Mostrando postagens com marcador esquizofrenia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador esquizofrenia. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Um dia feliz

 

    

Hoje foi um dia feliz.

    Estava morando em um apartamento bacana, todo mobiliado e com um preço bacana. A mãe da proprietária adoeceu e teve que se mudar para ficar perto de sua progenitora.  Mas nem tudo é perfeito, o imóvel fica situado em um bairro com morros altíssimos. Acho que é o ponto mais alto de Ipatinga, aqui em Minas Gerais. Foram cinco meses de uma rotina entediante, apesar do belo visual da janela do apartamento. 
    Estava pedalando uma vez por semana, apenas para fazer as compras básicas.
   O lugar era agradável, cercado por montanhas e com uma brisa refrescante, algo importantíssimo na quentíssima região do vale do aço. Tinha até uma seriema que se aproximava bem das pessoas, e que arrumava uma gritaria gostosa na parte da manhã. Seu canto mais parecia uma risada escandalosa, mas que me fazia sentir estar no meio do mato. 
    Mas, sou viciado em pedalar e resolvi mudar para um barracão mais simples. Tem muita coisa para fazer: pintar, arrumar vidros, reboco, etc..E isso também é uma terapia, ver uma transformação, seja de pessoas, ambientes, coisas, objetos, etc... 
Ipatinga-MG  Em primeiro plano, a siderúrgica Usiminas


    Agora estou morando em um bairro com retas e voltei a pedalar normalmente, ou melhor, quase normalmente. Estou pegando ritmo aos poucos. A primeira vez que saí para andar de bike foi um pouco difícil, os músculos ficaram doloridos e tive uma pequena câimbra. 
    Hoje pedalei cerca de 16km e cheguei inteiro em casa, sem maiores problemas. Foi tão gostoso pedalar bem na subida e não ficar ofegante, sentindo aquele arzinho gelado entrando pelos pulmões. 
    Isso é motivo de estar feliz, pois pedalar faz parte do meu tratamento da esquizofrenia, reduzindo o stress, a ansiedade e liberando endorfinas e outras "inas" mais.
    E cuidar da Margarida (minha querida bike) é uma terapia, a gente vai aprendendo a cuidar dos freios, dos câmbios, dar uma lavada e polida. É um prazer vê-la brilhando e andando bem. É uma bike antiga, de 1990. Foi amor à primeira vista. Ela estava jogada no quintal de uma casa, só o quadro. A pessoa a vendeu por 20 reais em 2017. Ela tem avarias que a desvalorizam bem, e também é um quadro aro 26, que já não faz tanto sucesso assim. A maioria das pessoas estão comprando bicicletas aro 29, que andam bem mais. 
    Mas eu não me importo, já viajei 11 estados do Brasil com a Margarida. Enfrentei serras fortíssimas, serração, chuva, sol escaldante do nordeste e outros perrengues mais comuns em uma cicloviagem. E já consegui pedalar 140km em um único dia, ou melhor, noite também. Foi no Piauí, e tive que dar um intervalo de meio dia às quatro e meia da tarde, por conta do forte calor. 
    Infelizmente o tratamento da esquizofrenia no Brasil é centrado nos antipsicóticos, e os resultados não são tão satisfatórios. Esquizofrenia por aqui é quase sinônimo de benefício, seja aposentadoria ou LOAS, também conhecido como BPC. 
    Enfim, cada caso é um caso, mas o tratamento deveria incluir uma série de alternativas saudáveis, tanto na parte física como mental. 

segunda-feira, 29 de abril de 2024

O café em minha vida


 

O Café na infância na infância e na adolescência. 

     Na minha infância e adolescência não costumava tomar café, nem mesmo de manhãzinha, ao despertar. Acordava elétrico e já tinha bastante energia e ficava o dia inteiro jogando futebol, brincando de pegado-de-esconde no quarteirão inteiro, e às vezes saia andando pela cidade meio que sem destino, ficando perdido algumas vezes. E, claro, fazia muita bagunça, como ficar apertando a campainha do vizinho e sair correndo. E também pegar manga na casa do vizinho, apesar da geladeira estar lotada dessa fruta maravilhosa. E apesar do próprio vizinho nos doar uma sacola enorme da fruta que era abundando entre os meses de novembro e fevereiro. De noite eu e meus colegas montávamos uma operação especial para pegar as frutas fresquinhas no pé. Três pulavam o muro, um subia no pé o outro ia juntando as mangas e  o outro ia levando até o balde que era amarrado por uma corda. Já um ficava encima do muro para puxar a corda e entrega o balde cheio para um outro que ficava no prédio vizinho. E depois repartíamos igualmente entre todos os envolvidos na operação pega manga do vizinho. 
  O meu café e lanche consistia em Neston, nescau, biscoitos, cereais em flocos, etc. E comia muito besteira, doce sorvete, chocolate, rocambole e outros quitutes da culinária mineira. E adorava bolo também, principalmente de chocolate e a broa de fubá. Não engordava pois gastava muita energia na escola e na rua.    

Quando comecei a necessitar realmente de café

    A minha relação com o café começou em uma firma onde trabalhava, por volta dos 22 anos de idade. De tardezinha a empresa fornecia um pãozinho com manteiga e café. Com o tempo percebi que ficava mais animadinho depois de tomar o grão moído dessa fruta. Sim, o café é uma fruta. É algo que a maioria toma todos os dias e não sabe que se trata de uma fruta.  E então passei a tomar várias xícaras por dia, pois sempre ficava uma garrafa cheia de café no escritório da firma. Acho que fazem isso de propósito, para os funcionários ficarem mais produtivos. 
    Não sei exatamente quando a esquizofrenia apareceu em minha vida. Acredito que ela sempre esteve comigo, desde a infância, devido ao meu jeito meio maluquinho de ser. Afinal esquizofrenia não é somente os surtos e aquela piração toda. Me lembro que quando tinha uns oito anos de idade minha avó me levou à um hospital para fazer um eletroencefalograma por talvez suspeitar que eu tivesse algum tipo de problema ou transtorno mental. Sempre fui muito bagunceiro, agitado e brincalhão,  tive uma fase um pouco agressiva na minha infância, acho que dos sete aos dez anos de idade.  Me lembro que fiquei com um medo danado quando a enfermeira colocou aquele monte de fiozinho na minha cabeça. Imaginava que aquilo tudo era o tratamento para a minha agitação e maluquices, que iriam dar uns choquezinhos na minha cabeça para que ela ficasse boa. Por falar em choque, confesso que tinha uma mania meio estranha de botar um monte de formiguinha em um recipiente de plástico com água e depois ligar dois fios desencapados na tomada e deixar no baldezinho, só para ver as formiguinhas se contorcendo. Vi isso em um livro que um outro menino maluquinho e meio perverso fazia. Mas, felizmente essa fase de serial killer de formiguinhas durou pouco tempo. Mas tudo que via na TV ou então lia nas revistas eu fazia. Não separava a ficção da realidade, para mim era tudo a mesma coisa.
     Tinha várias outras manias e maluquices, mas isso contarei em outra postagem. 
    -Não precisa ficar cerrando os dentes.-disse a enfermeira, com voz suave. Aquilo me acalmou um pouco, mas fiquei espantado como ela havia adivinhado que eu estava apertando meus dentes. Claro que hoje sei que tudo é mostrado nas ondas elétricas que aparecem na folha do eletroencefalograma.     Mas aquele teste provavelmente não havia detectado nada, pois não fui levado à nenhuma psicóloga e nem cheguei a tomar nenhuma medicação na infância. 
   A esquizofrenia sempre esteve comigo, mas os surtos vieram por volta dos 29 anos de idade. E os sintomas positivos me fizeram abandonar o serviço, a perambular pelas brs, a morar nas ruas etc... E ainda não era chegado a tomar um cafezinho com frequência, apesar de ser um bom mineiro comedor de pão de queijo. Mas, com o passar dos anos, os sintomas positivos parecem ter dado lugar aos sintomas negativos. Confesso que fiquei um pouco apático, não achando graça em coisas que achava engraçadas antes. Acho que os sintomas negativos  não tomaram conta totalmente de mim por ter sido uma pessoa muito emotiva, e por isso ter sobrado um pouco de emoção em meu coração. 


