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terça-feira, 26 de março de 2019

13° pedalanças- Cozinhando o galo em São Mateus


 
    Esses dias parados em São Mateus estão sendo muito mais do que monótonos. Nada para se fazer além de ter que esperar o tempo passar para poder sacar o meu pagamento. Até que fiquei bem conhecido na cidade, por causa da extravante bike e suas mochilas. É um visual que desperta a curiosidade nas pessoas, que sempre perguntam de onde vim e para onde vão. Alguns ficam admirados e começam a conversar comigo. Uma minoria me olha com ar de reprovação, como se estivessem dizendo para eu ir trabalhar ao invés de viajar de bicicleta. 
     Ontem a grana havia acabado. De noite comi os biscoitos de maizena com bastante água até ficar empazinado. A noite foi tranquila no posto, só o calor infernal que atrapalhou um pouco o meu sono. O estranho é que de dia bate um agradável vento no lugar onde monto a barraca no posto de gasolina, dando a impressão que tem um ventilador gigante ligado. Mas de noite não sei por que, parece que alguém tira esse tal ventilador da tomada.... 
    De manhã fui na casa paroquial e a recepcionista gentilmente me deu um sabonete e um sabão para lavar roupas. Nesse calor infernal da cidade estou suando à toa e preciso lavar as roupas com maior frequência. Por falar em calor, ele só aumenta na região, nada de uma chuvinha para dar uma refrescância nesse verão
    Estava pensando em ir para Itaúna curtir uma praia, mas como é mais para o nordeste tenho receio de que o calor aumente ainda mais. Então amanhã irei para Linhares, à procura de temperaturas mais amenas. Não sei se já relatei, mas o calor de 37°C de São Mateus é muito mais forte do que os 45°C de Mantena. Talvez seja a tal da sensação térmica. 
    Irei para Linhares não pela Br e sim pela estrada de terra, que parece ter um lindo visual, passando pelas comunidades de Barra Seca e Barra Nova. 
   Já estava me preparando psicologicamente para começar a pedir ajuda para o meu almoço. Mas,  por volta das onze horas, meio sem esperanças,  consulto o meu saldo, e, para minha alegria algum leitor do blog ou da página contribuiu com 50 reais!
    Que alívio, até que com algum esforço consigo pedir alguma ajuda na viagem quando preciso, mas em São Mateus sinto que boa parte dos moradores da cidade não são muito receptivos aos turistas de baixa renda. Mas o saldo positivo da minha conta me deu a sensação de ter tirado uns cem quilos das minhas costas... 
    Dessa vez foi por pouco, vou tentar economizar mais para sobrar grana para uma eventual manutenção na bike. 

segunda-feira, 25 de março de 2019

Pedalanças 12° dia-Cozinhando o galo em São Mateus

este casal de ciclistas estava no Rio de Janeiro e com destino à São Luiz-MA

    Ontem dormi no posto onde consegui lavar as roupas na parte da manhã. Encontrei um casal que também está viajando de bike. Eles estavam no Rio de Janeiro e indo para São Luiz, no Maranhão. Já estiveram no Chile. Isso  me fez sentir uma pessoa mais normal Já viajaram para vários estados.
    A madrugada foi tensa, não dormi nada. Dois cachaceiros não paravam de falar até as três da madrugada.
Acordei meio detonado e aproveitei para trocar um raio da bike que havia quebrado. A bike está surpreendente andando bem nesta viagem, só tem tido este misterioso problema que faz algumr raio da roda traseira quebrar com certa frequência. A grana está acabando e tentei pedir um rango no restaurante do posto de gasolina, mas em vão. O jeito foi comprar um marmitex. Amanhã a grana vai acabar.
     Compro um pacote de biscoito de maisena na volta que fiz pela cidade. Esse biscoito se comermos muito tira a fome. E enchi a barrida de água. Nada em vista para se fazer e tentar ganhar um dinheiro. Algo para carregar ou descarregar. Volto mais cedo para o posto pois é um local bem seguro para se dormir. Armar a barraca na beira de BR nem pensar.
     Às vezes dá saudade do conforto do quartinho, poder tomar banho duas vezes por dia. Mas aquela monotonia em que estava vivendo estava me matando. Ter todos os dias quase que exatamente iguais aos outros não é uma boa pedida para mim.
   O calor em São Mateus está me deixando muito desanimado. Estava pensando em ir em direção ao litoral sul da Bahia, mas acho que vou descer o litoral do Espírito Santo para buscar temperaturas mais amenas.  A minha intenção inicial era voltar de ônibus depois de curtir o litoral capixaba, mas gostei tanto de pedalar por aí que retornarei de bike, por um outro caminho que vocês irão saber na medida do possível, pois as lan houses estão ficando cada vez mais escassas.

