quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Esquizofrenia e a indústria farmacêutica

 
    Em primeiro lugar, e antes de começar esta postagem um pouco polêmica, gostaria de dizer que não sou da antipsiquiatria, mas também não sou um fã ardoroso dos medicamentos usados no tratamento da esquizofrenia, os chamados antipsicóticos. 
    Para quem ainda não conhece, antipsiquiatria é um movimento que, basicamente se opõe a quase tudo ou a tudo o que os psiquiatras pregam e fazem. Mas as principais bandeiras da galera da antipsiquiatria é a de que as doenças mentais são invenção dos psiquiatras para que a indústria farmacêutica saia lucrando com a criação dos medicamentos para esses males. Afirmam também que muitos psiquiatras possuem vínculos com a indústria farmacêutica e que os medicamentos não curam, apenas controlam a doença, deixando os pacientes dopados.

    Infelizmente hoje em dia tudo está polarizado, e com as doenças mentais não poderia ser diferente. É uma discussão intensa entre os psiquiatras e o pessoal da antipsiquiatria.
    Que os bons e bem intencionados profissionais da saúde mental não se sintam ofendidos com esta minha postagem...
    Não sou de ficar em cima do muro, sempre gosto de dar   a minha opinião, mesmo que ela me traga alguns prejuízos, pois às vezes a falsidade pode levar à algum ganho ou lucro. Prefiro deixar de ganhar certas coisas e ter a minha consciência tranquila e não ter o rabo preso com ninguém. 
    Na minha opinião existe sim algumas doenças mentais, afinal o cérebro é um órgão do nosso corpo, e, como tal está sujeito a ter problemas como está o restante do nosso organismo, principalmente se não for bem cuidado. Quem toma muita cachaça provavelmente vai correr o risco de ter uma cirrose, e o mesmo acontece com o cérebro e com a mente. O cérebro precisa ser bem alimentado, principalmente com vitamina B e ômega 3. A mente precisa estar em um ambiente tranquilo e com energias positivas, devemos evitar o stress, ter boas noites de sono e por aí vai.... 
   Acredito também que os antipsicóticos e tranquilizantes devam ser usados em alguns casos, mas por um determinado tempo e não em doses tão altas como acontece por aqui em nosso país e nos Estados Unidos, por exemplo. Afinal, não resta muita coisa a fazer quando um paciente chega à uma emergência de um hospital apresentando um quadro perigoso de agressividade. 
   Mas,  por outro lado acredito que o pessoal da psiquiatria sempre pegou pesado demais, querendo classificar à tudo e a todos como doentes. Hoje em dia qualquer pessoa que não esteja nos padrões é considerado anormal. A cada edição o CID, que é o Código Internacional de Doenças, vem aumentando o número de páginas e de novas doenças classificadas. 
   Daqui a pouco quem não for classificado será classificado como anormal, já que o normal é ser classificado com algum comportamento não adequado.
   Também acredito que os psiquiatras exageram tanto na quantidade como também na dosagem dos medicamentos. Geralmente no início vão logo receitando doses dopantes, o que desestimula o paciente a continuar o tratamento. Não seria melhor ir começando com dosagens menores e ir adequando gradativamente e aumentando se for necessário? Geralmente fazem o contrário, receitam doses fortes e vão diminuindo caso o paciente se queixe muito de sonolência e lentidão. 
  Conheço pessoas que chegam a tomar cerca de dez medicamentos por dia. Não são dez comprimidos, são dez tipos de remédios, a receita mais parece uma escalação de um time de futebol. 

Minha primeira consulta
   Só para ilustrar a postagem,  minha primeira consulta psiquiátrica demorou menos do que dez minutos. Isso foi ano de 2002. Estava desesperado, pulando de igreja em igreja, pensando que o meu problema poderia ser de origem espiritual. Ia na frente do altar quando o pastor fazia o chamado, mas mil caiam a minha direita e dez mil a minha esquerda, mas eu não caia. Aí pensava que o demônio que estava em mim era muito teimoso e que não iria sair com muita facilidade...
   Em menos de dez minutos na minha primeira consulta sai com a receita de melleril e do diazepan.  Também saí praticamente diagnosticado com esquizofrenia paranoide, F 20.
    Mas não obtive nenhum tipo de informação sobre o que eu tinha, o psiquiatra mal olhou para mim, parecia estar cansado da profissão. É um trabalho estressante, mas acho que foi ele mesmo que escolheu né?
   Na consulta com a psicóloga nada de conversa sobre o que eu poderia ter. Ela ficava me encarando e sorrindo, me deixando um pouquinho sem graça e pouco à vontade. No final ela sugeriu frequentar alguma oficina de percussão ou outra coisa qualquer. Mas o que eu queria mesmo era saber o que eu tinha, o que era aquela loucura toda, se outras pessoas também tinham esse problema ou se eu era a única pessoa do mundo a ter aquelas alucinações malucas.

A importância do primeiro atendimento
   A primeira consulta é a mais importante de todas na vida de uma pessoa com esquizofrenia. Afinal estamos muito assustados, sem ter a mínima noção do que é um transtorno mental, pois a falta de informação ainda é muito grande e a esquizofrenia ainda é cercada de muitos mistérios e mitos. 
   Mas na maioria dos casos os profissionais da saúde mental tratam a primeira consulta de uma pessoa com esquizofrenia com a mesma atenção do que atendem uma pessoa com depressão e que se consulta há um ano, por exemplo. Falo isso por experiência própria, não recebi nenhum cuidado especial na primeira consulta, digo até mais, foi uma das piores que tive. 
    Foi muito difícil conseguir esse primeiro atendimento, estava morando nas ruas por causa dos surtos que tive. Não queriam me atender pois não tinha um endereço fixo. Tive que ser muito insistente para que me ouvissem e me dessem a devida atenção. O psiquiatra queria que eu tivesse um endereço fixo, ou seja, teria que melhorar sozinho para sair daquela situação para aí sim ser atendido....
     Depois do piti que dei o pessoal do posto de saúde me passou o endereço do Cersam, que é  referência no atendimento público da saúde mental aqui em BH. Lá mais uma decepção: a enfermeira logo na entrada me olhou e disse que ali não era o meu lugar. Ela fez aquele diagnóstico maluco talvez por eu já estar andando com roupas limpas e ter cortado o cabelo e estar com a barba feita.
É um erro muito grave diagnosticar uma pessoa apenas pela aparência física, afinal uma pessoa pode estar se cuidando mesmo estando mal mentalmente. 


Facilidade em conseguir medicamentos
    Pela facilidade com que são receitados esses antipsicóticos acredito sim que alguns psiquiatras saiam ganhando com essa situação. Existem maus profissionais em todas as áreas, e na psiquiatria não é diferente. Já vi representante de laboratórios farmacêuticos nas clínicas psiquiátricas e até nos centros de atendimento do SUS. Alguns psiquiatras ganham amostra grátis e provavelmente comissão para receitar determinado medicamento de certos laboratórios. Gostaria de ressaltar que não são todos, mas como disse, em todos os lugares existem pessoas que querem tirar proveito de tudo.
    Certa vez, quando estava na fila para pegar os meus medicamentos, vi uma conhecida vibrar de alegria por ter conseguido a receita da fluoxetina sem ter nenhum sintoma de depressão. Ela apenas queria usar esse antidepressivo pelo simples fato de ter como uma reação adversa o emagrecimento. Ela estava com uma aparência muito boa e muito feliz pela oportunidade de emagrecer usando um medicamento que também prometia trazer a felicidade...
   Nessa facilidade toda quem sai perdendo é o próprio paciente,  principalmente quando recebe no início o medicamento de graça. O psiquiatra oferece a amostra grátis, e, depois de um certo tempo, quando o paciente já está viciado no medicamento, informa que terão que comprar ou então conseguir pelo SUS. E nessa migração da amostra grátis para o medicamento genérico  muitos até chegam a surtar, pois existem algumas diferenças entre o medicamento genérico e os chamados originais. Existe uma lei que determina o mínimo de princípio ativo que um genérico deve ter. Os genéricos, por serem mais baratos, acabam usando a lei para colocar o mínimo autorizado. Já vi muitos relatos, e inclusive tenho amigos que, mesmo com a situação financeira não muito favorável preferem comprar o medicamento do que pegar no posto de saúde. Eu mesmo sinto esta diferença  no diazepan. Como estou tomando apenas 5mg, resolvi comprar na farmácia, para não ter que ficar dividindo o de 10mg, que é a única opção que tem no SUS. E senti muita diferença, o da farmácia de 5mg me dá mais sono do que os de 10mg do posto de saúde. 


