pessoas ao descobrirem seu ponto fraco podem fazer de tudo para te verem longe do caminho delas.
    Um gatilho que foi determinante para o primeiro surto foi o boato de que eu estava com aids. Na época morava em uma pequena cidade do interior de Minas Gerais. O boato foi se espalhando aos poucos, e em alguns meses a cidade inteira já falava no assunto. É aquele ditado: " Uma mentira dita muitas vezes acaba se tornando realidade".... O boato ganhou tanta dimensão naquela cidade que até eu mesmo acabei acreditando que estava realmente com aids. Me lembro que até o dono de um estabelecimento naquela cidade não gostou da minha presença, quando fui sentar em uma mesa para almoçar e não pegar um marmitex como eu sempre fazia. Talvez ele achasse que a aids pode ser contraída através dos talheres.... A depressão tomou conta de mim e fiquei à espera dos primeiros sintomas da suposta doença aparecer para dar um fim a minha vida. Digo depressão sem ter o diagnóstico pois além de triste, também tive diversos sintomas físicos: fraqueza, emagrecimento, diarreias frequentes, e me lembro que naquela época peguei dengue ou "virose" duas vezes em um pequeno intervalo de tempo. Mas, para mim esses sintomas eram da suposta aids que eu havia contraído e assim chegou a um ponto que não conseguia mais trabalhar.
    Creio que também existiu um outro gatilho, e que foi o primeiro: o fato de conhecer a maldade de alguns "humanos", principalmente no ambiente de trabalho nessa pequena cidade de Minas Gerais.
O fato de ter um salário um pouco superior e ter a preferência dos clientes para executar os serviços me renderam alguns inimigos, inclusive até os que eu tinha ensinado alguma coisa sobre como operar uma mesa de som. Mas, como disse, não estou jogando a culpa pelo fato de ter esquizofrenia nessas pessoas. Desde criança tive um enorme receio de crescer e conhecer como é a realidade dos seres humanos. Em minhas pesquisas, já li que a esquizofrenia pode ser um tipo de negação da realidade. No meu caso creio que essa realidade do mundo dos humanos adultos tenha sido algum componente indireto para esse tipo de situação que enfrentei e enfrento até hoje. Me lembro de um pedido que fiz à Deus quando criança, que era de nunca conhecer a maldade dos seres humanos.
Não sou santo, mas nunca me preocupei com o salário dos demais funcionários das firmas por onde trabalhei...

5- O que você sente após passar por uma crise?
    Cada crise e surto foi diferente, o primeiro foi o mais difícil de todos, pelo fato de não ter nenhum conhecimento sobre o transtorno. Talvez a sensação seja parecida com a de alguém que passou por uma tempestade violenta, um furacão que derrubou todos os seus alicerces.
As minhas primeiras crises foram assim. Tudo o que eu imaginava e minhas certezas caíram por terra. Dúvidas e mais dúvidas povoaram a minha mente. Por que eu? O que eu fiz para merecer isso? Afinal, o que eu tenho? Fizeram algum trabalho de magia negra contra a minha pessoa? Como será daqui para frente? Vai acontecer de novo?
    Me lembro que fiquei muito preocupado quando chegou o primeiro dezembro após o meu primeiro surto grave. Me lembro do dia em que pedi demissão da firma nesse surto, era dezembro de 2002 e a única saída que havia enxergado para fugir dos inimigos reais e imaginários que se tornaram reais naquele época era fugir daquele lugar.

6- O que te faz vontade de viver todos os dias, apesar de todos os problemas?
Confesso que às vezes passo por períodos difíceis, e em muitas situações o pior já passou pela minha cabeça, já tentando algumas vezes o autoextermínio.  Mas, depois das primeiras crises que tive, passei a me conhecer e a me entender melhor. O autoconhecimento não tem preço....
     Também tenho minhas crenças, e uma coisa em que todas as religiões têm em comum é a acreditarem que o autoextermínio não é uma boa solução para nossos problemas. Claro que toda regra tem exceção, os terroristas radicais acreditam que se morrerem como mártires serão muito bem recompensados....
    Outra razão para continuar vivendo são os meus inimigos reais, que se aproveitaram dos meus momentos de fraqueza para se verem livre de minha pessoa. Voltei várias vezes à essa cidade do interior de Minas Gerais, e em uma dessas visitas confesso que não resisti e cheguei a colar nos postes e a "panfletar" o resultado do exame de HIV que eu havia feito e que dera negativo.

7- Qual foi a reação ao receber o diagnóstico de esquizofrenia?
Não fiquei revoltado e nem indignado, e sim muito curioso. Imediatamente após receber o diagnóstico, fui a biblioteca municipal da cidade onde morava e li um CID antigo que estava encostado na instante. Mas não fiquei satisfeito, comprei um computador, fiz o curso de informática e passei a estudar o assunto. Conheci pessoas que tinham o mesmo problema e passei a encontrar respostas para o meu modo arredio de ser, dentre outras questões que vinham constantemente em minha mente. 

o preconceito surge pela falta da informação 

8- Qual a sua mensagem para outras pessoas que sofrem ou tem parentes com esquizofrenia?
    Que se informem o melhor possível. Procurem outras opiniões caso tenha alguma dúvida sobre o diagnóstico. A informação é a base de tudo, o preconceito surge quando não estamos devidamente informados sobre determinado assunto.
    A informação é a melhor arma. Devemos aprender a conviver com a esquizofrenia, e a conhecê-la, como se fosse um jogo de futebol, onde conhecemos o adversário e atacamos os seus pontos fracos e aprendemos a nos defendermos dos seus pontos fortes. No meu caso em particular, depois que passei a estudar o assunto vi que o que mais me prejudicava era o fato de me preocupar demais com a opinião alheia. Passei a evitar o stress e a evitar certo tipos de situações em que poderia despertar alguma sentimento negativo contra a minha pessoa.
    A informação é essencial, afinal, como iremos lutar contra algo que não conhecemos?




terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O esquizo responde - parte 2

 
    Mais uma postagem com perguntas e respostas sobre o tema esquizofrenia. Não sou estudante, nunca frequentei uma faculdade, mas a vida me ensinou muito e sempre procurei aprender com os meus erros, além de ser uma pessoa bastante curiosa. Tudo isso aliado a experiência prática no tema me fez sentir capaz de responder algumas perguntas, ou pelo menos tentar ajudar a tirar um pouco as dúvidas das pessoas sobre essa tema tão complicado e ainda cercado de mistérios que é a esquizofrenia. Sintam-se à vontade para fazerem mais perguntas, que irei deixando acumular até dez questões, que acho um número interessante para uma postagem.