sexta-feira, 22 de março de 2019

11° dia pedalanças-Sobrevivendo em São Mateus

     Dia complicado em São Mateus
igreja me nega a me dar um pouco de água... 
 Se o penúltimo dia da viagem foi maravilhoso, com direito à cafezinho com bolo de manhã e sorvete na hora do almoço, a noite ontem foi complicada em São Mateus. O vigia do ginásio não autorizou-me a tomar banho. Quando fui tomar um lanche na padaria uma senhora ficou olhando com ar de reprovação a minha bike encostada no passeio. Mas claro que nem liguei e comi o meu pedaço de bolo de laranja que estava uma delícia. Essa senhora aparentava ter boa condição financeira, mas também parecia se sentir infeliz, pelo menos era o que a sua fisionomia demonstrava... Eu, com a minha bike usada e cansado de tanto viajar parecia estar mais feliz e bem disposto. 
   Mas o pior de tudo estava por vir.   O mais incrível é que me negaram água. Isso mesmo. E, por mais incrível que pareça, foi na igreja batista da cidade. Claro que não tenho nada contra os evangélicos, mas estou apenas citando os acontecimentos da viagem, que, em sua maioria, foram muito bons. A alegação da pessoa que estava na porta da igreja é que a água era somente para os membros. Oras, se eu estiver na estrada e uma pessoa me pedir água, não hesitarei em dividir a minha garrafinha. Que belo exemplo cristão que essa igreja deu... Depois veio a pastora insistindo para que eu pegasse a água, tentando desfazer a falta de educação do porteiro.
     Demorei um pouco para assimilar o acontecido, e a entender também. 
    Dormi ao lado do velório municipal. Não montei a barraca, por causa do calor e também com um certo receio do pessoal da cidade não gostar e chamar a polícia. Pela primeira vez na viagem tive a sensação de que os moradores de uma cidade pudessem ter esse tipo de comportamento comigo. 
    De manhã, ao acordar, levei um susto! A minha mochila menor havia sido mexida. Por sorte o dinheiro, os documentos e as coisas mais importantes estavam bem guardadas na mochila maior. Provavelmente foi um morador de rua que passou perto de onde eu dormi por várias vezes. Acho que quando ele sentiu que eu havia pegado no sono ele tentou pegar a mochila, que estava amarrada no quadro da bicicleta.
     Almocei em um restaurante perto do mercado, bem no centro da cidade. 
     De tarde fui para um posto de gasolina, situado na BR 101,  para tomar um bom banho e lavar minhas roupas. Tive que pagar 5 reais pela ducha. E fiquei um bom tempo lavando minhas roupas, por sorte não apareceu nenhum funcionário do posto para atrapalhar. 
    Depois do banho fico sabendo que, por causa do feriado de carnaval o pagamento será apenas no dia 8 de março. A grana está acabando e tenho que me virar nesta cidade que é um pouco hostil para com os turistas de baixa renda. Até que penso em fazer algum bico, mas acho difícil conseguir algo para se fazer em um lugar onde até a água foi negada. Tenho que encontrar algum lugar mais seguro também para montar minha barraca. Dormir no centro é muito perigoso, muitos moradores de rua, que ficaram me encarando quando me viram na parte da manhã. 
    Acho que até ouvi um dos deles dizer:
    - Essa noite a gente toma dele....
    Não sei se foi uma alucinação auditiva ou não, mas não irei dormir no centro para saber. 

terça-feira, 19 de março de 2019

10º dia- Pedalanças-Belo Horizonte-MG-São Mateus-ES

Nova Venécia - São Mateus

    Passei boa parte da noite anterior assistindo jogo no ginásio coberto da cidade. Este tem sido o meu programa noturno nas cidades em que monto a minha barraca. Afinal, tenho que descansar para a pedalança do dia seguinte. E é o meu jeito mesmo, de ficar mais no meu canto, não sou muito de sair por aí nas cidades. Confesso que a mania de perseguição quando estou dentro das cidades aumenta consideravelmente. 
    Após o banho, com alguma dificuldade consigo achar um posto de gasolina que me deixe passar a noite. Posto de gasolina em Br sempre deixa a gente dormir, já posto que fica dentro da cidade nem sempre ajuda nesta questão. 
    Acordo por volta das cinco e meia da manhã, o sol que tem feito nesse horário na região é como se fosse o sol das nove da manhã em Belo Horizonte. Não dormi muito bem, acho que foi por que a bicicleta ficou amarrada em uma árvore e não presa com um cadeado como sempre faço. Não encontrei uma barra de ferro ou grade para prendê-la. 
    Mas depois do café crio um ânimo extra e consigo pedalar em um bom ritmo. Por sorte essa reta final é feita em boa parte em terreno plano, segundo informações de alguns ciclistas que encontro pelo caminho. 
    Como é domingo, encontro várias pessoas pedalando em suas bikes, a maioria novas e com aro 29. 
    Serão 76km até a cidade de São Mateus e procuro andar o mais rápido possível, pois o calor já está forte na manhã, o que é uma quase certeza de que na parte da tarde o sol estará de rachar a cuca. 

