domingo, 12 de dezembro de 2021

A difícil arte da diversão para um esquizofrênico...

                                                              Um cara de sorte....

   Há alguns anos atrás, estava de bobeira, como sempre, viajando pelas ondas da internet, sempre deixando a aba do facebook aberta. Rolando a página me deparo com uma postagem do Zeca Baleiro dizendo que  estaria aqui em "Beuzonte" para um grande show em homenagem ao grande compositor Vander Lee, que, infelizmente, não está mais entre nós. Quem acompanha o blog sabe o quanto admiro esses dois compositores. 
   Despretensiosamente escrevo na timeline do Zeca que gostaria de ganhar um ingresso para o show, pois a grana estava por demais curta. E continuei a minha navegação na internet, sem esperanças de que o meu pedido fosse visto. Na verdade era mais uma brincadeira do que um pedido. Mas não é que, ao  ver as notificações vejo que alguém havia respondido o meu comentário? Ao olhar a resposta, a surpresa: uma pessoa estava me oferendo um ingresso, e combinamos então de nos encontrar na portaria do local do show uma hora antes do evento. 
    E agora? pensei... Sou um grande fóbico social, não vou à um show desde 2004, quando desisti definitivamente de trabalhar. 
     Não vou conseguir ir à este show, mas também seria uma enorme desfeita recusar a generosidade daquela mulher. Então, me dei mais esta missão: ir ao show do Zeca Baleiro, no palácio das artes provavelmente lotado, e sem um miligrama de diazepan na cachola...
    Não gosto de drogas, sejam elas lícitas ou ilícitas, e sei que vou conseguir vencer essa minha dependência química do "pan nosso de cada dia"...


    Dito e feito: domingo saí de tarde para almoçar e fiquei de bobeira até as sete horas da noite, horário combinado para pegar o ingresso com a Fabiana (nome fictício), em frente ao Palácio das Artes. Minha mania de perseguição é tão grande que tenho a certeza absoluta que as pessoas que querem me prejudicar também irão querer prejudicar a quem me dá uma ajuda, por isso não coloquei o nome dessa generosa pessoa que me cedeu o bilhete. 
    No horário marcado ela apareceu, vestida conforme combinado no facebook. E a foto do perfil dela é atual, então não foi muito difícil reconhecê-la. A cumprimentei e, sorridente me  deu o ingresso que, para minha surpresa era da primeira fila!!! Fiquei sem entender nada, e muito menos consegui encontrar palavras para agradecer aquele gesto. Uma pessoa logo apareceu perguntando se eu queria vender o ingresso, o que recusei, é claro. Dinheiro no mundo nenhum valeria a chance de ver um show com três grandes compositores homenageando um outro grande compositor que é o Vander Lee. Apesar da grana estar curta nem cogitei em vender aquele ingresso, que deveria valer uma boa grana, mas não sou e nem tenho a pretensão de ser um cambista, ainda mais com um ingresso que me foi dado... 
   O motivo desse show é um pouco triste. O Vander Lee gravou um DVD no meio do ano passado, no Rio de Janeiro. Era em comemoração dos seus vinte anos de carreira, mas,  um mês e meio depois veio a falecer, para a enorme tristeza de seus muitos fãs no Brasil inteiro. Então o projeto  não foi finalizado e o Zeca Baleiro e o Maurício Tizumba resolveram fazer esta homenagem para concluir a edição deste DVD. 
ingresso para a primeira fila!!!
    Já tive algumas chances de ir ao show do Zeca Baleiro, até quando morava em Ipatinga, mas minhas paranoias e pensamentos persecutórios falaram mais alto naqueles dias e então resolvi ficar em casa mesmo, como sempre faço todas as noites. Percebi que a situação era grave mesmo quando o meu time do coração foi jogar em Ipatinga e eu não fui ao estádio, que ficava a menos de 1km de onde morava... 
     Entrei no palácio das artes e nem sabia o que fazer com aquele papel impresso. Fui na bilheteria pensando que teria que trocar por um ticket, mas era só apresentar na entrada do teatro que o funcionário com o leitor de código de barras iria verificar a autenticidade do ingresso. Antes havia comprado uma pipoca, pois sempre procuro algo para comer quando estou ansioso. 
   Fui para o meu lugar meia hora antes do show. Obviamente estava tenso e um pouco travado.   Coloquei então o meu disfarce de "gente normal" que acredito ser bem convincente, pois a maioria das pessoas quando me conhecem não dizem que tenho algum tipo de transtorno mental... Mas acho que elas enlouqueceriam se em suas mentes se passasse por alguns segundos o que sempre se passa em minha cabeçona...
    Fiquei no meu assento, e feliz por ter encontrado um amigo que não via há uns vinte e cinco anos atrás: o operador de som do show era simplesmente um cara que começou a trabalhar juntamente comigo em uma empresa de sonorização aqui em Belo Horizonte. Como ainda estávamos aprendendo o ofício, passamos momentos difíceis montando e desmontando  equipamentos de som em algumas festas e shows aqui em BH. Mas hoje ele é um grande operador de som e fiquei feliz em saber que está bem e sendo muito requisitado pelas bandas aqui de Minas Gerais. 
    Aos poucos o teatro foi se enchendo até ficar completamente lotado. Afinal, são três grandes artistas reunidos para homenagear um outro grande artista que se foi: o Vander Lee.
    Como me havia prometido, nem levei uma cartela de diazepan no bolso. Era um risco e tanto, mas gosto desse tipo de desafio. Eu, que em 2002 estava nas ruas de Belo Horizonte, com 25kg a menos, comendo lixo e pensando que o mundo iria acabar, agora estou no palácio das artes assistindo como um ser humano qualquer um show de seu cantor preferido. 
    Eu que, por volta de 2003 não conseguia sair de casa em uma pequena cidade do interior de Minas Gerais sem uma cartela de diazepan no bolso. Certa vez quando esqueci e estava longe de casa, corri até a uma padaria e me empanturrei de torta de chocolate até quase não conseguir andar direito. A  "emapanturração", principalmente com doces, servia para me acalmar, mas minha barriga também estava a ponto de estourar. Chocolate e as massas também me dão uma acalmada...
   Mas, voltando ao show,  a campainha soa pela primeira vez, para avisar que o show iria começar em dez minutos. O público não fala muito e a acústica do teatro é muito boa, o que não faz aquele burburinho de vozes ficar quase que insuportável para mim.
    Estou relativamente tranquilo e feliz comigo mesmo. Minha musculatura estava tensa, mas confiante de que não iria sair correndo para fora do teatro durante o show. 
    E a campainha do teatro soou pela segunda vez anunciando o início da apresentação. Silêncio total na plateia e o show se inicia com o Maurício Tizumba, que também é humorista, fazer a primeira parte do espetáculo. O som está alto, mas muito bom. Como disse, ganhei o ingresso para a primeira fila, e estava de frente para uma caixa de som. Mas o som mesmo alto não estava ferindo os ouvidos, devido a qualidade dos equipamentos de hoje em dia. E também graças as mãos e ouvidos do meu amigo operador de som. 
Chico Cesar fez um grande show... 

