quarta-feira, 24 de junho de 2026

25º dia pedalanças Belo Horizonte à Belém do Pará-Combinado-TO à Taguatinga de Tocantins

 12/08/2024
Conhecendo o menor rio do mundo!


                                            A Noite Mágica Que Se Transformou em Pesadelo

     O dia ontem foi maravilhoso, a pedalada, a satisfação de pedalar por mais um estado brasileiro, no caso, Tocantins. As pessoas que conheci no posto de gasolina. Foi tudo excelente, até por volta da meia noite. Os frentistas com quem fiz amizade foram embora às dez da noite, hora em que encerra o pesado turno de trabalho deles, que começa às oito da manhã. 
    Montei minha barraca como de costume e me preparei para dormir. Mas, para o meu desespero, algo inusitado e inesperado aconteceu e acabou tirando o meu sono. 

                                                                   O galo da madrugada
    Um galo começou a cantar bem em cima da minha barraca. Ele estava no meio da mangueira. Queria pegar alguma coisa para espantá-lo, mas estava tudo muito escuro. E o infeliz cantava alto e sem parar. Como se quisesse dizer que era o dono do pedaço. Não estava com ânimo para desmontar tudo e procurar outro lugar para dormir. O jeito foi entrar para minha humilde residência e tentar pelo menos descansar, pois pegar no sono era quase impossível com um galo em cima de mim. 
    Tirando o galo, a madrugada foi tranquila na cidade de Combinado. Só um cara de madrugada passou correndo fugindo da polícia. Ele passou bem próximo à barraca. Logo atrás vieram os policiais em uma viatura, mas passaram direto. Como estou vulnerável em uma barraca, não me envolve nessas confusões.
    Mas o galo cantou a madrugada inteira sem parar, imponente, sem parar. Aliás, parou, às cinco e meia da manhã. Exatamente no momento em que saí da barraca para desmontar acampamento. Isso não era coisa de Deus, pensei. Era um demônio da noite disfarçado de galo. 
    Acordei detonado. E cometi o erro de comer muito no café da manhã, pensando que a energia dos alimentos iria suprir o cansaço de uma noite mal dormida. Engano meu, fiquei  mais na moleza ainda. 

                                                             O cansaço tomou conta
Apesar de estarmos no cerrado, o caminho é repleto de árvores grandes e natureza exuberante

    Pedalei cerca de 25km até a cidade de Aurora por uma estrada legal de ser percorrida. A vegetação nessa região do Tocantins tem mais verde, apesar de estarmos ainda no cerrado. Mesmo percorrendo pouca distância, meu corpo pediu descanso, fruto da noite mal dormida por causa do galo da madrugada de Combinado. 
     O jeito foi procurar uma grama com uma boa árvore para dar aquela sombra. Tirei o tênis e fiquei ali deitado por quase duas horas. Sinto uma energia boa ao andar descalço pela grama e pela areia. Dizem que absorvemos a energia da mãe terra.  Alguns moradores me olhavam curiosos, mas estava tão cansado que não tive ânimo para conversar com as pessoas. Aliás, naturalmente não sou muito de conversar, mas nessas viagens até que falo bastante. 
                                                                                                   
Aurora do Tocantins



                                                                        A ressureição


    Lentamente senti o ânimo voltar e comecei a pedalar novamente. Conheci os Rios Azuis, que é um ponto turístico naquela  região do Tocantins. O local é lindo, onde fica um dos menores rios do mundo. No estado é conhecido como o menor rio do mundo. Ele tem 147 metros de extensão. Na verdade é o menor rio da América Latina e o terceiro menor rio do mundo. Mas, independentemente do tamanho, vale a pena conhecer a região pela sua beleza. É pequeno em extensão, mas gigante pela sua beleza.
    O lugar é bem agradável, com quiosques, restaurantes servindo comidas maravilhosas. Aliás, o estado de Tocantins está me surpreendendo pela sua beleza, com seus rios de cor verde e a natureza em volta das estradas. Alguns caminhoneiros haviam me dito que era um estado deserto, e até cogitei atravessá-lo de ônibus. Mas, como sou teimoso, disse que iria até Belém de bike. E é isso o que tenho em mente, missão dada é missão cumprida para o esquizo cicloviajante!
Rio azuis, o terceiro menor rio do mundo. Mas gigante pela sua beleza. 

