quarta-feira, 18 de março de 2026

20º dia pedalanças Belo Horizonte à Belém do Pará- Conhecendo a Chapada dos Veadeiros

 07/08/2024
Alto Paraíso-GO à São Jorge-GO

Estrada maravilhosa de se percorrer

    Dormi muito bem na entrada do bar. E acordei bem animado, não só pela noite bem dormida quanto pelo fato de ser o dia de finalmente conhecer o Vale da Lua, na chapada dos veadeiros.
Na verdade foi a foto da Vale da Lua que me fez ter o desejo de conhece essa região maravilhosa e cheia de encantos naturais. Foi a foto do Vale em uma revista que vi há cerca de trinta anos atrás. Vai ser mais um lugar que será riscado da minha lista de desejos. 
    São cinco horas da manhã e ainda está tudo escuro. Estou desmontando acampamento e, de repente, toda a iluminação pública da região apaga e aí é que vira um breu mesmo. Levei um susto e fiquei um pouco com medo, em estado de alerta. Imaginei que estavam armando algo contra a minha pessoa e que haviam desligado a iluminação para dificultar as coisas para mim.
Mas logo a energia se estabeleceu e tudo voltou ao normal, inclusive a minha mente. É um dia especial e então vou tomar um café especial também. Para todo comedor compulsivo, qualquer coisa é pretexto para comer um pouco mais do que o normal....
O dia está lindo


    Para animar ainda mais o dia, o céu está limpo e sol está cooperando, não castigando muito. O caminho tem um visual de arrepiar, me fazendo prestar mais atenção nas montanhas, formações rochosas e vales do que na estrada. Felizmente ela é pouco movimentada e tem um bom acostamento, que é uma ciclovia também. A solidão da BR só é interrompida quando avisto animais atravessando a pista. Não tenho muitos conhecimentos da fauna da região e não sei o que seres são esses. Paro no caminho várias vezes para gravar vídeos e tirar fotos. 
    No caminho passei por um cicloviajante que vinha em sentido contrário, provavelmente estava em São Jorge. Como estava em uma descida  apenas o cumprimentei com a cabeça. Na verdade não o cumprimentei por ser antissocial mesmo, o embalo da descida foi apenas um pretexto. Gostaria de ser mais comunicativo com estranhos, mas isso seria forçar um pouco. Gosto de ser quem sou, não fingir muito para me socializar, deixar as coisas acontecerem naturalmente. Quando conheço a pessoa, passo a ser um pouco mais falante. Coisas de um mineiro esquizofrênico como eu. Acho que os esquizofrênicos cariocas são mais comunicativos do que eu. Pode parecer ironia, mas tem um pouco de sentido isto. 
                                                 Essa trilha nos convida a subir para o alto...

   Mas, voltando ao caminho, encontrei uma linda montanha que tinha uma trilha que dava no pico. Queria subir e curtir a imensidão da chapada, mas resolvi deixar para fazer esta contemplação na volta para Alto Paraíso. A beleza do lugar e do entorno merece um bom tempo para se curtir com calma e também aproveitar para ficar sozinho e refletir um pouco sobre tudo. 
 O acostamento está muito bom e a maior parte do caminho são retas. As subidas não são fortes Então completo os 37km entre Alto Paraíso e São Jorge em duas horas e trinta minutos. 
Uma das viagens mais gostosas que fiz em minha vida. 

São Jorge

    O povoado é bem pequeno mesmo, a maioria das ruas são de terra. Na rua principal estão sendo colocados bloquetes. Muita poeira subindo. 
    Pela quantidade de pousadas e placas indicando locais de camping é um distrito muito visitado. Afinal boa parte dos encantos da Chapada dos Veadeiros se encontram próximos à ele. 
Não consigo encontrar a pousada que o dono da bicicletaria em Alto Paraíso havia me indicado. Na minha paranoica mente ele estava apenas querendo me enganar. 
    Encontrei uma lan house, algo difícil de se encontrar hoje em dia. Aproveito para passar todas as fotos e vídeos da viagem dos cartões de memória para o HD externo. Como disse, sou um cicloviajante raiz e levo uma câmera compacta para registrar tudo. Tenho um J1 mini para fazer as ligações, ou melhor, receber as ligações. E tenho um Motorola G4 com a bateria estragada. Então fiz uma gambiarra e coloquei direto no carregador. OU seja, só funciona na tomada. Mas dá para editar alguns vídeo que envio para o meu canal no youtube. 
    A atendente foi super gente boa comigo e me deixou à vontade no computador. Passou um cara do lado de fora e perguntou para ela se estava tudo bem. Isso é um procedimento comum entre moradores de cidades e vilarejos para se protegerem de viajantes mal intencionados. O que não é o meu caso. Só quero curtir a natureza e viajar. Se pudesse ser de Hilux e dormir em um hotel de luxo seria ótimo. Mas como não tenho condições para isso, vai de bike e barraca mesmo. 
Demorou um pouquinho para passar todas as fotos e vídeos da viagem. Depois sigo  para a praça central do distrito para descansar e curtir a energia do local. 

O Vale da Lua

Estrada de terra em boas condições

    Almoço por volta das onze horas e já sigo para o Vale da Lua. Estou me sentindo muito bem fisicamente e mentalmente. Não sei explicar o motivo. Seria a energia do lugar?  Ou o entusiasmo de conhecer um local tão abençoado por Deus?
   São 5km até o Vale da Lua. 3km de asfalto e 2km de terra. Está sendo um prazer pedalar por aquela BR maravilhosa. Além do visual tem o ar puro também, fazendo a gente respirar mais fundo. 
É uma longa descida para o Vale da Lua. Na entrada prendo a bike em uma cerca mas os funcionários do local me falam que não é necessário, pois ninguém iria mexer em nada. E realmente não iriam mexer. Só haviam turistas com boas condições financeiras, e boa parte estrangeiros. O que iriam fazer com uma bicicleta de 1990? Mas, como bom paranoico que sou, deixo por meio das dúvidas o cadeado na Margarida. 
Chegando...

