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segunda-feira, 19 de julho de 2021

Paranoias diárias de cada dia: O medo de pegar Covid

 A gotícula da paranoia


    Outro dia estava pedalando com a minha bike ao lado do rio Arrudas, aqui em Belo Horizonte. Para quem não conhece, é como se fosse o rio Tietê de São Paulo. 

    Pois bem, de repente passo por cima de uma pequena poça de água e uma gotícula entra justamente dentro do meu nariz. 

        Imediatamente para a bike e começo a assoar o nariz até sair a minha alma. 

     O pavor tomou conta de mim, outro dia havia lido uma matéria em que pesquisadores tinham colhido amostras da água do rio arrudas para saberem o quanto da população da capital mineira estava contaminada com o coronavírus. (pois é, o vírus entra até na bosta da gente).

    Voltei pedalando o mais rápido possível que minhas canelas conseguiam imprimir na bike. Imediatamente peguei o álcool em gel, e enchi as minhas narinas com o líquido que se tornou rotina usar. Para minha surpresa não ardeu.

    Nos dias seguintes, atenção total aos possíveis sintomas que porventura aparecessem: febre, cansaço, dores no corpo, diarreia, etc...

    Como moro sozinho e em um local que tem vários outros quartos, já estava planejando morar em minha barraca em uma rua isolada qualquer aqui na capital mineira. E iria confeccionar um cartaz bem grande avisando que eu estava com coronavírus e que aceitaria doação de comida, pois não iria poder sair dali durante duas semanas. 

    Os dias foram se passando e nada dos sintomas aparecerem. Vez ou outra eu petiscava alguma coisa para ver se estava sentindo o gosto dos alimentos. 

     Passaram-se duas semanas, que é o tempo que o vírus do covid demora para aparecer e eu estava super bem fisicamente, pois a minha saúde mental, que não é lá essas coisas, deu uma boa piorada durante essa pandemia.

     Bem, essa foi a história da gotícula de água que quase me deixou louco. 

     Até a próxima paranoia diária de cada dia. 

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Paranoias diárias do dia a dia-8: conta do banco

 

Paranoias diárias do dia a dia


     Hoje quase tive um infarto, por causa da minha conta caixa fácil, que é a  que uso na internet para vender meus livros.

    Quando fui olhar o saldo, nenhuma novidade: 0 real de saldo. Mas desta vez estava esperando um valor, pois uma pessoa havia me enviado um email confirmando o pagamento para adquirir meus cinco livros. 

   O estranho é que ao imprimir, aparece algo mais estranho ainda:  o número da conta naquele pedaço de papel era diferente da que estava no cartão!

    Isso foi o suficiente para ter a certeza absoluta que estava sendo hackeado, e que haviam subtraído o valor que a pessoa havia depositado para adquirir os meus  livros. Ou então a pessoa falsificou o comprovante do depósito e havia colocado um vírus na imagem. Ou seja, a pessoa não queria o meu livro, e sim me hackear, pois imagens em emails são uma forma bem comum de enviar cavalos de troia, que são malwares disfarçados para que o hacker tenha acesso ao sistema operacional da vítima. 

    Com a modernidade, a mania de perseguição que,  além de presencial agora virou virtual também... 

    Acredito que tenho as mesmas paranoias do que quando comecei a surtar, o que mudou é que meio que me acostumei e aprendi a lidar com elas. 

    Como hoje é sábado e o banco está fechado, resolvo telefonar para o 0800 da caixa,  mesmo sabendo que poderia me estressar com o atendimento ou não atendimento via celular: Tecle 2 para conta caixa fácil, tecle 2 para dúvidas, tecle 9 para falar com a atendente, etc...

     Dessa vez tive paciência (acho que é o chá de camomila...) e, no final de tudo, me informam que o número da conta caixa fácil de todos os clientes havia mudado, mas que não era preciso me preocupar pois o número antigo também funcionava para saques e depósitos...

    Muitas pessoas dizem que tenho vida boa por não estar trabalhando, mas não é bem assim. Acho que consigo me disfarçar bem de "gente normal", pois não demonstro o tanto que fico estressado com essas paranoias. Se eu falasse tudo o que penso ou seria internado ou detido...

    



quarta-feira, 18 de março de 2020

Paranoias diárias do dia a dia-7 Coronavírus

Coronavírus e a hipocondria


    Falar que praticamente o mundo inteiro sabe que todos estão alarmados com a propagação do covid-19 é chover no molhado. É só ligar a TV ou acessar a internet que não tem como não ficar não informado sobre esse assunto. 
    Mas e os hipocondríacos e paranoicos, como ficam nesta história que mais parece aqueles filmes de hollywood de final do mundo?  Nós já vivemos paranoicos com essa questão de vírus sem os vírus estarem presentes, imaginando esses seres em todos os lugares nos fazendo lavar a mão mais do que o de costume.


1° dia: parecendo um feriado facultativo
    Imagine agora como estamos nessa real pandemia? Estou me sentindo mal pra caramba. Já sou de falar pouco, agora é que não falo mais mesmo. Penso que alguém infectado irá falar comigo e que uma gotícula de saliva irá cair bem na minha boca ou olho e ficarei infectado. Hoje fui no centro e estava falando como aquelas pessoas que tiveram  AVC, com a boca meio fechada. E quando deu para fazer mímica eu fiz. Fiquei pé da vida quando a moça do caixa não entendeu que eu queria uma palha italiana quando eu apontei para o doce e fiz o número um com o indicador. Aí tive que abrir a boca, falando meio de lado... 
     Não saio de casa para praticamente nada, apenas para ir no restaurante popular e no sacolão comprar algumas  frutas, principalmente o limão, por causa da vitamina C. Quase todo dia tomo dois sucos de limão, coisa de hipocondríaco mesmo, já imaginando que  algum vírus esteja no meu corpo. Me sinto melhor sabendo que meu corpo tem a quantidade adequada dessa  vitamina que é a mais indicada para melhorar o nosso sistema imunológico. 
    "Por sorte" sou aposentado, não tenho que pegar ônibus para ir ao  trabalho. Imagino como deve estar sendo para os trabalhadores em um ônibus totalmente fechado por causa do ar condicionado. Como devem se sentir quando alguém tosse ou espirra em um ônibus lotado no horário de  pico?
    Sem contar aquele negócio de ferro que as pessoas usam para se apoiar. Já imaginava milhões de vírus antes do corona, agora então é que não pego ônibus. Vou de bike mesmo.
 o blog também é de humor mais ou menos negro...

