Em 2012 tive um “surto positivo” psicótico e saí andando por aí pela região sudeste com a minha mochila e a minha barraca. Fiz dois dos quatro caminhos da estrada real a pé, percorrendo um total de mais de 700km. E ainda andei pelo litoral do Espírito Santo e de São Paulo. Fazer o caminho velho da estrada real foi a realização de um antigo sonho. Me ajudou a evoluir como pessoa. É difícil de explicar o que uma andança dessa faz em nosso interior. Só viajando mesmo. Foi o meu caminho de Santiago. Lá no blog publiquei o diário e as fotos dessas minhas andanças.
Mas no final de 2014 lesionei o meu dedão do pé esquerdo, quando estava passeando por um parque ecológico aqui em Belo Horizonte. Não era algo tão grave assim, mas a falta de atendimento pela rede pública fez com que acabasse tendo uma fratura por stress. Hoje somente com cirurgia é que poderei andar como antigamente.
Bem, não sou de ficar esperando as coisas, ainda mais do SUS. Comprei uma bike usada e comecei a consertá-la. Se tivesse que comprar bicicleta mais problemática não conseguiria. A vantagem é que aprendi a montar e a desmontar uma bike, bem como consertar quase todos os defeitos que possam surgir no caminho.
Pretendo agora fazer os 900km restantes da estrada real com a minha bike, depois que passar o período das chuvas, em março. E, se tudo der certo, se a bicicleta aguentar (e eu também!), pretendo sair viajando pelo Brasilzão afora.
Ainda tenho que acabar de reformar a minha bike. A principal reforma será colocar um freio a disco na roda traseira. Não é um luxo, é uma questão de segurança mesmo. Acho que o quadro dessa bike foi mal projetado, pois o freio traseiro não funciona bem, apesar de todas as tentativas de regulagem. Vou sair viajando por aí, mas com responsabilidade, afinal, outras vidas também correm risco se eu não estiver com bons freios. O freio da frente está bom, mas tenho que pensar na hipótese dele arrebentar o cabo em uma forte descida.
E também tenho que colocar um bagageiro na bike para colocar a minha mochila. E também um banco com gel, pois os bancos comuns costumam incomodar e muito o traseiro em uma longa distância. E tem outros itens que tenho que comprar para a viagem: a barraca, o saco de dormir e o colchonete inflável, que acabei vendendo, pensando que nunca mais iria conseguir viajar de novo. Viajar digo nas minhas condições, ou a pé ou de bike.
O freio a disco vou comprar usado, pois a bike é das antigas e ainda terei que fazer uma adaptação nela, pois o freio comum não fica muito bom na roda traseira.
A barraca custa certa de 120 reais, o saco de dormir também. Já o colchão inflável também deve estar nessa faixa de preço. Com o 13° salário irei comprar alguns itens como as roupas próprias para a viagem, e o capacete também, que é outro item muito importante.
Qualquer ajuda é bem vinda. Dúvidas usem o email do blog
Está decidido: irei fazer os 910km restantes da estrada real de bicicleta. Como os leitores do blog devem saber, meu hálux esquerdo está quebrado. E percorrer esse caminho a pé e com uma mochila nas costas já é complicado demais de se fazer em perfeitas condições físicas, imagine então com um o dedão do pé fraturado....
Tirando isso, acredito que minhas condições gerais de saúde estão boas. Estou dentro do meu peso, depois de ralar muito e fechar um pouco a boca. Chego a perder quase 2kg no dia que jogo bola, mas logo recupero, pois como prêmio detono um pote de sorvete de 1kg e uma lata de leite condensado...
O SUS, como sempre acha tudo normal na questão do pé, é só ir tomando antiinflamatórios que está tudo bem. Nem pedem exames. Consegui fazer uma ressonância magnética e tomografia computadorizada na Rede Sarah, mas lá eles não querem me operar pelo fato de que tenho esquizofrenia e eles não possuem equipe especializada em psiquiatria. O ortopedista está com receio de que eu tenha um piripaque, apesar de ter conseguido um laudo favorável do psiquiatra, afirmando não haver problema nenhum em ser operado por conta do transtorno, ou seja, o risco seria de qualquer pessoa sendo operada.
Mas vida que segue, Não iria me perdoar nunca caso não complete os quatro caminhos da estrada real. Nela meu sonho de liberdade e de paz se torna real....
910km de muitas belezas naturais...
Comprei uma bike usada, mal consegue andar em uma reta, pois o sistema de corrente e engrenagens está meio detonado. Melhor assim, pois uma bicicleta nova e boa chama muito a atenção dos larápios. E também está sendo o maior barato desmontar e montar a "magrela", aprendendo a consertá-la vendo os vídeos do youtube tem me ajudado bastante, além de ser uma boa terapia. É sempre bom aprender coisas novas. O cérebro agradece....
Por conta dessa reforma na bike estou gastando uma graninha extra, e ainda tenho que comprar a barraca, o saco de dormir e o colchão inflável, para dormir bem nessas frias noites do interior de Minas Gerais. Costuma fazer muito frio em algumas cidades, independente de estação do ano em que estivermos. Passei muitos perrengues nas primeiras viagens, pois não havia comprado o saco de dormir, e aí tinha que encher a barraca de papelão.
aprendendo a consertar a bike para não passar perrengues na viagem
Que vou viajar está mais do que decidido. Medo não tenho muito, gente ruim infelizmente tem em todo lugar. Estou morando em um lugar bastante tranquilo, quase não tem confusão, só quando algum larápio surrupia algo na geladeira, que é comunitária. No meu caso nem toco nela, pois tive a sorte de ganhar um frigobar de um amigo e só guardo água, frutas, ovos. Cozinhar está na lista das coisas que não sei fazer e que pretendo aprender um dia, pois tenho sempre que morar perto de restaurante popular. Mas infelizmente sempre tem alguém ou algo que não nos agrada em um local que mora várias pessoas. E o que sinto é que tem muito tititi onde moro, e que tem algumas pessoas que demonstram ter uma certa inveja da minha condição de um precoce aposentado. O cara tem problemas de saúde e está com uns 60 anos e ainda não se aposentou, e acho que por isso vive falando mal de mim, e procurando achar um ponto fraco na minha personalidade. Às vezes respondo as provocações dele, afinal não sou de ferro. E aí ele dá uma de vítima, devido a sua condição de saúde. E acho que fico meio como o vilão da história, mas não tenho mais receio do falatório alheio...
Não tenho certeza quando irei viajar. Não sei se viajo no final de setembro ou então espero o período de chuvas acabar depois do mês de março do ano que vem. É complicado viajar pela estrada real no período das chuvas, já que 90% do caminho é de estrada de terra. Mas não sei se irei aguentar esperar tanto tempo. Estou com saudades de sentir o vento na cara, de estar cada dia em um lugar diferente. E até dos perrengues do caminho estou sentindo falta. Estou sentindo é falta de emoções, de viver um pouco perigosamente. Só um pouco, nem tanto né? Tem gente que sai viajando pelo mundo de bike, e eu só vou viajar um pouquinho pelo meu país....
a cachoeira do Tabuleiro, com seus 273 metros de altura é uma das atrações do caminho dos diamantes.
