sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Pedalanças Belo Horizonte Belém-Fiquei uma semana em um centro de recuperação

 26/07 à 02/08
Planaltina
Descansando e cuidando do tornozelo
O pôr do sol no centro de recuperação é espetacular. 


     Acordamos no centro de recuperação às seis horas da manhã. Após a higiene, oração e leitura  da bíblia. Depois o café da manhã. E logo depois, arrumar alguma coisa para fazer: limpeza, consertar algo estragado, ajudar na cozinha, etc...
      Depois o almoço, uma pausa para um cochilo e a tarde era meio que livre. De noite jantar e depois cama novamente.
      Os dias ali naquele centro eram exatamente iguais. O pastor disse que eu poderia ficar ali para sempre. Apesar de poder economizar algum dinheiro, não aceitei, pois a liberdade para mim não tem preço.
       Notei que alguns internos não foram muito com a minha cara. Afinal, eu tinha a liberdade, não era viciado em drogas. Estava ali só de passagem. Podia sair de tarde, ou não. Não havia pedido permissão, mas em algumas tardes saí de bike para o centro da cidade alimentar o meu vício: chocolate! Ia na padaria comprar uma barra de talento(gosto do verde e do roxo) para tirar a minha ansiedade e liberar serotonina. E também para pedalar, pois a rotina é um pouco cansativa ali no centro de recuperação.
Andar de bike se tornou o vício mais saudável que adquiri na minha vida. É ansiolítico, antidepressivo, tira o stress, e, além de tudo, é um excelente hobby. É uma terapia e tanto. Muitas pessoas pensam que terapia é só ir ao psicólogo, que é coisa de gente maluca. Nada contra os psicólogos (as), me ajudaram bastante no início, mas, para mim, a melhor terapia é ocupar a mente com coisas positivas. 
    A minha relação com as drogas foi bem curta. Experimentei a maconha três vezes: uma quando tinha uns 15 anos, outra por volta dos 17 e outra quando tinha uns 25 anos.
Acredito que nessas três vezes não inalei direito a fumaça, pois sempre tossia e ardia a garganta. E nãos senti nada diferente, acho que fiquei rindo à toa por que os meus colegas estavam rindo à toa também. O riso é meio contagiante e então, achando que estava chapado e vendo os caras rirem, também fiquei rindo à toa. Acho que foi mais ou menos isso o que aconteceu nas minhas experiências com a erva danada. 
O jeito era arrumar alguma coisa para passar o tempo. 

    No centro de recuperação tinha uma bike antiga e simples. Consertei o freio dela e o pneu que havia furado. Pensei em arrumá-la toda, comprando peças novas, mas, como vi que não tinham o menor cuidado com ela, desisti. Ela era guardada no banheiro, e estava enferrujada por causa da água. Sugeri guardar em outro lugar, mas não deram muita atenção ao meu pedido. E então desisti de investir na magrela, que tinha o seu valor, pois era nela que os caras buscavam doações. 
    Sabia que teria que ficar alguns dias para recuperar meu tornozelo. Fui uma criança bem bagunceira e brincalhona, e me machucava com frequência. Acho que fui criança até os meus 16 anos.  E já sabia que tornozelo demorava um pouco para ficar completamente bom. Como a pressa não fazia parte da minha cicloviagem, decidi ficar ali até sentir confiança em pisar no chão com firmeza. 
Centro histórico de Planaltina-DF

 
      Fiz amizades com os idosos e os cadeirantes. Vi que ficavam meio jogados de lado, quase ninguém conversava com eles. E todos os dias respondia as mesmas perguntas de um idoso que tinha alzheimer. A família dele o deixou lá. Ele não dava trabalho, era super quieto e até ajudava nos afazeres, às vezes carregando coisas pesadas. 
    E então fui julgado de fazer panelinha por alguns ali, que senti que eram um pouco revoltados. Talvez pela abstinência ou um outro problema qualquer. Alguns eram  homens de confiança do gerente do centro de recuperação e estavam ali já algum tempo. 
     Mas aquilo não me afetava. A maturidade me fez deixar de lado esse tipo de implicância contra quem está quieto em seu canto. Eles quase não sorriam, não brincavam, ficavam sérios e quando brincavam era para zoar alguém. 
                                      Fiz amizades com os cadeirantes e os mais idosos

       O local era bem tranquilo, isolado do centro da cidade. Batia uma brisa gostosa ali, de manhã fazia um friozinho gostoso. 
      A alimentação era simples. Mas não sou exigente, já comi lixo durante os meus surtos em que fui parar nas ruas. O que não gostei foi o fato de todos os dias servirem pão de queijo e biscoitos de queijo bem endurecidos. Normalmente essas delícias já prendem o intestino, ainda mais quando estão ressecados. Mas era a doação da padaria. Não reclamei, sei as dificuldades que devem estar passando, o governo federal deixou de repassar a verba mensal para todas as clínicas de recuperação de álcool e drogas do Brasil. E eles sobreviviam de doações do comércio local e de pessoas com bom coração.
     Foi uma semana que passou bem rápido. O tornozelo já estava bom, não estava mais inchado e nem doendo. E estava novo em folha, pois o trânsito barulhento nos últimos três dias haviam me desgastado bastante. Aliás, esses três dias de trânsito intenso me cansaram mais do que a viagem toda até o momento. 
     Acredito que tenho alguns elementos do autismo. Gosto da cor azul, sou pouco sociável e os sons têm uma importância maior em minha vida. Trabalhei 17 anos como operador de som. Alguns dias saía um pouco estressado, mas não sabia o motivo. E aos poucos isso se tornou insustentável, e hoje procuro evitar lugares barulhentos. Fiz uma postagem aqui no blog contando como os sons podem mudar o nosso estado de espírito em questão de segundos. Alguns sons são muito agradáveis, algumas vozes femininas, suaves, o som da flauta, do piano, gosto de música clássica e curiosamente gosto de metal e suas vertentes : death metal, trash metal, etc... Gosto do som das guitarras distorcidas. Acho que isso ajuda a aliviar o stress. 
    Me despedi das pessoas com que fiz amizade e até de alguns que meio que implicaram comigo. Deixei para lá, não tenho culpa de estarem naquela situação. Imagino que devem estar em dificuldades, que devem ter família e filhos para sustentar.  Um estava ali há três anos, e só tinha 30 anos de idade. Não ganhava salário ou se ganhava, era algo simbólico. Não me imaginaria ali naquele lugar para sempre, até o fim de minha vida. Como disse, a liberdade não tem preço. 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