1- Você já sabe diferenciar o que é real do que não é real?
    Atualmente não tenho tido tantas alucinações como no início, por volta do ano de 2002. Existe uma classe de sintomas da esquizofrenia que são chamados de sintomas negativos, que é a apatia, o desânimo, a falta de interesse, etc. Creio que estou mais nessa fase dos sintomas negativos e não tenho tido tantas alucinações. Só a mania de perseguição que ainda me persegue. Esse tipo de sintoma até hoje não sei como vencê-lo, mas já lido melhor com ele do que há uns dez anos atrás. Infelizmente no momento em que ocorre essas situações, não tem como saber se são reais ou não, se tem algum fundamento para tê-los, creio que pela tensão que ficamos na hora em que ouvimos uma voz, por exemplo.
   Por exemplo, "penso que os traficantes pensem" que eu seja algum informante da polícia, e também chego a pensar que a polícia pensa que eu seja um traficante, um usuário de drogas. Tenho que ficar analisando os fatos, para tentar "administrar" essa paranoia, se ela tem algum fundamento ou não. Talvez os traficantes possam pensar que eu seja um "caguete" por ser um cara calado e pouco conversar com as pessoas. E por outro lado chego a pensar que a polícia pense que eu seja um traficante, por não estar trabalhando e ter uma renda e morar relativamente perto de uma "boca de fumo".
     Esse tem sido um grande desafio para mim, conviver com esses delírios persecutórios e ter uma vida próxima do normal. Já as alucinações auditivas hoje em dia são bem raras, e, quando acontecem, no momento penso que são reais, pois são bem nítidas as vozes. No dia seguinte analisando melhor a situação, às vezes consigo chegar à conclusão de que não foi real aquela voz, de que não foi ninguém que disse aquilo que ouvi.

2- Como são as suas alucinações visuais? Você vê pessoas que na verdade não estão ali?
    No meu caso em particular as alucinações visuais foram em menor número do que as auditivas, mas foram bem estranhas de se explicar. Certa vez, quando estava surtado, vi algo parecido com um machado vindo em minha direção, me lembro que no momento até me abaixei para desviar dele. Hoje sei que não foi real, pois não me lembro de ter ouvido nenhum barulho, pois era para o machado ter batido na parede ou no portão. 
    Também vi várias pessoas, e em alguns casos foi possível chegar à conclusão de que foram realmente alucinações, ao fazer a análise dos fatos. Por exemplo, quando estava perambulando pelas Br's, cheguei a ver dois colegas de trabalho, que não via a cerca de 16 anos atrás. Mas eles estavam com a mesma aparência, até o carro que o dono da firma dirigia continuava no mesmo estado, um fiat 147. No momento é claro que pensei que era real, pois eles pararam bem em minha frente. Não disseram nada, me lembro que o carona chegou a me oferecer algo, mas nem havia prestado atenção, de tão surpreso que estava. Hoje sei que não era possível aquilo ter acontecido, pois, além de não terem mudado a aparência, não falaram nada comigo, sendo que o dono da firma era uma pessoa bem extrovertida e sorridente. Sinceramente até hoje não sei explicar como aconteceu aquilo, pois no final eles foram embora, dando a partida no carro. E não eram parecidos com eles, eram os caras mesmo que estavam dentro do carro, só que com a mesma aparência de 16 anos atrás, até estavam usando o uniforme azul da firma.
    Tive várias outras alucinações visuais, durante os surtos. Via pessoas que conheci em outras cidades em Belo Horizonte, passando por mim e me olhando. Se fosse realidade, pelo menos algumas delas teria falado comigo. Na Br, de noite, cheguei a ver um vulto parecido com a "morte" meio que deslizando pela estrada. Confesso que na hora fiquei muito assustado, e tinha a certeza que ela queria algo comigo. Mas ela passou direto, e, quando a vi pela segunda vez já estava acostumado e não cheguei a me assustar. Hoje sei que foi uma alucinação, pois não poderia ser uma pessoa, pois não estava andando, e sim deslizando pela Br, e naquela velocidade uma pessoa teria que correr.
    Os temas místicos muitas vezes aparecem nos surtos psicóticos, é como se fosse um eco da mente, em que nossos medos e receios saem do nosso inconsciente e podem aparecer por meio das vozes e alucinações visuais.


3- Como é o delírio persecutório?
    Como já relatei na primeira pergunta, imagino que as pessoas estão contra mim. Penso que os traficantes querem me pegar por que "penso que eles pensam" que eu seja um "caguete". E penso que os policiais desconfiam de que eu seja um traficante, por não trabalhar e ter uma renda.
    Andando pelas ruas, penso que estão todos olhando para mim, apesar de não encontrar motivos para atrair a atenção das pessoas. Não adianta analisar os fatos, esse tipo de pensamento é um pouco difícil de não ter. Se por acaso riem, penso logo que estão rindo de mim.  E se estão sério demais, penso que é por que fiz algo de errado e estão me censurando. Também chego a exagerar no número de câmeras, penso que estão em todos os lugares, em todas as ruas. 
    A situação fica mais complicada quando tenho algum tipo de alergia ou então fico doente, e então logo imagino que algum "inimigo" conseguiu me envenenar, colocando algo em minha comida. Resumindo, no delírio persecutório chego a imaginar que tudo gira em torno de mim, e que todo o mundo está contra mim.

