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segunda-feira, 8 de junho de 2026

Um dia feliz

 

    

Hoje foi um dia feliz.

    Estava morando em um apartamento bacana, todo mobiliado e com um preço bacana. A mãe da proprietária adoeceu e teve que se mudar para ficar perto de sua progenitora.  Mas nem tudo é perfeito, o imóvel fica situado em um bairro com morros altíssimos. Acho que é o ponto mais alto de Ipatinga, aqui em Minas Gerais. Foram cinco meses de uma rotina entediante, apesar do belo visual da janela do apartamento. 
    Estava pedalando uma vez por semana, apenas para fazer as compras básicas.
   O lugar era agradável, cercado por montanhas e com uma brisa refrescante, algo importantíssimo na quentíssima região do vale do aço. Tinha até uma seriema que se aproximava bem das pessoas, e que arrumava uma gritaria gostosa na parte da manhã. Seu canto mais parecia uma risada escandalosa, mas que me fazia sentir estar no meio do mato. 
    Mas, sou viciado em pedalar e resolvi mudar para um barracão mais simples. Tem muita coisa para fazer: pintar, arrumar vidros, reboco, etc..E isso também é uma terapia, ver uma transformação, seja de pessoas, ambientes, coisas, objetos, etc... 
Ipatinga-MG  Em primeiro plano, a siderúrgica Usiminas


    Agora estou morando em um bairro com retas e voltei a pedalar normalmente, ou melhor, quase normalmente. Estou pegando ritmo aos poucos. A primeira vez que saí para andar de bike foi um pouco difícil, os músculos ficaram doloridos e tive uma pequena câimbra. 
    Hoje pedalei cerca de 16km e cheguei inteiro em casa, sem maiores problemas. Foi tão gostoso pedalar bem na subida e não ficar ofegante, sentindo aquele arzinho gelado entrando pelos pulmões. 
    Isso é motivo de estar feliz, pois pedalar faz parte do meu tratamento da esquizofrenia, reduzindo o stress, a ansiedade e liberando endorfinas e outras "inas" mais.
    E cuidar da Margarida (minha querida bike) é uma terapia, a gente vai aprendendo a cuidar dos freios, dos câmbios, dar uma lavada e polida. É um prazer vê-la brilhando e andando bem. É uma bike antiga, de 1990. Foi amor à primeira vista. Ela estava jogada no quintal de uma casa, só o quadro. A pessoa a vendeu por 20 reais em 2017. Ela tem avarias que a desvalorizam bem, e também é um quadro aro 26, que já não faz tanto sucesso assim. A maioria das pessoas estão comprando bicicletas aro 29, que andam bem mais. 
    Mas eu não me importo, já viajei 11 estados do Brasil com a Margarida. Enfrentei serras fortíssimas, serração, chuva, sol escaldante do nordeste e outros perrengues mais comuns em uma cicloviagem. E já consegui pedalar 140km em um único dia, ou melhor, noite também. Foi no Piauí, e tive que dar um intervalo de meio dia às quatro e meia da tarde, por conta do forte calor. 
    Infelizmente o tratamento da esquizofrenia no Brasil é centrado nos antipsicóticos, e os resultados não são tão satisfatórios. Esquizofrenia por aqui é quase sinônimo de benefício, seja aposentadoria ou LOAS, também conhecido como BPC. 
    Enfim, cada caso é um caso, mas o tratamento deveria incluir uma série de alternativas saudáveis, tanto na parte física como mental. 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Pedalanças-Belo Horizonte à Belém do Pará - 1º dia

