09/08/2024
Difícil despedida de Alto Paraíso
Depois de três dias de folga chegou a hora de partir. Vou embora de Alto Paraíso. Um pouco triste, pois não é fácil se despedir de um lugar tão maravilhoso e abençoado em sua natureza. Mas me sentia realizado, afinal é mais um lugar riscado de minha listas de lugares que pretendo conhecer algum dia.
E não é somente a beleza do lugar que me encantou, o ambiente é muito bom, uma energia boa pairava no ar. E essa energia me contagiava e se refletia também na parte física. Estava pedalando bem e sem me cansar. Talvez seja o ar puro e o visual do local. Ou algo superior...
Dormi em Alto Paraíso no lugar de sempre, depois que no primeiro dia quase congelei na grama do posto de gasolina. Tive a sorte de encontrar pessoas boas que me deixaram montar a barraca em frente do bar, com a obrigação de desmontá-la antes das seis e meia. Todas as noites foram excelentes, cheias de tranquilidade e paz. Aliás não vi nenhum desentendimento entre os moradores da cidade, uma única voz mais exaltada sequer. A paz domina o lugar e acaba contagiando as pessoas. Não vi nem cachorro brigando...
Hoje irei pedalar até a cidade de Teresina de Goiás. Serão 70km em uma estrada solitária, segundo me informaram os moradores.
Tomo o meu café e sigo a estrada, que é uma delícia de se percorrer. Asfalto em excelente estado e a maior parte, descidas. Alto Paraíso está à 1272km acima do nível do mar. Na ida sofri um pouquinho para chegar, foram 70km de muitas subidas íngremes, entre São João D’aliança e Alto Paraíso. Agora estou descendo o que havia subido. Me arrisco um pouco deixando a bike pegar velocidade mas raramente passa algum veículo naquela Br. Qualquer descuido pode me causar sérios problemas. Mas o bom asfalto convida a sentir um pouco de adrenalina, é uma sensação deliciosa descer na maior velocidade e sentir aquele ventinho no rosto e o barulho do vento nos ouvidos.

A BR é bem solitária mesmo, quase sem casas e estabelecimentos comerciais. Aqui estou gostando dessa solitude. Estou sem pressa e curtindo ainda mais o caminho. Também não tem árvores para dar aquela sombra nas paradas para descansar. Consegui achar uma bem pequena, mas à medida que o sol ia passando tinha que mudar de lugar para acompanhar a sombra. Por falar no sol, ele estava bem forte na hora do descanso, por volta do meio dia. Acredito que é o dia que mais fez calor até hoje nessa minha viagem. Deitado na grama deu para ver na BR o vapor subindo do asfalto. Lugar para almoçar somente em Teresina mesmo.
E não é somente a beleza do lugar que me encantou, o ambiente é muito bom, uma energia boa pairava no ar. E essa energia me contagiava e se refletia também na parte física. Estava pedalando bem e sem me cansar. Talvez seja o ar puro e o visual do local. Ou algo superior...
Dormi em Alto Paraíso no lugar de sempre, depois que no primeiro dia quase congelei na grama do posto de gasolina. Tive a sorte de encontrar pessoas boas que me deixaram montar a barraca em frente do bar, com a obrigação de desmontá-la antes das seis e meia. Todas as noites foram excelentes, cheias de tranquilidade e paz. Aliás não vi nenhum desentendimento entre os moradores da cidade, uma única voz mais exaltada sequer. A paz domina o lugar e acaba contagiando as pessoas. Não vi nem cachorro brigando...
Hoje irei pedalar até a cidade de Teresina de Goiás. Serão 70km em uma estrada solitária, segundo me informaram os moradores.
Tomo o meu café e sigo a estrada, que é uma delícia de se percorrer. Asfalto em excelente estado e a maior parte, descidas. Alto Paraíso está à 1272km acima do nível do mar. Na ida sofri um pouquinho para chegar, foram 70km de muitas subidas íngremes, entre São João D’aliança e Alto Paraíso. Agora estou descendo o que havia subido. Me arrisco um pouco deixando a bike pegar velocidade mas raramente passa algum veículo naquela Br. Qualquer descuido pode me causar sérios problemas. Mas o bom asfalto convida a sentir um pouco de adrenalina, é uma sensação deliciosa descer na maior velocidade e sentir aquele ventinho no rosto e o barulho do vento nos ouvidos.
A BR é bem solitária mesmo, quase sem casas e estabelecimentos comerciais. Aqui estou gostando dessa solitude. Estou sem pressa e curtindo ainda mais o caminho. Também não tem árvores para dar aquela sombra nas paradas para descansar. Consegui achar uma bem pequena, mas à medida que o sol ia passando tinha que mudar de lugar para acompanhar a sombra. Por falar no sol, ele estava bem forte na hora do descanso, por volta do meio dia. Acredito que é o dia que mais fez calor até hoje nessa minha viagem. Deitado na grama deu para ver na BR o vapor subindo do asfalto. Lugar para almoçar somente em Teresina mesmo.
