terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Pedalanças 9º dia-Belo Horizonte à Belém- Chegando em Paracatu-MG

 22/07/2024
João Pinheiro-MG à Paracatu-MG
105km quase chegando em Goiás!

Cristo Redentor na cidade de Paracatu-MG


     Como narrei na postagem anterior, estava em  um posto de gasolina muito acolhedor e bucólico na parte traseira. Montei minha barraca com um belo visual para curtir, com pássaros à minha volta debaixo de uma frondosa mangueira. Os funcionários do posto de gasolina muito legais, e os que não interagiram comigo também não demonstraram contrários à minha presença no local.
    Com toda essa atmosfera, a noite foi super tranquila e dormi super bem. Difícil foi desmontar a barraca pois um caramelo (sempre eles!) insistia em querer brincar comigo e, como não tenho coragem nem de dar um tapinha em dogs, demorei bastante para desmontar o acampamento. A verdade é que para mim os cachorros, além de uma ótima companhia, também são meio antidepressivos e ansiolíticos também. Só me fazem bem a presença desses anjos de duas patas. Acho que futuramente irei fazer um vídeo só com a presença dos cachorros nessa viagem. 
                                      Difícil foi desmontar a barraca com o Caramelo por perto

     Hoje o dia promete. Serão 105km até a cidade de Paracatu, quase na divisa com Goiás! E já estou com receio de atravessar a fronteira. Coisa de paranoico mesmo. Quem acompanha o blog sabe que sempre fui cismado para atravessar fronteiras. Em 2012, quando fiz o caminho velho da estrada real, fiquei muito ansioso quando tive que passar pelo norte do estado de São Paulo. Imaginava que um simples limite de fronteira iria mudar tudo: o comportamento das pessoas, algumas regras sociais, etc... E, para a minha surpresa, foi um dos dias mais legais quando pisei em terras paulistas. Essas marcas azuis que ficam no texto são links. Esse caminho velho também postei aqui no blog, é só clicar no link para acessar o diário com a narração e as fotos da viagem. Essa fiz a pé, foram 710km em 23 dias, entre as cidades de Ouro Preto, em Minas Gerais, até Paraty, no litoral do Rio de Janeiro.
Estrada boa, sem muitas subidas íngremes me fez imprimir um bom ritmo


    Depois do café um trecheiro que estava no posto começa a conversar comigo. Fala sobre o apocalipse, fim do mundo, etc... Tem um certo nível de consciência da realidade, mas às vezes exagera sobre a questão do fim do mundo. Talvez não seja esquizofrênico, apenas tenha delírios religiosos. Ele também tem uma bike, mas está dando um tempo ali para receber o auxílio do governo e consertar sua bike. Ele me disse que sofreu um acidente ao colidir com uma motocicleta. 
    A estrada muito boa, só com uma leve trepidação no acostamento, dificultando um pouco pegar um bom ritmo e sacolejando o corpo inteiro. No caminho encontro um outro cicloviajante parado no outro lado da BR. Perguntei sem parar de pedalar de onde vinha e, ele, meio sem vontade de conversar, respondeu:
     - De longe!. 
     Gosto de conversar com outros ciclistas, mas talvez por um motivo ou outro esse não queira conversar. Não insisto e sigo o meu caminho, determinado e em um bom ritmo. Pouco paro para descansar, as condições estão muito favoráveis e às vezes uma parada quebra o ritmo ao esfriar o corpo.
Como não encontrei  subidas muito íngremes  cheguei em Paracatu por volta das duas horas da tarde. Em boas condições, pois o descanso de ontem foi reparador. 


     Resolvo dar uma volta no centro da cidade, para, além de conhecê-la, tentar encontrar o pneu que sempre gosto de usar, já que é  uma cidade média para grande, com quase 100 mil habitantes.
     O centro é bonito, com lojas e edifícios bem pintados e as ruas bem limpas. O asfalto novo faz com que qualquer carro que faça uma curva solte um ruído de derrapagem. 
      Pedalo sem pressa, no meio de pessoas apressadas em seus carros, alguns passando bem rente à mim. Entrei em uma loja de bike, duas, três... Mas não achei o pneu que queria.  O dianteiro da minha bike já está bastante desgastado, não somente pela esta viagem, eu o uso há quase um ano. 
                                                         Passeio pelo centro de Paracatu

     E voltei para a BR, sem saber o que fazer. Não estava cansado, queria fazer alguma coisa, mas como a próxima cidade fica bem distante, resolvo ficar em Paracatu mesmo. Esperando o tempo passar, meio sem jeito, no meio das pessoas que tinham um objetivo, algum lugar para ir. Eu, apenas estava ali, parado, esperando o tempo passar, entre dois pontos distantes a serem percorridos. 
105km e cheguei mais ou menos inteiro em Paracatu city



domingo, 1 de fevereiro de 2026

Pedalanças-Belo Horizonte à Belém 8º dia- Domingão

 21/07/2024
Domingão da preguiça
A BR040 tem um visual bonito nesse trecho
      
    Tive uma excelente noite de sono na oficina do sorridente cara que me apareceu ontem. Muitos vendedores com suas caminhonetes também dormiram no local A maioria em redes, outros em seus veículos. 
       Para mim, o dia da preguiça é domingo. Um sentimento estranho, às vezes melancólico, às vezes meio nostálgico. Só sei que não tenho vontade de fazer muita coisa. 
    Acordei por volta das sete horas da manhã, sem pressa para desmontar acampamento e tomar café. Agradeci o homem sorridente pela estadia e peguei estrada bem mais tarde do que de costume. 
     O caminho é muito bonito, e me faz pedalar vagarosamente, me concentrando mais na paisagem do que na estrada. O acostamento é bem largo, apesar de continuar fazendo a bike trepidar muito. Acho que deve ser por causa do material utilizado. Apesar da trepidação, me sinto bem, o clima agradável me deixa mais zen.
      Só tive um pouco de emoção em uma deliciosa descida da BR. Sei que não é aconselhável, mas gosto de descer em uma boa velocidade, acho que para compensar o esforço das subidas.
E, também, claro, por causa da adrenalina e o ventinho no rosto. 
     Avançando...
                                     Descidinha gostosa.