    Paro em uma casinha simples para beber água, e a dona me oferece um saboroso cafezinho e um bolo que estava uma delícia. E, claro, que trocamos um dedo de prosa. As pessoas mais simples sempre são mais atenciosas e prestativas nesse tipo de viagem. Esse contato com os moradores das cidades é uma enorme injeção de ânimo para prosseguir o caminho. 
as pessoas mais humildes são mais atenciosas com os viajantes

     Apesar do calor, consigo manter o bom ritmo das últimas caminhadas. Consigo pedalar 43 km em três horas e meia. Por volta das onze horas paro em uma pequena cidade para descansar e aproveitar para almoçar. Não quero repetir o erro do dia anterior de ter pedalado sem me informar sobre o trajeto e ir almoçar depois das duas horas da tarde. 
    Descanso em um posto de gasolina e almoço por volta do meio dia. O sol está de rachar e o jeito é esperar mais um pouquinho para cair na estrada novamente. Hoje está sendo meu dia de sorte, depois do delicioso bolo com cafezinho na parte da manhã, o funcionário da sorveteria ao me ver descansando me traz um delicioso sorvete de pêssego. Era um sorvete caseiro, com leite mesmo, muito melhor e mais gostoso do que o da kibon. 
retas muito longas entediam um pouco... 
    Não sei se foi o gosto ou o efeito do açúcar no sangue, mas fico mais animado e decido partir para as pedalanças. São duas horas da tarde e o sol deu uma pequena amenizada na quentura. 
     Encho minhas garrafinhas de água e tenho que tomá-las em menos de vinte minutos, pois depois disso acabam ficando quentes demais para o consumo. Por sorte esse trecho do caminho tem muitas casas para abastecer de água as garrafinhas. 
    Vou seguindo sem pressa, já não tenho aquela disposição para pedalar como nos primeiros dias. Os moradores da região estão dizendo que a temperatura está na faixa dos 37ºC, mas a sensação térmica é de quase 50°C, pois estou sentindo bem mais calor nessa região do que quando estava sob o s 45°C da cidade de Mantena. 
    Por volta das cinco da tarde, mantendo o ritmo, consigo finalmente chegar em São Mateus. Não fico eufórico por ter conseguido chegar ao destino final. Aprendi nas minhas andanças que o grande barato do caminho é o próprio caminho, e não o final. 
    Mas fico feliz por ter conseguido completar com sucesso mais este desafio. Foram dez dias, 780km sem acidentes e sem problemas mais sérios. Fico feliz por estar com saúde física e mental(mais ou menos né?). No ano de 2001 tive uma experiência de quase morte,devido aos surtos psicóticos que tive. Hoje em dia, qualquer trajeto que faça de bicicleta é motivo de comemorar.
Fico feliz  mais ainda por estar em paz comigo mesmo e por estar com a consciência tranquila. Seria ótimo se tivesse grana para viajar de ônibus, pagar um hotel, mas ter saúde e disposição para enfrentar uma viagem como essas não tem preço. 
chegada em São Mateus

sábado, 16 de março de 2019

9° dia pedalanças-Belo Horizonte-MG à São Mateus-ES

Mantena MG-Nova Venécia-ES


     Consigo acordar bem cedo e às sete horas, como de costume estou nas pedalanças rumo à cidade de Vila do Pavão. 
    O caminho tem poucas serras, estou 2kg mais magro e pedalanado em um bom ritmo para minha idade, e para a bike que estou usando. Acho que estou caminhando 10km em 50 minutos. 
     Por causa dessa confiança deixo um pouco de lado a preocupação com o almoço e deixei também de encher as garrafinhas de água, apesar do forte calor que está fazendo na região. Acho que no asfalto a sensação térmica deve chegar na casa dos 48°C.
    Por volta de uma hora da tarde começo a ficar exausto, sem forças para pedalar. Deveria ter almoçado por volta do meio dia, quando havia visto um restaurante pelo caminho. Vou indo em frente e nada de conseguir lugar para almoçar, apenas pequenos distritos. Estava quase no limite, e também com muita sede. As casas também estavam ficando cada vez mais raras.

    Com muito esforço consigo chegar em Vila do Pavão, por volta das duas horas da tarde. Entro exausto no restaurante, como aqueles maratonistas no fim de uma longa prova.
      A comida do restaurante estava ótima, um pouco acima do meu orçamento diário, mas não tinha condições de tentar procurar outro lugar. Além de cansado, estava com muita fome. O prato pesou cerca de 800kg.... 
    Na saída como sempre converso com as funcionárias do estabelecimento, que pensavam que eu estava viajando por motivos religiosos. Procuro uma sombra para descansar e tentar recuperar minhas energias. Apesar de não me sentir 100% fisicamente, decido caminhar mais uns 30km, até Nova Venécia, apesar do sol estar rachando.

    Teimosia minha, o caminho tem algumas serras e retas entediantes, que cansam a gente só de olhar. Chego bem detonado em Nova Venécia.  Hoje pedalei cerca de 100km, coisa que não pretendo fazer novamente nesta viagem com esta forte calor. 
    Procuro o ginásio coberto da cidade e combino o esquema do banho com o vigia. Ele liberou o banho, mas só depois que o ginásio fechasse suas portas, por volta das nove horas da noite.
 Sento na grama da praça para escrever o diário do blog. Em poucos segundos sinto um monte de formigas picando a minha poupança sem piedade.. A praça está lotada de pessoas andando de bike, patins, e outras apenas sentadas no banco conversando. Com a maior discrição começo a coçar a bunda e tentar espantar as formigas sem chamar muito a atenção, fazendo o maior esforço para manter a aparência de que não está acontecendo nada de anormal.