    A energia foi baixando, e, no início achava que era a idade chegando. Mas não era bem isso.Comecei a estudar a esquizofrenia e havia descoberto que não é somente aquela piração de ter que ficar amarrado em uma camisa de força. Sim, eu tinha muitos preconceitos antes dos surtos aparecerem. 
    Enfim, com os sintomas negativos passei a sentir a necessidade de tomar um cafezinho. E comecei a tomar toda manhãzinha e às vezes de tardinha. E passei a apreciar essa bebida saborosa e estimulante. 
Mas, para mim era estimulante demais. Ficava um pouco agitado, um pouquinho nervoso às vezes e acho que um pouco mais paranoico, talvez por aumentar demais os níveis de dopamina no meu cérebro. 
    Quando tomava um cafezinho e andava de bike ficava mais sensível as emoções e aventuras de acelerar no pedal e sentir o ventinho no rosto. E, para piorar ficava escutando heavy metal na maior altura nos fones de ouvidos! Bike, café e rock n roll!!! Afinal café é uma droga que altera o nosso comportamento. Já o sexo no meu caso não entra na clássica frase pois, depois que os surtos aparecerem
em minha vida nem confusão passei a arrumar. No meu caso é eu e minha bike Margarida mesmo, a nossa relação não é deste mundo. 
  
     Não acho que o café seja uma bebida maléfica, desde que seja tomada com moderação. E cada um 
tem o seu organismo, obviamente. No caso das pessoas com transtornos mentais essa deliciosa bebida pode não fazer bem. 
    Em primeiro lugar por que a maioria das pessoas psicóticas tem problemas relacionados ao sono. E sabemos a importância de uma boa noite nos braços do Morfeu para uma boa saúde mental. 
   Em segundo lugar, pelo fato de ficarmos mais agitados e nervosos mesmo.  E era o que estava acontecendo comigo, se bem que sou uma pessoa bem tranquila, pois consigo me manter calmo mesmo sem situações estressantes. Mas aquelas situações acabavam meio que tirando minhas energias. Passei a tomar chás na parte da noite para ter uma boa noite de sono. 
Mas isso não bastava. Teria que largar o café para não ficar dependente de algo para realizar certas tarefas e também me sentir melhor. Não sou de esbravejar, elevar o tom de voz ou partir para a briga. Quando estava nervoso o meu tom de voz era bem baixo, apenas falava algumas coisas, evitava certas situações e saía de certos lugares e situações que me estressavam.
     E fiquei cerca de três anos nesse vício tão gostoso. Era tão bom tomar no centro da cidade aquele cafezinho moído na hora! E o cheiro então! Um dos mais deliciosos que já senti.

                               Como foi o meu processo de descafeinação. 

    Simplesmente resolvi parar de uma vez. Parei de fazer o cafezinho matinal para acordar. Levantar da cama até que era fácil, o problema era acordar de verdade para fazer certas coisas. O meu dia começava depois de tomar o cafezinho. 
    No início da minha descafeinação fiquei e ainda estou meio lento. Os primeiros dias foram terríveis. Lerdeza, fraqueza, desânimo total. Raciocínio lento, mas estava mais tranquilo e em paz, não me estressando com coisas banais, nem com os vizinhos chatos que têm por aqui. Alguns falam somente sobre futebol e era meio complicado de ficar ouvindo aquela mesma conversa de anos. Mas agora é como se estivesse passando direto por um ouvido e saindo por outro. E tem aqueles que reclamam do tempo e outros que falam da vida alheia. E outros falam somente de política. Dizem que sou inteligente, mas na verdade apenas procurei em minha vida ouvir e estar perto de pessoas inteligentes antes da internet aparecer. Aprendi muita coisa observando pessoas inteligentes. Hoje, como bom antissocial que sou procuro aprender coisas positivas surfando na net mesmo, que é como a vida real, a gente escolhe o caminha a seguir. Na vida são os caminhos, na net são os endereços que digitamos nos navegadores. 
E ainda tem a facilidade de se bloquear pessoas inconvenientes com apenas dois cliques e está tudo resolvido. Simples né?


    Então as duas primeiras semanas foram terríveis. Muito lento mesmo. Mas aos poucos meu sono foi melhorando e  sinto que estou acordando melhor e com o raciocínio melhorando também. Acredito que isso também tem a ver com o biorritmo de cada um. Alguns funcionam bem de noite e outros já funcionam melhor de dia. 
    

Estou me sentindo muito bem sem o café 


    Mas, no geral, ficar sem café está trazendo resultados positivos, apesar de ser quase um sacrilégio para um bom mineiro. Já faz algum tempo que não tomo antipsicóticos, que diminuem muito a dopamina e quase que nos obriga a tomar vários cafezinhos por dia para ter ânimo de realizar alguma tarefa. 
     Estou tomando um cafezinho uma vez por semana, para jogar futebol no centro de convivência. Me deixa mais alerta e com rapidez para tomar as decisões e fazer as jogadas certas. 

Não me estressei com a atendente de telemarketing!

Estou me sentindo tão bem sem o café que hoje conversei com a atendente do cartão do meu cartão de crédito quase estourado para me explicar certos valores que não entendi como apareceram na lista de compras. 
A fatura quando a gente compra um produto e devolve é um pouco complicada de se entender. A gente paga 3 parcelas, a empresa faz um crédito no valor total do produto e aí as parcelas continuam aparecendo nas faturas seguintes. Não seria mais fácil devolver apenas as parcelas pagas e assim acabar com a novela?
    Pois bem, essa era uma das dúvidas que eu iria tirar. Após digitar o meu CPF três vezes, os últimos quatro números da minha conta, os quatro números da data do meu aniversário, e teclar as opções para falar sobre o cartão de crédito finalmente eu entrei para a fila de espera para falar com uma atendente. 
Até que não demorou muito, mas a musiquinha que somos obrigados a ouvir enquanto esperamos é muito chata e a qualidade do som, péssima. Deveriam colocar uma música clássica com uma qualidade de som melhor né?
    Para piorar foi uma complicação danada para me entender com a moça, pois não entendia como funcionava no cartão os valores a receber de uma mercadoria devolvida. Acessa a fatura atual, acessa a fatura anterior, aquele monte de número e informações na fatura, etc...
    E não é que não perdi a paciência? Conversei com a atendente numa boa e após um bom tempo entendi como funciona o esquema de valores na devolução de mercadorias. Concordo que as empresas devem dificultar um pouco essa devolução, se o valor for devolvido na hora na conta o que vai ter de gente "comprando" equipamentos para testar não é brincadeira. 
     E até conversei um pouco mais com a atendente. Só no final que errei na hora de dar a nota, pois a conversa foi um pouco cansativa e fui logo dando nota 5 cinco pensando que quanto mais alta melhor. Mas era o contrário, teria que teclar a opção 1, que seria a melhor avaliação para o atendimento, pois ela foi bem legal comigo. Mas ficou com a consciência pesada o resto do dia. Acho que atendente de telemarketing e de reclamações e informações deveria ser classificada como insalubre. Não aquela insalubridade da qualidade do ar e de outros fatores, seria uma insalubridade mental, afinal elas têm que aguentar muita coisa durante a jornada de trabalho. 
     Me lembro que por volta do ano de 2008 descarreguei minha raiva toda em uma atendente de telemarketing da operador de internet que havia contratado. Na época a velocidade era de míseros 150Kbps. Tinha que ter bastante paciência para abrir o orkut e outros sites. Mas, para piorar, na parte da tarde a velocidade caía bastante. E a justificativa era de que morava no centro da cidade. Enfim, o que já era ruim ficava ainda pior em boa parte do dia. Mas a atendente não tinha culpa nenhuma da situação. Enfim, a bomba estoura toda nas mãos das atendentes. 

  
Não estou me importando mais com as indiretas do facebook




    Até um pouco tempo atrás imaginava que qualquer crítica em uma postagem do face era diretamente direcionada à minha pessoa. Às vezes respondia, ás vezes ignorava e muitas vezes bloqueava o autor da postagem. Mas a verdade é que também esta rede social está se tornando uma rede cheia de pessoas santinhas julgando as outras e ditando o que é certo e o errado. Nem vai precisar de Deus no juízo final julgar as pessoas. As beatas do face  já o fizeram.
     Mas hoje passo direto nas postagens que são indiretas para alguém ou são apenas de pessoas que se acham melhores do que as outras e têm tempo de sobra para postagem lição de moral no face. Eu já tenho tempo de sobra é para postar meme mesmo. rsrsrsrs
    Se por acaso a indireta for realmente para a minha pessoa também passo direto, estou ficando cada vez mais tranquilo e zen. Nem preciso ser budista para ter a paz. 
    Hoje o face apenas é para curtir os memes, conversar com os poucos amigos que tenho, digo amigos conhecidos, pois adicionados tenho quase cinco mil. E também ver dicas de filmes na Netflix nos grupos. Não tenho Netflix, baixo torrent mesmo. É proibido, dizem que a polícia federal fica de olho, mas acho que eles deveriam ficar de olho em um monte de gente corrupta que tem por aí e estão à solta roubando à vontade. 