    14/07/2024
Belo Horizonte-MG à Paraopeba-MG


     Enfim, o dia da viagem havia chegado. Passei o dia dando os últimos ajustes na bike. Na verdade não tive o tempo necessário de prepará-la do jeito que queria. Porém as minhas dívidas já não podiam esperar mais e já havia passado a hora de meter o pedal na estrada. 
     De noite não estava conseguindo dormir devido à ansiedade e resolvi tomar um diazepan para relaxar. Com muita dificuldade consegui parar de tomar esse viciante medicamento, que mais atrapalha do que ajuda. A verdade é que o sono artificial não é tão bom quanto o natural e, quando acordamos não sabemos se dormimos ou apenas fomos desligados por um tempo. Meu ditado é: "Mais vale quatro horas de sono natural do que dez de sono artificial". 
    Coloquei o relógio para despertar às três e meia. Era domingo e queria sair o mais cedo possível, não estava muito afim de pegar o trânsito da via expressa que é o ponto de partida dessa minha saga para Belém do Pará.
    Apesar de ser inverno, tomei um bom banho gelado para espantar a ressaca do diazepan. Depois fiz dois capuccinos e comi com um biscoito recheado de chocolate, para aumentar os níveis de  dopamina no meu cérebro. Fiquei bem elétrico. Obviamente a agitação também era pelo fato de ser o primeiro dia de viagem. Seria a minha primeira pedalança fora da região sudeste. Para qualquer pessoa um fato normal, mas, para um extremo fóbico social, uma imersão no desconhecido. 
    Coloquei meus pertences na Margarida com muito cuidado, para não acordar os vizinhos. Moro em um lugar que aluga quartos e de madrugada qualquer barulhinho vira um barulhão. Apesar da precaução o vizinho da direita começa a resmungar. A verdade é que ele é também um outro insone, passando quase todas as madrugadas conversando no celular. Ou falando sozinho? Dificilmente encontraria uma outra pessoa a ficar ouvindo as conversinhas dele da meia noite até às seis da manhã. Era um cara tão chato que pelo fato de passar a noite acordado exigia o máximo silêncio durante a manhã e boa parte das tardes. 
    Saí por volta das quatro e meia e ainda estava tudo escuro. Senti no rosto aquele ventinho gelado das madrugadas de Belo Horizonte. Estava ansioso, mas era uma ansiedade boa, aquele friozinho na barriga que me impulsionava a pedalar com prazer e energia.  Estava morando no mesmo endereço há quase sete anos e só havia feito uma viagem de bike pela região sudeste no ano de 2019.  
Na madrugada de Belo Horizonte


    Passei pelo centro de BH que está um pouco abandonado pelo poder municipal. Muitos usuários de crack e outras drogas vagando pelas ruas e avenidas. Tive que tomar muito cuidado para que não acontece nenhum imprevisto e minha viagem fosse interrompida logo no primeiro dia. Não tinha um plano B caso fosse assaltado. Era eu e Deus nessa viagem meio maluca. 
     Aos poucos o dia foi clareando e já estava na BR040, que liga Belo Horizonte à Brasília. Que nascer do sol lindo! Aliás tudo fica mais bonito quando estamos felizes. O calor do astro rei em meu rosto me encheu de energia e coragem para prosseguir o caminho.  Como era um domingo, encontro vários ciclistas pelo caminho que me desejavam uma boa viagem. 
     Desta vez fiz um bauleto para a Margarida, que coloquei no bagageiro dianteiro. Na minha primeira cicloviagem a carga ficava um pouco desorganizada, com uma mochila amarrada na frente da bike. 
    Mas o bauleto improvisado estava fazendo com que a porca que segura o guidão se afrouxasse, deixando a direção um tanto o quanto perigosa. Qualquer movimento brusco eu poderia ir parar no meio da movimentada BR040. Com muito cuidado pedalei por uns 5km até chegar em um mecânico que me emprestou uma chave para que eu fizesse o devido aperto. 
Acima, a Margarida em 2019. Embaixo após a reforma. 

    Porca apertada, volto para a BR e, para a minha alegria o guidão estava funcionando bem. Pedalo com confiança e em um bom ritmo, afinal estava pedalando cerca de 6km todos os dias para almoçar no restaurante popular de Belo Horizonte. E a sensação da liberdade, do ventinho no rosto me davam um gás extra. E a estrada tinha um bom acostamento, item essencial para um bom rendimento. 
    Estou pedalando com mais calma do que em 2019, fazendo paradas para me alongar e dar uma descansada. E, claro para dar uma aliviada na poupança, pois, por melhor que seja o selim e a bermuda, sempre tem aquela dorzinha que incomoda bastante. Acho que o selim é a parte mais difícil de se escolher. Não é a regra de quanto maior e mais macio melhor. Dizem que o selim tem que ser do tamanho da distância entre os ísqueos de nossa bunda. Ìsqueos são os ossos de nossa poupança. Por isso tem ciclista com selins bem duros. 
    Hora do almoço e eu já havia pedalado pouco mais de 50km! Pego um marmitex em um restaurante e vou para perto de uma carreta para me abrigar do escaldante sol do meio dia. Os dias também são quentes nessa região de Minas Gerais, apesar de estarmos no inverno. E hora do almoço é aquela dúvida: como comer pouco com uma comida tão gostosa? Não consigo e o jeito é comer bem e dar uma boa descansada para conseguir pedalar sem problemas depois da refeição. Pedalar com sol quente e barriga cheia de comida do almoço não é nada bom, pois ainda vem a sede e enchemos mais ainda a barriga de água.  Encontro o dono da carreta onde peguei uma sombra e começamos a jogar conversa fora. Ele fazia o seu próprio almoço, no baú da carreta tinha um fogãozinho, o gás e muito mantimento. Me pergunta o motivo da viagem e apenas respondo : É por que gosto ué!"
     Depois do descanso, pego a BR novamente e sempre encontro vários motociclistas indo sentido Brasília. Um movimento não muito normal, eram muitas motos mesmo. Daquelas pretas e enormes. A maioria me cumprimenta e depois fico sabendo que em Brasília irá ter um encontro nacional de motociclistas. 
Sol escaldante na parte da tarde. 