     Em relação ao fato de se isolar por causa da propagação do vírus, para a minha pessoa não muda muito, pois sou uma pessoa bem antisocial mesmo, não sendo necessário nenhuma recomendação extra. Confesso que senti um certo alívio ao ver as  ruas mais vazias, mas isso não quer  dizer que eu esteja satisfeito com a situação. Ser antisocial é uma coisa, agora ser uma pessoa do mal é outra completamente  diferente. Era quinta feira e o centro de Belo Horizonte mais parecia um dia de feriado qualquer. 
   Entrei no sacolão para comprar limão e não tinha álcool em gel para os clientes limparem as mãos antes de pegarem nas frutas. O terror tomou conta de mim ao olhar aquelas frutas brilhantes de cera.  Elas estavam bonitas, mas minha mente me fazia enxergar um monte de vírus circulando por aqueles limões. A primeira coisa que pensei era desistir, ficar todo esse tempo sem comer frutas.  Mas e como ficaria o meu sistema imunológica sem a dose diária de vitamina C?  É, o jeito foi pensar em uma alternativa, e então decidi comprar os limões e depois passar no supermercado para comprar água sanitária para fazer uma boa limpeza nas frutas.

2° dia: Quase tudo fechado, paranoia aumentando....
     No segundo dia de ida ao centro para pegar o rango no restaurante popular, o cenário muda completamente em Belo Horizonte. Se ontem parecia um feriado, hoje já tinha algum aspecto daqueles filmes de fim de mundo. Poucos carros nas ruas, o comércio praticamente todo fechado, com exceção de farmácias, padarias e outros mais. Não vi nenhuma pessoa sorrindo, rostos desolados em sua maioria, ou então demonstrando aquele ar de preocupação, sem saber muito ao certo como será o futuro não só do país como do mundo.
       Muitas pessoas com máscaras pelas ruas. Como não encontrei na farmácia para comprar, acabei usando uma que tinha comprado para pintar a bike, mesmo não estando com os sintomas da doença. Mas é melhor usar assim mesmo do que ficar na paranoia de pegar o tal do corona. Porém não adianta muita coisa, quem é paranoico está sempre ferrado. Você se livra de uma paranoia, mas aí aparece outra. Agora estou pensando que está todo mundo pensando que eu estou com o tal do corona,  por estar usando  máscara.... E em minha imaginação estão todos olhando para a minha pessoa pelas ruas. E quando uma  me encarava, pensava que estavam me recriminando  por ter postado  memes sobre a pandemia no meu perfil as redes sociais.
      Ontem fiquei um pouco agitado e comprei doce para me acalmar. Hoje não foi diferente, consegui deixar de me empanturrar  na hora do almoço, para tentar diminuir os meus triglicerídeos, que estão um pouquinho acima do limite. Semana passada fiz um hemograma para ver como estou antes de iniciar as minhas pedalanças.
    Mas consegui segurar a vontade de comer doces até por volta das 3 horas da tarde. O jeito foi ir ao supermercado, pois teria que sair de qualquer jeito mesmo, para pegar a receita do diazepan no posto de saúde. Ainda tenho alguns, mas, como ando meio agitado por causa dessa pandemia, melhor me precaver.
    O posto de saúde quase vazio, e entreguei a receita para a moça que estava na porta, pois estavam atendendo uma pessoa suspeita de estar infectada. Sexta feira é dia de trocar receitas, mas, como estou agitado resolvo não insistir para pegar o diazepan e vou embora.
    O supermercado estava com bastante gente, não sei se é por causa do medo do desabastecimento ou por ser sexta feira mesmo. Estou bem agitado e tento pegar um abacate para comer com um pouco de açúcar, mas estão todos verdes. À medida que vou ficando ansioso vai aumentando a vontade de comer doces. Não vejo nada em minha mente de saudável que seja capaz de me acalmar sem me dopar. O jeito é comprar porcaria mesmo. Compro aqueles doces de banana e um biscoito de chocolate da piraquê. A briga com os triglicerídeos fica para depois.
     Na fila um cara tosse, e eu, apesar de estar com a máscara, chamei a atenção. Muita ansiedade para ir embora, fico imaginando que os seguranças estão imaginando que estou nervoso por que estou roubando algo. E fico encarando eles. Se eles me encararem acabo mostrando o dinheiro para eles. Infelizmente é o que passa na minha cabeça e é a minha reação. Nessas situações não sei o que é real e o que é coisa de minha cabeça. Às vezes até brinco com o segurança para ir atrás de mim para me vigiar, mas hoje, por causa da tensão do coronavírus, não estou bem para brincadeiras.
    Meu vizinho disse que estava faltando itens básicos como arroz, ovos, feijão. No supermercado que eu fui estava tudo tranquilo, não vi ninguém comprando além do considerado normal, ou seja, um carrinho cheio. Já estava imaginando que todos os supermercados já estavam com falta de comida e que em breve todas as pessoas iriam estar passando fome e com isso começariam a saquear a cidade.
     Não sei como será daqui para frente, Tenho que me vigiar para não surtar. E surtar é surtar mesmo, não é qualquer piti que uma pessoa dá, já que o termo surtar está sendo muito usado e banalizado ultimamente.


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Paranoias diárias do dia a dia-6 O exame de HIV