    O pessoal da entrada de Rio Azuis foi super gente boa e me deixaram entrar sem pagar. Dei uma volta e tirei algumas fotos. Era domingo e o local estava bem cheio. Fiquei meio sem graça de tomar um banho de rio e então negociei um rango em um restaurante do local, pois ali tudo era um pouco caro para minhas parcas condições financeiras. 
     Segui a pedalada do dia e encontrei um rio legal para lavar minhas roupas. Estava mais animado na parte da tarde. O visual do caminho até Taguatinga de Tocantins é muito bonito mesmo, com formações rochosas imponentes que faziam uma linda combinação com o céu avermelhado de um fim de tarde em Tocantins. Tirei várias fotos, apesar de estar escurecendo.

                                            Final de tarde contemplativo e a escuridão da BR
Belo final de tarde na chegada de Taguatinga de Tocantins

   Aliás, aconteceu algo engraçado. Estava pedalando por volta das cinco horas e, como usava  óculos escuros, imaginei que já anoitecia. Me acostumei tanto com os óculos no rosto que havia me esquecido dele. E comecei a pedalar um pouco mais rápido. Me lembrei alguns quilômetros depois que estava usando óculos e o dia ainda estava claro. 
    E continuei a pedalada, parando às vezes não para tirar fotos, apenas para contemplar a beleza daquele lugar com o pôr do sol maravilhoso. As formações rochosas, o céu avermelhado e as nuvens formavam uma linda combinação que só Deus poderia ter criado. 

   E então escureceu de verdade. E não tinha uma lanterna sequer. Aliás, tinha a lanterna que havia ganho em Minas Gerais, mas não inventei uma gambiarra para colocá-la no guidão. O jeito foi pedalar por aquela BR escura e sem acostamento. Tive que tomar muito cuidado pois sabia que com muita dificuldade os motoristas me veriam naquelas condições. Acredito que pedalei cerca de dez quilômetros naquela escuridão. O cuidado foi redobrado para não cair em algum buraco da estrada ou então passar por cima da algum galho de árvore e perder o equilíbrio. A estrada ficava um breu quando não passava veículo e tive que pedalar bem devagar. 
Essa era a minha visão na BR. A imagem está um pouco mais escura, por causa da câmera

   Com muita cautela consegui chegar em Taguatinga de Tocantins por volta das nove horas da noite. A cidade também era bem escura na entrada. E logo imaginei que poderia ser ponto de venda de drogas. E o medo toma conta de mim. Sigo observando tudo e à todos. Todo mundo parecia suspeito. Encontrei um bom posto de gasolina com uma boa estrutura para os caminhoneiros. Dois banheiros com ducha quente, uma área para jogar sinuca, uma mesa, tanque e cadeiras em volta de uma mesa. Conversei com alguns caminhoneiros e me tranquilizei. Antes de montar a barraca procuro algo para comer, mas só encontrei salgados e lugares que vendiam “jantinhas”. Não queria comer arroz com feijão e carne, queria algo de padaria, tipo um pedaço de bolo, yougurte, etc... Com muito custo encontrei uma, mas estava meio vazia. Comprei biscoitos e yougurte, meio insatisfeito. Mas era o que tinha, estava tudo muito escuro e não gosto de chegar nas cidades de noite. 
      Mais um dia de belas surpresas e natureza exuberante. Um dia feliz. 


domingo, 14 de junho de 2026

24º dia pedalanças Belo Horizonte à Belém do Pará- Monte Alegre-GO à Combinado-TO

 11/08/2024
Entrando em Tocantins

Cidade de Combinado, em Tocantins

    Noite mais do que revigorante em Monte Alegre.  Consegui recuperar as energias do dia anterior, que foi muito desgastante, por ter pedalado quase 100km sem almoço e sob um forte calor típico do Tocantins. Seria uma prévia do que iria encontrar mais para frente?
    Tudo colaborou para que tivesse uma excelente noite de sono: havia dormido no lava jato, tomado um bom banho, me alimentado bem e tudo mais. E também dormir com uma pessoa conhecida ajuda a aumentar a sensação de segurança. E havia conhecido pessoas legais, que eram os proprietários do estabelecimento. Conversamos muito na noite anterior e rimos muito. E rir sempre é o melhor remédio, inclusive para pegar no sono. 
    O ciclista cearense disse que não havia dormido tão bem, por conta dos mosquitos. Estava  usando uma rede. Ele é bem prático, leva apenas uma mochila que não é muito grande, e a rede, é claro. Todas as três vezes que o encontrei pelo caminho estava usando a mesma roupa preta. Rapidamente desmonta seus apetrechos e está pronto para partir. Pacientemente ele me espera desmontar acampamento. Fomos até a padaria mais próxima e tomamos o café da manhã, cada um pagando a sua conta. Ele tinha um celular de tela grande e a bike dele era uma aro 29. Não sei se ele tinha condições financeiras boas, mas pelo tipo de conversa parecia sim ser de classe média ou mais. 
Estradas desertas vão tomando conta do caminho à medida que avanço sentido Belém