Serão 910km, 200km a mais do que o "Caminho velho" da estrada real que fiz a pé. Mas deste vez não pretendo fazer uma viagem rápida, quero curtir o caminho, parar nas cachoeiras, sentir o ar puro do interior de Minas Gerais. Fico até mais comunicativo durante as minhas viagens. Aqui nesse cotidiano geralmente na maioria dos dias dá para contar a quantidade de palavras que pronuncio durante o dia inteiro... Geralmente falo alguma coisa quando compro algo na padaria, mas só o necessário mesmo. Na maioria das vezes respondo balançado a cabeça quando me perguntam algo. Sou antissocial hoje em dia não por conta exclusiva da esquizofrenia, é mais uma opção, pois atualmente me conheço bem e convivo muito bem com meus pensamentos. Antes o isolamento era por conta de me achar um cara bem esquisito mesmo, e também por conta da mania de perseguição exagerada.
Além disso, sinto que preciso dar esse tempo comigo mesmo, afastar de tudo, ouvir o som do silêncio e refletir um pouco sobre minha vida. Acho que o fato de estar com 49 anos está influindo nessa necessidade de reflexão. Sempre quando completo mais uma década de vida tenho esse tipo de comportamento. Refletir sobre o que fiz e o que ainda tenho por fazer, se estou sendo uma boa pessoa, um bom ser humano. Sobre o que preciso melhorar, sobre coisas que devo deixar de lado e outras coisas que devo incluir em minha vida. É um pouco estranho isso ter de esperar completar uma década para começar a refletir sobre tudo o que nos cerca e sobre nós mesmos. Claro que sempre procuro refletir sobre certas coisas em qualquer período de minha vida, mas isso vem com mais intensidade quando estou perto de completar mais uma década de vida.
Estou com vontade de morar em uma pequena cidade, ou de porte médio. Uma cidade com praia, ou então no interior, aonde o sossego e a tranquilidade ainda não tenham sido comprometidos pelo progresso. Mas para isso terei que aprender a cozinhar, pois sou um desastre na cozinha e acho que entrarei em depressão ao ter que degustar os pratos feitos por mim. Não é toda cidade que tem restaurante popular. Mas a internet está aí e o que não falta são vídeos, sites e blogs com dicas de culinária. Quem sabe eu goste e até se torne uma terapia?
Quem puder me ajudar na compra da barraca, do saco de dormir e do colchão é só me enviar um email ou então usar as seguintes contas:
memoriasdeumesquizofrenico555@gmail.com
Julio Cesar dos Santos de Oliveira
Caixa Econômica Federal
Agência 2332 Ipatinga MG
Caixa Econômica Federal
Operação 023
Conta 00016678-2
ou
Caixa econômica federal
Agência 2332
Operação 013
Conta 00035331-3
Apesar de não gostar de mecânica, estou curtindo muito o monta e desmonta da bike. Tenho que ficar craque em manutenção, pois não quero passar muitos perrengues no caminho. E também tem a questão da economia, vai lá saber quanto o mecânico irá cobrar para arrumar uma bicicleta em uma cidade pequena. Ele sabe que é o único a prestar esse serviço e que estou em apuros... Melhor ser independente e gastar um pouquinho de tempo aprendendo os macetes da manutenção em bikes.
Como disse, a bicicleta não é das melhores, mas não pretendo correr muito, afinal as paisagens são muito bonitas, quero mesmo é curtir o som do silêncio e as montanhas de Minas.
E depois da viagem?
Depois da estrada real, acredito que irei descansar minhas canelas em uma cidade pequena qualquer que tenha praia.As empresas de ônibus de viagem não criam empecilhos de levar uma bike no bagageiro, desde que as rodas tenham sido desmontadas e fixadas no quadro da bicicleta e que tudo esteja protegido com papelão, para não estragar as outras bagagens.
Depois desse breve descanso na praia, pretendo ir ao centro-oeste e norte do país, lugares que ainda não tive o prazer de conhecer, mesmo quando trabalhava como operador de som.
Se por acaso ganhasse na loteria, não iria conhecer a França, a torre Eiffel. etc... Iria sim percorrer ponta a ponta esse país maravilhoso e bonito por natureza chamado Brasil.
Claro que existem lugares lindos neste mundão, mas o Brasil, além da natureza tem um povo maravilhoso e a cultura muito interessante. Viajar não é só comer e visitar os pontos turísticos, é também conhecer a cultura e o povo desses lugares.
Acredito também que minha mania de perseguição iria aumentar consideravelmente em um país de língua estrangeira, pois já fico muito bolado quando vejo dois gringos conversando. Penso que estão falando mal de mim. Engraçado é que me lembro que, quando tinha uns 22 anos já tinha um pouco disso. Fiquei pensando que duas americanas estavam rindo de mim quando fiz uma viagem de Salvador à Belo Horizonte. Elas não paravam de rir e de conversar.
Então para que ir tão longe se temos um país tão bonito e ainda podemos conversar e aprender com o povo? Não tenho muita noção de inglês e quero mesmo e apreciar a culinária do Brasil. Detesto aqueles pratos enfeitados, com flores, todo montado, etc..
E depois de conhecer o norte do Brasil não sei se volto pra Belo Horizonte, se moro na praia ou até então goste tanto dessa vida de ciclista que faça da minha vida uma eterna andança...
Esse cara está viajando há vinte anos. Ele nasceu todo complicado, cheio de problemas de saúde, mas conseguiu superar tudo e hoje é um exemplo de superação. Muito dizem que sou louco ao fazer estas viagens, mas me sinto a pessoa mais normal do mundo ao ver esses caras, confesso que até tenho um pouquinho de inveja do fato deles terem coragem de viajarem para outros países distantes. Mas sinto mesmo é uma enorme admiração por esta "loucura" positiva. Na verdade não considero loucura o caminho que uma pessoa escolhe, sabendo que será feliz ao percorrê-lo... Loucura é não procurar ser feliz e não ser a gente mesmo....
Há cerca de um ano atrás sai do conforto do meu quarto na cidade de Ipatinga e resolvi fazer as minhas andanças pelo Brasil afora, mais precisamente pela região Sudeste.
Algumas pessoas provavelmente acharam que eu estava fazendo uma maluquice, ao sair por ai andando meio sem destino com uma mochila e uma barraca nas costas.
Mas não foi uma decisão precipitada, pensei muito antes de tomá-la. Ipatinga é um ótimo lugar para se viver. Fui muito bem recebido nesta cidade e sou muito grato pelo atendimento que recebi, principalmente nos primeiros anos, quando ainda estava surtado e pouco sabia acerca da esquizofrenia. A paciência do pessoal do CAPS foi de fundamental importância na minha parcial recuperação.
