09/08/2024Sofrência no calor e sem almoço na viagem cansativa
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| Um belo rio no meio do caminho |
Noite agitada em Teresina de Goiás. A praça estava repleta de pessoas tomando cerveja e ouvindo um forrozinho. Afinal era sexta feira...
Acordei detonado, mas, para minha alegria havia uma excelente padaria perto do posto de gasolina. Comi um pãozinho com manteiga bem quentinho e um bolo de chocolate. E um cafezim, claro, para animar e tirar o cansaço de uma noite mal dormida.
Na estrada, à medida que vou avançando o sol vai esquentando. Um pouco mais de calor do que na chegada em Alto Paraíso. Agora não tem tantas subidas ou serras, boa parte do caminho são aqueles retões que chega a dor sono... E, para completar, estradas quase que completamente desertas. Para me precaver comprei alguns biscoitinhos na padaria. Serão 80km sem almoçar...
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| Retão de dar sono no esquizo... E muito calor e sem pontos de apoio. |
No caminho avistei o rio Paranã, com um lindo visual. Pensei que, se soubesse fazer comida e tivesse na bagagem um fogareiro, iria montar acampamento naquele belo lugar. Só sei fazer ovo cozido e então minhas pernoites quase que obrigatoriamente são em postos de gasolina ou então em cidades pequenas ou médias, onde ainda a violência não tomou conta.
Hoje são 80km e exatamente no meio do caminho encontro um pequeno povoado. Na entrada consigo água com uma senhora, com cara de poucos amigos. Sempre gosto de conversar com as pessoas nessas viagens, mas sei quando não estão afim de um dedo de prosa. Alguns não dialogam por desconfiança mesmo, outros por não serem muito de conversar.
O povoado tem ruas de terra e parece um pouco deserto. Ninguém nas ruas, uma ou outra casa com sinal de vida. Fui recebido por alguns cachorros, querendo morder o meu calcanhar quando estava em movimento com a bike. Na rua senti um cheirinho de mortadela no ar. Segui meu faro e encontrei uma família lanchando na varanda da casa. Eles me olhavam com um pouco de espanto, talvez por não ser todo dia que avistam por ali um ciclista viajante um pouco maluco.
Perguntei se poderiam me vender um pão com mortadela e um copo de refrigerante. Eles apenas disseram que eu poderia encontrar comida no bar do povoado. Seguindo as instruções entrei pelas ruas de terra até o estabelecimento, que, para o meu desespero, estava fechado. Parecia não haver ninguém naquelas casas do povoado. Voltei então para a casa da família que estava lanchando, mas, para minha surpresa, eles haviam recolhido tudo e sumido. Ou estavam trancados dentro de suas casas. Nunca havia visto tamanha “pão durice”, afinal eu estava querendo comprar o sanduíche. Ali realmente era difícil conseguir fazer as compras, pois as cidades estavam à 40km de distância. Mas negar um pão era a primeira vez que havia visto na minha vida.
Bateu um leve desespero em mim. Afinal faltavam 40km e já havia comido os biscoitinhos que comprara na padaria de Teresina. O calor estava demais e sem comer algo iria penar e muito para chegar à Monte Alegre. Desci em direção à BR um pouco desolado.
No final, quase na outra saída para a BR encontro um senhor descansando na varanda de sua casa, que parece ser um barzinho. Perguntei se poderiam me vender um pão com salame e um refrigerante. O senhor disse que não tinha. Nem biscoitos. Agora cachaça tinha...
Então ele disse que poderia fazer uma farofa com ovo, que, obviamente, aceitei. Não tinha outra alternativa, apesar de não encher muito a barriga. Ficamos conversando enquanto uma senhora preparava a minha refeição.
Sou uma pessoa simples, como de tudo, mas farofa com ovo não estava muito boa e não combinou com a coca cola. Não senti o ânimo renovado e o sol estava castigando. Pedalar nesse calor em uma estrada deserta chega a ser um pouco angustiante. Cansa fisicamente e mentalmente também. Às vezes bate um desespero por conta da água que fica prestes a acabar. Não havia muito movimento de carros ou caminhões também. Mas fazer o que, era a única coisa que tinha para comer e paguei oito reais como forma de agradecimento.
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| Pracinha e igrejinha do povoado de Paranã |
De volta à Br, à medida que vou pedalando, o calor vai aumentando. As estradas vão ficando um pouco desertas à medida que me aproximo do estado de Tocantins. Me falaram que é um estado com poucas cidades, restaurantes ou postos de gasolina nas estradas.
Cheguei a cogitar em pegar um ônibus e atravessar o estado de Tocantins até o Maranhão, por conta dessa questão. Mas isso não é comigo, disse que chegaria à Belém de bike e é isso o que vou fazer.
