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segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Pedalanças- 1° trajeto

     Está decidido o primeiro trajeto de minhas pedalanças, que começará no início do mês que vem. 
    Apesar da mania de perseguição que me persegue, irei sim fazer esta e mais outras caminhadas de bike. Estava com algumas dúvidas onde começar, pois estamos no período das chuvas. 
    A verdade é que se eu der atenção para a mania de perseguição, não sairei de casa. E minha vida sempre foi assim, enfrentando inimigos reais e imaginários que segui o meu caminho até os dias de hoje. 
    A bike não é das melhores, e por isso farei o trajeto bem devagar, andando cerca de 30 a 40km por dia. É o que consigo andar nessa "magrela" sem muita sofrência, isso se o caminho não tiver muitas subidas bruscas. E também não tenho a intenção de correr, se quisesse velocidade compraria uma moto usada e aprenderia a digirir, sei lá. Quero é curtir o caminho, sentir o vento no rosto, enfim, me desligar um pouco desse mundo em que estou vivendo. 
    Irei fazer este percurso do mapa da imagem, não irei fazer agora o caminho da estrada real por que estamos no período das chuvas. E qualquer chuvinha mais forte atrapalha e muito a caminhada na estrada real, pois 90% do percurso é de estrada de terra. É o caminho onde me sinto em casa, no meio do mato, subindo e descendo as serras e respirando um pouco de ar puro. 
    Conto com a força de todos os leitores do blog, cada um na sua fé, é claro, e também na força de quem não tem uma fé religiosa, pois procuro respeitar à todos, inclusive quem não tem fé nenhuma. 
    Serão 660 km entre Belo Horizonte e o litoral do Espírito Santo, que já tive oportunidade de conhecer na época que estava viajando a pé mesmo. 
    O segundo trajeto ainda não decidi, a viagem não quero planejá-la com tanta antecedência, pois até mesmo minha vida não a planejei. 
    Obrigado à todos os leitores do blog e continuarei postando aqui, falando de saúde mental e outros assuntos, e, claro, postando algumas fotos dessa viagem maluca. 
    Quem quiser contribuir mande mensagem pelos comentários ou pelo email, ainda faltam algumas coisinhas, mas nada que me impeça de começar a viagem.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Estrada Real Caminho de Sabarabuçu 1ª parte

   Existem quatro caminhos da estrada real, aqui em Minas Gerais. Como a maioria já sabe, já fiz um:o caminho velho, entre Ouro Preto(MG) à Paraty(RJ). Esse caminho, conhecido como Sabarabuçu, é o menor dentre os quatro(110km+-). Mas é muito bonito também. Pretendo, futuramente, fazer os outros dois, que têm 500km cada um. 
8 de agosto de 2013
Cocais

    Pego um ônibus em Belo Horizonte, com destino a Cocais, por volta do meio dia. É nesse pequeno e pacato distrito que se inicia o caminho de sabarabuçu, o menor dentre os quatro caminhos da estrada real em Minas Gerais. No meio da viagem, um senhor, aparentando uns 60 anos de idade, senta-se ao meu lado. Carrega um terço nas mãos e constantemente faz o sinal da cruz. Como "bom paranoico" que sou, logo penso que ele não foi com a minha cara e que estava fazendo aquele gesto por minha causa. "Mas então por que ele não se senta em outra poltrona?", me pergunto. Aquilo estava me incomodando, e muito, mas claro que não disse nada para o senhor, já quebrei a cara algumas vezes ao tentar conversar com as pessoas que eu cismava que estavam falando ou planejando algo contra a minha pessoa. Hoje em dia sei lidar melhor com essa situação e uso muito a terapia do "tô nem ai". Isso mesmo, tô nem ai se os meus pensamentos são frutos de minha paranoia ou se o que estou pensando é fruto da realidade mesmo.
    Nunca fui de fazer muito esforço para agradar as pessoas, e não seria agora que me aposentei é que faria isso. Não é arrogância de minha parte, só gostaria que as pessoas gostassem  da minha pessoa do jeito que sou, apenas isso. 
    Voltando a viagem, resolvo então mudar de poltrona, já que o senhor não parava de fazer o sinal da cruz. Ao me sentar no novo lugar, o cara, com um sorriso no rosto, me entrega o jornal que eu havia esquecido . Esse pequeno gesto fez com que minha desconfiança diminuísse , e acabei chegando a conclusão de que o homem era apenas muito religioso e que estava pedindo a Deus para que a viagem transcorresse tranquilamente. É a velha mania de perseguição que me persegue...
    Chego a Cocais por volta das duas horas da tarde e vou logo me informando sobre os dois principais pontos turísticos do distrito: a cachoeira e a famosa pedra pintada, com suas pinturas rupestres, de cerca de seis mil anos atrás. Cocais é um distrito bem pacato, distante 100km de Belo Horizonte Quase ninguém andando pelas ruas de pedra, um ou outro carro passando pela via principal e algumas crianças brincando no parquinho em frente à igreja. Acho que toda pequena cidade do interior de Minas tem uma igreja com uma pracinha em frente.
distrito de Cocais
     Depois de um lanche, sigo para a pedra pintada, a fim de tirar algumas fotos. Subida bem íngreme, e logo começo a ficar ofegante, há muito tempo não fazia essas caminhadas. O peso da mochila(13,5kg) parece que vai aumentando a medida que vou caminhando. Depois de 3,5km de pura subida, já bem cansado, consigo chegar a entrada da atração turística, que é vigiada por um casal que mora no local.
    Sou alegremente recebido por um daqueles cachorros de orelhas grandes e corpo espichado, parecendo uma salsicha. O caseiro então aparece e me convida a entrar. Me leva por uma pequena trilha até o lugar onde foram feitas as pinturas. O cachorrinho sempre ia na frente, como já sabendo o que iríamos ver. A paisagem lá de cima é deslumbrante, vale a pena a subida. As pinturas foram feitas no alto de uma pedra, e é preciso focar um pouco a visão para ver e distinguir as figuras de alguns animais.