    Hoje fiz mais um exame de hiv. Como sempre os resultados deram negativo. Nunca peguei essas doenças venéreas brabas.
    Antes do resultado estava super tranquilo, afinal atualmente não estou arrumando nem confusão.         Foi apenas um exame de rotina, mas nem sempre foi assim.
    Por volta do ano de 2001 eu estava com a certeza plena e absoluta de que estava com aids, mais por causa dos boatos que circulavam na cidade onde eu morava do que por causa da minha vida sexual, afinal sempre me precavia e usava o preservativo. Hoje em dia os meus preservativos estão até com a validade vencida por falta de uso. Desconfio daqueles senhores de idade que vão no posto de saúde e enchem a mão de camisinhas. 
    Mas, voltando ao assunto, quando estava naquele boato de que tinha aids, tive a infelicidade de acreditar e dar crédito ao que os outros pensavam. Resultado: acabei acreditando que estava com aids, entrei em depressão e fiquei sem energia e motivação. Era um círculo vicioso, pois eu ficava pensando que estava com aids e entrava em depressão, e essa falta de energia da depressão me fazia acreditar que era por conta do HIV. 
    Não queria fazer o exame nessa época pois acreditava realmente estar com aids e estava somente esperando os primeiros sintomas aparecerem para dar um fim à minha existência nesse planeta. 
    Tive poucos relacionamentos sem preservativo em minha vida, e imaginei que tinha contraído o HiV na primeira relação e que então teria passado o vírus para outras pessoas. Isso me deu um tremendo sentimento de culpa exagerado, e, quando surtei até cheguei a pedir para um policial me prender, afirmando que era um réu confesso e que havia matado algumas pessoas. Sim, eu cheguei à esse ponto. 
    Depois de cinco meses morando nas ruas nesse surto acabei conseguindo me recuperar e voltar a trabalhar. Tinha feito o exame quando estava morando nas ruas e havia dado negativo. Estava esperando que desse negativo para que eu pudesse enfim a fazer  o tratamento tomando as medicações. 
    Mas o resultado deu negativo e foi uma felicidade tremenda, deveria ser algo parecido com a carta de alforria que um negro recebia durante o período de escravidão do Brasil.
    Voltei a trabalhar mas tudo voltou o surtei outras vezes. E aí a situação piorou, pois quando fazia os exames e via o resultado dando negativo não ficava aliviado e sim imaginando que os laboratórios também estavam no complô contra a minha pessoa, falsificando os resultados para que eu não pudesse tomar os medicamentos e tivesse uma morte mais dolorosa e rápida. 
    Esses pensamentos duraram até por volta do ano de 2006. Havia conseguido o auxílio doença e finalmente pude ficar um tempo sozinho, pois na época que surtei ainda tive que trabalhar por muito tempo sem condições. Talvez isso tenha prejudicado a o tratamento da minha esquizofrenia. Ficando sozinho não estou curado, mas assim evito maiores situações de stress e a agitação do dia a dia. 
    Então, depois de um ano morando no meu cantinho resolvo fazer o exame do HIV para tirar de uma vez por todas essa dúvida que estava me atormentando nos últimos quatro anos de minha vida.         E, como sempre, o resultado foi negativo, a diferença é que o pensamento de que os laboratórios de exames não estavam mais contra a minha pessoa. E aí foi uma comemoração dupla, pois o meu time havia sido campeão da copa do Brasil e tomei uma cidra e fui para a cidade onde o boato havia se espalhado e aí fui eu que espalhei cartazes nos postes com o xérox da impressão do exame. E o mais curioso é que encontrei na papelaria para fazer a impressão uma pessoa que vivia dizendo que eu estava com aids quando eu ficava um pouco magro. E aproveitei para dar uma folha com o resultado para ela. 
    Enfim, é mais ou menos isso que pode acontecer na mente de um paranoico quando está surtado.         Cada um reage de uma maneira diferente, e a minha reação foi apenas fugir e fugir. 
    E me considero um vitorioso, pois hoje em dia se não posso dizer que estou totalmente recuperado, pelo menos estou cuidando de minha vida e em paz comigo mesmo.
    Não me considero uma pessoa que venceu a esquizofrenia, pois a minha vida não está como antigamente, não estou trabalhando e sou um aposentado. Mas poderia ser bem pior e hoje em dia tenho muito mais a agradecer do que reclamar. 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Paranoias diárias do dia a dia-5 O conserto da bike


    Paranoias diárias do dia a dia
    Em uma paranoica mente pequenos problemas acabam virando um tsunami. Pequenos detalhes, coisas simples que vão se somando e se multiplicando, causando enormes prejuízos no dia a dia de uma pessoa com esquizofrenia. 
O conserto da bike
      Comprei uma bicicleta usada e estava tendo muitas dificuldades para alinhar a parte traseira. 
    Na minha paranoica mente imaginava que o dono da magrela havia me passado para trás e que o quadro da bike estava danificado. 
    Fiquei horas e horas tentando improvisar algo para que amenizasse a “tortura” traseira da bike, mas tudo em vão. Cheguei a ficar cerca de sete horas seguidas tentando alinhar os raios da roda traseira em um dia. Desapertei todos os aros para alinhar novamente cerca de quatro vezes. Acredito que fiquei debruçado sobre esse pneu traseiro um total de 48 horas.
    “Como existem pessoas más neste mundo”... – pensei. 
    Já estava pensando em comprar um outro quadro, pois a bicicleta estava fazendo um rangido estranho e tinha receio de que viesse a danificar nas minhas viagens que irei fazer por aí pelo Brasil afora. 
    Então tive a ideia de levar a bike em um mecânico que um conhecido havia me recomendado. Queria uma análise dele para confirmar que o quadro estava realmente torto e que teria que comprar um outro. 
    Não demorei a encontrar o endereço e cheguei em sua oficina. Relatei o ocorrido e ele de primeira afirmou:
    - É a roda da bike que está torta....
    Para o meu alívio o mecânico tinha no seu estoque duas boas rodas aero usadas que serviram muito bem nessa minha bike, que passou a andar com mais fluidez.
    Muitos pensam que tenho boa vida, mas é que procuro disfarçar bem, acho que sou um bom ator de gente normal. Um simples defeito em uma roda, mas, devido as paranoias, o meu primeiro pensamento era de que o antigo dono da bike quisesse me prejudicar. Perdi muitas horas vendo vídeos no youtube e tentando achar uma solução. Pensava somente que era o quadro da bike que estava com problemas e não a roda propriamente dita, que seria a primeira opção ao se fazer análise da situação da magrela. 
    Foi um grande stress por um defeito tão simples e corriqueiro em bicicletas.... Mas a esquizofrenia para mim é isso mesmo, uma luta diária, e não desisto fácil. 
    “Ah, mas por que você não toma os remédios?”. Me perguntam costumeiramente.
    Oras, se eu estivesse tomando os maleditos antipsicóticos simplesmente não teria vontade de andar de bicicleta como tenho andado ultimamente, às vezes chego a andar quase 40km em um dia, o que é uma distância razoável para uma bike aro 26 e para um cara que está com 50 anos. É uma decisão difícil a ser tomada no meu caso, mas não tenho sombra de dúvidas que é o melhor caminho para mim, o caminho que eu mesmo escolhi(acho que já ouvi essa frase antes...) que é de ser eu mesmo, sem máscaras, sem tranquilizantes, enfrentando o mundo de cara limpa. Drogas eu estou fora, sejam elas ilícitas ou lícitas, sem condenar quem optou pelo uso dos remédios
    Quero me emocionar, senti o vento no meu rosto quando estiver andando de bicicleta, que foi o melhor investimento que fiz em minha vida. Quero me emocionar, mesmo que seja para chorar em alguns momentos. Não estou aqui incentivando ninguém a seguir o mesmo caminho que escolhi, cada um tem o seu jeito de ser e de pensar. E no meu caso não tive muitas escolhas, pelo fato de morar sozinho e ter que ter disposição para resolver meus problemas do dia a dia, algumas vezes tendo que acordar cedo, coisa que não consigo fazer tomando antipsicóticos. Até consigo levantar da cama, mas fico meio que sendo um zumbi, acordar de fato é outra coisa. 
    Queria agradecer de coração à todos que estão me ajudando nesta jornada, que é o “Pedalanças”. Graças à ajuda de vocês estou conseguindo montar a minha bike e adquirir os itens necessários para se fazer uma viagem de longa distância com uma bicicleta. 