13º dia Pedalanças Belo Horizonte à Belém- Planaltina e pausa para consertar o tornozelo

 26/07/2024
Sobradinho à Planaltina-DF
Tornozelo detonado
Cidade de Sobradinho


    Felizmente o restante da noite ocorreu sem perturbações no posto de gasolina na entrada de Sobradinho. Só um cara que parou para conversar sobre a minha viagem. Estava cansado e um pouco desanimado, ficar pedalando em um trânsito intenso me cansa muito. 
      Depois do café sigo para o centro de Sobradinho, que é uma cidade bacana, bem limpa e com casas bonitas. O trânsito é de uma cidade média, mas sem stress. Acho que boa parte dos moradores trabalham em Brasília e procuraram um aluguel mais barato e um local mais tranquilo para morar. A cidade tem aspecto de cidade comum, ao contrário de Brasília. Tem padarias, lanchonetes, casas e barzinhos.
    Tive que entrar em Sobradinho para comprar um pneu traseiro com cravos. O que estou usando até que ainda dá para usar,  mas era um pneu liso. Nas Brs, tem muito "cabelo de robocop" que é o temido arame dos pneus de carretas que vai se desprendendo pelo caminho, principalmente pelo acostamento. Às vezes é o pneu que estoura mesmo, gerando um enorme estrondo, parecendo uma explosão. Por questões físicas, os pneus com cravos têm menos chances de pegar um arame.
o "cabelo de robocop"...

     Depois de umas voltas encontro uma loja de bike. O dono foi super gente boa comigo. Além de me dar conselhos, me ofereceu duas bermudas de ciclismo, e alguns sinalizadores, caso resolva pedalar de noite. Também me ofereceu também um cafezinho e um delicioso bolo de chocolate. Claro que não recusei. 
     Não havia me preparado o suficiente para esta viagem. A verdade é que a grana estava curta mesmo. Cartão de crédito e vários empréstimos impossibilitaram uma melhor preparação. Um dos motivos da viagem foi exatamente esse. Não estava conseguindo pagar o aluguel, que é sagrado para mim. Não gosto de atrasar, a primeira coisa que faço é separar o dinheiro do aluguel, o resto a gente vai dando um jeito. Então as bermudas que ganhei iriam me ajudar bastante, pois pedalar o dia inteiro com cuecas comuns me dão algumas ardências "analógicas". Às vezes na viagem a canela está indo bem, pedindo para continuar, mas a poupança está ardendo e então tenho que parar para aliviar um pouco o desconforto. 
    O pneu traseiro o dono fez um preço bacana pra mim. 
     Sigo pela BR cerca de 15km e chego à cidade de Planaltina. Acho que devia umas dez horas da manhã. Apesar do horário, resolvo parar e procurar ajuda, pois o meu tornozelo não havia melhorado e queria descansar também, pois três dias de trânsito intenso me cansaram um pouco.
      Em Planaltina não existe uma prefeitura. Existe algo como se fosse um centro administrativo, onde fica o gabinete do prefeito, as assistentes sociais e demais serviços que uma prefeitura deve fornecer aos seus habitantes. Enfim, é uma prefeitura, só que em Planaltina não recebe este nome. 
     Não almocei, e fiquei ali até às quatro horas da tarde esperando a assistente social conseguir um local para que eu pudesse descansar, fazer a manutenção da bike e, também a minha manutenção no meu tornozelo detonado por subir a serra do Jacaré sem empurrar a bike. 
    O vigia me ofereceu um pão com mortadela, que também não recusei. Existe muita gente boa nesse Brasil, infelizmente os poderosos não são assim. Fiquei ali até as 17 horas, quando a assistente social encontrou finalmente um lugar para descansar. Era um centro de recuperação de dependentes químicos de uma igreja evangélica. 
      Apesar de não ter almoçado, pedalei rapidamente até o local indicado pela assistente social. Era um lugar simples, cercado pela natureza e com um bom espaço. 
     Haviam cerca de 20 internos ali. Alguns não eram dependentes químicos. Eram idosos, deficientes físicos. 
     Fui apresentado à alguns deles, conversei um pouco sobre a minha viagem, lavei algumas roupas, jantei e fui dormir, cansado. 
Hoje foi um dia de poucas fotos, esses últimos dias foram cansativos. 


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Pedalanças 12º dia-Belo Horizonte à Belém-Quase pirei em Brasília!

 25/07/2024
Valparaíso-GO à Brasília-DF
Endereços malucos quase me deixaram maluco


