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terça-feira, 16 de abril de 2019

24º dia- Pedalanças segunda etapa- São Mateus - Marataízes


Anchieta-Marataízes
     Noite mais do que tranquila em Anchieta. Mas não dormi bem. Devo estar sentindo a falta do cloreto de magnésio, que foi fundamental no desmame do diazepan. Fiquei com receio de levar o CM na mochila, com medo de estragar ou dar alguma reação adversa, pois o CM é um mineral. E não estou tomando o diazepan, com receio de ficar viciado novamente. 
    No posto de gasolina faço a barba e noto que estou com a aparência de quem está bem cansado. Infelizmente vou ter que voltar a tomar cerca de 2.5mg do diazepan, para conseguir relaxar a musculatura e assim tentar dormir um pouco. Às vezes é preciso retroceder um pouco para avançar novamente. Mas não quero perder essa batalha para esse ansiolítico que só trouxe prejuízos para a minha vida e para minha saúde. 

    Depois do café faço uma visitinha ao santuário do Padre Anchieta, o qual já estive no ano de 2012, durante minhas andanças no caminho do Padre Anchieta. Mineiro gosta do litoral capixaba. 
    Após o santuário, pego a estrada para Marataízes Caminho bem legal, só de reta e quase sempre com o visual da praia à minha esquerda. Isso dá uma melhorada no astral da viagem, quando tem praia não fico com pressa de pedalar. Passo por Píuma e várias outras pequenas cidades do litoral sul do Espírito Santo. Dá até vontade de procurar um quartinho para alugar nessa região, que não deve ser muito caro. Um dos meus sonhos é morar na beira da praia. Como citei acima, a praia me deixa de bom astral, é muito bom dar uma volta de bike na orla. Além de dar um bom mergulho, é claro. 
Píuma

     Quando já estava quase na estrada para Cachoeiro do Itapemerim, compro um abacaxi desses vendedores que ficam na beira da BR. Sempre é aquela conversa, de onde vim para onde vou. E um deles me aconselham a dormir em Marataízes, pois lá perto tem um posto onde poderia dormir e tomar um banho. 
    Como não estou com pressa acabo achando a ideia do vendedor de abacaxi muito boa. Desço até a orla de Marataízes e tento matar as saudades de minha infância, pois minha família ia muito nesta cidade durante as férias. Tento em vão me recordar de algum lugar que havia visto quando criança. Dou um mergulho na praia e passo o resto da tarde curtindo o visual daquele lindo lugar. É um pouco cansativo arrastar a bike com a carga na areia, mas valeu a pena o esforço. 
     Na hora de subir a BR para o posto de gasolina fico exausto. Aquele vai e vem nas areais me tirou as energias. Descanso um pouquinho em um ponto de ônibus. Muitas pessoas curiosas ficam me olhando, não imaginava que aquela bicicleta com mochilas na traseira e na frente chamasse tanta a atenção. Vou tentar fazer alforjes na próxima viagem, que são mais discretos. Mas acho que viajantes de bike sempre despertam a curiosidade das pessoas. O que nos levam a viajar? Onde encontramos coragem para enfrentar os perrengues? Não temos medo do trânsito? Ou até mesmo das pessoas? Acho que são estas as principais curiosidades das pessoas em relação aos viajantes de bike. 
     Depois do descanso subo para o posto Ipiranga de Marataízes, que, ao contrário da propaganda, não tem muita coisa não. Na lanchonete quase não tem nada para comer.

Marataízes

sábado, 13 de abril de 2019

23º dia pedalanças Segunda etapa -São Mateus-Marataízes- ES

até o momento a relação com os motoristas está sendo de muito respeito e sem problemas
    Barra do Jucu-Guarapari-Meaípe-Anchieta

    Após alguns dias parado em Barra do Jucu o pagamento finalmente havia chegado! A noite foi bem longa, estava ansioso para voltar a pedalar novamente. À todo momento colocava a cabeça para fora da barraca para ver se o dia havia amanhecido. O meu celular estragou e agora sempre começo a desmontar a barraca quando sinto que são mais ou menos seis horas da manhã. 
     Claro que tomei um caprichado café da manhã, afinal foram alguns dias passando por algumas dificuldades. Mas estou me sentindo bem nessa vida que estou levando. Não sei exatamente quanto tempo ficarei viajando de bike. Se pudesse seria pelo resto de minha vida. Mas temos que cuidar de nossa saúde física também. Ficar o dia inteiro pedalando não deve fazer bem, nenhum exagero pode fazer bem ao ser humano. O nosso corpo não foi feito para ficar 10 horas quase que seguidas pedalando por uma boa parte de nossas vidas. Mas se não fosse os perigos com a segurança, e a desconfiança exagerada de alguns moradores de algumas cidades, poderia pensar seriamente em seguir esse estilo de vida, pedalando menos e ficando um tempo maior nas cidades. 
     Após o café pago as dívidas contraídas em Barra do Jucu e compro aqueles sprays que servem para um monte de coisa, principalmente para desenferrujar metais. Dou uma boa limpeza na bike para tirar a maresia contraída em Barra Nova, quando cismei de andar na beira da praia. 
    Compro o cabo e o passador de marcha, que está quebrado. E eu mesmo faço a manutenção, aprendi no youtube várias coisas sobre consertos de bicicletas. 
#partiuguarapari