Por volta de uma hora paro para descansar. Pouca sombra pelo caminho, poucas árvores, a vegetação é baixa com árvore bem pequenas. Acho que ainda estamos no cerrado.
Volto a pedalar, dessa vez com algumas subidas. Sempre no finalzinho tem subida, reparei isso desde a época das minhas andanças. Não havia nenhuma placa pelo caminho indicando quantos kms faltam para chegar em Monte Alegre. Acho que isso mais ajuda do que atrapalha na vida de um cicloviajante. Vou pedalando sem pensar muito no final. O astro rei estava castigando demais.
O finalzinho foi tenso. Subidas fortes, assim como o sol. E o almoço que não comi começou a cobrar o seu preço. Muita fraqueza e tive que tirar forças lá do fundo de minha alma, por que o corpo já não estava mais respondendo como deveria responder.
Igrejinha em Monte Alegre
Depois de muito sacrifício e sofrência, chego finalmente em Monte Alegre, uma pequena cidade, assim como Teresina. Mas achei Teresina uma cidade mais bonita, com casas simples, mas bem pintadas e coloridas. As ruas de Teresina são mais bonitas também. Procuro um lugar para almoçar, apesar de estar mais cansado do que com fome. Mas procuro comer tudo para não emagrecer muito. Geralmente nessas viagens de bike perco uns cinco quilos.
Para recuperar do cansaço resolvo tomar um bom banho, apesar de ser umas quatro horas da tarde. A água do posto de gasolina estava morninha, mesmo sem o chuveiro.
E passei a tarde sentado naquele posto de gasolina, carregando o celular e esperando o tempo passar para montar a minha barraquinha e descansar. Assim que escureceu fui para o supermercado comprar um potão de sorvete Kibon para espantar o calor.
Assim que voltei para o posto de gasolina e comecei a tomar o sorvete avistei o cicloviajante que havia encontrado em Alto Paraíso e na entrada de Teresina. É muita coincidência isso, o meu nível de paranoia me fez imaginar que o cara estava me seguindo. Mas acabei conversando com ele, apesar da desconfiança. Ele era do Ceará e havia viajado por diversos estados do Brasil e alguns países da América do Sul, tendo inclusive ido para Ushuaia, na Argentina. Esse lugar é considerado o fim do mundo, por que é a cidade situada mais ao sul do planeta. É o último ponto habitado da América do Sul antes de chegar na Antártida.
Conversamos bastante sobre bikes, viagens, etc... Ele também dorme em postos de gasolina, só que, ao invés de barracas usa uma rede. Não gostou muito daquele posto, e resolveu procurar em um aplicativo de celular um local que ofereça ajuda aos viajantes. É um aplicativo onde os aventureiros das Brs que hospedam ou procuram hospedagens se cadastram e assim se encontram.
Era sábado e já era noite, mas, por sorte uma pessoa respondeu no aplicativo e fomos em direção ao local indicado. Era um lava jato, mas o dono não estava no local. Provavelmente estava em casa ou então saído para se divertir. Ficamos um pouco desolados, afinal dormir em um local mais seguro e fechado ajuda bastante no sono.
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| Depois de um dia difícil um pôr do sol tranquilo em Monte Alegre |
O ciclista cearense resolveu mandar uma última mensagem e começamos a voltar para o posto, já sem esperanças. Deparamos com um veículo que ia apressadamente em direção ao lava jato e deduzi que ele seria o dono. Resolvemos voltar e, para nossa alegria e alívio era ele realmente. A noite tranquila estava garantida! Ele veio com sua esposa e os filhos. Conversamos bastante e demos boas risadas. Isso ajudou bastante a esquecer as dificuldades que passei durante o dia. Ele mostrou as acomodações do lava jato e deixou a cozinha aberta para pegarmos banana e água durante a madrugada. Como é bom ter um fim de dia assim, com pessoas bacanas e acolhedoras. Se sempre fosse desse jeito, acho que iria pedalar o ano inteiro!
O dono do lava jato foi embora e fiquei conversando um pouco mais com o ciclista cearense. Ele tinha a vantagem de estar apenas com a rede e facilmente se instalou. E ele levava pouca bagagem. Me lembro que as três vezes que o avistei ele estava com a mesma roupa preta.
O lugar era isolado e silencioso, mas não tive medo nenhum de ficar ali. O fato de estar acompanhado ajuda um pouco, acredito que se estivesse sozinho iria ficar um pouco receoso. Enfim um dia que comecei o continuou complicado acaba terminando bem e na calmaria. Espero que seja assim até o dia amanhecer.