Até que não fui muito chato no futebol no centro de conviência!

   Essa foi a maior e mais agradável surpresa de todas! Não me estressei no futebol. Fiquei no gol apesar de ser um exímio artilheiro. Gosto também de evitar os gols. Acho que por ter os braços grandes consigo fazer boas defesas. Não me estressei no futebol, apenas sou um pouco chatinho para que meus colegas de equipe se dediquem na marcação adversária e se desloquem para receber a bola em boas condições e também confundir o adversário. Acho que seria um bom técnico de futebol. 

Considerações finais.

Devemos procurar outros meios de aumentar a dopamia

    Enfim, o cafezinho é uma excelente bebida, mas, para quem tem algum tipo de transtorno mental, ou de ansiedade, devem evitar essa maravilha e cheirosa bebida. 
    No meu caso em particular só está me fazendo bem, apesar da moleza inicial matinal e também por meu organismo estar viciado no aumento de dopamina que essa bebida proporciona. 
     E também pelo fato de ser um bom mineiro e adorar um pão de queijo é um cafezinho. O pão de queijo continuo apreciando, mas sem o cafezinho dá a sensação de que está faltando alguma coisa. É que nem goiabada com queijo, o tradicional romeu e julieta. 
    Ainda não pesquisei o preço do café descafeinado, se é tão bom como o original. Acredito que não, deve ser que nem cachaça descachaçada para quem gosta de tomar uma birita. 

quinta-feira, 6 de abril de 2023

Paranoias diárias do dia a dia 10- E a folha, virou?



    Há alguns meses atrás estava navegando nas redes sociais (como sempre) e me deparei com uma sugestão para entrar em um grupo relacionado ao INSS.
    Não sei por qual motivo, razão ou circunstância resolvi aceitar a sugestão.  Sou aposentado e não tenho muito o que perguntar. As publicações geralmente são de pessoas com alguma dúvida sobre os mais variados benefícios que o nosso país oferece à população. 
    Depois de alguns dias me deparei com várias postagens de pessoa aflitas afirmando que “a folha não havia virado”. Inicialmente não fiquei preocupado, pois não tinha a mínima ideia do que isso  significava. 
    Passou-se um mês e por volta do dia 15 novamente as postagens aflitas sobre o viramento ou não da tal folha. Fiquei curioso e resolvi pesquisar. Em pouco tempo descobri que a folha virar significa que o aplicativo ou o site do Meu INSS está mostrando a data do próximo pagamento. Ou seja, é o extrato do pagamento do benefício. 
    Resolvi então abrir o site e, para o meu desespero, a data do meu próximo pagamento ainda não estava constando. Ou seja, a folha ainda não havia virado para mim!
   Fiquei sem respiração, pensamento a mil, imaginando quatrocentos milhões de coisas: alguém hackeou a minha conta no site do INSS? Ou o INSS cortou o meu benefício sem ao menos me avisar? 
Comecei a imaginar o que iria fazer: Virar um “pedarilho” e sair viajando de bike pelo Brasil? Trabalhar? Mas quem iria arrumar trabalho para um esquizofrênico com 54 anos de idade? E fiquei sem pensar em outra coisa durante o final de semana todo, abrindo o site e recarregando a página por várias vezes seguidas. 
   A canseira das dúvidas quando estava no auxílio doença voltaram. Será que vou ter que ir na agência para saber o que está acontecendo? Será que irão cortar o meu benefício? Ou será que é o sistema que está com problemas? Afinal tudo é culpa do sistema depois que inventaram a internet. 

A paranoia em relação ao pagamento do benefício é coletiva

   Na segunda feira logo de manhã voltei a abrir o site e nada. Fazia alguma coisinha (ou cochilava mesmo) e depois voltava novamente para o notebook para ver se a tal folha havia virado. Hora do almoço e nada!
    Fui para o restaurante popular com a cabeça no site. Fiquei imaginando a aflição dos aposentados que têm família para cuidar, pois no grupo a “pergunta mais perguntada é se a folha virou ou não”. 
    Depois do almoço fiquei recarregando a página seguidamente até que finalmente a data do próximo pagamento estava visível. Deitei em minha cama e pude finalmente relaxar e descansar. Quanto stress e quanta loucura por uma informação que sabemos que irá aparecer. Mas paranoia é paranoia. Infelizmente em nosso país acontece cada coisa com os pobres que qualquer um fica paranoico quando o assunto é pagamento de aposentadoria. Quem não é acaba ficando, e quem já é fica mais paranoico ainda. 
   E assim todo mês, por volta do dia 15, a mesma agonia. Na timeline várias postagens de pessoas desesperadas perguntando se a folha havia virado ou não. Estava seguindo o grupo e não tinha como evitar. Aliás, não queria evitar, estava paranoico e pensava que, se a folha não virasse, o mundo iria acabar. 
    Fiquei um bom tempo nessa loucura que me detonava mental e fisicamente. A ansiedade é diferente do medo, pois o medo é algo que sentimos quando estávamos em uma situação real de perigo. Já a ansiedade é o medo de algo que achamos que poderá acontecer, mesmo não tendo uma razão plausível para isso. 
   Depois de quase um ano, resolvi parar de seguir o grupo, pois ficava sempre o final de semana todo depois do dia 15 entrando no site e recarregando a página até o pagamento do próximo mês constar na lista. Vi que aquilo estava me fazendo muito mal e resolvi parar de seguir e deixar a vida me levar. 
Uma paranoia a mais outra a menos... 
    Mas, não sei como, uma publicação com a maledita indagação apareceu na minha linha do tempo. E esses meses iniciais do novo governo tem sido de muitas dúvidas e mudanças, o que me fez novamente ficar um pouco receoso. 
    O jeito foi acessar o grupo e, para meu espanto, o número de perguntas sobre a folha estava bem maior do que de costume. Afinal era o dia 23 e nada da folha virar para muita gente. Normalmente a data do pagamento aparece entre os dias 15 e 18 de cada mês. 
    E lá eu estava novamente de novo entrando no site sem parar e recarregando a página, mas sem sucesso. Também fiquei acessando o grupo para ver se a folha havia virado para alguém e assim me desse um fio de esperança. Foram cinco dias de aflição até a folha virar para mim!
    E que alívio! Alegria de pobre geralmente é o alívio de algum perrengue. Mais uma paranoia para a minha cabeça aturar. Mas atualmente estou mais tranquilo e sabendo levar essas situações, acho que um pouco por causa da maturidade. 





segunda-feira, 23 de agosto de 2021

A pessoa com esquizofrenia consegue se lembrar das coisas que fez durante um surto?

 O esquizofrênico perde a memória durante uma crise?


