sábado, 15 de junho de 2019

50º dia pedalanças-4ª etapa Estrada Real Caminho dos Diamantes


Conceição do Mato Dentro-Tapera
      Dormi muito bem no posto de gasolina em CDM por já conhecer o local e também por estar bem cansado da viagem de ontem. Além do desgaste físico, essa estrada real também está me desgastando um pouco psicologicamente. Não é nada fácil viajar em uma bike não própria para o tipo de terreno mais comum neste percurso. E ainda tem a bagagem para dificultar ainda mais. 
    Por alguns instantes na viagem pensei em desistir, com receio de que a bike continuasse a dar problemas por causa dos buracos e pedras do caminho. Mas sabia que nunca iria me perdoar se não completasse os 4 caminhos da estrada real. Já havia feito o caminho velho e o caminho de sabarabuçu a pé, nos anos de 2012 e 2013 respectivamente. Em 2014 fraturei o dedão esquerdo do meu pé e passei por um período muito difícil. 
    Passei por uma forte depressão por não poder fazer o que fazia antigamente, que era andar, viajar, praticar esportes. Não foi fácil aceitar essa lesão e a falta de atendimento pelo SUS. Hoje ando com alguma dificuldade e algumas dores, então o jeito foi viajar de bike por aí....
     E esses anos todos a estrada real não saía de minha cabeça. Ficava imaginando um jeito de percorrê-la. 
    De manhã tive que ir procurar um mecânico que soubesse alinhar a nova roda traseira. O cara, ao contrário do mecânico de ontem era bem humorado e demonstrava ter boa experiência em fazer esse tipo de serviço. A bike ficou excelente. Por sorte uma leitora do blog me ajudou na compra da roda e foi possível prosseguir a viagem. 
   Como o próximo destino fica a 30km de distância e a planilha informa que o nível de dificuldade não é tão grande, resolvo pedalar somente depois do almoço. Aproveito para descansar e atualizar o diário da viagem aqui no blog. 
    Resolvi diminuir o ritmo da pedalança por estar viajando em estrada de terra, para me poupar e também poupar a bike. Afinal são 50 dias de viagem e estava um pouco estressado com tanta buraqueira e pedra no caminho. 

     Estava estressado e um pouco surtado, acho que pelo fato de estar tomando comprimidos de diazepan vencidos, pois eles estavam com uma aparência estranha, estavam esfarelando com muita facilidade. Tenho um bom estoque desse ansiolítico pois consegui me livrar desse vício, só usando em situações de emergência ou então como nesta viagem, em que não estava conseguindo relaxar quando me deitava na barraca. Estava tomando cloreto de magnésio que me ajuda muito a conciliar o sono, mas não levei este mineral para a viagem, com receio de que tivesse algum problema de armazenamento. 
    Mas depois que resolvi tomar os comprimidos que havia pego no posto de saúde de Ressaquinha comecei a me sentir melhor e mais aliviado e menos estressado. 
    Mas, voltando à viagem, depois do rango sigo 22km até o distrito de Córregos. E mais da metade do percurso é em estrada de terra, o que me ajudou bastante na questão física. E a parte de estrada de terra é boa, sem muita serra e buracos. E estou pedalando com mais calma, com mais paradas para descansar.
    Córregos é um distrito bem simpático. Os moradores são bem cordiais, parece que o tempo não passa naquele lugar tão tranquilo. Quando pedi água para um senhor, ele me convidou para entrar, algo que quase não se vê mais hoje em dia por causa da questão da segurança. Recusei meio sem graça a visita na casa e apenas bebi água. 
    Aproveitei para descansar em frente de um barzinho que estava fechado. Logo o dono apareceu e outras pessoas também, e ficamos conversando por um bom tempo. De manhã já havia conversado bastante com o mecânico e seus amigos em Conceição do Mato Dentro sobre essas minhas viagens. Como já relatei várias vezes, acho que conversei mais nessa pedalança do que o ano passado inteiro...
     
    
Distrito de Córregos    

    Depois do descanso vem aquela moleza e dificuldade de pegar no ritmo novamente. Dizem que é por que o corpo 'tá frio"...  O caminho para o distrito de Tapera já é um pouco mais complicado, com muitas serras íngremes. Mas eram apenas 15km e segui em um ritmo tranquilo e sem stress. E o caminho é muito bem sinalizado, tanto pelos marcos como pelas placas colocadas pelas cidades. 
    Chego em Tapera por volta das cinco horas da tarde. É um distrito bem pequeno, com alguns bares e um hotel. Casas bem simples e poucas pessoas nas ruas. Um morador da cidade foi bem legal comigo, me deixando acessar a net em seu computador. E depois me indicou um riacho onde eu pude tomar um delicioso banho. Já havia me acostumado com a água fria desde o início da viagem. Até que não estava tão fria assim. Geralmente água de cachoeira e rio fica muito fria em Minas Gerias no outono e no inverno. 
    