O meu quarto era bom, com piso em cerâmica e bem ventilado. A janela dava para a varanda e assim era possível amenizar um pouco o forte calor que é costumeiro se fazer no vale do aço. Tinha uma tv de 20 polegadas da CCE(de tubo), um bom PC, um home theater e um frigobar. Também tinha uma cama com um colchão novinho que havia comprado há pouco tempo. Também havia reformado o meu quarto, lixando, colocando massa e pintado as paredes, com a tinta que ganhei do Cristiano, um vizinho super gente boa que havia por lá.
Era bem quisto pela vizinhança. Tinha fama de bom pagador, e, por isso, podia comprar fiado em dois restaurantes, no barzinho da esquina, no depósito de material de construção, no armazém e na vizinha que vendia chup chup.
Era uma vida relativamente tranquila, apesar de morar próximo ao novo centro, onde se situa a crackolândia de Ipatinga. Só saia de casa para almoçar e às vezes frequentava o centro de convivência para portadores de sofrimento mental da cidade.
Não era a vida que pedi a Deus, mas também não podia reclamar. As coisas poderiam ser piores. Se não fosse a ajuda de outras pessoas, talvez estaria por ai morando nas ruas sem nenhuma renda ou então nem estaria vivo, pois passei por situações perigosas nos meus surtos.
Mas infelizmente o crack vem se tornando um grave problema não só de saúde e de segurança pública, como social também. Essa droga atualmente não é só consumida nas grandes capitais, já está trazendo enormes problemas em muitas cidades do interior de alguns estados brasileiros. E em Ipatinga não está sendo diferente. O crack, apesar de ser uma droga barata, vem sendo consumido por pessoas de outras classes sociais.
Ércio Quaresma, advogado do goleiro Bruno, é filmado usando crack em um fórum de Belo Horizonte
A situação no local onde morava se tornou insustentável. Sabia que um dia iria perder a paciência com aquele inferno todo e poderia ter um atrito com algum usuário que estivesse perturbando a ordem. Várias noites de sono perdidas, brigas entres os crackudos, chegando ao ponto de um atear fogo no quarto de outro. Esta droga traz para o local onde é consumida tanta confusão que nem os traficantes das comunidades do Rio de Janeiro aguentaram. Eles decretaram o fim da venda do crack, pois os usuários de crack cometiam roubos e assim acabava chamando a atenção da polícia. http://memoriasdeumesquizofrenico.blogspot.com.br/2012/06/traficantes-decidem-parar-venda-de.html
O usuário de crack, quando está sentindo a falta da droga, chega a roubar pequenos obejetos, nem o meu chinelo que costumava deixar do lado de fora escapou. Fora a música alta. Quer dizer, um certo "estilo musical" que é chamado de funk. É uma afronta aos verdadeiros músicos que passaram vários anos estudando, chamarem aquilo de música. Na minha opinião, música tem que ter nota musical. Não sou moralista e não sou de ficar dizendo o que é certo ou errado, o que é bom ou ruim. O problema de todo funqueiro é que ele acha que todo mundo tem o mesmo gosto que ele, e por isso ainda não sabe o que é um fone de ouvido.
Então, por causa dessas questões resolvi fazer as minhas andanças. Era algo que estava latente em mim e, se nunca havia feito isso, foi por falta de coragem mesmo. Sempre gostei de viajar, e na minha profissão isso era uma constante. Depois de aposentado, fiquei muitos anos trancado em meu quarto. Me lembro que, há cerca de uns vinte anos atrás, havia lido uma matéria sobre o caminho do padre Anchieta no Espírito Santo. Li a matéria em uma revista e me imaginei caminhando pelas praias, a brisa no rosto, conhecendo novos lugares. Mas ficou só na vontade mesmo.
Creio que as experiências que tive durante e após os meus surtos mudaram e muito a minha maneira de encarar as coisas e me fizeram uma pessoa mais forte. Aprendi muita coisa e tirei boas lições dos momentos difíceis pelos quais passei. Vi então que era a hora e o momento de fazer algo que sempre eu pensei em fazer: as andanças.
Acredito muito em sonhos, e esse que tive foi fundamental para que eu tomasse a decisão final. Sonhei certa noite que estava andando pelos montes e pelas praias. Foi um sonho muito bom e me via alegre como uma criança, andando de um lado para outro sem parar. Podem olhar a data do post que está no link abaixo. Ele não foi editado, eu escrevi no dia seguinte após o sonho. Então nem pensei duas vezes em vender as minhas coisinhas. http://memoriasdeumesquizofrenico.blogspot.com.br/2013/01/sonhos-mensagens-do-alem.html
caminho do padre Anchieta, que é muito bem sinalizado
Primeiro foi o caminho Passos de Anchieta. Foram 100km pelo litoral do Espírito Santo. Não dá para esquecer a viagem de trem BHxVItória, as praias, as lindas paisagens. a aventura que tive na praia deserta, as dificuldades que passei com o pé machucado e outros perrengues.
estrada real
Constatei, depois da viagem, que não estava tão mal fisicamente, apesar de vários anos sedentários e da idade: 45 anos. Resolvi então fazer algo mais arriscado: o caminho velho da estrada real, que liga os municípios de Ouro Preto-MG à Paraty-RJ. Foram 710km de muita aventura, situações engraçadas, muita natureza e a hospitalidade impar do povo mineiro. Foram muitas dores, cãimbras e cansaço também, mas tudo valeu muito a pena.
Cada viagem é uma lição para a nossa vida, pois a vida é um caminho em que podemos escolher o percurso. Ora estamos no alto, ora estamos embaixo, passamos por dificuldades, encontramos pessoas para nos ajudar a superá-las e assim chegar ao nosso objetivo.
o complicado caminho de Sabarabuçu
Também fiz o dificílimo Caminho de Sabarabuçu, que, apesar de curto, (100km), foi muito proveitoso e bonito: ar puro, belas cachoeiras e pessoas hospitaleiras. Mas é preciso estar em boas condições para fazê-lo sem muitos problemas.
E também fiz o caminho Passos dos Jesuítas, pelo litoral paulista. Belas praias e muito sol. Pena que o caminho é feito quase em sua totalidade por BR's e asfalto. Mas, para quem tem condições financeiras de se hospedar em um hotel, recomendo que conheçam o litoral paulista, que é muito bonito.
É isso ai, não me arrependo de ter vendido as minhas coisas e ter saido por ai. Bens materiais podemos recuperar com o tempo, mas a paz é o mais importante. E continuarei com as minhas andanças, é claro.
Mas no momento preciso dar um tempo nas viagens, tenho que pagar os meus empréstimos com o INSS e alugar um quarto para mim. Andança é bom, mas cansa. Depois das viagens, é preciso repouso, o que eu não fiz, pois tinha que ficar com a mochila nas costas, pois estava morando em minha barraca. Disse em um post anterior que o meu sonho era comprar uma TV de 32 polegadas e um notebook. Uma pessoa me disse, ao ler o post, que tinha uma e outras coisas mais, e que mesmo assim não era feliz. Esqueci de dizer que é apenas um sonho de consumo, nada mais do que isso, não sou tão materialista assim. Creio que, se aparecesse um gênio da lâmpada para um portador de esquizofrenia e lhe informasse que poderia fazer três pedidos, provavelmente o primeiro pedido seria ficar livre desse complicado transtorno da mente dividida.