sexta-feira, 15 de março de 2019

8° dia pedalanças-Belo Horizonte-MG à São Mateus-MG


Central de Minas-Mantena
igreja de uma cidade próxima à Mantena
     Em Central de Minas também não encontro lan house, o que está sendo o grande perrengue desta viagem. A grana está acabando por causa das despesas extras com a manutenção da bike, que agora está andando muito bem, superando minhas expectativas. E eu até que estou indo bem também. 
    Peguei algumas caixas de papelão para dormir no ginásio coberto da cidade ontem. O vigia foi super gente boa comigo e arrumou um bom lugar para montar a barraca. 
    Fico boa parte da noite assistindo os jogos na quadra. Alguns caras que estavam jogando começaram a dar umas indiretas para mim, falando sobre trabalho, que levo vida boa, etc...
    Um senhor foi até mais direto e grosso, falando que sou um vagabundo, de forma indireta, é, claro. Não sei o que causa tanta indignação, afinal me aposentei por um justo motivo, se estou vivo até hoje é por sorte ou por força maior. 
      Mas é claro que não ligo para essas provocações, se eles querem ofender quem está em paz, o problema está  com eles e não comigo. E então contínuo no meu cantinho, de boa, até o sono aparecer e deitar na minha humilde residência. 
    Custei a pegar no sono, por causa do forte calor. Mas foi uma noite tranquila e sem perrengues. De manhã o tradicional pãozinho com manteiga com cafezinho, e troco um dedo de prosa com os funcionários da padaria.
     Estou acordando com muito bom humor nesses dias, e é sempre bom começar o dia rindo. Andar o dia inteiro de bike parece que está diminuindo a ansiedade e o stress que vinha acumulando nos últimos dias em Belo Horizonte. É  o tédio... 
    O sol das sete horas da manhã nesta região parece o sol das nove horas da capital mineira. Talvez por isso tenho conseguido acordar tão cedo nesta viagem. 

estrada boa para Mantena

     O caminho para Mantena é agradável, apesar do calor. Estrada boa, não tem acostamento mas também não tem carretas. E sem subidas muito fortes. 
     Às 11:40 chego em Mantena, e finalmente consigo achar uma lan house para atualizar minhas pedalanças. Depois pego um rango e passo boa parte da tarde na pracinha, debaixo de uma árvore chupando picolé por causa do calor, que era de 44°C. 

    Na cidade, vários carros de propaganda estão rodando propaganda anunciando a estreia do circo do "Bananinha", um cara que trabalhou no SBT no programa A praça é nossa. 
    Mantena é uma cidade plana, e por causa disso a bicicleta é um meio de transporte bastante utilizado. Por volta das cinco da tarde começo a preparar o esquema para dormir. Combino com o vigia do ginásio o banho e com o dono do posto de gasolina o local para montar a barraca. Estas pedalanças estão conseguindo me tornar uma pessoa um pouco mais comunicativa. Acho que no dia a dia não falo nem 25% do que estou falando nesta viagem. 
    Fico até às dez da noite vendo a galera bater uma bola no ginásio e acabo conhecendo muitos caras legais. Me chamam até para jogar, mas não aceitei o convite, pois estou um pouco descadeirado, afinal são oito dias andando de bike... 
    
Mantena

quarta-feira, 13 de março de 2019

7° dia pedalanças-Belo Horizonte-MG à São Mateus-ES

São Vítor-Divino das Laranjeiras-Central de Minas

    São Vítor é um distrito muito pequeno, não tem um supermercado grande, o pouco de papelão que encontrei para forrar o piso da barraca estava molhado. Sem papelão tenho que usar apenas o colchonete e a manta, o que fica um pouco duro para tirar uma boa soneca. Dormi em frente a um restaurante na beira da estrada, deu para prender a bike na porta de ferro do estabelecimento. Mas dormi bem mal, por causa do barulho das carretas que passavam na BR. Mas não tive maiores problemas e ninguém mexeu comigo esta noite. 
     Estava bem cansado na parte da manhã, fiz alguns alongamentos para me preparar para chegar à cidade de Mantena, distante 108km. Já havia andado em um dia 100km nesta viagem, Também estava querendo muito encontrar alguma lan house pelo caminho, a fim de atualizar o diário  aqui no blog. 
    De manhã, como sempre é aquele clima ameno, aquele frescor  que nos anima e já estou pedalando em um bom ritmo. Fico de bom humor e até resolvo cantarolar, já que não tem ninguém por perto para ouvir tamanha desafinação. 
     Chego em Divino das Laranjeiras às nove e meia, a bike com pneu liso na traseira parece andar bem mais do que com pneu para mountain bike. A única lan house que encontrei na cidade estava fechada. Já estava partindo para Central de Minas quando um cara me parou na rua e começou a conversar comigo. Ele me disse que perto de onde estávamos havia uma cachoeira boa demais. O sol estava de rachar e não tive dúvidas para me refrescar, afinal pressa é algo que não tenho nesta viagem. 
    E, além de tudo estava muito cansado e estressado. Há muito tempo não curtia uma cachoeira ou uma praia. O local é bem próximo ao centro, mas não é sinalizado, e tive alguma dificuldade de encontrá-lo, pois tive que atravessar um matagal. Não é bem uma cachoeira, é uma mini cachoeira, mas o local é bem agradável. O calor está tão forte que a água está morna, o que foi uma delícia. 
    Fiquei um bom tempo naquele lugar, deixando de lado a ideia de andar 100km para chegar em Mantena naquele mesmo dia. ]
lugar bacana para se refrescar em Divino das Laranjeiras

     Depois do almoço, uma surpresa que me deixou um pouco estarrecido. O termômetro da pracinha da igreja estava marcando 45°C!!! Era o local mais quente que estive em minha vida. Na verdade não era o mais quente, e sim o com maior temperatura. Já estive em locais com a sensação de quentura bem maior.