Afinal, usar ou não usar os antipsicóticos?
   Enfim, os antipsicóticos foram necessários no meu caso em alguns momentos difíceis da minha vida. Mas acredito que a informação seja tão ou mais importante do que comprimidos. É como um jogo de futebol, onde temos que conhecer o nosso inimigo para termos uma estratégia de jogo para obter um bom resultado. Jogar contra um adversário desconhecido pode nos trazer muitas surpresas. Mas, depois que a tempestade passou consigo levar a vida, não tenho o que gostaria de ter, que é aquela velha tranquilidade e paz que tinha antes, quando conseguia sair na rua, ir ao um show e me divertir sem pensar que as pessoas estão me olhando ou tramando algo contra a minha pessoa. Não acredito que um medicamento irá conseguir fazer esta cura sem me deixar dopado. Vencer a esquizofrenia é estar curado, ou seja, a cura é a remissão de todos os sintomas ao ponto da pessoa não precisar mais de medicamentos. Se ainda precisa de remédios é por que não houve cura ou vitória, e sim apenas um “controle” nos sintomas diminuindo os níveis de dopamina, que é um neurotransmissor necessário ao nosso bem estar.
    Já vi psiquaitra comparando a esquizofrenia à diabetes. Uma comparação infeliz, pois são doenças totalmente distintas. A esquizofrenia é na mente e no cérebro, diabetes é no fígado, o que não deixa de ser também muito dramático, por causa das complicações que a diabetes causa. Mas essa comparação só reforça a minha convicção de que querem simplificar a esquizofrenia à um simples desequilíbrio químico do cérebro, que seria facilmente resolvido com os antipsicóticos. Estão retirando as causas psicológicas desse transtorno, o que é algo extremamente prejudicial ao verdadeiro tratamento, que não é somente à base de medicamentos.
    E não é só eu que acho isso, o prêmio nobel de medicina também tem essa opinião.Vejam um trecho de uma entrevista dele:
Prêmio nobel de medicina afirma que medicamentos que curam não são produzidos pois não geral lucros

"Sir Richard, em entrevista, denuncia o que parece evidente para todos, mas raramente é dito em alto e bom som por uma autoridade: é a própria indústria quem detêm o progresso científico. Sua principal questão é o quão ético e correto pode ser uma indústria com a importância da farmacêutica ser regida pelos mesmos princípios e valores que o mercado capitalista. O hábito de gastar centenas de milhões de dólares anualmente para em pagamentos à médicos para que promovam seus medicamentos torna a prática da indústria algo semelhante às práticas da máfia."

Fonte: https://www.hypeness.com.br/2016/08/medicamentos-que-curam-nao-sao-rentaveis-e-portanto-nao-sao-desenvolvidos-diz-nobel-de-medicina/

    Outra referência interessante sobre esse tema tão polêmico é o documentário "DIÁLOGO ABERTO: FINLÂNDIA, que aborda o tratamento da esquizofrenia neste país, onde são obtidos os melhores resultados do mundo. E lá apenas 15% usam antipsicóticos, sendo que metade com o tempo acaba parando devido à melhora. No Brasil os psiquiatras afirmam categoricamente que esses medicamentos terão que ser usado pelo restante de nossas vidas, como podem ver na imagem abaixo:





terça-feira, 22 de outubro de 2019

Não venci o diazepan: a luta continua

   Quem acompanha o blog sabe que desde o ano de 2008 venho tentando me livrar dessa droga de droga chamada diazepan. Neste ano havia acabado de aumentar a dose de 10mg para 20mg, pois já não estava fazendo mais o efeito que inicialmente proporcionava. Mas, após um mês de uso os 20mg também não foram  suficientes para ajudar a conciliar o sono....
   Foi aí que parei e pensei que, naquele ritmo em pouco tempo iria ter que fazer igual o Michael Jackson para conseguir dormir, pedir pro médico me aplicar medicamento de anestesia de cirurgia... 
    Para quem não acompanha o blog e queira entender melhor a situação é  só digitar na caixa de pesquisa a palavra “DIAZEPAN” que irá encontrar as postagens referentes ao tema. E também tem as tags, na parte debaixo do blog, em que relaciono os assuntos. Também é outra forma fácil de se achar as postagens, pois escrevo esse blog desde o ano de 2012 e até o dia de hoje são 389 postagens. Algumas legais e outras nem tanto. 
    Na minha última postagem sobre o assunto diazepan, havia comentando que finalmente estava livre desse vício que estava atrapalhando e muito a minha memória recente. 
    Puro engano. Eu apenas achava que estava livre. E a verdade é que também me fazia bem ao meu ego sair por aí dizendo que havia vencido o vício do pan nosso de cada dia... 

Surtei por causa da abstinência?  
    Estava feliz por ter conseguido parar com a medicação. Os dias e noites foram passando. Aos poucos fui ficando cada vez mais irritado. Às vezes achava legal sentir o coração disparando, por causa de um susto ou emoção boa. Tinha saudades de sentir aquele friozinho na barriga ao passar por uma situação perigosa, por exemplo.  Os ansiolíticos me deixavam sem emoção e é uma sensação terrível se sentir um robô. Além da falta de emoção, o diazepan estava acabando com a  minha memória recente. Não estava conseguindo memorizar números  de celulares, nomes de pessoas e ruas e outras coisas simples que recordava com facilidade. A memória dos fatos ocorridos antes de começar a tomar o diazepan sinto que estão preservadas em minha mente. O esquecimento é  o natural  devido ao passar dos anos.
    E além dessa questão do esquecimento, estudos comprovam que o uso prolongado de calmantes  à base de benzodiazepínicos podem aumentar em mais de 50% a probabilidade de demência precoce e alzheimer.
Fonte: https://veja.abril.com.br/saude/uso-prolongado-de-calmantes-pode-elevar-risco-de-alzheimer/