Recuperado das dores da primeira parte da viagem e de uma contusão no glúteo, planejo fazer o restante dessa viagem em uma semana, para poder curtir melhor as belas cachoeiras da cidade de Rio Acima.
Creio que a maioria dos leitores devem estar se perguntando como que uma pessoa pode ter uma contusão no glúteo. Bem, eu vou explicar, ou melhor, tentar explicar essa inusitada situação.
Quando saio por ai para fazer minhas andanças fico em abrigos. Não tenho condições de viajar e pagar um aluguel para deixar minhas coisas. Então guardo minha tv, o notebook e outros aparelhos na casa de um amigo e pego minha mochila e saio viajando.
Neste abrigo em que estamos somos todos acordados pontualmente às cinco horas da manhã. Certa vez, quando dormi na parte de cima do beliche, o guarda municipal, como de costume, começou a acordar a galera no horário habitual. O problema aconteceu por que eu queria me levantar sem antes estar acordado. Então desci do beliche, não pela forma correta, que é pela escadinha. Não sei o que deu na minha cabeça, mas tentei descer me apoiando no beliche ao lado. Resultado: cai do segundo andar de poupança no chão.
Na hora até que não doeu muito a queda, ri muito daquela situação, ao ver os outros albergados acordarem assustados com o barulho. Mas, algumas horas depois o músculo começou a doer e fiquei manquitolando por uns dois dias. Mas, para a minha sorte não foi nada de mais grave.
Voltando a viagem, sai do albergue por volta das cinco e meia, a fim de pegar o ônibus para a cidade de Sabará. O tempo estava nublado, com muitas nuvens no céu. O sol parecia que não ia dar o ar de sua graça na parte da manhã. Pensei em consultar a previsão do tempo na internet, mas logo descartei essa ideia. Mochileiro que é mochileiro de verdade pega a estrada faça chuva ou faça sol. Ainda estava com os sacos de lixo de 100l, que havia comprado na cidade de Cunha-SP, na viagem à Paraty. Esse saco serve direitinho como capa de chuva, é só fazer os buracos para passar os braços e a cabeça.
Às sete horas já estava em Sabará, rumo à Raposos, distante 12km. O percurso no início é agradável, com retas e muita sombra, o que me deixou mais animado. Mas a alegria durou pouco, pois logo as subidas íngremes, comuns neste caminho, apareceram. A malhação que fiz no parquinho enquanto estive no abrigo me fez bem, estava me sentindo melhor, tanto na parte muscular como aeróbica. Não tenho muita paciência para praticar exercícios, então, para não enjoar, faço meia hora de caminhada e mais meia hora nos aparelhos do parque. Recomendo a todos que moram perto de um lugar que tenha esses aparelhos que façam os exercícios, pois não é cansativo e não enjoa muito, pois são vários aparelhos.
o caminho é bem agradável no início
casa em ruínas
A mochila com menos peso também estava ajudando muito. O cantil, que custou 35 reais, também. O porta cantil tem um forro interno que não deixa a água esquentar tanto assim. Valeu a pena comprá-lo. E agora dá para carregar a água na barrigueira da mochila, sem precisar ter que abri-la toda hora que sinto sede. Comprei também meias próprias para caminhada, mais grossas e com menos algodão em sua composição. Isso evita bolhas, pois os pés suam menos. E, o mais importante, o chulé também desaparece. Bem, ficou um chulezinho, aceitável...
Esses fatores ajudaram muito no rendimento, e cheguei em Raposos por volta das 9:40 da manhã, percorrendo 12km em 2:40 horas. O caminho é cheio de subidas, mas foi tranquilo e agradável o percurso, o sol não estava tão forte assim.
Aproveitei o tempo para tirar um cochilo em frente a igreja matriz da cidade, até o horário do almoço. Estava fechada, foi uma pena, pois queria ver uma obra do aleijadinho.
Raposos-Honório Bicalho
Depois do rango, por volta das 11:30hs, já estava de volta a caminhada. São 13,5km de trilhas até o distrito de Honório Bicalho, em Nova Lima. A planilha da estrada real avisa que o grau de dificuldade do percurso é médio, e já me preparo psicologicamente para a batalha contra os meus limites.
Muitas vezes, na estrada real, é difícil de se achar o primeiro marco de cada percurso. E foi o que aconteceu neste trecho. Segui as orientações da planilha e dos moradores da cidade, e acabei parando em uma ferrovia desativada, que também terminava em Honório Bicalho. Fiquei nervoso, e me lembrei do primeiro dia da viagem à Paraty, em que também fiquei perdido em uma ferrovia. Mas, como os moradores de Raposos me disseram que ela terminaria em Honório Bicalho, resolvi prosseguir.
perdido na trilha do trilho do trem
É muito cansativo e chato ficar andando no meio das britas grandes, o risco de uma torção no pé é bem grande. Depois de 1km encontro uma ponte, só com a armação para o trem passar. Pensei em passar por ela, me equilibrando nas ferragens, mas, por causa do peso da mochila resolvi passar debaixo da ponte, atravessando um pequeno córrego. Na descida, escorreguei e acabei molhando o tênis, e fui ficando cada vez mais irritado.
Mas continuei o caminho, não gosto de voltar atrás nessas situações. Depois de uns 2km andando nas britas encontro outra ponte, também só com a armação para o trem passar. Essa ponte era maior e bem mais alta. "Será que os habitantes de Raposos pensam que eu sou o Homem Aranha?" pensei comigo mesmo. Após analisar bem a ponte e o rio, cheguei a conclusão de que teria que voltar. Tenho muito medo de altura, fico tonto só de ver as fotos de pessoas em lugares altos.
Quando fico nervoso nem paro para descansar e voltei quase que correndo para Raposos a fim de encontrar o primeiro marco deste caminho. Na volta encontrei o cara que me disse que a ferrovia terminava em Honório Bicalho.
- Você pensa que eu sou um trem?- perguntei, irritado.
- Tem um monte de gente que vai por ai... - o cara respondeu.
- Você não está vendo a mochila que estou carregando? Por acaso você acha que eu sou super herói?
E disse outras coisas para ele, sem ofender, é claro. Não gosto de brigas e confusão, mas tinha que desabafar. Não é nada fácil andar na brita, ainda mais carregando 10kg nas costas.
Por volta das duas e meia da tarde finalmente encontrei o primeiro marco. Não poderia mais errar se quisesse chegar em Honório Bicalho ainda hoje.
O caminho realmente é difícil, o meu amigo Lúcio, que já o fizera, me havia alertado sobre as subidas, principalmente depois da cidade de Raposos. Acho que é o trecho mais complicado de todas as "estradas reais" de Minas Gerais.
