25/07/2024
Valparaíso-GO à Brasília-DF
Endereços malucos quase me deixaram maluco
Nada de anormal aconteceu no posto abandonado em Valparaíso. Mas não dormi bem, imaginando que a qualquer momento poderia aparecer alguém e querer me perturbar. Sempre quando monto minha barraca em cidades médias e grandes é essa paranoia absurda. Acho que isso piorou depois que botaram fogo em minha humilde residência quando estava fazendo minhas andanças em Belo Horizonte no ano de 2013. Naquela época viajava na canela mesmo.
O meliante na verdade não botou fogo na barraca toda. É que acabei dormindo com o rádio do celular ligado. E aí o cara, guiado pelo som do aparelho, simplesmente fez um buraco com fogo na barraca, o suficiente para pegar o telefone. Acordei, mas até abrir o zípper da barraca e sair já se foi o tempo suficiente para o ladrãozinho virar o quarteirão.
Nessa noite fiz algumas armadilhas para o possível meliante não se aproximar da barraca. Peguei a corda da barraca e amarrei em volta dela para o cara levar um tombo, já que o local estava muito escuro. Joguei latinhas de cerveja no chão, garrafas de vidro, etc...
Mas não apareceram muitas pessoas, era um local que não dava para nenhum outro local. Talvez seria um ponto de encontro de drogados ou para encontros amorosos de pessoas que não teriam condições de pagar um motel. Não sei, só sei que minha mente estava a mil. E tomar diazepan poderia me deixar lento em caso de um ataque de um meliante. Me lembro que na minha pedalança em 2019 estava chovendo muito em Barra Mansa, no estado do Rio de Janeiro. Montei minha barraca em frente de um enorme galpão, na BR que liga Rio de Janeiro à São Paulo. Era muito movimentada e fiquei pilhado. Então, por volta das nove horas um cara se aproximou da barraca e ficou sentado. Peguei o desodorante e fiquei em estado de alerta. Se ele se aproxima-se iria apertar o spray bem na cara, acho que deveria arder pra caramba.
Não levo nada para me proteger, nem uma faquinha que poderia dizer que seria para descascar laranjas ou fazer comida. E então peguei minha chave de fenda. Mas o cara só queria mesmo era fumar o seu baseado.
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| Só prédios e mais prédios... |
Com tudo isso, dormi muito mal essa noite. Acordei sem energia, e o jeito foi comer uma bela torta de chocolate na padaria para aumentar os níveis de serotonina no meu organismo. E, obviamente, não poderia faltar um cafezinho para aumentar a dopamina, pois teria que ter muita vontade nesse dia. Iria pedalar nesse trânsito intenso e maluco da região, e a tendência era piorar, pois iria passar por Brasília. Como disse, não sou muito de planejar as coisas nas minhas pedalanças, então hoje não sei o que irei fazer. Talvez tente achar algum abrigo em Brasília, pois o meu tornozelo esquerdo ainda está um pouco inchado e dolorido e sei que não irá melhorar enquanto fizer um repouso de uns cinco dias e tomar algum anti-inflamatório. Também penso em conhecer a capital federal, talvez tenha algo interessante para se conhecer.
O trânsito está mais complicado do que ontem. Afinal, são sete horas e todo mundo está indo para o trabalho, menos o ser pedalante viajante maluco. É um trânsito intenso, afinal é uma BR que vira avenida quando atravessa uma cidade. Tenho que olhar no retrovisor e para os lados, e, claro para a frente.
E a coisa só vai piorando à medida que vou chegando em Brasília. A pista fica maior, mas os carros aumentam de número para compensar. São 40km de muito barulho de carros e caminhões e que me cansam mais mentalmente do que fisicamente.
Apesar do trânsito intenso, não vejo nenhum stress ou confusão entre os motoristas. Nada de buzinas, aliás é lei em Brasília. Avistei algumas placas dizendo que era proibido buzinar. Me senti seguro para pedalar, fiquei no meu canto pedalando corretamente e não tive problemas com outros veículos.
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| BRO40 vencida... |
Paro para almoçar logo na entrada. As pessoas em cidades maiores não têm o costume de se aproximar para conversar comigo. Me sinto em casa nas cidades menores, sempre aparece alguma pessoa para dialogar, parece serem mais humanos. Não sei o que acontece com as pessoas nas capitais que a tornam mais distantes uma das outras.