   Além da irritação, a mania de perseguição também aumentava consideravelmente E acho que  surtei  e fiquei  fora do meu normal por um bom tempo. Pensava que nunca mais iria surtar por pensar que entendia alguma coisa de transtorno mental. E esse é o problema, quando achamos que dominamos algo, ficamos mais relaxados e distraídos. Pensava que iria saber quando estava começando a surtar e que poderia no momento que quisesse tomar algum medicamento forte e dar uma apagada e assim um zerar o stress.
   Mas o problema é que não percebi, pois o surto pode ser um processo lento e bem demorado.  E foi o que aconteceu. Estava feliz por que pensava que havia vencido a dependência física e psicológica do pan nosso de cada dia. Mas   não estava percebendo que a cada dia que passava as paranoias aumentavam... 
    Cheguei a ouvir uma voz bem nítida, dizendo que “iriam me atropelar”. Isto aconteceu quando estava andando de bike. Naquele  momento atribuí a voz à uma menina que estava sentada em um ponto de ônibus, pois a voz parecia ser feminina e ela era a primeira pessoa que tinha avistado. Hoje sei que foi uma alucinação, pois a voz estava num tom nem alto e nem baixo, era em um volume normal. Mas a menina estava distante de mim cerca de uns 40 metros, e a rua era bem barulhenta por causa da intensa movimentação de carros.
    Por estar meio acostumado a pirar, nesse surto não saí pelas ruas e br’s como fazia antigamente. E, de alguma maneira consigo disfarçar as coisas e deixar transparecer que está tudo bem. O disfarce é tão bom que até a gente mesmo pensa que está tudo bem. E esse é o maior perigo.
    Nos surtos não agrido as pessoas fisicamente. Antes fugia dos inimigos imaginários. Hoje também fujo, mas vez ou outra quando estou muito irritado faço coisas que  não são muito legais, como ofender e falar coisas não muito legais também. 
    Uma vez ofendi uma menina na entrada do banco e me arrependo muito disso. Para um paranoico como eu ir ao banco não é uma das melhores tarefas. Fico imaginado que os seguranças do banco estão falando no rádio de comunicação para ficarem me vigiando. Penso que eles pensam que eu sou daqueles que fazem algo no caixa do banco para conseguir acesso à conta de outros clientes. Quando consigo sacar o dinheiro da minha conta, dá até vontade de mostrar as notas para os seguranças. 
   Então foi em um dia desses que xinguei a menina na entrada do banco.  Entrei rapidamente para sair mais rapidamente. Ela ficou parada na porta e a ofendi. Estava há muito tempo sem tomar o diazepan e algumas noites sem dormir . Não estava conseguindo relaxar a musculatura nem quando ia no parque, para ficar sozinho e escutar o som dos pássaros cantando. E não foi somente essa menina que xinguei. Sei que isso não pode ser justificativa para ofender as pessoas, mas não é nada fácil ser um dependente químico de uma droga lícita que te faz esquecer muitas coisas. 
    No futebol no centro de convivência (Cersam) também fiquei sendo o chato da pelada. Quando não tocavam a bola pra mim ficava insuportável. Não sei como o pessoal me aguentou por todo esse tempo.Agora já normal, só fico um pouquinho chato com aqueles caras fominhas que não tocam a bola para ninguém. 
   Mas teve uma pessoa que não me arrependi de ter ofendido. Me arrependi da forma que a ofendi, pois apenas respondi a provocações premeditadas. Digo premeditadas pois a pessoa me provocava com certa frequência e com o celular na mão, para gravar a minha reação e distribuir o vídeo ou o áudio nas redes sociais. 
   Essa pessoa, que tem mais de 60 anos, é diabética e deve ter outros problemas de saúde. E vivia se queixando de que não havia se aposentado e não fazia nenhum esforço para esconder sua revolta em ver uma pessoa com menos idade aposentada (tenho 51 anos). E estou com saúde física relativamente boa, pois procuro me cuidar e praticar esportes. Esse senhor apesar de ter diabetes exagera na cachaça e acaba passando mal. Parece que não sabe que um dos piores inimigos do fígado é o álcool.
   Então, depois de vários meses ouvindo provocações, passei a revidar, pois nem sempre conseguia estar bem para relevar aquela situação. E quando ele me provocava logo de manhã quando havia acabado de acordar é que não conseguia me segurar. Sou um cara calado e que gosta de ficar na minha. Então em algumas vezes revidei a provocação fazendo gestos racistas e falando coisas não muito legais. Não sou racista, mas foi a forma que encontrei de ofendê-lo, pois já havia até conversado com a proprietária para que ele parasse com aquilo. Mas ela não podia fazer nada, afinal era uma criancice daquele senhor, que se divertia ao me ver irritado. No final das contas, ele acabou saindo do imóvel devendo quase dois anos de aluguel, cerca de cinco mil reais. Ficou lá esse tempo todo dizendo que iria pagar quando aposentasse... 
    E segui discutindo com outras pessoas, até fiz a loucura de passar com a camisa do Flamengo no meio da torcida do atlético mineiro na avenida Silviano Brandão. Quem acompanhou o futebol sabe como é a rivalidade entre essas duas equipes. Dois caras queriam me bater depois que gritei: -"Segue o líder!". Mas a maioria levou na brincadeira. Mas que foi uma loucura, isso foi. Muitas pessoas levam a sério demais o futebol, ou melhor, usam o futebol para descontar suas frustrações.
    Nas redes sociais também chegava a ter discussões tolas, mas isso eu parei, até mesmo surtado vi que esse tipo de discussão não leva a lugar nenhum. 
    E continuei nessa situação até o dia em que tive que tomar um anti-inflamatório por que tive uma torção no joelho. O remédio me deu um soninho gostoso e finalmente consegui relaxar a musculatura como há muito tempo não conseguia. E tomei o medicamento por três dias seguidos. Foi o suficiente para voltar ao meu normal e botar os pensamentos em ordem. 
    Mas em compensação o soninho provocado pelo anti-inflamatório me deu um prejuízo danado. Capotei de bicicleta perto da avenida Cristiano Machado, aqui em Belo Horizonte. Estava descendo a rua Jacuí em boa velocidade, não prestando atenção nem no sinal e nem no carro que estava na minha frente. O sinal fechou e como estava sonolento não consegui sair ileso daquela situação. Tive que frear bruscamente e acabei me desviando do carro para não ter que ficar arranhá-lo ou amassá-lo. Fui em direção ao meio fio e capotei, tendo alguns ferimentos. 
   É por esse e outros motivos que não tomo os antipsicóticos e nem ansiolíticos. Tenho que ter disposição para resolver meus problemas do dia a dia. O jeito é ir administrando da melhor maneira possível essa dependência, e não achar que estou livre do diazepan. Tenho que reconhecer que ainda sou um dependente químico, apesar de ser um vício que não pedi para ter, pois na consulta o médico simplesmente preencheu a receita, não me alertando sobre os possíveis riscos de uma dependência física e psicológica.

Lição aprendida?

    Agora, quando sentir que estou ficando com a musculatura tensa irei tomar um comprimido de diazepan. Consigo ficar várias noites sem usar, mas sei que mais dia menos dia o meu corpo irá pedir uma dose desse ansiolítico. Sinto que a dependência no momento é mais físico do que psicológica. No início era mais psicológica do que física, era um SOS na verdade. Naquela época estava trabalhando e os antipsicóticos não me deixavam executar as tarefas de um operador de som que tem que ficar várias noites acordado durante os shows e festas. 
    Acredito que atualmente posso surtar mais pela abstinência do ansiolítico do que pela própria esquizofrenia. Com o tempo ficamos meio que acostumados com certas situações que as paranoias nos proporcionam. Tipo assim: o cara quer me matar? AH, deixa pra lá, se me matar não tenho filho para criar mesmo...   
    Analisando a situação, tenho os mesmos pensamentos e paranoias de que quando surtei. Mas agora tudo isso já não é tanta novidade para assim. O que aprendi sobre a doença tem me ajudado bastante, e vou tentando de uma maneira ou outra ir levando a vida sem maiores prejuízos a mim e aos que me cercam. E sinto que, com a idade, os SINTOMAS POSITIVOS diminuem um pouco, dando lugar aos SINTOMAS NEGATIVOS
    Agora estou mais tranquilo, consigo ir almoçar no restaurante popular de bike sem muito stress, vou pedalando com mais tranquilidade. Ir ao banco continua sendo uma situação de stress, mas dá para ir levando relativamente numa boa. Até o futebol está sendo mais tranquilo e com menos xingação, só a zoação saudável mesmo. O futebol é onde tiro o meu stress, dando aqueles chutões na bola e não descontando nos outros.
         Apesar do retrocesso em ter que tomar novamente o diazepan em alguns dias, estou feliz, pois havia uma época em que não conseguia sair de casa sem uma cartela  de diazepan no bolso. Em 2014 nas minhas andanças cheguei a passear pelas ruas de São Paulo, chegando a morar por 8 meses na capital paulista. No início  foi complicado, quase  surtei quando tentaram roubar o meu notebook,  mas depois me adaptei e acabei gostando da cidade. O  pior da abstinência também acredito que tenha passado, quando diminui a dosagem de 10mg para 5mg e tive dores de cabeça  e palpitação no coração. E em  uma época  fui um hipocondríaco, qualquer alteração no batimento  cardíaco me deixava  desesperado, era um ciclo vicioso: o coração batia de forma esquisita e eu ficava tenso. E  ficando tenso o coração não batia bem. Cheguei a cismar que tinha coração grande, pois havia visto sobre esse problema em alguma revista ou na internet.
       Hoje sou uma pessoa mais reclusa, e é mais por opção mesmo. Não sinto tanta necessidade de me relacionar com as pessoas. Não que elas não prestem, que não valha a pena se relacionar. Sinto que gosto demais de minha companhia e que me sinto um pouco prisioneiro quando tenho que conviver com outros seres humanos. Enfim, é o meu jeito mesmo. 
    Às vezes é preciso retroceder para seguir adiante. Podemos perder uma batalha, mas a guerra contra o vício ainda continua e nunca perdendo a esperança de que um dia irei me livrar dessas drogas de drogas que não pedi para ficar dependente. 