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Paranoias diárias do dia a dia-4: A primeira comunhão


   Costumo dizer que a esquizofrenia apareceu em minha vida aos 32 anos de idade, quando os surtos vieram e toda aquela loucura que a mania de perseguição provocava em minha vida.
Mas a esquizofrenia não é somente o surto em si. Delírios, pensamentos e comportamentos também são elementos que merecem serem destacados. 
  Essa não é uma das minhas paranoias diárias do meu dia a dia, já que ela aconteceu quando eu tinha oito anos de idade e não tem mais como acontecer novamente, pois primeira comunhão só acontece uma vez em nossas vidas(dããããããããã). Mas, durante toda a minha vida pré-surto tive (e ainda tenho) muitos delírios místicos: para onde iremos após esta vida, sobre o que é certo e o errado (se é que existe isso) e também achava que era uma pessoa especial com uma proteção especial do Criador.  Enfim, é aquela eterna briga entre o bem e o mal que é travada em nossas consciências e que, se não forem muito bem assimilada pode sim causar um grande desequilíbrio em nossas mentes. 
    Estudava na época em um colégio de freiras aqui em Belo Horizonte, o Nossa Senhora do Monte Calvário. Sempre gostei deste colégio, principalmente da hora do recreio, pois não gostava muito de estudar. Algumas freiras eram bem engraçadas e humoradas, já outras eram mais sérias e ranzinzas. Tinha uma freira no pré-primário que carregava os alunos pela orelha quando faziam alguma travessura. Ela era bem estressada e toda a galerinha morria de medo dessa freira, pois ela tinhas as mãos bem grossas.
    Na oitava série todos os alunos eram obrigados a fazerem a primeira comunhão. Mas antes tínhamos que fazer a preparação, frequentando algumas aulas em plena manhã de sábado.
Estava tenso e muito ansioso para que passasse logo esse dia. Fui um menino bem bagunceiro, tanto dentro como fora de casa, apesar de que só ficava em casa para dormir e almoçar. Às vezes nem no almoço aparecia,  pois também gostava de “filar” um rango na casa dos meus amigos da rua.
    Era bagunceiro mas até que tinha um bom coração, não repetindo minhas travessuras quando alguém explicava o motivo de não fazer aquelas coisas. Por exemplo, um vizinho correu atrás de mim depois que soltei uma bomba no quintal da casa dele. Não era uma bombinha, era daquelas cabeças de nego. Na minha cabeça era uma simples brincadeira, mas depois que o cara correu atrás de mim zangado e assustado dizendo que a avó dele quase havia morrido do coração nunca mais fiz essa "brincadeira".
    Não tive pai e minha mãe acredito que também tenha algum tipo de transtorno mental, pois ela quase não se comunicava com as pessoas. Era quase catatônica. Saí de casa aos 17 anos e até hoje não sei exatamente o que aconteceu com ela para que ficasse daquele jeito.
    Mas, voltando ao tema da primeira comunhão, nas aulinhas preparatórias ficávamos conversando sobre o que dizer no dia para o padre. Uns diziam que iam contar tudo pelo simples fato de não terem muito para contar. Já eu estava vivendo um dilema, se contava tudo ou não contava. Naquela época já me questionava sobre o porquê de ter que contar tudo para o padre, já que Deus sabia até o que a gente estava pensando. Mas a verdade é que eu não queria pagar para ver e já estava até pensando em anotar tudo em um caderninho pois provavelmente iria esquecer algum pecadinho que eu havia cometido há algum tempo atrás. Mas logo desisti da ideia pois, se anotasse todas as minhas travessuras em um caderninho com certeza a cerimônia da primeira comunhão iria atrasar e muito por causa da minha longa listinha de infrações pecaminosas...
    A principal preocupação era de quantas ave-marias e pai-nosso eu teria que rezar para que todos os meus pecados fossem perdoados. Não podia rezar em pé, tinha que ser ajoelhado, diziam meus colegas.
    Por falar em colega, depois da aula do catecismo, um amigo de turma durante nossas conversas teve a infeliz ideia de dizer que certa vez a hóstia havia se transformado em sangue na boca de um menino que havia ocultado um pecado durante a confissão.
Naquele mesmo instante me imaginei de frente para o padre com a boca toda ensanguentada e a igreja lotada e todo mundo olhando para mim....Era mais uma paranoia mística que foi implantada em minha cabeça.
    Os dias foram se passando e a primeira comunhão chegando. Estava muito apreensivo, vivia pensando no que seria reservado para mim depois desta vida. Não me achava um santo mas também não me achava um menino totalmente mau.
    O dia finalmente havia chegado. Acredito que desde a sétima série já estava pensando nesse momento. Era muito encucado com essas coisas de céu x inferno, bem x mau. Sempre ouvia aquela velha frase quando fazia bagunça:
- “Podi naum”, papai do céu vai castigar...
criança normal faz uma baguncinha... 