     Nesse ritmo, pedalo cerca de 20km e por volta das onze horas chego em um excelente e aprazível posto de gasolina. Acredito que ainda esteja nos limites da cidade de João Pinheiro. 
O local não está muito movimentado. Apenas algumas famílias aproveitando o domingo para almoçar fora. E alguns carros parando para abastecer. Os frentistas foram muito legais e me deixaram lavar as roupas em uma mangueira. Depois do almoço resolvi descansar.
    Mas, como disse, o clima de domingo tomou conta de mim e resolvi ficar o resto do dia naquele posto bacana. Atrás do restaurante tinha uma área bem legal, com uma generosa sombra fornecida por uma imponente mangueira. E a paisagem era muito bonita. Muitos pássaros cantavam na mangueira. E uma brisa refrescante para completar. O que eu queria mais?
     Um lugar perfeito para passar uma tranquila tarde de domingo. Além de tudo havia alguns cachorros brincalhões. E tinha uma cadeira para descansar. Parecia que Deus havia preparado aquilo para que eu pudesse descansar um dia. E o meu anjo da guarda também. Acredito em anjo da guarda, cada um tem o seu. O meu trabalhou muuito até os dias de hoje, agora que passei dos 50 estou dando uma folguinha para ele. 
     E então, depois do almoço voltei para a sombra da mangueira e passo o resto do dia. Montei a barraca e fiquei ali, sentado, apreciando a paisagem, ouvindo o canto dos pássaros e me refrescando com aquela brisa deliciosa. Virei a cadeira para o lado do campo e a visão que tive me fez ter a sensação de que estava morando em uma casa no meio do mato. 
    Para completar, à noite, a lua deu o ar de sua graça em sua plenitude. Noite de lua cheia. Enfim, um dia perfeito e tranquilo, sem muitas novidades. Gosto de aventuras, mas um dia tranquilo também é muito bem vindo. 
Lugar bacana que encontrei para montar a barraca. 

                                                          Lua maravilhosa

No domingo é sempre assim,
A nostalgia arrasta-me de volta
A lugares que nunca mais pisarei.
A um passado muitas vezes triste,
Outras de muita felicidade.
A um passado que muitas vezes nem quero lembrar,
Outras fazem percebe-me que era feliz e não sabia.
Mas como seria a vida se fosse só risos?
O fato é que devemos tocar em frente
E esquecer esse passado que as vezes nos impede de olharmos para o futuro. Mas sem negar nossas raízes e sem perder a nossa essência.
Nunca devemos nos esquecer de onde viemos,
Devemos firmar os nossos pés no chão do hoje e acreditar num amanhã cheio de possibilidades.
Devemos acreditar sempre, apesar das incertezas e seguir em frente.
Sempre existirá obstáculos e dificuldades, mas que nunca percamos a nossa fé.
Eduardo Lima




     

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Pedalanças-Belo Horizonte à Belém-7º dia-Desafio dos 100km sem almoço!

 20/07/2024
Luizlândia-João Pinheiro-MG
Solitude na BR


    Na noite anterior ajustei o despertador para tocar mais cedo, às 4:30 da madruga. Afinal hoje tem um grande desafio para o esquizo:100km entre as cidades de Luizlândia e João Pinheiro! E, para completar, o caminho é praticamente deserto, não irei encontrar nenhum estabelecimento no horário de almoço. Terei que levar lanche para enganar o estômago. 
    Na padaria no centro de Luizlândia tomo um bom café e compro um salgado e pão de queijo para a viagem. Estava me sentindo muito bem e animado para o dia, não temendo a quilometragem. Às vezes gosto de me impor certos desafios. 
     A BR040 neste trecho é boa, a temperatura não está tão alta e as tradicionais serras mineiras não aparecem por aqui. Maior parte do caminho é reta. Para melhorar ainda mais, uma brisa suave me acompanha pelo trajeto.
     Logo no início avisto uma lanchonete e paro para encher as garrafinhas e tomar um café com leite. Sei que esse será o último ponto de apoio que avistarei antes de João Pinheiro. 
     Sentado em uma mesa encontro um ciclista com o mesmo capacete que estou usando e brinco:
     -Bonito capacete, hein? Só quem tem 50 anos ou mais irá entender a brincadeira, que é de um comercial de camisas em que o dono da empresa e o funcionário usam a mesma vestimenta e o dono diz: "Bonita camisa, hein Fernandinho?"
        O cara gentilmente me convidou para sentar em sua mesa e pagou uma deliciosa pamonha. Entre a doce e a salgada, preferi a doce, é óbvio. E ficamos um bom tempo conversando sobre um assunto que não poderia ser outro: bikes. E sobre a viagem, é claro.
O ciclista gente boa que conheci no caminho para João Pinheiro. 