4- Você tem instabilidade de humor em questão de minutos?
    Sim, e creio que muitas pessoas também têm, independentemente de serem ou não portadoras de esquizofrenia. Mas no meu caso, isso é muito recorrente, e chega a prejudicar a vida social, pois não tem como marcar alguma coisa, pelo simples fato de não saber como estarei naquele dia marcado. Essa variação de humor é mais comum na bipolaridade, mas também pode ser um dos sintomas da esquizofrenia, tanto é que alguns psiquiatras chegam a diagnosticar um portador de esquizofrenia como bipolar, e o contrário também chega a acontecer. Abaixo um link com as semelhanças e diferenças entre a esquizofrenia e bipolaridade.
http://entendendoaesquizofrenia.com.br/website/?p=3733

5- O que preciso fazer para namorar uma pessoa esquizofrênica? Já estou namorando, só preciso saber os cuidados, e o que não devo fazer, pois gosto muito dela e quero ajudá-la a ser feliz.
    Bem, é uma pergunta que tem uma resposta simples. Seja você mesmo, sem mentiras, sem falsidades. Não existe a pessoa "esquizofrênica". Cada pessoa que tem esquizofrenia tem a sua maneira de ser e pensar. Tem suas qualidades e defeitos. Não existe um padrão de pessoa com esquizofrenia, infelizmente é um rótulo que a sociedade nos colocou.  Existe sim alguns comportamentos que são os sintomas da esquizofrenia: desconfiança exagerada, o retraimento, isolamento e outros sintomas parecidos. O que você pode fazer é se informar ao máximo sobre o assunto, para assim lidar melhor com o seu companheiro(a).
    E também tratá-la como se fosse uma pessoa normal, que não tem nenhum problema. A melhor maneira de tratar uma pessoa com "problemas" é tratá-la como se não tivesse problemas. Quero dizer com isso é que o sentimento de pena, dó, não é muito legal. Mas às vezes é preciso ter paciência em algumas situações, deixar algumas questões para serem resolvidas depois. Mas no geral não tem nada demais, nenhum cuidado exagerado deve ser tomado. Claro que tudo depende da gravidade do caso e do tipo também.

6- Qual a relação entre a depressão com a esquizofrenia?
     Bem, se considerarmos que a depressão é uma doença endógena, podemos então dizer que não existe muita relação entre a esquizofrenia e a depressão. Existem sim os sintomas negativos da esquizofrenia que são bem parecidos com os da depressão, que são: a apatia, a falta de energia, de interesse, o embotamento afetivo, etc.
     Creio que, depois do primeiro surto psicótico principalmente, possa bater uma tristeza tão grande na pessoa que possa ser confundida com a depressão. O diagnóstico pode também causar um desânimo muito grande. Então, devemos em primeiro lugar saber diferenciar tristeza, desolamento da depressão.
    Hoje em dia também se fala na depressão exógena, que acontece em razão de circunstâncias de nossas vidas: uma perda, um trauma, etc. Creio que o diagnóstico da esquizofrenia, as incertezas, o preconceito, tudo isso possa levar à esse tipo de depressão, se bem que prefiro usar a palavra tristeza mesmo. Pois, na minha opinião, quando existe um motivo para essa situação, não se deve chamar de depressão, pois não existe medicamento que cure a tristeza de uma alma.

7- Você faz algum tipo de terapia psicológica?
    Já fui em diversos psicólogos (as). Mas no meu caso em particular não surtiram efeito ou melhoraram a situação, pois nas terapias apenas me faziam perguntas e anotavam tudo em um caderno. O que mais precisava no início era de informação sobre o que eu realmente tinha, pois vivia indo nas igrejas para espantar o "tinhoso", pois pensava se tratar de algo puramente espiritual. Mas nas igrejas ficava ainda mais confuso, pois, quando ia na frente, muitas pessoas caíam, menos eu. Cheguei a pensar que o espírito que estava em mim era muito forte, e que precisaria de um exorcismo. Como disse antes, as questões religiosas e místicas podem estar muito presentes, principalmente durante os surtos.

8- Como são seus delírios?

     Existem definições diferentes sobre a definição da palavra delírio, mas na psiquiatria ela quer dizer basicamente pensamentos que não correspondem com a realidade. 
    Antes de surtar, tinha um delírio de que era superprotegido pelo meu anjo da guarda e então não temia praticamente nada, chegando a me envolver em situações complicadas. Não sei se foi coincidência ou não, sempre passava por essas situações ileso. Acho que passava tanta autoconfiança nessas situações que as pessoas sentiam um pouco de medo de mim. Me lembro que cheguei a encarar um cara bem forte quando tinha uns 16 anos. Parecia um lutador de sumô e estava dando porrada em todo mundo, aplicando alguns golpes de alguma arte marcial. Quando se deparou com a minha pessoa, fiquei encarando-o firmemente nos olhos, com a certeza de que seria protegido. O cara simplesmente não fez nada e seguiu atrás de outros caras. 
   Hoje em dia o que mais me atrapalha são os delírios persecutórios mesmo. Por exemplo, penso que todas as pessoas pensam que eu seja um ladrão. Se uma mulher segura sua bolsa com firmeza perto de mim é como se estivesse me chamando de ladrão. E quando não segura só falta eu agradecer a pessoa por não desconfiar de mim. Quando entro em algum estabelecimento penso que todos os seguranças estão me monitorando. Se algum por acaso fala no rádio de comunicação, então é o fim para mim, tenho certeza absoluta que estão falando de mim. 

9- O que as suas vozes costumavam falar?
    No início, as vozes eram comentaristas, ou seja, apenas comentavam algo sobre a minha pessoa. Comentavam se eu estava gordo, se estava magro, se estava com a mesma roupa do dia anterior, enfim sobre a minha aparência, sobre algo que havia feito, etc. Também ouvi algumas vozes me culpando por tudo o que havia feito de errado em minha vida, e depois sobre tudo mesmo, até mesmo coisas que não havia feito. O sentimento de culpa exagerado é um dos sintomas da esquizofrenia também.  À medida que a situação foi piorando as vozes passaram a ser ameaçadoras, chegando a ouvir que queriam me pegar, me matar, etc. Felizmente não tive muitas vozes de comando, me pedindo para fazer coisas. 
    Durante os surtos as vozes ficavam descontroladas, parecia tagarela mesmo. Fica até difícil lembrar com detalhes os diálogos que tive com elas. Me recordo que às vezes tinha que ficar lendo os outdoors imaginando que as pessoas liam a minha mente e ficavam falando na minha cabeça. Então, para espantá-las ficava lendo e repetindo as coisas para que as supostas pessoas parassem de ficar lendo os meus pensamentos. 


10-As suas vozes já pediram para você fazer algo que pudesse trazer danos à sua vida (ou de outras pessoas)?
    À vida das outras pessoas até que não. À minha vida sim, pois uma voz chegou a afirmar que eu era uma alma penada, e então parei de me alimentar, chegando a perder cerca de 25kg e me refugiei no meio do mato. Mas não cheguei a ouvir as vozes de comando, que pedem para fazer coisas contra as pessoas. As vozes quando são muito intensas e insistentes, chegam a prejudicar a nossa saúde, pois não dormimos e nem nos alimentamos direito, sem contar o stress que elas podem nos causar. 