Depois do descanso na grama de um posto de gasolina, volto a pedalar com a intenção de achar a rodoviária e procurar um abrigo para descansar. Além do tornozelo inchado, esses dias de trânsito intenso me cansam um pouco mais além do normal.
Pergunto para as pessoas que me informam que a rodoviária fica perto de um tal de plano piloto. Fico maluco naquele trânsito infernal e mais maluco ainda naqueles endereços difíceis. É um tal de asa de não sei o que, quadra sei lá o que, tem eixos, tem o w, só falta colocar a latitude e a longitude...
Mas, apesar de tudo consigo chegar na rodoviária. No caminho só pessoas trabalhando, homens de ternos, e eu, um cicloviajante que não se identifica com nada naquele lugar. Me senti um estranho no ninho. Prefiro a BR solitária e as cidades pequenas e onde a natureza é o mais importante. Brasília só tem prédios e mais prédios, alguns bairros parecem não ter comércio, nem a tradicional padaria da esquina. Não tem barzinhos.
Fiquei quase maluco pedalando em Brasília
O entorno da rodoviária de Brasília é tenso. Muitos moradores de rua, talvez pelo fato dos abrigos serem próximos. Antes da rodoviária passei em um que parecia enorme. Na portaria haviam dois seguranças que faziam a revista de quem entrasse. Entrei, fui revistado, mas, pela quantidade de pessoas que avistei, resolvi ir embora. Não é o lugar seguro para quem tem uma bike e algumas coisas além da roupa do corpo. Alguns caras ficaram me encarando e isso foi o suficiente para ir embora daquele local.
Chegando na rodoviária que estava movimentadíssima a assistente social foi bem clara e objetiva:
- A liberação para ficar no abrigo demora 3 dias e se você dormir por aqui irão roubar seus pertences! Aqui é muito violento!
Confesso que fiquei assustado, ou melhor, apavorado. Queria descansar e melhorar o tornozelo, mas as palavras da assistente social me deram um gás que saí pedalando na maior velocidade possível em direção à Alto Paraíso, cidade mística que sempre quis conhecer e que teria que fazer um bom desvio no trecho para Belém. Se fosse direto para o Pará era só pegar a Belém Brasília, mas como irei passar por Alto Paraíso irei dar uma longa volta em Goiás e Tocantins. Mas isso não é problema, a pressa não faz parte da rotina de um cicloviajante raíz.
E lá vou eu pelo trânsito maluco. E nem cogitei em ir ao encontro nacional de motociclistas. Não quero dormir nem aos arredores de Brasília. Paro na única lanchonete que encontrei e a surpresa: um pãozinho de queijo minúsculo custava 8 reais!
Não tinha outras alternativa e pedi. Mas me arrependi, além de pequeno, não tinha queijo. Era muito ruim. Não que eu seja um mineiro comedor exigente de pão de queijo. Estava ruim mesmo, só tinha massa. O refrigerante estava caro também, mas queria ter energia para sair o mais rápido da capital federal.
Na saída de Brasília, como não havia encontrado nenhum posto de gasolina, resolvi montar a minha barraca no estacionamento de uma farmácia. Com muito custo consegui convencer a gerente a permitir montar a barraca. Como tudo é muito difícil por ali. Que saudades da BR e das cidades do interior!
Para piorar, depois que montei a minha humilde residência, um vendedor de doces na faixa dos 18 anos começou a conversar comigo e a me perturbar. Mexeu na barraca, perguntou se queria vender, ficou olhando para dentro dela. Tive que ter muita paciência com aquele cara. E resolvi seguir adiante, pois ele não saia de perto.
Não sei de onde tirei energias mas rapidamente desmontei tudo e segui a BR. Para minha sorte em menos de 5km encontrei um posto de gasolina, que é o lugar que me acostumei a montar a barraca e a me sentir mais tranquilo.
Estava entre Brasília e Sobradinho, o movimento era mais tranquilo e isso foi me aquietando também. Mas, não consegui lugar para tomar um bom banho. Mas o cansaço era tão grande que o mais importante era parar o físico e a mente para repor as energias para o dia seguinte, que espero que seja melhor do que o dia de hoje.
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| Hoje foram 56km, mas acho que, dentro de Brasília cheguei a pedalar mais de 10km |
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