        Fiquei um bom tempo sentado na praça, tomando picolé e tomando coragem de pegar estrada em uma temperatura tão alta assim. Mas não adiantava, o tempo passava e a temperatura continuava na faixa dos 45°C. 
    O jeito foi pegar a bike e pedalar, Para piorar, tive que pegar duas serras bem complicadas pelo caminho. A água das garrafinhas esquentava rapidamente, por sorte havia várias casas próximas umas das outras pelo caminho e muitas vezes tive que trocar a água por uma mais gelada. 
    Apesar do calor, consigo imprimir um bom ritmo e às cinco e meia chego em Central de Minas. Uma cidade simpática, que tem até WIFI na pracinha central.
    Esse trecho do caminho tem várias pequenas cidades bem próximas umas das outras. Hoje pedalei cerca de 60km. A minha média deve estar sendo de 70km, o que não é nada mau para um cara de 50 anos em uma bike não tão boa assim 

Central de Minas
    A cidade tem WIFI mas o meu celular estragou na viagem. Tento em vão encontrar uma lanhouse.
É a minha primeira cicloviagem, está servindo como experiência para as futuras pedalanças. Tenho que melhorar o acondicionamento das minhas roupas e todos os objetos que carrego na bike.
Sem celular,  o jeito foi tomar um lanche e procurar algum lugar para dormir.
    Depois de uma breve volta encontro o plano B, que é ginásio coberto. O vigia é gente boa e até me deixa tomar banho em uma ducha que fica no campo de futebol gramado. Espero escurecer um pouco para tomar um bom banho mais à vontade.

segunda-feira, 11 de março de 2019

6° dia pedalanças-Belo Horizonte-MG à São Mateus-ES

Gonzaga-Governador Valadares-São Vitor

    A noite naquele lugar maravilhoso em Gonzaga foi excelente. Dormi muito bem ao som relaxante da cachoeira.
    Acordo super bem, tomo meu café da manhã  e pego a estrada. O calor já estava forte logo cedo e de repente uma surpresa nada agradável: o pneu da bike fura pela primeira vez nesta viagem.
    O lugar não era muito legal para um pneu ser furado. Não havia acostamento e com muito mato em volta. Por sorte não havia muito trânsito naquela estrada. Pego minhas ferramentas dentro da mochila, o que me dá um trabalho danado. Aliás, está sendo mais complicado pegar as ferramentas do que propriamente trocar a câmera da bike. Na próxima viagem tenho que bolar algo para deixar as ferramentas em um local mais acessível. Deu uma canseira, mas consegui trocar a câmera e voltar para a estrada. Mas, para o meu desespero,  em menos de dez minutos o pneu não fura, desta vez ele estourou, para o meu desespero. 
     Estava usando fita antifuro no pneu, e fiquei encucado como poderia furar duas vezes em um período tão curto de tempo. O jeito foi colocar a segunda e última câmera reserva. Já estava enchendo novamente o pneu e novamente um estouro! Desta vez deu para ver onde estava o furo. Na verdade não era um furo, o pneu estava rasgado na lateral. Foi aí que percebi que o freio estava mal posicionado e estava encostando no pneu traseiro quando freava. 
pneu detonado e as câmeras também. 

    O jeito era pegar uma carona, o que era algo um pouco difícil para mim .Não sou uma pessoa comunicativa e é muito ruim ficar levando negativa dos motoristas.Mas em menos de vinte minutos um caminhoneiro parou e me ofereceu uma carona até a cidade de Governador Valadares, no leste de Minas Gerais. 
    A carreta do cara, que era do Espírito Santo, tinha ar condicionado e era bem moderna. Ele passava as marchas apertando alguns botões do painel. 
    Por volta do meio dia chegamos em Valadares. Muito calor, nada daquele frescor do interior de Minas Gerais. Consigo empurrar a bike até uma oficina próxima e o cara me atendeu super bem. Me vendeu um pneu e duas câmeras por um preço bem bacana .E de quebra me deu um par de freios e cabos. Ficamos um bom tempo conversando. Aquela solidariedade me deu forças para continuar em um dia que não havia começado bem. 
arrumando a bike 

    Sigo viagem e agora tudo mudou: muitas carretas e muito calor. Vou para o distrito de São Vítor, distante 35km de Valadares. As carretas passam bem perto de mim, a estrada não tem acostamento. O jeito é tomar muito cuidado para não levar sustos e ser pego por uma carreta dessas. 
    O calor está quase insuportável, é comum essas temperaturas no leste de Minas Gerais. Já trabalhei em Ipatinga por vários anos. E quando me aposentei morei oito anos nesta cidade. 
     Já estava chegando em São Vítor quando o céu escureceu e caiu uma tempestade que derrubou várias árvores e placas. Por sorte havia encontrado um posto de gasolina antes dela ter me pegado. 
        A chuva deve ter durado cerca de uma hora e meia. Muito forte, não iria conseguir enxergar nada pelo caminho, sem contar o perigo dos raios constantes. Mas foi uma tempestade de verão e o céu novamente ficou limpinho. Depois segui o caminho até São Vítor, sentindo aquele cheirinho de mato molhado... 
muito chão pela frente... 