Muitas subidas fortíssimas, trilhas cheias de valas, onde só se passa andando. O ciclista que quiser passar por este caminho terá que carregar a bicicleta em algumas partes do percurso. Eu mesmo, na subida mais complicada, tive que apoiar as mãos na coxa para conseguir subir.
subidas complicadas
No meio do caminho encontrei três motociclistas que estavam fazendo trilha no local. Eles me olharam com um ar de curiosidade e espanto, provavelmente não pensavam em encontrar um "caminhante' por aquelas bandas.
Perguntaram-me o que eu estava fazendo ali, para onde ia e tudo mais. As mesmas perguntas que a maioria das pessoas me fazem ao me ver com a mochila nas costas nestas estradas de terra de Minas Gerais. Era um misto de surpresa, "estranhamento" e admiração nos rostos dos motociclistas, ao ouvirem o meu relato.
olhem a trilha lá na frente, desanimei só de olhar, mas deu para chegar lá
Prossegui o caminho até às 16:30hs. Estava cansado, o fato de ter andado por cerca de 6km nas britas me desgastou bastante. Fora as subidas, é claro. Parei para acampar perto de um riacho, uns 5km antes de Honório Bicalho.
Muitas abelhas curiosas naquele lugar, que pousavam em meu corpo suado, Mas eram pacíficas, ao contrário dos mosquitos que, a cada picada, fazia sair um pouco de sangue na pele. . E o mané aqui tinha jogado o repelente no lixo, só por que não precisou de usá-lo na última viagem...
Tomei um bom banho no riacho e lavei minhas roupas. A temperatura da água estava ótima, apesar do tempo nublado.
Se na parte da manhã tudo correu bem, a tarde e a noite foram um desastre. Sem perceber, estava montando a minha barraca em cima de um formigueiro. As habitantes, enormes, não perdoaram e partiram para o revide. Parecia que eram carnívoras. A ferroada delas doía muito e imediatamente mudei o local para passar a noite mais sossegado. Para piorar, o K-suco de goiaba que havia comprado em Raposos não vinha adoçado(não achei o Tang) e tive que comer biscoito com água.
Já de noite, resolvi descansar e dormir, tinha que repor as energias para o dia seguinte. Estava exausto. Vez ou outra escutava um ruído na barraca, e pensei que fossem pequenas gotas de chuva. Se chovesse forte e a barraca não aguentasse, estaria em sérios apuros naquele lugar...
Minutos depois, uma formiga cortadeira me dá uma ferroada na perna. Estava tudo escuro e não tinha lanterna. Pouco tempo depois, outra ferroada. E mais outra. O barulho que havia escutado na barraca não era de pingos de chuva. Eram as formigas cortadeiras comendo a minha nova barraca nova... snif snif...
Não tinha como sair daquele lugar. O local era uma subida e não tinha um outro lugar plano, além de ter muitas pedras. E ainda por cima, tudo estava muito escuro. O jeito foi passar a noite, ali, deitado na barraca e me desvencilhando das impiedosas formigas cortadeiras até o dia clarear.
olhem o estrago que as maleditas fizeram em minha humilde residência
25/09/2013-quarta feira
Honório Bicalho-Rio Acima
distrito de Honório Bicalho
Acordei triturado e moído. Creio que as formigas só foram me dar uma trégua por volta das três da madrugada. Minhas pernas estavam avermelhadas por causa das mordidas dessas sacanas.
Choveu um pouco, a barraca até que aguentou bem, o teto ficou um pouco úmido, mas não chegou a dar goteiras. Tenho dúvidas se essas barracas aguentam os temporais de verão.
O restante do caminho para Honório Bicalho também é cheio de subidas fortes, o que me faz pensar que o percurso inverso não é melhor do que o que eu estou fazendo, com mais descidas. Com muito sono e cansaço, chego ao distrito por volta das 9:30hs da manhã. Aproveito o tempo para descansar da noite anterior, que foi bem desgastante. Tive que passar a maior parte do tempo dando peteleco nas formigas cortadeiras que não me davam trégua(dizem que ela é a saúva, sei lá...) Só sei que dói pra caramba a ferroada delas.
Depois do almoço e de uma barrona de chocolate ao leite, parto para o município de Rio Acima, distante apenas 9km. O caminho, para minha surpresa, é tranquilo neste trecho. Estrada de terra bem conservada, poucas subidas, sendo a maior parte do percurso plano.
caminho tranquilo entre Honório Bicalho e Rio Acima
cidade de Rio Acima
Apesar do forte calor cheguei à cidade de Rio Acima em bom estado, por volta das 14:30hs. Essa cidade possui inúmeras cachoeiras, mas a maioria situada à uma boa distância. Tem também uma simpática Maria Fumaça, que funciona nos finais de semana. Voltarei em uma outra oportunidade para conhecer esta simpática cidadezinha.
Pego o ônibus de volta à Belo Horizonte com aquele cansaço gostoso e com a satisfação de mais uma viagem completada com sucesso e sem maiores problemas(tirando as formigas cortadeiras, é claro).
A próxima viagem será a do passos dos jesuítas, em que percorrerei 370km no litoral de São Paulo.
Até a próxima aventura pessoal.
-obs: no relato, talvez algumas pessoas achem que dou muita enfase a parte sofrida do caminho, as subidas, as formigas, etc. Mas a beleza e a sensação de estar caminhando em meio à natureza não tem como definir. Já tentei achar as palavras para poder explicar para as pessoas que me interrogam sobre o porque de caminhar tantos quilômetros com um peso nas costas. Mas não consegui, por isso posto as fotos no post, só quem faz e gosta dessas caminhadas é que sabe o que sinto.
Lições do caminho
Devemos reconhecer nossos limites. Não devemos desistir na primeira tentativa, por mais medonho que possa parecer o caminho. Devemos aproveitar os momentos difíceis para tirarmos lições para uma futura e nova tentativa. Devemos nos preparar mais e melhor, se falhamos na primeira vez.
Na viagem, tive que reconhecer o meu limite físico, que eu conseguiria carregar na mochila apenas 10kg, devido as fortes subidas. Parei, dei um tempo, me preparei melhor para o restante da viagem, me exercitando no parque. Não desisti e cheguei ao final em boas condições, ao contrário da primeira parte, em que tive que tomar um leve sossega leão para dormir, por causa das dores que estava sentindo por todo o corpo.
Existem quatro caminhos da estrada real, aqui em Minas Gerais. Como a maioria já sabe, já fiz um:o caminho velho, entre Ouro Preto(MG) à Paraty(RJ). Esse caminho, conhecido como Sabarabuçu, é o menor dentre os quatro(110km+-). Mas é muito bonito também. Pretendo, futuramente, fazer os outros dois, que têm 500km cada um.
