A difícil relação esquizofrenia x religião
Bem, em primeiro lugar, gostaria de dizer que a minha intenção neste post não é discutir religião de uma maneira geral, e sim comentar a relação esquizofrenia e religião, apenas isso. Não estou aqui para dizer se está ou aquela religião é melhor do que a outra, ou se a própria religião fez mais mal do que o bem para a humanidade.
A palavra religião vem do latim "religare", ou seja, sua função é, ou pelo menos deveria ser ligarmos novamente a Deus.
Não vou me colocar em cima do muro, não vejo nada de mais em uma pessoa frequentar uma igreja desde que seja por vontade própria e não por medo de um Deus cruel e castigador que algumas igrejas criaram. Alguns pastores falam mais no diabo do que em Deus em seus cultos, usando o medo para conseguir mais fiéis. Outros, usam a falsa promessa do sucesso financeiro se frequentarem uma certa igreja e que Deus lhe dará em dobro tudo o que for oferecido para essa igreja. Como disse que não ia ficar em cima do muro, vou dizer o nome dessa igreja, apesar de saber que nem precisava, pois todos já sabem de qual igreja estou falando: é a famosa igreja universal do reino de Deus. Fui lá em um período difícil de minha vida, e o pastor na época me pediu apenas quinhentos reais para enviar uma carta para a fogueira santa de Israel. A promessa seria que, se a minha carta fosse queimada em Israel, o pedido que estaria dentro dela seria realizado. Será que pelos correios não sairia mais barato? Deus só atende os pedidos feitos em Israel?

Outra igreja que me decepcionou e muito foi a reino dos céus. Foi no período em que estava morando nas ruas de Belo Horizonte, devido ao meu primeiro surto psicótico. Certa manhã, estava sentado na calçada quando um membro da igreja me chamou para participar do culto. Contei-lhe que era apenas um morador de rua e ele me disse que poderia entrar do mesmo jeito. No final do culto, o pastor, mesmo sabendo de minha situação, sugeriu que eu fizesse um "pacto" com Deus e que oferecesse vinte por cento de tudo o que eu ganhasse para a igreja. E, como vinte por cento de nada é igual a nada, fui embora da igreja um pouco decepcionado.
Mas, como já disse em um post anterior, fui muito ajudado por pessoas ligadas à espiritualidade, sejam elas católicas, evangélicas, espíritas. Não sou daqueles que só sabem criticar, elogio também e sou muito grato a todos que me ajudaram. Até hoje guardo uma bíblia que ganhei de um simpático casal de evangélicos. Um padre me atendeu muito bem em um momento em que eu queria somente conversar. Fui atendido gratuitamente por um pastor que era psicólogo também. Também não posso de dizer que grande parte das pessoas que me ajudaram não me falaram sobre religião, foram solidárias comigo acho que por esse sentimento já estarem em seus corações.
Resumindo, eu não vejo nada demais se a pessoa se sente bem em uma igreja, desde que não seja explorada financeiramente e que não usem o medo para mantê-la na igreja. O medo de um Deus castigador e que, quem não o segui-lo irá queimar infinitamente nas chamas do inferno, simplesmente por não ser um santo. Alguns religiosos dizem que não existe diferença entre os pecados, ou seja, não existe pecadinho e nem pecadão, é tudo igual. Isso me faz refletir e muito, pois não sou santo, tenho meus defeitos, mas não gostaria de ser comparado a hitler e nem receber a mesma punição que esse maluco.
Mas acho saudável as pessoas se reunirem por terem as mesmas crenças. Fazer amizades, retiros espirituais, dar a sua contribuição financeira para a igreja, tendo a certeza que o dinheiro será usado somente para a manutenção da igreja e para obras de caridade. Não importa se é uma seita ou religião, se é budista, hindu, católico, evangélico. Se a pessoa se sente melhor indo a uma reunião dessas, o que que tem demais? Tem gente que se sente bem em um baile funk, ouvindo o bate estacas e tomando um energético.
Eu não vou entrar na polêmica sobre as guerras motivadas pela religião, pois é um assunto polêmico e esse post não iria ter fim nunca.
