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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Por que não tenho mais surtos?

    Muitas vezes, nos comentários do blog, do youtube ou até mesmo por emails, muitas pessoas me perguntam sobre o que eu fiz para me livrar da esquizofrenia, dos surtos psicóticos, etc. Geralmente são familiares ou namoradas de esquizofrênicos procurando uma saída para esse problema. Algumas vezes os próprios portadores em crise, chegam até a mim perguntando se existe uma saída para esse transtorno. Infelizmente não tenho essa resposta, mas sinto-me honrado por me acharem capaz de ajudar em alguma coisa e procuro fazer isso da maneira que posso, pois já passei por alguns surtos e sei como é isso. Sei que não deve ser nada fácil para os familiares que lidam com isso pela primeira vez, pois a falta de conhecimento sobre o assunto é grande. É quase impossível convencer o esquizofrênico que está tendo o primeiro surto, de que suas alucinações visuais ou auditivas não são realidade, ou que a mania de perseguição é fruto de sua imaginação.
    Bem, a verdade é que não me curei da esquizofrenia simplesmente pelo fato de ainda não haver cura para essa patologia. Muitos chegam a comentar que não tenho nada, que estou super bem, ao verem os meus vídeos no youtube. Acho que muitas pessoas e profissionais da área de saúde fazem o diagnóstico apenas olhando o aspecto físico da pessoa, ou seja, se ela está penteando o cabelo, se está fazendo a barba, etc. A verdade é que alguém pode estar muito mal psicologicamente mesmo estando com os cabelos penteados e se vestindo adequadamente.
    Tem dias que me sinto bem, outros nem tanto e tem dias que não dá vontade nem de sair da cama. Quando sou acordado de um sonho então, nem se fala. Levo um choque brutal da realidade e fico muito decepcionado ao constatar que era apenas um sonho o que estava acontecendo. Me lembro até hoje de um sonho interrompido bruscamente pela vizinha barraqueira que estava brigando às sete horas da manhã. No sonho eu estava beijando uma linda mulher embaixo de uma árvore, coisa que eu não faço há tempos, nem embaixo da árvore nem em lugar nenhum. Ficar sem beijar faz mal a saúde, sem brincadeira. Um abraço então, nem se fala. Tem alguns posts no facebook que falam sobre os benefícios de um abraço.
    É muito frustrante acordar de um sonho, ainda mais quando temos uma vida monótona e com uma rotina entediante e que teremos mais um dia como outro qualquer pela frente. Aquele dia fiquei super chateado, pois o sonho parecia ser tão real e fui interrompido na melhor parte por uma briga de vizinhos. Não se pode namorar nem em sonhos?
    Mas, voltando ao assunto inicial, em que as pessoas questionam sobre a melhor forma de como se lidar com a esquizofrenia, digo simplesmente que não existe tal fórmula mágica. Cada caso de esquizofrenia é único, como disse o autor do livro ""Cadê minha sorte? "Não existe a esquizofrenia, e sim as esquizofrenias".
    Acho que não tenho mais surtos por que já passei da fase dos sintomas "positivos" e estou nos negativos. Ando meio apático, desanimado, sem vontade para fazer coisa alguma. Vou experimentar o ômega 3, pois além de dizerem que é bom contra a esquizofrenia, também ajuda a combater a depressão. Hoje sofro mais com a mania de perseguição, mas já não tenho alucinações.
    Preciso do ômega três também para diminuir os triglicerídeos, que estão bem acima do tolerável, que é 200mg. Atualmente o meu está na faixa dos 520mg. Infelizmente, sou chocólatra, me acostumei a comer  chocolate e tudo o que tem a substância que faz aumentar o bom humor. Ou seja, torta de chocolate, sorvete de chocolate, brigadeiro,etc. Pelo menos em mim o efeito é imediato, tudo fica melhor, acho graça em coisas que comumente não acharia. Se o ômega 3 der certo, compartilharei com todos aqui do blog. Não estou aqui incentivando as pessoas abandonarem o tratamento convencional e sim algo para complementá-lo, pois as pesquisas deram um bom resultado e não custa nada experimentar um produto natural que, além de tudo, faz bem ao coração. Se não der certo, vou experimentar a sertralina, apesar de achar horrível a ideia de que o meu humor dependa de um medicamento. Mas pesando os prós e os contras, é melhor depender do medicamento do que ficar se empanturrando de chocolate e correr o risco de ter um ataque cardíaco. Sem contar que chocolate é meio caro né?