    Pensei que ele fosse viajar para outros rumos, mas ele foi me seguindo pelo caminho. Gosto de viajar sozinho, estava meio sem jeito de dizer isso para ele, mas segui na frente boa parte do caminho e acelerei um pouco, e ele ficou para trás. Foi a forma que encontrei de dizer que gosto da solitude das estradas. 
     Mas, como ele era bem mais jovem do que eu e tinha uma bike melhor, com facilidade acabou me passando sem me dizer nada. Acho que ele entendeu que a minha caminhada é solitária. 
    E segui viagem, no meu ritmo, pela quase deserta estrada. Percebo que, à medida que vou me aproximando de Tocantins, as estradas vão ficando mais solitárias também. Me disseram na entrada de Goiás que em Tocantins existem muitos trechos semi desertos. E, como não tenho GPS terei que tomar o máximo de cuidado para não cair em um trecho longo e pouco habitado, pois não levo muita água e nem comida na bagagem. Terei que me informar o máximo possível com os moradores da região sobre os percursos e os melhores caminhos a seguir. 
     O meu GPS está sendo Gente e Pessoas Solicitas. E é melhor do que o google maps, afinal os moradores da região conhecem os atalhos e as belezas dos lugares onde moram melhor do que ninguém. 
    A estrada para Campos Belos é muito boa, como a maior parte das Brs de Goiás. Parece que as “estradas ruins” desse estado são melhores do que as estradas boas de Minas Gerais. E, como havia descansado bem na noite anterior, segui em um bom ritmo e cheguei em Campos Belos por volta do meio dia. Foram quase 80km só na parte da manhã!  Meu rendimento em relação à primeira pedalança em 2019 está bem melhor. Fiz alguns ajustes na Margarida e eu, apesar de quase seis anos depois, continuo pedalando bem. 
    Parei em uma pracinha, e, antes de me sentar, o pessoal da igreja assembleia de Deus me chamou para lanchar. Eles estavam distribuindo lanches para os moradores de rua e outras pessoas naquela praça. Era o dia dos pais. Nem sabia, já sou meio alheio às datas comemorativas, e nessas minhas viagens fico por fora de tudo. 
Pracinha em Campos Belos onde tomei um gostoso lanche que serviu como almoço


    Comi cachorro quente, melancia, e tomei uns quatro copos de refrigerante. Foi o meu almoço. Além da barriga, a cabeça está cheia, só que de dúvidas. Não sei qual rota seguir até Palmas, capital de Tocantins. Monte Alegre é a última cidade de Goiás, antes de entrar no estado mais novo do Brasil. Me falaram que seguindo pela cidade de Arraias, que é o caminho mais usado pelos veículos, eu iria enfrentar grandes percursos desertos. Não quero me desgastar muito, como foi no dia anterior. Além de não almoçar, ainda tem o problema de ficar sem água nessas estradas solitárias. Perguntei para várias pessoas um caminho alternativo para a capital de Tocantins. Ninguém soube me responder. Estava quase desistindo e pensando em dormir em Monte Alegre quando uma mulher me disse que se eu seguisse em direção à cidade de Dianópolis iria pegar estradas mais habitadas e o caminho seria mais interessante em termos de atrações. Ela me disse que essa rota passa pelo menor rio do mundo, conhecido como Rios Azuis. Teria que pedalar cerca de 150km a mais, mas como já disse, pressa é uma palavra que não existe no meu vocabulário de cicloviajante. O importante é curtir o caminho, e não a chegada, afinal é uma cicloviagem e não uma corrida contra o tempo. 
Qual caminho seguir? O mais curto ou o mais agradável?


    Havia chegado meio desanimado e cheio de dúvidas em Campos Belos. Mas, depois do lanche amigável e de descobrir uma rota bacana para Palmas, já fico um pouco mais animado e depois de um breve descanso sigo adiante em direção ao estado de Tocantins.
    Na saída de Campos Belos encontro um senhor fazendo manutenção em uma “Kombihome”, que, basicamente é uma Kombi transformada em uma casa sobre quatro rodas. O veículo é bem conservado e as adaptações ficaram ótimas. Conversamos por um bom tempo e nos despedimos.  
Uma linda Kombihome na saída do estado de Goiás 

Entrando em Tocantins...