Bem, já que acabei falando um pouco sobre o que eu acho sobre religião, vou comentar mais especificamente a relação que ela tem com a esquizofrenia. Infelizmente, alguns pastores, por falta de conhecimento ou por ignorância mesmo, pensam que um surto psicótico é uma possessão demoníaca, chegando a agredir o ensurtado para tirarem do corpo dele o suposto espírito maligno.
Eu sofri um pouco disso na pele. Quando estava ensurtado, dois evangélicos disseram que eu estava com demônio no corpo. Desesperado, no mesmo dia fui a um culto evangélico para tirar o tal espírito. Lembro-me que naquele dia várias pessoas em minha volta caíram e eu, nada, continuava em pé. Cheguei a pensar que o espírito que estava em mim era muito difícil de ser tirado e então decidi que só tirando minha vida conseguiria resolver aquela situação. Felizmente, como podem perceber, a tentativa de auto extermínio( olha eu falando que nem médico) foi frustrada. Esses detalhes todos eu conto no livro, em breve colocarei como adquiri-lo.
Acho que os pastores deveria se preparar melhor, tendo algumas noções de psicologia e comportamento humano. Acho que alguns até tem alguma noção de psicologia, mas com o intuito de arrecadar dinheiro, de persuadir a pessoa a fazer generosas contribuições para a igreja.
Os portadores de epilepsia sofrem muito com a doença, e ainda mais se começam a frequentar igrejas com pastores mal preparados. Geralmente os ataques epiléticos são confundido com possessão demoníaca, e algumas pessoas são até agredidas.
Igreja Universal é condenada por agressões contra fiel com epilepsia
http://br.noticias.yahoo.com/igreja-universal-%C3%A9-condenada-agress%C3%B5es-fiel-epilepsia-185110790.html
Em geral, nós, pessoas com esquizofrenia, questionamos o que de mal fizemos para merecer esse transtorno chamado esquizofrenia. Eu mesmo chego a pensar se é uma punição por algo que fiz nesta vida ou em outra encarnação(se existir). A religião, em alguns casos, tem que ser cuidadosamente administrada, na dose certa, sem fanatismo, pois pode causar um efeito contrário em uma mente ensurtada. Algumas pessoas chegam a se revoltar contra Deus por terem esquizofrenia pensando que é um castigo divino. Mas não, a esquizofrenia é apenas uma patologia, como a diabetes, só que em um órgão mais complexo. Hoje em dia se troca o coração, o fígado, os rins, mas o cérebro...
Antes de terminar, gostaria que os evangélicos bem intencionados não se indispusessem contra mim, pois as minhas críticas foram direcionadas a uma minoria que, infelizmente fazem muitos estragos a humanidade, explorando a boa fé do povo.
Gostaria que todos fossem felizes, cada um com sua crença e respeitando a escolha dos outros. Às vezes nem é uma escolha, e a cultura de um povo mesmo que se mistura com a religião, e não sabemos onde começa uma e termina outra. Como poderíamos ser católicos na Índia? Provavelmente, se tivéssemos nascido naquele país, estaríamos idolatrando a vaca e não iríamos matar um rato pensando que poderia ser um parente reencarnado, sei lá. E se eu nascesse em um país de religião muçulmana e que fosse daqueles extremistas, não pensaria que, se morresse como um homem bomba e tirando a vida de pessoas com pensamentos diferentes, não iria para o paraíso? Claro que não estou falando de muçulmanos que praticam sua fé pacificamente, eu não sou um profundo entendedor dessa religião, mas sei que existem muçulmanos que são pacíficos. Infelizmente, a imagem que vem em nossas mentes mentes quando se fala nessa religião é a de atendados violentos.
A minha intenção ao falar sobre religião, é somente em relação a esquizofrenia e outros transtornos mentais, para que as pessoas não julguem uma pessoa em crise como estando possuída por um espírito qualquer, pois isso só piora a situação.
Enfim, é um assunto tão complexo que, quanto mais nos aprofundamos no assunto, mais interrogações aparecem em nossas mentes. Por isso o ditado: "Religião não se discute!"
-obs: se puderem, votem na enquete, isso ajuda bastante a tirar muitas dúvidas.