   Estou com aquela animação do início da viagem, há alguns metros de conhecer o Vale da Lua, finalmente. Era algo que não saia de minha mente. Foi um prazer também ir a pé pela trilha, são cerca de 1km da entrada até o Vale propriamente dito. É uma trilha gostosa de se percorrer, aliás, para mim todas as trilhas na natureza são legais, até as que deixa a gente um pouco perdido...
   É uma emoção que não consigo descrever. Afinal, havia prometido a mim mesmo conhecer esse lugar. Não sabia se teria condições financeiras para isso, pois em cidades turísticas tudo é muito caro. Não imaginaria que seria dessa forma que iria conhecer o lugar. Viajando de bike e dormindo em uma barraca. 
    À medida que me aproximava do local ficava cada vez mais entusiasmado, nem mesmo o cansaço da pedalada do dia estava me atrapalhando. O entorno do Vale da Lua também é muito bonito, cercado por serras e muito verde. 
   Vou seguindo pela trilha e finalmente me deparo com a imagem maravilhosa do local. Era exatamente como havia visto na revista há 30 anos atrás! O solo esburacado lembra um pouco o satélite da terra, e, para completar, descia uma água cristalina para refrescar os visitantes.
   
A maior parte da galera é gringa... 

   Boa parte dos turistas eram estrangeiros. Estava tão entusiasmado que comecei a tirar fotos e mais fotos. E passei pela cordão de isolamento, entrando em uma área proibida, por ser um pouco perigosa. Qualquer vacilo ou pisada em falso poderia cair em buracos grandes nas rochas e até me afogar. Mas como estou confiante começo a tirar fotos e mais fotos daquele lugar maravilhoso, sabia que não iria ter outra chance de voltar. Não demorou cinco minutos e um funcionário do local apareceu e me chamou a atenção por estar em local proibido. Claro que  fiquei todo sem graça, imaginando que todos estavam olhando para a minha pessoa. O único baixa renda naquele lugar.
Deu ruim atravessar o cordão de isolamento

    Além de me chamar a atenção por tirar fotos em local proibido, ele me disse que para entrar ali teria que pagar 40 reais. Não sabia que a entrada era paga, se havia alguma placa ela não era tão grande e não estava em um lugar tão visível. Mas, acho que eles abriram uma exceção para mim por ser um cicloviajante de parcos recursos financeiros. E também havia cumprimentado todos os funcionários na entrada. Nessas viagens fico bem mais comunicativo do que no dia a dia. 
    Não tomei banho nas águas do Vale da Lua, pois estava com muitas pessoas. Na verdade estava longe de estar lotado, afinal era um dia da semana qualquer. Mas para qualquer antissocial qualquer aglomeraçãozinha já é motivo de não se aproximar. Mas a intenção não era um mergulho e sim conhecer e sentir a energia do lugar e cumprir uma promessa de trinta anos atrás. Claro que uma boa refrescada em águas cristalinas seria muito bem vinda, mas deixa pra lá... 
   Não dormi em hotel e viajei de ônibus. Foi em uma bike velha e meu hotel era uma barraca simples, montava às vezes em locais perigosos e não muito confortáveis.  Mas agradeço à Deus por ter saúde e disposição de fazer uma aventura e saga dessas aos 56 anos de idade. 

O entorno do Vale também é lindo


   A subida da volta para a BR é forte, no meio do caminho o cara que me chamou a atenção no Vale da Lua me oferece uma carona em sua caminhonete. Estava sorridente, ao contrário de quando estava no Vale da Lua. Mas sei que ele estava apenas cumprindo sua função, certamente algum maluco deve ter caído naqueles buracos cheios de água e se afogado.  Como estou super disposto, não aceito a carona e agradeço, dizendo que é apenas mais uma subida dentre muitas de uma longa viagem...
   O psicológico influencia e muito no nosso físico. Quando estava morando em Belo Horizonte, com todos os dias sendo quase que exatamente iguais aos outros, me sentia fraco e deprimido. O tédio me corroía por dentro. 
   Às vezes consultava o google para ver ser tinha alguma doença se tinha uma simples dor de cabeça. Ficava cansado só de me imaginar pedalando de Belo Horizonte até Belém do Pará. Mas, quando boto o pé no pedal e na estrada, tudo se transforma e me sinto um jovem em busca de aventuras. 
   Chegando em São Jorge, consigo encontrar a pousada que me indicaram em Alto Paraíso. É uma pousada com um visual rústico, que cai muito bem naquele lugar. Os proprietários foram super educados comigo e montei a barraca no quintal. Tomei um bom banho e fiquei descansando e pensando no que fazer no dia seguinte. Dá vontade de conhecer os outros pontos turísticos, mas, como descobri no Vale da Lua, tudo é pago naquela região.  Me disseram que 90% das cachoeiras da chapada tem entrada paga, geralmente entorno de 50 reais.... Para mim infelizmente não dá. Não quero correr o risco de pedalar 10km e ser barrado na entrada... 
    Ainda não anoiteceu, mas o dia já valeu a pena e fico na barraca. A proprietária comentou com alguns amigos dela que sou antissocial, que não saía da barraca para nada. E acertou shasuashuashas
Foi um dia lindo e que ficará para sempre marcado em minha mente. 

Na lua... 


quarta-feira, 11 de março de 2026

19º dia pedalanças Belo Horizonte à Belém do Pará- Conhecendo um pouco Alto Paraíso-GO

 06/08/2024
No Paraíso...
O portal do paraíso...