CDE- Central de Downloads do Esquizo

    Esta semana na CDE estou disponibilizando o livro Holocausto Brasileiro, que retrata como era o tratamento dos considerados loucos pela sociedade durante boa parte do século XX. Pelos relatos, não só os considerados loucos, mas os que eram excluídos pela sociedade eram levados de trem até esse hospital, na cidade de Barbacena, em Minas Gerais. 
   Neste livro-reportagem fundamental, a premiada jornalista Daniela Arbex resgata do esquecimento um dos capítulos mais macabros da nossa história: a barbárie e a desumanidade praticadas, durante a maior parte do século XX, no maior hospício do Brasil, conhecido por Colônia, situado na cidade mineira de Barbacena. Ao fazê-lo, a autora traz à luz um genocídio cometido, sistematicamente, pelo Estado brasileiro, com a conivência de médicos, funcionários e também da população, pois nenhuma violação dos direitos humanos mais básicos se sustenta por tanto tempo sem a omissão da sociedade.
Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros da Colônia. Em sua maioria, haviam sido internadas à força. Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental. Eram epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, gente que se rebelava ou que se tornara incômoda para alguém com mais poder. Eram meninas grávidas violentadas por seus patrões, esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento, homens e mulheres que haviam extraviado seus documentos. Alguns eram apenas tímidos. Pelo menos 33 eram crianças.

   Para acessar a CDE, basta clicar no link abaixo ou então na imagem situada no lado direito superior do blog.
https://onedrive.live.com/?cid=A884A13FCDDC52A3&id=A884A13FCDDC52A3%21118
   Quem tiver algum link de algum livro sobre qualquer tipo de transtorno mental, se puder me passe, para disponibilizar para as pessoas. A informação é a base de tudo e a melhor arma contra o preconceito e a falta de respeito contra as pessoas consideradas "diferentes" pela sociedade. 

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

O esquizo responde


   Este post faz parte de uma série que estou preparando, com perguntas e respostas feitas por amigos portadores dos mais variados tipos de transtornos mentais, estudantes, amigos e parentes de portadores, além de pessoas interessadas no tema.
    Foi um amigo que me deu essa sugestão, ao ver um dos vídeos que publiquei no meu canal no youtube. Poderia responder as perguntas pelo próprio canal, mas, como já relatei inúmeras vezes, falar não é o meu forte, e além de tudo eu tenho a língua presa, é um saco ficar falando o S, às vezes chego até a pronunciar o X no lugar do s, mas não é para dar uma de carioca não, é por que fica mais fácil shasuhasuashuashaus Só quem tem a língua presa é que irá entender completamente essa troca de letras.
    Gostaria também de deixar bem claro que não sou o dono da verdade, as respostas são de uma pessoa que infelizmente tem a prática e um pouco da teoria sobre o assunto. O psiquiatra, o psicólogo pode estudar o máximo que for possível, cursar a melhor universidade, mas entender completamente o que um portador de sofrimento mental passa não depende apenas de teorias, é necessário outras coisas que o dinheiro não compra.
    Também não me considero capaz de resolver os problemas das pessoas com sofrimento mental. Apenas procuro ajudar da melhor maneira possível, com tudo o que aprendi estudando e principalmente pelo conhecimento adquirido pelas experiências que tive e com as lições que só a vida nos ensina. E também é uma forma de retribuir um pouco toda a ajuda que recebi nos momentos mais difíceis da minha vida. Então, sempre que puder, irei publicar dez perguntas em cada postagem com o título acima. Quem tiver alguma pergunta é só fazer por email que respondo aqui no blog. Sugestões de temas também serão bem vindas. Sem a participação dos leitores o blog ficaria pouco interessante na minha opinião, aprendi e muito com os comentários postados. O meu email é:
juliocesar-555@hotmail.com

Perguntas e respostas
   1-Como era a sua vida antes da esquizofrenia?
    Levava uma vida praticamente normal. Fui uma criança bem arteira, estudei em um colégio razoável, fiz o ensino médio completo e também o curso técnico de eletrônica. Saí de casa aos 17 anos e comecei a trabalhar como operador de som. Com o tempo, acabei me tornando um bom profissional nessa área. Era uma pessoa distraída, e não reparava em nada em torno de mim. Apenas me achava uma pessoa excessivamente tímida e um pouco complexada, mas não era nada de tão grave assim. Hoje creio que também era um cara meio inocente, até um pouco bobo para a minha idade. Não tinha paranoias, e conseguia andar pelas ruas sem me preocupar com as outras pessoas, era realmente muito distraído e um pouco aéreo. Confesso que tenho saudades desse tempo que acredito que não irá voltar.

    2- Que idade você tinha quando recebeu o diagnóstico e qual a sua idade atual?
    Na verdade nenhum psiquiatra ou psicólogo falaram comigo sobre o assunto. Sempre fui atendido pelo SUS e as consultas eram bem rápidas. Em uma certa cidade a consulta durava não mais do que cinco minutos. Os psiquiatras apenas ouviam minhas queixas e me passavam a receita do medicamento. Já as psicólogas apenas se limitavam a fazer algumas perguntas e anotações. Como não ficava muito tempo morando na mesma cidade, não fiquei muito tempo fazendo sessões com uma mesma psicóloga.
    O primeiro surto grave aconteceu aos 32 anos de idade, mas só tomei conhecimento que tinha esquizofrenia quando fui fazer a minha primeira perícia no INSS, quando já não estava conseguindo mais trabalhar, devido as recaídas que tive. O laudo recebi no ano de 2005 e atualmente tenho 46 anos de idade. Fiquei três anos, indo de uma igreja para outra, pensando se tratar de algo espiritual. Até mesmo depois de receber o laudo ainda tinha essa desconfiança, que só foi realmente acabar depois que resolvi fazer um curso de informática e comprar um computador e assim estudar o assunto com mais profundidade.

    3- Quais foram os sintomas que levaram ao diagnóstico e como foi a sua primeira crise?
    Mania de perseguição exagerada, muitas alucinações auditivas e algumas visuais.
A primeira crise tive aos 32 anos de idade. Estava trabalhando e comecei a imaginar que os outros funcionários da empresa onde trabalhava estavam tramando algo contra a minha pessoa. Esse sentimento de que havia um complô contra mim foi se espalhando para o bairro, e em pouco tempo, comecei a pensar que praticamente o mundo inteiro estava querendo o meu fim. Cheguei a ouvir pessoas combinando um plano para me matar e onde eu ai sentia que todas as pessoas estavam me observando. Também comecei a sentir um complexo de culpa exagerado, chegando a imaginar que tudo o que acontecia de errado era minha culpa. Pensava que a minha comida estava envenenada e fui duas vezes ao hospital para pedir socorro. Aconteceu outras coisas, mas basicamente foi isso, e, então pedi demissão na firma onde trabalhava, com a intenção de fugir dos inimigos que eu pensava que estavam me perseguindo naquele lugar.
Aconteceram muitas coisas. Como não era agressivo, não cheguei a ser internado, e então morei nas ruas de Belo Horizonte por cerca de cinco meses, até conseguir me recuperar. Registrei tudo no livro que escrevi, chamado Mente Dividida, que vendo no formato impresso como também em PDF.