     O título da postagem é uma indagação feita por muitas pessoas portadoras de esquizofrenia, principalmente nas redes sociais. Talvez elas não sejam a melhor ferramenta para se informar sobre transtornos mentais. Mas, de uma certa forma, acaba sendo a única. E explico o por que. Infelizmente muitos profissionais da saúde mental não dialogam com os seus pacientes, e, se quando o fazem, muitas vezes não é para responder dúvidas do próprio paciente e de seus familiares. Então o jeito é googlar ou perguntar aos amigos virtuais que tiveram experiências semelhantes, o que não deixa de ser algo muito válido. Afinal, só quem passa por certas experiências que a esquizofrenia nos faz passar é que pode descrever com exatidão o que é ter esse terrível transtorno. 
     Antes de tudo é preciso dizer que esquizofrenia não é somente os surtos. É também uma série de comportamentos, pensamentos, atitudes e outras questões mais. O surto, como o próprio nome sugere, é um pico, é algo passageiro. Como um surto de dengue, para tentar exemplificar melhor a situação. 
    A esquizofrenia tem vários sintomas, e os mais comuns são: mania de perseguição, paranoias, delírios, falta de contato com a realidade, etc...
     Por experiência própria, defini o surto quando esses pensamentos persecutórios e paranoias acabam se tornando realidade na mente do indivíduo. E o que provoca os surtos? São os gatilhos, que podem ser um trauma, um acidente, stress, drogas, enfim, coisas do nosso mundo, principalmente o que estamos vivendo atualmente. 
     E o que acontece durante um surto? Na imaginação da maioria das pessoas o indivíduo sai pelas ruas atirando pedra em todo mundo. Mas não é bem assim...
     Não existe ser humano idêntico ao outro e a esquizofrenia é uma doença não só do cérebro, é da mente também. Por isso cada um reage de sua maneira, cada um tem sua piração. Ninguém é igual à ninguém e também não tem a mesma vida que a outra pessoa tem. Pode sim ter situações semelhantes e comportamentos semelhantes, mas nunca idênticos. 
      Alguns sim reagem com agressividade, afinal, em sua mente muitas pessoas o querem prejudicar, estão tramando algo contra ele. 
      Mas, por experiência própria e por convívio com outros portadores e também através dos meus estudos posso dizer que a maioria das pessoas com esquizofrenia se isolam em suas casas, e muitas vezes deixam de estudar e trabalhar. 
     Já outros  fogem de suas casas, não é raro ver por aí nas ruas cartazes de pessoas desaparecidas, informando nome, idade e, muitas vezes que a pessoa tem algum tipo de transtorno mental. 
      Como afirmei, nos surtos as paranoias meio que se tornam realidade na mente das pessoas com esquizofrenia. Vão morar nas ruas, perambulam pelas estradas e até fogem para outras cidades e estados. E, infelizmente, muitos acabam tirando a sua própria vida. Afinal, é mais fácil matematicamente falando se auto-exterminar do que matar todos aqueles que imagina estar querendo matá-la. No meu caso essa última alternativa aconteceu algumas vezes, e sem sucesso, como podem notar nestes escritos do blog e do meu canal no youtube. 
        As pessoas com esquizofrenia continuam a escutar e a ver, mas não normalmente. Escutam e veem coisas reais e irreais. E raciocinam também, mas dentro da realidade que está em suas mentes. 
      No meu caso em particular, no início dos surtos graves pedia demissão do meu trabalho e ia tentar a vida em outra cidade, numa tentativa de fugir dos inimigos que imaginava estarem somente naquela cidade. Mas não adiantava a mudança, os inimigos imaginários continuavam a me perseguir. E então ia para as ruas e, me sentindo também perseguido nas cidades, ia para a última alternativa: as brs. 
muitos andarilhos têm algum tipo de transtorno mental


       Existe um sintoma da esquizofrenia que não é muito comentado mas sinto que é muito presente na mente das pessoas com esquizofrenia: o sentimento de culpa exagerado, que, inclusiva fazia parte do CID F20 (esquizofrenia paranoide). Atualmente esse sintoma foi retirado do CID, juntamente com o complexo messiânico O motivo não sei, talvez queiram resumir a esquizofrenia à um simples desequilíbrio químico do cérebro, esquecendo a parte mental. 
     Nessa minha fuga, um enorme sentimento de culpa assolava a minha mente. Pensava ser o culpado de tudo o que havia acontecido de errado no mundo. Acho que se os surtos fossem em setembro de 2001, provavelmente iria assumir o atentado das torres gêmeas...
    Muitas lembranças viam a minha mente, numa sequência alucinante. E todas essas lembranças me culpavam de algo que havia feito e também do que não havia feito. Quando estava na BRO40 próximo de Belo Horizonte sentido Mariana, passei por um local que, há cerca de doze anos atrás havia presenciado uma cena que parecia ser um início de um estupro. Já havia esquecido aquele fato, mas o retorno ao local reavivou todos os detalhes daquele dia: estava em um caminhão carregado de equipamento de som rumo à Mariana, para fazer um evento naquele município, não tenho certeza se era comemoração do aniversário da cidade. 
     Estávamos em uma forte subida e vi, do outro lado da BR, dois homens arrastando uma mulher para dentro do mato. Pedi para o motorista do caminhão parar e descermos para ajudar a mulher mas ele afirmou que o veículo estava muito pesado e que seria impossível parar naquele lugar. Não insisti, mas fiquei um pouco assustado, tanto com a cena como também pela frieza do motorista.
     Alguns quilômetros depois passamos por um posto da polícia rodoviária federal e novamente pedi para o motorista parar e avisar para a polícia, mas ele novamente continuou seguindo caminho...
     Não podia fazer nada, naquela época nem celular existia. Mas, por causa da correria do trabalho, acabei me esquecendo daquelas cenas. Operador de som é um dos primeiros a chegar e um dos últimos a sair de um evento. 
      Então, quando passei novamente por aquele lugar tudo voltou bem vívido em minha mente. Imaginava que a mulher e sua família estavam me perseguindo por não ter tomado nenhuma atitude. Me sentia culpado também por ter acreditado que estava com AIDS, por causa de boatos que circulavam na cidade onde trabalhava, no leste de Minas Gerais. Me sentia culpado não exatamente por ter aids, e sim por supostamente ter contaminado as poucas pessoas com quem tive relação sexual sem o uso do preservativo. Esse pensamento foi um dos gatilhos para o meu surto mais grave. Naquela época o tratamento para AIDS já havia evoluído bastante, mas ainda restava um pouco daquele pensamento de que a síndrome era meio que uma sentença de morte para o portador.
     Enfim, muitas lembranças invadiam a minha mente e a  minha principal reação era fugir, fugir e fugir....
o sentimento de culpa exagerado é um dos sintomas da esquizofrenia


       Me lembro de quase tudo o que me aconteceu durante os surtos: as tentativas de extermínio, a fuga pelas brs, o período que passei dentro do mato, a volta para o centro de Belo Horizonte, a ajuda das pessoas até o momento que consegui me recuperar.  Me lembro da primeira vez que comecei a voltar um pouco para a realidade. Isto aconteceu em uma manhã de um dia da semana qualquer, pois o centro estava bem movimentado. Já estava  voltando a me alimentar, havia perdido 25 kg naquela fuga pelas brs, não estava me alimentando, apenas bebendo muita água. Quando passei em frente de uma farmácia, uma vaga lembrança apareceu em minha mente: tinha o costume de me pesar com frequência, era quase uma obsessão estar dentro de uma faixa de peso. Para minha surpresa a balança digital indicou que eu estava pesando 60kg! A reação foi mais de surpresa do que de espanto. "O que está acontecendo?"... - me perguntei naquele momento.
    Um fato que não consigo narrar ou me lembrar foi quando entrei em um local que parecia ser uma livraria. Caminhei até a estante e apontei para um livro azul que deveria ter aproximadamente umas 400 páginas.
     Saí da loja e sentei na calçada. Naquela fase ainda não estava me comunicando com as pessoas através da fala. E comecei a ler o livro numa velocidade incrível, pelo menos foi o que me resta de lembrança e de entendimento. Não posso afirmar se fiquei ali uma hora, duas ou até mais horas sentado lendo aquelas páginas, que pareciam narrar um assunto muito interessante, pois fiquei totalmente desconectado do mundo exterior durante a leitura.. Acredito que no meu caso em particular tenha havido sim algo de espiritual durante aqueles surtos, pois muita coisa estranha aconteceu. 
      Enfim, praticamente tudo o que me aconteceu consegui me recordar e registrar em um livro, que intitulei "Mente Dividida", pois achei que resumia bem o estado em que minha mente se encontrava naquela época dos surtos mais graves. Mas não ficava dividida meio a meio realidade e paranoias, nos surtos acho que ficava 90% na psicose e apenas 10% na realidade, pois sabia que tinha que beber água, dormir, etc... (você pode adquirir o livro Mente dividida através do link abaixo:
      Posso afirmar que a maioria das pessoas com esquizofrenia durante os surtos se lembram do ocorrido, não só por experiência própria, como também através dos diálogos que tenho com outros  portadores. Acredito que a maioria imagina que a pessoa surta, agride várias pessoas e depois é contida por enfermeiros e depois não se lembra de nada.  Acredito que por volta de 10% das pessoas com quem conversei afirmou não se lembrarem de nada do que havia acontecido durante um surto. 
       O motivo de não se lembrarem ainda não encontrei. Como não era agressivo, nunca cheguei a tomar um sossega leão ou um medicamento mais forte. Talvez uma dosagem forte faça as pessoas se esquecerem de alguns fatos. 
       Também os meus escritos e videos são baseados em estudos que faço, visitando sites confiáveis e vendo alguns vídeos de alguns psiquiatras que acho interessantes. Não gosto daqueles que resumem a esquizofrenia à um simples desequilíbrio químico do cérebro, seria simplificar demais a doença. 
Esses profissionais costumam comparar a esquizofrenia à diabetes, que é só tomar o remedinho e tudo ficará bem....
    Enfim, a esquizofrenia é um transtorno mental em que pode ocorrer os surtos, mas não tem nada a ver com amnésia... 
  