    Bicicleta pronta, hora do almoço. Claro que caprichei no rango, fazendo uma montanhazinha no prato. Almocei no cara que não havia cobrado o rango, mas disse que estava ali como cliente e não como pedinte, pois a comida do restaurante dele era muito boa.
    Já estava com saudades de pedalar e sentir o ventinho no rosto. Como estou descansado sigo em um bom ritmo e chego em Guarapari por volta das quatro da tarde. 
Resolvo seguir até Anchieta, passando por Meaípe, apesar de não estar preparado e nem a bike para andar de noite. 
Meaípe

    Como em Linhares, escuridão total na BR, que tem um bom acostamento. Aliás, quase todas as estradas no Espírito Santo parecem ter acostamento. Dá para enxergar um pouco a faixa branca que separa a BR do acostamento, e também tenho que contar com a sorte para não passar por algum buraco ou objeto grande que faça a bike cair ou desviar a rota. Mas, claro, vou pedalando bem devagar. 
     Levo alguns sustos quando vejo alguém pedalando também naquela escuridão. Somente quando está bem perto é que dá para notar alguém. Também vi um cara andando naquela escuridão da BR. Confesso que dá um pouquinho de medo sim, e também um pouco de adrenalina. Um misto de medo e euforia pela aventura. 
    Devo ter chegado em Anchieta por volta das nove horas da noite, e bem cansado. Tenho que aprender a dosar minhas energias.
     Depois de algumas voltas pela cidade, consigo encontrar um posto de gasolina onde tomo um banho e lavo minhas roupas. 
   Atrás do posto encontro um ótimo local para montar a barraca. É plano e com quase nenhuma agitação. Hoje foi um dia que quase não tive contato com as pessoas, fiquei praticamente o dia inteiro em cima da bike. 

22º dia pedalanças-Segunda etapa-São Mateus à Marataízes

a maresia da praia deserta em Barra Nova, quando andei pela beira da praia
    Amanhã é o pagamento, último dia aqui em Barra do Jucu, que é uma cidade bem legal, mas, para quem está pedalando ficar mais de dois dias em um mesmo lugar já é um pouco demais. 
    Passo os dias na maior tranquilidade, no meu cantinho, de frente para a praia. Às vezes tenho que ouvir dos moradores da cidade algumas indiretas, pois eles não gostam muito dos turistas de baixa renda como eu. 
    Outro dia estava na frente do castelo, perto da estátua de um santo, que não me lembro o nome. Um motorista alcoolizado parou o carro e começou a urinar atrás da estátua e eu pedi para que respeitasse a religião das outras pessoas. 
   - Ah, fica aí com sua maconha... - respondeu o motorista bêbado.
    O cara, além de desrespeitar a fé alheia, ainda estava dirigindo embriagado e me chama de drogado...
    Mas tem muita gente boa em Barra do Jucu. As pessoas mais conservadoras e mais velhas do local é que não gostam muito dos turistas de baixa renda. Mas sempre aparecem ciclistas curiosos em saber de onde estou vindo e para onde estou indo. De manhã mesmo conversei com uma galera que mora nas proximidades, um cara com apelido de gigante gostou muito de minhas histórias. Pena que  a câmera da bateria estava descarregada e não consegui tirar a foto da galera. 
     Na hora do almoço tentei mais um almoço fiado, mas desta vez o dono foi gente boa e me arrumou o rango na hora, sem precisar argumentar muito. Agora é só ter paciência e esperar o dia de amanhã para sacar o pagamento, pagar o que devo e dar uma geral na bike para cair na estrada novamente. Já estava com saudades de pedalar na estrada.  