                                        As propagandas mais antigas eram bem mais criativas 
    Com muita dificuldade, me despedi do amigo de pedal e segui em frente, determinado. Essa é a parte dolorida de fazer amizades durante a viagem: a despedida. Mas, não tem jeito, temos que seguir viagem.
    Tenho aprendido a planejar a viagem do mesmo jeito que levo a vida: um dia de cada vez. Não gosto de montar dois dias à frente- a estrada é imprevisível, e a vida sempre foi assim comigo. Nunca fui de controlar o futuro, sempre deixando tudo acontecer naturalmente. Mas agora estou me informando melhor sobre o trajeto com as pessoas que encontro pelo caminho, gosto de surpresas e do inesperado, mas até certo ponto. 
     Com as condições favoráveis, sigo em um bom ritmo. As retas ajudam bastante, mas tem a parte negativa, pois deixa a pedalada um pouco monótona e sonolenta. O jeito é cantar para espantar o sono. Muitos acidente acontecem em retas, pois os motoristas perdem o foco e acabam se distraindo. 
      Dou uma parada para descansar e curtir a solitude na BR. Nessas viagens uma das coisas que mais aprecio é conhecer pessoas de diferentes lugares, mas também gosto de curtir o silêncio e a paz das estradas. É o encontro com nossa essência, que muitas vezes esquecemos no dia a dia. 
Trecho bem isolado e deserto do caminho 


     As melhorias que fiz na Margarida estão surtindo efeito nessa viagem em relação a outra  que fiz em 2019. Estou pedalando mais rápido e cobrindo maiores distâncias em um dia. Paro por volta do meio dia para "almoçar" e me arrependo de ter comprado apenas um salgado e um pão de queijo. Não deu aquela sustância. A verdade é que um arroz, um feijãozinho e uma carninha fazem toda a diferença. 
     Perco um pouco do entusiasmo matinal e mesmo assim vou na raça e vontade.  Quero estar em João Pinheiro à tempo de pegar um rango de verdade.
   Cheguei em João Pinheiro por volta das duas e meia da tarde. Mas, como era uma cidade grande e bem movimentada, resolvo seguir adiante. Chega a lembrar um pouco Belo Horizonte, pois, debaixo do viaduto havia alguns usuários de droga. Apesar do cansaço, sigo em frente, à 10km me informaram que encontraria um posto de gasolina, que é onde me sinto mais tranquilo. Não gosto muito da muvuca das cidades grandes e médias. 
     Arranco energia lá do fundo da minha alma e chego ao posto de gasolina exausto. Foram 115km em uma bike aro 26 com mais de 30 kg na bagagem. O cansaço falou mais alto do que a fome e então abro o colchonete para dar uma boa descansada atrás do restaurante. O problema maior não foi a distância, e sim o fato de ter me alimentado mal na hora do almoço.
      Depois do descanso, vou para o restaurante e pego um rango, que estava muito bom por sinal.O tornozelo voltou a ficar inchado, resultado do esforço dos 115km e da serra do Jacaré. Mas não estava doendo tanto. Um cachorro enorme e amigável sem pedir licença pega o meu marmitex com o resto de comida que havia deixado. Claro que não fiquei bravo e brinquei com o dog. Aliás, praticamente todos os postos de gasolina que avistei tinha seus cachorros, principalmente caramelos. 
      Na parte da tarde fico proseando com alguns caminhoneiros, que me perguntam o motivo da viagem. Simplesmente digo que não tem significado espiritual e nem mental ou outra coisa qualquer. Digo que estou viajando de bike pelo simples fato de gostar de viajar. É isso. 
      Planejo montar minha barraca na frente do restaurante, assim que o estabelecimento fechar. Na maior calma, na maior tranquilidade. Nessas viagens fico mais zen, não ligando muito para horários, para as notícias do dia a dia, se o meu time ganhou ou perdeu. Simplesmente pedalo, simplesmente vivo um dia de cada vez. 
Entardecer em João Pinheiro


     Quando tudo caminhava para um final de dia tranquilo, mais um perrengue perrengoso: as funcionárias me avisam, meio sem jeito,  que o dono não permite que ninguém monte barraca ali.
     Fiquei um pouco desolado, pois não havia visto nenhum lugar coberto que fosse possível montar acampamento. O sereno da madrugada chega a deixar as laterais da barraca bem úmidas, e isso baixa bastante a temperatura na minha humilde residência. Mas, do nada aparece um cara sorridente me oferendo um cantinho de sua oficina de carros e caminhões. Salvo bem na hora!. 
Hoje foram 115km de raça, amor e paixão pela BR!


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Pedalanças-Belo Horizonte à Belém-6º dia- Quase fui atropelado!

 19/07/2024
       Três Marias-Luizlândia do Oeste-MG
       Por pouco não fui dessa para outra!

Quase um acidente na saída do lago de Três Marias. 

     Excelente noite de sono às margens do  lago de Três Marias. Acordo bem cedo e descansado da noite anterior em que a família do barulho não me deixou pegar no sono. Como não havia nada aberto pelas redondezas, o jeito foi caçar café e pãozinho com manteiga no centro da cidade. São cerca de 5km, mas a distância não é o problema e sim uma íngreme subida. Normal aqui em Minas Gerais, mas sem tomar um bom café para aumentar a dopamina, tudo fica um pouco mais difícil.
    Subo sonolento e distraído. E quase paguei caro por isso.
Ao tentar atravessar a BR avisto um caminhão descendo em boa velocidade. Em vez de seguir, hesitei.
E fiquei parado no meio da pista, esperando que ele passasse.  Mas o problema é que não havia combinado nada com o motorista e ele imaginou que eu iria seguir adiante. 
    Ao se aproximar e perceber que não me movia, o caminhoneiro começou a fazer manobras para se desviar de mim e, para piorar a situação, vinha um outro caminhão em  sentido contrário. O caminhão fez um ziguezague e vi as rodas do veículo perderem o contato com o asfalto. Mas continuei parado em meu lugar, de tanto sono que estava. Felizmente, o motorista conseguiu estabilizar o caminhão e não houve maiores incidentes...  O motorista do caminhão que subia a BR disse:
     -Essa foi por pouco hein?