     Nada de anormal aconteceu no posto abandonado em Valparaíso. Mas não dormi bem, imaginando que a qualquer momento poderia aparecer alguém e querer me perturbar. Sempre quando monto minha barraca em cidades médias e grandes é essa paranoia absurda. Acho que isso piorou depois que botaram fogo em minha humilde residência quando estava fazendo minhas andanças em Belo Horizonte no ano de 2013. Naquela época viajava na canela mesmo. 
     O meliante na verdade não botou fogo na barraca toda. É que acabei dormindo com o rádio do celular ligado. E aí o cara, guiado pelo som do aparelho, simplesmente fez um buraco com fogo na barraca, o suficiente para pegar o telefone. Acordei, mas até abrir o zípper da barraca e sair já se foi o tempo suficiente para o ladrãozinho virar o quarteirão. 
     Nessa noite fiz algumas armadilhas para o possível meliante não se aproximar da barraca. Peguei a corda da barraca e amarrei em volta dela para o cara levar um tombo, já que o local estava muito escuro. Joguei latinhas de cerveja no chão, garrafas de vidro, etc... 
     Mas não apareceram muitas pessoas, era um local que não dava para nenhum outro local. Talvez seria um ponto de encontro de drogados ou para encontros amorosos de pessoas que não teriam condições de pagar um motel. Não sei, só sei que minha mente estava a mil. E tomar diazepan poderia me deixar lento em caso de um ataque de um meliante. Me lembro que na minha pedalança em 2019 estava chovendo muito em Barra Mansa, no estado do Rio de Janeiro. Montei minha barraca em frente de um enorme galpão, na BR que liga Rio de Janeiro à São Paulo. Era muito movimentada e fiquei pilhado. Então, por volta das nove horas um cara se aproximou da barraca e ficou sentado. Peguei o desodorante e fiquei em estado de alerta. Se ele se aproxima-se iria apertar o spray bem na cara, acho que deveria arder pra caramba. 
     Não levo nada para me proteger, nem uma faquinha que poderia dizer que seria para descascar laranjas ou fazer comida. E então peguei minha chave de fenda. Mas o cara só queria mesmo era fumar o seu baseado. 
Só prédios e mais prédios...


    Com tudo isso, dormi muito mal essa noite. Acordei sem energia, e o jeito foi comer uma bela torta de chocolate na padaria para aumentar os níveis de serotonina no meu organismo. E, obviamente, não poderia faltar um cafezinho para aumentar a dopamina, pois teria que ter muita vontade nesse dia. Iria pedalar nesse trânsito intenso e maluco da região, e a tendência era piorar, pois iria passar por Brasília. Como disse, não sou muito de planejar as coisas nas minhas pedalanças, então hoje não sei o que irei fazer. Talvez tente achar algum abrigo em Brasília, pois o meu tornozelo esquerdo ainda está um pouco inchado e dolorido e sei que não irá melhorar enquanto fizer um repouso de uns cinco dias e tomar algum anti-inflamatório. Também penso em conhecer a capital federal, talvez tenha algo interessante para se conhecer. 
      O trânsito está mais complicado do que ontem. Afinal, são sete horas e todo mundo está indo para o trabalho, menos o ser pedalante viajante maluco. É um trânsito intenso, afinal é uma BR que vira avenida quando atravessa uma cidade. Tenho que olhar no retrovisor e para os lados, e, claro para a frente. 
    E a coisa só vai piorando à medida que vou chegando em Brasília. A pista fica maior, mas os carros aumentam de número para compensar. São 40km de muito barulho de carros e caminhões e que me cansam mais mentalmente do que fisicamente. 
    Apesar do trânsito intenso, não vejo nenhum stress ou confusão entre os motoristas. Nada de buzinas, aliás é lei em Brasília. Avistei algumas placas dizendo que era proibido buzinar. Me senti seguro para pedalar, fiquei no meu canto pedalando corretamente e não tive problemas com outros veículos. 
BRO40 vencida... 

     Paro para almoçar logo na entrada. As pessoas em cidades maiores não têm o costume de se aproximar para conversar comigo. Me sinto em casa nas cidades menores, sempre aparece alguma pessoa para dialogar, parece serem mais humanos. Não sei o que acontece com as pessoas nas capitais que a tornam mais distantes uma das outras. 
    Depois do descanso na grama de um posto de gasolina, volto a pedalar com a intenção de achar a rodoviária e procurar um abrigo para descansar. Além do tornozelo inchado, esses dias de trânsito intenso me cansam um pouco mais além do normal. 
     Pergunto para as pessoas que me informam que a rodoviária fica perto de um tal de plano piloto. Fico maluco naquele trânsito infernal e mais maluco ainda naqueles endereços difíceis. É um tal de asa de não sei o que, quadra sei lá o que, tem eixos, tem o w, só falta colocar a latitude e a longitude...
     Mas, apesar de tudo consigo chegar na rodoviária. No caminho só pessoas trabalhando, homens de ternos, e eu, um cicloviajante que não se identifica com nada naquele lugar. Me senti um estranho no ninho. Prefiro a BR solitária e as cidades pequenas e onde a natureza é o mais importante. Brasília só tem prédios e mais prédios, alguns bairros parecem não ter comércio, nem a tradicional padaria da esquina.  Não tem barzinhos. 
                                           Fiquei quase maluco pedalando em Brasília

     O entorno da rodoviária de Brasília é tenso. Muitos moradores de rua, talvez pelo fato dos abrigos serem próximos. Antes da rodoviária passei em um que parecia enorme. Na portaria haviam dois seguranças que faziam a revista de quem entrasse. Entrei, fui revistado, mas, pela quantidade de pessoas que avistei, resolvi ir embora. Não é o lugar seguro para quem tem uma bike e algumas coisas além da roupa do corpo. Alguns caras ficaram me encarando e isso foi o suficiente para ir embora daquele local. 
     Chegando na rodoviária que estava movimentadíssima a assistente social foi bem clara e objetiva:
     - A liberação para ficar no abrigo demora 3 dias e se você dormir por aqui irão roubar seus pertences! Aqui é muito violento!
     Confesso que fiquei assustado, ou melhor, apavorado. Queria descansar e melhorar o tornozelo, mas as palavras da assistente social me deram um gás que saí pedalando na maior velocidade possível em direção à Alto Paraíso, cidade mística que sempre quis conhecer e que teria que fazer um bom desvio no trecho para Belém. Se fosse direto para o Pará era só pegar a Belém Brasília, mas como irei passar por Alto Paraíso irei dar  uma longa volta em Goiás e Tocantins. Mas isso não é problema, a pressa não faz parte da rotina de um cicloviajante raíz. 
      E lá vou eu pelo trânsito maluco. E nem cogitei em ir ao encontro nacional de motociclistas. Não quero dormir nem aos arredores de Brasília. Paro na única lanchonete que encontrei e a surpresa: um pãozinho de queijo minúsculo custava 8 reais! 
     Não tinha outras alternativa e pedi. Mas me arrependi, além de pequeno, não tinha queijo. Era muito ruim. Não que eu seja um mineiro comedor exigente de pão de queijo. Estava ruim mesmo, só tinha massa. O refrigerante estava caro também, mas queria ter energia para sair o mais rápido da capital federal. 