    Não fico muito tempo apreciando as pinturas, pois queria também ver e tomar um bom banho na cachoeira de Cocais, que fica à 1km de distância da pedra pintada, na mesma subida íngreme. Para o meu azar, a porteira da entrada estava trancada com cadeado. A cerca era de madeira e arame farpado, mas, mesmo assim, resolvi pular a cerca, já que a cachoeira não se situava em uma propriedade particular. Qualquer deslize na cerca poderia me machucar bastante, principalmente as pernas e os países baixos. 
    Depois da porteira, tive que caminhar uns 300 metros por uma descida bem acentuada. Mas valeu a pena, o visual da cachoeira é muito bonito, apesar de não ter muito água, por causa da escassez de chuvas no verão daquele ano de 2013. Por alguns segundos fiquei observando o local, para desacelerar meus pensamentos e entrar em sintonia com a natureza. Como não havia sinal de vida por perto, tirei minha roupa e tomei um bom banho. Aproveitei e lavei minhas roupas que usei no dia.
A sensação de liberdade e paz daquele lugar, juntamente  com a água gelada,  renovaram totalmente minhas energias.
. Não quis arriscar a continuar a caminhada para ver as outras cachoeiras,(dizem que são sete em sequência) São cinco horas da tarde e poderia estar em sérios apuros caso escurecesse naquele local.. Então, tomei mais um belo banho e juntei minhas roupas ainda molhadas.
vista do alto da pedra pintada
      Voltei para a entrada e consegui achar um local plano e gramado para montar a minha barraca.
Foi uma sensação diferente que tive, ao fincar os ganchinhos na terra. Era a primeira vez que iria acampar no meio do mato. Na minha primeira viagem, quando percorrei o caminho velho, montava a barraca sempre nas cidades e vilarejos, pois gosto do contato com o povo do interior de Minas Gerais.
   Já dentro da barraca ligo o rádio, mas só consigo sintonizar três estações: na primeira,  um pastor não parava de falar, não tinha música. A outra tocava só "breganejo" (respeito a original música sertaneja, mas não  esses "sertanejos" que aparecem por ai atualmente). A terceira já apresentava um programa que só noticiava crimes e mortes. Cheguei a conclusão de que seria melhor ouvir o som da natureza mesmo.
    Às seis horas da tarde já havia escurecido, não dava para ver muita coisa. Estava um pouco apreensivo, principalmente em relação à temperatura, afinal, já estamos no inverno. Apesar de ter comprado um saco de dormir, não tinha ideia de como seria essa primeira noite no meio do mato.



09 de agosto de 2013
Cocais-Antônio dos Santos

minha nova casa nova
    A noite foi super tranquila. Quando os grilos paravam de cantar, não se ouvia nada, silêncio total. Nem mesmo ao longe se ouvia uma voz. Não sei por que motivo, mas no mato conseguimos ouvir sons que estão bem distantes de nós. 
    Quanto à temperatura, não fez o frio que estava esperando. Fiquei meio decepcionado, afinal o saco de dormir me custara 130 reais, e queria por que queria ter motivos para usá-lo. Na viagem à Paraty passei alguns apertos em relação ao frio em algumas cidades, principalmente no sul de Minas. Agora que dormi no meio do mato e em pleno inverno, não fez muito frio, só a manta foi o suficiente para me deixar confortável. 
    Acordo por volta das oito da manhã. Havia comprado um relógio do Paraguai, já que não tinha mais o meu amigo celular, que nunca tocava as músicas que eu queria ouvir em determinados momentos, pois já estava meio avariado e só tocava as músicas no modo aleatório. O larápio que roubou o aparelho deve ter ficado meio decepcionado, e ainda bloqueei o celular na operadora. Aconselho a todos a fazerem o mesmo, é rápido e fácil. Se todos bloquearem os aparelhos roubados, provavelmente os ladrões não terão tanto ânimo em nos roubar. 
    Após desmontar a barraca, pulo a perigosa cerca de arame e vou em direção à queda d'água da cachoeira da Cocais. Depois da longa descida caminhei por alguns metros por uma trilha até chegar aos pés daquela maravilha da natureza. O caminho é um pouco cansativo, mas vale a pena o esforço. Creio que a queda deva ter uns quarenta metros de altura. Como relatei, existem sete quedas no total, uma depois da outra, sendo que a primeira tem cerca de 70 metros. Mas resolvi ficar nessa primeira queda, afinal tinha que pegar estrada na parte da tarde. O tempo estava meio nublado, mas não poderia perder a oportunidade de tomar um banho em um lugar tão bonito. Ao contrário do dia anterior, a água estava muito gelada, mas com o tempo o corpo foi se acostumando com a temperatura e entro bem debaixo da queda, deixando a água cair com força em minhas costas. A mãe natureza é uma ótima massagista, e saio da cachoeira revigorado, com vontade de voltar em uma outra oportunidade, para ver as outras quedas.
árvore meio morta meio viva
     Comi uma bela de uma feijoada em um restaurante do distrito e à uma hora já estava caminhando rumo ao povoado de Antônio dos Santos, distante 20km de Cocais. O caminho é muito bonito, mas muito desgastante. Quando não estamos subindo, estamos descendo. Poucas retas para dar uma aliviada na musculatura. O sol do inverno estava de rachar, e o peso da mochila estava fazendo com que o caminho deixasse de ser um prazer. Chego a conclusão de que o máximo de peso que consigo carregar sem sofreguidão é dez quilos. Na viagem do caminho do padre Anchieta carreguei sete, e foi uma maravilha. Só retas pelo caminho e a sensação era  de que não estava carregando nada. Já na viagem para Paraty foram dez quilos. Incomodava um pouco, mas era suportável. Agora, quase 14 quilos já era demais. Pensei em desistir, pegar um ônibus e voltar para BH, mas, como vocês já sabem, não sou de desistir assim tão fácil. Agora que consegui comprar uma barraca que suporta chuvas, e um saco de dormir para me aquecer, posso dormir no meio do mato mesmo. Por causa do peso e das fortes subidas, irei  caminhar menos quilômetros por dia. Irei sem pressa, mas irei até o fim. Então começo a cantar "é devagar, é devagar" do Martinho da Vila. Gosto deste tipo de samba, mas não sou muito chegado naqueles pagodes tipo "lá lá lá" e "lê lê lê'.
    Essas músicas têm muita sabedoria. Não é coisa de intelectual, mas é a sabedoria popular, que merece ser respeitada. Não tenho nada contra quem gosta de Sócrates e outros pensadores, mas essa não é a minha praia. São complicados por demais para a minha cabeça já complicada. Já até tentei ler Nieztche, por volta dos vinte e poucos anos, para impressionar as mulheres, dando uma de intelectual, bom de papo,etc. 
    Mas confesso que parei na segunda página do livro, sabia que iria pirar se tentasse ler e entender os pensamentos desse cara. 
    Voltando a viagem, resolvo parar de andar por volta das quatro e meia da tarde. Estou bastante cansado, após percorrer 12km de fortes subidas. Já havia caminhado cerca de 5km de manhã, da cachoeira até o centro de Cocais. Ou seja, caminhei 17km no dia. Com o tempo irei melhorar o meu condicionamento físico.
    Consigo encontrar um bom local para armar a barraca, o que não é tão fácil assim neste caminho de sabarabuçu. São cinco horas da tarde e já está fazendo um pouco de frio. Creio que esta noite irei estrear o saco de dormir e ter que fechá-lo e ficar dentro dele, apesar de ser um pouco claustrofóbico.
no final da viagem à Paraty, não imaginava que sentiria saudades dos marcos da estrada real



