24/07/2024Cristalina-GO à Val Paraíso-GOPerigos na BR
A primeira noite em terras goianas foi sem perrengues, apesar de minha ansiedade inicial. A verdade é que a mente de uma pessoa com esquizofrenia é bem complexa, às vezes pensamos que o mundo gira entorno de nós, mas no mau sentido. Pensamos que todos sabem sobre nossa vida e que às vezes sabem até o que a gente está pensando. E que sempre estão tramando algo contra nós. Isso faz com o desgaste físico em uma cicloviagem fique em segundo plano. Na esquizofrenia o nosso maior inimigo está dentro de nós mesmos, a nossa mente. Gosto demais da música "Enemy inside" (Inimigo interior) da banda de metal progressivo Dream Theather. A frase “Uma crença não é apenas uma ideia que a mente possui; é uma ideia que possui a mente” acredito que seja a que mais se aplica a esquizofrenia. Acreditamos no que não é real e muitas vezes somos dominados por essas alucinações e delírios, que acabam se tornando crenças que nos guiam por caminhos não muito tranquilos. E não adianta vir família, psicóloga e nem o papa tentar nos convencer do contrário. Às vezes é preciso acontecer algo mais grave para começarmos a entender que temos um problema e que precisamos de ajuda. No meu caso foram os surtos iniciais que me fizeram abandonar o emprego e ir moras nas ruas e perambular pelas Brs de Minas Gerais. A partir daí comecei a fazer um inventário de toda a minha vida e aos poucos, em um lento processo comecei a me conhecer melhor. Esse é o primeiro passo para enfrentar a esquizofrenia. Se auto conhecer. Depois vamos conhecendo a esquizofrenia. Mas fui tão bem recebido ontem em Goiás que estou mais calmo. De dia conheci pessoas legais e de noite no posto os funcionários foram muito atenciosos comigo. Apesar de ser um posto de alto padrão, ninguém me olhou torto ou com ar de reprovação. Afinal sou um ciclista com roupas simples e tênis surrado entrando no restaurante super luxuoso para jantar e de manhã para tomar um café. Me trataram com naturalidade, e isso é muito bom. Não quero ser tratado nem com dó e nem com piedade pelo fato de ter esquizofrenia e ser um cara sem muitos pertences. Aliás, o meu único bem é a minha fiel companheira Margarida, que é uma bike aro 26 dos anos 90. A verdade que o bem mais precioso que podemos ter não é material. Seriam dois: a paz e a consciência tranquila. De manhã um friozinho gostoso, daqueles que nos animam a tomar aquele cafezinho e um pãozinho com manteiga. Nada daquele frio inicial do interior de Minas Gerais, que chegava a queimar meus lábios. E pego a boa BR 040 em Goiás. Bom acostamento e faixa dupla. Tudo que o cicloviajante deseja de uma estrada. Assim a viagem se torna muito mais agradável e menos cansativa. Na hora do almoço para em um posto de gasolina que tem um excelente restaurante. Lugar agradável, cercado de árvores e com um vento forte que ameniza bastante o calor. Os funcionários também foram muito gentis. Enfim, um posto de gasolina top. Depois do almoço parei para descansar, mas o local era tão agradável que resolvi lavar minhas roupas e lubrificar a bicicleta. E, apesar de não ser nem uma hora da tarde, resolvo ficar ali para dormir. É um daqueles lugares em que nos sentimos em casa. Mas, logo apareceu um trecheiro e se aproximou de mim com o seu marmitex. Começamos a conversar sobre estradas, viagens e aventuras. Ele ficava olhando a bike, me perguntando um monte de coisas e se eu iria dormir ali. Disse que sim, meio desconfiado. Ele não tinha nada, apenas as roupas do corpo. Disse que vivia viajando, mas à procura de emprego. Estava muito magro e abatido. Isso foi o suficiente para ligar o meu estado de alerta máximo de paranoias, e, de fininho fui recolhendo minhas roupas e arrumando a carga na Margarida. O vento era tão forte naquele lugar que as roupas estavam praticamente secas. Discretamente me despedi dos funcionários do posto e peguei a estrada. Não sei o que acontece, mas, quando estamos no estado de alerta paranoico arrumamos energia que fazemos coisas que em estado normal não conseguimos. Talvez seja adrenalina. Só sei que arrumei animo de algum lugar escondido em minha mente e fui ligeiro em direção à Luziânia. Meu sonho não é mais ganhar na loteria e viver na beira da praia, sem muito contato com os humanos. Só teria um cachorro e alugaria um apto ou uma casa simples, para não chamar muita atenção. Meu sonho agora, que acho mais uma utopia é um mundo sem pessoas más, que prejudicam o próximo, por mais próximo que seja. No caso eu era um pedarilho, e o trecheiro um andarilho. Estávamos em situação parecida, e ele talvez quisesse roubar o pouco que eu tinha, me colocando em uma situação difícil. Seria feliz se estivéssemos em um mundo sem ladrões, que poderíamos deixar nossos pertences sem precisar trancar, um mundo sem cadeados, sem chaves, sem alarmes. Na minha opinião não se deve roubar nem dos ricos, muito menos dos pobres. Como que