    4- Você já foi internado alguma vez na vida? Como foi a experiência?
  Nunca fui internado, pois, como já afirmei, mesmo durante os surtos psicóticos, não era agressivo. A minha principal reação era apenas fugir e fugir. Fui para as Br's, mudei de cidade, tentei o autoextermínio algumas vezes, numa tentativa de fuga dos inimigos que estavam em minha mente, mas que na época tinha a certeza absoluta que estavam em todos os lugares. Mas não fui agressivo e também quase não externava o que se passava em minha mente.

    5- Você toma medicamentos para controlar a doença? Já teve que trocar de medicamentos alguma vez?
    Atualmente estou tomando apenas o diazepan, que é para a ansiedade e agitação. É como se fosse um SOS, em uma situação em que eu possa ficar agitado. Os remédios usados contra a esquizofrenia infelizmente possuem muitos efeitos colaterais. Troquei inúmeras vezes de medicamentos, mas todos tiveram reações adversas quase que incapacitantes, como sonolência, fraqueza, aumento de apetite exagerado, e outras reações que são chamadas de reações extrapiramidais: acatisia, que é a vontade de ficar andando sem parar, agitação motora e enrijecimento muscular, dentre outros. Hoje em dia, devido a experiência prática no assunto, posso sentir algumas vezes quando estou prestes a surtar, e ai recorro aos antipsicóticos, mas por um breve tempo, até sentir que estou novamente estabilizado. 


     6-Como a sua vida mudou após o diagnóstico?
    Após o diagnóstico, a minha vida melhorou um pouco, pois passei a estudar o assunto. No início acreditava ser algo de origem espiritual. Comecei a frequentar igrejas, para ver se me libertava desses supostos espíritos, mas em vão.
  Depois que tive o acesso ao diagnóstico pude entender melhor a esquizofrenia e, consequentemente, a mim mesmo. Fiz uma análise de todo o meu passado, e cheguei à conclusão de que realmente havia algo de errado comigo.

    
    7- Você trabalha? A doença já afetou seu ritmo profissional?
   Sou aposentado. Infelizmente na área em que trabalho o profissional tem que ficar várias noites acordado, se deslocando de uma cidade para outra. Trabalhava como operador de som, e ainda tinha o problema do som alto e de ter que conviver com multidões nos shows. É realmente uma profissão estressante. A vida social também foi bem afetada. Já não era grandes coisas antes, agora ficou praticamente inexistente. 

    8- Como é a sua relação com familiares e amigos?
   A minha relação com a família não era boa e nem ruim. Apenas não existia. Se por um lado não brigávamos, também não havia diálogo. Em relação aos amigos, na infância e adolescência era um garoto divertido e alegre, meio maluquinho mesmo e tinha bastante amigos. Com o tempo a sensação de que as pessoas não gostavam de mim foi aumentando e fui então me tornando uma pessoa mais reservada.

    9- Como as pessoas reagem ao saber que você tem esquizofrenia?
   Geralmente ficam surpresas, pois o preconceito e a falta de informação ainda é muito grande, A maioria das pessoas pensam que esquizofrenia seja sinônimo de agressividade, de falta de capacidade de raciocinar, déficit mental, falta de higiene, dentre outras coisas. Já me perguntaram como sei usar o computador se sou um esquizofrênico. Já até disseram que não tenho esquizofrenia por saber falar razoavelmente bem. E também fizeram o desafio clássico: “Você é doido? Então rasgue essa nota de 50 reais!” A resposta foi óbvia: “Posso até ser meio maluco, mas burro não sou né?”

    10- Você já passou por alguma situação de preconceito por sofrer com a doença?
    Se considerarmos preconceito como um pré-julgamento sem ter um conhecimento da causa, sofri e ainda sofro todos os dias. Mas não fui hostilizado, apenas algumas pessoas procuraram me evitar, principalmente no mundo virtual, já que ultimamente tenho tido pouco contato com as pessoas no mundo real. Já ouvi muitas indiretas, que finjo ter esquizofrenia para ter conseguido me aposentar, dizem que tenho uma vida boa (me aposentei com um salário mínimo). Dizem que o que tenho é frescura, já que não podem ver e nem sentir o que eu tenho.
    Nos sites de relacionamento o preconceito acontece de uma forma bem clara. Quando encontro uma pessoa interessante, procuro entrar em contato. A conversa chega a fluir bem, me pedem mais fotos, mas, quando ficam sabendo da minha condição de portador de esquizofrenia, já não retornam mais as mensagens. No começo chegava a mentir, afirmando que trabalhava como técnico em eletrônica, mas foi por pouco tempo, não gosto de me passar por uma outra pessoa. 

Perguntas de estudantes de psicologia
   O TCC não é mais obrigatório. Algumas estudantes de psicologia entram em contato comigo e com vários portadores de esquizofrenia para fazerem uma série de perguntas, para seus trabalhos de conclusão de curso. Umas são honestas e francas, chegam e falam a verdade, e fazem as perguntas. Outras se aproximam, fazem o pedido de amizade, fazem inúmeras perguntas, algumas fingem realmente querer a nossa amizade, mas, depois que conseguem o conteúdo para seus trabalhos, acabam sumindo e nos excluindo de seus círculos de amizades. Acho isso uma falsidade que nem vou comentar, o correto seria falar a verdade mesmo, apesar de que a maioria dos portadores não gostam de responder as mesmas perguntas de sempre. Eu mesmo já não respondo mais, pois são as mesmas perguntas de sempre. Já teve estudante fingindo ser jornalista e entrando em contato comigo, afirmando que iria sair no jornal, etc. Fiquei empolgado, mas até hoje não vi nenhum depoimento meu em nenhum jornal, elas prometiam me passar o link da matéria, mas até hoje nada. Então, o TCC não é mais obrigatório, e também é uma falta de sensibilidade dos professores, não saberem que qualquer pessoa se sente incomodada se for "investigada" ou observada. Nos caps e nos centros de convivência aparecem vários estudantes, e já cheguei a ver em um caderno de um estudante anotações sobre vários portadores de esquizofrenia. O pessoal das faculdades chegam nesses centros de convivência, entram em contato com os portadores, alguns estudantes começam a puxar conversa, fazem suas observações, e até filmam certas situações em que o portador não é perguntado se quer mesmo ser filmado. Não seria mais correto primeiro falar a verdade e depois começar o contato e as perguntas?