As pontes requerem um cuidado extra na viagem 
    Fiquei calado e com um sentimento que não sei explicar qual, mas que me deixou bastante triste. Essa minha distração quase resultou em um terrível acidente. Poderia ter tirado involuntariamente uma vida de uma pessoa que poderia ter outras esperando em sua casa. Agradeço à Deus por ter me livrado mais uma vez de ter ido dessa para outra. Fiz uma postagem em meu blog contando as vezes em que passei por situações realmente perigosas que poderiam ter tirado a minha estadia neste mundo. 
    Sigo até o centro da cidade meio cabisbaixo. Entro em uma padaria e tomo o meu café, que não pode faltar o tradicional pãozinho com manteiga, como todo bom mineiro gosta. 
    O café, ajudou um pouco a espantar o desânimo inicial provocado pelo quase acidente na BR. Mas, aos poucos, pedalando pela estrada o entusiasmo volta com a mesma intensidade de antes da parada em Três Marias. O tornozelo deu uma melhorada, mas ainda estou sentindo um pouco de dor. 
    Passo pela ponte sobre o Rio São Francisco. Apesar do belo visual, sinto um pouco de tontura, pois não gosto muito de alturas, principalmente em pontes. 
Ponte sobre o Rio São Francisco na saída de Três Marias

     Acredito que por conta do descanso chego no meu destino por volta das duas da tarde. Não  havia muita serra íngreme, acho que a partir de agora a geografia da região irá mudar um pouco, com menos subidas e mais retas! Esse é o Brasil que quero!
    A parte da cidade que fica às margens da BR sofre com a poeira constante. A funcionária que cuida da limpeza da rodoviária trabalha bastante para manter o local limpo. 
     Estava descansando quando o gerente de um restaurante próximo parou para conversar comigo e me oferecer um um belo almoço! Ele não pegou um marmitex e me ofereceu,  simplesmente disse para entrar e pegar o que eu quisesse. Estou com muitos empréstimos para pagar e a vida na estrada é um pouco cara para quem não sabe fazer comida. E, então não recusei e aceitei a comida, que estava maravilhosa. 
      Ainda são três horas da tarde, e, como a próxima cidade fica quase à 100km de Luizlândia, resolvo ficar. Agora estou me informando melhor sobre o trajeto, e descobri que essa parte do caminho é bem deserta, com apenas um restaurante logo no início, ou seja, na hora do almoço não encontrarei nenhum lugar para rangar. Terei que levar comida no bauleto. Aprender a fazer comida vai ser o meu próximo objetivo para a próxima pedalança. 
                                             Nascer do sol no Rio São Francisco

     Passei a tarde, na pacata, simples e simpática cidade de Luizlândia. Aproveitei o tempo para consertar a gambiarra do bauleto, que estava dando folga no guidão. Consegui com os moradores da cidade duas barrinhas de ferro e arame e prendi o ferro do bauleto no garfo da bike. O mecânico de bike da cidade foi muito legal e atencioso, me emprestando as ferramentas necessárias para a execução da gambiarra. A direção parecia melhor e mais estável, o bauleto não balançava mais. O acostamento nos últimos dias não é de uma qualidade boa, e a bike trepida muito. 
     Gambiarra pronta, fui dei umas voltinhas pela cidade, até encontrar uma sombrinha para descansar. Sentei na calçada e relaxei, mas logo o dono de um barzinho me convidou para sentar. E, como bons mineiros, trocamos um dedo de prosa. Depois ele me levou até a sua casa para tentar me arrumar um retrovisor, pois disse que iria comprar um, para olhar melhor o trânsito na BR. O que ele me deu não era para bicicletas, mas agradeci a boa vontade dele. O senhor tinha um belo fusca na garagem. Pintura nova e sem nenhum arranhão e brilhando muito. 
    A tarde foi caindo, e fui para a rodoviária, que foi o local que escolhi para acampar. 
    E fico diboa, no meu cantinho, observando as pessoas e deixando o tempo passar, sem pressa, sem pressão, e sem stress. Essas viagens me fazem um bem danado em relação à ansiedade e isso me deixa mais comunicativo. 
    Por volta das dez da noite aparece o Ronald, que conversou comigo de tarde. O cara me deu uma excelente lanterna e ficamos conversando um bom tempo. Ele disse que também iria seguir o meu canal no youtube e o blog. Não sou muito de usar celular e postar muitos vídeos durante a viagem. No meu caso sinto que deixo de curtir a viagem um pouco ficando mais tempo registrando o dia a dia. 
    Nos despedimos e fui dormir, mas antes agradeci à Deus por mais um dia e por ter me livrado do acidente que poderia ter sido fatal na parte da manhã. 
    
Hoje foram apenas 52km de uma pedalada. Agradecer a Deus por mais um dia e por mais um livramento.



segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Pedalanças-Belo Horizonte à Belém do Pará-4º e 5º dia- Conhecendo a bela cidade de Três Marias

 Dias 17 e 18/07/2024
Descanso em Três Marias
O mar de Minas... 