Distrito de Tapera-MG
    Depois do banho dou uma volta pela cidade, na intenção de achar um lugarzinho para montar a minha barraca. Vou e volto até o início do distrito e não encontro nenhum lugar coberto. Já estava escurecendo quando um morador da cidade me informou que ao lado da igreja tem uma barraquinha para as festas e quermesses....
    Para a minha alegria a barraquinha estava vazia. Não era grande, mas era coberta. O tempo estava um pouco nublado e não iria conseguir dormir nunca na dúvida se iria ou não cair água de noite. 
    

terça-feira, 11 de junho de 2019

49º dia pedalanças- 4ª etapa Caminho dos Diamantes


    Morro do Pilar-Conceição do Mato Dentro
    Noite muito mais do que boa na cachoeira em Morro do Pilar. Escuridão total depois das sete horas da noite, mal dava para andar. Claro que no início rolou um pouco de medo de que pessoas maldosas visitassem o local, mas a madrugada foi muito tranquila, só ouvindo o som das águas descendo pelas pedras... 
    Como estava sozinho naquele lugar maravilhoso, resolvi acordar somente quando o dia estava totalmente claro, por volta das oito da manhã. Queria permanecer alguns dias por ali, mas o pessoal da cidade poderia achar ruim o fato de um estranho ficar por ali alguns dias. E também estava querendo terminar o mais rapidamente possível o caminho da estrada real, pois estava me causando muitos perrengues aqueles buracos e pedras dos caminhos de terra. 
    O tempo estava um pouco nublado, mas aproveitei a manhã e tomei mais um banho de cachoeira e ainda passei um pano na barraca e deixei-a tomando um arzinho. Queria lavar a manta e o lençol que estavam num ranço danado, mas iria demorar um bocado de tempo para secar. 

     Por volta das nove horas da manhã saio da cachoeira para tomar um café e parti para Conceição do Mato Dentro. Morro do Pilar é composta por 70% de morros brabos, 20% de morros leves e 10% de retas. Já fico um pouco cansado antes mesmo de sair da cidade... 
    O caminho é bem parecido com o de ontem, só que com menor distância: 27km. É a parte mais difícil desse trecho da estrada real, com muita subida e descida, e quase nenhuma reta. 
    E as descidas são bem desgastantes também. E à essa altura já estava sem paciência para descer as serras com cuidado. Passava pelos buracos na maior velocidade sem se importar com a bike. E foi em uma descida dessas que a roda traseira acabou estragando, por causa de um outro vacilo meu. Esqueci de olhar como estava a situação do freio. Eles já estavam bem gastos e então ficou uma parte dura raspando na roda na hora de frear. Resultado: o aro acabou trincando...
    

    O restante do caminho empurrei a bike na maior parte do tempo, e, quando pedalei foi com muito cuidado e bem lentamente mesmo. Em algumas partes do caminho estava bem desgastado, mas deu para chegar em Conceição do Mato Dentro por volta das duas horas da tarde, em tempo de pegar um rango no restaurante da cidade que há havia passado no segundo dia dessa pedalança. 
    A verdade é que estou sendo imprudente e impaciente com a estrada real com essa bike. Passo em tudo quanto é buraco na maior velocidade, principalmente nas descidas. Uma bike própria para esse tipo de terreno deve ser bem cara. Mas não pretendo mais fazer viagens por estradas de terra com bicicletas, prefiro a BR mesmo. Estrada de terra é boa para fazer trilhas. 

     Depois do almoço fui até a loja de bike da cidade comprar uma nova roda, que custou 80 reais. Um pouco cara para o meu orçamento, mas não tinha como continuar a viajar com a roda traseira trincada. O mecânico que me atendeu estava de muito mau humor, parecia que estava com algum tipo de problema. E ainda não estava conseguindo centralizar a roda. Resolvi desfazer a compra e seguir com a roda estragada mesmo. No mesmo instante apareceu outro mecânico que foi muito boa gente, mas também teve dificuldades de executar o serviço. 
     O jeito foi ficar na cidade e procurar um outro mecânico. Fui para o mesmo posto que dormi no segundo dia da viagem. Os funcionários me reconheceram e numa boa deixaram que eu montasse a barraca no mesmo lugar. 
    