Obs: as letras maiúsculas na cor verde são links que explicam os termos usados na postagem

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Pedalanças: últimos preparativos

 
    Com a ajuda que recebi consegui reformar a bike que ficou toda detonada após a minha primeira pedalança, viajando durante 55 dias pela região sudeste. 
    Agora, com um pouco de experiência irei não somente sair da região sudeste como do país: irei para o Uruguai.
    Ainda faltam alguns itens, como um bom colchão inflável e também um fogareiro.
O colchão que usei na primeira viagem era de espuma, e, com o tempo acabou ficando compactado e muito fino. Quando não conseguia arrumar papelão era uma sofrência danada na hora de dormir e geralmente acordava bem cansado, tendo quase sempre que tirar um cochilo durante o dia para conseguir pedalar cerca de 70km por dia. Esse colchão que pretendo adquirir não é daqueles azuis de supermercado, que custam em média 50 reais. Esses são bem pesados e grossos, difíceis de serem manuseados dentro de uma barraca pequena. O que estou pretendendo comprar é um mais fino e leve, e que custa cerca de 200 reais (foto).
    Outro item que irei levar para esta viagem é um fogareiro que irei montar, pois as coisas nos postos de gasolina geralmente são caras. Teve lugar que nem precisei pagar o cafezinho, mas em alguns lugares chegou a custar 2.50 reais, ou seja, metade de um pacote com meio quilo de café, que para mim dura quase um mês, pois gosto de um café bem forte. Já o pãozinho de queijo tinha lugar que chegava a custar 5 reais. . Emagreci muito nessa primeira viagem, por isso estou querendo fazer o fogareiro, para fazer ovo cozido, que é uma boa fonte de proteínas. 
    Para fazer este fogareiro tenho que comprar um tal de bico de Bunsen, que, no mercado livre custa cerca de 60 reais. Irei fazer um cafezinho e o ovo cozido para o café da manhã, pois são as únicas coisas que sei fazer na cozinha. Ovo frito não sei fazer direito, geralmente ele fica todo estourado e ainda tem a vantagem do ovo cozido ser mais saudável por não usar óleo.
bico de Bunsen, para fazer um fogareiro 

    Também dei um trato no visual da magrela, acho que vou colocar o nome dela de Sandy. Removi a pintura e agora ela está na cor prata. Troquei o pneu traseiro e também fiz um alforje para ser colocado no bagageiro dianteiro. Neste alforje levarei tudo o que preciso usar com mais frequência: câmera fotográfica, caderno e caneta para o diário da viagem, sabonete creme dental e itens de limpeza, além de biscoito, granola e outras coisas para enganar o estômago durante a viagem.
Também irei deixar as ferramentas e o kit para consertar algum eventual pneu furado. Foi um perrengue muito grande usar uma mochila no bagageiro dianteiro nesta primeira viagem. Qualquer coisa que precisava tinha que desamarrar tudo para pegar o que estava precisando. E a mochila era amarrada e com frequência ficava balançando e às vezes soltava. 
    Creio que foram esses os piores perrengues dessa minha primeira viagem, além do que não posso mudar, como as condições climáticas, como chuvas, forte calor, etc... Mas isso faz parte da caminhada. 
   Outro perrengue que não citei era que a água das garrafinhas esquentava rapidamente quando estava fazendo muito calor. Cheguei a pegar 45° C na divisa de Minas Gerais com o Espírito Santo. Vou tentar bolar uma proteção de alumínio para serem fixadas no suporte das garrafinhas na bike. Fiz um teste com latinha de refrigerante e até que demorou um pouquinho para que a água esquentasse. Quando estava fazendo 45°C a água esquentava em menos de dez minutos, e aí tinha que rezar para encontrar algum estabelecimento ou casa o caminho para trocar a água. 

   No mais não tive tantos perrengues, a primeira viagem serviu para pegar experiência. E os percalços fazem parte do caminho, é como na vida mesmo. Estou muito ansioso para fazer esta viagem, acredito que no sul não deva fazer tanto calor como fez aqui na região sudeste no início deste ano. Até que tenho vontade de viajar de bike pelo nordeste, mas não sei se irei aguentar as altas temperaturas. 
    Não tenho certeza se irei até a capital do Uruguai, acho que vou me sentir um estranho no ninho em um outro país com uma língua um pouco diferente, se bem que sei falar um pouco o portunhol. (a verdade é que me sinto o estranho no ninho até no meu bairro shasuahsuas) Entender o que os caras dizem é um pouco difícil, pois os que já vi conversando falam muito rápido. Acho que irei só até a primeira cidade depois da fronteira, só para poder ficar falando por aí que viajei de bike para um outro país. Ainda não fiz a rota, mas pretendo ir o máximo possível pelo litoral. 
    A minha vontade era de sair já no mês passado, estou com saudades de sentir o vento batendo no meu rosto, de pedalar vendo o pôr do sol, conhecer novos lugares. Tenho saudades de poder sair um pouco da rotina e também da aventura. Sempre gostei de andar por aí, quando criança sai por Belo Horizonte sem destino, ficando perdido algumas vezes. Teve uma vez que uma senhora teve que me levar até o ponto de ônibus na praça da liberdade e explicar para o trocador o ponto onde iria descer. Acho que na época tinha uns dez anos, e ainda dava para uma criança ficar andando sem  rumo pela  capital. 
   E tenho saudades também de conhecer novas pessoas, apesar de que sou bastante antissocial. Nesses dois meses da minha primeira viagem conversei mais do que o ano passado inteirinho. As pessoas me paravam e perguntavam de onde eu vinha e para onde ia. Aí começava o bate papo e, como bom mineiro sempre gostei de um dedo de prosa, mesmo tendo uma enorme mania de perseguição que me persegue aonde quer que eu vá. 
    Estou fugindo da loucura da cidade grande, mas nessa fuga é onde acabo me encontrando. 
   Mas não quero passar os perrengues que passei na primeira viagem, vou me equipar melhor e esperar o décimo terceiro salário e comprar o que está faltando. Mas quem puder ajudar pode entrar em contato comigo pelo email abaixo, ou então fazer a doação para a seguinte conta. 
memoriasdeumesquizofrenico555@gmail.com
Julio Cesar dos Santos de Oliveira
   Agência 2332 Ipatinga MG
   Caixa Econômica Federal
   Operação 023
   Conta 00016678-2
    Quem já ajudou não precisa ajudar novamente, não quero sacrifício de ninguém, ainda mais nessa crise que estamos passando. 
    Também podem contribuir adquirindo o meu livro Mente Dividida, em que narro a minha relação com a esquizofrenia. Quem leu gostou muito. Acredito que é um bom livro, apesar de que não me considero um escritor. 
    No mais obrigado à todos por estar sempre me apoiando al longo dos anos

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Nova pedalança em 2019! Partiu Uruguai!!!

agora serão 2400km, isso se não acabar gostando e viajando pela América do Sul

    Depois de 3050km pela região sudeste, estou me propondo um desafio ainda maior. Viajar de bike até o Uruguai. Serão 2400km, ou seja, pedalarei um pouco menos, mas o desafio desta viagem é sair da minha zona de conforto, que é a região sudeste. 
   Era a minha primeira viagem, e por isso resolvi não ir muito longe, pois, caso ocorresse algo inesperado, seria mais fácil buscar ajuda. Mas tudo correu bem e agora não irei sair somente da região onde moro, como também do país!!!
    Vai ser um desafio físico e psicológico também. Conhecer uma cultura diferente e tentar me virar em regiões que não conheço. Pode parecer fácil essa tarefa para qualquer um, mas para mim não é. Sou um cara que mal conversa com meus vizinhos. Tem dias que, quando boto a cabeça no travesseiro, consigo contar todas as palavras que falei durante todo o dia. Não sei se irei pirar ao ouvir e ver tantas pessoas conversando em um idioma diferente do que o meu...
    Acho que pode acontecer duas coisas: ou eu aprendo bem o portunhol e acabe me enturmando ou então a minha mania de perseguição me faça imaginar que todos estão tramando algo contra o brasileiro aqui. Se bem que, pelo que sei, não existe assim tanta rivalidade entre brasileiros e uruguaios.
    Nessa minha primeira pedalança até que me saí bem, conversei com muitas pessoas, perdendo um pouco o receio de ser hostilizado por ser um viajando de bicicleta. Claro que isso aconteceu, mas conheci muita gente bacana. Foi tudo tão bom que resolvi fazer de novo. Sabia que iria sentir saudades daquela liberdade toda, o vento no rosto, de cada dia estar em um lugar diferente. 
    Estou treinando meu portunhol e acabando de reformar a minha bike, pois a parte de rolamento e engrenagem está toda desgastada. Também irei fazer um alforje, pois foi um grande incômodo ficar amarrando as mochilas nos bagageiros. 
    Infelizmente meu salário de aposentado não está dando para fazer tudo, e gostaria de mais uma vez pedir ajuda aos leitores e amigos do blog para que acabe de reformar a bicicleta. Qualquer ajuda é bem vinda e pode ser depositado na conta abaixo:
Julio Cesar dos Santos de Oliveira
   Agência 2332 Ipatinga MG
   Caixa Econômica Federal
   Operação 023
   Conta 00016678-2
a bike já está quase pronta