        A noite foi de uma mansidão profunda. Mais tranquila do que em muitas vezes quando estava pagando aluguel. Dormi cedo e acordei por volta das três e meia. Meu celular estava descarregado e tive que perguntar as horas para o segurança do posto de gasolina. Não tinha a mínima ideia do horário, mas muitas vezes acordo neste horário. Dizem que acordar as mais ou menos nesse horário tem um significado espiritual.
     Não consegui voltar a dormir e fiquei ali, sentado na frente da barraca. Os funcionários do posto começam a chegar por volta das quatro e meia. O dia hoje será para comprar a manteiga de cacau e um manguito para proteger os braços, que foram um pouco castigados pelo sol. O que havia comprado pela internet ficaram um pouco curtos. 
    Fiquei no posto até às seis da manhã, quando o sol apareceu novamente no horizonte. Agora estou começando a conseguir a melhorar a organização da carga na bike e não perco muito tempo desmontando o acampamento. 
     Vou para o centro de Três Marias, uma pequena e simpática cidade por sinal. Não resisti e parei novamente para tomar mais um café. Quando estou em casa não tomo café de manhã, mas viajando... E também como um bolo e um doce, para variar. 
   Os funcionários da loja de bike foram super legais comigo. Além do tradicional cafezinho, não faltou o dedo de prosa. Aproveitei a manhã de folga e fiz algumas gambiarras para segurar o bauleto, que ainda estava  dando folga no parafuso do guidão. Estava muito perigoso pedalar nesta situação. Qualquer descuido em uma curva ou um movimento brusco posso  parar no meio da BR. 
    Comprei o manguito e uma garrafinha de água maior para suportar o calor, que não imaginei ser tão forte assim no inverno. Mas no cerrado mineiro é bem forte. Os funcionários da loja de bike sugeriram que eu descansasse na prainha, onde fica na verdade um imenso lago artificial das águas do Rio São Francisco.
    Como o meu tornozelo ainda está inchado, resolvo seguir a sugestão. Estava me sentindo orgulhoso de pedalar em um ritmo bom, mas a pedalança não é só correria, é também lazer e diversão, e, obviamente, descanso. 
Resultado de minha teimosia em subir a serra do Jacaré sem empurrar a bike...


      O meu GPS costumo dizer que são Gente e Pessoas Solicitas. E, perguntando daqui e dali chego à prainha. O visual é lindo mesmo, parecendo um mar de verdade. Fico alguns minutos apreciando o lago no alto, na entrada. 
    Havia espaço para camping, tudo muito bem organizado. Haviam poucas pessoas, boa parte andarilhos que montaram suas barracas e ficavam ali por alguns meses até o pessoal da prefeitura chegar e pedir que se retirassem. 
    E realmente o local tem tudo para a pessoa morar. A área para montar a barraca, tomadas, internet, banho, lagoa... 
     O almoço, claro, é peixe. Peixe com arroz, feijão e salada. Como é um ponto turístico, foi difícil encontrar um rango mais em conta. Aprender a cozinhar vai ser o meu próximo objetivo para tornar a viagem um pouco menos cara para o meu parco orçamento financeiro. Não gosto muito de lugares turísticos, por dois motivos: a muvuca e os preços. 
     O lago é realmente muito bonito, uma imensidão que lembra o mar, só faltando as ondas. Aproveito a boa infraestrutura do local e lavo minhas roupas. O restante do dia aproveito para descansar e tentar melhorar o inchaço do tornozelo. 
    Era um local tranquilo, perfeito para o descanso. Que delícia aquele visual, na sombra e na maior paz. Era uma folga merecida. Mas, de repente chega uma família de mais ou menos sete pessoas, com um cachorro pequenino. Ligaram o som na maior altura e começaram a conversar alto. A maioria estava chapada de cachaça e cerveja. 
    A noite chegou e não paravam de falar e beber. E assim foi até por volta das quatro da madrugada. Uma mulher ficou a noite inteira cantando. As outras pessoas que estavam acampando nas proximidades não reclamaram do barulho. E, como não queria confusão,  fiquei ouvindo aquilo tudo quietinho, dentro da minha barraca. Um pouco triste por ter sido tirada a minha paz e uma noite de sono. E ainda tive que ficar a mulher que estava cantando vomitar ate a alma de madrugada. Se fosse um adolescente tudo bem, mas a partir de uma certa idade já sabemos o quanto e como podemos beber... 
      Quando começo a pegar no sono, a família do barulho começa a desmontar o acampamento, por volta das seis da manhã. Todos com aquela cara de ressaca. 
      Também fiquei com cara de ressaca, mas de uma noite mal dormida....
  
Dia de descanso, para mim e para a Margarida. 

Dia 18

Enfim, paz no acampamento. 


     A minha intenção era ficar um dia apenas em Três Marias. Mas, como não havia dormido nada, e a família do barulho estava indo embora, resolvi ficar mais um dia, para conhecer o centro da cidade e descansar um pouco mais. 
    Com alguma dificuldade subo a serra do lago até o centro da cidade, com a intenção de comprar frutas, biscoitos e outras coisas mais para comer, pois no lago só vendem almoço, sorvetes e outras coisas bem caras para o meu orçamento de cicloviajante. 
    Almoço pelo centro da cidade mesmo, atraído pelo preço do marmitex: 11 reais! Mas, ali naquele lugar o marmitex grande seria o marmitex pequeno de outros lugares. E o marmitex pequeno teria que ser chamado de micro marmitex. Nessas minhas viagens, minha ansiedade diminui bastante, fico mais tranquilo, em paz com o restante do mundo. A paz interior tenho, mas quando estou no meu cantinho. 
    Cicloviajando fico bem comigo mesmo e isso reflete exteriormente, fico mais comunicativo e menos ansioso. Converso com estranhos, brinco às vezes e sorrio bastante. Acho que em um mês de pedalada converso mais do que em um ano quando estou dentro de casa. Essa paz me deixa menos ansioso e como pouco doce, não fico me empanturrando. Acho que se não fosse a violência e outras questões, seria um eterno viajante de bike, um pedarilho. 
Muitos famosos possuem casas no lago 