    Entro em Tocantins na cidade de Novo Alegre e resolvo continuar, estou bem fisicamente hoje. Uma noite bem dormida recupera bem o meu físico. E a estrada é ótima, cercada de verde para todos os lados. Ainda estamos no cerrado, mas a impressão é de as árvores são mais altas e a vegetação um pouco mais verde do que em Minas Gerais e em Goiás. 
    Chego na cidade de Combinado por volta das cinco da tarde. É uma pequena cidade com poucas pessoas nas ruas, e, além de tudo era um domingo. Ainda tinha forças para continuar a pedalar, mas, como não tenho lanternas, resolvo parar ali. Foram quase 80km que começaram cheio de dúvidas e incertezas, mas que terminaram bem em uma simpática cidade do interior do Tocantins. 
   Parei em um posto de gasolina e os frentistas foram muito atenciosos comigo, ficamos conversando por um bom tempo, até o momento em que resolvi montar a barraca, por volta das dez horas da noite. Fiquei sabendo que o nome da cidade se deu por que no início haviam vários proprietários de terra no local e que combinaram de juntar suas posses para inaugurar a cidade. Dai o nome de Combinado. 
 O proprietário do posto apareceu por lá e trocamos ideias também. O povo de Tocantins parece ser bem hospitaleiro e muito comunicativo. Hoje foi um belo dia, com boas energias e um ritmo bom sem se cansar muito. 
A vegetação em Tocantins ainda é cerrado, mas com mais árvores e verde. 


Centro de Combinado-TO



segunda-feira, 8 de junho de 2026

Um dia feliz

 

    

Hoje foi um dia feliz.

    Estava morando em um apartamento bacana, todo mobiliado e com um preço bacana. A mãe da proprietária adoeceu e teve que se mudar para ficar perto de sua progenitora.  Mas nem tudo é perfeito, o imóvel fica situado em um bairro com morros altíssimos. Acho que é o ponto mais alto de Ipatinga, aqui em Minas Gerais. Foram cinco meses de uma rotina entediante, apesar do belo visual da janela do apartamento. 
    Estava pedalando uma vez por semana, apenas para fazer as compras básicas.
   O lugar era agradável, cercado por montanhas e com uma brisa refrescante, algo importantíssimo na quentíssima região do vale do aço. Tinha até uma seriema que se aproximava bem das pessoas, e que arrumava uma gritaria gostosa na parte da manhã. Seu canto mais parecia uma risada escandalosa, mas que me fazia sentir estar no meio do mato. 
    Mas, sou viciado em pedalar e resolvi mudar para um barracão mais simples. Tem muita coisa para fazer: pintar, arrumar vidros, reboco, etc..E isso também é uma terapia, ver uma transformação, seja de pessoas, ambientes, coisas, objetos, etc... 
Ipatinga-MG  Em primeiro plano, a siderúrgica Usiminas


    Agora estou morando em um bairro com retas e voltei a pedalar normalmente, ou melhor, quase normalmente. Estou pegando ritmo aos poucos. A primeira vez que saí para andar de bike foi um pouco difícil, os músculos ficaram doloridos e tive uma pequena câimbra. 
    Hoje pedalei cerca de 16km e cheguei inteiro em casa, sem maiores problemas. Foi tão gostoso pedalar bem na subida e não ficar ofegante, sentindo aquele arzinho gelado entrando pelos pulmões. 
    Isso é motivo de estar feliz, pois pedalar faz parte do meu tratamento da esquizofrenia, reduzindo o stress, a ansiedade e liberando endorfinas e outras "inas" mais.
    E cuidar da Margarida (minha querida bike) é uma terapia, a gente vai aprendendo a cuidar dos freios, dos câmbios, dar uma lavada e polida. É um prazer vê-la brilhando e andando bem. É uma bike antiga, de 1990. Foi amor à primeira vista. Ela estava jogada no quintal de uma casa, só o quadro. A pessoa a vendeu por 20 reais em 2017. Ela tem avarias que a desvalorizam bem, e também é um quadro aro 26, que já não faz tanto sucesso assim. A maioria das pessoas estão comprando bicicletas aro 29, que andam bem mais. 
    Mas eu não me importo, já viajei 11 estados do Brasil com a Margarida. Enfrentei serras fortíssimas, serração, chuva, sol escaldante do nordeste e outros perrengues mais comuns em uma cicloviagem. E já consegui pedalar 140km em um único dia, ou melhor, noite também. Foi no Piauí, e tive que dar um intervalo de meio dia às quatro e meia da tarde, por conta do forte calor. 
    Infelizmente o tratamento da esquizofrenia no Brasil é centrado nos antipsicóticos, e os resultados não são tão satisfatórios. Esquizofrenia por aqui é quase sinônimo de benefício, seja aposentadoria ou LOAS, também conhecido como BPC. 
    Enfim, cada caso é um caso, mas o tratamento deveria incluir uma série de alternativas saudáveis, tanto na parte física como mental.