10 de agosto de 2013
Antônio dos Santos-Caeté

     A noite foi bem fria, mas o saco de dormir realmente faz uma boa proteção e consegui dormir bem. Por volta das sete horas da noite, um cara, em um carro, parou em frente a barraca. Deixou os faróis ligados e saiu do veículo. A principio fiquei um pouco assustado, não tinha a mínima ideia de quem poderia ser e o que queria. Escuridão total. Fiquei imóvel dentro da barraca esperando o que  ele queria de mim naquele lugar e aquela hora da noite.
- "Ô da barraca! Ô da barraca!- ele me chamou.
    Com um pouco de medo, abrir o zíper da barraca e me deparei com o cara, com um refrigerante de 2 litros e alguns sanduíches de mortadela. Enquanto comia conversamos bastante. Os moradores do caminho têm curiosidade sobre o motivo de uma pessoa estar caminhando por essas estradas e com tanto peso nas costas. Já me perguntaram se sou devoto, se estou pagando penitência, se trabalho na estrada real ou se vou ganhar algum prêmio no final da caminhada. A maioria das pessoas não conseguem entender, dá para perceber isso em suas fisionomias quando falo sobre o meu destino. Só uma pequena parte é que entende e acha bacana esse ato de sair caminhando por ai.



    Tirando a visita do cara do fusquinha, nada demais aconteceu nesta noite. Silêncio e escuridão total.
    A distância entre o distrito de Cocais e a cidade de Caeté é de 40km. Mas ontem, por causa das fortes subidas e do calor, caminhei apenas 12km do percurso, na parte da tarde. A mochila pesada e a falta de ritmo de caminhada também contribuíram para o meu baixo rendimento. 
    Acordei as sete horas com o sol aquecendo a barraca. Pouco antes das oito já estava pronto para partir quando um morador da região, à cavalo, veio até a mim para prosear e me convidar para tomar um café. Coisa de mineiro né? Conhecer os moradores das pequenas cidades e distritos é tão bom quanto caminhar. A residência do cara é bem antiga, estilo casarão mineiro mesmo, com piso de madeira. Tinha muitos cachorros. Morava com sua família, seus filhos estavam jogando vídeo game. Tinha uma parabólica no quintal. Sinais dos tempos, a modernidade chegando aos rincões de Minas. Novamente a conversa sobre a caminhada, sobre o que fazia da vida, etc.
    Depois de saciada a fome, me despeço de todos e começo a seguir o trecho do dia. Faltam 28km para se chegar a Caeté. Com a experiência do dia anterior, planejo fazer o percurso em dois dias, não dá para tirar algum peso da mochila no meio do caminho, só se eu comer a granola toda de uma vez.
    O sol hoje também está de rachar, mas já estou caminhando em um ritmo melhor. Por volta das onze horas chego ao povoado de Antônio dos Santos, mas, para o meu azar, a dona do único bar que oferece almoço está doente. O jeito foi recorrer ao tradicional sanduba de presunto e queijo, com iogurte. De sobremesa, maçã e banana para ajudar a musculatura com potássio.
subidas e mais subidas
    Como não fiquei de barriga cheia, deu para voltar a caminhar sem fazer uma cesta. Após comer uma laranja, meu intestino dá sinais de vida. É só viajar e mudar a rotina que ele sai do ritmo. Foi um pouco complicado para me aliviar, pois esse trecho da estrada real é cercado dos dois lados, e, para piorar, costuma passar carros com uma certa frequência. O jeito foi achar um matinho e contar com a sorte.
    Estou me sentindo bem e já penso em chegar a Caeté hoje mesmo, apesar das fortes subidas que predominam neste trecho, que conta com muitas sombras para nos proteger do sol. Durante a caminhada, vou pensando seriamente em passar alguns dias acampado em alguma das inúmeras cachoeiras de Rio Acima, que é o ponto final desta minha viagem. Não vou seguir este percurso da estrada real por completo, pois, no caminho para Paraty, já conheci o distrito de Glaura.
    Os dias neste inverno aqui em Minas estão sendo muito quentes, e vai ser ótimo para tomar bons banhos de cachoeira. Rio Acima tem algumas cachoeiras não muito longe da área urbana, então vai dar para desmontar a barraca na hora de almoçar para pegar um rango em um restaurante qualquer da cidade. Chego a pensar se não seria uma boa morar definitivamente perto de uma cachoeira, longe da confusão da cidade grande. Gosto muito de Belo Horizonte, mas as coisas andam meio complicadas, trânsito maluco, violência, etc.
    Em um bom ritmo, para minha surpresa, chego a Caeté antes das quatro horas da tarde. Não estou muito cansado, mas os ombros estão um pouco doloridos. Consigo tomar um bom banho quente no ginásio da cidade e depois passo algumas horas na lan house a fim de saber o que está acontecendo pelo mundo.
    Depois da net, procuro um local para dormir. Encontro uma praça bem legal, com bastante grama, mas tinha um pequeno problema: um tal de Naldo(nem sei quem é, mas parece que tá fazendo sucesso por ai), irá fazer um show bem perto da praça, ou seja, a área vai estar bastante movimentada esta noite. Como na praça da igreja matriz também irá ter show, resolvo montar a barraca na rodoviária, que, depois das nove horas já não tem muito movimento.
chegada à Caeté


11 de agosto de 2013-domingo
Caeté-Sabará

    Não tive maiores problemas em dormir na rodoviária da cidade. Com exceção de alguns moleques que a todo instante balançavam a barraca e depois saiam correndo, não fui importunado por ninguém. 
    De manhã tomo um ótimo desjejum: um pão de sal bem quentinho e café com leite. Depois comi um  mamão, banana e laranja de sobremesa. Ah! E o yakult não poderia faltar né?
interior da igreja matriz de Caeté
      Caeté tem inúmeros pontos turísticos para se visitar, mas seria preciso mais de um dia para conhecê-los. Como o município situa-se próximo a Belo Horizonte, deixo uma visita para uma outra oportunidade.
  O trecho para o distrito de Morro Vermelho também é complicado: ,muitas subidas, mas com belas paisagens. Por ser de manhã, o sol não estava castigando tanto assim, e consegui caminhar em um bom ritmo, chegando ao povoado pouco antes das onze horas.
    Como era domingo, comi no almoço o que tive vontade de comer, como bom mineiro que sou: feijão tropeiro, carne de porco e um ovo tipo disco voador. E, para completar, uma coca bem gelada! Não sou muito de fazer essas estripulias alimentícias, mas sabe como é né? Domingo pode!!!