Se comer não use o fone de ouvido...
    Outro dia estava almoçando tranquilamente no restaurante popular. E, como sempre, ouvindo músicas no fone de ouvido na maior altura. Isso me ajuda a me desligar um pouco do mundo à minha volta. Mas dessa vez me desligou de uma maneira que me fez pagar um mico, quer dizer, um micão (que expressão mais antiga shaushasuhasuas). 
     Não sei que carne estava comendo, mas o caldo do osso estava uma "dilícia". Sou uma pessoa simples, e não tenho vergonha de comer o frango com a mão e chupar o caldo dos ossos. Essa carne que estava comendo não era frango, mas o caldinho do osso estava muito bom mesmo. De repente um cara na outra mesa me encarou com uma cara não muito boa. Havia poucas pessoas no restaurante, geralmente almoço mais tarde, quando o movimento é pequeno. Um outro cara que estava passando no corredor também me encarou por um breve momento. Achei estranho, mas continuei a saborear o caldinho do osso da carne que estava no prato. Ai as mulheres que estavam no balcão começaram a rir, deu para ouvir suas risadas, bem ao fundo, por causa da música alta. Olhei para o lado e elas estavam olhando para mim. Somente neste momento é que fui me dar conta da situação: quando estava chupando o caldo do osso da carne, dava para ouvir o som que fazia, parecido um pouco com um tipo de assovio, sei lá... Ai disse para mim mesmo:
    - Como você é burro cara! Se está dando para ouvir você sugando o caldo do osso com essa música alta no fone, então o restaurante inteiro está ouvindo também!
    Fiquei meio sem graça, me ajeitei na cadeira, fiz cara de sério de como não estava acontecendo nada e passei a sugar o caldo da carne com menos vontade, apesar de estar muito gostosa. 


O "rançoso"...

   Como já citei no post "A corrente do bem", passei a cuidar de um cachorro que foi meio que abandonado pelo seu dono, não vou entrar em detalhes sobre como isso aconteceu. Foi uma maneira de retribuir toda a ajuda que recebi nos momentos difíceis da minha vida e também que ainda recebo. Apesar de tudo o que aconteceu depois que a esquizofrenia apareceu em minha vida, posso dizer que sou um cara privilegiado ou sortudo, por ainda estar vivo e poder contar um pouco da minha história. 
    Ele estava triste, "amuado", magro. Afinal, mudou de habitat e também perdeu seu irmão, o rançosinho. Provavelmente ele deve ter se perdido ao sair na rua à procura de alimento. Não aguentei ver a tristeza dele e passei a comprar ração, a brincar com ele e até dei um banho, meio que forçado, para tentar tirar um pouco do ranço, acho que ele nunca havia tomado um banho em sua vida. E ficou mais complexado ainda, pois, quando estava jogando água nele, encostei na tomada que estava pendurada e tomamos um choquinho assustador. Já estou acostumado a levar choques, pois trabalhei como operador de som por vários anos. Mas, e o rançoso? O que se passou na cabeça dele? Coitado, agora é que nunca mais vai querer saber de tomar banho. 
    Mas agora ele já está mais animado e forte, dou ração para ele de manhã e de tarde, além de não deixar faltar água. E o principal também não falta, que é um pouco de carinho. Como ele não tinha nome, resolvi batizá-lo. Mas nenhum nome apareceu em mente. Estava pensando em colocar Pacato, pois ele é bem quietinho e não mexe com ninguém, só não gosta muito que um outro cachorro invada o território demarcado por ele. Mas com os humanos e fora do território, ele é um doce. Me sugeriram Paçoca e outros nomes. Mas resolvi que ele mesmo iria escolher o seu nome: o primeiro que gritei foi rançoso, e logo ele veio correndo em minha direção. Não tive dúvidas: seu nome seria mesmo Rançoso, pois o cheiro ainda continua, porém um pouco mais fraco. Falta ainda comprar um talco para acabar com as pulgas, ele vive o dia inteiro coçando daqui e dali, mas nesta semana vou comprar um talco para acabar com esse sofrimento. 
    Na minha opinião, os cachorros tem sentimentos, parecem ser um pouco diferentes dos outros animais. Eles nos olham bem nos nossos olhos quando gostam da gente, dão sinais para se comunicar, percebem quando estamos tristes. Enfim, são seres que merecem o nosso respeito. 

sábado, 13 de junho de 2015

Perguntas e respostas

    Às vezes, estudantes me enviam perguntas para que eu possa responder e ajudá-los em seus trabalhos acadêmicos. Já respondi alguns, mas o último que recebi não o fiz, pois a solicitante pediu para que eu respondesse através de um vídeo. E, como já disse antes, não me dou muito bem com as câmeras. Cheguei a gravar alguns vídeos para o meu canal no youtube, mas não o faço mais, me acho melhor escrevendo do que falando. A verdade é que ultimamente ando meio desanimado com certas situações que um aposentado vive em um país como o Brasil...
    Havia até respondido às perguntas e salvo no word, mas, na hora de ficar frente à câmera, o incômodo falou mais alto e desisti. Resolvi então publicar aqui no blog, e também abrir este canal. Quem quiser fazer perguntas, podem me enviar por email (juliocesar-555@hotmail.com) que responderei aqui no blog com o maior prazer. Claro que se a resposta estiver ao meu alcance.
Então, vamos as perguntas:

1- Com qual idade você recebeu o diagnóstico de esquizofrenia?
    Bem, eu não recebi um diagnóstico. As psicólogas apenas me faziam um monte de perguntas e anotavam tudo em uma folha de papel. Já os psiquiatras apenas perguntavam o que eu estava sentindo e então receitavam os medicamentos em poucos minutos. Só fui saber o que eu tinha quando fui fazer a minha primeira perícia no INSS, aos 35 anos de idade. Havia surtado pela primeira vez aos 32 anos, tentei voltar ao trabalho algumas vezes, mas, como o trabalho de operador de som é um pouco estressante, sempre tive recaídas e, em uma delas cheguei à conclusão de que não estava mais conseguindo trabalhar e a aposentadoria seria a única solução para o meu caso. 
    Li o laudo que o psiquiatra me passou e constatei que o que estava atormentando a minha mente era uma tal de F-20, chamada esquizofrenia paranoide. À princípio imaginava que se tratava de algo espiritual, ia na igreja, e, quando o pastor chamava as pessoas para ir à frente do altar para receber a oração, mil caíam a minha direita e dez mil à minha esquerda, mas eu não caia de jeito nenhum. Cheguei a pensar que o espírito que estava em mim era muito forte e que somente tirando a minha vida é que o problema seria resolvido. 