      Na saída de Brasília, como não havia encontrado nenhum posto de gasolina, resolvi montar a minha barraca no estacionamento de uma farmácia. Com muito custo consegui convencer a gerente a permitir montar a barraca. Como tudo é muito difícil por ali. Que saudades da BR e das cidades do interior! 
    Para piorar, depois que montei a minha humilde residência, um vendedor de doces na faixa dos 18 anos começou a conversar comigo e a me perturbar. Mexeu na barraca, perguntou se queria vender, ficou olhando para dentro dela. Tive que ter muita paciência com aquele cara. E resolvi seguir adiante, pois ele não saia de perto. 
      Não sei de onde tirei energias mas rapidamente desmontei tudo e segui a BR. Para minha sorte em menos de 5km encontrei um posto de gasolina, que é o lugar que me acostumei a montar a barraca e a me sentir mais tranquilo. 
      Estava entre Brasília e Sobradinho, o movimento era mais tranquilo e isso foi me aquietando também. Mas, não consegui lugar para tomar um bom banho. Mas o cansaço era tão grande que o mais importante era parar o físico e a mente para repor as energias para o dia seguinte, que espero que seja melhor do que o dia de hoje. 
Hoje foram 56km, mas acho que, dentro de Brasília cheguei a pedalar mais de 10km