    Também podem ajudar adquirindo o meu  livro, chamado Mente Dividida, em que narro a minha relação com a esquizofrenia. 
O valor do livro no formato em PDF é dez reais.
    Se você mora em outro país também pode contribuir através do paypal. 
    Não tenho vergonha nenhuma em pedir, teria vergonha se estivesse roubando ou trapaceando. É a minha maneira de tentar ser feliz, sempre gostei de viajar, e se não é possível fazer isto de carro ou ônibus e dormindo em hotel, vamos de bicicleta mesmo e de barraca no bagageiro. 
Qualquer dúvida enviem um email para
memoriasdeumesquizofrenico555@gmail.com
Obs: existe um email quase semelhante à este, porém sem os números 555. Este email não tem nenhum vínculo ou relação com a minha pessoa. 
Mais uma vez obrigado à todos que me ajudaram até o dia de hoje..


sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Antipsicóticos e efeitos colaterais-A medicalização dos sentimentos

Antipsicóticos tem efeitos colaterais?


   Estou repassando este interessante texto que encontrei por aí navegando pela internet. Antes de tudo gostaria de dizer que não sou adepto da antipsiquiatria, mas também não sou muito fã desses medicamentos atuais e nem dos mais antigos usados no tratamento dos transtornos mentais. Não é questão de ficar em cima do muro, é que acredito sim que exista o sofrimento mental, mas também acredito que alguns profissionais da saúde mental exageram, querendo classificar à tudo e à todos como doentes.
    Me acho com autoridade para falar sobre este assunto, apesar de não ser um profissional da saúde mental. Não sou "o esquizofrênico" e sim uma pessoa que tem os sintomas que as pessoas chamam de esquizofrenia. Não sou louco, se sou, é na visão de algumas pessoas preconceituosas. Aliás, sou louco sim, louco para viver e para ser feliz. E posso sim falar sobre o assunto, e até acredito que o grande erro no Brasil sobre o tratamento dos transtornos mentais é não ouvir os pacientes. Aliás, quem deve ser paciente são os médicos, e não nós...
    Posso falar com autoridade pois já usei praticamente todos os antipsicóticos usados, desde os mais antigos como os mais novos, chamados de segunda geração. E todos eles, no meu caso, tiveram efeitos colaterais que relato aqui no blog.
    E também acredito que posso falar sobre o assunto pois sempre fui uma pessoa curiosa e já estudava um pouco de psicologia antes mesmo de ter os meus primeiros surtos psicóticos.
    Sonolência, cansaço, fadiga, aumento de peso, aumento das taxas de triglicerídeos e colesterol foram os sintomas mais recorrentes que tive usando os antipsicóticos. Também tive rigidez muscular e  acatisia, que, resumindo, é uma vontade louca de sair andando sem parar.
    E estava me sentindo apático, um robô, era como se tivessem roubado minhas emoções. Não surtava, mas também não vivia.



 "Aos 30 anos, você tem uma depressãozinha, uma tristeza meio persistente: prescreve-se FLUOXETINA.

A Fluoxetina dificulta seu sono. Então, prescreve-se CLONAZEPAM, o Rivotril da vida. O Clonazepam o deixa meio bobo ao acordar e reduz sua memória. Volta ao doutor.

Ele nota que você aumentou de peso. Aí, prescreve SIBUTRAMINA.

A Sibutramina o faz perder uns quilinhos, mas lhe dá uma taquicardia incômoda. Novo retorno ao doutor. Além da taquicardia, ele nota que você, além da “batedeira” no coração, também está com a pressão alta. Então, prescreve-lhe LOSARTANA e ATENOLOL, este último para reduzir sua taquicardia.

Você já está com 35 anos e toma: Fluoxetina, Clonazepam, Sibutramina, Losartana e Atenolol. E, aparentemente adequado, um “polivitamínicos” é prescrito. Como o doutor não entende nada de vitaminas e minerais, manda que você compre um “Polivitamínico de A a Z” da vida, que pra muito pouca coisa serve. Mas, na mídia, Luciano Huck disse que esse é ótimo. Você acreditou, e comprou. Lamento!

Já se vão R$ 350,00 por mês. Pode pesar no orçamento. O dinheiro a ser gasto em investimentos e lazer, escorre para o ralo da indústria farmacêutica. Você começa a ficar nervoso, preocupado e ansioso (apesar da Fluoxetina e do Clonazepam), pois as contas não batem no fim do mês. Começa a sentir dor de estômago e azia. Seu intestino fica “preso”. Vai a outro doutor. Prescrição: OMEPRAZOL + DOMPERIDONA + LAXANTE “NATURAL”.

Os sintomas somem, mas só os sintomas, apesar da “escangalhação” que virou sua flora intestinal. Outras queixas aparecem. Dentre elas, uma é particularmente perturbadora: aos 37 anos, apenas, você não tem mais potência sexual. Além de estar “brochando” com frequência, tem pouquíssimo esperma e a libido está embaixo dos pés.

Para o doutor da medicina da doença, isso não é problema. Até manda você escolher o remédio: SILDANAFIL, TADALAFIL, LODENAFIL ou VARDENAFIL, escolha por pim-pam-pum. Sua potência melhora, mas, como consequência, esses remédios dão uma tremenda dor de cabeça, palpitação, vermelhidão e coriza. Não há problema, o doutor aumenta a dose do ATENOLOL e passa uma NEOSALDINA para você tomar antes do sexo. Se precisar, instila um “remedinho” para seu corrimento nasal, que sobrecarrega seu coração.

Quando tudo parecia solucionado, aos 40 anos, você percebe que seus dentes estão apodrecendo e caindo. (entre nós, é o antidepressivo). Tome grana pra gastar com o dentista. Nessa mesma época, outra constatação: sua memória está falhando bem mais que o habitual. Mais uma vez, para seu doutor, isso não é problema: GINKGO BILOBA é prescrito.

Nos exames de rotina, sua glicose está em 110 e seu colesterol em 220. Nas costas da folha de receituário, o doutor prescreve METFORMINA + SINVASTATINA. “É para evitar Diabetes e Infarto”, diz o cuidador de sua saúde(?!).

Aos 40 e poucos anos, você já toma: FLUOXETINA, CLONAZEPAM, LOSARTANA, ATENOLOL, POLIVITAMÍNICO de A a Z, OMEPRAZOL, DOMPERIDONA, LAXANTE “NATURAL”, SILDENAFIL, VARDENAFIL, LODENAFIL ou TADALAFIL, NEOSALDINA (ou “Neusa”, como chamam), GINKGO BILOBA, METFORMINA e SINVASTATINA (convenhamos, isso está muito longe de ser saudável!). Mil reais por mês! E sem saúde!!!

Entretanto, você ainda continua deprimido, cansado e engordando. O doutor, de novo. Troca a Fluoxetina por DULOXETINA, um antidepressivo “mais moderno”. Após dois meses você se sente melhor (ou um pouco “menos ruim”). Porém, outro contratempo surge: o novo antidepressivo o faz urinar demoradamente e com jato fraco. Passa a ser necessário levantar duas vezes à noite para mijar. Lá se foi seu sono, seu descanso extremamente necessário para sua saúde. Mas isso é fácil para seu doutor: ele prescreve TANSULOSINA, para ajudar na micção, o ato de urinar. Você melhora, realmente, contudo... não ejacula mais. Não sai nada!