    Volto para a prainha, que está agora parecendo um paraíso. Silêncio quase que total Apenas ao fundo se ouve as vozes das pessoas conversando. E bem no fundo, alguém está ouvindo bem baixinho o disco "Música para acampamentos", do Legião Urbana. Aí sim estou me sentindo em um local para se acampar, nada daquele breganejo universitário da família do barulho da noite anterior. 
     E assim foi o restante da tarde e a noite. Paz e tranquilidade, o que todos buscam em um acampamento de verdade. 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Pedalanças-Belo Horizonte à Belém do Pará-3º dia- Serra brava de 8KM!

 16/07/2024

Felixlândia-Três Marias MG
Minas não tem mar, ou o mar é que não tem Minas?
Quem disse que Minas não tem mar?


     Não dormi bem. Montei a barraca próxima ao bebedouro. E, pelo visto, era o ponto oficial de encontro dos caminhoneiros na madrugada. Gente indo e vindo, passos, vozes e ruídos amplificados pelo silêncio da noite. Apesar do frio fiquei surpreendentemente bem aquecido no meu casulo.
      Acordei bem cansado, por volta das quatro e meia da manhã. E a batalha começa antes mesmo de pedalar: ajeitar a carga na bike.  Tenho que conseguir arrumar tudo da melhor maneira possível, para que as coisas fiquem mais acessíveis. A mochila fica bem amarrada no bagageiro traseiro, e tem coisas que preciso durante o dia que fica difícil de pegar.
    E a carga tem que estar bem amarrada e protegida para que não caia nada na estrada. Estou perdendo muito tempo e, o pior, gastando energia em algo que poderia ser mais prático. E de manhã sinceramente não é a hora em que estou mais animado. 
     Tomo o café e o roteiro nas primeiras horas da manhã se repete: frio congelante na BR, dedos congelados e doendo de tão frio e os lábios ardendo como se tivesse beijado um cubo de gelo. Manteiga de cacau entra na lista do meu kit de sobrevivência, pelo menos nesse trecho da viagem. 
    Por volta das nove horas o solzinho dá as caras e o meu humor também aparece. Cantarolo algumas músicas, já que não tem nenhuma plateia para ouvir, ou jogar tomates podres. Canto tão mal que uso esse artifício para apoquentar as pessoas, tipo o vizinho chatão de Belo Horizonte que ficava a madrugada inteira falando no celular, atrapalhando o meu sono. E então, para descontar de dia ficava cantando músicas, principalmente do Roberto Carlos e outras bregas. Tentei cantar heavy metal, mas minhas cordas vocais ficavam irritadas. 
estrada entre Felixlândia e Três Marias. 


     Mas logo esse bom humor fica um pouco diminuído. Uma longa e íngreme serra à minha vista! A encaro por alguns segundos e me propus um desafio: vencê-la sem empurrar a bike!
Teimosia, coragem e determinação são itens indispensáveis em uma cicloviagem. 
      No meio do caminho encontrei um andarilho, com apenas a roupa do corpo, uma trouxa e  uma garrafa pet com água. Pelo sotaque vi que era gaúcho, e estava encarando o calor das estradas mineiras. Penso em gravar uma entrevista com ele, mas, não consigo. Acho muito interessante a história de vida dos andarilhos. Já fui um por algum período de tempo, quando tive meus primeiros surtos. Mas o gaúcho era lúcido e tinha boa aparência. Fico imaginando como deve ser cansativo andar por vários quilômetros no asfalto quente. Já fiz algumas viagens a pé, mas a maioria por estradas de terra, como no caminho velho, de Outro Preto, em Minas Gerais, até Parati, no Rio de Janeiro. O pouco de percurso que andei no asfalto senti muito cansaço, por conta do calor e do vapor que vem debaixo, somado ao calor que vem em nossa cabeça. 
O andarilho do Rio Grande do Sul


     A temperatura não estava tão alto como no primeiro dia, e vou subindo a serra em boas condições, só parando para beber água e tirar algumas fotos pois a vista do alto da serra é muito bonita. Aliás para quem gosta de mato qualquer visão de serra é bonita. A diferença é que algumas fazem mais força para nos impressionar. 
     Fui subindo aos poucos, e aprendi um pouco de psicologia para vencer as serras íngremes. Não olhar para o alto, apenas se concentrar nos próximos dez metros. A gente cansa só de olhar as subidas de Minas Gerais, a verdade é essa. 
     E assim, de pouquinho em pouquinho fui vencendo a serra do Jacaré, no caminho para a cidade de Três Marias. Foram cerca de 8km somente de subidas! Obviamente fiquei envaidecido com a proeza, afinal estou em uma bike antiga, aro 26 e com uns 30 quilos de bagagem. E fora a bagagem de vida que eu tenho, são 56 anos de muitas alegrias, tristezas, perrengues, arrependimentos, etc.. Mas foram vividos, e isso é o mais importante. Se chorei ou se sorri...
    Por sorte (ou ajuda lá de cima) assim que acabei de subir a serra, a temperatura esquentou.
Acho que estava na faixa de uns 37ºC. 
                                             serra braba vencida com sucesso!