sábado, 7 de fevereiro de 2026

Pedalanças 11º dia Belo Horizonte - Belém Enfrentando trânsito caótico

 24/07/2024
Cristalina-GO à Val Paraíso-GO
Perigos na BR

    A primeira noite em terras goianas foi sem perrengues, apesar de minha ansiedade inicial. A verdade é que a mente de uma pessoa com esquizofrenia é bem complexa, às vezes pensamos que o mundo gira entorno de nós, mas no mau sentido. Pensamos que todos sabem sobre nossa vida e que às vezes sabem até o que a gente está pensando. E que sempre estão tramando algo contra nós. Isso faz com o desgaste físico em uma cicloviagem fique em segundo plano.
      Na esquizofrenia o nosso maior inimigo está dentro de nós mesmos, a nossa mente. Gosto demais da música "Enemy inside" (Inimigo interior) da banda de metal progressivo Dream Theather. 
     A frase “Uma crença não é apenas uma ideia que a mente possui; é uma ideia que possui a mente” acredito que seja a que mais se aplica a esquizofrenia. Acreditamos no que não é real e muitas vezes somos dominados por essas alucinações e delírios, que acabam se tornando crenças que nos guiam por caminhos não muito tranquilos. 
      E não adianta vir família, psicóloga e nem o papa tentar nos convencer do contrário. Às vezes é preciso acontecer algo mais grave para começarmos a entender que temos um problema e que precisamos de ajuda. No meu caso foram os surtos iniciais que me fizeram abandonar o emprego e ir moras nas ruas e perambular pelas Brs de Minas Gerais. A partir daí comecei a fazer um inventário de toda a minha vida e aos poucos, em um lento processo comecei a me conhecer melhor. Esse é o primeiro passo para enfrentar a esquizofrenia. Se auto conhecer. Depois vamos conhecendo a esquizofrenia. 
     Mas fui tão bem recebido ontem em Goiás que estou mais calmo. De dia conheci pessoas legais e de noite no posto os funcionários foram muito atenciosos comigo. Apesar de ser um posto de alto padrão, ninguém me olhou torto ou com ar de reprovação. Afinal sou um ciclista com roupas simples e tênis surrado entrando no restaurante super luxuoso para jantar e de manhã para tomar um café.
     Me trataram com naturalidade, e isso é muito bom. Não quero ser tratado nem com dó e nem com piedade pelo fato de ter esquizofrenia e ser um cara sem muitos pertences. Aliás, o meu único bem é a minha fiel companheira Margarida, que é uma bike aro 26 dos anos 90.  A verdade que o bem mais precioso que podemos ter não é material. Seriam dois: a paz e a consciência tranquila. 
     De manhã um friozinho gostoso, daqueles que nos animam a tomar aquele cafezinho e um pãozinho com manteiga. Nada daquele frio inicial do interior de Minas Gerais, que chegava a queimar meus lábios. 
     E pego a boa BR 040 em Goiás. Bom acostamento e faixa dupla. Tudo que o cicloviajante deseja de uma estrada. Assim a viagem se torna muito mais agradável e menos cansativa. 
Estrada em Goiás em excelentes condições. Pista dupla e bom acostamento
     Na hora do almoço para em um posto de gasolina que tem um excelente restaurante. Lugar agradável, cercado de árvores e com um vento forte que ameniza bastante o calor. Os funcionários também foram muito gentis. Enfim, um posto de gasolina top. Depois do almoço parei para descansar, mas o local era tão agradável que resolvi lavar minhas roupas e lubrificar a bicicleta. E, apesar de não ser nem uma hora da tarde, resolvo ficar ali para dormir. É um daqueles lugares em que nos sentimos em casa. 
     Mas, logo apareceu um trecheiro e se aproximou de mim com o seu marmitex. Começamos a conversar sobre estradas, viagens e aventuras. Ele ficava olhando a bike, me perguntando um monte de coisas e se eu iria dormir ali. Disse que sim, meio desconfiado. 
    Ele não tinha nada, apenas as roupas do corpo. Disse que vivia viajando, mas à procura de emprego. Estava muito magro e abatido. 
Isso foi o suficiente para ligar o meu estado de alerta máximo de paranoias, e, de fininho fui recolhendo minhas roupas e arrumando a carga na Margarida. O vento era tão forte naquele lugar que as roupas estavam praticamente secas. 
    Discretamente me despedi dos funcionários do posto e peguei a estrada. Não sei o que acontece, mas, quando estamos no estado de alerta paranoico arrumamos energia que fazemos coisas que em estado normal não conseguimos. Talvez seja adrenalina. Só sei que arrumei animo de algum lugar escondido em minha mente e fui ligeiro em direção à Luziânia. 
Chegando em Luziânia
     Meu sonho não é mais ganhar na loteria e viver na beira da praia, sem muito contato com os humanos. Só teria um cachorro e alugaria um apto ou uma casa simples, para não chamar muita atenção. Meu sonho agora, que acho mais uma  utopia é um mundo sem pessoas más, que prejudicam o próximo, por mais próximo que seja. No caso eu era um pedarilho, e o trecheiro um andarilho. Estávamos em situação parecida, e ele talvez quisesse roubar o pouco que eu tinha, me colocando em uma situação difícil. Seria feliz se estivéssemos em um mundo sem ladrões, que poderíamos deixar nossos pertences sem precisar trancar, um mundo sem cadeados, sem chaves, sem alarmes. 
Na minha opinião não se deve roubar nem dos ricos, muito menos dos pobres. Como que a consciência desse pessoal não pesa?
Muita gente indo à Brasília para o encontro nacional dos motociclistas
    Esse gás que a paranoia me introduziu fez com que pedalasse em bom ritmo por cerca de 80km, quando me aproximei da cidade de Luziânia. Ali a BR não era somente uma BR, era também uma avenida do município. E por isso vinha carro de todas as direções. Vinha carro dos dois lados entrando nas ruas e, na minha frente muitos carros quase que parados no congestionamento. O maior perigo eram os ônibus que paravam nos pontos para o embarque e desembarque de passageiros. Instalei na bike um retrovisor e considero um equipamento de grande necessidade para um cicloviajante. Alguns não gostam por acharem que não fica legal, mas, a segurança tem que estar em primeiro lugar. 
     Valparaíso fica colada em Luziânia e o trânsito é mais intenso ainda. A pedalada de hoje foi longa, mas o cansaço não foi físico e sim mental. O barulho dos carros, o trânsito intenso me causam um desconforto mental muito grande e parece sugar minhas energias.
      Eu e a Margaria éramos uma ilha cercada de carros, caminhões, carretas e motos.  
Trânsito intenso e perigoso em Valparaíso
    Queria seguir para fugir daquela agitação de Valparaíso, mas me informaram que o próximo posto fica há uns 30km de distância. Como não estou equipado para pedalar de noite e já são cinco horas da tarde, resolvo parar em uma lanchonete próxima de um posto desativado.
    Como um mixto bem mixuruca, com uma fatia de queijo e outra de muçarela por oito reais. Tomo uma coca cola e um doce de sobremesa. Mas nem a onda do açúcar ajudou. Esse fim de pedalada foi estressante. Não estou com bom humor. E os preços do estabelecimento também não ajudaram. Haviam pouquíssimas opções, o posto de gasolina estava desativado e a lanchonete vazia. Para piorar ainda mais a situação, o cara não me deixou montar a barraca debaixo do telhado na entrada. Pelo menos um banho consegui tomar pagando cinco reais.
     O jeito foi procurar um lugar no fundo do posto. O local era bem deserto e encontrei um abrigo onde se fazia a troca de óleo. Também estava abandonado. Não gosto de montar barracas em cidades grandes e médias. Apesar do mau pressentimento, não procuro outro lugar, pois sinto que só irei encontrar mesmo lugar tranquilo no próximo posto de gasolina. 
     Enfim, o dia começou bem, mas depois do almoço as coisas não foram muito legais. Mas a pedalança é como a vida, têm seus dias bons e seus dias maus. 
     
94km  Média boa para um senhor de 57 anos e com uma bike aro 26 de 1990




De novo e de novo
eu revivo o momento
Estou carregando este fardo no meu interior
Feridas abertas escondidas debaixo da minha pele


Dor é real como um corte que sangra
O rosto que eu vejo cada vez que eu tento dormir
Olhando para mim chorando


Eu estou correndo do inimigo interior
Olhando para a vida que deixei para trás
Essas memórias sufocantes estão gravadas na minha mente
E eu não posso escapar do inimigo interior


Separo-me do mundo
e desligo-me completamente
Totalmente sozinho no meu próprio inferno
Supero com medo irracional


Sob o peso do mundo sobre meu peito
Eu me envergo e quebro enquanto tento recuperar o fôlego
Diga-me que não estou morrendo


Eu estou correndo do inimigo interior
Olhando para a vida que deixei para trás
Essas memórias sufocantes estão gravadas na minha mente
E eu não posso escapar do inimigo interior


Eu sou um fardo, eu sou uma paródia
Eu sou um prisioneiro do arrependimento
Entre os flashbacks e os sonhos violentos
Estou pendurado na borda


Desastre espreita ao virar a curva
Paraíso chegou ao fim
E nenhuma pílula mágica
pode trazê-lo de volta


Eu estou correndo do inimigo interior
Olhando para a vida que deixei para trás
Essas memórias sufocantes estão gravadas na minha mente
E eu não posso escapar do inimigo interior







quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Pedalanças 10º dia-Belo Horizonte à Belém-Atravessando fronteiras!