21º dia pedalanças-Segunda etapa- São Mateus à Marataízes

na paz, em Barra do Jucu
     Depois do susto ontem no cemitério, resolvi passar o dia sem maiores surpresas e fiquei no meu cantinho preferido da cidade, afastado e de todos e de frente para o mar.
    De madrugada choveu um pouco e tive que transferir a barraca para debaixo da árvore, em frente ao castelo. A minha barraca é da marca albatroz, ela é boa mas não aguenta muita chuva. A intenção de usar uma barraca é de proteger a mochila e meus pertences. Se acordado já estão nos roubando, imaginem dormindo... 
     Por falar em roubo, afanaram meu capacete enquanto eu tirava fotos do castelo. Não sei como existem pessoas tão ruins neste mundo. O capacete de ciclista custa em torno de 140 reais, mas o que está em jogo é a segurança e a vida de quem está usando. Mas estes ladrões não tem a mínima sensibilidade, só querem roubar, independente da importância do pertence. 
     Enquanto o pagamento não sai vou me virando, comendo biscoitos de maizena e pão. Estou um pouco abatido e, para não ficar na maior bambeza consigo um almoço fiado. Foi o maior custo convencer o dono da padaria de que eu não iria dar o cano. 
    Se existe uma coisa de que não gosto é dever as pessoas. Passo necessidade mas honro meus compromissos. 
    Resolvi almoçar de verdade e não comer bobagens para estar bem no dia do pagamento e começar a pedalar novamente. Enquanto isso vou ficando aqui em Barra do Jucu, mais quietinho para não gastar tanta energia. Mas que é um pouco entediante ficar parado no mesmo lugar o dia inteiro, isso é.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

20º dia pedalanças-Segunda etapa- São Mateus à Marataízes



Carnaval em Barra do Jucu
    A noite foi em frente ao castelo foi relativamente  tranquila. Deu para dormir bem. O carnaval de Barra do Jucu não é daqueles que varam a madrugada e terminam por volta das seis da manhã. Acredito que por volta das duas da manhã o som já tinha terminado, depois do barulho dos carros indo embora o silêncio predominou, só um ou outro funkeiro passando com o som no volume máximo.
     Na madrugada uma simpática largatixa me fez companhia na parte de cima da barraca, à procura de mosquitos para se alimentar. 
   Por causa do feriado de carnaval meu pagamento só sairá no dia 08 de março. Minha grana está acabando e terei que me virar aqui no litoral do Espírito Santo. Estava pensando em ficar esses dias em São Mateus, mas em Barra do Jucu o clima está bem mais agradável. Confesso que nunca havia sentido calor parecido ao de São Mateus. 
   Apesar do carnaval em Barra do Jucu não ser muito agitado, é difícil encontrar um cantinho com sombra e tranquilo para ficar na minha. Fico perambulando pela cidade, até encontrar uma pracinha que fica atrás de uma pequena igreja. 
     Um argentino se aproximou e começamos a conversar. Ele também viaja por aí de bike e já fez muitas pedalalanças pelo Brasil. Disse que agora pretende viajar de barco pelo mundo. Depois nos despedimos e ele ficou de arrumar um rango para mim na parte da tarde. 
    Depois tive que arrumar um esquema em Barra do Jucu para lavar minhas roupas. É como se fosse um desafio esse tipo de viagem. Não um desafio fisicamente falando, pois isso posso administrar, não tenho pressa de chegar em lugar nenhum e vou pedalando no meu ritmo. Tem dia que pedalo bem, outros dias já nem tanto. Sair por aí  com a bike e a barraca no bagageiro é um desafio mental e psicológico para um  fóbico social. Não é tão fácil assim para uma pessoa introvertida chegar em locais desconhecidos e ter meio que se apresentar para as pessoas para não causar estranheza. 
   Voltando a minha estadia em Barra do Jucu,  antes de lavar minhas roupas tomei um bom banho de mar na praia, em um local mais afastado da muvuca. O mar está um pouco agitado. Essa parte que da praia que fico é um pouco perigosa. As ondas são mais fortes e quando elas batem e voltam da praia corremos o risco de sermos levados pela corrente marítima. Cheguei a levar um tombo quando uma onda me pegou quando já estava correndo dela. Umas meninas que estavam vendo riram pra caramba
     Depois da praia, lavar roupa. Mas está difícil encontrar local  na pequena Barra do Jucu. Boa parte dos moradores da cidade não gostam dos turistas de baixa renda. Para eles todo mundo que vai para Barra do Jucu e não tem grana suficiente para gastar na cidade é maconheiro. Então nem pensar em ajuda dos Barrajuquenses. Claro que existem pessoas legais e receptivas neste lugar. Conheci um ciclista que me deu uma graxa super boa que custa por volta de 20 reais.