Vou parar por aqui. É deprimente. Isso não é medicina. Isso não é saúde.

Essa história termina com uma situação cada vez mais comum: a DERROCADA EM BLOCO da sua saúde. Você está obeso, sem disposição, com sofrível ereção e memória e concentração deficientes. Diabético, hipertenso e com suspeita de câncer. Dentes: nem vou falar. O peso elevado arrebentou seu joelho (um doutor cogitou até colocar uma prótese). Surge na sua cabeça a ideia maluca de procurar um CIRURGIÃO BARIÁTRICO, para “reduzir seu estômago” e um PSICOTERAPEUTA para cuidar de seu juízo destrambelhado é aconselhado.

Sem grana, triste, ansioso, deprimido, pensando em dar fim à sua minguada vida e... DOENTE, muito doente! Apesar dos “remédios” (ou por causa deles!!).

A indústria farmacêutica? “Vai bem, obrigado!”, mais ainda com sua valiosa contribuição por anos ou décadas. E o seu doutor? “Bem, obrigado!”, graças à sua doença (ou à doença plantada passo-a-passo em sua vida).MAS O POVO NÃO ACORDA!"

Dr. Lair Ribeiro

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Fone de ouvido


  Não é a primeira vez que abordo sobre os fones de ouvido aqui no meu humilde blog. Antes de lesionar o dedão do pé esquerdo não saia de casa sem antes ligar o player de música do celular e aumentar o volume até o máximo possível.
   Já havia até procurado programas para conseguir aumentar ainda mais o volume dos telefones. Mas isso não existe. Para ter um som bom e alto, o celular deve ter os componentes adequados e de qualidade para isso. E os fones também estão nessa. Não será um aplicativo que fará o seu celular ter aquele sonzão que fica parecendo ser uma caixinha de som. 
    Mas depois que detonei o meu hálux esquerdo passei a andar mais de bicicleta mesmo. E, por medida de segurança, passei a deixar o celular em casa. Belo Horizonte é uma grande e, como tal, tem um trânsito complicado e chegando a ser caótico nos horários de pico. Apesar dos motoristas da capital mineira serem bem educados devemos estar atentos 100% ao trânsito, tanto visualmente como auditivamente falando. 
    O fone de ouvido é como se fosse uma válvula de escape do mundo real. Com ele não presto tanta atenção ao que está acontecendo ao meu entorno. E também me livra de ficar escutando aqueles papos bestas, apesar de sempre ter uma pessoa chata que insiste em conversar com a gente mesmo vendo que estamos com os fones de ouvido:
     - Tá calor hoje né?
    - Acho que vai chover...
    - Você viu o jogo ontem?

        As vozes que escutava, reais ou imaginárias, quase não chegam ao meu cérebro quando estou escutando música. E, quando chegam, não soam tão nítidas, às vezes tenho a leve impressão que o ruído faz parte da música que estou escutando no momento, principalmente se for um heavy metal bem pesado, tipo Sepultura ou Slipknot... 
    Esse desligamento quase total do mundo real que o fone de ouvido me proporciona é uma maravilha, mas pode ser um tanto o quanto perigoso quando estou pedalando. E por ainda querer viver um bom tempo resolvi parar de usar. 
    E ultimamente estava ficando um pouco irritado, prestando muita atenção ao que acontecia à minha volta. Prestava atenção se estavam falando de mim, se estavam rindo de mim, ou se estavam planejando algo contra a minha pessoa. Coisas que todo bom paranoico têm... 
    O jeito foi arriscar e sair em um belo domingo de sol com a bike e o fone de ouvido. Fui ajustando aos poucos o volume em um nível que dava para escutar e apreciar a música, e também ouvir as buzinas dos carros...
    Foi uma delícia! Novamente andando nas ruas quase que completamente desligado de tudo! Além de me desconectar desse mundo complicado em que vivemos, a música também tem o poder relaxante. Claro que irei procurar evitar de ouvir heavy metal quando estiver pedalando. A não ser quando estiver atrasado para algum evento.
    A única coisa chata no fone de ouvido é que é quase um produto descartável, alguns têm um prazo de validade maior do que o outro, mas todos acabam estragando mais dia menos dia... 
    De agora em diante não sairei de casa sem o meu amigo inseparável fone de ouvido. E que se dane o mundo com suas discussões inúteis e chatas... 
    

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Vídeo Pedalanças 2019

     Como havia prometido, acabei de editar o vídeo de minha viagem pela região sudeste, entre os meses de fevereiro e março de 2019.
     Apesar de minha dicção ser péssima resolvi gravar alguns vídeos durante a viagem e acho que o resultado ficou bom. Claro que não ficou profissional, mas o que vale é o registro das boas coisas que acontecem em nossas vidas. 
    Não registrei tudo, obviamente. Se fizesse isso, não iria curtir a viagem e sim viajaria para poder ter algo para editar. 
    A minha intenção inicial era viajar até o litoral do Espírito Santo e voltar para casa de ônibus. Mas foi tudo tão bom que acabei pedalando mais de 3000km. 
    Pretendo fazer mais uma longa viagem este ano, não sei se para o Uruguai ou outro lugar, pois a região sudeste já conheço bem. A verdade é que ainda tenho um pouco de receio de viajar de bike para longe. 
    Mas os medos estão ai para serem enfrentados. Aceito sugestões de viagem. 
    A bike me surpreendeu, pois aguentou bem o ritmo, dando poucos defeitos. E eu até que fui bem também, afinal tenho 50 anos.
    Mas a bike apresentou o desgaste natural, e terei que trocar toda a parte de câmbio: corrente, pedivela, movimento central, catraca, pedal etc...
    Já fiz um orçamento e deve ficar em torno de 300 reais. Quem puder ajudar entre em contato comigo através dos comentários ou então pelo email
memoriasdeumesquizofrenico555@gmail.com
Obs: existe um email memoriasdeumesquizofrenico@gmail.com  (sem  os números) que não tem nenhum vínculo com o blog. 
    Mais uma vez obrigado à todos que me acompanharam por mais esta jornada, que acredito ser a primeira de muitas. 
    Também podem ajudar adquirindo o livro Mente Dividida, no formato PDF. O valor é dez reais. 
Julio Cesar dos Santos de Oliveira
   Agência 2332 Ipatinga MG
   Caixa Econômica Federal
   Operação 023
   Conta 00016678-2

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Último dia pedalanças- Região sudeste

    
Serro-Milho Verde-Diamantina
      A noite no posto de gasolina foi bem tranquila, só interrompida quando a chuva de vento começou a cair e a inundar o chão da borracharia onde havia montado a barraca. Tive que fazer uma pequena mudança mas deu para descansar bem e acordei bem disposto. 
     Mas por volta das seis horas da manhã a chuva ainda continuava, me deixando um pouco desanimado para começar a pedalar os 66km até Diamantina, já que boa parte do caminho é feito em estrada de terra. Por que logo no último dia iria chover?
        O jeito foi esperar e, para a minha alegria a chuva cessou e o sol apareceu, aquecendo meus ânimos também. 
    Tomo um bom café da manhã, afinal pode ser o último dia dessas pedalanças 2019. Se tudo der certo devo chegar hoje mesmo em Diamantina. O caminho é feito basicamente por subidas e descidas de média intensidade, quase sem retas. Mas tem um visual bem bacana, com formações rochosas bem interessantes e diferentes das quais havia visto até o dia de hoje nesta viagem. 
    Pouco movimento na Br, um ou outro carro ou moto passando, provavelmente turistas indo para o distrito de Milho Verde. Era tudo o que precisava para terminar com paz e tranquilidade esta minha primeira viagem de bike. É uma serenidade que não sei até onde poderá ir, pois na estrada real é complicado dizer que a coisa está fácil logo pela manhã.
 
Serro-MG

     E segui o caminho, olhando para os lados para contemplar aquelas formações rochosas bem bacanas, lembrando um pouco São Thomé das Letras. E havia também muitas vertentes de água pelo caminho, me deixando mais tranquilo em relação ao banho do dia. E também o suprimento de água para beber. Nada como uma água pura e limpa direto da fonte.
    