 23/07/2024
Paracatu-MG à Cristalina-GO
Friozinho na barriga ao atravessar a fronteira
 
Sensação única


    Acordei ansioso. Hoje não é apenas mais um dia de pedal. É o grande dia em que atravessarei uma fronteira estadual entre minhas andanças e pedalanças pelo Brasil! Para muitos, algo corriqueiro, mas, para uma mente paranoica como a minha, é um desafio. Acho que esse desafio rumo ao desconhecido é algo mais mental do que físico, apesar das longas distâncias percorridas sob o forte calor do centro oeste do Brasil. Sempre quis sair da região sudeste, afinal já conheço os quatro estados dessa linda região. Gosto demais de Minas, Rio, Espírito Santo e São Paulo, mas é sempre bom mudar de ares, conhecer novas culturas e horizontes. Quem sabe um dia faça uma viagem para o exterior?
A Serra da morte é cansativa, mas nos recompensa com um belo visual na parte da manhã. 


     Logo no início da pedalada encaro a Serra da Morte, que, por sinal faz jus ao nome. Muito íngreme e sinuosa, mas dá para ir pedalando numa boa sem empurrar a bike. Por sorte, acordei disposto e bem humorado, algo não muito comum. Nessas situações é só ter paciência e usar  a psicologia, não encarando muito o final da serra e se concentrar nos próximos dez metros. E assim, vagarosamente vamos indo, de dez em dez metros, pensamento focado no chão e sem olhar para o intimidador do alto da serra. 
A temida Serra da morte, na saída de Paracatu


    Ao lado da BR um visual muito bonito, parecendo um enorme lago. Sinto até vontade de dar uma passada, mas um outro ciclista me informou que aquilo era resultado de exploração mineral e não era aberto ao público. Era simplesmente a maior mina de exploração à céu aberto de ouro do Brasil. É a Kinross Brasil Mineração. E o visual, de longe bonito, é devastador por perto.  E não se pode banhar naquelas águas, devido à contaminação por arsênio, resultado da exploração de ouro.
Exploração de ouro em Paracatu-MG. (essa foto fiz o upload de um site de um jornal da região.

    Depois de 42 km chego à divisa de Minas e Goiás. Uma ponte faz a divisa dos estados, e um belo rio em volta. Fico emocionado, afinal, por tudo o que aconteceu em minha vida ainda tenho saúde para sair da região sudeste pedalando e bem, por sinal. Vários dias fiz mais de 100km. Estou feliz, realizado. É algo histórico para mim.
 Simples e corriqueiro para muitas pessoas, mas especial e único para mim. Não só na parte física mas também na parte mental e psicológica. Não foi sorte, foi fruto de persistência e muito foco nos momentos mais difíceis. Só quem tem esquizofrenia é que entende esses medos, cismas e paranoias que aparecem do nada.
Feliz pela marca alcançada. Paz na terra aos homens de boa vontade. 

 
     Entro em Goiás cheio de dúvidas. Incertezas sobre as estradas, os lugares, as cidades e, principalmente as pessoas. Imagino paranoicamente que tudo irá mudar por conta de uma simples demarcação geográfica. E então vou seguindo e meu medo aumenta ainda mais por conta do calor e da estrada quase que deserta. 
    Por volta do meio dia encontro um pequeno restaurante e uma vendinha, para o meu alívio. Era como se tivesse encontrado um oásis no meio do deserto. Pensava que iria percorrer um longo trecho solitário até a cidade de Cristalina. Que falta faz um GPS... 
     Durante o almoço a filha da dona do bar começa a conversar comigo, perguntando se eu aceitaria Jesus Cristo como salvador, dizendo que eu não estava bem, que estava longe da família, etc... Realmente não estava bem vestido e usava um tênis bem detonado. Mas é uma estratégia que uso durante as pedalanças. Não podemos ficar muito bem vestidos e com uma bike nova e boa, isso pode atrair meliantes e tirar um pouco do nosso sossego. E, fisicamente, claro, há sinais de que estou na estrada: um pouco mais magro, pele queimada de sol, o rosto demonstrando um certo cansaço. Afinal, são noites e mais noites seguidas dormindo em barracas após um dia de pedal sob o forte calor. 
     Digo para ela que nós é que devemos perguntar se Jesus nos aceita, por conta de nossas falhas e erros. Mas ela foi bacana comigo e disse que não precisaria pagar o almoço. Fiquei feliz e animado, imaginando que o povo de Goiás também seja hospitaleiro, assim como o mineiro. Aliás, não consegui identificar algo que demonstrasse que a pessoa fosse do estado de Goiás. O sotaque me pareceu bem semelhante com o mineiro. 
     Depois do almoço, aquela molezinha corriqueira. Nessas horas vem sempre a dúvida: comer bem por conta das deliciosa culinária brasileira, ou maneirar, para não encher muito a barriga e pesar na hora de pedalar. Pois de tarde tenho mais sede, e aí a água se mistura com o almoço e às vezes aparece aquela dorzinha no lado esquerdo da barriga quando não faço a cesta. 
    Mas na maioria das vezes não manero na comilança e, além da comida ser gostosa, ainda conta o fato da grana. A gente que é pobre não se pode dar ao luxo de pagar um almoço e dar uma beliscadinha. Então sempre como bem e procuro descansar uma hora, mais ou menos. 
    E foi o que fiz. Apesar do calor, sigo a viagem ainda com um pouco de receio, ao avistar a estrada deserta. Mas esse medo me incentiva, acendendo uma chama interior que estava adormecida por anos seguidos morando no mesmo lugar e seguindo a mesma rotina entediante de um aposentado. Ficar em casa na TV e no PC. Sair geralmente para almoçar e voltar para casa e passar o restante do dia em casa. Essas viagens me fazem sentir vivo novamente. 
     Por volta das três encontro uma outra vendinha, parecida com a do almoço. Estou um pouco molenga fisicamente falando. Compro uma coca cola para animar. Não sei se tem comprovação científica, mas fico mais animado ao tomar esse refrigerante. Tem gente que toma com café para ficar acordado de noite. 
     Sentado próximo a vendinha encontro um outro cicloviajante. Aparenta uns 60 anos e está embriagado. Tento puxar assunto, mas ele está muito bêbado. A sua bike é uma aro 29 cheio de apetrechos. 