8 de agosto de 2013
Cocais
Pego um ônibus em Belo Horizonte, com destino a Cocais, por volta do meio dia. É nesse pequeno e pacato distrito que se inicia o caminho de sabarabuçu, o menor dentre os quatro caminhos da estrada real em Minas Gerais. No meio da viagem, um senhor, aparentando uns 60 anos de idade, senta-se ao meu lado. Carrega um terço nas mãos e constantemente faz o sinal da cruz. Como "bom paranoico" que sou, logo penso que ele não foi com a minha cara e que estava fazendo aquele gesto por minha causa. "Mas então por que ele não se senta em outra poltrona?", me pergunto. Aquilo estava me incomodando, e muito, mas claro que não disse nada para o senhor, já quebrei a cara algumas vezes ao tentar conversar com as pessoas que eu cismava que estavam falando ou planejando algo contra a minha pessoa. Hoje em dia sei lidar melhor com essa situação e uso muito a terapia do "tô nem ai". Isso mesmo, tô nem ai se os meus pensamentos são frutos de minha paranoia ou se o que estou pensando é fruto da realidade mesmo.
Nunca fui de fazer muito esforço para agradar as pessoas, e não seria agora que me aposentei é que faria isso. Não é arrogância de minha parte, só gostaria que as pessoas gostassem da minha pessoa do jeito que sou, apenas isso.
Voltando a viagem, resolvo então mudar de poltrona, já que o senhor não parava de fazer o sinal da cruz. Ao me sentar no novo lugar, o cara, com um sorriso no rosto, me entrega o jornal que eu havia esquecido . Esse pequeno gesto fez com que minha desconfiança diminuísse , e acabei chegando a conclusão de que o homem era apenas muito religioso e que estava pedindo a Deus para que a viagem transcorresse tranquilamente. É a velha mania de perseguição que me persegue...
Chego a Cocais por volta das duas horas da tarde e vou logo me informando sobre os dois principais pontos turísticos do distrito: a cachoeira e a famosa pedra pintada, com suas pinturas rupestres, de cerca de seis mil anos atrás. Cocais é um distrito bem pacato, distante 100km de Belo Horizonte Quase ninguém andando pelas ruas de pedra, um ou outro carro passando pela via principal e algumas crianças brincando no parquinho em frente à igreja. Acho que toda pequena cidade do interior de Minas tem uma igreja com uma pracinha em frente.
distrito de Cocais
Depois de um lanche, sigo para a pedra pintada, a fim de tirar algumas fotos. Subida bem íngreme, e logo começo a ficar ofegante, há muito tempo não fazia essas caminhadas. O peso da mochila(13,5kg) parece que vai aumentando a medida que vou caminhando. Depois de 3,5km de pura subida, já bem cansado, consigo chegar a entrada da atração turística, que é vigiada por um casal que mora no local.
Sou alegremente recebido por um daqueles cachorros de orelhas grandes e corpo espichado, parecendo uma salsicha. O caseiro então aparece e me convida a entrar. Me leva por uma pequena trilha até o lugar onde foram feitas as pinturas. O cachorrinho sempre ia na frente, como já sabendo o que iríamos ver. A paisagem lá de cima é deslumbrante, vale a pena a subida. As pinturas foram feitas no alto de uma pedra, e é preciso focar um pouco a visão para ver e distinguir as figuras de alguns animais.
Não fico muito tempo apreciando as pinturas, pois queria também ver e tomar um bom banho na cachoeira de Cocais, que fica à 1km de distância da pedra pintada, na mesma subida íngreme. Para o meu azar, a porteira da entrada estava trancada com cadeado. A cerca era de madeira e arame farpado, mas, mesmo assim, resolvi pular a cerca, já que a cachoeira não se situava em uma propriedade particular. Qualquer deslize na cerca poderia me machucar bastante, principalmente as pernas e os países baixos.
Depois da porteira, tive que caminhar uns 300 metros por uma descida bem acentuada. Mas valeu a pena, o visual da cachoeira é muito bonito, apesar de não ter muito água, por causa da escassez de chuvas no verão daquele ano de 2013. Por alguns segundos fiquei observando o local, para desacelerar meus pensamentos e entrar em sintonia com a natureza. Como não havia sinal de vida por perto, tirei minha roupa e tomei um bom banho. Aproveitei e lavei minhas roupas que usei no dia.
A sensação de liberdade e paz daquele lugar, juntamente com a água gelada, renovaram totalmente minhas energias.
. Não quis arriscar a continuar a caminhada para ver as outras cachoeiras,(dizem que são sete em sequência) São cinco horas da tarde e poderia estar em sérios apuros caso escurecesse naquele local.. Então, tomei mais um belo banho e juntei minhas roupas ainda molhadas.
vista do alto da pedra pintada
Voltei para a entrada e consegui achar um local plano e gramado para montar a minha barraca.
Foi uma sensação diferente que tive, ao fincar os ganchinhos na terra. Era a primeira vez que iria acampar no meio do mato. Na minha primeira viagem, quando percorrei o caminho velho, montava a barraca sempre nas cidades e vilarejos, pois gosto do contato com o povo do interior de Minas Gerais.
Já dentro da barraca ligo o rádio, mas só consigo sintonizar três estações: na primeira, um pastor não parava de falar, não tinha música. A outra tocava só "breganejo" (respeito a original música sertaneja, mas não esses "sertanejos" que aparecem por ai atualmente). A terceira já apresentava um programa que só noticiava crimes e mortes. Cheguei a conclusão de que seria melhor ouvir o som da natureza mesmo.
Às seis horas da tarde já havia escurecido, não dava para ver muita coisa. Estava um pouco apreensivo, principalmente em relação à temperatura, afinal, já estamos no inverno. Apesar de ter comprado um saco de dormir, não tinha ideia de como seria essa primeira noite no meio do mato.
09 de agosto de 2013
Cocais-Antônio dos Santos
minha nova casa nova
A noite foi super tranquila. Quando os grilos paravam de cantar, não se ouvia nada, silêncio total. Nem mesmo ao longe se ouvia uma voz. Não sei por que motivo, mas no mato conseguimos ouvir sons que estão bem distantes de nós.
Quanto à temperatura, não fez o frio que estava esperando. Fiquei meio decepcionado, afinal o saco de dormir me custara 130 reais, e queria por que queria ter motivos para usá-lo. Na viagem à Paraty passei alguns apertos em relação ao frio em algumas cidades, principalmente no sul de Minas. Agora que dormi no meio do mato e em pleno inverno, não fez muito frio, só a manta foi o suficiente para me deixar confortável.
Acordo por volta das oito da manhã. Havia comprado um relógio do Paraguai, já que não tinha mais o meu amigo celular, que nunca tocava as músicas que eu queria ouvir em determinados momentos, pois já estava meio avariado e só tocava as músicas no modo aleatório. O larápio que roubou o aparelho deve ter ficado meio decepcionado, e ainda bloqueei o celular na operadora. Aconselho a todos a fazerem o mesmo, é rápido e fácil. Se todos bloquearem os aparelhos roubados, provavelmente os ladrões não terão tanto ânimo em nos roubar.
