26/07 à 02/08PlanaltinaDescansando e cuidando do tornozelo
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| O pôr do sol no centro de recuperação é espetacular. |
Acordamos no centro de recuperação às seis horas da manhã. Após a higiene, oração e leitura da bíblia. Depois o café da manhã. E logo depois, arrumar alguma coisa para fazer: limpeza, consertar algo estragado, ajudar na cozinha, etc...
Depois o almoço, uma pausa para um cochilo e a tarde era meio que livre. De noite jantar e depois cama novamente.
Os dias ali naquele centro eram exatamente iguais. O pastor disse que eu poderia ficar ali para sempre. Apesar de poder economizar algum dinheiro, não aceitei, pois a liberdade para mim não tem preço.
Notei que alguns internos não foram muito com a minha cara. Afinal, eu tinha a liberdade, não era viciado em drogas. Estava ali só de passagem. Podia sair de tarde, ou não. Não havia pedido permissão, mas em algumas tardes saí de bike para o centro da cidade alimentar o meu vício: chocolate! Ia na padaria comprar uma barra de talento(gosto do verde e do roxo) para tirar a minha ansiedade e liberar serotonina. E também para pedalar, pois a rotina é um pouco cansativa ali no centro de recuperação.
Andar de bike se tornou o vício mais saudável que adquiri na minha vida. É ansiolítico, antidepressivo, tira o stress, e, além de tudo, é um excelente hobby. É uma terapia e tanto. Muitas pessoas pensam que terapia é só ir ao psicólogo, que é coisa de gente maluca. Nada contra os psicólogos (as), me ajudaram bastante no início, mas, para mim, a melhor terapia é ocupar a mente com coisas positivas.
A minha relação com as drogas foi bem curta. Experimentei a maconha três vezes: uma quando tinha uns 15 anos, outra por volta dos 17 e outra quando tinha uns 25 anos.
Acredito que nessas três vezes não inalei direito a fumaça, pois sempre tossia e ardia a garganta. E nãos senti nada diferente, acho que fiquei rindo à toa por que os meus colegas estavam rindo à toa também. O riso é meio contagiante e então, achando que estava chapado e vendo os caras rirem, também fiquei rindo à toa. Acho que foi mais ou menos isso o que aconteceu nas minhas experiências com a erva danada.
No centro de recuperação tinha uma bike antiga e simples. Consertei o freio dela e o pneu que havia furado. Pensei em arrumá-la toda, comprando peças novas, mas, como vi que não tinham o menor cuidado com ela, desisti. Ela era guardada no banheiro, e estava enferrujada por causa da água. Sugeri guardar em outro lugar, mas não deram muita atenção ao meu pedido. E então desisti de investir na magrela, que tinha o seu valor, pois era nela que os caras buscavam doações.
Sabia que teria que ficar alguns dias para recuperar meu tornozelo. Fui uma criança bem bagunceira e brincalhona, e me machucava com frequência. Acho que fui criança até os meus 16 anos. E já sabia que tornozelo demorava um pouco para ficar completamente bom. Como a pressa não fazia parte da minha cicloviagem, decidi ficar ali até sentir confiança em pisar no chão com firmeza.
Fiz amizades com os idosos e os cadeirantes. Vi que ficavam meio jogados de lado, quase ninguém conversava com eles. E todos os dias respondia as mesmas perguntas de um idoso que tinha alzheimer. A família dele o deixou lá. Ele não dava trabalho, era super quieto e até ajudava nos afazeres, às vezes carregando coisas pesadas.
E então fui julgado de fazer panelinha por alguns ali, que senti que eram um pouco revoltados. Talvez pela abstinência ou um outro problema qualquer. Alguns eram homens de confiança do gerente do centro de recuperação e estavam ali já algum tempo.
Mas aquilo não me afetava. A maturidade me fez deixar de lado esse tipo de implicância contra quem está quieto em seu canto. Eles quase não sorriam, não brincavam, ficavam sérios e quando brincavam era para zoar alguém.
Fiz amizades com os cadeirantes e os mais idosos
O local era bem tranquilo, isolado do centro da cidade. Batia uma brisa gostosa ali, de manhã fazia um friozinho gostoso.
A alimentação era simples. Mas não sou exigente, já comi lixo durante os meus surtos em que fui parar nas ruas. O que não gostei foi o fato de todos os dias servirem pão de queijo e biscoitos de queijo bem endurecidos. Normalmente essas delícias já prendem o intestino, ainda mais quando estão ressecados. Mas era a doação da padaria. Não reclamei, sei as dificuldades que devem estar passando, o governo federal deixou de repassar a verba mensal para todas as clínicas de recuperação de álcool e drogas do Brasil. E eles sobreviviam de doações do comércio local e de pessoas com bom coração.
Foi uma semana que passou bem rápido. O tornozelo já estava bom, não estava mais inchado e nem doendo. E estava novo em folha, pois o trânsito barulhento nos últimos três dias haviam me desgastado bastante. Aliás, esses três dias de trânsito intenso me cansaram mais do que a viagem toda até o momento.
Acredito que tenho alguns elementos do autismo. Gosto da cor azul, sou pouco sociável e os sons têm uma importância maior em minha vida. Trabalhei 17 anos como operador de som. Alguns dias saía um pouco estressado, mas não sabia o motivo. E aos poucos isso se tornou insustentável, e hoje procuro evitar lugares barulhentos. Fiz uma postagem aqui no blog contando como os sons podem mudar o nosso estado de espírito em questão de segundos. Alguns sons são muito agradáveis, algumas vozes femininas, suaves, o som da flauta, do piano, gosto de música clássica e curiosamente gosto de metal e suas vertentes : death metal, trash metal, etc... Gosto do som das guitarras distorcidas. Acho que isso ajuda a aliviar o stress.
Me despedi das pessoas com que fiz amizade e até de alguns que meio que implicaram comigo. Deixei para lá, não tenho culpa de estarem naquela situação. Imagino que devem estar em dificuldades, que devem ter família e filhos para sustentar. Um estava ali há três anos, e só tinha 30 anos de idade. Não ganhava salário ou se ganhava, era algo simbólico. Não me imaginaria ali naquele lugar para sempre, até o fim de minha vida. Como disse, a liberdade não tem preço.


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