sexta-feira, 8 de março de 2019

5° dia pedalanças - Guanhães-Virginópolis-Gonzaga

19/02/2019
Guanhães-Virginópolis-Gonzaga

    A noite no ginásio coberto foi ótima. Choveu um pouco de madrugada, deixando a temperatura muito agradável.  E certeza de dormir em um local seguro ajuda bastante a relaxar a musculatura e a pegar no sono. 
    Já de manhã o céu já estava limpo e a temperatura ótima para se pedalar. Desmontei a barraca antes do vigia chegar e depois do café parto para Virginópolis, distante 25km. 
    A estrada está ótima, e a viagem se torna agradável, sem nenhuma sofrência. Em menos de 3 horas chego em Virginópolis.
estrada boa para Virginópolis
    Finalmente encontro uma lan house, que é lenta e cara para variar. O rango em Virginópolis também é caro: 14 reais o mais barato. 
     Depois do almoço parto para Gonzaga, mas 35km de pedal. Desisto de ficar querendo pedalar 100km por dia. Afinal não estou apostando corrida com ninguém. E pressa não é muito aconselhável neste tipo de viagem. Até que faz bem pro ego sair por aí dizendo que consegui pedalar tal distância com uma bike que não é das top, mas aprendi no caminho da estrada real que o barato do caminho é o próprio caminho e não o destino final, ou seja, o cumprimento de uma meta.
Do you remember?
    Chego em Gonzaga por volta das três e meia da tarde. Vou direto para a pracinha principal e descanso debaixo de uma árvore, o calor está um pouco forte. Em vinte minutos a primeira abordagem policial dessas pedalanças, com as mesmas perguntas de praxe:
    -Você é de onde?
    - Para onde vai? 
    Os guardas até que foram educados comigo, não tenho nada do que reclamar. Depois que viram que estava tudo certo, começamos até a conversar sobre o caminho. 
     Provavelmente alguém me denunciou, como se eu estivesse fazendo algo de errado. Tenho quase a certeza de que foi uma mulher que estava me observando da janela de um prédio. Mas encaro isso com naturalidade. O mineiro é um pouco desconfiado, mas é um povo acolhedor. 
     Os policiais sugeriram que eu dormisse em um lugar chamado "cachoeirinha". Não tinha a mínima ideia de como seria esse local. Eles apenas me indicaram o caminho. Então tomei um lanche, comprei uns biscoitos e fui para o tal lugar. Quando cheguei nem acreditei no que vi: O lugar parecia um paraíso! Tinha uma cachoeira linda, com muito verde e um astral bacana. 
    Fiquei ali a tarde toda descansando e respirando aquele ar geladinho. De noite tomei um bom banho e lavei minhas roupas e fingindo que aquele lugar era todo meu.
fico em um lugar super bacana e de astral legal 

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

4º dia pedalanças Belo Horizonte São Mateus-ES

Nossa Senhora do Porto - Guanhães 25km
    Ontem tive uma razoável noite de sono no clube desativado de Nossa Senhora do Porto, pois às vezes passava alguém  mas não foi importunado. O local ficava muito escuro de noite, mas foi uma noite tranquila, como foram todas até hoje nessa primeira fase de minhas pedalanças 2019. 
    Acordei com o nascer do sol, o celular quase não estou usando pois, além de gastar muita bateria pode estragar também com essa viagem meio maluca. De madrugada choveu bastante o que deixou o céu bem limpo na parte da manhã, renovando minhas energias para mais um dia de pedal. Mas antes aproveitei a queda d'água do clube para tomar um bom banho e lavar minhas roupas. Tinha acordado um pouco detonado, mas uma água geladinha é muito bom para despertar. 
    Além do sol, tive outra boa notícia pela manhã: a estrada para Guanhães era de asfalto e muito boa!
estrada para Guanhães muito boa e bonita
    Mas antes de chegar na estrada tive que subir as escadas do clube com a bike. E sem ter tomado café da manhã...  Foi difícil, mas não tem muito o que escolhermos neste tipo de viagem com parcos recursos financeiros. Acredito que conseguiria andar bem mais quilômetros se dormisse em hotéis. Mas faz parte da aventura todos esses perrengues.
Tomei um bom café da manhã na única padaria que encontrei no lugar. Também poucas pessoas encontrei pelas ruas. Pensei de que viviam os moradores daquele distrito. 
    Apesar da estrada não ter acostamento consigo andar em um bom ritmo. Estou pedalando com muito cuidado e até o momento não tive problemas em relação ao trânsito. Os motoristas tanto de carros como de caminhões foram muito educados até o dia de hoje. Vejo várias cruzes pelo caminho, em homenagem aos motoristas que morreram nas estradas. Mas não quero fazer parte desta estatística, andando em velocidade média e com muita concentração. 

a estrada para Guanhães é muito boa.
     Chego em Guanhães por volta das dez horas da manhã. Minha média está sendo de cerca de 11km por hora. Não tenho pressa de chegar, não estou apostando corrida. Se bem que na descida é muito bom imprimir uma certa velocidade e sentir o vento bater em nosso rosto.
    Na cidade tive a sorte de encontrar uma boa oficina de bike e o mecânico, além de fazer um preço super bacana, deixou a bike tinindo, com freios, marchas e rodas funcionando super bem. O eixo tinha ficado detonado com a buraqueira da viagem do dia anterior. 