    Depois do rango, é claro, me bateu um sono danado e tirei um cochilo de meia horinha. Ao meio dia já estava pronto para percorrer os 20km restantes até a cidade de Sabará. O caminho neste trecho é mais tranquilo, não tem tantas subidas. Mas o sol estava de rachar! A umidade do ar parece que está baixa, o clima está muito seco neste inverno aqui em Minas. No meio do caminho já começo a sentir algumas dores musculares nas pernas, principalmente a esquerda, para variar. Realmente o meu limite de conforto é dez quilos é já começo a pensar sobre o que retirar para a próxima viagem(passos dos Jesuítas-SP)
    A sede incomoda muito mais do que a fome, acho que a maioria das pessoas concordam com isso. Podemos ficar vários dias sem comer, mas se não bebermos água... Há pouquíssimas casas e fazendas no percurso, e tenho que racionar esse líquido tão precioso. Por volta das quatro horas já estou bem cansado, e penso em acampar antes de chegar a Sabará, mas, analisando a região, vejo que a única fonte de água é a de um rio que talvez sirva de esgoto para o povoado de Morro Vermelho e que acompanha o viajante até Sabará.
    O jeito foi partir para o sacrifício, num cenário desanimador: muito sol e pouca água. Quase nenhum sinal de vida pelo caminho, não passando muitos veículos na estrada. Tirando a vegetação verde, a sensação era de que estava em um deserto, por causa do clima seco e hostil.
    A mistura bombástica do almoço resultou em torpedos com gazes violentíssimos. Era uma rajada que saia a todo momento. Se fosse em um elevador...
    A mochila estava ficando absurdamente mais pesada a cada quilômetro andado, e a dor na batata da perna já me incomoda bastante. Mas com muito esforço e sacrifício chego em Sabará por volta das seis horas da tarde, em frangalhos.

    Pensei em montar a barraca perto de uma igreja qualquer que encontrasse na cidade. Mas, como estou muito cansado e com muitas dores musculares,  chego à conclusão de que preciso descansar em uma boa e confortável cama. Depois de uma longa procura, consigo achar na cidade um hotel com preço acessível. É a estrada dos reais!
    Lavo minhas roupas e tomo um longo e demorado banho. As dores estão me incomodando muito e resolvo tomar um comprimido que me faz apagar e que só tomo de vez em quando. Amanhã tenho que estar recuperado para prosseguir a viagem.

12 de agosto de 2013-segunda feira
A decisão

    Acordei às sete horas, sonolento e meio dopado pelo efeito dos medicamentos. São os antipsicóticos que tomava com frequência quando tive surtos psicóticos. Atualmente não tenho o costume de tomá-los, só uso o pan nosso de cada dia mesmo  Esses medicamentos só tomo quando estou muito estressado e quando preciso dar uma "zerada" em minhas idéias.
     Demoro mais de uma hora para tomar um banho e arrumar a mochila. Uma imensa vontade de não fazer nada tomou conta de mim. Após muito refletir, resolvo desistir do caminho, ou melhor, adiá-lo, pois não sou de desistir assim tão fácil. Missão dada é missão cumprida! Mas, claro que temos que reconhecer nossas limitações e recuar, para depois avançar em melhores condições. Já não sou um garoto(44 anos este mês, já estou aceitando presentes rsrsrs) e sei que tenho que reduzir o peso da mochila para caminhar sem sofreguidão.
    Mas o que mais atrapalhou mesmo foi o efeito do medicamento. Deveria ter tomado uma dose menor. Por experiência própria sei que o efeito só irá acabar por completo à noite, e o mais sensato é voltar para Belo Horizonte mesmo.
    Antes de voltar, dei uma voltinha pelo centro histórico de Sabará para tirar algumas fotos.
centro histórico de Sabará
     Esses medicamentos, além de me deixarem lento e dopado, fazem com que eu me sinta meio robotizado, como se anulassem as minhas emoções. Fico apático e não acho graça em nada, nem mesmo nas belas paisagens desse nosso Brasil.
    Por esses motivos o melhor é dar um tempo e voltar melhor em uma outra oportunidade. Até a próxima pessoal, com o relato da segunda e última parte da viagem.

igreja sem teto, segundo moradores, a obra não foi terminada ou o teto desabou depois de pronto

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Estrada Real: Último dia


30 de maio de 2013-quinta feira
Cunha-Paraty

    Tive uma ótima noite de sono na rodoviária de Cunha. Não fez o frio que eu estava esperando. O site da FIEMG diz que, em Cunha, a temperatura costuma variar entre 3°C à 14°C no inverno. Caprichei no papelão, e o frio foi legal para dormir, não foi preciso me encolher para espantar o frio. 
    Dormi cedo, por volta das sete horas da noite já havia tomado o meu remedinho para dormir. Às três horas da madruga já estava acordado, dava para ouvir o toque do sino da igreja, que tocava de hora em hora, que, convenhamos, é o ideal. Até hoje não consegui entender por que o sino da igreja de São João Del Rei tem que tocar de quinze em quinze minutos. Nem o google explica!
    Começa a cair uma forte chuva de madrugada. Eu, que já estava decidido a ir para Paraty de qualquer maneira, começo a ficar em dúvidas novamente. É complicado começar a caminhada debaixo de chuva e logo assim de manhãzinha.
saída de Cunha
     A minha parte racional tenta me convencer que o melhor que tenho a fazer é pegar um ônibus e chegar confortavelmente à Paraty. O argumento é de que não irei ganhar nada ao cruzar o último marco da estrada real. Mas, a sensação era de que o meu cérebro estivesse dividido ao meio, pois a parte das emoções me diz que seria covardia(um bundão mesmo) se eu não chegasse à Paraty do jeito que eu havia começado, ou seja, caminhando, por causa de uma simples chuvinha. Não teria graça nenhuma chegar a Paraty de ônibus. Não ia lá fazer turismo, o meu barato era a caminhada mesmo, o trajeto. 
    A minha relação com as chuvas, depois da esquizofrenia não tem sido das melhores. Eu penso que é um castigo do céu, sei lá. 
    Essa chuva de madrugada me fez lembrar do meu primeiro surto, em que fiquei escondido no meio do mato por uns sete dias. Estava fugindo dos inimigos, que só estavam em minha mente. Era janeiro, mês de muita chuva em BH, e só estava de calça e camiseta. Até hoje não sei explicar como aguentei ficar naquele lugar por tanto tempo, apenas tomando água.
    O restante da madrugada passei nesse dilema, pensando no que fazer, nesse duelo entre as partes emocional e racional de minha mente.
     Já quase de manhãzinha, nesse conflito interior, a minha parte emocional acabou me convencendo de que o melhor a ser feito seria percorrer o restante do caminho a pé mesmo, independente das condições do tempo. Como já disse no poste anterior, eu nunca iria me perdoar se fosse de ônibus. Eu me conheço o suficiente para saber que essa desistência ficaria para sempre martelando minhas ideias.
    Pensei também em todos vocês, leitores do blog. Essa história merecia um final melhor do que um simples passeio de ônibus né? Já pensou, depois de 600km de caminhada e no final postar: peguei um busão e finalmente cheguei em  Paraty?
   Então, às sete horas da manhã já estava na loja de materias de construção, para comprar lona, a fim de proteger a minha barraca em caso de uma chuva no meio da noite. Como serão 57km de estrada de terra e asfalto, planejo parar perto do quilômetro trinta para dormir. O vendedor da barraca foi sincero na hora da venda, ao dizer que ela só aguentava chuviscos mesmo. Quer dizer, sincero até que ele foi, mas na verdade ele queria que eu comprasse uma mais cara. Vendedor só é sincero nessas ocasiões. E, como sou um M.O.A,(mochileiro de orçamento apertado), comprei a barraca mais baratinha mesmo, e agora tenho que me virar quando chove.
   Depois vou ao supermercado e compro sacos de lixo de cem litros. Pego uma tesoura emprestada, e faço três aberturas em um saco de lixo, para passar a minha cabeça e os braços. Ficou perfeito, até parecia que foi feito sob medida. Melhor, só uma capa de chuva mesmo. Não estava chovendo, mas já deixo a mochila e o colchonete protegidos com os sacos de lixo, em caso de uma eventual chuva. Estava pronto para o que der e vier!