     O show tem um leve clima nostálgico, mas até que o Maurício Tizumba com o seu humor faz a plateia rir por diversas vezes. Saiu muito aplaudido e logo depois entrou o Zeca Baleiro. O som ficou melhor ainda, pois a voz dele é mais para o grave e não tanto aguda. Ele falou pouco, creio que pelo motivo da homenagem ser o DVD das músicas do Vander Lee. Mas foi muito aplaudido também. Timidamente tiro o meu velho celular para tirar umas fotos, os vizinhos de acento estão filmando com celulares muito melhores e mais modernos. Até que tinha um celular razoável, que acabei vendendo, pois a situação aqui em Belo Horizonte está complicada e estão matando quem reage aos assaltos. Agora posso andar tranquilo pelas ruas com o meu novo celular antigo, e, para completar, uso um papel de parede que simula uma tela quebrada... 
  Depois que perdi a timidez do meu velho celular tiro mais fotos e até gravo um trechinho de uma música. O áudio saiu bem distorcido, pois como já relatei, estava bem em frente de uma caixa de som. Afinal, não vou à um show há bastante tempo e esqueci que tinha que diminuir o volume do microfone. Mas logo coloco o celular no bolso, não consigo curtir um show e filmá-lo ao mesmo tempo... Temos que sentir o som, os instrumentos... 
   Já no meio do show estou um pouco menos tenso e até bato palmas para acompanhar as músicas. Mas o desconforto ainda é muito grande, não adiantando dizer em pensamento para mim que as pessoas foram ao teatro para ver o show e não ficar me observando. E ainda tem as câmeras que estão gravando o show, o que aumenta e muito a sensação de estar sendo observado.  Rapidamente uma timeline se passa em minha mente e relembro dos shows que via antes dos surtos... Ficava completamente distraído, não reparando em nada à minha volta, somente os olhos voltados no palco e os ouvidos nos instrumentos... Meus olhos ficam um pouco marejados ao lembrar desses bons tempos e também por causa da lembrança e das homenagens ao Vander Lee, que parecia ser um cara tipicamente mineiro, pelo seu jeito de falar nas entrevistas que eu vi.
    Incrível como a plateia interage com os músicos, não sabia que  o Vander Lee tinha tantos admiradores, o que me faz sentir melhor, pois é bom ter um gosto musical diferente da maioria, mas também nem tanto diferente, para não me sentir um grande extraterestre.

    O show vai chegando ao fim, e para deixar meus olhos mais marejados ainda, a última música quem canta é o próprio Vander Lee. Não, ele não ressuscitou, é que o telão do teatro  foi abaixado e rodaram um vídeo com ele cantando, e a banda no palco acompanhou a música ao vivo, ou seja, foi uma música ao vivo com o falecido cantando. Bem,  acho que expliquei bem a situação...
   Muitas e demoradas palmas no final.  Olho ao redor e vejo que há um misto de emoções na plateia. Deu para notar algumas com os olhos marejados, e outras sorridentes, por causa do grande show que tinham acabado de ver. No meu caso estava também com essa mistura de sentimentos. Triste por saber que não existirão novas composições do Vander Lee, e alegre e aliviado por ter conseguido vencer mais este pequeno desafio. Espero calmamente sentado no meu banco a maior parte da plateia sair para poder ir embora. Estou um pouco mais leve, pode parecer pouca coisa, mas não é para quem estava praticamente morto por volta do ano de 2003 e que desde então não conseguia ir a um show. 
   Antes de sair do teatro, vou a mesa de som e cumprimento o meu amigo operador de som pela qualidade do áudio. Técnico de som é igual juiz de futebol, é muito importante mas não pode aparecer para a plateia. Se aparece é por que algo não está acontecendo do jeito que deveria estar acontecendo. 
   Vou para casa a pé. Foram quatro quilômetros que andei sem maiores problemas, parecia que estava 10kg mais leve. Analisei o meu comportamento durante o show e acho que o meu disfarce de gente normal foi realizado com sucesso, foi difícil esconder o meu entusiasmo, pois parecia uma criança quando vai à praia pela primeira vez ou então um cachorrinho quando ouve o barulho da corrente quando seu dono a pega para passearem juntos...
    Infelizmente sei que nem sempre vou ter esse tipo de diversão, acredito que mais dia menos dia a mania de perseguição e algumas vozes irão tirar o prazer de uma saída de casa. Mas não vou desistir, a vida é feita de desafios. E ultimamente tenho voltado a gostar dos desafios, do bom combate e da boa luta... Quem sabe um dia se o Yanni voltar ao Brasil eu consiga ver um show desse cara. Quando estive em São Paulo, no ano de 2014,  cheguei a ir ao ginásio do Ibirapuera, mas resolvi não comprar o ingresso, pois não saberia como iria me sentir no meio de tantas pessoas. 
    O "show homenagem" foi demais, recomendo a todos que assistam quando os caras estiverem em sua cidade. Me considero um sortudo, apesar de tudo. Afinal ganhei um ingresso para assistir um dos meus cantores prediletos e ainda na primeira fila... 
   A luta continua, um passo de cada vez e acredito que ainda terei mais desafios pela frente.
   Abraços à todos e até a próxima postagem.



domingo, 24 de outubro de 2021

Ciclismo e saúde mental

 O ciclismo ajuda no tratamento dos transtornos mentais?