    Na verdade o que pode afetar a memória são os ansiolíticos e os antipsicóticos. Na época em que tomava diazepan, duas vezes ao acordar não sabia onde estava e nem quem eu era. Entrei em desespero e tive que ficar puxando pela memória por cerca de um minuto. Aos poucos as lembranças foram voltando, mas a partir desse dia comecei o desmame desse ansiolítico. Isso aconteceu por volta do ano de 2008, e, hoje ainda sou dependente, mas tomo, no máximo, 4 comprimidos por mês, para não ficar muito irritado. Já cheguei a tomar 20mg por noite e considero uma pequena vitória essa boa diminuição do medicamento. 

sexta-feira, 23 de julho de 2021

É possível ser feliz tendo esquizofrenia?

               Afinal, é possível ser feliz sendo portador de esquizofrenia?



     Quem acompanha o blog sabe que também tenho um canal no youtube, apesar de reconhecer que falar não é o meu forte. É que às vezes mil pensamentos vêm à tona  e no final não consigo dizer o que estava pretendendo. 

    Outro dia, ao abrir o canal, me deparei com uma pergunta que me fez refletir muito. Me deixou tão pensativo que não a respondi imediatamente, como faço com a maioria das perguntas que aparecem no meu vídeoblog:

"Quando vc descobriu a doença vc perdeu o interesse em algumas coisas que fazia antes ?. É possível ser feliz tendo esquizofrenia?! Em janeiro eu tive um surto pscotico agudo , faço uso da quetiapina . Ultimamente não estou me sentindo feliz , parace que perdi o prazer de viver"

Antes de responder a pergunta do membro do canal, fiz várias indagações:

    Afinal, o que é a felicidade?

   É possuir bens materiais? É estar com saúde física? É estar bem mentalmente e psicologicamente? ou é estar bem espiritualmente?

     Ou a felicidade é apenas química, um conjunto de substâncias e hormônios presentes no cérebro na quantidade certa? Serotonina, dopamina, endorfina, ocitocina e outras "inas" mais?

    "Olá

    Bem, existem duas situações: quando os sintomas aparecem e quando você acaba descobrindo a doença. 

    Às vezes pode demorar muito entre os primeiros sintomas e a descoberta  da doença, principalmente pela falta de informação e preconceito que cerca os transtornos mentais. 

    Mas cada caso é um caso, ainda mais em se tratando de esquizofrenia. 

    No meu caso em particular, quando os sintomas começaram a aparecer em primeiro lugar veio a confusão mental total, por causa das vozes e outras alucinações. Na época não tinha a mínima noção do que era esquizofrenia e tinha quase total convicção de que o que estava acontecendo comigo era de origem espiritual, e então pulava de igreja em igreja com a finalidade de expulsar esses maus espíritos que estavam me incomodando. 

    Muitos anos depois, só depois de comprar um computador e aprender a usar a internet é que descobri o que tinha. No meu caso foi uma forma de aprender sobre esquizofrenia e consequentemente um pouco de mim mesmo. Infelizmente nas consultas com os psiquiatras e psicólogos não tive as informações que precisava, apenas anotavam o que eu relatava e me receitavam os antipsicóticos. 

   Em relação ao fato de uma pessoa com esquizofrenia poder ser feliz ou não, é bem relativo: depende da gravidade do caso, da estrutura familiar do paciente e, principalmente do conceito de felicidade. Hoje em dia está complicado até para as pessoas "ditas normais" serem felizes com tanta coisa ruim acontecendo pelo mundo. O que posso dizer é que as pessoas com esquizofrenia podem sim ter seus momentos felizes se ela tiver amigos e, principalmente, for amiga de si mesma. De nada adianta ter tudo em volta se a pessoa não quer lutar contra a esquizofrenia e principalmente contra o preconceito que cerca o transtorno, algo que acho tão prejudicial quanto a própria doença. 

   Afinal, podemos ser felizes o tempo todo? A felicidade é um estado de espírito, ou temos momentos de felicidade e tristeza? Essa questão não sei responder, pois vejo pessoas com tão pouco sendo aparentemente felizes e pessoas com muito não tendo demonstrações de felicidade. Sempre quando viajo pelo interior vejo a felicidade na simplicidade e na paz de espírito nas pessoas que estão mais afastadas do mundo moderno e com um maior contato com a natureza. 

    Em relação à quetiapina, ela pode nos deixar um pouco robotizado, sem emoções, sem achar graça em nada. Mas também os sintomas negativos da esquizofrenia  podem nos deixar apáticos. Tomei a quetiapina por vários dias e confesso que é uma sensação terrível ficar sem sentimentos, sem nos emocionar com nada, nem mesmo com um gol decisivo do nosso time de coração. 

    Também pode fazer parte da esquizofrenia a oscilação de humor, um sintoma característica da bipolaridade. Tem dias que estamos super bem e outros estamos tão mal que procurarmos os sintomas no google de uma possível doença. Eu mesmo fico com receio de marcar algum compromisso, pelo simples fato de não saber como estarei naquele dia. 

    Penso que dinheiro seja necessário , não sou de ficar glamorizando a pobreza, afirmando que dinheiro não traz felicidade. Precisamos de dinheiro para ter qualidade de vida.

    Espero ter ajudado e obrigado pela visita ao canal. 

    Escrevi algo sobre isso no meu blog, sobre um filme que não é muito profundo, é uma comédia, mas que faz refletir bastante. "

https://memoriasdeumesquizofrenico.blogspot.com/2015/10/sonhos-de-um-esquizofrenico.html


O embotamento afetivo

Os antipsicóticos nos deixam robotizados fisicamente e emocionalmente


    


Link do meu canal no youtube:

domingo, 23 de maio de 2021

A minha relação com as drogas

 


     No último dia 16 de maio, "o cantor"mc kevin morreu ao cair do 11º andar* de um prédio na zona oeste do Rio de Janeiro.   Até hoje muitas contradições sobre a causa da queda ainda existem. Afinal, o que leva uma pessoa a tentar algo em uma altura tão grande?  

     A versão inicial era de que o funkeiro estava trancado em um quarto com várias mulheres e que ficou sabendo que sua mulher havia descoberto a traição e que estava batendo na porta do apartamento.  Mas a versão mais recente é que ele estava com uma modelo e que havia cobrado 2 mil reais para um programa sexual. 

    Também se fala que ele havia consumido drogas sintéticas, o que não duvido, pois o mesmo já foi preso em Belo Horizonte por estar portando entorpecentes. 

     Enfim, não quero entrar em detalhes sobre o ocorrido pois até o dia de hoje não se fala em outra coisa a não ser na morte desse funkeiro. Morrem milhares de pessoas no país por causa da pandemia, assassinatos bárbaros e covardes e só se fala na morte de um cantor de funk.

     Como relatei, testemunhas afirmaram que o funkeiro ficou sabendo que sua esposa estaria batendo na porta do apartamento. Então, com medo de ser pego no flagrante de traição, resolveu tentar ir para outro apartamento. 

    Mas isso é justificativa para arriscar a própria vida? Obviamente que não, acredito mais que kevin estava sob o efeito de drogas sintéticas, que são as mais perigosas, pois são fabricadas em laboratórios e atingem o cérebro com maior velocidade e potência, causando alucinações e delírios. 

    Essas drogas sintéticas, principalmente o ecstasy deixam o individuo eufórico, fora da realidade.

"Os usuários dessa droga sentem aumento do estado de alerta, maior interesse sexual, sensação de bem-estar, grande capacidade física e mental, euforia e aumento da sociabilização e extroversão."