     Como relatei no post anterior, não encontrei área coberta e a única solução foi montar acampamento na grama na entrada de um posto de gasolina. 
    Ventava muito e fazia frio. A ventania era tão forte que, se desse bobeira a barraca sairia voando quando estava montando-a. Só tinha uma manta levinha e um lençol para me cobrir. Coloquei duas meias por que sei o que é passar frio de madrugada em barracas de camping. E essa minha atual não é daquelas boas para frio e para chuva. Essa combinação de fatores fez a noite ser simplesmente congelante! As laterais da minha residência ficaram úmidas, molhadas para falar a verdade. Meus dedos dos pés congelaram. 
    A musculatura ficou tensa a noite toda.  Não consegui relaxar e acordei bastante cansado. Mas nada que um bom cafezão com chocolate não resolva. Não é a primeira e nem será a última vez que terei perrengues noturnos. Desmontei a barraca e fui para a única padaria que encontrei aberta na cidade. Era um pouco cara, mas tudo era muito gostoso. Ainda era cedo e  o comércio da cidade estava fechado. 
    Comecei a ter câimbras nos dedos dos pés, resultado da noite congelante na grama. E é uma câimbra bem chata, pois é complicado ficar esticando os dedos dos pés, e ela insiste sempre em voltar. 
Fico pedalando por Alto Paraíso e conhecendo um pouco mais esta linda cidade. Como em todo lugar, tem o lado mais rico com casas bacanas e o lado mais simples, com casas simples. Mas tudo muito limpo e bem cuidado. 
Aproveitei o dia para conhecer a cidade e relaxar

     Aproveito para trocar a câmera de ar, que tem um microfuro que faz o pneu esvaziar depois de um dia de pedal. Acho que estava pedalando assim há uns cinco dias. Todo dia de manhã dava uma enchida no pneu. Mas não sei o que está acontecendo, estou ficando mais tranquilo e num ritmo mais zen. Será que é o clima da região?
     Sempre tive vontade de conhecer o Vale da Lua, em Alto Paraíso. Foi desse lugar que vi a foto há uns 25 anos atrás em uma revista e a partir daí surgiu o desejo de conhecer a região. Pelas fotos o lugar parece maravilhoso. 
    Chego a procurar ainda um pouco mais o cara que acolhe os ciclistas que viajam por ali. Mas ninguém o conhecia. Nem mesmo o dono de uma bicicletaria. Queria encontrá-lo não para encontrar somente um lugar para ficar, não era isso. Afinal, durmo em qualquer cantinho tranquilo. Queria alguém que conhecesse a região e me desse as dicas do que conhecer e como ir nesses lugares.
    Um outro dono de uma outra bicicletaria me informou que o melhor a se fazer é ir para o distrito de São Jorge, que fica melhor para conhecer as maravilhas da Chapada dos Veadeiros, inclusive o Vale da Lua, que fica a 5km do distrito. O dono foi super gente boa comigo e me indicou uma pousada que poderia deixar montar a barraca no quintal lá em São Jorge. Acabei descobrindo que Alto Paraíso é como se fosse um ponto de apoio e entrada para as belezas da chapada dos Veadeiros. Tudo fica bem distante da cidade. Mas nada é tão longe assim para um cicloviajante mineiro... 
   Então planejo sair amanhã bem cedo para São Jorge. E passei o restante do dia descansando e dando umas voltas na cidade.  Alto Paraíso é bem charmosa e tem um clima de paz e sossego que contagia qualquer um. Em todo canto tem desenhos de ETs e discos voadores. 
Passamos o dia descansando, eu, e a Margarida, é claro. 


Com meus amiguinhos...

   Nas praças hippies fazendo seus trabalhos e a galera ligada ao misticismo. A vontade de conhecer Alto Paraíso surgiu na minha época new age, mística. Mas continuou até quando mudei um pouco meus pensamentos. Mas até hoje gosto de curtir a natureza, ouvir o som da cachoeira, e, claro dar um mergulho. Independente da crença, o que vale é a beleza do lugar e todos convivendo pacificamente apesar das diferentes crenças. Afinal quem criou tudo isso foi o Criador... É, acho que foi uma frase legal essa que acabei de inventar. 
    E gosto de ver o pôr do sol também. É um sentimento de paz muito grande ver o astro rei sumindo no horizonte. O pôr do sol de São Thomé é lindo e é quase um ritual diário subir até a pirâmide antes das seis da tarde. 
    Fui para a praça da cidade e fiquei ali, sentado, como ontem, apenas observando o que acontecia em minha volta. Crianças brincando, algumas mães e pais, pessoas conversando sentadas nos bancos  e a mesma mulher de ontem que fazia ginástica se contorcia toda. 
    Hoje em dia procuro ser mais prático na minha fé. Acredito no Criador e ponto. Nada de intermediários, mas respeito quem acredita em outras coisas que não cultuo. 
    Antes de escurecer começo a procurar um lugar seguro para montar a barraca. Essa é uma das batalhas diárias na vida de um cicloviajante antissocial como eu. Alguns conseguem fazer amizades e dormem na casa das pessoas. Até hoje, me lembro que só recebi um convite para dormir na cada de uma pessoa, mas mesmo assim recusei, até por que a  barraca já estava montada. 
Rodoviária de Alto Paraíso


Avenida principal

   Após uma pequena volta pela cidade, consigo encontrar um bar que estava fechando. Tinha uma parte coberta e um muro para me proteger do vento. Os caras foram super gente boa comigo e permitiram montar a minha humilde residência na condição que eu a desmontasse antes da seis e meia da manhã.
    Claro que aceitei, não queria passar o frio congelante da noite anterior. Foi um dia bom, tranquilo, a cidade de Alto Paraíso me trouxe uma paz sem explicação. Talvez por que as pessoas também estejam em paz. Não vi nenhuma discussão, som alto, as pessoas muito educadas e serenas. 
Ruas e calçadas muito limpas. Casas simples, mas bem cuidadas

Pousada, quem me dera dormir pedalar e dormir em pousadas... 




terça-feira, 3 de março de 2026

18º dia pedalanças Belo Horizonte à Belém Finalmente cheguei no Paraíso!