Como o ciclismo apareceu em minha vida

 Quem acompanha o blog e o meu canal no youtube sabe que há algum tempo atrás passei a adotar a bicicleta como o meu meio de transporte principal. E não é somente isso, a magrela, é, além de tudo, uma ótima  terapia que me ajuda tanto no aspecto físico como mental. 
    Além da óbvia economia de dinheiro, com a bike ganhei mais saúde, disposição, um pouquinho mais de músculos e um pouquinho menos de gordura. Não sou obcecado em ter um corpo perfeito, apenas o necessário para me locomover por aí sem tanto esforço. Dizem que saco vazio não para em pé, mas também saco muito cheio também fica difícil de sair do lugar. Por isso que tenho um pouco de obsessão em manter o mesmo peso de quando tinha 22 anos. Havia época em que engordava um pouco, devido à comilança causada um pouco pela ansiedade. Aí a galera caía em cima achando que não estava legal e tudo mais. Então eu emagrecia novamente e falavam que eu estava com aids. A verdade é que se prestarmos atenção demais no que os outros pensam à nosso respeito acabamos pirando de verdade. 
    Minha principal atividade era correr e jogar um futebolzinho, não somente nos finais de semana. Desde criança que corro atrás da bola e é um dos bons vícios que adquiri ao longo de minha vida. Sou da época em que a molecada jogava futebol nas ruas, e os gols eram geralmente marcados por pedras. 
    Mas, em 2014 tive uma lesão no dedão do pé esquerdo e, devido ao não devido tratamento acabou virando uma fratura por stress. Passei por dois longos anos atrás de uma solução,  mas em vão. Consulta com ortopedista particular é muito cara e a cirurgia então nem se fala. 
    Foi complicado assimilar que de uma hora para outra já não podia mais correr, andar e me movimentar como antes. Gosto tanto de andar que já fiz algumas viagens a pé, com a minha mochila e a barraca nas costas. A mais longa foi a viagem pelo Caminho velho da estrada real, que liga os municípios de Outro Preto-MG á Paraty, no Rio de Janeiro. Foram 710km em 23 dias de muitas alegrias e alguns perrengues que me fazem rir até os dias de hoje. Não sei explicar isso: desde pequeno tenho essa vontade de andar por aí e conhecer novos lugares. Me lembro que, saía meio sem rumo por Belo Horizonte quando tinha uns 10 anos e às vezes ficava perdido de tanto andar. Certa vez tive que pedir para uma senhora a grana da passagem de ônibus até a praça da liberdade, pois estava em um bairro totalmente desconhecido para mim naquela época. 
andanças pela estrada real em Minas Gerais

    Passei dois anos pós fratura bem complicados. Cheguei a pensar em tirar a minha vida, ao sair dos hospital com a seringa do soro ainda em minhas veias. Estava usando blusas de mangas compridas.  Havia pesquisado na internet sobre meios de tirar a minha vida sem muitas dores. Não estava mais conseguindo viver daquela maneira, sem poder andar e correr como antigamente. Então fui até um local afastado e a minha intenção era deixar o sangue sair até o fim,  mas, para o meu azar naquela época e sorte nos dias atuais  ele já estava coagulado e seco no caninho do soro. Sentia muitas dores no local da fratura e também em outras partes do corpo, pois não estava andando corretamente e tampouco me exercitando como antes. Para piorar, nessa fase de tristeza comecei a comer muito e engordei um pouco. 
    Com o não atendimento adequado, passei a consultar o Dr Google. Comecei a tomar o cloreto de magnésio, que é um ótimo mineral para as articulações. Aos poucos fui sentindo alguma melhora, a fratura também foi se calcificando e a dor diminuindo. Dei uma maneirada na comilança  e voltei ao meu peso normal. Também comecei a fazer atividades físicas e após muitas experiências consegui achar um tênis super confortável e macio que me ajuda bastante a andar sem forçar a articulação do dedão. Os médicos me haviam indicado sapatos de solado duro, mas doía muito a região da fratura, pois o couro iria demorar muito para amaciar. 