    Não me lembro se havia conseguido dormi naquela noite de sábado para domingo. Só sei que acordei cansado, com febre e suando frio. Me lembro bem de uma foto tirada na frente da  igreja em que saí com o pescoço brilhando, de tanto suor que estava saindo de meus poros.
    Só queria que aquele dia passasse logo. Tomei o meu café da manhã e desci as escadas que davam para o quintal de casa com um punhado de canjiquinha para dar para os pintinhos que ciscavam pelo quintal. Os bichinhos, ao me avistarem foram logo subindo a escada e eu joguei uma porção de canjiquinha na minha frente dois degraus abaixo de onde estava...Imaginem o que aconteceu: eu estava descendo e os pintinhos subindo... Quando viram a canjiquinha caindo se atiraram para comer os grãos e não deu tempo para frear e então pisoteei um pintinho. O bichinho ficou agonizando com um ferimento no pescoço. Minha avó e meus irmãos chegaram para socorrer o pintinho, mas foi em vão. Ele não resistiu ao ferimento e então meu irmão disse, me encarando com aquele olhar de acusação:
    - Ele fez isso por querer....
    Minha avó me deu aquela encarada, e nem tentei argumentar. Era o bagunceiro da casa, ou melhor dizendo, da rua onde eu morava. Qualquer janela quebrada já iam bater na porta de casa...Mas isso não era a minha principal preocupação naquele momento. Se antes do incidente estava imaginando que minha pena seria de 100 ave-marias e cem pai-nosso, depois de ter matado o pintinho minha estimativa havia aumentado para cerca de quinhentas orações. Já estava imaginando a dor que iria sentir em meus joelhos...
    Mas não tinha jeito. Tinha que ir nessa primeira comunhão. Não havia ainda planejado o que dizer para o padre. Estava na dúvida se omitiria os pecados principais, deixando só os pecadinhos mesmo. Afinal Deus já sabia de tudo o que eu havia aprontado nesta vida. E também não queria atrasar a cerimônia contando as minhas aventuras.
    Fomos para o colégio. Estava de cara fechada e muito mal humorado, e ainda tinha que aguentar o fotógrafo à todo momento me pedindo para olhar para a câmera e dar um sorriso. Foram umas vinte fotos, e em todas elas eu fiz cara fechada e algumas até careta eu fiz. Só não fiz careta nas fotos que o fotógrafo me pegou distraído. E ainda tinha que aguentar o flash que quase me cegava os olhos...
    Havia chegado o grande momento. A igreja estava lotada. Estava um pouco na dúvida sobre contar tudo, pois a hóstia poderia se transformar em sangue na minha boca. Era um dilema e tanto para resolver em tão pouco tempo. Fiquei observando os alunos que se comungaram antes de mim. Eles estavam se confessando muito rápido, questão de segundos mesmo. Ninguém estava relatando tudo o que haviam feito de errado. E não seria eu o único a contar tudo né?
    A minha vez havia chegado. Respirei fundo e na hora decidi dar uma grande resumida nas minhas falhas de criança:
1-Havia brigado com meus coleguinhas
2-Havia discutido com minha mãe. 
   Olhei para o padre com um misto de medo e dúvida. Ele me encarou e a sensação que tive naquele momento é que ele sabia que eu estava ocultando muita coisa. Não me lembro exatamente a quantidade de ave Maria e pai nosso que mandou rezar, mas não foi muito. Acredito que foi umas quinze de cada, para o meu alívio. E, para maior alívio ainda a hóstia não havia se transformado em sangue na minha boca.... 
    Mas não fiquei totalmente aliviado, deixei o resto da conversa para ser tratada diretamente com Deus, nas orações que eu fazia quando pequeno. Iria explicar que não tinha contado tudo para não atrasar a cerimônia e também para não cansar o padre. 
Depois da igreja fomos todos para o pátio do colégio onde teve muitos comes e bebes e então pratiquei sem culpa o pecado da gula... 

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Paranoias diárias do dia a dia-2


Surto ou indignação?
     Quinta feira 2 de julho de 2018 23 horas
    "Amanhã recebo o pagamento, feliz por ter chegado ao fim do mês sem ter que ficar pedindo dinheiro emprestado ou indo aqui no blog para fazer a mendicância virtual. 
   Ganho um salário e não tenho do que reclamar, poderia ser pior, nem poderia estar vivo para contar as minhas historinhas. Foram algumas tentativas de autoextermínio e inúmeras situações perigosas que vivi durante os surtos que tive. Em um deles cheguei a perder 25kg por ficar fugindo dos meus inimigos imaginários e esquecendo de me alimentar. Poderia ter sido atropelado andando sem rumo pelas Brs e pelas ruas de Belo Horizonte. 
    Também passei por situações complicadas devidos aos meus delírios, pois acreditava piamente que tinha superpoderes e que também tinha um anjo da guarda muito forte me protegendo.(as palavras na cor azul são links que explicam melhor o contexto da postagem). Vamos clicar para chegarmos logo à um milhão de visualizações pessoal!). 
   Mas, por motivos de força maior sobrevivi e vou levando a vida, com sustos e surtos. E na última sexta feira a situação ficou por demais complicada. 
   Tive uma noite de sono razoável e acordei bem disposto. Tomei um banho gelado para tirar a ressaca da pouca dose de diazepan que ainda tenho que tomar para não ter uma crise de abstinência e quem sabe surtar novamente. Comi um delicioso pão de queijo recheado com queijo na padaria e fui para a lotérica sacar meu pagamento para pagar o aluguel e comprar a minha ração matinal(aveia, leite de soja, gérmen de trigo e fibra de trigo). Além é claro, o ômega 3 e o cloreto de magnésio no mercado central.
   Haviam duas pessoas na fila e a lotérica ainda estava fechada. Estava bem humorado, dinheiro não é tudo mas também mal não faz né?
   Com paciência que geralmente costumo ter esperei a agência lotérica abrir para sacar meu dinheirinho, que considero uma recompensa por ter sido uma pessoa do bem, mesmo nos momentos mais difíceis de minha vida. Quando chegou minha vez de sacar o dinheiro, uma surpresa nada agradável quase me fez enfartar: zero reais de saldo na minha conta!!!
   Logo pensei um palavrão e olhei para o funcionário da agência. Na minha paranoica mente ele era a primeira pessoa suspeita de ter sacado o meu precioso dinheirinho. Pensava (e ainda penso) que ele tem acesso à todas as minhas informações, pois, enquanto eu fico digitando a senha ele fica olhando para a tela do computador da agência. Penso que de alguma maneira ele consegue saber a senha. Dei uma encarada nele e ele também ficou me encarando. Mas eu não disse nada, apenas fiquei calado. Se eu falasse tudo o que penso provavelmente estaria trancado em um hospício de segurança máxima.
   Corri então para a agência da caixa econômica mais próxima para obter uma resposta para o suposto sumiço do meu pagamento. No meio do caminho senti falta da carteira de identidade e tive que voltar na lotérica para pegar o documento. Coração disparado, corri para o banco. Novamente tentei sacar o dinheiro, agora no terminal da agência. Para o meu desespero, o problema não era na lotérica e sim na minha conta mesmo. Por um breve momento cheguei a pensar se algum hacker teria invadido minha conta. Mas esse pensamento logo sumiu, pois não uso a minha conta da aposentadoria na internet. E também os hackers não iriam ter um trabalho danado para descobrir meus dados para pegar uma micharia né?  Mas pensei nos meus inimigos imaginários e logo voltei a pensar que poderiam ter contratado um hacker só para me prejudicar.