   
    
    

sábado, 8 de junho de 2019

48º dia pedalanças-4ª etapa- Estrada Real Caminho dos Diamantes


Itambé do Mato Dentro-Morro do Pilar

         Ontem de tarde resolvi brincar com um cachorro bagunceiro que não parava de ficar correndo atrás dos carros e motos que passavam na pracinha da igreja matriz de Itambé do Mato Dentro. E ainda por cima cometi o erro de dar biscoitos para o dog hiperativo...
    Resultado: ele não me largou mais, ia atrás de mim em todos os lugares. E, para piorar a situação,  ele parecia ser o líder de uma matilha de cães. Eram uns cinco ou mais que o seguiam.
     Além de hiperativo o carinha também era bem folgado. Assim que terminei de montar a barraca na frente da igreja ele já foi entrando e não queria sair mais... 
    Ele é de porte médio e tem uma mistura de raças, chegando a lembrar alguma raça de cão brabo. Mas ele é bem mansinho e brincalhão. E insistente pra caramba. Com muito custo consegui tirá-lo de minha barraca e dormir. Ele ficou a noite inteiro do lado de fora, encostado na minha barraca. E os seus amigos também. 
o dog hiperativo e insistente me seguiu por 12km quando saí de Itambé do Mato Dentro

    Estava quase pegando no sono quando comecei a ouvir alguns sons de pingos de chuva na minha humilde residência. O jeito foi mudar de endereço e me transferi para o posto de gasolina, já que a barraca não aguenta fortes chuvas. Dá uma trabalheira fazer essa mudança. Tenho que primeiro tirar tudo o que está dentro da barraca e levar para o posto. Depois levo a barraca e depois a bike. E, claro, o dog sempre me seguindo...
    Esse tempinho meio frio e com chuva é ótimo para dormir e acordei bem disposto e com bom humor, mesmo com o cachorro não parando de mexer comigo para brincar. Ele já acordou todo hiperativo. 
     Tomei um bom café da manhã, pois a planilha informa que os 35km até Morro do Pilar são bem complicados, com muitas subidas íngremes. O site da estrada real informa que o nível de dificuldade física é 5, numa escala de 1 a 5... E de Morro do Pilar até a próxima cidade também é praticamente a mesma coisa. Ou seja, esta é a fase mais difícil do caminho dos diamantes. Enquanto no asfalto conseguia fazer até 100km em um dia e chegar em boas condições, na estrada real às vezes faço cerca de 30km em um dia e chego bem detonado. 
    O problema maior de manhã foi na hora de sair da cidade. O dog hiperativo começou a me seguir, e seguindo ele uns cinco cachorros. Não adiantou gritar, fingir que ia atirar uma pedra nele. Ele deitava e ficava com a barriga para cima fazendo cara de manhoso. Cheguei a pedir para os moradores da cidade segurarem o cachorro, mas ninguém queria ajudar. Acho que queriam é se livrar dele, pois era um cachorro bastante agitado, sempre correndo atrás dos carros e motos. E eu gosto de cachorros bagunceiros, mas nem pensei em levá-lo, pois ele parecia ser muito bem tratado pelos policiais da cidade, pois estava em ótimas condições físicas. 
    Ele estava tão bem fisicamente que me seguiu por cerca de 12km pela estrada de terra. E olha que eu fiz de tudo. Cheguei até a dar uns tapas nele. E também joguei algumas pedras perto, mas ele continuava irredutível. Havia me escolhido como seu dono. 
    Algumas vezes ele fingia voltar, ai eu descia a serra na maior velocidade com a bike. Mas, quando vinha uma serra e eu empurrava a bike, ele aparecia na maior tranquilidade. Os outros cachorros já haviam desistido de segui-lo. Teve um momento do percurso que o dog ia na frente, sempre olhando para trás para ver se eu estava indo no mesmo caminho... 
    
a cada ano que passa o biscoito da aymoré vai diminuindo de tamanho. Mas o preço... 

    Já estava bastante cansado por causa da dificuldade do caminho. Quando tentava atirar uma pedra para afastar o cachorro o meu braço chegava a doer um pouco. Mas em uma dessas tentativas finalmente o dog resolveu desistir, depois de seguir por 12km... Mas pior do que o cansaço foi a tristeza de me separar daquele animalzinho tão alegre e brincalhão. Seria bem legal tê-lo como companheiro nas viagens, mas seria também muito cansativo, pois eu estava de bike e seria covardia fazê-lo me seguir o dia inteiro nessas serras de Minas Gerais. 
    