    Logo no ínicio da caminhada descubro que o maior problema não seria a chuva, e sim a serra. Teria que subir até os 1450 metros de altitude na divisa dos estados do Rio e de São Paulo.
    Na saída de Cunha tem uma bifurarcação e, como não havia nenhum marco, pergunto a um morador da cidade o caminho da estrada real até Paraty. O cara, sem demonstrar dúvidas, me informa que era só seguir em frente. Depois de andar cerca de 2km sem avistar os marcos, começo a ficar desconfiado de que poderia estar seguindo o caminho errado, que é somente de asfalto. Por volta do quilômetro cinco, passo a ter certeza. Fico furioso, e falo um monte de palavrões. Tinha tomado dois generosos copos de café e comido um biscoito recheado(de Nescau) e mais uma barra de chocolate(suflair) logo de manhã. Estava elétrico, era como se fosse um dopping. Aliás, foi um dopping, legal, dentro da lei e tudo, mas foi um dopping.
    Queria chegar a Paraty seguindo os marcos da estrada real, e não pelo asfalto. Estava decepcionado, não tinha como voltar a Cunha e começar tudo de novo. Essa raiva, misturada com os efeitos do café com o chocolate, fizeram com que eu subisse a serra numa velocidade incrível, até encontrar uma lanchonete e pedir informações sobre o caminho.

    A proprietária foi muito atenciosa comigo. Me deu todas as informações que eu precisava, o que me deixou mais aliviado. Ela me explicou que, seguindo em frente, iria encontrar novamente os marcos da estrada real e que chegaria à Paraty conforme a planilha explica. O que aconteceu é que, na saída de Cunha, eu peguei o caminho errado, seguindo as orientações do bendito morador da cidade, que nem devia saber o que é a estrada real. Ele disse para seguir o asfalto para Paraty, fazendo com que eu perdesse cerca de uns 20km de estrada real. . Se seguisse todos os marcos da planilha, teria que percorrer ao todo, 57km. Pelo asfalto são apenas 44km.
   Mas só o fato de chegar à Paraty em meio a natureza já me deixa mais aliviado e a raiva vai embora. Então mudo os meus planos e penso em chegar ao final hoje mesmo, imprimindo um ritmo mais forte. Acho que chegarei ao último marco de noite, se andar sem parar muito para descansar. O risco é que escureça na descida da serra da Bocaina,  que não tem iluminação nenhuma. É uma área de preservação ambiental, e é proibido as intervenções do homem.
    Continuo então subindo a serra, em boa velocidade. A dor na canela esquerda havia sumido há algum tempo, graças aos dias em que fiquei parado, por causa da chuva. Quando paro para fotografar uma paisagem, ouço alguém me chamar:
    - Ô mineirão!
    Olho para trás e vejo o paulista que estava no albergue em Aparecida do Norte. Ele vinha caminhando desde a cidade da padroeira, e debaixo de chuva. O engraçado é que ele apareceu assim do nada, em uma curva. Era para ele ter me visto em uma reta. Seguimos o caminho conversando, o que é bem legal, ajuda um pouco a distrair a mente e parece que cansamos menos.
    Logo encontramos um restaurante. Segundo a planilha, era o único que havia pelo caminho, não tinha como escolher. Restaurante de grã-fino, carros luxuosos no estacionamento. Comida cara, o prato mais simples saia por quinze reais, e pedi então dois, um para mim e outro para o paulista, que estava sem grana.
    O rango estava demorando a sair, tive que ir duas vezes na entrada da cozinha para apressar o chef. Disse-lhe que precisava caminhar para sair da serra da Bocaina antes de escurecer. A atendente disse que a demora era por que tudo era feito na hora.
   O céu já estava começando a dar indícios de que poderia chover. Já estava quase perdendo a paciência, quando, depois de uma hora, o rango chegou: uma pequena porção de arroz, um filé de frango, e alguns legumes. Tudo montadinho, bonititnho, tinha até uma flor em cima do arroz. Apesar da fome, não ataquei a comida, esperando o feijão e o macarrão ou batatas fritas. Como o restante do almoço demorava a chegar, fui até o balcão reclamar e a atendente disse que a refeição que eu havia pedido era só aquilo que estava no prato mesmo. Fiquei pé da vida! Quinze reais por um pouquinho de arroz, com um filé de frango e um pouco de legumes e uma flor? Não fui grosseiro, mas deselegante, estava nervoso, ainda era o efeito do café com chocolate que havia tomado no café da manhã. Disse para ela que estava caminhando e que não tinha carro, e que não precisava de comer flor e sim feijão e carboidratos e de outros nutrientes.  O paulista ficou meio sem graça e resolvi dar uma maneirada nas reclamações. Tive que pagar mais dez reais por uma porção de feijão. Ainda bem que um leitor do blog comprou um livro e depositou uma quantia generosa na minha conta, muito maior do que o valor pedido. Valeu pela ajuda cara, essa grana ajudou muito nesse final de viagem, que é um pouco desgastante, e, sem um feijão, as coisas iriam ficar mais difíceis.
    Depois do rango, sem descanso, continuamos a subir a serra. Até me surpreendi com a minha resistência, já que o paulista, sete anos menos velho do que eu,  teve que parar algumas vezes para dar uma respirada. E olha que ele carregava apenas algumas roupas na pequena mochila, e eu tinha que carregar dez quilos nas costas. Chegamos a divisa dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro por volta das duas horas da tarde. O tempo não poderia ser melhor: nublado, mas sem chuvas.