    Acredito que, dentre os milhares de inimigos imaginários que tenho alguns sejam reais mesmo. Hoje em dia está tudo complicado, e, basta estar em paz consigo mesmo e feliz para atrair uma negatividade imensa. Se estamos tristes e com cara fechada também as pessoas reparam. Enfim, se olharmos a opinião alheia podemos ir para um caminho não muito bom. 
    Mas voltando ao tema da postagem, do lado do caixa em que eu estava tentando sacar o pagamento um cara também reclamava de que estava tendo problemas com sua conta. Me espantei com a calma que estava estampada em seu rosto. Ele falou isso com uma naturalidade incrível. Talvez eu também consiga transparecer toda essa calma, mesmo se minha mente estiver vivendo um turbilhão de pensamentos paranoicos e conflitantes. Talvez eu fique apenas com os olhos esbugalhados nessa situações de intensa agitação mental. 
    À essa altura do campeonato  estava pensando que o INSS  havia cancelado o meu benefício. Já estava planejando vender "minhas coisinhas", acabar de arrumar minha bike para terminar os dois caminhos da estrada real. Pensaria como seria minha vida daqui pra frente sem minha aposentadoria. Teria que voltar a morar nas ruas e ficar na mendicância. Quem leu o meu livro sabe que morei por alguns meses nas ruas de Belo Horizonte no ano de 2002. Mas naquela época as coisas estavam menos violentas do que atualmente. Fui muito ajudado e consegui me recuperar. Mas hoje em dia talvez por conta do crack e do crescente número de assaltos as ruas estão cada vez mais perigosas. Pensei então que poderia virar um andarilho e viver perambulando pelas estadas do Brasil afora. 
   Cheguei a ter esses pensamentos antes de fazer a perícia da revisão do meu benefício. Mas estava menos agitado, pois tinha tempo para pensar e planejar tudo. Agora, receber a notícia do dia para noite que teria que morar nas ruas é bem mais difícil de se assimilar. 
    O jeito então foi esperar o atendimento na agência da caixa funcionar para conversar com o funcionário sobre o problema com o saldo zero da minha conta. Na fila por um breve momento pensei em autoextermínio, mas logo sumiu. Acredito que já passei por essa fase e quero viver por muito tempo, para a minha felicidade, é claro. Tentando manter a maior calma possível, ou pelo menos aparentar, esperei o atendimento e o funcionário da caixa não soube explicar o ocorrido, mesmo após ter consultado o bendito "sistema". Sistema é como se fosse virose, é o culpado de tudo de errado que acontece nas empresas, instituições, bancos, etc... Agora uma pergunta: "E quem opera o sistema? Um outro sistema?
    O funcionário me aconselhou a ir na agência que fui cadastrado, aqui no centro de Beuzonte. Voltei para casa e a dona do imóvel já me veio cobrando o aluguel. Ela sempre vem cedo me cobrar, pois sou um bom pagador e não atraso o aluguel. Aparentando tranquilidade, informei, mesmo não tendo certeza, de que o sistema da caixa econômica estava com problemas e não havia recebido o pagamento. 
    À essa altura estava mais calmo realmente, principalmente depois de saber que outras pessoas também estavam tendo o mesmo problema do que eu. Saber que não somos a única pessoa do mundo a passar por determinada situação ajuda muito, mas não resolve o problema quando se trata de uma mente paranoica como a minha. 
    Peguei então um ônibus e fui para a agência no centro da cidade. O atendente afirmou que houve uma pane no sistema (ainda bem que não estava  em um avião) e que a Caixa Econômica estava trabalhando para resolver a situação e que eu poderia voltar para casa. Na porta da agência, resolvi esperar um pouco, para quem sabe o problema seja solucionado até o meio dia e aí já aproveito e compro minha ração no mercado central. E também tinha que desacelerar um pouco meus pensamentos e já estava um pouco esgotado, devido ao stress todo dessa complicação da conta. Havia acordado bem disposto, mas esse problema me deixou um pouco cansado e fiquei na agência, aproveitando a água geladinha e o ar condicionado. 
      Já recuperado fisicamente depois de uma hora sentado, voltei a olhar o meu  saldo: zero reais...
    Voltei para casa, e a solução era esperar mesmo. Quando desci do ônibus, fiquei com cara de paisagem ao passar em frente ao restaurante em que estava devendo dois almoços... 
    Já no meu quartinho, telefonei algumas vezes para o SAC da caixa, que nunca resolve nada. A gente demora quase dez minutos para ser atendido, temos que ficar esperando para clicar nos números para ouvir que o problema só pode ser resolvido na agência...
    Pesquisei no google e vi nos resultados de busca que realmente muitas pessoas com conta na caixa estavam com problemas para receber o pagamento. Quem tinha conta em outros bancos estava recebendo normalmente. Isso me deixou bem mais aliviado, por saber que o problema não era no INSS. A perícia de revisão já havia me detonado bem... 
    As horas se passaram e já de noite o problema não havia sido solucionado. Passei na agência lotérica por volta das três horas da tarde e no banco às seis horas e nada do pagamento cair na conta. Era sexta feira e teria que passar o final de semana comendo pão e ovo?
    Por volta da meia noite resolvi telefonar novamente para o SAC da caixa e eles informaram que não sabiam de nada, afirmando que o sistema estava normal. Perdi a paciência e falei coisas que não podem ser publicadas aqui no blog. Também falei algumas coisas para o segurança da agência quando fui lá por volta das seis horas. O problema maior era a desinformação: ninguém sabia de nada. Achei isso uma falta de consideração total. A Caixa Econômica deveria ter enviado uma nota sobre o assunto. Afinal temos nossos compromissos e contas a pagar. 

    Como não uso internet banking na conta que recebo o pagamento, tive que então tomar o meu pedacinho de diazepan, ou melhor, tomei 10mg para não surtar e consegui ter uma razoável noite de sono. Já de manhã a dona do imóvel veio batendo na minha porta à procura de notícias sobre o pagamento. O jeito foi cadastrar minha conta no internet banking e acessar pelo celular, já que pouco uso o telefone para navegar na internet, só uso mesmo para me desconectar do mundo, ouvindo minhas músicas prediletas. Não acesso o internet banking pelo notebook, pois acesso alguns sites suspeitos e complicados que podem ter vírus. Quem pensou em site pornográfico errou shasuahsuashauss Os sites que visito e que são complicados são sites que transmitem jogos online, e também baixo muitos filmes e às vezes jogos pirata. Ou seja, notebook é só para diversão mesmo, pois até o windows que uso é piratão. Já o android é original pois é um sistema gratuito... 
    Acessando minha conta, alívio geral: o meu salário estava constando no sistema  Que alívio ver os zeros apenas no final. Que peso senti saindo do meu corpo naquele momento. Logo pensei na frustração dos meus inimigos imaginários e nos reais também. Não seria desta vez que iria para as ruas novamente. 
   Corri para a lotérica, saquei o meu dinheirinho e paguei o aluguel. Parecia que eu havia emagrecido vinte quilos, a energia havia voltado e estava mais leve realmente. Fui para o centro, comprei minha ração, as peças para arrumar minha bike e, para celebrar fiz uma bela refeição, fazendo aquela montanha no self service. 
    E assim vou levando a vida, sem os medicamentos temos que nos policiar e nos conhecer bastante para não surtar novamente. É uma vida que pode ser um pouco perigosa, mas tenho a minha fé também que ajuda bastante nessas horas. Com os medicamentos provavelmente não iria me estressar tanto, mas também não teria forças e energia para resolver a situação. Não posso perder metade do dia dormindo no meu quarto, moro sozinho e tenho que resolver meus problemas. E é assim que me sinto bem, no meu cantinho, sendo eu mesmo e sem dever nada para ninguém, a não ser que o "sistema" falhe novamente.... 
    Abraços à todos e até a próxima postagem... 
 