    E sigo o caminho mais tranquilo, apesar das dificuldades das subidas íngremes com muitos pedregulhos. E o sol também não estava aliviando. Quase não havia retas. Dos 35km do percurso, 16km são subidas e 17km são descidas. Ou seja, apenas 2km em que posso ter um relativo descanso enquanto ando. Na descida em estrada de terra devido aos buracos e pedras, temos que estar 100% atentos para não levar um tombo e se machucar, o que poderia interromper a viagem. 
    À essa altura a estrada real deixou de ser uma curtição e se tornou um desafio físico e mental. E também havia prometido a mim mesmo que faria os quatro caminhos, mesmo estando com uma bike não apropriada para esse tipo de percurso. Antes de chegar em Morro do Pilar um raio da roda traseira havia quebrado. Já estava andando com um raio quebrado, mas não parecia fazer diferença. Mas dois poderia ser um pouco arriscado e segui o restante do caminho em uma menor velocidade. 
    Com muita dificuldade consigo chegar em Morro do Pilar por volta de uma hora da tarde. O dia foi difícil, e, para complicar ainda mais, uma subida super íngreme para se chegar no centro da cidade, justificando até o nome que foi dado ao município...
Morro do Pilar. E o morro quase me fez morrer... 

   Fiz um esforço final para terminar o percurso para não ficar sem almoçar neste trecho difícil da caminhada. E, para me poupar, irei fazer o caminho até Conceição do Mato Dentro somente amanhã.
Depois do rango procuro um mecânico na cidade. Haviam me informado que só haviam duas pessoas que consertavam bikes. E só havia morro naquele lugar. Estava exausto, mas tinha que consertar os aros quebrados da roda traseira, pois o caminho amanhã também é muito difícil. 
    Resolvi ir no mecânico que me parecia ter menos subidas. Os caras foram super gente boa e ficamos o resto da tarde conversando sobre a viagem e outros assuntos. No final os caras me indicaram uma cachoeira onde eu poderia tomar banho, lavar a roupa e até dormir, pois havia um quiosque no lugar. E precisava sim de um quiosque, pois o tempo estava para chuva. 
    Me despedi da galera e fui para a tal da cachoeira. Depois de seguir por 3km por uma BR avisto o local, que, para a minha alegria é muito bonito. Além de bonita, a cachoeira tem uma infraestrutura legal, com banheiros, o quiosque, mesas e cadeiras. Não poderia ter achado lugar melhor para dormir depois de um não muito longo mas cansativo dia. 
    Apesar de estar chuviscando tomo um delicioso banho na cachoeira. Levei um tombaço quando entrei, não havia visto o aviso sobre as pedras escorregadias. E lavo minhas roupas também, não estou deixando acumular, pois colocar roupa úmida dentro da mochila é complicado, pois ficam muito fedorentas e difícil de lavar depois. 
     Percebo que o local não tem iluminação e logo monto a minha barraca antes de escurecer. E passo o resto da tarde quieto, apenas curtindo o bom astral daquele lugar maravilhoso. 



quarta-feira, 5 de junho de 2019

47º dia pedalanças-4ª etapa-Estrada Real Caminho dos Diamantes


Ipoema-Nossa Senhora do Carmo-Itambé do Mato Dentro
    A noite na cachoeira de Ipoema não foi das melhores. Fiquei até tarde na fogueira, até a última chama se apagar. Estava um astral bem bacana, mas dormi mal pra caramba. 
    Dormi na areia perto bem na margem do rio. Tentei fazer uma "areiaplanagem", pois o terreno era bastante acidentado. Não adiantou muita coisa, a barraca ficou toda torta e a verdade é que nunca consegui dormi bem em cima de areia. É um terreno macio, mas muito irregular, ficando difícil achar uma posição para dormir. 
    Tentei em vão elevar o ânimo tomando um banho de cachoeira. Para piorar, a lanchonete mais próxima estava em Nossa Senhora do Carmo, distante 12km da cachu. E, para piorar ainda mais a situação, só havia três biscoitos recheados na minha mochila...
    E os perrengues não paravam de aparecer. Muita serra e com muitos pedregulhos, me fazendo escorregar várias vezes. E em algumas bifurcações não tinham sinalização alguma. Como estava com uma preguiça danada não arrisquei nessas bifurcações e fiquei esperando passar algum carro para pedir informação. Não poderia gastar energias logo de manhã e sem me alimentar. 