 05/08/2024
70km de serras complicadísssimas!
Muita serra e calor no caminho

    Mais uma noite em São João D’Aliança sem perrengues. De madrugada ouvi uns ruídos, parecendo alguém mexendo em algo. Mas não fiquei assustado, pois São João é uma cidade muito tranquila. Não fiz muitas amizades ali mas também ninguém implicou com a minha presença. Abri o zíper da barraca e olhei para fora. Era apenas o dog que me fez companhia de tarde se ajeitando nas folhas para se aquecer do frio. Queria deixa-lo entrar em minha barraca, mas ele estava muito sujo. 
    Fiquei triste ao vê-lo sem casa. Ele não comeu nada de tarde, apenas bebeu água que dei para ele por volta das seis da tarde. Sinto que os cachorros têm sentimentos bem parecidos com os dos homens. Acho que irão para o céu também. Bem, era o que eu gostaria que acontecesse. Tive alguns cães que gostaria de vê-los depois dessa vida. Acredito que todos os animais têm sentimentos, mas os cães são bem parecidos com os homens. Às vezes penso em levar um cachorro pequeno e leve comigo nas viagens, mas acho um pouco sofrido para eles ficar boa parte do dia em uma pequena caixa em uma bike, enfrentando o calor a chuva. 
    Acordei animado, afinal finalmente chegou o dia de conhecer Alto Paraíso! E tudo começa bem na pequena padaria dos quitutes deliciosos e não muito caros. Essa é a melhor parte de dormir em pequenas cidades ao invés de postos de BR, que tem maior estrutura para cicloviajantes, porém as coisas são bem caras.  Peço alguns pães de queijo pequenos e um pedaço de bolo de chocolate. E um toddynho quente para completar e me animar e me esquentar um pouco. 
Muitas sociedades secretas, irmandades e fraternidades tem instalações na região

    Como disse, o dia vai ser puxado. Não tanto pela quilometragem e sim pela quantidade de serras que encontrarei pelo caminho. Mas isso não me desanima e no início sigo em um bom ritmo. Asfalto bom com acostamento estreito mas com pouco movimento. Natureza em volta e então o astral da viagem fica lá em cima. Só quem faz cicloviagem sabe esse gostinho de pedalar com liberdade, olhando as paisagens, sem pressa, sem stress do dia a dia, sem pensar nos problemas do cotidiano de um morador de uma grande cidade. 
    Pela primeira vez na viagem tenho que empurrar a bike, mas foi pouca coisa. Não sou de correr muito ou tenho muita força para adquirir velocidade, mas tenho uma boa resistência e consigo enfrentar bem as serras. Mas às vezes gosto de empurrar a bike ao invés de parar para descansar, para aliviar a tensão na poupança e para movimentar outros músculos que não movimentamos quando estamos pedalando. O selim é a parte mais crítica de uma bike .É o componente mais difícil de se acertar na compra dos componentes de uma magrela. 
    Por volta das onze horas chego no restaurante que me informaram que iria encontrar pelo caminho. Não estou com fome, mas é o único que irei encontrar. Então compro um marmitex, pedindo um desconto pois  viajar de bike é um pouco custoso. Tem a manutenção da bike e os restaurantes de BR são caros. 
                                              Além do horizonte deve ter....

Coloco o marmitex em uma sacola e amarro no guidão. E pedalo por mais uma hora até encontrar generosas árvores na entrada de uma propriedade particular. Os sítios ficam longe da estrada e me sinto à vontade para descansar debaixo daquelas árvores.     O plano está indo bem, 40km até o meio dia. À tarde o sol promete rachar, o céu está com poucas nuvens, mas estou me sentindo bem fisicamente. O entusiasmo de chegar em uma cidade que havia prometido conhecer há uns 30 anos atrás me traz uma energia extra. 
    Depois de uns 40 minutos de descanso, volto a pedalar. A alta temperatura é amenizada pelo vento forte que circula pela BR. Isso ajuda a refrescar, mas atrapalha na pedalada. Não sei qual motivo, razão ou circunstância, mas todo vento é contrário. Não é brincadeira. Até hoje nas minhas pedalanças nunca senti um vento forte por trás que ajudasse a pedalar mais rápido. Sempre contra, e, quando o vento está bonzinho, ele nos pega de lado, o que atrapalha bastante também. Mas nunca o vento fica a nosso favor. Será que ele tem algo contra nós, pobres cicloviajantes mortais? Em um certo momento acredito que a ventania deva ter chegado à uns 70km por hora, pois quase não consegui pedalar. O vento deve ter durado uns 3 minutos e se continuasse teria que parar. 
Paisagens bonitas ajudam a manter o bom astral na viagem

    Dizem que na Patagônia os ventos chegam a 100km e o cicloviajante tem que ter um aplicativo que mostra as condições do vento no dia seguinte para saber se poderá seguir viagem ou não. 
    As serras mais brabas começam a aparecer. E o cansaço também, por conta do calor. Poucas casas pelo caminho e tenho que racionar a água. Realmente é um trajeto um pouco difícil para um viajante de bike. 
    A natureza em volta é linda, tem algumas placas indicando lugares turísticos, penso em entrar mas, como não levo comida, tenho que ir direto para Alto Paraíso para conseguir um lugarzinho para montar a barraca e comprar um lanche. Na próxima viagem levarei comida, assim poderei acampar no meio da natureza e fazer um ranguinho. Claro que terei que aprender a cozinhar, só sei fazer miojo e ovo cozido. 
    Estava exausto por conta das serras, mas desta vez não empurrei a bike. Em um trecho a água havia acabado, e o calor, intenso. E não passava carro, afinal era uma segunda feira. Com muito esforço e um pouco de sorte encontrei uma casa no caminho e consegui encher as garrafinhas. 
Quase chegando...