Essa é a minha companheira Margarida

O começo do ciclismo

      O início no ciclismo não foi muito agradável, pois havia comprado uma bicicleta bem simples e o quadro dela não era do tamanho indicado para a minha altura. Quando pedalava por mais de uma hora sentia muitas dores na nuca e muito cansaço muscular. Na verdade estava reaprendendo a pedalar, pois só tive bikes durante a minha infância. Com o passar do tempo fui adquirindo conhecimento de certas práticas que deixam a pedalança mais agradável: o tamanho do quadro, a regulagem e o tipo de selim, roupas apropriadas e alguns componentes razoáveis. Aproveito esse trecho da postagem para agradecer à todos que me ajudaram e ainda ajudam a montar e a manter a bike funcionando. 
   Aliás, neste caso, não é uma bike, é a Margarida, a minha companheira fiel e inseparável desde o ano de 2019. Eu a achei em um classificado de vendas de bikes. Era só o quadro. Quando a encontrei, estava jogada em um quintal e o proprietário queria mais era desocupar o espaço de sua residência do que ganhar dinheiro. Então me vendeu dois quadros por 40 reais. Não poderia comprar um, tinha que comprar os dois quadros que estavam em seu quintal.  
    Depois de uma breve inspeção, amarrei os dois quadros na garupa de minha bike antiga e voltei para casa. A Margarida era maior, o tamanho adequado para a minha altura. O outro quadro dei para o mecânico, em troca da montagem da bike. Pode parecer insanidade, mas só quem é ciclista sabe a relação que temos com as nossas magrelas. São tantos benefícios que elas nos proporciona que não tem como não adotá-la meio como uma amiga e então batizá-la.
    A bicicleta ficou bem melhor e mais leve, já que a Magá é de alumínio. O pedal começou a ficar bem mais prazeiroso e comecei a pedalar por distâncias bem mais longas sem ficar muito detonado. Mas, quando me sentia exausto, era um cansaço gostoso que relaxava meus músculos depois de um bom banho morno após a pedalança. Era o cansaço causado pela quantidade de km percorrido e não pelo esforço  por ter pedalado em uma bike  não muito bem equipada. 
    Então, em 2019 fiz a minha primeira cicloviagem Pedalei 3050km entre os estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Foram muitas alegrias e perrengues que nunca irei esquecer até os últimos dias de minha vida. Não imaginava que iria conseguir pedalar por tanto tempo seguido e por tantos quilômetros. Ficava cansado só de ver os vídeos de cicloviagens no youtube.  Mas, quando estamos na estrada uma energia que não sei de onde vem vai tomando conta da gente e, quando nos damos conta, estamos pedalando por volta de 100km por dia na maior alegria e disposição. Se bem que minha intenção em uma viagem de bike não é a  velocidade e nem os Kms percorridos,  quero mais é curtir o caminho, sentir aquele ventinho batendo em meu rosto sem me preocupar com nada. 
     Durante os dois meses de viagem em nenhum dia tive a vontade de usar o fone de ouvido para curtir uma música durante a pedalança, queria mesmo era ouvir os sons do caminho: pássaros, o vento, as pessoas nos cumprimentando. Não sou muito comunicativo e sou de ficar mais na minha mesmo, apesar de que durante uma viagem quanto mais amigos fizer melhor. Mas também não posso mudar o meu jeito de ser, soaria um pouco falsa a minha aproximação. As amizades que fiz ocorreram de maneira natural e casual. 
    Voltei para casa e, em menos de dois meses já queria pegar a estrada de novo. Estava me preparando para ir para o Uruguai, mas o coronavírus chegou e tive que adiar meus planos. 

Benefícios do ciclismo 

    Depois que descobri que o que atormentava a minha mente era um transtorno mental chamado esquizofrenia, procurei ajuda médica e passei a tomar os medicamentos indicados para esse tipo de doença. Mas me sentia muito cansado, sem libido e com muitos outros efeitos colaterais. Me sentia um robô, tanto fisicamente como emocionalmente. Esses antipsicóticos parecem cortar nossas emoções, e não achava graça em nada, nem mesmo nos gols que o meu time do coração fazia. E também não ficava com raiva quando ele perdia. Enfim, nada mais me importava e  não acho isso um bom conceito de paz. Paz para mim é estar bem consigo mesmo, ter a consciência tranquila e saber se proteger de energias e ambientes negativos. 
    Depois que comprei o meu primeiro computador, por volta dos 42 anos comecei a estudar o transtorno e também a procurar alternativas para ter uma vida com qualidade sem muitos sustos e surtos psicóticos. E descobri que a atividade física deve ser parte indispensável no tratamento de qualquer tipo de transtorno mental. 


    Muito se fala sobre a melhora na parte física na prática de algum esporte. O que poucos falam é sobre a melhora também na saúde mental.... 
    A atividade física nos dá aquela sensação de prazer, causada pela liberação da endorfina, serotonina e outras inas mais. Ajuda a diminuir a ansiedade, o stress e nos faz esquecer dos problemas do dia a dia.Ajuda também na qualidade do sono, que é imprescindível para recuperar nossas energias para o dia seguinte.
      Outro benefício na saúde mental que a bike nos proporciona é na questão da respiração. Melhoramos o nosso fôlego e  respiramos melhor. Uma respiração correta ajuda a oxigenar melhor nosso cérebro. 
       Pedalar em meio à natureza parece ter um efeito ainda maior: a qualidade do ar, a paisagem, o som dos pássaros cantando... E se tiver uma bela cachoeira para se refrescar melhor ainda. 
     Além de tudo isso, cuidar de uma bike é uma ótima terapia. Deixá-la limpa e lustrada é um excelente passatempo. Aprender a mecânica de uma magrela ocupa a nossa mente com algo positivo, afinal estamos exercitando nosso cérebro. Eu, que havia estudado eletrônica e detestava mecânica agora meto a mão na graxa para manter a Margarida em forma para novos desafios. 
O ciclismo também ajuda na socialização das pessoas.


     O ciclismo pode ajudar e muito na socialização, pois sempre encontramos alguém durante o pedal. Seja durante o percurso ou quando  paramos  para comer alguma coisa em uma lanchonete para repor as energias. Até eu que sou um pouco (na verdade muito) fechado, consigo fazer algumas amizades. Acho que falei mais na minha cicloviagem de dois meses do que no ano anterior inteirinho...
     Também existem os grupos de pedal, que se reúnem nas redes sociais e combinam trechos para percorrer. Reunir a turma para um pedal no final de semana é uma excelente diversão. Curtir a vida não quer dizer necessariamente cair na night e frequentar um barzinho e "tomar todas"... 
    Aliás, quem pedala nos finais de semana costuma acordar bem cedo, então nada dos embalos de sábado à noite... 
    E também tem os benefícios na parte física: ajuda a manter o peso, mantém os músculos em ordem, ajuda no combate aos problemas do coração, pressão arterial, diabetes, etc. Enfim, não irei me estender muito para a postagem não ficar muito longa, pois é chover no molhado falar sobre as melhoras no organismo de uma pessoa ao praticar uma atividade física.  Nos grupos do facebook de ciclismo o que não falta são relatos de pessoas que afirmam ter melhorado sua vida depois do ciclismo. 
    O que pouco se fala é sobre o ganho de qualidade na saúde mental na prática de esportes. E por esta razão fiz esta postagem.  Os médicos orientais procuram separar o indivíduo, o físico é uma coisa, a parte mental é outra. Na minha humilde opinião e sem muita filosofia não tem como se sentir bem na totalidade se estamos mal em uma das partes. E também tem a parte espiritual, mas isso é assunto para outras postagens. 

E a luta continua...