    Não me lembro de estar tão mal assim nesta viagem. Cheguei a tentar pedir café com pão em algumas casas, mas não havia ninguém nelas. Na maior bambeza consigo chegar em Nossa Senhora do Carmo. Não havia lotérica na cidade para sacar o dinheiro pois estava com tanta fome que teria que gastar maios do que os cinco reais que tinha no bolso para me saciar. E também tenho que comer um pouco mais do que como normalmente se não quiser chegar meio esquelético no final da viagem.
    Tomei um cafezinho com um pãozinho com manteiga e o resto de pãozinho de queijo. Até que deu para encher um pouco o estômago e me animar para seguir para Itambé do Mato Dentro. 
    Esse trecho é totalmente de asfalto, mas tem muita serra. Mas é melhor do que serra em estrada de terra. 

         Chego em Itambé do Mato Dentro por volta do meio dia e meia e com aquela fome vou direto para o restaurante da cidade para almoçar. O rango era quatorze reais, não achei outro mais barato na cidade. E não era tão bom como nos outros dias. O tempero não era muito bom. 
     Depois do almoço pedalo um pouco mas estou bem cansado e com algumas dores musculares, resultado da noite mal dormida na cachoeira em Ipoema e também por ter pedalado por 12km sem café da manhã. Com princípio de câimbras resolvo dormir na cidade mesmo, já que a próxima cidade fica a 34km de distância e a planilha da estrada real nos informa que é feito por muitas subidas íngremes. 
encontramos várias informações sobre o caminho no site da estrada real

     Não tinha outra coisa a fazer a não ser descansar. Achei uma pracinha perto de uma mina de água em frente da igreja matriz da cidade. E passei a tarde inteira sentado no banco observando a movimentação dos habitantes e também o monte de cachorro que ficava nas ruas. Por volta das quatro horas pergunto a um morador da cidade se conhecia algum riacho para tomar banho. Por sorte havia um riacho não muito longe do centro da cidade. Já estava bem melhor do que depois do almoço e tomei um bom banho que me deu esperanças de ter energia suficiente para enfrentar o percurso até a cidade de Morro do Pilar, que sei que é muito perrengoso, segundo o site da estrada real. 
    
o que os controles remotos estão fazendo aí?

segunda-feira, 3 de junho de 2019

46º dia pedalanças-4ª etapa- Estrada Real Caminho dos Diamantes


Cocais-Bom Jesus do Amparo-Ipoema
      
  Até que dormi bem na entrada da cachoeira em Cocais, apesar de não ter tomado banho. O único som que ouvi naquela noite foi o da natureza: grilos, sapos e o ronco do cachorro que ficava tomando conta do lugar. Tinha também um inseto do lado de fora da barraca que emitia um som muito estranho, parecendo o ruído daquelas armas de choque da polícia. Sei disso por que nas manifestações da copa do mundo em Belo Horizonte os homens da lei tiveram que usar e muito para conter os baderneiros infiltrados entre os manifestantes.
    Desci os 5km até o centro do distrito com aquela moleza de quem ainda não havia tomado o café da manhã. Em Cocais só havia uma padaria aberta e funcionando naquele domingo, mas valeu a pena a procura, pois o pãozinho com manteiga e o cafezinho estavam uma delícia. 
    Desta vez foi fácil encontrar o primeiro marco do caminho, era bem pertinho da padaria. Muito bom começar o dia sem aquele stress de ter que ficar procurando e perguntando por marco da estrada real.  E segui então para Bem Jesus do Amparo em uma estrada de terra muito boa, ao contrário de ontem. O clima estava bom para pedalar, um pouco nublado, mas sem perspectivas de chuvas. E ainda havia muitos eucaliptos para proporcionar uma generosa sombra. 
    No meio percurso encontrei um ciclista que veio de São Paulo somente para fazer o caminho da estrada real. Pela quantidade de cabelos brancos que tinha o cara devia ter uns 60 anos. Mas, apesar da idade pedalava muito bem e não demonstrava sinais de cansaço nem nas subidas. Conversamos sobre vários assuntos, além do caminho da estrada real: budismo, bicicletas, saúde mental, planos de saúde. Ele também estava indo para Diamantina. 
    O paulista poderia me ultrapassar se quisesse, mas fomos até Bom Jesus do Amparo juntos, onde parei para almoçar. Ele resolveu continuar o caminho, a bike dele era bem melhor do que a minha e ele quase não levava bagagem. Provavelmente devia estar dormindo em hotéis. 
    