Fonte:  https://brasilescola.uol.com.br/drogas/ecstasy.htm

    A euforia, a falta de contato com a realidade, a sensação de grande capacidade física e mental provavelmente fizeram o cantor a cometer tal imprudência. Talvez tenha imaginado que fosse o homem aranha e tentado escalar o apartamento. 

     Enfim, não irei entrar em detalhes sobre o ocorrido, pois o que não faltam são notícias sobre a morte do cantor. 

A minha relação com as drogas

    Se falam em várias causas da esquizofrenia: genética, stress, desequilíbrio químico do cérebro e também o uso de drogas. 

     Mas o motivo da postagem é falar sobre a minha curta e não muito íntima relação com as drogas. 

    Me lembro bem da primeira vez que usei uma droga. Tinha com 17 anos e estava em um show de heavy metal, aqui em Belo Horizonte. No meio do show meu amigo me diz que se eu misturar cachaça com um certo xarope iria ver tudo colorido. Apesar de estar quase completando a maioridade, ainda era um cara bem inocente. É que naquela época era tudo um pouco demorado: éramos crianças até os 15 anos de idade e começava a adolescência por volta dos 16 anos. Idade adulta mesmo era por volta dos vinte anos. 

sou roqueiro mas sou careta, no máximo uma cervejinha ou um vinho...


     Fiquei curioso para ver tudo colorido. No fundo achava minha vida um pouco sem graça e monótona. Aliás, até hoje acho, a música "Tédio" , da banda Biquini Cavadão, tem tudo a ver comigo. Fui até a farmácia mais próximo e comprei o tal xarope. Voltei para o local do show e tomei quase todo o vidro de xarope com meio copo de cachaça. Na verdade não gostava muito de beber, mas imaginava que para ser roqueiro de verdade tinha que ter cabelo comprido e "tomar todas"....

     O tempo foi passando e nada de ver algo diferente ou colorido. O show acabou e voltei a pé para casa. No meio do caminho fui parado por dois policiais que encontraram o vidro do xarope em meu bolso ( não te disse que era meio inocente? ou burro mesmo?)

    Os dois policiais ficaram mais de uma hora me fazendo ameaças e me pressionando psicologicamente. Por fim chamaram a rotan, a polícia mais perigosa e violenta de Belo Horizonte na época. Fui agredido com um porrete na cabeça, me colocaram dentro da viatura com os vidros fechados e soltaram spray de pimenta em mim. Fui levado ao juizado de menores e fiquei lá até ser liberado quando minha irmã apareceu, pois disse que minha mãe tinha problemas de coração. 

       Apanhei um pouquinho dos outros menores, pois minhas roupas e outras "cositas" mais. Não conseguiram, mas apanhei um pouquinho e por sorte fui literalmente salvo por um sino. Era seis horas da manhã e o funcionário do juizado de menores apareceu no corredor acordando a galera com o tilintar de um sininho....

     Meus colegas ficaram revoltados com o ocorrido, e um deles disse que poderia me ajudar, pois seu pai era advogado. Pensei um pouco e não aceitei, pois havia chegado à conclusão de que havia um lado positivo naquela história toda: fora a minha primeira experiência com as drogas e já fui levando uma lição, que, no meu caso, teve que ser daquele jeito, pois não tive pai e minha mãe tinha problemas auditivos e quase não conversava comigo. 

     Depois dessa experiência, experimente a maconha 3 vezes, mas não tenho certeza se a inalei  corretamente, pois não gosto de nenhum tipo de fumaça. E a verdade é que nunca precisei de drogas para fugir da realidade ou para diminuir a ansiedade ou outros fins. Era uma pessoa pacata e tranquila, um cara bem distraído mesmo e que não reparava nada em sua volta. 

     Hoje continuo achando que o abuso da polícia no meu caso em particular foi benéfico, era também meio cabeça dura e acho que se não acontecesse nada naquele dia iria continuar a usar mais drogas e hoje poderia estar trilhando um outro caminho. Não sou a favor desse tipo de abordagem violenta, principalmente pelo motivo de estar portando um vidro de xarope, é que naquela época as coisas eram assim em relação as drogas. Já a polícia continua a mesma, ou até pior em relação à violência, claro que existem os bons policiais e espero que não se sintam ofendidos, é apenas constatação da realidade, é só ler um pouco ou assistir tv. 

     Atualmente continuo o mesmo em relação as drogas: não preciso delas, talvez consiga ir para outros mundos somente com a minha maluquice mesmo, ou o meu mundo já seja uma loucura?

      Não quero saber das drogas, nem das lícitas.  Loucura é estragar seu cérebro para tentar ser feliz. 


*Há controvérsias sobre qual andar ele estava, até o momento em que digitei este texto a informação era de que o funkeiro estava no 11º andar, mas últimas notícias afirmam que o andar correto era o 5º

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Vozes na esquizofrenia

 

Vozes que escuto na esquizofrenia

    A alucinação auditiva é um dos sintomas clássicos da esquizofrenia. Nem toda pessoa com esse transtorno tem esse tipo de alucinação. Ouvir vozes também não é exclusividade de quem tem esquizofrenia. Quem está em depressão  também pode ouvir vozes (depressão psicótica). Assim como os bipolares em crise, que podem ter delírios e psicoses. 
    Uma das curiosidades principais que as pessoas têm acerca da esquizofrenia são as vozes. O que elas nos dizem? São vozes dos “amigos” imaginários que talvez possamos ter ou criar? São vozes do bem ou do mal? ou são vozes do além?
  Até hoje os cientistas não sabem explicar o verdadeiro motivo pelos quais as pessoas com esquizofrenia ouvem vozes. Estudos não faltam, mas até hoje não foram conclusivos. Existe a teoria de que seja a área responsável pela audição que fica com uma superatividade durante um surto psicótico. Devem existir várias outras, mas explicar a origem deste fenômeno não é o objetivo principal desta postagem. Afinal, sou apenas uma pessoa com esquizofrenia, que, além de curiosa, procura também ajudar a esclarecer esse transtorno que ainda é um mistério para a ciência. 
    Em primeiro lugar, gostaria de dizer que a maioria das pessoas com esquizofrenia não tem amigos imaginários, e sim muitos inimigos imaginários, devido, principalmente, a mania de perseguição. Também se faz necessário ressaltar que cada esquizofrenia é única, pois é um transtorno que envolve muito o lado psicológico do indivíduo, não sendo apenas um mero desequilíbrio químico do cérebro (aumento de dopamina). Obviamente existem os sintomas e comportamentos semelhantes, como a desconfiança exagerada, a reclusão, etc. Por isso irei citar as minhas vozes e algumas que já ouvi dizer que muitos ouvem por ai, mas que não aconteceram comigo.
    Antes dos surtos, já era uma pessoa um bocado desconfiada e um pouco retraída. Mas nada que me impedisse de ter uma vida relativamente normal. Ia à shows, cinema, trabalhava, etc... Às vezes saía sozinho e às vezes com uma namorada ou outra.(meus relacionamentos não duravam mais do que duas semanas). 
    Mas, por volta dos 28 anos as coisas começaram a mudar em minha vida. Morava em uma pequena cidade do interior de Minas Gerais e realmente era uma pessoa bem comentada por lá. Mas geralmente falavam bem de mim, por ser uma pessoa honesta e trabalhadora. Era um bom operador de som e não sei por que muitas garotas e mulheres daquela cidade me achavam bonito. O fato de morar na capital também acredito que ajudou para que eu tornasse uma pessoa bem falada naquele lugar.
- Olha, um gato andando com um cachorro. (cheguei a ouvir quando estava passeando com um cão)
- Ele está magro.
-Ele está gordo.
-Ele é bonito.
-Ele é feio.
    Acima alguns dos comentários que eu ouvia logo quando cheguei na cidade. Isso me incomodava um pouco, mesmo os elogios, pois as pessoas pareciam ter um pouco de receio de falar com aquele cara esquisito e caladão que eu era. 
   Também ouvia de verdade muitos comentários a respeita de minha sexualidade. Não ficava com todas as garotas que se aproximavam de mim, e muitos pensam que todos os homens tem que “pegar” todas que aparecem pela frente, caso contrário o cara é gay.
   E, como já relatei,  era um cara caladão, um pacato cidadão mesmo. E isso, para alguns moradores daquela cidade  era legal, mas, para outros era sinônimo de “mitidez”. Acredito que quem seja muito calado e que não saia cumprimentando todo mundo seja visto com um pouco de antipatia. Acho engraçado as pessoas não gostarem tanto das pessoas caladas e já acharem normal a fofoca e um monte de merdas que algumas pessoas saem falando por aí. Ou seja, para ser bem visto é melhor falar bobagem do que ficar calado... Vá entender os "normais"...  Não tenho paciência para ficar falando do tempo e da vida alheia, os assuntos mais usados para quem não tem assunto para conversar... 
pessoas fofoqueiras existem em todo lugar, tudo o que é ruim se alastra mais rapidamente...