2- Que sintomas apresentava?
    Além dos sintomas clássicos, que são as alucinações auditivas e visuais, e uma mania de perseguição absurdamente exagerada, eu também tinha alguns delírios, principalmente os místicos e os de grandeza. As vozes no início só comentavam o que eu fazia, ou então falava coisas banais, colocando defeitos em mim. Depois, como a mania de perseguição aumentou, as vozes começaram a se tornar ameaçadoras: "Vamos pegar ele hoje?" Foi o que cheguei a ouvir há alguns anos atrás, quando me aproximei de algumas pessoas que estavam sentadas em uma mesa de bar. Os meus delírios eram mais relacionados ao misticismo, a religiosidade. Pensava que era um ser superprotegido por forças sobrenaturais, acreditando que nada de mal poderia me acontecer, e, por causa disso, passei por algumas situações complicadas. Por exemplo, quando morava em uma cidade do interior de Minas Gerais, havia ouvido falar que uma certa rua era a mais perigosa da região, que havia muitos crimes, brigas e até mortes. Resolvi, de um dia para outro, ir à esta rua. Era bem estreita e escura, mas não tive medo. Fui até o fim dela e depois voltei sem que nada me acontecesse. Talvez eu tenha um anjo da guarda bem atento...


3- Qual medicação você faz uso? Via oral ou sub cutânea?
    No momento, estou tomando somente o diazepan, pois não me dei bem com nenhum dos vários antipsicóticos que já experimentei. Como moro sozinho, tenho que ter um pouco de disposição para fazer certas coisas, como lavar a minha roupa, ir ao restaurante, ir ao centro para resolver alguns problemas, e os medicamentos não me deixavam fazer isso. Quando sinto que estou começando a ficar agitado, volto a tomar a clorpromazina e o fenergan. O último que cheguei a experimentar foi a quetiapina, mas esse medicamento, além de me deixar muito dopado, me dava muita fome. Não tenho condições de comprar tudo o que dava vontade de comer quando estava sob o efeito deste antipsicótico. E também não quero estragar a minha saúde, aumentando as taxas de colesterol e triglicerídeos. Já cheguei a tomar injeção de haldol, mas no meu caso foi sofrível, pois fico com uma reação adversa muito desgastante, que é a acatisia. E, como a injeção tem o efeito de um mês, passei 30 dias muito complicados. Considero válida tomar antipsicóticos através de injeção, mas somente no caso da pessoas estiver completamente adaptada ao medicamento, preservando assim o fígado e o aparelho digestivo. Não estou aqui fazendo campanha contra os medicamentos, conheço algumas pessoas (não muitas) que se deram bem usando e que têm uma vida bem próxima do normal. 

4- Como os seus familiares reagiram ao diagnóstico? E os amigos?
    Essa é uma pergunta a qual não posso respondê-la em sua totalidade, pois saí de casa aos 17 anos e comecei a trabalhar como operador de som. Sempre gostei de morar sozinho e ter liberdade. 
   Já os amigos, também fica difícil responder, pois o meu círculo de amizades se restringia aos "colegas" de trabalho. 
    Mas as pessoas em geral se afastaram de mim, principalmente aquelas que eu procurava ajudar com os meus conhecimentos em eletrônica e sonorização. Chegava a consertar e instalar equipamentos de som em igrejas sem cobrar nada, pensando que estaria ajudando diretamente no trabalho de Deus, e na verdade estava era poupando o bolso do padre e do pastor da igreja em que cheguei a montra o som. 
     A pior situação ocorreu no trabalho mesmo, pois era um bom profissional. Quando os surtos vieram, acontecerem situações bem complicados em relação a um certo dono de uma empresa em uma cidade do interior de Minas Gerais. Não respeitaram nem o meu auxílio doença, sendo obrigado a trabalhar (ou pelo menos tentar) quando estava de licença, pelo simples fato de morar nos fundos da firma. 

5- A esquizofrenia tem vários subtítulos, tipo paranoica, qual a sua?
    A minha esquizofrenia é a paranoide, que é a mais comum. O sintoma principal, como o próprio nome diz, são as paranoias. Mas cada portador tem a sua esquizofrenia única, costumo dizer que não existe a esquizofrenia, e sim as esquizofrenias. A esquizofrenia, na minha opinião, é um transtorno mental muito mais complexo do que o excesso de dopamina no cérebro, que é a teoria mais aceita no momento pelos psiquiatras para a causa desse transtorno mental que acomete cerca de 1% da população mundial.
tipos de esquizofrenia


6- Quais as dificuldades encontradas no convívio com outras pessoas no seu dia a dia?
    A principal dificuldade no relacionamento com as pessoas é devido à mania de perseguição exagerada. Não é nada fácil conviver com e interagir com o mundo em nossa volta se pensamos e às vezes temos a certeza em nossas mentes que algumas pessoas estão contra a gente e bolando algo para nos prejudicar. Sou duplamente desconfiado: primeiro por ser mineiro, e também por ter esquizofrenia. 
Outra dificuldade é o fato das pessoas me acharem um cara estranho e calado. Não vejo nada demais em falar pouco, é como se fosse um defeito grave. Acho que falar demais é bem pior.

7- Existe alguma atividade que você não possa executar por conta da esquizofrenia?
    Infelizmente a esquizofrenia é um transtorno mental incapacitante na maioria dos casos. No meu em particular, não me permitiu mais trabalhar, pois a partir de um certo momento o som alto começou a afetar a minha mente e a me deixar estressado. Sem contar o fato de que esta profissão exige um contato com multidões, e hoje tenho uma certa fobia social. Mas, a vida social também é muito prejudicada. Hoje praticamente saio de casa para almoçar pois só sei fazer ovo cozido...
frustrada tentativa de fazer um omelete super proteico...