Bom Jesus do Amparo
    O rango estava uma delícia. Comida caseira e podia pegar à vontade, claro que menos a carne. Não tinha como encher o prato, apesar de ter que ainda pedalar um bocado naquele domingo de sol. A culinária faz parte da estrada real. Viajar pelo interior de Minas sem apreciar as delícias que as cozinheiras mineiras fazem é como ir ao Rio de Janeiro e não visitar o Cristo Redentor. 
 Depois um breve descanso na pracinha de Bom Jesus do Amparo e sigo para Ipoema pedalando 14km em uma estrada de asfalto boa de se percorrer, sem muita serra. Como ontem não havia tomado banho, resolvi então desviar um pouco do caminho da estrada real e ir até à uma cachoeira em Ipoema. E também estava precisando lavar minhas roupas. 
    Era umas três horas da tarde. O caminho para a cachoeira era em uma estrada de terra com alguns buracos. Como era domingo muitas pessoas já estavam voltando do banho. Queria chegar mais tarde mesmo, para ficar mais à vontade. 

    Subi muita serra e comi muita poeira quando passava carro, mas valeu a pena. A cachoeira é muito bonita e grande, com várias quedas. Ainda haviam muitas pessoas tomando banho e fazendo churrasco, mas espaço era o que não faltava. Achei um cantinho e tomei aquele banho e lavei minhas roupas. 
     Depois, apenas esperei o tempo passar, vendo os turistas irem embora e o pôr do sol naquele dia que foi bem legal, sem muitos perrengues. 
      Assim que todos se foram procurei um lugar para montar a minha barraca. Por sorte encontrei uma fogueira com algumas brasas. Peguei algumas folhas de papel e um pouco de madeira e reacendi o fogo. Não estava fazendo frio, apenas queria brincar de acampamento. 
     Depois das sete horas escuridão quase que total. Luz apenas dos faróis dos poucos carros que passavam na ponte. E as estrelas do céu, é claro. 
na paz, curtindo as obras do criador


sábado, 1 de junho de 2019

45º dia pedalanças-4ª etapa- Estrada Real Caminho dos Diamantes


Santa Bárbara-Barão de Cocais-Cocais
    Dormi bem até por volta das três horas da madrugada, quando um cara começou a falar alto até às seis e meia da manhã, quando saí para desmontar a barraca. A voz do cara que parecia ter bebido umas cachaças parecia ficar ainda mais alta pelo ressoar do som na estrutura de concreto da rodoviária. 
    E ele ainda teve a coragem de vir até a mim e me perguntar se estava tudo bem... 
    Respondi que estava tudo bem, mas com a cara falando justamente o contrário... 
    Como sempre aquela dificuldade em encontrar o primeiro marco do caminho. Pergunta dali, pergunta daqui e, após um sobe e desce danado em Santa Bárbara acho o danado do primeiro marco. 
Já começo o dia um pouco estressado. 

saindo de Santa Bárbara

    O percurso de 14km até Barão de Cocais é bem fácil e tranquilo de ser percorrido, sem muitas serras. E a estrada de terra está boa, sem muitos buracos e pedras. Devo ter chegado nesta cidade por volta as nove e meia da manhã. E mais uma vez dificuldades em encontrar o marco inicial do caminho até o distrito de Cocais. Acredito que fiquei cerca de uma hora rodando o centro da cidade atrás de informações sobre a rua que estava indicada na planilha. Nem motorista de táxi estava sabendo onde ficava a tal rua. 
    O meu pavio já estava um pouco cortado ao procurar o marco inicial de Santa Bárbara. Agora acho que sobrou apenas 30% depois de procurar o marco inicial de Barão de Cocais...
    Raramente me estresso com pessoas, consigo ignorá-las com facilidade. Mas a estrada real consegue me tirar do sério com essas confusões das planilhas e marcos... Talvez seja por isso que eu goste tanto dela. A gente sabe que vai passar por perrengues, fica pé da vida quando eles acontecem, mas no final acaba achando graça de tudo. 
    Após muitas perguntas e rodar pelo centro da cidade, consigo finalmente encontrar o primeiro marco desse trecho do caminho dos diamantes. E começo a ficar um pouco mais tranquilo. 
    Mas a tranquilidade foi por pouquíssimo tempo. Estrada real é estrada real. Se o caminho está sendo muito fácil provavelmente você não está na estrada real. Logo no início cerca de 5km de serra muito íngreme entre eucaliptos. Tive que ir empurrando a bike, com a musculatura da coxa ardendo um pouquinho. 