      De tarde o solzinho veio rachando, mas logo apareceram algumas nuvens que suavizaram a pedalada, deixando o calor suportável. Nesse trecho da BR não faltam restaurantes e postos de gasolina, e sempre foi possível encher as garrafinhas com uma deliciosa água gelada. 
     Também de tarde o asfalto do acostamento não estava tão bom quando no início, na saída de Belo Horizonte. A má qualidade do piso fazia a bicicleta trepidar muito e não consegui imprimir a mesma velocidade do que na parte da manhã. 
    Mas, apesar disso o entusiasmo inicial dessa segunda pedalança me fez chegar até a cidade de Paraopeba, distante de Belo Horizonte 110km! Nada mal para o primeiro dia. Para alguns parece muito, mas alguns ciclistas que só pedalam com bikes caríssimas e sem carga irão dizer que é pouco. São ciclistas bem mais jovens do que eu esses que falam que 110km é pouco para um dia. Mas tenho certeza de que não fazem isso em uma bike de 1990 e com uma carga de mais ou menos 30kg.
Acampamento montado


Parei em um posto de gasolina. Os frentistas foram gente boa comigo e me deixaram tomar um bom banho relaxante. A água era fria, mas estava muito boa e também não tenho do que reclamar. Imaginem dormir sem tomar banho depois de um dia inteiro de pedal? 
     Na verdade não consigo dormir nessas condições. Raramente fico sem banho, mas já aconteceu. E o corpo da gente fica coçando com aquele suor e ficamos nos revirando dentro da barraca. 
    De noite, tomei um lanche e montei minha barraca por volta das oito da noite. Queria acordar por volta das cinco da manhã para aproveitar mais o dia e evitar o sol escaldante do meio dia. Estava um pouco agitado, afinal era o primeiro dia da viagem. A primeira noite dormindo na barraca, que viria a ser a minha residência por vários meses. 
    
110km! Nada mau para o primeiro dia. 

domingo, 18 de janeiro de 2026

Minha viagem de bike Belo Horizonte à Belém do Pará

Por que viajar de bike?

Loucura ou liberdade?


    Cartão de crédito estourado, dívidas e mais dívidas, empréstimos bancários. E, ainda por cima, aluguel caro na minha querida Belo Horizonte. Coisas que meu salário de aposentado não conseguiria pagar sem um enorme sacrifício se ficasse em casa. 
    Essas dívidas dividiam minha cabeça e o meu coração. O que fazer? O tédio também me corroía por dentro, esperando o meu fim, como dizia a música da banda Biquini Cavadão. 
    A situação estava ficando insustentável, tendo que fazer empréstimos para pagar o cartão de crédito, já que os juros são bem menores. Mas essa bola de neve cresceu tanto que já não estava conseguindo pagar minhas contas. E o aluguel sempre foi sagrado para mim, só atrasando o pagamento na época quando trabalhava e a firma atrasava os salários. 

    No ritmo do asfalto e o coração de aço

Margarida, minha fiel companheira (só eu que ando nela!)

    Existem decisões que não tomamos somente com a cabeça, mas com o espírito. Ou com os dois. Diante das dívidas e do tédio que me corroía a alma, decidi novamente pegar a estrada. E o destino? Um lugar meio que aleatório, era cismado com Belém desde criança e botei na cabeça que um dia iria conhecer. Como, não importa. Se não tem carro, vamos de bicicleta. E não estava sozinho, comigo, além de Deus, estava a Margarida, minha fiel companheira desde 2018, carregando as marcas em seu alumínio resistente que já aguentou muita estrada esburacada por esse nosso país. E agora ela guarda também a poeira de dez estados brasileiros percorridos por minhas finas canelas de ciclista. 
    Quando saí de Belo Horizonte em julho de 2024, o horizonte não era apenas uma linha no mapa, era um desafio não só físico como mental e silencioso que se estendia por mais de 3000km até as águas da cidade de Belém do Pará. Queria também conhecer a ilha de Marajó que um dia vi na TV com seus búfalos. 
    Este livro não é apenas um relato de quilometragens ou coordenadas geográficas. É o registro de quase dois meses em que o tempo passou a ser medido pelas pedaladas e a segurança passou a ser o teto de minha barraca montada entre o barulho das carretas em postos de gasolina e a solidão das madrugadas nas rodoviárias das pequenas cidades do interior do Brasil (para mim os melhores lugares para se dormir na barraca em uma cicloviagem).