    Devo ter chegado em Milho Verde por volta de onze horas. E fui logo pegando um rango caseiro, pois ainda teria que andar cerca de 33km e por muitas subidas íngremes, segundo o site da estrada real. É um distrito bem pequeno, acho que deve ter mais pousadas do que casas mesmo. Confesso que esperava um movimento maior, por ser um sábado. Provavelmente boa parte dos turistas devem estar nas cachoeiras que são muitas na região. Procurei alguma lanchonete ou padaria para comer alguma coisa de sobremesa. Não sei muito da história deste distrito, mas pensava que teria muitos quitutes de milho verde. Queria comer alguma coisa de milho: sorvete, bolo, pamonha, qualquer coisa. Mas não achei. O jeito foi comprar um picolé para adoçar a boca.
 


    Depois segui para o distrito de São Gonçalo do Rio das Pedras, distante 6km de Milho Verde. Muita subida em terreno irregular. Estrada real não tem dia de 100% de tranquilidade. Mas é um caminho com visual bacana e para ser feito com calma e tranquilidade. E foi o que fiz. Já não queria mais me desgastar e fui pedalando com tranquilidade e serenidade, com a certeza e a confiança de que a missão será cumprida.

 
São Gonçalo do Rio das Pedras


    Depois de São Gonçalo segui o caminho passando por alguns distritos menores em uma estrada de terra com alguns buracos, mas nada de muito complicado. A beleza do lugar valia a pena, aquele visual me dava uma sensação de paz que há muito tempo não sentia. Acho mesmo que a última vez que me senti assim foi quando estava viajando a pé. pelo caminho velho da estrada real, em 2012.
    Confesso que foi melhor ir a pé do que de bike. A pé o contato com as pessoas é bem maior. E também com os cachorros. Toda vez que passava em frente de uma casa no caminho vinha aquele monte de dogs latindo. De bike até que não tem tanta vantagem quando a estrada é de terra, ainda mais quando estamos levando muita bagagem. Bicicleta eu prefiro andar na Br mesmo. 
     De repente o tempo começa a fechar. Logo atrás de mim nuvens escuras começam a aparecer e parecem que estão me seguindo. Mas como já disse, perdi o medo da chuva e fui tomar banho em uma vertente de água enquanto não me molhava com a água que iria cair dos céus. 
     Por volta das duas e meia da tarde finalmente consigo chegar ao as asfalto que me levaria à Diamantina. São 18km , porém com muita serra. As nuvens carregadas estão agora por todos os lados, e dá para ver que em algumas regiões está caindo muita água. Mas, por incrível que parece não chovia aonde eu estava. Às vezes passava uma chuvinha bem fraquinha e bem ligeira, não chegando nem umedecer a minha roupa. Só ajudava a dar uma refrescada boa. 

De tarde o tempo fechou...
    E continuei subindo aquela serra que parecia não acabar mais. E na subida fica um pouco difícil de se calcular o quanto andamos por causa da sensação de sofrência. Andamos pouco mas pensamos que andamos muito. Mas o cansaço valia a pena, pois quanto mais subia mais bonito ficava o visual. Pesquisei na internet sobre essa região e ouvi dizer que esse trecho antes de Diamantina era tudo mar. Estava ficando bastante cansado de ter que ficar empurrando a bike sem descanso. Sabia que iria ter que partir para o sacrifício se quiser chegar em Diamantina ainda hoje. 
     Mas era um cansaço gostoso, que era vencido pela vontade de cumprir mais essa missão. Um filme de toda a viagem começa a passar em minha cabeça: a incerteza do início, quando estava pedalando meio sem jeito pela primeira vez a bike com bagageiro dianteiro. As dificuldades que passei, o sol forte, as chuvas, a lama do caminho, as pessoas que conheci e conversei no caminho. 
    Estava me sentindo mais leve não por que havia perdido 4kg nas pedaladas. Era uma leveza interior, por que estava completando uma viagem que muita gente me disse que não iria conseguir fazer. E também por que estava completando os quatro caminhos da estrada real, coisa que pensei que nunca mais iria conseguir depois que havia quebrado o dedão do meu pé esquerdo. Passei alguns anos um pouco mal por não conseguir andar mais como andava antigamente. 
    Mas mais uma vez consegui meio que renascer das cinzas e estou completando uma viagem de mais de 300km pela região sudeste. 
      Essa ânsia de me fazer chegar ao destino me dava uma força incrível e nem mesmo quando vi uma serra super íngreme ao fundo da BR fiquei desanimado. Comecei a subir na maior vontade. Um garoto de bike me acompanhou no início da subida me fazendo perguntas do caminho. 
    Já devia ser por volta de seis horas da tarde e faltava cerca de 8km para o final. Claro que dei vários gritos, que ecoavam nos montes e vales daquela bela região. Era uma mistura de êxtase e de alívio. Esses anos todos fiquei pensando em como iria completar os 4 caminhos da estrada real. 
serra braba antes de chegar em Diamantina


    Depois de subir cerca de 5km de serra íngreme finalmente encontrei uma reta. O visual era ainda mais bonito. E passavam poucos carros na BR. E não fui atingido pela chuva que me cercava pelos quatro lados. Já conseguia avistar as luzes da cidade de Diamantina, mas ainda teria que pedalar muito para chegar ao centro da cidade. 
     Devo ter chegado na entrada da cidade por volta das nove horas da noite. É tudo muito escuro. Mas estava com uma energia incrível e não pensava em montar a barraca em outro lugar a não ser no centro de Diamantina. E fui passando pelos bairros, pegando informações com os moradores. Muito morro em ruas de pedra. 
    Mas nada era empecilho naquela hora. Já estava quase no meu limite físico e não parava para descansar. Com muito esforço e sacrifício cheguei no centro de Diamantina por volta das dez horas da noite. Muitos barzinhos abertos com cadeiras espalhadas pelas calçadas. Tinha um que chegava a fechar a rua, pois tinha apresentação de artistas. A vida noturna em Diamantina dizem que é muito agitada, como também o cenário musical. Havia muitas pessoas também saindo das igrejas. 
     Sensação boa de ter chegado ao final dessa missão. Não vibrei, não gritei, sou um cara bastante tímido. Mas fiz aquele lanche na padaria. Difícil descrever o que estava sentindo naquele momento. O que posso relatar é que estava me sentindo mais leve, que havia tirado um peso de meu ombro. 


  Fui para a rodoviária, pois foi difícil achar algum lugar coberto e plano para montar a minha barraca. O funcionário que vendia passagens foi muito gente boa e permitiu que eu montasse a minha barraca. Estava mais do que feliz. Estava tão feliz que nem me importei quando apareceu um cara estressado e infeliz querendo implicar comigo. Ele até chamou a polícia e disse para os guardas que a última vez que um maluco havia montado barraca na rodoviária tinha quebrado tudo. Claro que nem liguei para o fato, pois além de muito feliz estava muito cansado para dar atenção aquele tipo de pessoa. E o cara estava tão sem razão que os policiais nem conversaram comigo, pois eles viram que eu estava apenas no meu cantinho querendo descansar para pegar viagem no dia seguinte. 


A volta
     Acordei por volta das seis e meia da manhã.. Dormi que nem uma pedra de tão cansado que estava. Era domingo e foi o melhor dia da semana para iniciar o caminho de volta para casa, em Belo Horizonte. O céu estava limpo, estava fazendo aquele friozinho gostoso. Esperei a padaria abrir e claro que comprei pão de queijo para celebrar o dia. E também um diamante negro de sobremesa.
    Peguei a BR 259 e depois seguir pela 040 para voltar para BH. A BR 259 é uma delícia sentido Diamantina-Belo Horizonte, pois tem diversas descidas de 5km!  E também tem um lindo visual, com muitas formações rochosas características da região. Não tirei fotos, pois queria curtir aquele dia maravilhoso. Acho que se até chovesse seria um dia lindo para mim.
    Claro que cantei durante a viagem. Cantei e gritei também. Foi uma sensação única, pois tentei comparar com alguma coisa que já havia sentido em minha vida e não encontrei.