    Depois de muita suadeira consigo subir os 5km de serra. Suei muito por estar na mata fechada. Mas as dificuldades não pararam. Na descida muitas pedras e buracos. E o terreno é muito irregular, ideal para fazer trilhas com moto. Deu para ouvir o ronco de algumas pelo mato afora. 
     Mesmo com a buraqueira desci correndo e em algumas vezes tive um misto de habilidade e sorte para não levar alguns tombos. Cheguei detonado no distrito de Cocais, mas mesmo assim depois do almoço subi cerca de 5km de pura serra para chegar na cachoeira de Cocais. 
   Juntei todas as minhas energias para subir aquela complicada serra. Na entrada da cachu uma surpresa nada agradável: teria que pagar 12 reais para entrar e mais 25 para montar a barraca!
     Estive nessa cachoeira em 2013 e não paguei para entrar. Nem conversei com o porteiro, sabia que se ele continuasse a falar iria acabar perdendo a paciência, pois o dia foi bastante estressante e eu só queria tomar um banho e lavar a minha roupa e descansar. 
    O jeito foi montar a barraca na grama logo na entrada da cachoeira. O porteiro se arrependeu e disse que eu poderia entrar e tomar um banho e voltar. Não aceitei, achei uma injustiça muito grande cobrar para entrar em uma cachoeira que não tem nenhuma infraestrutura montada para atender os visitantes. Com certeza o dinheiro arrecadado não era convertido em melhorias no local....
    Depois de montar a barraca, deitei em um pedaço de papelão e tirei um cochilo, já não tinha energias para mais nada. 


sexta-feira, 31 de maio de 2019

44º dia pedalanças-4ª etapa- Estrada Real Caminho dos Diamantes


Antônio Pereira-Catas Altas-Santa Bárbara
    Um dos raros dias que acordo muito bem humorado e bem disposto, pronto para começar a pedalança do dia. Estava indo tudo muito bem, o visual em frente ao posto estava muito bonito na parte da manhã. Até resolvi filmar, mas aí apareceu uma viatura da polícia para tirar o meu bom humor. Nada contra os homens da lei, é até melhor que estejam presentes em todos os lugares possíveis, pois isso é garantia de sossego. 
    Mas nas pedalanças e andanças polícia é quase sinônimo de interrogatório:
    De onde vim, para onde vou, se tenho alguma passagem e por aí vai... E, claro a apresentação dos documentos. Às vezes tenho que abrir a mochila para uma revista mais detalhada. Até hoje não tenho nada do que reclamar do trabalho da polícia. Mas sou meio paranoico e às vezes penso que a polícia está também contra a minha pessoa, apesar de ser um cidadão pacato e honesto. 
   Mas o policial nem conversou comigo, apenas ficou observando-me desmontar a barraca. Acho que ele desistiu de me revistar por causa do tamanho da mochila e também por causa da minha cara de mau humorado que havia feito. E também é claro que estava calmo naquela manhã, não demonstrando estar com alguma substância ilícita ou armamento. 
    

     Depois do café sigo para o município de Santa Rita Durão. A estrada não tem acostamento, nem pista dupla e ainda por cima tem um intenso movimento de carretas e carros. A Samarco fica bem próxima de onde dormi. E tem muitas barragens nessa região. Ontem havia passado pela entrada de Bento Rodrigues. Por causa do rompimento da barragem o caminho da estrada real foi desviado para essa estrada. Originalmente passava por Bento Rodrigues e mais outras cidades... 
    Nesse trecho não vi uma casa ou lanchonete, só muita carreta e carro mesmo. Passei em frente à entrada principal da Samarco. Está tendo muita movimentação do outro lado da estrada, não sei bem o que estão construindo... 
O que estão construindo em frente da Samarco?