Guanhães
    Achei um rango super gostoso e por um preço bacana por dez reais. Depois fiquei perambulando pela cidade, algumas pessoas paravam para conversar comigo, quando viam a bike com as mochilas na garupa. 
     Encontrei uma lan house para matar a saudade das redes sociais e atualizar as pedalanças aqui no blog. Na próxima viagem irei comprar um notebook baratinho, pois as lan houses estão ficando escassas. Hoje os tempos mudaram e boa parte das lojas, postos e lanchonetes tem WIFI grátis.
     Decidi que a parte da tarde seria para o meu descanso e então fiquei em Guanhães. A estrada de Dom Joaquim para Nossa Senhora do Porto havia me detonado por completo. De noite fui para o ginásio coberto da cidade para tomar um bom banho e montar a minha barraca. Passei boa parte da noite assistindo os jogos de vôlei que é um esporte bastante praticado na região.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

3º dia pedalanças-Belo Horizonte São Mateus-ES

Conceição do Mato Dentro-Dom Joaquim-Nossa Senhora do Porto  60km
    O resto da tarde anterior em Conceição do Mato Dentro passei descansando na pracinha central e deixando a roupa lavada secar na grama do canteiro do jardim. 
    Queria dormir no coreto da praça, mas o lugar é um pouco movimentado. É legal dormir em um coreto. Dá uma certa sensação de segurança. Dormi em vários na minha andança pela estrada real. Mas agora são as pedalanças, e também tenho que cuidar de deixar a bike presa na corrente. 
    Dei umas voltas pela cidade e acabei encontrando um posto de gasolina, onde consegui também tomar um bom banho, que lavou até a minha alma e me fez sentir um pouco mais leve. 
    Por volta das dez horas da noite montei a minha humilde residência a fim de descansar minhas canelas para o dia seguinte. Não sou um cara muito de hábitos noturnos e logo peguei no sono. 
    A noite foi tranquila até por volta das quatro horas da madrugada, quando chegou um cara chato buzinando sem parar, pensando que o posto ficasse aberto 24 horas por dia. 
     O cara era bem insistente e quando percebeu que não havia ninguém começou a me chamar:
    - Ô do a barraca!....
     Claro que não atendi e continuei a fingir que estava dormindo. Depois de muita insistência o cara finalmente resolveu encostar o carro e esperar o posto abrir. Parecia que ele estava apertado e querendo ir no banheiro ocupado.... 
    Por volta das cinco e meia já estava acordado, por causa da claridade que se fazia no local, pois o horário de verão já havia acabado finalmente. 
    Após o café segui para a cidade de Dom Joaquim, distante 25km de CMD. 
    A estrada estava muito boa, quase sem carros pela frente. Foi uma delicia ter aquele caminho só parar mim. Descer na velocidade máxima que a bike conseguia imprimir me dava uma sensação de liberdade que há muito tempo não sentia. O céu estava nublado e por volta das dez horas da manhã já estava em São Joaquim. Era domingo e quase não se via pessoas pelas ruas daquele lugar, a não ser na praça central, onde fica a igreja matriz. 
    Por sorte encontrei uma tomada que estava energizada no coreto da praça. Claro que aproveitei para carregar o celular, a câmera e a lanterninha. Nunca me passou pela cabeça ter um celular bom para essas viagens, com certeza iria estragar nos primeiros dias. 
    Onze horas já estava almoçando no único restaurante daquele lugar. Me assustei com a quantidade de pessoas que estavam almoçando, pois não havia visto tanta gente andando pela cidade. 
     Sempre quando paro em algum lugar as pessoas me perguntam de onde venho e para onde vou. Quando respondo que sou de BH e que vou para o Espírito Santo as pessoas sempre demonstram muita surpresa. 
    - Você está pagando promessa?- um deles me perguntou. 
    Outros não falavam nada, apenas ficavam olhando para o alto admirados e surpresos. 
 