    A descida da serra para Paraty é bem acentuada, e exige muito das articulações, principalmente do joelho. A musculatura também é muito exigida, temos que descer meio que freando, para não sairmos rolando, pois o terreno é cheio de buracos e pedras escorregadias. Não tem essa de que para descer todo santo ajuda.
    Meus pés começaram a doer um pouco, mas combinamos de não parar para descansar, pois poderíamos correr o risco de ficarmos na serra quando escurecesse. Havia muita neblina, e não deu para tirar muitas fotos. O trecho é um pouco complicado para carros sem tração 4x4, mas, por causa do feriado prolongado, muitas pessoas desciam a serra com seus carros comuns de passeio.
    Por volta das cinco horas da tarde chegamos ao fim da serra, para o nosso alívio. Um hippie estava tranquilamente sentado em uma pedra, com seus cachorros. Nos ofereceu algumas bananas, havia vários pés dessa fruta na região. Parecia que ele morava na serra, no maior sossego, longe da confusão das grandes cidades.
    Apesar do cansaço e de algumas dores, continuamos o caminho sem parar. É a ansiedade do fim do caminho, parece que conseguimos uma energia extra na reta final. Algo semelhante ocorreu no caminho do padre Anchieta.
    O restante do caminho até o litoral é em retas. Esse sobe e desce da serra foi bem puxado, estava até surpreso por ter conseguido andar os 44km. Claro que o tempo ajudou e muito, se o sol estivesse forte, não sei se chegaríamos a tempo. Mas, no final, estava caminhando somente nas ruas, já que estava até difícil de levantar as pernas para subir nas calçadas.
último marco final

    Com muito esforço e luta, chegamos ao último marco da estrada real exatamente às 18:56m. Era véspera de feriado, e os barzinhos estavam lotados de turistas. Não estava exausto, apenas cansado e com os pés doendo. Como no caminho do padre Anchieta, não tive vontade de sair gritando e pulando de alegria. Essa caminhada, para mim, não é um desafio, como escalar o monte Everest, é mais uma curtição mesmo, como já havia dito em posts anteriores, sendo que a parte mais legal é o próprio caminho, e não a chegada ao destino propriamente dito.
    Sentei no passeio e o filme da viagem começou a se passar em minha cabeça. O início, em Ouro Preto, as dificuldades do caminho, as pessoas que conheci, as paisagens...
    Foi um pouco sofrido, só dormindo em minha barraca, mas valeu a pena, e muito. As dificuldades, como os dias quentes, as noites frias, as dores, não foram chegaram nem perto da parte positiva do caminho, que é o contato com a natureza, com as pessoas simples e hospitaleiras do interior de Minas Gerais.
    Agradeço a Deus por estar comigo no caminho, do início até o fim. Não sou louco e nem corajoso demais, apenas acredito em meu anjo da guarda, enviado por Deus, e, que até hoje, não pediu aposentadoria por receber a missão de proteger o maluquinho aqui.
    Agradeço também a todas as pessoas que me ajudaram pelo caminho, e também aos leitores do blog, é claro. Vocês fizeram com que eu me sentisse uma pessoa melhor, e foram de fundamental importância, principalmente durante as chuvas, quando pensei em desistir.


    Na madrugada em Cunha, prometi a Deus que colocaria essa música do Casting Crowns no post, caso não chovesse no último dia de caminhada. A tenho no meu celular e, apesar de não ser evangélico, a curto muito. Gosto de boa música, independente de religião, credo, raça, etc.



Voz da Verdade

Oh, o que eu faria para ter
O tipo de Fé necessária
Para sair desse barco que estou?
De encontro às ondas

Dar um passo para fora da minha zona de conforto
Para dentro do mundo desconhecido onde Jesus está
E Ele esta estendendo sua mão

Mas as ondas estão gritando meu nome
E rindo de mim
Lembrando-me de todas as vezes
Que eu tentei antes e falhei
As ondas continuam dizendo-me
Repetidamente: "Menino, você nunca vencerá",
"Você nunca vencerá".

Refrão:
Mas a voz da verdade me conta uma diferente história
A Voz da Verdade diz: "Não tenha medo"
E a Voz da Verdade diz: "Isto é para minha Glória"
De todas as vozes que me falam
Eu escolherei obedecer e acreditar na Voz da Verdade

Oh, que eu farei para ter
O tipo de força necessária para sustentar-me diante de um gigante
Com apenas um estilingue e uma pedra
Cercado pelo som de mil soldados
Sacudindo suas armaduras
Desejando que eles tivessem a força para agüentar firme

Mas o gigante grita meu nome
E ri de mim
Lembrando-me de todas as vezes
Que eu tentei antes e falhei
Os gigantes continuam dizendo-me
Repetidamente: "Menino, você nunca vencerá",
"Você nunca vencerá".

Mas a pedra era exatamente do tamanho certo
Para colocar o gigante do chão
E as ondas elas não parecem tão altas
Olhando de cima delas para baixo
Vou voar com asas de Águia
Quando eu parar e escutar o som da voz de Jesus
Chamando-me

Eu escolherei escutar e acreditar na Voz da Verdade



   Não sei bem o que fazer da vida neste momento. Acho que o melhor que tenho a fazer é "deixar a vida me levar", como nos ensina a música do Zeca Pagodinho, que gosto tanto de cantar, quando estou sozinho, é claro, ninguém pecou tanto no mundo para ouvir a minha desafinação. Talvez eu fique andando por ai, nas minhas andanças, como o personagem Zé Araújo, do filme O homem que desafiou o diabo, que andava pelo sertão nordestino, a procura de uma cidade onde as montanhas são feitas de rapadura e os rios de leite. Como bom mineiro que sou, a minha terra dos sonhos tem montanhas de broa de fubá e pão de queijo dá em abundância nas árvores. As vacas têm uma delícia diferente em cada teta: em uma sai leite, em outra café com leite, em outra yakult, e em outra, doce de leite purinho. As goiabas não tem semente, e não existem manifestações, simplesmente por não haver motivo por qual protestar.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Estrada Real: 22º dia