    Essa moleza nesse primeiro dia de Goiás me faz pensar em  montar a barraca na vendinha, apesar do horário. A dona permite montar, mas na entrada do estabelecimento, onde ficam os carros. 
     Fico nessa dúvida por uns vinte minutos. Sigo ou paro. Tomo um café e com os níveis de dopamina aumentados, resolvo seguir viagem. Acho que o café, além de aumentar a vontade, também aumenta a coragem. São três da tarde e faltam 40km até a cidade de Cristalina. A estrada está muito boa, inclusive o acostamento está lisinho, sem aquela trepidação da BR040 em Minas Gerais. Aliás, estou na 040, mas em Goiás, e o asfalto mudou radicalmente de qualidade. 


       Como estou ansioso para atravessar a fronteira regional, sigo em bom ritmo até a ponte que separa Minas de Goiás. O rio São Marcos ajuda a dar aquele clima nesse marco em minhas pedalanças. O lugar é maravilhoso e atravesso a ponte a pé, para curtir melhor o momento. Claro que também tenho medo de atravessar pontes, seja a pé, seja de bike. E é o mais aconselhável a se fazer em uma cicloviagem, pois as pontes são estreitas e as carretas passam a mil por hora, mesmo nas pontes. A sensação de atravessar essa fronteira era como se tivesse batido um recorde. Revi boa parte de minha vida, e nunca havia imaginado que um dia iria conseguir viajar parte do Brasil de bicicleta. A verdade é que cansa só de imaginar. Mas, quando estamos na estrada, não sei o que acontece e ganhamos uma energia que não sei de onde sai e conseguimos pedalar e pedalar até chegar ao nosso destino. 
                                         

                                  
      Apesar do calor chego em boas condições em Cristalina por volta das seis horas. O posto de gasolina é enorme e muito bonito. Por sorte, o banheiro estava em manutenção e não cobraram o banho. Os funcionários são muito atenciosos e educados, apesar de ser um ciclista e, como relatei, não muito bem vestido. Não estou como um andarilho, lavo minhas roupas e tudo mais. Mas não uso tênis novo e de marca conhecida. As camisas são bem usadas também. E a bike é uma antiga Caloi dos anos 90. A guerreira Margarida, que tem muitas histórias para contar. E que tenha muitas outras para viver ainda. 
      Foi um dia legal, apesar da moleza na parte da tarde. As dúvidas e incertezas me motivam a seguir o caminho. Não teria a mesma motivação se seguisse por um caminho que já havia percorrido. Essa novidade é meu principal combustível para continuar a pedalar. Hoje foram 116km e estou bem satisfeito com o meu rendimento e a performance da Margarida. 
     Monto a barraca na borracharia e agradeço à Deus por mais um dia e uma conquista tanto no campo físico como psicológico. 
117km de muita emoção!


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Pedalanças 9º dia-Belo Horizonte à Belém- Chegando em Paracatu-MG

 22/07/2024
João Pinheiro-MG à Paracatu-MG
105km quase chegando em Goiás!

Cristo Redentor na cidade de Paracatu-MG


     Como narrei na postagem anterior, estava em  um posto de gasolina muito acolhedor e bucólico na parte traseira. Montei minha barraca com um belo visual para curtir, com pássaros à minha volta debaixo de uma frondosa mangueira. Os funcionários do posto de gasolina muito legais, e os que não interagiram comigo também não demonstraram contrários à minha presença no local.
    Com toda essa atmosfera, a noite foi super tranquila e dormi super bem. Difícil foi desmontar a barraca pois um caramelo (sempre eles!) insistia em querer brincar comigo e, como não tenho coragem nem de dar um tapinha em dogs, demorei bastante para desmontar o acampamento. A verdade é que para mim os cachorros, além de uma ótima companhia, também são meio antidepressivos e ansiolíticos também. Só me fazem bem a presença desses anjos de duas patas. Acho que futuramente irei fazer um vídeo só com a presença dos cachorros nessa viagem. 
                                      Difícil foi desmontar a barraca com o Caramelo por perto

     Hoje o dia promete. Serão 105km até a cidade de Paracatu, quase na divisa com Goiás! E já estou com receio de atravessar a fronteira. Coisa de paranoico mesmo. Quem acompanha o blog sabe que sempre fui cismado para atravessar fronteiras. Em 2012, quando fiz o caminho velho da estrada real, fiquei muito ansioso quando tive que passar pelo norte do estado de São Paulo. Imaginava que um simples limite de fronteira iria mudar tudo: o comportamento das pessoas, algumas regras sociais, etc... E, para a minha surpresa, foi um dos dias mais legais quando pisei em terras paulistas. Essas marcas azuis que ficam no texto são links. Esse caminho velho também postei aqui no blog, é só clicar no link para acessar o diário com a narração e as fotos da viagem. Essa fiz a pé, foram 710km em 23 dias, entre as cidades de Ouro Preto, em Minas Gerais, até Paraty, no litoral do Rio de Janeiro.
Estrada boa, sem muitas subidas íngremes me fez imprimir um bom ritmo


    Depois do café um trecheiro que estava no posto começa a conversar comigo. Fala sobre o apocalipse, fim do mundo, etc... Tem um certo nível de consciência da realidade, mas às vezes exagera sobre a questão do fim do mundo. Talvez não seja esquizofrênico, apenas tenha delírios religiosos. Ele também tem uma bike, mas está dando um tempo ali para receber o auxílio do governo e consertar sua bike. Ele me disse que sofreu um acidente ao colidir com uma motocicleta. 
    A estrada muito boa, só com uma leve trepidação no acostamento, dificultando um pouco pegar um bom ritmo e sacolejando o corpo inteiro. No caminho encontro um outro cicloviajante parado no outro lado da BR. Perguntei sem parar de pedalar de onde vinha e, ele, meio sem vontade de conversar, respondeu:
     - De longe!. 
     Gosto de conversar com outros ciclistas, mas talvez por um motivo ou outro esse não queira conversar. Não insisto e sigo o meu caminho, determinado e em um bom ritmo. Pouco paro para descansar, as condições estão muito favoráveis e às vezes uma parada quebra o ritmo ao esfriar o corpo.
Como não encontrei  subidas muito íngremes  cheguei em Paracatu por volta das duas horas da tarde. Em boas condições, pois o descanso de ontem foi reparador. 