      Não me considero um vencedor nesta luta contra a esquizofrenia. É uma luta diária, que parece não ter fim. Mas hoje aprendi a melhor conviver com ela e posso me considerar um sobrevivente, ao analisar por tudo o que passei em minha vida. Graças à ajuda de pessoas de bom coração hoje eu estou digitando estas linhas e ajudando as pessoas que estão passando hoje o que passei há alguns anos atrás. 
       Por volta do ano de 2003 não conseguia sair de casa sem uma cartela de diazepan no bolso. Em dias de muito estresse chegava a tomar cinco comprimidos de 10mg por dia. Sim, tinha que tomar durante o dia também, para não surtar de vez. Cheguei a tomar vários antipsicóticos fortes, como o haldol, que nos deixava meio como zumbis. 
     Hoje não tomo mais antipsicóticos e consigo sair de casa sem as cartelas de diazepan. Aliás, só tomo quatro comprimidos de 10mg por mês, pois meu organismo infelizmente ficou viciado nessa droga de droga de ansiolítico. 
     Enfim, a luta contra esquizofrenia é como um jogo em que você precisa conhecer bem o adversário para descobrir os seus pontos fortes e fracos. E cada dia é como se fosse uma nova partida, se no jogo anterior ela te venceu, no dia seguinte você tem a chance de melhorar e se sair melhor nessa luta. 
     Espero ter ajudado com o meu relato sobre a prática do ciclismo. Recomendo de coração que  pratiquem alguma atividade física. Não precisa ser necessariamente o ciclismo, cada um tem a sua maneira de ser e então tem suas preferências particulares esportivas.  Não adianta muito se exercitar fazendo algo que não gostamos muito, a atividade física tem que ser um prazer e não uma obrigação. 


Sugestão de leitura

Ciência explica como o ciclismo muda o seu cérebro e te faz mais forte mentalmente

domingo, 10 de outubro de 2021

Problemas na bike

 Olá pessoal. 

    Sou aposentado e estou com problemas no meu meio de transporte, que é a bicicleta. Em maio paguei 120 reais para fazer a manutenção nela e no entanto o problema novamente apareceu em menos de dois meses. O mecânico infelizmente disse que não poderia dar garantia. 

    No momento estou com dificuldades financeiras pois por causa da pandemia não estou conseguindo pagar os empréstimos que fiz antes dela chegar. 

    Uso a bicicleta para tudo, pois tenho o dedão do pé esquerdo quebrado, e a cirurgia é muito cara. 

    O conserto fica por volta de noventa reais, mas desta vez quero comprar as chaves que são específicas, para assim não ficar dependendo muito dos mecânicos. No youtube tem vários vídeos explicando como se faz o conserto, e não é muito difícil. É a única parte da bicicleta que não aprendi a arrumar, por causa do preço das chaves específicas. 

    Precisarei de comprar duas chaves e provavelmente a peça que se chama movimento central. Tirei a foto e print de tudo para melhor explicar e provar a situação. 

    Sou aposentado pelo CID F20 como podem ver na imagem, espero que não me julguem, pois sei que tem pessoas em situação até pior do que a minha. Mas é com a bicicleta que saio para almoçar no restaurante popular e resolver os meus problemas.

Qualquer ajuda é bem vinda: dois reais, cinco reais. O número da conta é esse, caso prefira fazer PIX mande mensagem nos comentários que passo o meu número.

Ou se preferir envie um email para: memoriasdeumesquizofrenico555@gmail.com

Julio Cesar dos Santos

   Agência 2332 Ipatinga MG

   Caixa Econômica Federal

   Operação 023

   Conta 000.834.123.454-6



Esse é o laudo do meu dedão quebrado

nota fiscal do conserto da bike em abril deste ano



as peças que terei que comprar, aqui em Belo Horizonte é um pouco mais caro, pois o frete não foi calculado

Este é o meu dedão quebrado

Os meus empréstimos que não estou conseguindo pagar



segunda-feira, 23 de agosto de 2021

A pessoa com esquizofrenia consegue se lembrar das coisas que fez durante um surto?

 O esquizofrênico perde a memória durante uma crise?


     O título da postagem é uma indagação feita por muitas pessoas portadoras de esquizofrenia, principalmente nas redes sociais. Talvez elas não sejam a melhor ferramenta para se informar sobre transtornos mentais. Mas, de uma certa forma, acaba sendo a única. E explico o por que. Infelizmente muitos profissionais da saúde mental não dialogam com os seus pacientes, e, se quando o fazem, muitas vezes não é para responder dúvidas do próprio paciente e de seus familiares. Então o jeito é googlar ou perguntar aos amigos virtuais que tiveram experiências semelhantes, o que não deixa de ser algo muito válido. Afinal, só quem passa por certas experiências que a esquizofrenia nos faz passar é que pode descrever com exatidão o que é ter esse terrível transtorno. 
     Antes de tudo é preciso dizer que esquizofrenia não é somente os surtos. É também uma série de comportamentos, pensamentos, atitudes e outras questões mais. O surto, como o próprio nome sugere, é um pico, é algo passageiro. Como um surto de dengue, para tentar exemplificar melhor a situação. 
    A esquizofrenia tem vários sintomas, e os mais comuns são: mania de perseguição, paranoias, delírios, falta de contato com a realidade, etc...
     Por experiência própria, defini o surto quando esses pensamentos persecutórios e paranoias acabam se tornando realidade na mente do indivíduo. E o que provoca os surtos? São os gatilhos, que podem ser um trauma, um acidente, stress, drogas, enfim, coisas do nosso mundo, principalmente o que estamos vivendo atualmente. 
     E o que acontece durante um surto? Na imaginação da maioria das pessoas o indivíduo sai pelas ruas atirando pedra em todo mundo. Mas não é bem assim...
     Não existe ser humano idêntico ao outro e a esquizofrenia é uma doença não só do cérebro, é da mente também. Por isso cada um reage de sua maneira, cada um tem sua piração. Ninguém é igual à ninguém e também não tem a mesma vida que a outra pessoa tem. Pode sim ter situações semelhantes e comportamentos semelhantes, mas nunca idênticos. 
      Alguns sim reagem com agressividade, afinal, em sua mente muitas pessoas o querem prejudicar, estão tramando algo contra ele. 
      Mas, por experiência própria e por convívio com outros portadores e também através dos meus estudos posso dizer que a maioria das pessoas com esquizofrenia se isolam em suas casas, e muitas vezes deixam de estudar e trabalhar. 
     Já outros  fogem de suas casas, não é raro ver por aí nas ruas cartazes de pessoas desaparecidas, informando nome, idade e, muitas vezes que a pessoa tem algum tipo de transtorno mental. 
      Como afirmei, nos surtos as paranoias meio que se tornam realidade na mente das pessoas com esquizofrenia. Vão morar nas ruas, perambulam pelas estradas e até fogem para outras cidades e estados. E, infelizmente, muitos acabam tirando a sua própria vida. Afinal, é mais fácil matematicamente falando se auto-exterminar do que matar todos aqueles que imagina estar querendo matá-la. No meu caso essa última alternativa aconteceu algumas vezes, e sem sucesso, como podem notar nestes escritos do blog e do meu canal no youtube. 
        As pessoas com esquizofrenia continuam a escutar e a ver, mas não normalmente. Escutam e veem coisas reais e irreais. E raciocinam também, mas dentro da realidade que está em suas mentes. 
      No meu caso em particular, no início dos surtos graves pedia demissão do meu trabalho e ia tentar a vida em outra cidade, numa tentativa de fugir dos inimigos que imaginava estarem somente naquela cidade. Mas não adiantava a mudança, os inimigos imaginários continuavam a me perseguir. E então ia para as ruas e, me sentindo também perseguido nas cidades, ia para a última alternativa: as brs. 
muitos andarilhos têm algum tipo de transtorno mental