29 de maio de 2013-quarta feira
Aparecida do Norte-Guaratinguetá-Cunha

    Para variar, sou acordado às cinco horas da manhã pelo vigia do albergue. Mas por que será que todos os albergues têm que acordar as pessoas neste horário? Não dá para pelo menos esperar o dia clarear? Eu e mais quatro caras tomamos o café da manhã e fomos para a rodoviária. Depois, cada um foi para o seu destino. Tinha um cara de São Paulo que ia para Paraty a pé também, só não fui com ele pois não poderia perder a oportunidade de conhecer a basílica por dentro. 
    Fico vendo a TV em uma lanchonete, e a previsão do tempo não é das mais animadoras. Segundo os noticiários matinais, haverá chuva no transcorrer do dia em todo o estado de São Paulo. Os dois últimos dias foram semelhantes, em relação ao tempo: sol de manhã e muita chuva de tarde. 
    Fico sem saber o que fazer, num dilema terrível. É uma decisão muito difícil a que tenho que tomar, pode parecer frescura, mas, afinal, foram quase 600km de caminhada. Penso em fazer esses 110km finais na base do sacrifício, mesmo debaixo de forte chuva. Além de incomodar muito, a chuva não deixa curtirmos o caminho, as paisagens, parar para descansar e refletir. Então descarto essa ideia, pelo menos por enquanto. Se pelo menos no final do dia pudesse tomar um bom banho e dormir em uma cama bem macia nesse final, eu seguiria tranquilamente. Mas, analisando as planilhas, entre Guará e Cunha, e entre Cunha e Paraty, dá para notar que não tem lugares para descansar, a não ser pousadas bem caras.
relógio das flores
     Novamente cogito em pegar um ônibus para Paraty, mas analisando bem as coisas, tiro essa ideia de minha cabeça. Seria um final muito frio e sem graça para essa aventura tão legal. Tem que ter emoção, suor, sacrifício. Não combina comigo chegar ao final da luta limpo e na maior facilidade. Tudo em minha vida foi na base da luta, e nessa viagem não poderia ser diferente.
    Fico então tentando achar uma solução para esse dilema. Não tenho grana para me hospedar em um hotel e esperar o tempo melhorar. Conversei com o pessoal do albergue de Aparecida, contei toda a história da caminhada, mas eles não se sensibilizaram e disseram que não poderiam abrir uma exceção para mim e eu só poderia ficar uma noite apenas. 
    São sete horas da manhã e resolvo visitar a basílica. Fico impressionado com a construção. Não tanto pela beleza, mas sim pelo tamanho e pela imponência. O espaço é tão grande que não sei nem por onde começar a tirar as fotos. Afinal, é a segunda maior basílica do mundo, perdendo apenas para a do Vaticano.

    Não há muitos turistas, creio que no feriado de amanhã a cidade deva estar bem cheia. A basílica tem uma estrutura muito boa: ótimos banheiros, setas que indicam os locais a serem visitados, tudo muito limpo mesmo. Visito a imagem da padroeira, apesar de não ser devoto. Respeito a fé e a crença de cada um, menos as religiões que prometem melhorar a vida financeira da pessoa, pedindo dinheiro. A verdade é que estão melhorando a vida financeiro é a do bispo né? 
    Depois da visita a basílica, vou a uma lan house para saber uma previsão mais detalhada sobre o tempo para os próximos dias. Acesso primeiro o blog, respondo alguns comentários, mas logo a net cai e, como demora para voltar, volto para o albergue para almoçar, sem saber ainda o que fazer neste final de viagem.
    Depois de saciada a minha fome, volto para a rodoviária. Sento-me em uma cadeira e continuo a refletir sobre o que fazer. O céu está nublado e pode chover a qualquer momento. Tenho que sair de Aparecida hoje, isso é certo, já que amanhã, por causa do feriado, a cidade deve ficar lotada de fiéis. Decido então seguir para Cunha de ônibus, a fim de ganhar mais um dia e resolver o que fazer e esperar se o tempo irá melhorar ou não.
em Aparecida também tem os apóstolos
     Em Cunha, acesso a net e os sites não são unânimes sobre a previsão do tempo. Alguns dizem que irá chover na região, enquanto outros dizem que o tempo irá ficar apenas nublado. Acabo então chegando a conclusão que não posso ficar dando muita bola para essas previsões do tempo. Na TV, hoje, disseram que iria chover. o que não ocorreu, e perdi um dia de caminhada. 
   Dou uma boa olhada no dedão do meu pé esquerdo e vejo que o ferimento está quase que totalmente curado. Vai dar para calçar o tênis. Andar na lama com chinelo é muito complicado. O fato de poder andar calçado me motivou e muito. Uma imensa vontade de concluir o caminho a pé tomou conta de mim e decido então fazer o restante do caminho amanhã, mesmo que chova canivete. A verdade é que estava me sentindo meio culpado por ter andado cerca de 70km de ônibus, não estava fazendo parte do script isso. 
    Espero que o tempo ajude, pois essa região é serrana e faz muito frio. E frio e chuva não é uma combinação muito legal. 
     Depois de dar uma volta pela cidade, vou para a rodoviária, que foi o local mais tranquilo que achei para montar a minha barraca e dormir. Tenho que dormir bem e acordar melhor ainda, pois esse final é muito difícil de ser percorrido.

    Essa música é de uma banda mineira. o 14 Bis, que fez muito sucesso na década de 80. Eles fizeram essa música juntamente com o Renato Russo e vale muito para o momento atual da viagem. Claro que eles não falam sobre o sol no sentido literal, claro que é subjetivo, mas vale também.



Mais uma vez  14 Bis

Mas é claro que o sol
Vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei
Escuridão já vi pior
De endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem
Tem gente que está do mesmo lado que você
Mas deveria estar do lado de lá
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar
Tem gente enganando a gente
Veja nossa vida como está
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo
Quem acredita sempre alcança
Nunca deixe que lhe digam
Que não vale a pena
Acreditar no sonho que se tem
Ou que seus planos nunca vão dar certo
Ou que você nunca vai ser alguém
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar
Mas eu sei que um dia a gente aprende



-obs: Lais, por favor, se estiver vendo o post, entre em contato comigo, me add no facebook, é só clicar em contato e copiar o link do facebook. Apaguei sua mensagem por ser algo particular e foi a única forma que encontrei para lhe responder. 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Estrada Real: 21º dia


28 de maio de 2013
Vila do Embau-Lorena-Guaratinguetá-"Aparecida do Norte"
manhã não muito animadora