    Por volta das quatro horas da tarde cheguei finalmente ao Paraíso! É bem maior do que imaginava. Pensava que, por ser mística também, fosse pequena igual São Thomé das Letras, que tem uns sete mil habitantes. 
    Havia visto no youtube que em Alto Paraíso havia um cara que dava suporte para cicloviajantes. Só que não havia decorado o nome dele. E como pensava que era uma cidade pequena, iria facilmente encontra-lo. Mas perguntei para várias pessoas e ninguém soube informar. Acho que só no interior de Minas Gerais é que todo mundo conhece todo mundo. 
    Fiquei um pouco agitado, imaginando que todos estavam olhando o ciclista maluco com sua bicicleta improvisada. Passei na avenida principal da cidade e realmente alguns me olhavam bem nos olhos. Será que sou uma pessoa peculiar?   
    Desci a avenida até uma pracinha para descansar as canelas. O lugar é bem bacana, uma mulher fazia uma ginástica estranha, ela se contorcia toda, parecia feita de elástico. Uns caras fumavam um baseado em um bambuzal. E muitas crianças brincavam na grama. Tinha um americano que parece morar em uma casa próxima e estava brincando com seus filhos. A única coisa que entendi era que ele havia dito “Come on” para seus filhos. 
    As mães das crianças não pediam para elas se afastarem de mim, talvez estejam acostumadas com seres peculiares naquele lugar. Quem vai para Alto Paraíso quer paz,  harmonia e curtir a natureza. E era isso o que eu procurava. Sempre quando ia em São Thome das Letras voltava renovado. 
                                                       Força nas canelas!

     Já estava escurecendo e voltei para a BR para achar um posto de gasolina para montar a barraca. O primeiro que achei não deixou, o frentista disse que haviam câmeras e o dono não gostava de pessoas montando barracas lá. O segundo também não deixou montar no posto, mas permitiu que eu montasse na grama na entrada.
Estava ventando muito. Quase não consegui montar a minha humilde residência. Fiquei receoso de montar e passar frio de madrugada, pois a barraca é simples, não é daquelas que tem proteção boa contra chuva e ela fica úmida no sereno. 
Infelizmente a noite chegou e não tive escolha. Era montar a barraca ali ou então ficar acordado a noite inteira. 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

17º dia pedalanças Belo Horizonte à Belém- Domingo é dia de fazer nada

 04/08/2024
Domingão da preguiça em São João-GO
Sombra e água fresca.... 

    Como acontece em todas as cidades não muito grandes, a noite foi boa e sossegada, sem ninguém para me apoquentar. Fez um friozinho gostoso e dormi bem.
     Como todos os domingos, em casa ou viajando, acordo com aquela vontade de fazer nada. Ou seria vontade de não fazer nada? Mas, se o nada é nada, como irei fazer o nada?
     Bem, deixando essas questões filosóficas de lado, fui tomar o café em uma pequena padaria que fica atrás do posto de gasolina. É pequena, mas tudo é muito gostoso. Os bolos, o pão de queijo, o pastel,etc...
    Como é domingo, resolvo permanecer em São João D’Aliança por dois motivos. O primeiro, como já expliquei, domingo é o meu dia da preguiça. E o segundo motivo, o mais importante, é que Alto Paraíso, como toda cidade turística, tem o seu maior movimento nos finais de semana. E, como sou avesso à muvucas, pretendo chegar lá na segunda feira. Durante a minha fase new age, fui em São Thomé das Letras diversas vezes, para tentar encontrar algum gnomo, um ser da natureza ou até mesmo um extraterrestre, criaturas que existem relatos de serem vistas por aquelas bandas com frequência. 
    E sempre ia fora da temporada, ou seja, não ia nas férias. E ficava uns cinco dias, chegando na segunda de manhã e saindo na sexta, também de manhã. E ficava andando que nem um louco para respirar aquele ar puro. 
Descansando as canelas
    Então, foi o segundo domingo da viagem que parei para descansar as canelas. Um dia tranquilo, numa pacata cidade do interior de Goiás. Pouco conversei, apenas um caminhoneiro se aproximou e disse que seu filho também é ciclista, que sai viajando pelo país afora. Ficamos conversando um bom tempo, ele disse que não queria que o filho viajasse de bike, por causa dos perigos na estrada, mas que não poderia contrariá-lo pois ele já é adulto. E também disse que se ele se sente bem fazendo isso, não iria impedir. Fiquei comovido com a atitude dele. Não deve ser fácil para um pai deixar o filho sair por ai pelas estradas do Brasil E não só as estradas que são perigosas, as pessoas são perigosas. 
    E passo o dia debaixo de uma árvore, além do caminhoneiro, apareceu um dog para me fazer companhia e se abrigar do sol Muita tranquilidade, apenas na lanchonete e no posto alguns carros paravam, vindo de Alto Paraíso, as pessoas retornando para suas cidades depois de visitar a cidade mística. 
Os dogs sempre me fazendo companhia durante as paradas
    Aproveito para descansar bastante, lavando algumas roupas e ficando quieto. Me disseram que a viagem até Alto Paraíso é 80% de serras difíceis. E são 70km. Então planejo sair bem cedo, pedalar 35km de manhã, e mais 35km de tarde. Já sei que  irei encontrar um restaurante mais ou menos na metade do caminho.
    Não tenho GPS e costumo dizer que o meu GPS são Gente e Pessoas Solícitas que encontro pelo caminho. E são melhores do que o equipamento, pois além de uma boa conversa, nos dá dicas sobre o caminho que o GPS não nos dá. Coisa de cicloviajante raiz. 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

16º dia pedalanças Belo Horizonte-MG à Belém-PA Quase chegando no paraíso!

 03/08/2024
São Gabriel -GO à São João D'Aliança -GO

Quase chegando no Paraíso!