     A estrada não tem muitos estabelecimentos, mas consigo encontrar um bom restaurante por volta do meio dia. Apesar de ser grande, havia apenas um cliente almoçando. Resolvo, depois do almoço, descansar mais um pouco, para não pegar o sol forte, ao contrário dos outros dias, em que comecei a pedalar logo após o almoço. 
     O tempo passou mas o sol não diminuiu sua intensidade e o jeito foi começar a pedalar. Muitas subidas íngremes e, não orgulhoso, resolvo empurrar a bike em alguns trechos. Depois de duas horas pedalando, paro para descansar e percebo que o tornozelo do pé esquerdo está um pouco inchado. Como tenho o dedão do pé esquerdo quebrado, uso um pouco a lateral do pé para andar e para pedalar. Venci a Serra do Jacaré, mas ela me cobrou um certo preço... 
    Como irei melhorar do inchaço do pé pedalando? Essa dúvida ficou na minha cabeça até a chegada em Três Marias. A dor não era forte, mas me impedia de pedalar normalmente, fazendo mais força com o pé direito. 
    Paro em um posto de gasolina e um senhor começa a conversar comigo, perguntando de onde vinha, para onde ia, etc... Gentilmente ele me ofereceu o chuveiro do posto de gasolina, que veio como uma benção caída do céu, pois o dia foi cansativo, principalmente por conta do calor e da íngreme serra do Jacaré. 
    Esses pequenos gestos renovam minhas energias. O banho também. Já me sinto melhor, tirando a dor no tornozelo. Tomo um lanche e o pessoal também foi hospitaleiro, permitindo que eu montasse a barraca assim que o estabelecimento fechasse. Mais do que isso, o fato de conversarem com a gente, admirando nossa coragem de percorrer parte do Brasil de bike, o sentimento de ser acolhido faz qualquer cansaço ir embora rapidamente. 
     Esse ambiente tranquilo e generoso me acalmou, já não estou mais ansioso como no primeiro dia, em que tive alucinações. Já estou mais esperançoso para seguir a viagem. Mas acho que amanhã irei conhecer a tão falada cidade de Três Marias, com sua represa que mais parece um mar. Afinal, o esquizo pedarilho também merece descansar um pouco.
     
81km sob um forte calor e uma serra bem íngreme. 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Pedalanças -Belo Horizonte à Belém do Pará 2º dia-Tive alucinações!

 15/07/2024
Paraopeba-MG à Felixlândia 

Adentrando o cerrado mineiro



    Não dormi bem, apesar de dormir em um bom posto de gasolina. O silêncio tomava conta da madrugada, ao contrário de minha inquieta mente. Afinal era o primeiro dia de viagem. Os leitores do blog sabem que faço essas viagens malucas desde o ano de 2012. Mas estava há um bom tempo trancado no meu quartinho em Belo Horizonte. E, como todo bom paranoico, sempre tenho minhas cismas, em quaisquer circunstâncias. 
    Poucas pessoas no posto. Entrei na minha barraca por volta das oito da noite. Não sei à que horas exatamente, mas o som inconfundível de chinelos se arrastando rompeu o silêncio. Abri o zípper da barraca, mas, lá fora, ninguém... Me lembrei da minha viagem em 2019, quando dormi na calçada sem montar a barraca, por conta do sufocante calor da cidade de São Mateus, no Espírito Santo. A bike estava presa com cadeado, e minha mochila amarrei com corda em meu corpo, uma armadilha para meliantes. E não demorou muito para aparecer um indivíduo desses. O chinelo arrastado era sua tática para testar meu sono. Por três vezes ele apareceu, mas, quando me viu abrindo os olhos seguiu em frente. Provavelmente na quarta vez não acordei, mas, graças a corda, salvei meus documentos e minha viagem naquele dia. 
     E agora estava ouvindo esse arrastar de chinelos cinco anos depois em um posto de gasolina. Mas a diferença é que esse som estava vindo de dentro de minha cabeça. E foram umas três vezes que tive essa alucinação auditiva. E o posto estava uma tranquilidade, poucos caminhoneiros pararam para dormir ali.
Seria a esquizofrenia ecos do passado?
     E, para piorar a situação, comecei a ter alucinações tácteis. É isso mesmo, na esquizofrenia a pessoa não só ouve coisas, enxerga coisas que não existem. Ela também pode ter a sensação de que estão tocando nela ou outra sensação tátil. Naquela madrugada senti mãos atravessando a barraca e encostando em mim. E não era sonho, não estava dormindo. E também não estava completamente acordado. Estava no meio termo, quase pegando no sono. 
      Como tenho anos e anos de esquizofrenia e aquilo não era uma novidade para mim, apenas levei um enorme susto. Mas não me desesperei como no início dos surtos, quando não tinha a mínima ideia do que era esquizofrenia. E continuei a tentar a pegar no sono. 
      Fez bastante frio de madrugada. Mas isso não foi o maior problema desse primeiro e segundo dia.
     Acordei bem cedo, tomei 700ml de água em jejum e comecei a desmontar o acampamento. A carga da bike estava bastante desorganizada. Não estava achando nada, ficava tudo misturado na mochila.Não sabia qual o melhor lugar minhas coisas. Demorei bastante para ajeitar a bike para começar a pedalar. Não havia preparado a Margarida para essa viagem, essa é a verdade. Primeiro foi o guidão que não tinha fixação suficiente para aguentar o peso do bauleto frontal. Apesar do aperto na rosca, ainda estava dando uma pequena folga com o passar do tempo e tive que redobrar a atenção a cada curva e obstáculo na minha frente. 
    Tomei um bom café no posto de gasolina. Ainda tive que esperar um pouco para o sol aparecer, pois no inverno os dias são mais curtos, com o sol se pondo mais cedo e nascendo mais tarde.
      E o frio se tornou intenso quando desci a serra. Meus dedos congelaram com o vento. Meus lábios começaram a arder. 
    Mas Minas Gerais todo mundo sabe como é. Muita serra e tem regiões em que se você não está subindo você está descendo. E é bem desse jeito na saída de Belo Horizonte para Brasília. Mas estou em um bom ritmo, acho que as modificações na mecânica da bike ajudaram bastante. Coloquei rolamentos bons nas rodas e no pedal. Em 2019 a Margarida usava esferas e era complicada a manutenção. Já o esquizo pode ter perdido um pouco de força, mas, a resistência continua a mesma. 
Acidentes...