    Não encontrei nenhum lugar para tomar um bom banho em Vila do Embau. Antes, há muitos anos atrás(muitos mesmo!), confesso que conseguia dormir sem tomar banho, era muito desleixado com a higiene(hoje sou só um pouco), mas atualmente não consigo pegar no sono sem entrar no chuveiro. Também não consegui papelão, e a noite foi das mais frias até hoje. 
    Como disse, no post anterior, o único lugar coberto que encontrei para dormir foi um ponto de ônibus. Às cinco e meia da tarde já havia escurecido, como se fosse de noite. Às seis, já estava descansando minhas canelas em minha barraca.
    Por volta das sete, três caras foram ao ponto de ônibus para acenderem um baseado. Estavam ouvindo funk, para piorar a situação. Começaram a puxar conversa comigo, me ofereceram a erva danada, e eu, dentro de minha barraca, recusei. Acho que já disse isso antes, não preciso de drogas, não preciso de artifícios par fugir da realidade. Acho que vivo a minha realidade dentro da realidade desse mundo. Uma vez, me disseram que, se tomasse determinado medicamento, eu iria ficar mais dentro da realidade. Apenas respondi, perguntando:
    - E quem disse que eu quero entrar nessa realidade deste mundo? Talvez a minha realidade seja melhor de se viver. 
    Voltando a viagem, os caras demoraram para ir embora. Falaram sobre drogas, sobre a barraca, e outras coisas mais. Confesso que cheguei a ficar um pouco receoso, afinal, era a minha primeira noite em terras paulistas. Pensei que os caras estavam procurando saber quem estava na barraca, para voltarem mais tarde e me roubarem. 
    Por precaução, não tomei o meu "pan de cada dia" e por isso não  consegui dormir. Acordei cansado, mas animado, pelo fato da chuva ter dado uma trégua.
muita lama no caminho
     O começo do caminho para Guaratinguetá é uma trilha, que estava bem complicada de se percorrida, devido a chuva. Ainda mais por que estava de chinelo, que a todo momento ficava grudado na lama, além de ficar muito pesado com o barro que ficava impregnado na sola. 
chegada em Lorena
    Depois da trilha, asfalto e estrada de terra até Lorena. A estrada de terra é boa, mas com muito movimento de carros e principalmente de caminhões. Tem muitas fazendas na região e quase todo o trecho inicial tem cerca dos dois lados. Foi difícil achar um local mais reservado para fazer a necessidade básica do dia a dia. Tive que contar com a sorte também para não ser pego no flagrante.
cidade de Cachoeira Paulista, a construção maior é o templo da Canção Nova
     Como não havia dormido bem, a caminhada não rendeu muito. Tive que parar várias vezes para descansar, e, como Guaratinguetá está a 38km de Vila do Embau, decidi percorrer apenas 20km e parar na cidade de Lorena.
    Quando estava prestes a chegar ao centro de Lorena, ela, a temida chuva, apareceu novamente na parte da tarde, como no dia anterior. Consegui pegar um ônibus até o centro da cidade, e, como não havia nenhum albergue na cidade, resolvi pegar um outro ônibus até Guaratinguetá. Passagem baratinha, cheguei a me espantar com o preço:2,90 reais! Afinal, eu estava me deslocando de um município para outro, e a distância era considerável, e paguei o mesmo que teria que pagar se me deslocasse de um bairro para outro em Belo Horizonte.
    Em Guará, fiz um bom lanche na rodoviária, já que não havia almoçado. Coxinha, empada, torta de chocolate e dois pedaçoes de pudim de leite de sobremesa. Já que o tempo não estava ajudando, pelo menos tinha que tirar a barriga de miséria né? O jeito era comer e comer mesmo. Após me informar, fiquei sabendo que somente na cidade vizinha de Aparecida é que havia um albergue. Fiquei mais surpreso ainda com o preço dessa passagem:2,25 reais! Nunca havia cruzado três municípios em um espaço de tempo tão curto em toda a minha vida.
falta pouco...
     A essa altura, já havia perdido o receio inicial de estar em São Paulo. Todas as pessoas que pedi informação foram muito atenciosas , principalmente as paulistas, que, a princípio, pareceram ser bem mais extrovertidas do que as mineiras. As mineiras são mais fechadas para com os estranhos, acho que por pensarem que os homens irão pensar que elas estão dando bola para eles, simplesmente por conversarem ou olharem para eles, mesmo sendo estranhos. Bem, não sei se deu para entender o meu raciocínio, mas acho que é mais ou menos isso. Conversei com algumas paulistas e elas foram atenciosas, algumas até sorridentes, bem legais mesmo, mas não é por causa disso que achei que estavam a fim de mim. É a cultura de cada estado mesmo. Mas que existe isso entre homens e mulheres existe, já aconteceu de, estar a fim de fazer amizade com algumas mulheres, e as mesmas pensarem que eu estava a fim delas. É uma relação um pouco complicada. Por isso, as mulheres não devem sentir ciúmes do namorado ou marido quando eles ficam muito tempo com os amigos, jogando conversa fora ou assistindo futebol, isso é coisa de homem mesmo, sentimos mais a vontade de falar palavrão, essas coisas. O inverso também acontece, os homens não devem se preocupar se as mulheres ficam a tarde inteira no cabelereiro, conversando com as amigas, é o tipo de conversa que só é feito entre mulheres mesmo. Bem, chega de falar sobre o comportamente humano e retomemos o assunto do post, que é a viagem. Dicas de relacionamento eu não sou bom, minha vida amorosa não tem sido das melhores. rsrsrs
    O tempo estava muito fechado, muita chuva mesmo. E parecia que não iria melhorar tão cedo. Estou pensando seriamente em abortar a viagem, pois não tem como subir e descer as trilhas com a terra molhada, e ainda mais de chinelo. Falta pouco para o final, eu sei, mas caminhar nestas condições levará muito tempo do que em condições normais, já que a maior parte do caminho é feito em estrada de terra. Não sei o que fazer, o jeito é esperar até amanhã para ver se o tempo melhora.
    Foi isso basicamente que pensei e refleti durante a "viagem" entre Guará e Aparecida, que durou uns quinze minutos. Estava tão preocupado e desanimado com o tempo que só me toquei que Aparecida era a cidade de Aparecida do Norte quando avistei a Basílica, já perto do ponto final. Muito linda e imponente a construção, e o espaço em torno dela é bem grande, tem até um parque de diversões ao lado. Várias lojas de artigos religiosos tomam conta das proximidades da basílica.

    Descendo no ponto final, fico sabendo que o albergue de Aparecida fica um pouco longe. Estava meio exausto, mas, na chuva sempre se arruma forças para caminhar.
     Depois de um bom tempo andando, chego ao albergue. Tomo um banho, faço a minha barba. Meus pés estão doendo um pouco, mas a minha maior preocupação é sobre o que fazer: continuar o caminho, debaixo de chuva, com frio e nas estradas de terra, ou parar e reconhecer que não vale a pena tanto sacrifício por nada? Ou será que Deus, de uma forma indireta, me levou até Aparecida do Norte, para conhecer a basílica que sempre quis visitar quando a via pela TV?

-Obs. No título do post,  coloquei o nome da cidade entre aspas, pois ela não está incluída no caminho da estrada real.