a consciência desse pessoal não pesa? Esse gás que a paranoia me introduziu fez com que pedalasse em bom ritmo por cerca de 80km, quando me aproximei da cidade de Luziânia. Ali a BR não era somente uma BR, era também uma avenida do município. E por isso vinha carro de todas as direções. Vinha carro dos dois lados entrando nas ruas e, na minha frente muitos carros quase que parados no congestionamento. O maior perigo eram os ônibus que paravam nos pontos para o embarque e desembarque de passageiros. Instalei na bike um retrovisor e considero um equipamento de grande necessidade para um cicloviajante. Alguns não gostam por acharem que não fica legal, mas, a segurança tem que estar em primeiro lugar. Valparaíso fica colada em Luziânia e o trânsito é mais intenso ainda. A pedalada de hoje foi longa, mas o cansaço não foi físico e sim mental. O barulho dos carros, o trânsito intenso me causam um desconforto mental muito grande e parece sugar minhas energias. Eu e a Margaria éramos uma ilha cercada de carros, caminhões, carretas e motos. Queria seguir para fugir daquela agitação de Valparaíso, mas me informaram que o próximo posto fica há uns 30km de distância. Como não estou equipado para pedalar de noite e já são cinco horas da tarde, resolvo parar em uma lanchonete próxima de um posto desativado. Como um mixto bem mixuruca, com uma fatia de queijo e outra de muçarela por oito reais. Tomo uma coca cola e um doce de sobremesa. Mas nem a onda do açúcar ajudou. Esse fim de pedalada foi estressante. Não estou com bom humor. E os preços do estabelecimento também não ajudaram. Haviam pouquíssimas opções, o posto de gasolina estava desativado e a lanchonete vazia. Para piorar ainda mais a situação, o cara não me deixou montar a barraca debaixo do telhado na entrada. Pelo menos um banho consegui tomar pagando cinco reais. O jeito foi procurar um lugar no fundo do posto. O local era bem deserto e encontrei um abrigo onde se fazia a troca de óleo. Também estava abandonado. Não gosto de montar barracas em cidades grandes e médias. Apesar do mau pressentimento, não procuro outro lugar, pois sinto que só irei encontrar mesmo lugar tranquilo no próximo posto de gasolina. Enfim, o dia começou bem, mas depois do almoço as coisas não foram muito legais. Mas a pedalança é como a vida, têm seus dias bons e seus dias maus.
De novo e de novo
eu revivo o momento
Estou carregando este fardo no meu interior
Feridas abertas escondidas debaixo da minha pele
Dor é real como um corte que sangra
O rosto que eu vejo cada vez que eu tento dormir
Olhando para mim chorando
Eu estou correndo do inimigo interior
Olhando para a vida que deixei para trás
Essas memórias sufocantes estão gravadas na minha mente
E eu não posso escapar do inimigo interior
Separo-me do mundo
e desligo-me completamente
Totalmente sozinho no meu próprio inferno
Supero com medo irracional
Sob o peso do mundo sobre meu peito
Eu me envergo e quebro enquanto tento recuperar o fôlego
Diga-me que não estou morrendo
Eu estou correndo do inimigo interior
Olhando para a vida que deixei para trás
Essas memórias sufocantes estão gravadas na minha mente
E eu não posso escapar do inimigo interior
Eu sou um fardo, eu sou uma paródia
Eu sou um prisioneiro do arrependimento
Entre os flashbacks e os sonhos violentos
Estou pendurado na borda
Desastre espreita ao virar a curva
Paraíso chegou ao fim
E nenhuma pílula mágica
pode trazê-lo de volta
Eu estou correndo do inimigo interior
Olhando para a vida que deixei para trás
Essas memórias sufocantes estão gravadas na minha mente
E eu não posso escapar do inimigo interior
De novo e de novo
eu revivo o momento
Estou carregando este fardo no meu interior
Feridas abertas escondidas debaixo da minha pele
Dor é real como um corte que sangra
O rosto que eu vejo cada vez que eu tento dormir
Olhando para mim chorando
Eu estou correndo do inimigo interior
Olhando para a vida que deixei para trás
Essas memórias sufocantes estão gravadas na minha mente
E eu não posso escapar do inimigo interior
Separo-me do mundo
e desligo-me completamente
Totalmente sozinho no meu próprio inferno
Supero com medo irracional
Sob o peso do mundo sobre meu peito
Eu me envergo e quebro enquanto tento recuperar o fôlego
Diga-me que não estou morrendo
Eu estou correndo do inimigo interior
Olhando para a vida que deixei para trás
Essas memórias sufocantes estão gravadas na minha mente
E eu não posso escapar do inimigo interior
Eu sou um fardo, eu sou uma paródia
Eu sou um prisioneiro do arrependimento
Entre os flashbacks e os sonhos violentos
Estou pendurado na borda
Desastre espreita ao virar a curva
Paraíso chegou ao fim
E nenhuma pílula mágica
pode trazê-lo de volta
Eu estou correndo do inimigo interior
Olhando para a vida que deixei para trás
Essas memórias sufocantes estão gravadas na minha mente
E eu não posso escapar do inimigo interior





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