    Um outro fator que sinto que contribui para a diminuição dos surtos é a idade. Já tenho 43 anos e me lembro de ter lido algo a respeito em algum site, se bem que não devemos confiar em tudo o que achamos por ai na web. Mas a maturidade ajuda em muitas coisas, deixamos de ser mesquinhos, temos outra visão de mundo, temos outros valores, etc. Claro que, se a pessoa não se tratar, provavelmente ela só irá piorar com o passar do tempo.
    O fato de tentar me cuidar da melhor maneira possível ajuda e muito a diminuir as chances de surtos. Procuro me alimentar bem, dormir bem (quando os vizinhos deixam), evito situações estressantes e evito bebidas e drogas. Sou um careta assumido, meio maluco de nascença mesmo. rsrsrsrs Tento também voltar a caminhar, mas ao invés da caminhada produzir endorfinas em meu corpo, é só a dor que ela provoca mesmo, acho que é coisa da idade , se bem que vejo um monte de gente com 50 anos fazendo caminhada no parque. Gostaria de saber quem inventou a frase de que a vida começa aos 40.
    Mas o principal fator para que eu não tenha mais surtos talvez seja o tipo de esquizofrenia que tenho. Acredito que o que eu tinha era uma esquizofrenia simples, que me atrapalhava um pouco nas relações do dia a dia, mas que dava para ser administrada. Apenas me achava um cara esquisito e muito tímido.
      Mas, certo dia, como um soldado que enlouquece em uma guerra violenta e sanguinolenta, eu tive meus surtos, devido a fatores externos muito estressantes. A sensação era de que estava em uma guerra mesmo, só que o bombardeio era mental, através de chacotas e calúnias. Isto realmente aconteceu, não foi fruto de minhas paranoias. Por motivos que até hoje desconheço, em uma certa cidade tive muitas inimizades, principalmente no trabalho e no bairro onde morava. Não aguentei a barra e minha mente começou a aumentar a realidade, até imaginar que o mundo inteiro estava contra mim. O surto não vem de uma hora para outra, é uma bola de neve que vai crescendo aos poucos e, quando damos conta, já estamos surtados.
    As pessoas naquela cidade sabiam o meu ponto fraco, que eram as palavras. Infelizmente, algumas pessoas viram o meu caderno em que eu fazia algumas anotações sobre os meus sentimentos e leram a parte em que eu dizia que uma palavra me feria mais do que uma flechada em meu coração. Elas contaram o fato aos vizinhos e, em pouco tempo, o bairro inteirinho já sabia do meu calcanhar de aquiles. Os meus desafetos e outras pessoas aproveitaram e começaram a fazer comentários maldosos a meu respeito perto de mim, com a intenção de que eu ouvisse mesmo, para assim me desestabilizarem. Com o tempo, passei a imaginar esses comentários aonde eu fosse e já não sabia distinguir o real do imaginário. A solução que encontrei foi levantar a bandeira branca e ir embora daquela cidade. Até me estabilizar, foi um longo processo, de idas e vindas por esse mundo cruel e desconhecido chamado esquizofrenia.
    Sai dessa guerra ferido, mas não morto. Hoje me sinto fortalecido com as experiências que tive e aprendi a não dar atenção a opinião alheia. Uma experiência de quase morte modifica completamente os nossos conceitos.Hoje sei filtrar as críticas, e gosto até de recebê-las, pois assim posso evoluir em algumas coisas. Às vezes, faço uma visita a essa cidade onde tive os surtos e inimizades, para mostrar que estou vivo, pois, quando pegava uma simples dengue, a cidade praticamente decretava minha morte, sem exageros.
    Se fosse para colocar uma porcentagem nas causas dos meus surtos psicóticos, diria que 35% se deu em razão dos fatores genéticos ou biológicos e 65% devidos aos fatores externos, que foi o bombardeio mental na cidade que prefiro não citar o nome aqui no blog, mas que relato no livro.
    Procurei então tirar uma lição de todos esses fatores externos que desencadearam os surtos, e hoje, mais maduro, tenho a convicção que vale mais a pena abandonar a guerra e ter paz.
    Hoje, sou um pacato cidadão, um pouco anti social talvez, mas que procura ajudar as pessoas que estão passando atualmente o que passei anos atrás, como uma forma de retribuição pela solidariedade que recebi nos momentos mais difíceis. O amor, a solidariedade, o carinho e a atenção são tão importantes quanto os medicamentos no tratamento da esquizofrenia. Não adianta pagar o melhor psiquiatra, ir a melhor psicóloga, tomar os medicamentos de última geração se o portador não é compreendido e não tem o apoio de seus familiares ou amigos.