       Existe um sintoma da esquizofrenia que não é muito comentado mas sinto que é muito presente na mente das pessoas com esquizofrenia: o sentimento de culpa exagerado, que, inclusiva fazia parte do CID F20 (esquizofrenia paranoide). Atualmente esse sintoma foi retirado do CID, juntamente com o complexo messiânico O motivo não sei, talvez queiram resumir a esquizofrenia à um simples desequilíbrio químico do cérebro, esquecendo a parte mental. 
     Nessa minha fuga, um enorme sentimento de culpa assolava a minha mente. Pensava ser o culpado de tudo o que havia acontecido de errado no mundo. Acho que se os surtos fossem em setembro de 2001, provavelmente iria assumir o atentado das torres gêmeas...
    Muitas lembranças viam a minha mente, numa sequência alucinante. E todas essas lembranças me culpavam de algo que havia feito e também do que não havia feito. Quando estava na BRO40 próximo de Belo Horizonte sentido Mariana, passei por um local que, há cerca de doze anos atrás havia presenciado uma cena que parecia ser um início de um estupro. Já havia esquecido aquele fato, mas o retorno ao local reavivou todos os detalhes daquele dia: estava em um caminhão carregado de equipamento de som rumo à Mariana, para fazer um evento naquele município, não tenho certeza se era comemoração do aniversário da cidade. 
     Estávamos em uma forte subida e vi, do outro lado da BR, dois homens arrastando uma mulher para dentro do mato. Pedi para o motorista do caminhão parar e descermos para ajudar a mulher mas ele afirmou que o veículo estava muito pesado e que seria impossível parar naquele lugar. Não insisti, mas fiquei um pouco assustado, tanto com a cena como também pela frieza do motorista.
     Alguns quilômetros depois passamos por um posto da polícia rodoviária federal e novamente pedi para o motorista parar e avisar para a polícia, mas ele novamente continuou seguindo caminho...
     Não podia fazer nada, naquela época nem celular existia. Mas, por causa da correria do trabalho, acabei me esquecendo daquelas cenas. Operador de som é um dos primeiros a chegar e um dos últimos a sair de um evento. 
      Então, quando passei novamente por aquele lugar tudo voltou bem vívido em minha mente. Imaginava que a mulher e sua família estavam me perseguindo por não ter tomado nenhuma atitude. Me sentia culpado também por ter acreditado que estava com AIDS, por causa de boatos que circulavam na cidade onde trabalhava, no leste de Minas Gerais. Me sentia culpado não exatamente por ter aids, e sim por supostamente ter contaminado as poucas pessoas com quem tive relação sexual sem o uso do preservativo. Esse pensamento foi um dos gatilhos para o meu surto mais grave. Naquela época o tratamento para AIDS já havia evoluído bastante, mas ainda restava um pouco daquele pensamento de que a síndrome era meio que uma sentença de morte para o portador.
     Enfim, muitas lembranças invadiam a minha mente e a  minha principal reação era fugir, fugir e fugir....
o sentimento de culpa exagerado é um dos sintomas da esquizofrenia