    O céu está limpo e lindo, sem nuvens. Mas essa beleza cobra um preço, por volta das dez da manhã o calor já estava castigando. As garrafinhas esvaziavam rapidamente, e as casas e postos de gasolina iam ficando raras. 
    Às onze horas a situação se complicou. A água havia acabado, estava levando apenas duas garrafinhas na bike. Carrego um cantil no bauleto, mas não havia colocado água nele, pois cada litro de água significa um quilo a mais de bagagem. Na minha cabeça só iria precisar de encher o cantil depois de ultrapassar o estado de Goiás. 
     Aos poucos vejo a vegetação se modificando. As árvores baixas e tortuosas com poucas folhas indicam que estou adentrando o cerrado. Em todas as minhas andanças e pedalanças não havia visto um bioma diferente. Todas as minhas viagens foram na região sudeste, com suas matas e florestas densas. 
Adentrando o cerrado. Um pouco de medo do calor. 


    Por volta das onze horas a situação ficou insustentável em uma serra braba. Não estava com fome, apesar de ter tomado café da manhã bem cedo. Era a sede que me incomodava e tirava minhas forças. Convenhamos que a sede é pior do que a fome. O estômago pode esperar algumas horas, sobrevivemos vários dias sem comer, mas sem água a situação fica complicada, afinal somos feito de 75% desse elemento da natureza. Dizem que podemos ficar no máximo quatro dias sem água, dependendo do indivíduo. E, como boto bastante doce para dentro da barriga, acho que não consigo ficar três horas sem beber nada. 
    Subindo a serra avistei algumas casas no meio da montanha. Alguns carros passavam e eu erguia a minha garrafinha, em um gesto silencioso, porém já com um pouco de angústia. Ninguém parou. Não restou outra alternativa a não ser entrar pela estrada de terra e seguir em direção ao vilarejo, que, para o meu desespero, parecia abandonado. Casas vazias, portões fechados e silêncio. Quando avistei um carro, eram de pessoas que trabalhavam na empresa de abastecimento de água. E, por incrível que pareça, eles estavam sem água. O jeito era seguir pela estrada de terra até encontrar alguma alma caridosa. O meu medo era de não encontrar ninguém e me afastar mais ainda da BR. 
    Mas tinha que escolher um caminho. Já estava meio debilitado e era mais fácil descer. E prossegui pela estrada de terra até encontrar uma sorveteria! Isso mesmo, uma sorveteria naquele lugar deserto!
Não poderia encontrar lugar melhor para me refrescar. 
  
Não é miragem, uma sorveteria no meio do nada!

    A dona do local, a dona Jemecina, estava fazendo almoço, e era um pouco séria. E como também sou meio caladão e difícil de iniciar conversas, um silêncio um pouco constrangedor tomou conta do local. A ausência de sons só era quebrada quando algumas crianças estudando nas mesas falavam alguma coisa. 
    Pedi água e sorvete para enganar o calor. Meu estômago estava roncando mais do que os motores dos caminhões da estrada. E perguntei se ela poderia me vender um almoço, pois a BR naquela região era um pouco deserta. Acho que já estávamos no cerrado, com as árvores mais baixas. Ela disse que poderia sim servir o almoço, com a cara mais séria ainda. Estava um pouco constrangido por aquela situação, mas não tinha por onde recorrer. E enquanto esperava o rango, pluguei o celular e a câmera compacta velha de guerra. Sou um cicloviajante bem raiz mesmo, não tenho GPS, nem GOPRO, sou guiado por minhas intuições e por Deus. 
Rumo à Felixlândia. 


     Depois do rango, sigo em frente, apesar do forte sol do meio dia da região. Na BR tenho a confirmação de que tomei a decisão correta de entrar pela estrada de terra. Só 20km em frente que encontro algum lugar para pegar água. Se seguisse pela BR teria que ter a sorte de encontrar algum caminhoneiro que me parasse seu veículo para matar a minha sede.  
    Pedalo mais um pouco e por volta das cinco da tarde encontro um posto de gasolina na cidade de Felixlândia. Foram 98km e para minha surpresa estou em boas condições. Como não tenho lanterna e não conheço a região e muito menos tenho GPS, não tenho dúvidas em parar para descansar e procurar um local para montar acampamento. 
    Foi um dia difícil. Aprendi que tenho que estar melhor preparado na questão da água e me informar melhor com as pessoas sobre o caminho. Não sou muito de planejar o quanto irei pedalar no dia, vou seguindo e pronto. Mas tenho que pelo menos organizar um dia de cada vez, para não passar nenhum perrengue por conta de mau planejamento. Não tenho pressa para chegar em Belém, quero curtir o caminho, sem neuras e sem pressa. Mas um dia de cada vez, assim como faço na minha vida. 
98km debaixo de um sol escaldante no cerrado de Minas.