Após desmontar a barraca, pulo a perigosa cerca de arame e vou em direção à queda d'água da cachoeira da Cocais. Depois da longa descida caminhei por alguns metros por uma trilha até chegar aos pés daquela maravilha da natureza. O caminho é um pouco cansativo, mas vale a pena o esforço. Creio que a queda deva ter uns quarenta metros de altura. Como relatei, existem sete quedas no total, uma depois da outra, sendo que a primeira tem cerca de 70 metros. Mas resolvi ficar nessa primeira queda, afinal tinha que pegar estrada na parte da tarde. O tempo estava meio nublado, mas não poderia perder a oportunidade de tomar um banho em um lugar tão bonito. Ao contrário do dia anterior, a água estava muito gelada, mas com o tempo o corpo foi se acostumando com a temperatura e entro bem debaixo da queda, deixando a água cair com força em minhas costas. A mãe natureza é uma ótima massagista, e saio da cachoeira revigorado, com vontade de voltar em uma outra oportunidade, para ver as outras quedas.
árvore meio morta meio viva
Comi uma bela de uma feijoada em um restaurante do distrito e à uma hora já estava caminhando rumo ao povoado de Antônio dos Santos, distante 20km de Cocais. O caminho é muito bonito, mas muito desgastante. Quando não estamos subindo, estamos descendo. Poucas retas para dar uma aliviada na musculatura. O sol do inverno estava de rachar, e o peso da mochila estava fazendo com que o caminho deixasse de ser um prazer. Chego a conclusão de que o máximo de peso que consigo carregar sem sofreguidão é dez quilos. Na viagem do caminho do padre Anchieta carreguei sete, e foi uma maravilha. Só retas pelo caminho e a sensação era de que não estava carregando nada. Já na viagem para Paraty foram dez quilos. Incomodava um pouco, mas era suportável. Agora, quase 14 quilos já era demais. Pensei em desistir, pegar um ônibus e voltar para BH, mas, como vocês já sabem, não sou de desistir assim tão fácil. Agora que consegui comprar uma barraca que suporta chuvas, e um saco de dormir para me aquecer, posso dormir no meio do mato mesmo. Por causa do peso e das fortes subidas, irei caminhar menos quilômetros por dia. Irei sem pressa, mas irei até o fim. Então começo a cantar "é devagar, é devagar" do Martinho da Vila. Gosto deste tipo de samba, mas não sou muito chegado naqueles pagodes tipo "lá lá lá" e "lê lê lê'.
Essas músicas têm muita sabedoria. Não é coisa de intelectual, mas é a sabedoria popular, que merece ser respeitada. Não tenho nada contra quem gosta de Sócrates e outros pensadores, mas essa não é a minha praia. São complicados por demais para a minha cabeça já complicada. Já até tentei ler Nieztche, por volta dos vinte e poucos anos, para impressionar as mulheres, dando uma de intelectual, bom de papo,etc.
Mas confesso que parei na segunda página do livro, sabia que iria pirar se tentasse ler e entender os pensamentos desse cara.
Voltando a viagem, resolvo parar de andar por volta das quatro e meia da tarde. Estou bastante cansado, após percorrer 12km de fortes subidas. Já havia caminhado cerca de 5km de manhã, da cachoeira até o centro de Cocais. Ou seja, caminhei 17km no dia. Com o tempo irei melhorar o meu condicionamento físico.
Consigo encontrar um bom local para armar a barraca, o que não é tão fácil assim neste caminho de sabarabuçu. São cinco horas da tarde e já está fazendo um pouco de frio. Creio que esta noite irei estrear o saco de dormir e ter que fechá-lo e ficar dentro dele, apesar de ser um pouco claustrofóbico.
no final da viagem à Paraty, não imaginava que sentiria saudades dos marcos da estrada real
10 de agosto de 2013
Antônio dos Santos-Caeté
A noite foi bem fria, mas o saco de dormir realmente faz uma boa proteção e consegui dormir bem. Por volta das sete horas da noite, um cara, em um carro, parou em frente a barraca. Deixou os faróis ligados e saiu do veículo. A principio fiquei um pouco assustado, não tinha a mínima ideia de quem poderia ser e o que queria. Escuridão total. Fiquei imóvel dentro da barraca esperando o que ele queria de mim naquele lugar e aquela hora da noite.
- "Ô da barraca! Ô da barraca!- ele me chamou.
Com um pouco de medo, abrir o zíper da barraca e me deparei com o cara, com um refrigerante de 2 litros e alguns sanduíches de mortadela. Enquanto comia conversamos bastante. Os moradores do caminho têm curiosidade sobre o motivo de uma pessoa estar caminhando por essas estradas e com tanto peso nas costas. Já me perguntaram se sou devoto, se estou pagando penitência, se trabalho na estrada real ou se vou ganhar algum prêmio no final da caminhada. A maioria das pessoas não conseguem entender, dá para perceber isso em suas fisionomias quando falo sobre o meu destino. Só uma pequena parte é que entende e acha bacana esse ato de sair caminhando por ai.
Tirando a visita do cara do fusquinha, nada demais aconteceu nesta noite. Silêncio e escuridão total.
A distância entre o distrito de Cocais e a cidade de Caeté é de 40km. Mas ontem, por causa das fortes subidas e do calor, caminhei apenas 12km do percurso, na parte da tarde. A mochila pesada e a falta de ritmo de caminhada também contribuíram para o meu baixo rendimento.
Acordei as sete horas com o sol aquecendo a barraca. Pouco antes das oito já estava pronto para partir quando um morador da região, à cavalo, veio até a mim para prosear e me convidar para tomar um café. Coisa de mineiro né? Conhecer os moradores das pequenas cidades e distritos é tão bom quanto caminhar. A residência do cara é bem antiga, estilo casarão mineiro mesmo, com piso de madeira. Tinha muitos cachorros. Morava com sua família, seus filhos estavam jogando vídeo game. Tinha uma parabólica no quintal. Sinais dos tempos, a modernidade chegando aos rincões de Minas. Novamente a conversa sobre a caminhada, sobre o que fazia da vida, etc.
Depois de saciada a fome, me despeço de todos e começo a seguir o trecho do dia. Faltam 28km para se chegar a Caeté. Com a experiência do dia anterior, planejo fazer o percurso em dois dias, não dá para tirar algum peso da mochila no meio do caminho, só se eu comer a granola toda de uma vez.
O sol hoje também está de rachar, mas já estou caminhando em um ritmo melhor. Por volta das onze horas chego ao povoado de Antônio dos Santos, mas, para o meu azar, a dona do único bar que oferece almoço está doente. O jeito foi recorrer ao tradicional sanduba de presunto e queijo, com iogurte. De sobremesa, maçã e banana para ajudar a musculatura com potássio.
subidas e mais subidas
Como não fiquei de barriga cheia, deu para voltar a caminhar sem fazer uma cesta. Após comer uma laranja, meu intestino dá sinais de vida. É só viajar e mudar a rotina que ele sai do ritmo. Foi um pouco complicado para me aliviar, pois esse trecho da estrada real é cercado dos dois lados, e, para piorar, costuma passar carros com uma certa frequência. O jeito foi achar um matinho e contar com a sorte.