     Noite tranquila no posto de gasolina em São Gabriel, com exceção de um som altíssimo que vinha de uma boate nas proximidades. Acredito que a zoeira parou por volta das três e meia da madruga. E começou por volta das dez. Levei um baita susto. O som foi o mais alto  que cheguei a ouvir dentro da barraca em todas as minhas viagens. O pano da minha casinha ficava balançando com a vibração dos graves, que era superpotente, mesmo a boate não estando muito próxima ao posto de gasolina. Mas era sábado, dia de cair na night, nem todo mundo é igual à mim que gosta de ficar entocado na sua tocaia. 
    Mas, apesar das poucas horas de sono, acordo bem disposto. O que vale é a qualidade do sono e nem sempre a quantidade. E a sensação de estar quase realizando um sonho. Aliás, mais um sonho. Quando vi as fotos de Alto Paraíso pela primeira vez por volta do ano de 1995 fiquei apaixonado e disse a mim mesmo que um dia iria conhecer a Chapada dos Veadeiros. 
     Tomo um bom café em uma conveniência na beira da estrada. Estava vazio mas,  de repente ficou lotado de turistas que chegaram em vans. Provavelmente estão indo para Alto Paraíso também. Fiquei um pouco agitado, afinal não tinha para onde ir. Já estava ali mesmo e não estava muito a fim de sair procurando padaria não muito cheia. O contato social é um stress para mim, não por conta das pessoas, é algo que está em mim, e até hoje não achei remédio para isso. 
    O sol logo apareceu pela manhã. O céu estava lindo, com algumas nuvens. Voltei a pedalar bem, de manhã consegui dar uma boa aliviada no meu estômago, que, aos poucos, vai voltando ao ritmo normal de viagem. Quando estou em casa compareço no trono todo dia, mas, quando estou viajando nem sempre. No centro de recuperação em Planaltina comi muito pão de queijo e isso prende um pouco o estômago, por causa do polvilho. 
Br com acostamento estreito, mas quase não passava veículos 

     Acho que a expressão "enfezado" tem a ver com prisão de ventre, realmente ficamos um pouco indispostos e mau humorados quando estamos com o intestino preso. A outra teoria da origem palavra enfezado vem de que os escravos no Brasil colônia tinham que carregar as fezes das casas em baldes na cabeça. E às vezes o balde caía e eles então ficavam enfezados. Não sei qual teoria é a correta. 
    Não há posto de gasolina entre as duas cidades. Poucas casas. Mas pedalando bem consigo achar um restaurante simples no meio do caminho. Mas é nos restaurantes simples que a comida é boa, o tempero é melhor preparado. 
      E vou pedalando com aquela paz interior e feliz. Só quem faz essas viagens sabe do que estou falando. Uma sensação inexplicável de liberdade misturada com outras coisas que não sei expressar. E a liberdade não só de ir e vir, é a liberdade principal, de sermos o que somos. E ponto. No meio da estrada avisto uma placa que indicava o caminho para uma sede dos Templários. Tive uma fase new age quando tinha uns 25 anos e era muito curioso. E as sociedades secretas e místicas me despertavam muito interesse. Quase entrei, mas pensei bem e talvez o ciclista não muito bem vestido não fosse bem vindo naquele local. Mas se fosse há uns 30 anos atrás eu iria bater na porta daquele lugar sem cerimônias. Hoje procuro Deus de uma maneira simples, sem muitos rituais, sem complicações. Deus é simplicidade, nós é que complicamos as coisas. 
Bora conhecer os Templários?

       Estou me sentindo bem novamente. Livre daquele trânsito infernal de Brasília e arredores. 
    A estrada é boa, bem pavimentada. O acostamento não é muito largo, mas também raramente passa algum caminhão ou carreta. Então a pedalança do dia é tranquila e o ritmo bom. Chego em São João D'Aliança por volta das três horas da tarde. 
O portal da chapada dos Veadeiros


      Paro no posto de gasolina, e, como sempre, o contato inicial para mim é um pouco estressante. Tenho que me apresentar, falar para onde vou, para tirar um pouco da desconfiança dos moradores da cidade. Se bem que do jeito que a minha bike está montado e as minhas roupas a maioria das pessoas deduzem que sou um viajante. Alguns param para conversar, uma minoria acha ruim, chegando a afirmar que não trabalhamos, que somos vagabundos, sem ao menos conhecer a nossa história. E outros parecem indiferentes, acho que já acostumados com andarilhos e pedarilhos. 
Só preciso de um cantinho, para a Margarida e para minha barraquinha. E paz. 


     Depois de conversar rapidamente com o frentista, lavo minhas roupas e tomo aquele banho relaxante que é quase garantia de uma boa noite de sono. Acho um local tranquilo cercado de árvores para passar o resto do dia, na maior paz. O entardecer é tranquilo, apesar de ser um sábado. Não há muita movimentação na cidade, apenas carros passando na avenida central, boa parte indo em direção à Alto Paraíso. Os frentistas  permitem que eu monte minha barraca atrás do posto. Enfim, um dia tranquilo e bom de se viver. Estrada boa, clima bom, pessoas amigáveis, natureza, um bom banho e o principal, paz. 
Hoje foram 63km de muita paz e tranquilidade. 