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| Pouca sombra no caminho. Dava para fritar um ovo no asfalto... |
A tendência agora é a temperatura ir subindo, à medida que vou me aproximando da região norte. Dizem que Tocantins é bem quente. Descobri que Tocantins fica na região norte e não no centro oeste, como imaginava, afinal esse estado surgiu da divisão do estado de Goiás. Depois irei passar no Maranhão, na região nordeste. E depois voltarei para o norte, no Pará, para finalmente chegar em Belém, o destino final. Mas pouco me preocupo com o final da viagem, o grande barato de uma cicloviagem é a própria viagem, e não cumprir um desafio de se chegar à algum destino pré-definido. Não me preocupo com quantos kms faltam, até ficho chateado quando alguém me informa esse detalhe. Se ficarmos focados nos kms que faltam acabamos ficando cansado só de imaginar a distância. Tem muito de psicológico nessas viagens, não é só condicionamento físico. É a caixola também funcionando para nos empurrar e seguir viagem nos momentos mais difíceis.
A estrada é tão boa que meu humor está ótimo, talvez pelos dias que passei em Alto Paraíso. E começo a cantar, já que a estrada é praticamente deserta. Não sei se por influência da região, me arrisquei no forró nesse trecho. Aliás, não sei cantar, só solto minha péssima voz quando estou só na BR ou então quando quero irritar alguém.
Passei pelo paralelo 14, uma linha imaginária geográfico-mística que atravessa o planeta e é muito conhecida no turismo esotérico por passar por locais de alta energia. Dizem ter um túnel secreto que supostamente nos leva até a cidade peruana de Macchu Picchu, outra região famosa pelo misticismo. Engraçado que em São Thomé das Letras tem uma lenda parecida, na gruta do Carimbado. Entrei uns 20 metros nessa gruta, mas como é tudo muito estreito e escuro, não segui adiante. Outros pessoas afirmam que o paralelo 14 seria uma linha imaginária que corta o planeta, atravessando Alto Paraíso e também até Macchu Picchu. Enfim, por ali teria uma passagem física e uma outra extra dimensional, ou algo parecido. Abaixo o link com o mapa dessa linha imaginária
Depois do almoço encontro um local com muitas árvores e aproveito para descansar, apesar de ter chegado em boas condições, apesar do forte calor. Acredito que daria para chegar na próxima cidade, mas nessas viagens não uso GPS e não me preocupo muito com números e sigo a minha intuição e os conselhos dos moradores da região em que estou.
Apesar do calor foi uma pedalada prazerosa
Teresina é uma cidade muito pacata e charmosa, o lugar ideal para passar o restante do dia. Enquanto estava descansando passou por mim o ciclista que avistei indo para o povoado de São Jorge. Dessa vez acenei para ele, devido à tal coincidência quase que improvável de se acontecer em uma cicloviagem. Ele apenas me cumprimentou e seguiu viagem. O descanso estava uma delícia naquelas sombras e fiquei ali um bom tempo, sendo só incomodado por alguns minutos pelo “carro da melância”. Não adianta, todo lugar tem um carro de alguma coisa, só mudando o produto de acordo com a região: ovo, melancia, pão de queijo, etc...
Por volta das quatro horas procuro um lugar para me banhar. Em Belo Horizonte tinha o costume de dizer tomar banho, mas agora estou pegando um pouco do modo de falar diferente. Encontrei um posto de gasolina na praça central da cidade e os funcionários foram atenciosos, e deixaram montar a barraca no local depois do sol se pôr.
E quando escureceu apareceram vários garotos que saíram de dois ônibus. Eram jogadores de algum time de alguma cidade vizinha. Acho que pararam ali para lanchar. Estava com uma mania de perseguição absurda, imaginando que eles iriam querer pegar meus pertences. E tive essa sensação com os moradores da cidade também. Imediatamente lembrei que no dia anterior, depois do almoço e de tomar um suco de abacaxi fiquei meio alegre e muito relaxado e muito zen, até cheguei a imaginar que o dono do restaurante havia colocando algo no meu suco.
E dizem que maconha pode causar paranoias e mania de perseguição. Sim, algo natural pode causar delírios e alucinações. Uma das causas da esquizofrenia é o consumo de drogas. Pode ser genética também. Mas as drogas também causam. E minha mania de perseguição, que já é alta, ficou em níveis alarmantes naquela noite.
Um outro morador, que deveria ter uns 20 anos, ficou olhando para dentro da barraca e se insinuando para mim. Ele parou bem em frente e ficou se requebrando ao som da música que vinha da lanchonete da praça. Mas a única coisa que eu queria era descansar as canelas para seguir viagem no dia seguinte. Como será a minha noite¿ Será que essa paranoia de perseguição foi causada por um suposto suco de abacaxi batizado¿ Será que vai voltar tudo novamente¿ Estou com 56 anos e só usei maconha três vezes em minha vida, na adolescência, e mesmo assim não aspirei a fumaça corretamente, pois tossi um pouco e não sabia “tragar”. Minha esquizofrenia é genética, pois minha mãe também tinha alguns elementos da esquizofrenia.
Mas espero que a noite seja tranquila, montei a barraca em frente da pracinha, que é bem movimentada. E como é sexta feira a galera está tomando umas cervejas e o forró está na maior altura. Mas acredito que vai ser possível dormir um pouquinho.










