Agradecimentos
    Na maioria das vezes procuro não citar nomes ou pessoas com receio de estar cometendo alguma injustiça. Mas vou tentar:
    Gostaria de agradecer à todos os leitores do blog e da minha página no facebook. Algumas pessoas me ajudaram financeiramente, pois a bike deu alguns defeitos durante a viagem. E claro que também agradeço aos que me deram força com palavras de incentivo. Sei muito bem o que pensamento positivo pode fazer. Não é para qualquer um viajar 3050km em uma bike simples aos 50 anos.
    Gostaria de agradecer também: aos mecânicos de bike que encontrei pelo caminho, todas as pessoas que vieram conversar comigo e me incentivar. Todos os proprietários de restaurantes que me forneceram comida quando tive que gastar com a manutenção da bike e ficava sem grana. Os donos de postos de gasolina que deixaram montar a minha barraca. Gostaria de agradecer imensamente à todos os motoristas de caminhão e carretas que conheci e também aos que não conheci por me respeitarem na BR. Nesses 52 dias de pedalanças não tive nenhum problema e nenhum acidente. E também agradeço aos motoristas de carro que também respeitaram bastante o esquizo ciclista.
     Também não posso deixar de agradecer à todas as pessoas que me forneceram água geladinha no caminho. Teve um cara que até me ofereceu sorvete quando me viu meio cansado sentado na BR. Também teve uma senhora que me ofereceu um delicioso bolo com cafezinho quando fui pedir apenas água.
     Gostaria também de agradecer ao pessoal da Casa das Bicicletas Bifão, em Mantena-MG.
    Também gostaria de agradecer aos donos de comércio que me deram desconto quando a grana estava curta e também ao pessoal que faz caldo de cana e pastel de queijo, que foi uma das delícias desta viagem. Sentir o delicioso caldo de cana descendo pela goela em um dia quente é uma das melhores coisas do caminho.
    Provavelmente esqueci algumas pessoas, mas muito obrigado à todos de verdade.
    E, claro, ao Criador, este sempre agradeci e continuo agradecendo até hoje. Apesar das dificuldades só tenho que agradecer.
   Em breve irei postar no meu canal do youtube o filme que estou editando com os vídeos e as fotos da viagem. Assim que estiver pronto avisarei por aqui.
   E em breve também mais pedalanças, talvez ainda este ano, caso consiga fazer a manutenção que preciso fazer na bike.
 

domingo, 16 de junho de 2019

51º dia pedalanças- 4ª etapa- Estrada Real Caminho dos Diamantes


Tapera-Serro-MG
    A noite na barraquinha de quermesse da igreja não foi das melhores. Foi bem tranquila, mas não dormi direito por que o terreno era bem inclinado e não consegui relaxar a musculatura. Virava daqui, virada dali e não conseguia achar uma posição para ficar de boa e pegar no sono. 
    Acordei bem detonado. Para piorar ainda mais a situação, a única padaria da cidade ficava na entrada e ainda por cima tinha que subir um morrão daqueles bem típicos da região. E a única coisa que dá uma amenizada nessas manhãs de estrada real em que acordo detonado é um belo café da manhã. Mas, quando cheguei na padaria a decepção: só tinha pãozinho de sal e café... 
    Não que eu seja uma pessoa exigente, adoro um pãozinho quentinho e um bom cafezinho, como todo bom mineiro. É que quando acordo cansado e não tão disposto, tenho que consumir bastante chocolate para aumentar os meus níveis de serotonina e elevar o bom humor e a disposição. Então como bolo de chocolate com cenoura, chocolate, brigadeiro e, claro, tomo toddynho. Âs vezes exagero nessa comilança de chocolate misturada com café e fico a mil por hora, e um pouquinho nervoso e agitado. 
    Depois do café parto para o distrito de Itapanhoacanga subindo uma serra das brabas. O jeito foi empurrar a bike. Acho que quase metade desse caminho dos diamantes nos últimos dias tem sido a pé, empurrando a magrela. Ou você está subindo ou estão descendo. 
     O calor já aparecendo e aquela sofrência danada fazem a gente pensar que se fizesse o caminho inverso seria melhor com mais descidas. Na verdade é mais ou menos equilibrado, até o site da estrada real informa o quanto de subida e descida tem cada percurso. 
    Mas depois de alguns quilômetros de subida, a recompensa: a serra do Espinhaço!

         O lindo visual me fez ficar de bom humor naturalmente e até comecei a dar uns gritos de alegria para ouvir o eco nos montes. Quando estou fazendo esse tipo de viagem solto uns gritos meio loucos como esses que soltei na serra do Espinhaço. Acho que é para descontar um pouco, pois geralmente sou um pacato cidadão de pouca conversa. 
    Logo apareceu um cara com uma moto e me ofereceu maconha. Claro que recusei, não preciso de drogas para ter momentos de felicidade. Ser feliz acho um pouco difícil de ser nesse mundo em que vivemos. O cara ainda insistiu e tive que dar um não mais sonoro e com aquela encarada....
    Não sou moralista, acho que cada um pode fazer o que quiser de sua vida, desde que não prejudique a do próximo. E esses momentos com a natureza gosto de curtir sozinho. Aliás, quase tudo na minha vida tem sido sozinho depois que comecei a ter os surtos psicóticos. 
     Essas pedalanças acredito que estão sendo, além de uma aventura, a necessidade de me isolar por um bom tempo. Não tenho condições de alugar um barracão, sempre moro alugando quartos e tendo que conviver com várias pessoas. 
    Depois das fotos da serra do Espinhaço sigo o caminho, que agora tem boas descidas. Chego em Itapanhoacanga por volta das onze horas da manhã. Fui logo almoçando por que o tempo estava nublado e ainda pretendia chegar no Serro ainda hoje. 
    Conheci a Lana, que estava andando de moto na cidade e começamos a conversar sobre trilhas, viagens, aventuras, etc. Ela também gosta de acampar. 
    
    Depois do almoço, sigo a caminhada, apesar do forte vento indicando que iria cair uma forte chuva na região. Aliás, do alto da serra dava para ver que já estava chovendo em várias regiões. Mas após essas pedalanças acabei perdendo o medo da chuva. E continuei a pedalar. Aos poucos os pingos foram engrossando e começou a cair uma grande tempestade. 
    Para piorar, o caminho que a Lana havia me indicado era o caminho mais fácil de se seguir, e não o caminho da estrada real, pois não estava avistando os marcos. O jeito foi continuar, ficar perdido no meio da chuva era o que menos precisava naquele momento.
    Muita lama e a todo momento a corrente da bike ficava meio enrolada e tinha que parar para dar uma limpada no sistema de marchas da magrela. E tinha que pedalar com muito cuidado, pois a estrada de terra é bem movimentada. 

         Aquela estrada de terra parecia não acabar nunca. Por volta das quatro horas da tarde é que finalmente encontro o asfalto. Paro em um vilarejo e encontro um tanque na frente de um galpão. Nenhuma alma viva nas redondezas para pedir permissão para usar a água. O jeito foi lavar a bike assim mesmo, pois mal estava conseguindo pedalar por causa dos problemas na corrente e nas marchas. 
   Dei uma boa limpeza e também lubrifiquei a corrente e as catracas. A bike voltou a andar normalmente. E sigo o caminho até encontrar um riozinho às margens da BR e aproveito para tomar um banho para tirar todo aquele barro do meu corpo. E, claro que também lavo as roupas, apesar do horário avançado. 
    

     A sensação após o banho é que havia tirado uns dez quilos do meu corpo. Por causa dos perrengues causados pelas chuvas, chego ao Serro por volta das sete horas da noite. 
    Serro é uma cidade com muitos morros e muitas ruas com calçamento de pedras, muito difícil andar de bike naquele lugar. Acho que aquelas pedras fazem parte do patrimônio histórico e não podem ser retiradas dali. Mas pelo menos poderiam dar uma arrumada né?
    Depois de muito subir finalmente chego ao centro da cidade, que é bem escuro. Tomo um lanche e pego papelão no supermercado. O pessoal do posto de gasolina foi gentil comigo e me deixou montar a minha barraca. 
    Tenho que descansar bastante, amanhã é o último dia e terei que pedalar 66km caso queira chegar em Diamantina. E ainda tenho que contar com o tempo, espero que não chova como hoje. 
chegando no Serro