    Pelas páginas que se seguem, você encontrará o diário visual e escrito de uma jornada de extremos. Vivi o sol impiedoso que deforma o horizonte, a chuva que lava a alma e encharca o equipamento. E o frio das madrugadas de inverno em Minas Gerais, que chegavam a queimar os meus lábios. Vivi a angústia da sede em trechos isolados e o vento deslocado pelas gigantes carretas que dividiam comigo o espaço vital do acostamento, passando a centímetros de minha bike. Mas vivi, vivi um sonho de liberdade, a liberdade não somente de ir e vir, mas também de ser quem realmente somos, sem máscaras ou limites. 
Todo cuidado é pouco nas estradas. 

    Pedalar de Minas ao Pará em uma bike fabricada em 1990 não é só um exercício físico intenso e desgastante, também é um exercício de paciência e humildade. A Margarida me ensinou que não precisamos do mais moderno e do mais caro para se chegar ao destino, mas sim de coragem(muita coragem) de continuar girando os pedais, mesmo quando nosso corpo pede parar. Como disse no início, a cicloviagem é uma atividade que requer tanto do físico como do psicológico. Nas enormes serras, aprendi que não devemos ficar focando muito no fim, fixando nosso olhar para o alto. Nessas horas o melhor a se fazer é baixar a cabeça e focar nossa mente nos próximos dez metros à nossa frente. E assim, aos poucos, chegamos ao pico das serras, tão comuns em nosso país. Encontrei serras que me cansavam só de olhar para o alto. 



    Entre as fotos das diversas paisagens - do cerrado ao norte com suas matas, relato encontros com desconhecidos que se tornaram anjos da estrada. Nos dias de extremo desânimo, essas almas apareciam nas horas e lugares exatos, me oferecendo aquela água gelada, alimento e, o principal, uma palavra de incentivo que recarregava minhas energias. Sem esses anjos disfarçados de humanos não teria concluído o meu projeto. 
    Convido você a montar na garupa dessa história e sentir o cheiro da estrada, o peso da bagagem e a liberdade indescritível de atravessar o Brasil no ritmo do próprio coração. 
    Bem vindo à estrada. Prepare-se para o suor, para a poeira e para a beleza de um país que só se conhece de verdade quando se tem a coragem de percorrê-lo sobre duas rodas. 
Obs: todos os dias irei postar o diário com as fotos dessa viagem. 


Lugares maravilhosos que valeram a pena todo o esforço


domingo, 10 de outubro de 2021

Problemas na bike

 Olá pessoal. 

    Sou aposentado e estou com problemas no meu meio de transporte, que é a bicicleta. Em maio paguei 120 reais para fazer a manutenção nela e no entanto o problema novamente apareceu em menos de dois meses. O mecânico infelizmente disse que não poderia dar garantia. 

    No momento estou com dificuldades financeiras pois por causa da pandemia não estou conseguindo pagar os empréstimos que fiz antes dela chegar. 

    Uso a bicicleta para tudo, pois tenho o dedão do pé esquerdo quebrado, e a cirurgia é muito cara. 

    O conserto fica por volta de noventa reais, mas desta vez quero comprar as chaves que são específicas, para assim não ficar dependendo muito dos mecânicos. No youtube tem vários vídeos explicando como se faz o conserto, e não é muito difícil. É a única parte da bicicleta que não aprendi a arrumar, por causa do preço das chaves específicas. 

    Precisarei de comprar duas chaves e provavelmente a peça que se chama movimento central. Tirei a foto e print de tudo para melhor explicar e provar a situação. 

    Sou aposentado pelo CID F20 como podem ver na imagem, espero que não me julguem, pois sei que tem pessoas em situação até pior do que a minha. Mas é com a bicicleta que saio para almoçar no restaurante popular e resolver os meus problemas.

Qualquer ajuda é bem vinda: dois reais, cinco reais. O número da conta é esse, caso prefira fazer PIX mande mensagem nos comentários que passo o meu número.

Ou se preferir envie um email para: memoriasdeumesquizofrenico555@gmail.com

Julio Cesar dos Santos

   Agência 2332 Ipatinga MG

   Caixa Econômica Federal

   Operação 023

   Conta 000.834.123.454-6



Esse é o laudo do meu dedão quebrado

nota fiscal do conserto da bike em abril deste ano



as peças que terei que comprar, aqui em Belo Horizonte é um pouco mais caro, pois o frete não foi calculado

Este é o meu dedão quebrado

Os meus empréstimos que não estou conseguindo pagar