 

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Paranoias diárias do dia a dia -3


 
  Antes de começar o relato sobre as minhas dificuldades no dia a dia, vamos tentar definir o que é paranoia. Pesquisando no google em sites que considero confiáveis, a melhor e mais abrangente definição sobre o assunto que encontrei foi no site Info Escola.
    "A paranoia, também denominada pensamento paranoico (ou paranoide), consiste em uma psicose caracterizada pelo desenvolvimento de um pensamento delirante crônico, lúcido e sistemático, provido de uma lógica interna própria, sem apresentar alucinações.
    Nesta patologia, o indivíduo desenvolve uma desconfiança ou suspeita exacerbada ou injustificada de que está sendo perseguido, acreditando que algo ruim está para acontecer ou que o perseguidor deseja lhe causar mal."
    Esses pensamentos são quase que incapacitantes, o que me leva as pessoas a terem uma vida pouco ou com quase nenhuma atividade social. Em um vídeo que gravei no youtube, cheguei a brincar, afirmando que as minhas camisinhas estão com o prazo de validade vencido... 
    Qualquer atividade que envolva gente se torna um tanto o quanto complicada, o que me leva a ter uma vida mais reclusa, e geralmente me leva a conseguir a contar quantas palavras foram proferidas pelos meus lábios carnudos durante o dia.  
   A citação sobre a boca carnuda é zoação, mas infelizmente sobre o número de palavras proferidas durante o dia não é.... 
    Falo pouco, sou monossilábico, a não ser quando estou jogando bola e tem aqueles caras fominhas que não tocam a bola de jeito nenhum. A gente corre, se desloca para receber a bola, mas os caras não tocam, só pensam em chutar a bola e marcar o gol e se gabarem. E depois ainda tenho que voltar para a defesa para evitar o gol, pois eles gastam a energia somente para atacar. 
    Mas, deixando a brincadeira de lado, convivo bem com meus pensamentos, então meu quartinho se torna um lugar agradável para o meu sossego e paz interior, que só é um pouco interrompido quando saio para o exterior do meu cantinho...
    Qualquer situação que envolva pessoas gera um certo stress, talvez por isso gosto tanto de percorrer os "Caminhos da estrada real", pelo interior da minha Minas Gerais. Me lembro que quase entrei em êxtase, ao ouvir o bater de asas de um pássaro em uma estradinha de terra....
   Abaixo algumas situações que mais me incomodam no momento, mas já foi pior um dia...
  
Na padaria...
Eu, na padaria... 

    Como bom mineiro que sou, uma visitinha a padaria era um dos melhores prazeres que tinha: pão de queijo, pastel de queijo, broa de queijo, biscoito de queijo,  rocambole, bolo de fubá e torta de chocolate era o que eu mais consumia. Ah, e tinha o doce de leite, também, com queijo, é claro...
    Era uma delícia ir na padaria e satisfazer um dos sete pecados capitais. Às vezes (muitas vezes para dizer a verdade), comprava mais do que conseguia comer, era o tal do olho maior do que a barriga. E então me empanturrava até não conseguir sair da cama. Ficava que nem um jacaré depois de comer um boi e esperando a digestão aliviar um pouco o estufado estômago...
    Ainda continuo indo a padaria, só deixarei de ir se o caso ficar grave mesmo. Mas é complicado. Quando peço algum quitute e a balconista pede para que eu pegue a fichinha antes, logo penso que ela esteja me confundindo com algum meliante e que eu vou sair correndo sem pagar. 
    - Tá pensando que eu sou ladrão? Trabalhei 17 anos como operador de som!!!- é o que me dá vontade de responder, mas procuro ficar sempre calado nessas situações. Só fico mais sossegado quando vejo a balconista fazendo o mesmo procedimento com outros clientes do estabelecimento. 


Supermercados e bancos... 

    Como não poderia deixar de ser, ir a bancos e supermercados também é uma tarefa que gera um certo stress, pois a realidade é que hoje em dia as pessoas ficam um pouco tensas quando mexem com dinheiro. Ou seja, fico tenso e a tensão das outas pessoas me deixa mais tenso ainda... 
    Logo quando chego a um estabelecimento e vejo o segurança falando no rádio de comunicação logo penso que estão falando:
    - Ele chegou...
    -  Você quer olhar os meus documentos? Tenho cara de assaltante de banco?- é o que dá vontade de responder, mas, também nessa situação prefiro ficar calado. 
    Penso que os seguranças estão imaginado que eu estou armado e que a qualquer momento vou sacá-la e fazer todo mundo refém. Quando o detector de metais apita mesmo deixando o celular e as chaves do lado de fora é que a situação fica complicada. Então levanto a camisa e mostro  a fivela do meu cinto sem cerimônia e aí sou logo liberado. 
    Fico chateado também quando vou no caixa para sacar um dinheiro e o segurança fica me olhando. Penso que ele pensa que eu esteja hackeando  o sistema operacional do caixa, que ouvi dizer que ainda é o velho e bom windows xp... Então, quando o equipamento solta o dinheiro, faço logo questão de contar as notas virado para o segurança, com um certo ar de vingança... 
    - Sou aposentado por que trabalhei honestamente e ininterruptamente 17 anos como operador de som!!!- É o que tento dizer com um certo olhar soberbo. 
    

Shows... 

    Ir à shows era uma atividade tão prazeirosa que, como já relatei, acabei virando um operador de som. Mas antes ia aos shows e conseguia ficar totalmente distraído, reparando apenas na banda que estava se apresentando no palco. Prestava atenção nos instrumentos, no guitarrista quando fazia o solo, se por acaso algum músico errasse alguma nota... O local poderia estar lotado, mas para mim era como se não tivesse ninguém ao meu lado, até que a última música fosse tocada pela banda. 
    Desde quando me aposentei, em 2005, acredito que fui apenas em dois shows. E não foi muito legal. Músculos tensos, a sensação de que todos estão deixando de prestar atenção na banda para ficarem olhando para mim. Sei que é um absurdo, afinal a pessoa gasta o seu dinheiro justamente para ver a banda ou o cantor. Por que iriam ficar olhando para um pacato cidadão? Nem sou bonito para ficarem olhando para mim. Quando alguém pega uma câmera aí é que a situação fica tensa, pois logo imagino que estão a me filmar...  Mas a verdade é que boa parte dessas pessoas que ficam filmando o show quase não curtem o espetáculo, para depois postarem nas redes sociais que estavam vendo o show de fulano ou ciclano. 
    E depois que comecei a escrever o blog ai que penso que o mundo inteiro sabe que tenho esquizofrenia. Até tirei a minha fotinha que ficava na página inicial. Os vídeos nem gosto muito de gravar e divulgar por aqui. O blog ajuda e atrapalha ao mesmo tempo. Me ajuda na questão de me tornar um ser humano melhor, de me sentir um pouco útil,  pois muitas pessoas relatam que ajudo de alguma maneira com os meus escritos. Mas atrapalha um pouco, ao imaginar que todos estão debochando da minha condição de uma pessoa com esquizofrenia. Mas hoje em dia o que as pessoas pensam ou falam de mim, sendo real ou não, pouco me importa, pois, como já relatei várias vezes, o fato de me preocupar com a opinião alheia foi um dos gatilhos da esquizofrenia. 