Estou me sentindo bem e já penso em chegar a Caeté hoje mesmo, apesar das fortes subidas que predominam neste trecho, que conta com muitas sombras para nos proteger do sol. Durante a caminhada, vou pensando seriamente em passar alguns dias acampado em alguma das inúmeras cachoeiras de Rio Acima, que é o ponto final desta minha viagem. Não vou seguir este percurso da estrada real por completo, pois, no caminho para Paraty, já conheci o distrito de Glaura.
Os dias neste inverno aqui em Minas estão sendo muito quentes, e vai ser ótimo para tomar bons banhos de cachoeira. Rio Acima tem algumas cachoeiras não muito longe da área urbana, então vai dar para desmontar a barraca na hora de almoçar para pegar um rango em um restaurante qualquer da cidade. Chego a pensar se não seria uma boa morar definitivamente perto de uma cachoeira, longe da confusão da cidade grande. Gosto muito de Belo Horizonte, mas as coisas andam meio complicadas, trânsito maluco, violência, etc.
Em um bom ritmo, para minha surpresa, chego a Caeté antes das quatro horas da tarde. Não estou muito cansado, mas os ombros estão um pouco doloridos. Consigo tomar um bom banho quente no ginásio da cidade e depois passo algumas horas na lan house a fim de saber o que está acontecendo pelo mundo.
Depois da net, procuro um local para dormir. Encontro uma praça bem legal, com bastante grama, mas tinha um pequeno problema: um tal de Naldo(nem sei quem é, mas parece que tá fazendo sucesso por ai), irá fazer um show bem perto da praça, ou seja, a área vai estar bastante movimentada esta noite. Como na praça da igreja matriz também irá ter show, resolvo montar a barraca na rodoviária, que, depois das nove horas já não tem muito movimento.
chegada à Caeté
11 de agosto de 2013-domingo
Caeté-Sabará
Não tive maiores problemas em dormir na rodoviária da cidade. Com exceção de alguns moleques que a todo instante balançavam a barraca e depois saiam correndo, não fui importunado por ninguém.
De manhã tomo um ótimo desjejum: um pão de sal bem quentinho e café com leite. Depois comi um mamão, banana e laranja de sobremesa. Ah! E o yakult não poderia faltar né?
interior da igreja matriz de Caeté
Caeté tem inúmeros pontos turísticos para se visitar, mas seria preciso mais de um dia para conhecê-los. Como o município situa-se próximo a Belo Horizonte, deixo uma visita para uma outra oportunidade.
O trecho para o distrito de Morro Vermelho também é complicado: ,muitas subidas, mas com belas paisagens. Por ser de manhã, o sol não estava castigando tanto assim, e consegui caminhar em um bom ritmo, chegando ao povoado pouco antes das onze horas.
Como era domingo, comi no almoço o que tive vontade de comer, como bom mineiro que sou: feijão tropeiro, carne de porco e um ovo tipo disco voador. E, para completar, uma coca bem gelada! Não sou muito de fazer essas estripulias alimentícias, mas sabe como é né? Domingo pode!!!
Depois do rango, é claro, me bateu um sono danado e tirei um cochilo de meia horinha. Ao meio dia já estava pronto para percorrer os 20km restantes até a cidade de Sabará. O caminho neste trecho é mais tranquilo, não tem tantas subidas. Mas o sol estava de rachar! A umidade do ar parece que está baixa, o clima está muito seco neste inverno aqui em Minas. No meio do caminho já começo a sentir algumas dores musculares nas pernas, principalmente a esquerda, para variar. Realmente o meu limite de conforto é dez quilos é já começo a pensar sobre o que retirar para a próxima viagem(passos dos Jesuítas-SP)
A sede incomoda muito mais do que a fome, acho que a maioria das pessoas concordam com isso. Podemos ficar vários dias sem comer, mas se não bebermos água... Há pouquíssimas casas e fazendas no percurso, e tenho que racionar esse líquido tão precioso. Por volta das quatro horas já estou bem cansado, e penso em acampar antes de chegar a Sabará, mas, analisando a região, vejo que a única fonte de água é a de um rio que talvez sirva de esgoto para o povoado de Morro Vermelho e que acompanha o viajante até Sabará.
O jeito foi partir para o sacrifício, num cenário desanimador: muito sol e pouca água. Quase nenhum sinal de vida pelo caminho, não passando muitos veículos na estrada. Tirando a vegetação verde, a sensação era de que estava em um deserto, por causa do clima seco e hostil.
A mistura bombástica do almoço resultou em torpedos com gazes violentíssimos. Era uma rajada que saia a todo momento. Se fosse em um elevador...
A mochila estava ficando absurdamente mais pesada a cada quilômetro andado, e a dor na batata da perna já me incomoda bastante. Mas com muito esforço e sacrifício chego em Sabará por volta das seis horas da tarde, em frangalhos.
Pensei em montar a barraca perto de uma igreja qualquer que encontrasse na cidade. Mas, como estou muito cansado e com muitas dores musculares, chego à conclusão de que preciso descansar em uma boa e confortável cama. Depois de uma longa procura, consigo achar na cidade um hotel com preço acessível. É a estrada dos reais!
Lavo minhas roupas e tomo um longo e demorado banho. As dores estão me incomodando muito e resolvo tomar um comprimido que me faz apagar e que só tomo de vez em quando. Amanhã tenho que estar recuperado para prosseguir a viagem.
12 de agosto de 2013-segunda feira
A decisão
Acordei às sete horas, sonolento e meio dopado pelo efeito dos medicamentos. São os antipsicóticos que tomava com frequência quando tive surtos psicóticos. Atualmente não tenho o costume de tomá-los, só uso o pan nosso de cada dia mesmo Esses medicamentos só tomo quando estou muito estressado e quando preciso dar uma "zerada" em minhas idéias.
Demoro mais de uma hora para tomar um banho e arrumar a mochila. Uma imensa vontade de não fazer nada tomou conta de mim. Após muito refletir, resolvo desistir do caminho, ou melhor, adiá-lo, pois não sou de desistir assim tão fácil. Missão dada é missão cumprida! Mas, claro que temos que reconhecer nossas limitações e recuar, para depois avançar em melhores condições. Já não sou um garoto(44 anos este mês, já estou aceitando presentes rsrsrs) e sei que tenho que reduzir o peso da mochila para caminhar sem sofreguidão.
Mas o que mais atrapalhou mesmo foi o efeito do medicamento. Deveria ter tomado uma dose menor. Por experiência própria sei que o efeito só irá acabar por completo à noite, e o mais sensato é voltar para Belo Horizonte mesmo.
Antes de voltar, dei uma voltinha pelo centro histórico de Sabará para tirar algumas fotos.
centro histórico de Sabará
Esses medicamentos, além de me deixarem lento e dopado, fazem com que eu me sinta meio robotizado, como se anulassem as minhas emoções. Fico apático e não acho graça em nada, nem mesmo nas belas paisagens desse nosso Brasil.
Por esses motivos o melhor é dar um tempo e voltar melhor em uma outra oportunidade. Até a próxima pessoal, com o relato da segunda e última parte da viagem.
igreja sem teto, segundo moradores, a obra não foi terminada ou o teto desabou depois de pronto