São quatro horas e trinta minutos da madruga. Meu sono é
interrompido pelo casal que mora no quarto ao lado, e que geralmente prefere “discutir”
a relação nesse horário.
No post anterior, me queixei das noites mal dormidas e
cheguei a comentar que, no período em que morei nas ruas de Belo Horizonte,
tive noites mais tranquilas, mesmo dormindo em pedaços de papelão. Está até
difícil de pensar em algo para escrever, pois a discussão me atrapalha um pouco
a me concentrar.
Essas discussões noturnas me fazem sentir um nada, como
se não existisse. A impressão é que eles não sabem que preciso dormir como
qualquer mortal. Com muita dificuldade e conversa, consegui convencê-los para
que não ligassem o som de madrugada. Se ouvir funk o dia inteiro é difícil,
imagine de madrugada.
Sabem aqueles sonhos em que acordamos e dizemos: “Ah! Que
pena, foi só um sonho.” Eu sempre digo isso quando levo um choque de realidade
após um sonho prazeroso. Mas, quando sou acordado de um sonho, digo: “Que
merda, nem sonhar podemos mais!”.
São cinco horas e quarenta minutos da madrugada. A
discussão parece que não vai se encerrar tão cedo e por isso resolvo pegar uma
caneta e papel para desabafar. Sempre escrevi e fiz anotações em cadernos. A
diferença é que hoje em dia compartilho com várias pessoas. É como se fosse uma
terapia, me ajuda um pouco a aliviar o que está dentro de mim. Morfeu* já foi
embora faz tempo e parece que hoje ele não volta mais aqui não.
Sempre gostei de sonhar enquanto estou dormindo, apesar
de não me recordar da maioria, mas, sempre quando sonho, acordo mais leve e
animado. Cheguei a anotar os meus sonhos durante um período, deixando um
caderno e uma caneta ao lado da cama. Não podia pensar em nada antes de anotar os
sonhos, pois eles iam embora dos meus pensamentos rapidamente, ficando somente
a sensação de que foi algo bom. A minha intenção em anotar os sonhos era tentar
desvendar se eles possuíam algum significado e que poderia nos indicar algo
relacionado ao futuro. Já não tenho essas anotações comigo, mas lembro-me que
cheguei à conclusão de que não me revelaram nada. Apenas um teve alguma relação
com o futuro, mas esse era um sonho rotineiro, que até sonhava acordado, que
era o sonho de um dia conhecer o Rio de Janeiro. Tendo significado ou não, só
sei que sonhar faz bem, me faz sentir mais leve, ainda mais agora que tenho
esquizofrenia.
Hoje, o que mais me agrada nos sonhos é que a
esquizofrenia não viaja comigo nas minhas noites de sono. No mundo dos sonhos,
geralmente estou conversando normalmente com as pessoas, sorrindo e,
principalmente livre das paranoias. Meu sonho atual não é ganhar na mega sena
ou ficar rico, queria apenas me livrar de todas essas paranoias e voltar a ser
quem eu era antes e voltar a conversar com as pessoas normalmente.
Uma das coisas que mais me atrapalham nos diálogos é a sensação de que
as pessoas sabem o que eu estou pensando. É uma sensação muito ruim, difícil de
explicar. Já foi pior antes, durante os surtos, pois tinha a certeza absoluta
que as pessoas realmente sabiam o que se passava em minha mente, tanto que
fiquei um bom período sem falar, pois achava que não precisava me expressar
verbalmente, era como se fosse telepatia inconsciente. Tenho que me policiar
quando vou explicar algo ou simplesmente quando estou conversando com alguém,
pois, o simples fato de achar que as pessoas estão roubando o meu pensamento,
me faz pensar que não preciso dizer certas coisas. Acho que até faço isso
algumas vezes, deixando de mencionar algumas coisas nas conversas, por achar
que a pessoa sabe o que estou pensando.
Durante o meu segundo surto, tive uma fase terrível, pois tinha 100% de
certeza de que as pessoas estavam lendo meus pensamentos. Tinha que fugir das
pessoas, por que fica insustentável conviver com as pessoas lendo os meus
pensamentos a todo instante. Fiquei sem querer brigando com meu cérebro, pois
começava a pensar em palavrões e às vezes eu xingava as pessoas mentalmente,
era como se o meu cérebro estivesse dividido em dois. Uma parte era a boazinha,
e a outra ficava falando besteiras e palavrões. Isso me levou a exaustão, pois
minha mente não parava de funcionar um só instante, dias e noites. A parte
boazinha brigando com a parte desbocada. Chega até ser engraçado hoje, confesso
que agora estou até rindo da situação. A parte desbocada xingava as pessoas e a
boazinha pedia desculpas. Mas, fazendo isso sem parar o dia inteiro deixa a
pessoa completamente esgotada.
Olho para a janela e o dia começa a clarear aos poucos.
Confesso que neste momento estou sentindo saudades do tempo em que estava nas
ruas de Belo Horizonte e que era acordado somente por pessoas dispostas a me
ajudarem, quer seja oferecendo algo para comer ou então para uma simples
conversa, pois muitos estranhavam o fato de eu estar morando nas ruas, depois
que cortei o cabelo e comecei a fazer a barba.
Comentei no post anterior que estou pensando em virar um
morador de rua por um período de uns vinte dias, para relembrar e registrar os
momentos que passei nas ruas e também para documentar no blog como é a vida de
um morador de rua.
Lá, pelo menos eu tinha paz, não pagava aluguel e nem tinha vizinhos que não respeitavam o sono alheio.
Bem, a luz do sol acaba de invadir o meu quarto e o casal
vizinho encerrou a discussão. Eles simplesmente trocam o dia pela noite e acham
que tenho que fazer isso também. Tenho que ter bastante paciência para
conversar e pedir com educação para que respeitem o meu sono. Por falar em
sono, vou ver se consigo dormir um pouco agora, o que acho difícil, pois não
passei a noite dançando e bebendo, estava apenas sonhando que a esquizofrenia
não estava mais em minha mente.
fonte: wikipedia