8- Já sofreu algum tipo de preconceito por causa do seu diagnóstico?
    Preconceito explícito não, mas sempre tem aquele preconceito velado, escondido. Sinto que as pessoas chegam a pensar que eu possa ser uma pessoa agressiva, que a qualquer momento posso enlouquecer e cometer algum ato violento. Esse preconceito é um pouco parecido com o que acontece com os negros no Brasil, todo mundo diz não tem preconceito, mas o que vemos, principalmente no mercado de trabalho, não é bem assim. Mas no geral, não tive problemas mais sérios devido à esta condição, pois procuro sempre me manter tranquilo. 

9- Como é para um esquizofrênico se inserir no mercado de trabalho?
    É praticamente impossível um portador de esquizofrenia conseguir um emprego em uma entrevista se ele revelar a sua condição e dizer que toma antipsicóticos. É muito comum um portador de esquizofrenia ser mandado embora de uma firma quando volta do auxílio doença. 
   Há pouco tempo saiu uma lei que equipara os portadores de esquizofrenia aos deficientes. Ou seja, quem tem esquizofrenia pode tentar uma vaga na cota reservada para deficientes em empresas que tem mais de cem funcionários. Fora isso, a chance é quase zero, se for revelado a condição. 

10- Quanto aos sintomas: notou alguma melhora com a medicação?
    Como já disse em uma pergunta anterior, experimentei vários antipsicóticos. Alguns até chegavam a melhorar alguns dos sintomas, mas o preço a ser pago no meu caso era alto demais. Ficava muito sonolento, acordando por volta do meio dia. O raciocínio também ficava lento, ficava com muita fome, pois os antipsicóticos alteram alguma coisa em nosso cérebro. Deve ser algo parecido com a "larica" provocada pelo uso da maconha, não posso dizer com exatidão, pois não faço uso dessa substância.
O antipsicótico também me deixava meio robotizado emocionalmente, cortava as minhas sensações, não achava graça em nada, nem mesmo quando o meu time marcava um gol...

11- Precisou de tratamento fonoaudiológico? Como foi?
    No meu caso em particular não foi preciso. Creio que a esquizofrenia em geral não atrapalhe na comunicação do indivíduo, seja no ato de falar, como também na audição. Talvez atrapalhe quando o indivíduo tenha também um déficit mental, ou então o uso contínuo e exagerado de medicamentos dificulte um pouco na fala, pelo fato de atuar no sistema nervoso central, ou seja, deixar a pessoa dopada. 

12- Junto aos medicamentos, faz terapias?
     Particularmente não gosto de ir à psicólogas, mas não tenho nada contra quem gosta de fazer este tipo de terapia. Na minha opinião, a melhor terapia é ter um sentido para a vida, ser útil, fazer o que gosta, aprender algo novo, enfim se exercitar física e mentalmente. 

13- Se ficar sem tomar remédio, os sintomas voltam? Tem consciência de quando eles voltam?
    Na maioria das situações, sinto quando estou prestes a surtar, sei quando estou começando a ficar meio agitado. A gente vai aprendendo a conviver com os sintomas, a se conhecer melhor. Costumo dizer que ter surtado teve o seu lado positivo, pois, a partir desse momento, passei a estudar melhor o assunto e a encontrar respostas para várias questões sobre a meu jeito de ser. 
    Como não uso os antipsicóticos continuamente, uso o diazepan como um SOS, sempre levo alguns comprimidos no bolso da calça quando vou sair. Mas nem sempre desconfio que estou prestes a surtar. O stress é um gatilho para a esquizofrenia, e às vezes não reparo que estou prestes a ter um surto. 
Mas, quando sinto que a situação está piorando, volto a tomar os antipsicóticos por um tempo até me estabilizar novamente.
os portadores reclamam muito dos efeitos colaterais dos antipsicóticos....


14- Tem namorada? Leva uma vida saudável, normal, ou perto disso?
    Depois que tive os surtos, nunca mais tive um relacionamento. Antes, tinha facilidade de arrumar uma namorada, devido ao meu trabalho como operador de som. Tinha uma boa aparência, e, apesar da timidez excessiva, namorava, mas nada sério e duradouro. 
    Atualmente não levo uma vida saudável. Tento praticar alguns exercícios físicos, para manter a musculatura normal e assim não atrofie. Em uma fase difícil, tive dificuldades em subir uma escada, pois ficava o dia inteiro dentro do quarto e na hora de subir os degraus quase não tive forças para chegar ao segundo andar de um prédio. A partir daí, decidi a fazer pelo menos um mínimo de exercícios físicos. Mas os chamados sintomas negativos da esquizofrenia costumam ser bem parecidos com os da depressão, ou seja, falta de energia, desânimo, etc. Passo a maior parte do dia em frente do notebook ou então assistindo TV. Creio que a psiquiatria tenha que se preocupar não somente com os sintomas positivos, que são as alucinações. Os sintomas negativos são tão incapacitantes quanto os positivos. Infelizmente os profissionais afirmam que os mesmos medicamentos dopantes usados para tratar os sintomas positivos podem ser usados no tratamento dos sintomas negativos. Particularmente não entendo como que um remédio que deixa a pessoa sonolenta seja indicado para tratar alguém que tenha os sintomas parecidos com os da depressão.

15- Falo o que quiser para a turma e divulgue o seu trabalho
    Bem, o meu trabalho é esse, divulgar, através do blog, o que é a esquizofrenia na visão de um portador. Tento, da melhor maneira possível, mostrar que o portador de esquizofrenia não é um ser agressivo, violento e que rasga dinheiro. Sei que é pouco, mas procuro fazer a minha parte, como o pássaro que tenta apagar o fogo na floresta jogando água com o seu pequeno bico.
    A informação é a melhor arma para se combater o preconceito, só através dela é que poderemos deixar de ser discriminados pela sociedade.
    Creio que nas mais de 200 postagens que já publiquei no blog tenha bastante informação sobre o assunto, mas não vou parar de publicar, mas aceito sugestões de postagens e também abri esse canal de perguntas e respostas. Para me enviar uma ou mais perguntas, é só usar o seguinte email:
 juliocesar-555@hotmail.com 
     E, se puderem adquirir o meu livro, tenho a certeza de que estarão adquirindo boas obras, e por um preço acessível. Maiores informações no lado superior direito da página.

os leitores têm gostado muito dos livros que escrevi