Qual a pior saudade? A dos amigos, familiares, ou a do primeiro amor? Sem querer dar uma de egoísta, mas a pior saudade que podemos ter é a de nós mesmos. Quando paramos no tempo e começamos a nos lembrar do passado para termos momentos de alegria e então sorrimos, é sinal de que o presente não está tão bom assim. Eu tenho essa saudade. Saudades de um cara distraído, até meio bobão, que não reparava em nada em sua volta.
Resolvi tocar nesse assunto, pois, na semana passada, resolvi gravar alguns vídeos para um trabalho de faculdade para uma estudante de administração.
Na hora de gravar os vídeos fiquei tenso, travado, os músculos contraídos. Consequentemente as ideias não saíram com naturalidade e não falei fluentemente, chegando até mesmo a gaguejar. Não estava falando para uma platéia de mil pessoas, ou gravando algo em uma emissora de tv, estava apenas em frente a uma webcam, e sozinho!
Quando clico no botãozinho da câmera para começar a gravação, inúmeras perguntas invadem minha mente, tento me concentrar, mas não consigo, e às vezes me perco no meio da gravação e repito algumas coisas. Mas mesmo assim resolvi continuar a gravar os vídeos e os mandei assim mesmo para a estudante, sem cortes. Não gosto de parar a gravação quando erro ou gaguejo, quero que tudo seja da maneira mais natural possível, mesmo com todos os erros ou falhas.
Minha mente volta ao um passado distante, há cerca de vinte anos atrás, quando era apenas um cara que não reparava nada em sua volta. Chego a me lembrar da época em que trabalhava como operador de som em uma cidade próximo de onde moro atualmente. Estava trabalhando em um festival de música e a repórter da afiliada da Globo aqui da região perguntou-me se poderia fazer algumas perguntas. Eu, com a maior naturalidade, respondi que sim. Não tive receio nenhum, não pensei em nada e na hora de gravar tudo saiu com a maior naturalidade. A única coisa que cheguei a pensar na hora é que iria aparecer na TV, e confesso que fiquei todo bobo com essa ideia.
Comparo essas duas experiências que tive com uma câmera e fico profundamente triste. Como posso ficar assim hoje em dia, em frente de uma simples webcam? Fico pensativo e chego a duvidar se existe ou existirá um medicamento para isso, que deixe a mente tranquila sem deixar que o corpo padeça e que não cause tantos efeitos colaterais.
Volto então a me lembrar de outras situações da época em que trabalhava como operador de som. Tinha que ficar no meio da multidão nos shows, e isso não me incomodava em nada, até quando as paranoias começaram a tomar conta de minha mente. Me lembro de algumas tardes de domingo aqui em Ipatinga, onde tinha que fazer a sonorização de um bingo de automóveis que acontecia no estádio aqui da cidade, com capacidade para trinta mil pessoas na época. Creio que até poderia ter mais pessoas nos bingos, pois, quando se olhava para as arquibancadas, não se via nenhum espaço vazio. Mas, para mim, naquela época não havia nenhuma diferença se o estádio estava lotado ou não. Instalava a mesa de som debaixo do palco, que era montado no meio do campo. Colocava a mesa em uma altura em que dava para operá-la sentado na grama mesmo, e, para completar tirava o tênis para poder pisar na grama e sentir a energia da terra. Não sei se isso acontece com todos, mas sinto uma energia boa quando piso na grama ou na areia. Caminhar descalço na grama ou na areia é um bom exercício para se tirar o stress. O bingo então começava e era só uma questão de tempo para que o evento terminasse, pois não reparava em nada e não tinha nenhuma preocupação, apesar de ser um serviço de muita responsabilidade, pois, se as pessoas que compraram as cartelas não ouvissem em alto e bom som os números, com certeza iriam ficar revoltadas e começariam a vaiar o operador de som.
Volto ainda mais na linha do tempo da minha vida. Na sala de aula, por volta dos doze anos de idade, apresento um trabalho de grupo em frente ao quadro negro. Estou super tranquilo, sem receio nenhum e as palavras saem com a maior naturalidade. Consigo visualizar os meus colegas que ficavam admirados com o que eu dizia, até parecia gente grande.
Indo um pouco a frente, me lembro de alguns shows em que fui, e a única coisa em que reparava era a banda, nas músicas, nos sons, somente isso.
A última vez que fui a um show foi no ano de 2006, e me lembro que sai de lá com a musculatura das costas e do pescoço bem dolorida, por causa da tensão em que fiquei. Hoje tenho alguns problemas em relação aos dentes, algo parecido com o bruxismo, mas só que acontece de dia. Não chego a ficar batendo os dentes um contra o outro, durante a noite, mas sinto que fico pressionando os dentes de cima contra os de baixo, e isso já até causou desgaste em alguns, pois a pressão interna do dente é tão grande que acaba trincando-o, devido ao stress.
Foi em 2006 que também foi a última vez que fui à um estádio de futebol para ver o meu time jogar. Estava precavido, com dois comprimidos de diazepan no bolso, mas, infelizmente, na hora eles não surtiram efeito, e então tive que recorrer a duas latinhas de cerveja, para tirar um pouco da tensão. Não recomendo que ninguém faça isso, foi um caso de emergência, ou eu pirava ou então voltava para casa. Mas, como era o meu time do coração e o jogo era decisivo...
Já em 2009, o meu time voltou a jogar aqui em Ipatinga, mas eu nem cogitei a ideia de comprar um ingresso. Foi ai que percebi que o caso era grave.
Volto ao presente e percebo que, de noite,na maioria das vezes, dá para se contar as palavras que foram ditas por mim durante o dia. Atualmente estou monossilábico, as palavras mais ditas por mim ultimamente são: sim, não, talvez, só. Quando estou um pouco animado, entro no msn para digitar algumas palavras e trocar algumas ideias com os amigos virtuais, geralmente pessoas que tem o mesmo transtorno que eu tenho ou algo parecido.
Quando vou à padaria, compro pão suficiente para uns quatro dias, para que eu saia de casa o menos possível. Ou seja, não como pão dormido, e sim pão hibernado. É meio ruim comer o pão assim, mas, pesando os prós e os contras, é melhor do que ir à padaria todos os dias.
Desculpem-me se estou saudosista demais hoje. Mas, afinal, isso também pode acontecer com qualquer um, afinal, quem nunca chegou a sentir saudades de si mesmo? Não falo tanto no aspecto físico, a saudade de quando uma pessoa fica mais madura e sente saudades do tempo em que tinha mais energia e beleza física. Falo mais no aspecto emocional e psicológico mesmo. Será que, quando nos tornamos adultos e conhecemos como funciona certas coisas em alguns setores da sociedade, não sentimos saudades de quando éramos inocentes e não conhecíamos a maldade humana? Será essa saudade um componente da esquizofrenia e a causa de uma possível negação da realidade? Um mundo cheio de injustiças, maldades, crueldades, talvez não seria um motivo para uma pessoa criar um mundo só seu? Será que existe um medicamento que solucione os problemas da alma? Sinceramente não sei, quanto mais me aprofundo no tema, mais interrogações aparecem em minha cabeça.