    Então não tem jeito. As paranoias diárias fazem parte da minha vida. Com remédios talvez possa não tê-las, mas também teria um sono quase que eterno, pois a prostração causada pelos antipsicóticos geralmente acabam por completo no meu caso por volta das 4 horas da tarde, e, como costuma dormir cedo, teria cerca de cinco horas por dia com alguma disposição para realizar alguma tarefa. 
    Esses pensamentos me perseguem, não adianta mudar de bairro, cidade, estado ou país. A solução é encontrar um bom ambiente para se morar, e onde as pessoas se respeitem. Um bom ambiente já é um bom  caminho para a estabilidade emocional e mental. Se afaste de pessoas negativas, entre em contato com a natureza, procure se elevar espiritualmente de acordo com suas crenças. Enfim, lute, batalhe para se tornar uma pessoa mais forte e não se abalar facilmente. 

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Paranoias diárias do dia a dia -1

   

    Estava fazendo o meu roteiro diário para almoçar no restaurante popular de Belo Horizonte, quando, ao passar próximo à uma "boca de fumo" ouvi alguém gritar:
    - "Tá normal, tá!".
    Esse é um aviso de que está tudo bem, de que não há presença de policiais ou homens da lei à paisana no local. Sempre passo por este lugar, não tem como fugir, a não ser que eu ande mais uns 500 metros, ao fazer o desvio passando pela rodoviária. Já são 1.1km para ir mais 1.1km para voltar, e com as condições em que está o meu "hálux rigidus" (=dedão do pé detonado) parece que andei mais de 50km pela estrada real. Sem chances...
    Sempre fico meio tenso nesse local, apesar de ser um pacato cidadão que procura estar sempre de acordo com a lei. Fico imaginando que os pequenos traficantes estejam com a certeza de que eu seja um policial à paisana e que assim que dobrar a esquina, irei dar o aviso pelo rádio para dar uma geral na galera.  Mas o contrário também acontece, quando os policiais estão fazendo uma busca no local, tenho a certeza quase absoluta de que os homens da lei estão pensando que eu esteja no local para pegar alguma droga. Ai faço questão de passar perto deles, para mostrar que não tenho nada a ver com a movimentação daquele local, só faltando pegar a minha identidade e mostrar para eles. Bem que poderia ser uma piada, mas infelizmente já perdi a conta de quantas vezes me deu vontade de mostrar a minha identidade para os policias, e dizer:
    - Trabalhei 17 anos como operador de som!...
    Mas dessa vez que o vigia da boca de fumo gritou "Tá normal, tá", fiquei um pouco preocupado. Geralmente eles dizem somente o "Tá normal". Notei que dessa vez o rapaz falou o 'Tá normal, Tá", frisando bem  o "tá" no finalzinho da frase. Não é paranoia minha não, deu para ouvir claramente.
Ai pensei: Seria um novo código secreto criado pelos meliantes, tipo para dizer que está "mais ou menos" normal? Que tem elemento suspeito na área?
    Confesso que já deu vontade de parar naquele lugar e dizer para os caras que não sou da polícia e que também não sou "caguete", pois de problemas a minha vida já está cheia e que não quero mais confusão para o meu lado. Mas só fiquei na vontade, não tenho  nenhuma noção de qual será a reação do pessoal daquele lugar.
    Não tem como sair desse tipo de pensamento. É a mania de perseguição que me persegue... Quando frequentei uma igreja, pensava que todos os outros membros estavam  afirmando que eu era dado às coisas do tinhoso. Se por acaso for no mineirão, para assistir o clássico do futebol mineiro "atlético x Cruzeiro", e ficar na torcida atleticana, tenho certeza de que ficarei cismado de que os atleticanos estarão pensando que eu sou cruzeirense, e o contrário também acredito que irá acontecer, mas não torço para nenhum time daqui de Minas, apesar de ter nascido na minha querida Beuzonte.
    Acredito que a maioria já deve saber que torço para o time mais querido do Brasil, que tem a maior torcida, o melhor time, o ônibus mais bonito, as cores mais bonitas. Mas não irei revelar o nome dese time para não haver discórdias aqui no blog... Brincadeira, não sou mais fanático só sou um, ops, já ia falar o nome do time, mas hoje sou um saudável torcedor do time mais querido do Brasil.
   -"Ah, mas se você tomar o remedinho tudo vai melhorar e esses pensamentos irão passar"... Já me disseram e ainda me dizem isso por ai. Mas o que eles nãos sabem é que não foi por falta de tentativa que parei com os antipsicóticos. Os pensamentos e delírios de perseguição podem passar, mas junto também passam a vontade de acordar, de levantar da cama, de tomar banho, de andar, enfim, de viver como qualquer cidadão normal. Este é um caminho que decidi trilhar, entre a loucura e  a razão, mas sempre do lado do bem e com a consciência tranquila, acima de tudo (só devo aos bancos mesmo, mas isso não faz pesar a minha consciência, não me lembro de ter atrasado um mês de aluguel nesses últimos 12 anos de minha vida de aposentado).
    Esse é o caminho que resolvi seguir, e não quero dizer que é o melhor, pode ser para mim, mas não para todos. Vou seguindo nos trilhos da vida, às vezes saio dele, mas confesso que a cada dia que passa me sinto uma pessoa normal, ao constatar que o jornal mais vendido é o que mais violência mostra, que o que dá audiência na tv é a desgraça alheia e os bbbs que vez ou outra tem seus integrantes envolvidos em caso de polícia...
 Não aconselho a ninguém que pare de tomar suas medicações, mas também posso sugerir que conversem com seus respectivos médicos caso não estejam sentindo bem com os medicamentos que estejam tomando. A minha loucura pode fazer mal, às vezes, mas somente para a minha pessoa. A partir do momento que eu esteja sentindo que eu esteja prejudicando alguém, serei o primeiro a procurar algum tipo de ajuda, mesmo que essa ajuda seja os detonadores antipsicóticos, que tiram a minha vontade de viver e de me emocionar.