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

15º Pedalanças Belo Horizonte à Belém Volta à ativa

 02/08/2024
Planaltina -DF à São Gabriel de Goiás-GO
Saudades de pedalar

                           Dia nublado, mas quem está na cicloviagem é para enfrentar chuva e sol

     Finalmente chegou o dia estipulado para voltar as pedalanças! Era o que tinha previsto para o tornozelo sarar por completo, já estava caminhando sem aquele temor de doer alguma coisa.  Se continuasse a pedalar naquelas condições,  a situação poderia piorar. 
     Me despedi do pessoal do centro de recuperação, e quase chorei, principalmente por conta dos cadeirantes. Alguns que implicaram comigo nem olhei na cara. As despedidas são complicadas para mim, principalmente nas viagens. E saí para pedalar rumo à São Gabriel de Goiás. Algumas cidades têm o nome do estado no final, pois nessa região muitos municípios têm nomes iguais em estados diferentes. Planaltina onde estou também tem em Goiás e é vizinha à Planaltina do DF! Imagino que muita gente deve fazer confusão ao ler as placas e acabar parando na cidade não planejada. 
    Não sei a distância, a vontade de me sentir livre novamente é tanta que simplesmente saí, só perguntando a direção. O dia amanheceu bem nublado, com cara de chuva. Mas o pessoal do centro de recuperação me informou que as precipitações pluviométricas ocorrem mais no início de setembro na região. Como o meu destino é Belém do Pará, o correto seria seguir a movimentadíssima BR Belém Brasília, mas, como pretendo conhecer a chapada dos Veadeiros, sigo em direção à São Gabriel, na BR 010. Terei que dar uma boa volta no estado de Tocantins, mas, como sempre digo, pressa não existe no vocabulário do cicloviajante raiz. O barato da viagem não é o destino, e sim o próprio caminho. O percurso, as cidades e pessoas que conhecemos, as alegrias, as tristezas, os perrengues, enfim, a jornada. E conhecer Tocantins que é um estado relativamente novo me fascina. 
      Logo no início avisto uma "Ghost Bike", em homenagem à um jovem ciclista que morreu no local, vítima de um irresponsável motorista embriagado. Sempre quando me deparo com alguma cruz na beira da estrada paro para refletir sobre os cuidados que tenho que tomar para não virar uma na estrada. Uso capacete, retrovisor e muito cuidado nas BRs. Mas todo cuidado pode ser pouco se nos depararmos com motoristas irresponsáveis que usam bebida alcóolica enquanto dirigem. Além da proteção física dos equipamentos, também peço proteção no campo espiritual também, todas as manhãs antes do começar o pedal. E, no final do dia, geralmente no pôr do sol, agradeço pelo dia sem acidentes e incidentes. O pôr do sol me fascina e me encanta, não consigo descrever a sensação, apenas contemplo até o astro rei desaparecer no horizonte. É um momento que me traz muita paz. 
Uma "Ghost Bike" na saída de Planaltina 


     Muita serra no início do caminho. A bike parece que está mais pesada do que de costume. Estou usando o pneu traseiro com cravos, para diminuir os furos. Mas penso em voltar a usar pneus lisos, pois de que adianta não furar pneus e ter o ritmo bem reduzido?
      O trânsito intenso de Luziânia até Brasília não existe mais por aqui. E isso me alivia bastante, não só na questão do tráfego mesmo. Fico mais aliviado na questão mental, aquele barulho incessante de carro me deixa um pouco tonto e sem energia. E pedalar ouvindo música pode ser perigoso. Gosto de viajar olhando para o horizonte, para a vegetação, ouvindo o som dos pássaros ou simplesmente ouvindo o som do silêncio nas brs solitárias. 
      A moleza não passou, continuei a pedalar em ritmo lento, ou seria a estrada que teria muitas subidas? Sinceramente acho que foram os dois fatores que me fizeram pedalar nesse ritmo lento. 
Saudade das Brs não muito movimentadas


    Cheguei em São Gabriel por volta das duas da tarde. Isso mesmo. Saí oito horas da manhã  de Planaltina e foram apenas 56 km. Me senti cansado, sem energia, mesmo após um delicioso almoço no restaurante da cidade. Estava com prisão de ventre, acho que por conta dos biscoitos e pães de queijo na clínica em Planaltina. Ficava três dias sem ir ao banheiro, e, quando ia, era aquela dificuldade. Estava cagando igual cabrito. 
    Resolvo ficar em São Gabriel, apesar de ter boa parte da tarde para pedalar. Já havia até arrumado um lugar para montar a barraca. Na praça principal haviam várias lanchonetes sem funcionar. E eram cobertas. Muito bom para dormir. 
Quase chegando no Paraíso...


     E fico ali a tarde para descansar, na maior tranquilidade.  Mas aparece um ciclista, que diz ser viajante. Curiosamente e estranhamente ele não carrega nenhuma bagagem. Começa a perguntar o que eu levo na mochila, no bauleto, etc...
     Aquele interrogatório me acendeu o alerta e tudo piorou quando ele tirou uma faca para descascar mangas que pegamos nos pés da praça. 
       Não ando com faca, para evitar confusão. Nas pedalanças de 2019 não cheguei a ser abordado pela polícia. Só fui abordado uma vez em 2013 nas minhas andanças por Minas Gerais. Apesar disso, prefiro não usar facas. Diante da desconfiança do homem, saio de fininho e sigo a BR até encontrar um posto de gasolina no final da cidade. Não tem como, é no posto de gasolina que me sinto à vontade e protegido. 
      Na saída do posto tem uma graminha deliciosa de ficar pisando. Gosto de pisar na terra, na areia e na grama, é comprovado cientificamente que isso descarrega nossas energias acumuladas. E fico ali, ora em pé, ora deitado, apenas deixando o tempo passar, sem stress, sem preocupações, sem querer saber se o meu time ganhou ou perdeu, apenas ali, parado. 
      O dia não rendeu muito, espero amanhã estar em melhores condições para pedalar mais kms. 
Hoje foram apenas 56km, estava um pouco desanimado. 


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Pedalanças Belo Horizonte Belém-Fiquei uma semana em um centro de recuperação

 26/07 à 02/08
Planaltina
Descansando e cuidando do tornozelo
O pôr do sol no centro de recuperação é espetacular. 