A pequena e pacata Dom Joaquim
    Depois do almoço começou a chuviscar, mas nem pensei em esperar o tempo melhorar. Depois da torrencial chuva que enfrentei na Serra do Cipó já estava me sentindo um ser meio que aquático, e não seria qualquer chuvinha que iria me parar no caminho. 
    Mas, na saída da cidade, uma surpresa nada agradável: a estrada para Nossa Senhora do Porto era de terra!!!
    Chuva e estrada de terra é a pior combinação possível em uma viagem maluca como essa. E era uma péssima estrada de terra: buracos, pedras e a famosa costeleta que faz a bike e o nosso esqueleto trepidarem até não aguentarmos mais. O caminho todo não tinha refresco, ou você escolhia os buracos, a lama ou a costeleta. Com o tempo o chuvisco acabou virando uma forte chuva e encontrei duas "lagoas" pelo caminho. 
    Era arriscado demais passar com a bike nessas lagoas. O jeito foi tirar o chinelo e andar no lago para dar uma examinada e ver por onde passar. Se escorregar poderia perder os documentos, o dinheiro e os cartões do banco. Ou seja, merda total logo no terceiro dia de viagem. 
     Por alguns momentos penso em desistir, é muita sofrência para um dia só essa estrada, pois a bike não é preparada para esse tipo de terreno. Se soubesse teria escolhido passar pela cidade do Serro, o que aumentaria em mais 40km o percurso, mas não teria que passar esse perrengue todo. 
    Mas de antemão já sabia que o caminho teria perrengues e missão dada é missão cumprida pelo esquizo.
    Depois da lagoa vi pelo segundo dia seguido um carro sport tipo jeep. O engraçado é que ele passou quase no mesmo horário do dia anterior. E depois voltava pelo mesmo caminho depois de cerca de umas duas horas. Será que ele está me seguindo ou os carros eram apenas parecidos? 
     Logo a minha paranoica mente imaginou que o motorista sabia de minha viagem e que estava me difamando pelo caminho. Quando ele passou de volta decorei o nome que estava pintado na porta. Se ele aparecer amanhã vou parar o carro e tirar satisfações...
    Quando estava morando em BH um vizinho que está doente e que vivia implicando comigo premeditadamente me provocou para gravar no celular minhas reações. Provavelmente ele deve ter espalhando para seus amigos.  Muito difícil eu reagir as provocações, nem ligo quando acontece nas ruas, mas todo dia ficar ouvindo vizinho me provocar é complicado e uma vez ou outra eu reagia e ele gravou as minhas reações. Claro que o xinguei e o ofendi, falei umas besteiras, mas apenas me rebaixei ao nível dele. Talvez ele tenha algum tipo de inveja de mim, pois procuro sempre cuidar de minha saúde e acredito estar bem para meus 50 anos de idade. Ele está com 60 e mal consegue ficar em pé. O cara é chegado numa cachacinha e ainda por cima tem diabetes. Ou seja, o cara não se cuida e ainda vem descontar em cima de mim....
    Mas vamos falar de coisa boa. Depois da chuva e da péssima estrada chego detonado à Nossa Senhora do Porto. A bike está toda enlameada e o eixo traseiro está empenado de tanto passar pelas buraqueiras do caminho.A magrela estava fazendo um nhéc nhéc na roda traseira, o que me deixou na dúvida se conseguiria chegar em Guanhães no dia seguinte para achar uma oficina de bike. 
Nossa Senhora do Porto
a bike chegou detonada e eu também com "zóio" de zumbi. Estava no limite físico...
    Se em Dom Joaquim havia poucas pessoas nas ruas, em Nossa Senhora do Porto dava para se contar os habitantes que tinha avistado. É uma cidade simpática, mas a impressão que se dá é que foi abandonada por um ataque de zumbis e que poucos haviam escapado e a maioria tinha saído do lugar à procura de cérebros.
    Consegui encontrar duas senhoras que estavam enfeitando a igreja para a missa dominical e fiquei proseando um pouco esperando o tempo passar. Como havia poucas pessoas naquele lugar resolvi que iria dormir no coreto da pracinha.
    Esperei umas duas horas minhas roupas secarem em uma barraca que estava montada ao lado da igreja. E também é claro, estava descansando, pois o dia não foi nada bom para meus músculos. Estava mais cansado do que no primeiro dia, quando andei 100km.
    Quando finalmente resolvo subir para o coreto, a decepção: o chão estava todo sujo de fezes de pássaros. Pensei em dar uma limpada no lugar, mas o cheiro também não estava bom e não seria qualquer limpeza que iria deixar aquele coreto habitável. Nessa hora bateu um desânimo daqueles. Pensava que finalmente poderia dar uma cochilada. Não havia encontrado nenhum outro lugar coberto para montar a minha barraca, que não aguenta muita chuva. O coreto parecia abandonado, assim como a cidade. 
     Encontrei um senhor e pergunto onde poderia encontrar papelão para forrar o piso da barraca e ele me disse que eu poderia dormir no "clube". Perguntei se teria que pagar alguma coisa e ele me disse que não era necessário.
    Juntei as poucas forças que tinha e voltei para a entrada da cidade, na tentativa de achar o tal clube. Quando finalmente o encontro, a decepção: .os banheiros estão desativados, o bar fechado, só tem dois garotos tomando banho na piscina, apesar da chuva que insiste em cair naquela tarde. 
     O clube é bem bacana e agradável, é cercado pela natureza e tem uma piscina de água que vinha de uma montanha..
    Escolhi um local para montar a minha barraca antes que escurecesse, afinal o clube também está abandonado... 

     E dito e feito, por volta das sete horas a escuridão toma conta do lugar. Acho bom e ruim. Bom por que poderia ficar sozinho um tempo. E ruim pois poderia ser perigoso.
    Entro para a minha barraca e confesso que fiquei com um pouco de medo. Não vi nenhum policial naquela cidade enquanto estive no centro. 
    Ouço passos do lado de fora da barraca. O cara vinha de alguma outra entrada do clube. Ele passou direto e foi em direção à entrada. Logo deduzi que o clube servia de ligação entre a cidade e um outro local qualquer. 
    Mas me sentia bem naquele lugar, sozinho e escutando o barulho da chuva.