     Resolvo dar uma volta no centro da cidade, para, além de conhecê-la, tentar encontrar o pneu que sempre gosto de usar, já que é  uma cidade média para grande, com quase 100 mil habitantes.
     O centro é bonito, com lojas e edifícios bem pintados e as ruas bem limpas. O asfalto novo faz com que qualquer carro que faça uma curva solte um ruído de derrapagem. 
      Pedalo sem pressa, no meio de pessoas apressadas em seus carros, alguns passando bem rente à mim. Entrei em uma loja de bike, duas, três... Mas não achei o pneu que queria.  O dianteiro da minha bike já está bastante desgastado, não somente pela esta viagem, eu o uso há quase um ano. 
                                                         Passeio pelo centro de Paracatu

     E voltei para a BR, sem saber o que fazer. Não estava cansado, queria fazer alguma coisa, mas como a próxima cidade fica bem distante, resolvo ficar em Paracatu mesmo. Esperando o tempo passar, meio sem jeito, no meio das pessoas que tinham um objetivo, algum lugar para ir. Eu, apenas estava ali, parado, esperando o tempo passar, entre dois pontos distantes a serem percorridos. 
105km e cheguei mais ou menos inteiro em Paracatu city



domingo, 1 de fevereiro de 2026

Pedalanças-Belo Horizonte à Belém 8º dia- Domingão

 21/07/2024
Domingão da preguiça
A BR040 tem um visual bonito nesse trecho
      
    Tive uma excelente noite de sono na oficina do sorridente cara que me apareceu ontem. Muitos vendedores com suas caminhonetes também dormiram no local A maioria em redes, outros em seus veículos. 
       Para mim, o dia da preguiça é domingo. Um sentimento estranho, às vezes melancólico, às vezes meio nostálgico. Só sei que não tenho vontade de fazer muita coisa. 
    Acordei por volta das sete horas da manhã, sem pressa para desmontar acampamento e tomar café. Agradeci o homem sorridente pela estadia e peguei estrada bem mais tarde do que de costume. 
     O caminho é muito bonito, e me faz pedalar vagarosamente, me concentrando mais na paisagem do que na estrada. O acostamento é bem largo, apesar de continuar fazendo a bike trepidar muito. Acho que deve ser por causa do material utilizado. Apesar da trepidação, me sinto bem, o clima agradável me deixa mais zen.
      Só tive um pouco de emoção em uma deliciosa descida da BR. Sei que não é aconselhável, mas gosto de descer em uma boa velocidade, acho que para compensar o esforço das subidas.
E, também, claro, por causa da adrenalina e o ventinho no rosto. 
     Avançando...
                                     Descidinha gostosa.

     Nesse ritmo, pedalo cerca de 20km e por volta das onze horas chego em um excelente e aprazível posto de gasolina. Acredito que ainda esteja nos limites da cidade de João Pinheiro. 
O local não está muito movimentado. Apenas algumas famílias aproveitando o domingo para almoçar fora. E alguns carros parando para abastecer. Os frentistas foram muito legais e me deixaram lavar as roupas em uma mangueira. Depois do almoço resolvi descansar.
    Mas, como disse, o clima de domingo tomou conta de mim e resolvi ficar o resto do dia naquele posto bacana. Atrás do restaurante tinha uma área bem legal, com uma generosa sombra fornecida por uma imponente mangueira. E a paisagem era muito bonita. Muitos pássaros cantavam na mangueira. E uma brisa refrescante para completar. O que eu queria mais?
     Um lugar perfeito para passar uma tranquila tarde de domingo. Além de tudo havia alguns cachorros brincalhões. E tinha uma cadeira para descansar. Parecia que Deus havia preparado aquilo para que eu pudesse descansar um dia. E o meu anjo da guarda também. Acredito em anjo da guarda, cada um tem o seu. O meu trabalhou muuito até os dias de hoje, agora que passei dos 50 estou dando uma folguinha para ele. 
     E então, depois do almoço voltei para a sombra da mangueira e passo o resto do dia. Montei a barraca e fiquei ali, sentado, apreciando a paisagem, ouvindo o canto dos pássaros e me refrescando com aquela brisa deliciosa. Virei a cadeira para o lado do campo e a visão que tive me fez ter a sensação de que estava morando em uma casa no meio do mato. 
    Para completar, à noite, a lua deu o ar de sua graça em sua plenitude. Noite de lua cheia. Enfim, um dia perfeito e tranquilo, sem muitas novidades. Gosto de aventuras, mas um dia tranquilo também é muito bem vindo. 
Lugar bacana que encontrei para montar a barraca. 

                                                          Lua maravilhosa

No domingo é sempre assim,
A nostalgia arrasta-me de volta
A lugares que nunca mais pisarei.
A um passado muitas vezes triste,
Outras de muita felicidade.
A um passado que muitas vezes nem quero lembrar,
Outras fazem percebe-me que era feliz e não sabia.
Mas como seria a vida se fosse só risos?
O fato é que devemos tocar em frente
E esquecer esse passado que as vezes nos impede de olharmos para o futuro. Mas sem negar nossas raízes e sem perder a nossa essência.
Nunca devemos nos esquecer de onde viemos,
Devemos firmar os nossos pés no chão do hoje e acreditar num amanhã cheio de possibilidades.
Devemos acreditar sempre, apesar das incertezas e seguir em frente.
Sempre existirá obstáculos e dificuldades, mas que nunca percamos a nossa fé.
Eduardo Lima