     Acordamos no centro de recuperação às seis horas da manhã. Após a higiene, oração e leitura  da bíblia. Depois o café da manhã. E logo depois, arrumar alguma coisa para fazer: limpeza, consertar algo estragado, ajudar na cozinha, etc...
      Depois o almoço, uma pausa para um cochilo e a tarde era meio que livre. De noite jantar e depois cama novamente.
      Os dias ali naquele centro eram exatamente iguais. O pastor disse que eu poderia ficar ali para sempre. Apesar de poder economizar algum dinheiro, não aceitei, pois a liberdade para mim não tem preço.
       Notei que alguns internos não foram muito com a minha cara. Afinal, eu tinha a liberdade, não era viciado em drogas. Estava ali só de passagem. Podia sair de tarde, ou não. Não havia pedido permissão, mas em algumas tardes saí de bike para o centro da cidade alimentar o meu vício: chocolate! Ia na padaria comprar uma barra de talento(gosto do verde e do roxo) para tirar a minha ansiedade e liberar serotonina. E também para pedalar, pois a rotina é um pouco cansativa ali no centro de recuperação.
Andar de bike se tornou o vício mais saudável que adquiri na minha vida. É ansiolítico, antidepressivo, tira o stress, e, além de tudo, é um excelente hobby. É uma terapia e tanto. Muitas pessoas pensam que terapia é só ir ao psicólogo, que é coisa de gente maluca. Nada contra os psicólogos (as), me ajudaram bastante no início, mas, para mim, a melhor terapia é ocupar a mente com coisas positivas. 
    A minha relação com as drogas foi bem curta. Experimentei a maconha três vezes: uma quando tinha uns 15 anos, outra por volta dos 17 e outra quando tinha uns 25 anos.
Acredito que nessas três vezes não inalei direito a fumaça, pois sempre tossia e ardia a garganta. E nãos senti nada diferente, acho que fiquei rindo à toa por que os meus colegas estavam rindo à toa também. O riso é meio contagiante e então, achando que estava chapado e vendo os caras rirem, também fiquei rindo à toa. Acho que foi mais ou menos isso o que aconteceu nas minhas experiências com a erva danada. 
O jeito era arrumar alguma coisa para passar o tempo. 

    No centro de recuperação tinha uma bike antiga e simples. Consertei o freio dela e o pneu que havia furado. Pensei em arrumá-la toda, comprando peças novas, mas, como vi que não tinham o menor cuidado com ela, desisti. Ela era guardada no banheiro, e estava enferrujada por causa da água. Sugeri guardar em outro lugar, mas não deram muita atenção ao meu pedido. E então desisti de investir na magrela, que tinha o seu valor, pois era nela que os caras buscavam doações. 
    Sabia que teria que ficar alguns dias para recuperar meu tornozelo. Fui uma criança bem bagunceira e brincalhona, e me machucava com frequência. Acho que fui criança até os meus 16 anos.  E já sabia que tornozelo demorava um pouco para ficar completamente bom. Como a pressa não fazia parte da minha cicloviagem, decidi ficar ali até sentir confiança em pisar no chão com firmeza. 
Centro histórico de Planaltina-DF

 
      Fiz amizades com os idosos e os cadeirantes. Vi que ficavam meio jogados de lado, quase ninguém conversava com eles. E todos os dias respondia as mesmas perguntas de um idoso que tinha alzheimer. A família dele o deixou lá. Ele não dava trabalho, era super quieto e até ajudava nos afazeres, às vezes carregando coisas pesadas. 
    E então fui julgado de fazer panelinha por alguns ali, que senti que eram um pouco revoltados. Talvez pela abstinência ou um outro problema qualquer. Alguns eram  homens de confiança do gerente do centro de recuperação e estavam ali já algum tempo. 
     Mas aquilo não me afetava. A maturidade me fez deixar de lado esse tipo de implicância contra quem está quieto em seu canto. Eles quase não sorriam, não brincavam, ficavam sérios e quando brincavam era para zoar alguém. 
                                      Fiz amizades com os cadeirantes e os mais idosos

       O local era bem tranquilo, isolado do centro da cidade. Batia uma brisa gostosa ali, de manhã fazia um friozinho gostoso. 
      A alimentação era simples. Mas não sou exigente, já comi lixo durante os meus surtos em que fui parar nas ruas. O que não gostei foi o fato de todos os dias servirem pão de queijo e biscoitos de queijo bem endurecidos. Normalmente essas delícias já prendem o intestino, ainda mais quando estão ressecados. Mas era a doação da padaria. Não reclamei, sei as dificuldades que devem estar passando, o governo federal deixou de repassar a verba mensal para todas as clínicas de recuperação de álcool e drogas do Brasil. E eles sobreviviam de doações do comércio local e de pessoas com bom coração.
     Foi uma semana que passou bem rápido. O tornozelo já estava bom, não estava mais inchado e nem doendo. E estava novo em folha, pois o trânsito barulhento nos últimos três dias haviam me desgastado bastante. Aliás, esses três dias de trânsito intenso me cansaram mais do que a viagem toda até o momento. 
     Acredito que tenho alguns elementos do autismo. Gosto da cor azul, sou pouco sociável e os sons têm uma importância maior em minha vida. Trabalhei 17 anos como operador de som. Alguns dias saía um pouco estressado, mas não sabia o motivo. E aos poucos isso se tornou insustentável, e hoje procuro evitar lugares barulhentos. Fiz uma postagem aqui no blog contando como os sons podem mudar o nosso estado de espírito em questão de segundos. Alguns sons são muito agradáveis, algumas vozes femininas, suaves, o som da flauta, do piano, gosto de música clássica e curiosamente gosto de metal e suas vertentes : death metal, trash metal, etc... Gosto do som das guitarras distorcidas. Acho que isso ajuda a aliviar o stress. 
    Me despedi das pessoas com que fiz amizade e até de alguns que meio que implicaram comigo. Deixei para lá, não tenho culpa de estarem naquela situação. Imagino que devem estar em dificuldades, que devem ter família e filhos para sustentar.  Um estava ali há três anos, e só tinha 30 anos de idade. Não ganhava salário ou se ganhava, era algo simbólico. Não me imaginaria ali naquele lugar para sempre, até o fim de minha vida. Como disse, a liberdade não tem preço.