Bem, a verdade é que não me curei da esquizofrenia simplesmente pelo fato de ainda não haver cura para essa patologia. Muitos chegam a comentar que não tenho nada, que estou super bem, ao verem os meus vídeos no youtube. Acho que muitas pessoas e profissionais da área de saúde fazem o diagnóstico apenas olhando o aspecto físico da pessoa, ou seja, se ela está penteando o cabelo, se está fazendo a barba, etc. A verdade é que alguém pode estar muito mal psicologicamente mesmo estando com os cabelos penteados e se vestindo adequadamente.
É muito frustrante acordar de um sonho, ainda mais quando temos uma vida monótona e com uma rotina entediante e que teremos mais um dia como outro qualquer pela frente. Aquele dia fiquei super chateado, pois o sonho parecia ser tão real e fui interrompido na melhor parte por uma briga de vizinhos. Não se pode namorar nem em sonhos?
Mas, voltando ao assunto inicial, em que as pessoas questionam sobre a melhor forma de como se lidar com a esquizofrenia, digo simplesmente que não existe tal fórmula mágica. Cada caso de esquizofrenia é único, como disse o autor do livro ""Cadê minha sorte? "Não existe a esquizofrenia, e sim as esquizofrenias".
Acho que não tenho mais surtos por que já passei da fase dos sintomas "positivos" e estou nos negativos. Ando meio apático, desanimado, sem vontade para fazer coisa alguma. Vou experimentar o ômega 3, pois além de dizerem que é bom contra a esquizofrenia, também ajuda a combater a depressão. Hoje sofro mais com a mania de perseguição, mas já não tenho alucinações.
Preciso do ômega três também para diminuir os triglicerídeos, que estão bem acima do tolerável, que é 200mg. Atualmente o meu está na faixa dos 520mg. Infelizmente, sou chocólatra, me acostumei a comer chocolate e tudo o que tem a substância que faz aumentar o bom humor. Ou seja, torta de chocolate, sorvete de chocolate, brigadeiro,etc. Pelo menos em mim o efeito é imediato, tudo fica melhor, acho graça em coisas que comumente não acharia. Se o ômega 3 der certo, compartilharei com todos aqui do blog. Não estou aqui incentivando as pessoas abandonarem o tratamento convencional e sim algo para complementá-lo, pois as pesquisas deram um bom resultado e não custa nada experimentar um produto natural que, além de tudo, faz bem ao coração. Se não der certo, vou experimentar a sertralina, apesar de achar horrível a ideia de que o meu humor dependa de um medicamento. Mas pesando os prós e os contras, é melhor depender do medicamento do que ficar se empanturrando de chocolate e correr o risco de ter um ataque cardíaco. Sem contar que chocolate é meio caro né?
Um outro fator que sinto que contribui para a diminuição dos surtos é a idade. Já tenho 43 anos e me lembro de ter lido algo a respeito em algum site, se bem que não devemos confiar em tudo o que achamos por ai na web. Mas a maturidade ajuda em muitas coisas, deixamos de ser mesquinhos, temos outra visão de mundo, temos outros valores, etc. Claro que, se a pessoa não se tratar, provavelmente ela só irá piorar com o passar do tempo.
O fato de tentar me cuidar da melhor maneira possível ajuda e muito a diminuir as chances de surtos. Procuro me alimentar bem, dormir bem (quando os vizinhos deixam), evito situações estressantes e evito bebidas e drogas. Sou um careta assumido, meio maluco de nascença mesmo. rsrsrsrs Tento também voltar a caminhar, mas ao invés da caminhada produzir endorfinas em meu corpo, é só a dor que ela provoca mesmo, acho que é coisa da idade , se bem que vejo um monte de gente com 50 anos fazendo caminhada no parque. Gostaria de saber quem inventou a frase de que a vida começa aos 40.
Mas o principal fator para que eu não tenha mais surtos talvez seja o tipo de esquizofrenia que tenho. Acredito que o que eu tinha era uma esquizofrenia simples, que me atrapalhava um pouco nas relações do dia a dia, mas que dava para ser administrada. Apenas me achava um cara esquisito e muito tímido.
Mas, certo dia, como um soldado que enlouquece em uma guerra violenta e sanguinolenta, eu tive meus surtos, devido a fatores externos muito estressantes. A sensação era de que estava em uma guerra mesmo, só que o bombardeio era mental, através de chacotas e calúnias. Isto realmente aconteceu, não foi fruto de minhas paranoias. Por motivos que até hoje desconheço, em uma certa cidade tive muitas inimizades, principalmente no trabalho e no bairro onde morava. Não aguentei a barra e minha mente começou a aumentar a realidade, até imaginar que o mundo inteiro estava contra mim. O surto não vem de uma hora para outra, é uma bola de neve que vai crescendo aos poucos e, quando damos conta, já estamos surtados.
As pessoas naquela cidade sabiam o meu ponto fraco, que eram as palavras. Infelizmente, algumas pessoas viram o meu caderno em que eu fazia algumas anotações sobre os meus sentimentos e leram a parte em que eu dizia que uma palavra me feria mais do que uma flechada em meu coração. Elas contaram o fato aos vizinhos e, em pouco tempo, o bairro inteirinho já sabia do meu calcanhar de aquiles. Os meus desafetos e outras pessoas aproveitaram e começaram a fazer comentários maldosos a meu respeito perto de mim, com a intenção de que eu ouvisse mesmo, para assim me desestabilizarem. Com o tempo, passei a imaginar esses comentários aonde eu fosse e já não sabia distinguir o real do imaginário. A solução que encontrei foi levantar a bandeira branca e ir embora daquela cidade. Até me estabilizar, foi um longo processo, de idas e vindas por esse mundo cruel e desconhecido chamado esquizofrenia.
Sai dessa guerra ferido, mas não morto. Hoje me sinto fortalecido com as experiências que tive e aprendi a não dar atenção a opinião alheia. Uma experiência de quase morte modifica completamente os nossos conceitos.Hoje sei filtrar as críticas, e gosto até de recebê-las, pois assim posso evoluir em algumas coisas. Às vezes, faço uma visita a essa cidade onde tive os surtos e inimizades, para mostrar que estou vivo, pois, quando pegava uma simples dengue, a cidade praticamente decretava minha morte, sem exageros.
Se fosse para colocar uma porcentagem nas causas dos meus surtos psicóticos, diria que 35% se deu em razão dos fatores genéticos ou biológicos e 65% devidos aos fatores externos, que foi o bombardeio mental na cidade que prefiro não citar o nome aqui no blog, mas que relato no livro.
Procurei então tirar uma lição de todos esses fatores externos que desencadearam os surtos, e hoje, mais maduro, tenho a convicção que vale mais a pena abandonar a guerra e ter paz.
Hoje, sou um pacato cidadão, um pouco anti social talvez, mas que procura ajudar as pessoas que estão passando atualmente o que passei anos atrás, como uma forma de retribuição pela solidariedade que recebi nos momentos mais difíceis. O amor, a solidariedade, o carinho e a atenção são tão importantes quanto os medicamentos no tratamento da esquizofrenia. Não adianta pagar o melhor psiquiatra, ir a melhor psicóloga, tomar os medicamentos de última geração se o portador não é compreendido e não tem o apoio de seus familiares ou amigos.