       Me lembro de quase tudo o que me aconteceu durante os surtos: as tentativas de extermínio, a fuga pelas brs, o período que passei dentro do mato, a volta para o centro de Belo Horizonte, a ajuda das pessoas até o momento que consegui me recuperar.  Me lembro da primeira vez que comecei a voltar um pouco para a realidade. Isto aconteceu em uma manhã de um dia da semana qualquer, pois o centro estava bem movimentado. Já estava  voltando a me alimentar, havia perdido 25 kg naquela fuga pelas brs, não estava me alimentando, apenas bebendo muita água. Quando passei em frente de uma farmácia, uma vaga lembrança apareceu em minha mente: tinha o costume de me pesar com frequência, era quase uma obsessão estar dentro de uma faixa de peso. Para minha surpresa a balança digital indicou que eu estava pesando 60kg! A reação foi mais de surpresa do que de espanto. "O que está acontecendo?"... - me perguntei naquele momento.
    Um fato que não consigo narrar ou me lembrar foi quando entrei em um local que parecia ser uma livraria. Caminhei até a estante e apontei para um livro azul que deveria ter aproximadamente umas 400 páginas.
     Saí da loja e sentei na calçada. Naquela fase ainda não estava me comunicando com as pessoas através da fala. E comecei a ler o livro numa velocidade incrível, pelo menos foi o que me resta de lembrança e de entendimento. Não posso afirmar se fiquei ali uma hora, duas ou até mais horas sentado lendo aquelas páginas, que pareciam narrar um assunto muito interessante, pois fiquei totalmente desconectado do mundo exterior durante a leitura.. Acredito que no meu caso em particular tenha havido sim algo de espiritual durante aqueles surtos, pois muita coisa estranha aconteceu. 
      Enfim, praticamente tudo o que me aconteceu consegui me recordar e registrar em um livro, que intitulei "Mente Dividida", pois achei que resumia bem o estado em que minha mente se encontrava naquela época dos surtos mais graves. Mas não ficava dividida meio a meio realidade e paranoias, nos surtos acho que ficava 90% na psicose e apenas 10% na realidade, pois sabia que tinha que beber água, dormir, etc... (você pode adquirir o livro Mente dividida através do link abaixo:
      Posso afirmar que a maioria das pessoas com esquizofrenia durante os surtos se lembram do ocorrido, não só por experiência própria, como também através dos diálogos que tenho com outros  portadores. Acredito que a maioria imagina que a pessoa surta, agride várias pessoas e depois é contida por enfermeiros e depois não se lembra de nada.  Acredito que por volta de 10% das pessoas com quem conversei afirmou não se lembrarem de nada do que havia acontecido durante um surto. 
       O motivo de não se lembrarem ainda não encontrei. Como não era agressivo, nunca cheguei a tomar um sossega leão ou um medicamento mais forte. Talvez uma dosagem forte faça as pessoas se esquecerem de alguns fatos. 
       Também os meus escritos e videos são baseados em estudos que faço, visitando sites confiáveis e vendo alguns vídeos de alguns psiquiatras que acho interessantes. Não gosto daqueles que resumem a esquizofrenia à um simples desequilíbrio químico do cérebro, seria simplificar demais a doença. 
Esses profissionais costumam comparar a esquizofrenia à diabetes, que é só tomar o remedinho e tudo ficará bem....
    Enfim, a esquizofrenia é um transtorno mental em que pode ocorrer os surtos, mas não tem nada a ver com amnésia... 
  

    Na verdade o que pode afetar a memória são os ansiolíticos e os antipsicóticos. Na época em que tomava diazepan, duas vezes ao acordar não sabia onde estava e nem quem eu era. Entrei em desespero e tive que ficar puxando pela memória por cerca de um minuto. Aos poucos as lembranças foram voltando, mas a partir desse dia comecei o desmame desse ansiolítico. Isso aconteceu por volta do ano de 2008, e, hoje ainda sou dependente, mas tomo, no máximo, 4 comprimidos por mês, para não ficar muito irritado. Já cheguei a tomar 20mg por noite e considero uma pequena vitória essa boa diminuição do medicamento. 

sexta-feira, 23 de julho de 2021

É possível ser feliz tendo esquizofrenia?

               Afinal, é possível ser feliz sendo portador de esquizofrenia?



     Quem acompanha o blog sabe que também tenho um canal no youtube, apesar de reconhecer que falar não é o meu forte. É que às vezes mil pensamentos vêm à tona  e no final não consigo dizer o que estava pretendendo. 

    Outro dia, ao abrir o canal, me deparei com uma pergunta que me fez refletir muito. Me deixou tão pensativo que não a respondi imediatamente, como faço com a maioria das perguntas que aparecem no meu vídeoblog:

"Quando vc descobriu a doença vc perdeu o interesse em algumas coisas que fazia antes ?. É possível ser feliz tendo esquizofrenia?! Em janeiro eu tive um surto pscotico agudo , faço uso da quetiapina . Ultimamente não estou me sentindo feliz , parace que perdi o prazer de viver"

Antes de responder a pergunta do membro do canal, fiz várias indagações:

    Afinal, o que é a felicidade?

   É possuir bens materiais? É estar com saúde física? É estar bem mentalmente e psicologicamente? ou é estar bem espiritualmente?

     Ou a felicidade é apenas química, um conjunto de substâncias e hormônios presentes no cérebro na quantidade certa? Serotonina, dopamina, endorfina, ocitocina e outras "inas" mais?

    "Olá

    Bem, existem duas situações: quando os sintomas aparecem e quando você acaba descobrindo a doença. 

    Às vezes pode demorar muito entre os primeiros sintomas e a descoberta  da doença, principalmente pela falta de informação e preconceito que cerca os transtornos mentais. 

    Mas cada caso é um caso, ainda mais em se tratando de esquizofrenia. 

    No meu caso em particular, quando os sintomas começaram a aparecer em primeiro lugar veio a confusão mental total, por causa das vozes e outras alucinações. Na época não tinha a mínima noção do que era esquizofrenia e tinha quase total convicção de que o que estava acontecendo comigo era de origem espiritual, e então pulava de igreja em igreja com a finalidade de expulsar esses maus espíritos que estavam me incomodando. 

    Muitos anos depois, só depois de comprar um computador e aprender a usar a internet é que descobri o que tinha. No meu caso foi uma forma de aprender sobre esquizofrenia e consequentemente um pouco de mim mesmo. Infelizmente nas consultas com os psiquiatras e psicólogos não tive as informações que precisava, apenas anotavam o que eu relatava e me receitavam os antipsicóticos. 

   Em relação ao fato de uma pessoa com esquizofrenia poder ser feliz ou não, é bem relativo: depende da gravidade do caso, da estrutura familiar do paciente e, principalmente do conceito de felicidade. Hoje em dia está complicado até para as pessoas "ditas normais" serem felizes com tanta coisa ruim acontecendo pelo mundo. O que posso dizer é que as pessoas com esquizofrenia podem sim ter seus momentos felizes se ela tiver amigos e, principalmente, for amiga de si mesma. De nada adianta ter tudo em volta se a pessoa não quer lutar contra a esquizofrenia e principalmente contra o preconceito que cerca o transtorno, algo que acho tão prejudicial quanto a própria doença. 