    Com o passar do tempo e pelo fato de ser um bom empregado criei algumas inimizades no trabalho, já que eu ganhava um pouco mais do que o restante dos funcionários da empresa em que trabalhava. Aquela situação de ter algumas inimizades no trabalho me fez uma pessoa mais retraída e desconfiada do que eu já era.
    Após alguns anos trabalhando naquela cidade passei a ouvir mais comentários do que costumava ouvir no início. Ouvia comentários depreciativos das pessoas, mesmo elas estando há uns trinta ou mais metros de distância de mim. 
   No início eram comentários zombeteiros, depreciativos mesmo. As vozes comentavam coisas banais do dia a dia, falavam coisas que eu estava fazendo:
- Ele nem consegue correr direito. - ouvi quando estava fazendo caminhada.
- Ele está com a mesma roupa de ontem.
- Ele gosta de Roberto Carlos...
- Ele está com aids...
    Esse último comentário foi o que mais me prejudicou. Isso aumentou principalmente em uma fase em que estava um pouco triste e parecia que o meu sistema imunológico estava em baixa, pois foi um período em que tive muita diarreia e outros problemas que os médicos classificavam como virose, depois da ida ao hospital. Também peguei dengue duas vezes quase que seguidamente.
   E, numa dessas emagrecidas o boato de que eu estava com aids acabou meio que se tornando real naquela cidade. Se tornou tão real que até eu mesmo acreditei e nem fiz o exame, por medo do resultado e também por acreditar que realmente estava com aids, apesar de não ser uma pessoa promiscua e sempre usar o preservativo. E, para piorar a situação, os sintomas  que eu estava apresentando eram bem parecidos com os da aids: fraqueza, diarreia, emagrecimento rápido e exagerado. O jeito era esperar os sintomas mais severos aparecerem para dar um fim a minha vida.
    As vozes começaram a disparar com o tempo:
    - Ele está se preparando para virar um mendigo. – tinha ouvido essa voz bem nítida em minha mente, mas o engraçado é que o cara estava na outra ponta do quarteirão. E a voz era sussurrada, logo o cara teria que gritar para que eu ouvisse esse comentário.
    Comecei a ouvir também que os evangélicos viviam comentando que eu estava com demônio no corpo, tanto que cheguei a procurar algumas igrejas para expulsar o suposto tinhoso que tinha se apossado do meu corpo.
    Com o tempo as vozes que eram comentaristas e zombeteiras passaram a ser ameaçadoras:
    -Vamos pegar ele hoje de noite?
    Essas vozes ameaçadoras eram as piores. Acho que são elas que fazem boa parte das pessoas com esquizofrenia a terem algum tipo de reação violenta. Mas a maioria se tranca em casa mesmo, ao contrário do que muita gente pensa.
    Essas vozes ameaçadoras são tão complicadas que resolvi pedir demissão do meu serviço e ir parar nas ruas. Tinha que fugir desses “inimigos imaginários” que queriam me pegar de qualquer jeito.
  Também tive algumas vozes sem noção, ou seja, não diziam coisa com coisa. Uma vez, de madrugada, comecei a ouvir uma voz que parecia estar falando em alemão. Era alta parecia estar falando ao microfone e também gritava. E isso me fez pensar que era o pastor da igreja que ficava perto do local onde morava na época.
    Fiquei rindo por um bom tempo com aquela gritaria toda, pois ela não parava um instante sequer. Cheguei a pensar que o dono dessa voz iria ter um ataque do coração, pois não parava nem para respirar. Hoje sei que essa voz foi uma grande alucinação, pois aconteceu de madrugada e provavelmente a vizinhança teria reclamado por causa do suposto som alto vindo da igreja. 
    Tive outras vozes sem noção.Quando estava surtado morando nas ruas de Belo Horizonte, uma voz aguda e feminina ficou horas seguidas pedindo para que entrasse em alguns locais. Eu obedecia, entrava e ficava esperando ela dar mais ordens. Como ela não me dizia mais nada, ia embora e voltava a ficar sentado nas calçadas das ruas. Essa voz era bem estranha mesmo, não dizia coisa com coisa, ainda bem que durou apenas algumas horas. 
    E também tem a voz da nossa consciência, que acredito que muitas pessoas confundem com alucinações. Acho que em determinada fase de nossas vidas começamos a refletir se fomos boas pessoas, se agimos corretamente diante dos fatos. Talvez seja a crise da meia idade, ou a idade de Cristo. Muitas pessoas começam a se culpar exageradamente por certas atitudes que tiveram pelo caminho de suas vidas. Dependendo da pessoa e da situação, podem até surtar. (foi o meu caso).  Na bíblia (não sou evangélico e nem católico), dizem que Judas se matou depois de ter traído Jesus. (é só um exemplo).
   O sentimento de culpa exagerado é também um dos sintomas da esquizofrenia. Não está atualmente citada no CID atual, mas já esteve. Também retiraram o complexo messiânico dos sintomas que constavam no CID, o motivo por qual não sei. Talvez alguns queiram reduzir a esquizofrenia a somente um desequilíbrio químico, ou seja, o excesso de dopamina. Já ouvi psiquiatra afirmando que esquizofrenia é igual a diabetes, é só tomar o remedinho que tudo está bem e controlado. O problema é que a dopamina é necessária ao nosso organismo, na dosagem certa, é claro. Os antipsicóticos reduzem essa substância para diminuir nossa reação diante dos pensamentos e alucinações, mas também diminuem a nossa vontade de realizar as tarefas básicas do dia a dia. A dopamina é a responsável pela motivação, pela vontade de executar as ações. 
a luta entre o bem e o mal em nossas consciências 

    Então, quem tem esquizofrenia pode ter o sentimento de culpa exagerado, e as vozes de nossa consciência podem se tornar tão brutais que podem nos levar á uma crise de consciência braba e nos julgar por atos que não foram tão cruéis assim. No meu caso me senti culpado por tudo. A voz foi incessante e me culpou por muita coisa, de coisas que havia feito e outras que não havia feito. Me senti muito culpado também pelo fato de achar que estava com aids e supostamente ter contaminado as poucas pessoas com quem tive relacionamento sexual sem preservativo. Na época em que comecei minha vida sexual a aids ainda era quase que exclusividade dos homossexuais, os casos de mulheres infectadas com o vírus do HIV estavam começando a aparecer. Como penso que quem transmite o vírus da aids conscientemente seja um assassino, também passei a me consideram um, e a voz foi cruel comigo e não me perdoou, tanto é que cheguei a pedir para um policial me prender durante a fase aguda do meu segundo surto psicótico.
    Essas vozes parecem vir de fora, é como se fossem ecos. Elas parecem bater em alguma coisa e voltar para nossas mentes, talvez por isso temos a convicção de que são outras pessoas falando.
    Como podem ter observado, tive quatro tipos de vozes: comentaristas, zombeteiras ameaçadoras e as sem noção. Ainda existem as vozes de comando, que são bem comuns nas pessoas com esquizofrenia. Tive a sorte de não ter esse tipo de voz, pois poderia representar algum perigo para outras pessoas. Mas por sorte só representei perigo para mim. e talvez por isso não cheguei a ser internado. E do jeito que falam sobre os manicômios, foi melhor ficar nas ruas mesmo até melhorar. Tive a sorte de encontrar muita gente boa pelo caminho. 
    Até hoje ouço essas vozes, mesmo estando com o fone de ouvidos na maior altura ouvindo um heavy metal. Mas elas não me fazem tanto mal como antigamente. A gente meio que se acostuma com elas, tudo o que é novidade pode nos assustar, mas hoje não dou tanta importância a elas e parece que elas acabam ficando meio sem graça para continuar a me importunar.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Desistências

 Quem nunca passou por momentos difíceis em suas vidas?