     Mas essa estrada tem um visual bem bonito. Em Catas Altas tem a linda Serra da Caraça. Depois da entrada da última barragem o caminho seguiu mais tranquilo sem a intensa movimentação de carretas. Almocei um pouco antes de chegar em Catas Altas em um distrito chamado Morro de Água Quente. O pessoal do restaurante foi muito legal comigo. A minha grana estava acabando e então me ofereceram um marmitex com um rango que estava uma delícia. Um garçom ainda me deu um refrigerante e ficamos conversando sobre a viagem por quase uma hora. Ele me disse que tem uma bicicleta mas só faz pequenas viagens. Notei que ele sentia uma certa admiração quando eu contava as minhas aventuras. Deu para perceber que ele pelo menos pensa em fazer algo parecido algum dia, mas que parece que tem família para cuidar. 
    Como já disse, nesses 44 dias de viagem já conversei mais do que o ano passado inteirinho... E em algumas pessoas notei esse olhar de admiração dando a perceber que elas chegam a pensar em fazer o mesmo algum dia. Geralmente dizem que até querem ir, mas que falta é a tal da coragem... 
    O garçom do restaurante na saída me deu um pacotão de biscoitos de polvilho, que deixo amarrado no quadro da bike. E deixo o saco aberto e vou pedalando e comendo... 
    Catas Altas é uma cidade bem simpática, aos pés da serra do Caraça. Um visual bem bacana. Apesar de ser dia de semana, vi pouquíssimas pessoas no centro. 

    Na saída de Catas Altas  pela estrada de terra uma bifurcação sem nenhum marco ou sinalização, o que me deixa um pouco irritado. O único sinal de vida que havia por perto era o som de uma música sertaneja, que parecia vir de um lugar um pouco longe. O jeito foi ir em sentido ao som para tentar achar alguém para pedir informação. Encontrei um pessoal construindo uma casa na beira da estrada de terra, e, por sorte havia escolhido o caminho correto.... 
    É uma relação de amor e ódio com a estrada real... Amo o caminho, tanto é que já percorri três e estou percorrendo o último, o caminho dos Diamantes. Mas algumas situações me tiram do sério, e bifurcação sem sinalização é uma delas.... 
    E segui o caminho, em direção à Santa Bárbara. O caminho é muito lindo principalmente por causa da Serra do Caraça. 


        Antes de chegar em Santa Bárbara cometi uma burrada. É que vi uma placa com uma seta e interpretei mal a sinalização e acabei entrando em uma estrada de terra errada. Estava tão convicto que estava no caminho correto que nem perguntei nada para nenhum caminhoneiro. E comi muita poeira pois passava muito caminhão. Só depois de uns cinco quilômetros é que comecei a achar estranho o fato de só avista eucalipto por todos os lados. A água já havia acabado e estava com muita sede, ainda bem que passava muito caminhão e o motorista me informou que eu havia pego o caminho errado. Nem pensei em dar piti e ficar gritando no meio do mato, pois a burrada foi minha mesmo. Quando fico perdido no meio do mato às vezes dou uns gritos e falo alguns palavrões para descarregar, principalmente quando a culpa é a falta dos marcos da estrada real. 
perdido e comendo poeira....

     Para piorar tudo, um motorista de caminhão me fala que tem um atalho, que era só descer uma estradinha de terra e acompanhar o curso de um rio que eu chegaria à Santa Bárbara. Estava muito cansado, mas confiei no motorista e acabei descendo. Desci uns 70 metros e nada de encontrar rio. Nem aquele barulhinho de água consegui ouvir. O jeito foi subir novamente empurrando a bike. Aí não teve jeito, tive que falar palavrão.... 
    Chego em Santa Bárbara por volta das quatro e meia da tarde. O ginásio da cidade está fechado. Não havia encontrado no caminho nenhuma água para tomar um banho. Os postos de gasolina não tinham chuveiro. O jeito foi pedir um balde de água para uma mulher que estava limpando a calçada. Fui para a parte de trás do ginásio e tomei aquele banho.... 
     Pode ser banal ficar relatando todos os dias como consigo me banhar. Mas não é, pois para um turista de baixa renda como eu conseguir tomar banho é uma aventura. O banho é quase uma garantia de uma boa noite de sono. É também serve para repor as energias, relaxar a musculatura e, claro, não ficar muito fedendo... 
     A impressão é que fico uns dois quilos mais leve depois de me banhar. Vou para o sacolão pegar papelão para montar a barraca. A caixa do estabelecimento é muito gente boa, além de ter olhos lindos. Eram de um azul muito brilhante. Eram tão bonitos que até desviei o olhar com medo de ficar enfeitiçado diante de tanta beleza. 
     Depois de algumas voltas pela cidade encontro um bom local para montar a barraca: um estacionamento que fica ao lado da rodoviária. Como é uma cidade do interior, o movimento de ônibus acaba por volta da meia noite. 
a placa estava meio torta e acabei me confundindo