   Afinal, podemos ser felizes o tempo todo? A felicidade é um estado de espírito, ou temos momentos de felicidade e tristeza? Essa questão não sei responder, pois vejo pessoas com tão pouco sendo aparentemente felizes e pessoas com muito não tendo demonstrações de felicidade. Sempre quando viajo pelo interior vejo a felicidade na simplicidade e na paz de espírito nas pessoas que estão mais afastadas do mundo moderno e com um maior contato com a natureza. 

    Em relação à quetiapina, ela pode nos deixar um pouco robotizado, sem emoções, sem achar graça em nada. Mas também os sintomas negativos da esquizofrenia  podem nos deixar apáticos. Tomei a quetiapina por vários dias e confesso que é uma sensação terrível ficar sem sentimentos, sem nos emocionar com nada, nem mesmo com um gol decisivo do nosso time de coração. 

    Também pode fazer parte da esquizofrenia a oscilação de humor, um sintoma característica da bipolaridade. Tem dias que estamos super bem e outros estamos tão mal que procurarmos os sintomas no google de uma possível doença. Eu mesmo fico com receio de marcar algum compromisso, pelo simples fato de não saber como estarei naquele dia. 

    Penso que dinheiro seja necessário , não sou de ficar glamorizando a pobreza, afirmando que dinheiro não traz felicidade. Precisamos de dinheiro para ter qualidade de vida.

    Espero ter ajudado e obrigado pela visita ao canal. 

    Escrevi algo sobre isso no meu blog, sobre um filme que não é muito profundo, é uma comédia, mas que faz refletir bastante. "

https://memoriasdeumesquizofrenico.blogspot.com/2015/10/sonhos-de-um-esquizofrenico.html


O embotamento afetivo

Os antipsicóticos nos deixam robotizados fisicamente e emocionalmente


    


Link do meu canal no youtube:

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Paranoias diárias de cada dia: O medo de pegar Covid

 A gotícula da paranoia


    Outro dia estava pedalando com a minha bike ao lado do rio Arrudas, aqui em Belo Horizonte. Para quem não conhece, é como se fosse o rio Tietê de São Paulo. 

    Pois bem, de repente passo por cima de uma pequena poça de água e uma gotícula entra justamente dentro do meu nariz. 

        Imediatamente para a bike e começo a assoar o nariz até sair a minha alma. 

     O pavor tomou conta de mim, outro dia havia lido uma matéria em que pesquisadores tinham colhido amostras da água do rio arrudas para saberem o quanto da população da capital mineira estava contaminada com o coronavírus. (pois é, o vírus entra até na bosta da gente).

    Voltei pedalando o mais rápido possível que minhas canelas conseguiam imprimir na bike. Imediatamente peguei o álcool em gel, e enchi as minhas narinas com o líquido que se tornou rotina usar. Para minha surpresa não ardeu.

    Nos dias seguintes, atenção total aos possíveis sintomas que porventura aparecessem: febre, cansaço, dores no corpo, diarreia, etc...

    Como moro sozinho e em um local que tem vários outros quartos, já estava planejando morar em minha barraca em uma rua isolada qualquer aqui na capital mineira. E iria confeccionar um cartaz bem grande avisando que eu estava com coronavírus e que aceitaria doação de comida, pois não iria poder sair dali durante duas semanas. 

    Os dias foram se passando e nada dos sintomas aparecerem. Vez ou outra eu petiscava alguma coisa para ver se estava sentindo o gosto dos alimentos. 

     Passaram-se duas semanas, que é o tempo que o vírus do covid demora para aparecer e eu estava super bem fisicamente, pois a minha saúde mental, que não é lá essas coisas, deu uma boa piorada durante essa pandemia.

     Bem, essa foi a história da gotícula de água que quase me deixou louco. 

     Até a próxima paranoia diária de cada dia. 

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Inclusão???

 


     Esse texto encontrei em minha naveganças pela internet, em uma rede social.

    Achei-o bastante interessante e resolvi compartilhar aqui no blog. Não irei comentar sobre pois acredito que por si só já diz muita coisa. 

    "Outro dia sentei em um restaurante com um amigo. A garçonete chega para nos atender, nos cumprimenta com um sorriso:

- "Olá Amigues!"

- "Amigues?", eu disse, também com um sorriso.

- "Isso mesmo, somos um restaurante inclusivo!", ela respondeu com orgulho.

- "Olha que bom! Isso é ótimo porque em pouco tempo chegará um amigo que é cego. Você tem o cardápio em Braille?"

- "Não, não temos isso.”

- "Ok, mas minha esposa também vem, mas vem com minha afilhada, que é autista. Menu com pictogramas, otimizado para pessoas autistas, vocês têm?”

- "Não, desculpe...", ela disse visivelmente nervosa.

- "Não tem problema, isso geralmente acontece. Imagino que a linguagem de sinais para clientes surdos você deve saber certo?"

- "A verdade é que você está me encurralando", responde sorrindo de nervoso.

Ela não estava mais confortável, tímida de vergonha, um pouco de culpa e um pouco de desconforto também.

Então eu disse:

 "- Não se preocupe, isso geralmente acontece. Mas então lamento dizer que vocês não são um lugar inclusivo, vocês querem estar na moda. Aqui, essas pessoas não conseguiriam se comunicar ou pedir para comer ou beber.

    Quer ser inclusivo, inclua todos. Todos aqueles que o sistema não dá oportunidade. É difícil, sim e muito, mas não devemos achar que um E, um X, ou @ no final faz de você inclusivo."

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Amigue significado e origem

Em mensagens trocadas nas redes sociais, jovens e adolescentes usam a letra, assim como o “e”, para suprimir a identificação masculina ou feminina em palavras como “amigx” ou “queridx” – na versão com na versão com “e”, mais pronunciável, “amigue” ou “queride” .É o chamado gênero neutro, utilizado basicamente em duas situações: a pedido, quando o outro diz que quer ser tratado assim,  ou por iniciativa de quem escreve – e prefere não cravar se o destinatário é homem, mulher, e assim por diante. 

Leia mais em: https://veja.abril.com.br/ciencia/amigues-para-sempre/



Fonte: https://veja.abril.com.br/ciencia/amigues-para-sempre/