    

    Depois que a esquizofrenia apareceu em minha vida, tive vários momentos de desânimo total, a ponto de tentar o autoextemínio ou então ficar inerte à tudo e à todos.
    Um dos piores momentos foi em 2004. Estava tão debilitado fisicamente e mentalmente que pedi demissão da firma onde trabalhava, em uma pequena cidade do  interior de Minas Gerais. 
    Com a grana do acerto, fui em uma churrascaria para fazer a minha última refeição, e depois fui na casa da luz vermelha para ter a minha última transa. Estava mais aliviado do que desesperado. Acho que estava me sentindo mais leve por não ter que ver mais tantas pessoas. Estava tão tranquilo que fiquei ouvindo a garota de programa falar sobre seus problemas conjugais, que havia ido para aquele lugar pois seu marido era muito violento.
    No dia seguinte comprei um colchonete, um radinho e um monte de pilhas. Não tinha mais coragem de tentar tirar a minha vida, então queria deitar em uma calçada, ligar o radinho de pilha e ficar lá até morrer. 
   E fiquei assim sexta feira e todo o final de semana. Na segunda feira começou a agitação no centro, várias pessoas passavam pela calçada para me ver. Tive que tomar diazepan acho que de hora em hora para não surtar. Apareceu um policial e me deu um tapa nas costas, pois eu estava deitado de bruços. Depois apareceu uma ambulância e mais policiais. Provavelmente alguém havia me denunciado por estar tomando medicamento por seguidas vezes. Eles não foram muito amigáveis comigo. Mas, antes que me abordassem novamente apareceu uma assistente social e foi possível ouvir ela dizendo que me conhecia e que eu era um cara trabalhador e que não usava drogas e que gostava de praticar esportes. O policial até veio a se desculpar comigo. 
    Então fui levado para um albergue e permaneci por lá por mais de um ano, convivendo com ex detentos, pessoas em situação de rua e trecheiros que viajam pelo Brasil meio sem destino certo. Comecei a fazer o tratamento e hoje estou indo bem, não estou curado, mas só tenho que agradecer por estar vivo para poder contar estas histórias. Acho que meu anjo de guarda trabalha muito bem e que sou um cara de sorte, apesar de não ser rico e só ter uma bike usada e uma tv LCD de 32 polegadas. Ah, e tenho um notebook da Dell, que consegui comprar quando estava viajando por aí com a minha mochila economizando a grana do aluguel. 
   Mas me considero um cara de sorte, não era nem para estar vivo, mas estou. Estou vivo e ainda consegui me entender um pouco como pessoa após os surtos. Loucura para mim hoje em dia é querer agradar à todos deixando de ser você mesmo. 
   Podemos tirar lições até das piores situações em que vivemos em nossas vidas. 

sábado, 28 de março de 2020

Live- Bate papo informal sobre esquizofrenia e outros assuntos aleatórios

  Ontem tomei coragem e fiz uma live no youtube. O isolamento quase que total por conta do coronavírus me deu vontade de falar um pouquinho. Até que estava mais ou menos à vontade, o vizinho "trevoso" não estava em seu quarto.
    O cara até que enfim arrumou um emprego e as energias ontem de noite estavam boas. Mas é sério, é sempre bom todas as pessoas estarem bem, até mesmo com quem você não tem muita afinidade, pois estando felizes provavelmente irão esquecer de você. Parece que ele descontava em mim a sua frustração por estar desempregado e eu aposentado.
    Até assino um documento e passo o meu salário de aposentado para quem passar por pelo menos metade das situações pelas quais passei por conta da esquizofrenia.
    Mas uma simples live não é uma tarefa tão fácil assim para a minha pessoa. Antes dos surtos me comunicava super bem quando queria, e isso não acontecia com frequência, pois sempre fui um pouco antissocial. Conseguia falar bem nos trabalhos escolares, não tinha nenhum receio, não ficava nervoso nem nada. Ontem deu um friozinho na barriga até que gostoso para a vida de um cara entediado por causa do dia a dia de um fóbico social ainda mais isolado por conta do coronavírus. 
    É bom sentir essas emoções, o coração dar uma disparadinha, aquela ansiedade de realizar alguma tarefa, coisa que os medicamentos não me deixavam sentir. 
     Obrigado à todos que sempre estiveram me acompanhando aqui no blog, no canal no youtube e na página do face. 

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Contos esquizofrênicos


    Antes de começar a postagem, gostaria de mencionar que às vezes uso o humor para retratar a minha esquizofrenia. Não tenho o costume de brincar ou zombar com a dor alheia.


       Como a maioria deve saber, tenho esquizofrenia, a tal de F20 que não tem nada a ver com caminhonete. 
    E um dos sintomas clássicos da esquizofrenia é a alucinação auditiva, as vozes.
    Mas é difícil de se lidar com elas? São muito irritantes? O que elas me dizem?
    No meu caso logo no primeiro surto grave já dei um fora nela. Estava perambulando pela BR 040, quando parei para descansar. Não estava conseguindo ficar muito perto das pessoas no centro da cidade, pois imaginava que o mundo inteiro queria me pegar. Era um belo dia de sol naquele verão do ano de 2001.
     De repente a voz me disse:
    - Você é uma alma penada!
     Sem brincadeiras e exagero, naquele momento chorei de alegria por ter recebido aquela noticia.          Afinal estava surtado e imaginando que o mundo inteiro queria me trucidar.  Mas não seria uma morte simples, com um tiro na cabeça. Em minha imaginação queriam que eu tivesse uma passagem bem sofrida. Acho que o meu sentimento de culpa exagerado tenha influenciado nessa alucinação, pois desde criança era muito encucado com esse lance do bem x mal, o que era certa ou errado, etc... Não me achava  mau o suficiente para queimar nas chamas eternas do  inferno, mas também não me achava um santinho para ir para o céu. 
    Antes de surtar por volta dos 32 anos havia feito uma análise de toda a minha vida, e comecei a me culpar por tudo de errado que havia acontecido comigo e com outras pessoas. Se o atentado de 11 de setembro nas torres gêmeas tivesse acontecido antes do surto, provavelmente iria assumir a autoria... 
    Mas por que achei a mensagem da voz do além boa naquele momento? Como disse, imaginava que estava sendo perseguido. E alma penada é invisível né? 
    Então meus problemas estaria resolvidos com essa minha nova condição de alma penada. Os meus inimigos iriam me alcançar mas passariam direto por mim e eu ainda iria dar risada e pregar uma peça neles. 
    E, além disso alma penada pode ir para onde quiser, não se cansa, pode dar sustos nos outros, pode entrar aonde quiser sem ser notado. Estava até planejando ir para o Espírito Santo curtir uma praia, mas tinha dúvida se alma  penada poderia sentir a água  gelada e a brisa do mar. Enfim, seria uma alma penada do bem, assim como o Gasparzinho, o fantasminha camarada. 
    E também alma penada não precisa se preocupar com alimentação e muito menos com roupas (detesto lavar roupas). Enfim, até que a vida de alma penada não seria má coisa para aquele momento específico de minha vida... 
    Então sai pela BR mais feliz do que nunca e o engraçado é que eu estava me sentindo mais leve mesmo. 
    De noite, quando passei na entrada de um condomínio, um monte de cachorro começou a latir. Dizem os contos mineiros que eles conseguem enxergar alma penada. Continuei perambulando pela BR e entrei em um posto de gasolina. Havia perdido a noção do tempo, a noite estava demorando a passar  e cheguei a imaginar que viver na escuridão fazia parte do meu castigo. Então subi em uma cabine de um caminhão e perguntei as horas para  o motorista que estava dormindo. Era madrugada e eu fui logo perguntando, não tendo o cuidado de acordá-lo devagar. Obviamente ele se assustou e muito, pois estava dormindo com a janela aberta. Mas, na minha cabeça ele havia se assustado por que tinha avistado uma alma penada.
   No dia seguinte, ainda estava com dúvidas se realmente era uma alma penada ou não. Resolvi sentar na entrada de um restaurante para esclarecer de uma vez por todas sobre a minha condição de alma penada ou de ser humano. . Se não me enxergassem e passassem por mim, realmente eu era uma criatura do além. Se me pedissem licença, aquela voz teria sido algo de minha cabeça. 
    Não deu dois minutos e uma pessoa me disse educadamente que não poderia ficar ali sentado. Foi o suficiente para acreditar que não era uma alma penada. Mas a voz continuou e continua até hoje a me perturbar.  E sempre será um novo desafio tentar decifrar o que ela quer dizer, ou então ignorá-la.