    O jeito foi ir no cemitério e pedir para o vigia a permissão para usar o tanque que tem lá perto das covas. Isso mesmo. Nas pedalanças não temos e não podemos ficar escolhendo lugar para lavar roupas. Pintou a chance é lavar e pronto. Mas, além de lavar minhas roupas que estão bem sujas tenho a infeliz ideia de tomar uma ducha, mas o vigia não estava no cemitério. Mas resolvi tomar um banho bem rápido. 
     Então abro a torneira e deixo a água morna cair e tirar todo o sal do mar que estava impregnado em meu corpo. Como é bom um banho, só quem está nesse tipo de aventura sabe o que estou dizendo. Mas, no meio da ducha, quando estou todo ensaboado, aparece o vigia, gritando:
    - “Ô” seu maluco, saí daí agora por que daqui a pouco vai ter velório!!!
    Fiquei por alguns segundos estático, não estava esperando por aquela situação. Saí todo ensaboado do banheiro, peguei minhas roupas molhadas e a bike e só haviam umas três pessoas na porta do cemitério. Mas foi bem por pouco mesmo, dois quarteirões adiante estavam chegando a galera de ônibus e uns 7 carros no cortejo fúnebre. 
   Fiquei um pouco preocupado com o vigia, pensando que talvez o pudessem demiti-lo, por ter permitido o maluco aqui usar o banheiro para tomar uma ducha. 
    O restante do dia passei olhando o mar, finalmente havia encontrado um lugar na cidade com pouco movimento e uma vista bem legal para o oceano. De noite montei a barraca no mesmo local, de frente para o castelo. 


quarta-feira, 3 de abril de 2019

19º dia pedalanças- Segunda etapa-São Mateus-ES à Marataízes


castelo em Barra do Jucu
Fundão-Serra-Vitória-Barra do Jucu
    A madrugada foi agitada em Fundão. Afinal eu estava em um posto situado na avenida principal da cidade e era carnaval. Carros passando com o som no último volume, a galera voltando dos shows muito doida e ai ainda tinha o som dos shows que aconteciam nos palcos montados na cidade. 
    Para complicar, muito calor. Acordei detonado e com pouca disposição para enfrentar mais um dia de pedalanças. 
    Meio que me arrastando vou para Serra e tomo um caprichado café da manhã. Mas isso não ajudou muito, estava numa moleza danada. No Espírito Santo caçarola é como se fosse um bolo comum. A gente pede e nos dão um bolo. Em Minas Gerais caçarola é um pouco parecido com pudim. Outra coisa que notei é que o capixaba parece não ter nenhum tipo de sotaque, ou algum modo de dizer alguma palavra específica que indique que são do Espírito Santo. 
     Sigo a viagem pela orla até sentir que as canelas não estavam aguentando mais. Pela primeira vez nesta viagem isso me acontece. O problema maior tem sido o celim, que parece não ser o ideal para longas viagens. Como tempo fica uma "ardência analógica" insuportável. As canelas até que estão indo bem, mas muitas vezes tenho que parar por causa do incômodo do celim. 
     Mas hoje não estou me sentindo bem e o jeito foi descansar na grama de um jardim em frente de um condomínio. Tirei um cochilo de uns 40 minutos, que deu para repor um pouco as energias. 
   


    A parada me deixou um pouco mais animado e melhoro o ritmo da pedalada. Chego em Vitória por volta das 10:30 da manhã. Caminho mias uns 6km até a terceira ponte, que um pedestre erroneamente me indicou para atravessar para chegar em Vila Velha. Mas essa ponte é muito alta e pedestres e ciclistas não podem utilizá-la. Além de tudo, naquele momento estava tendo uma tentativa de suicídio e a ponte estava interditada até para veículos. Mais tarde fiquei sabendo que o cara não havia pulado.  Dizem que na maioria das vezes as pessoas fazem tal gesto numa tentativa de pedir ajuda. 
    Tive que procurar a 2° ponte, andando mais 6km. Por causa do fechamento da 3° ponte e do carnaval o trânsito em Vitória estava bastante complicado, e só consegui chegar na 2° ponte por volta do meio dia. Não estava bem fisicamente, por causa da noite mal dormida.
2° ponte em Vitória
    Queria achar um rango e descansar, mas em Vila Velha estava tudo fechado no centro por ser um domingo. Tive que andar mais 10km até a praia e achar uma padaria caríssima. O jeito foi comprar pão com mussarela e presunto. Estava  bem cansado. 
    As coisas no litoral são muito caras. Dá uma desanimada, uma saudade da estrada real, do pãozinho com manteiga das cidades do interior de Minas. 
     Mas não desisto e mesmo cansado vou para Barra do Jucu, onde estive no ano de 2012, nas minhas andanças no Caminho do Padre Anchieta.
      Sigo pela orla de Vila Velha até Barra do Jucu. As praias estão bem cheias, muito som nos quiosques, alguns com música ao vivo. Mas o som não é muito bom, muito distorcido. E o som de um quiosque acaba se misturando com o do quiosque vizinho. 
    Não entro em Barra do Jucu pelo caminho indicado pelo site do caminho do Padre Anchieta. O local é um pouco perigoso. Quando passei por lá em 2012 tinha muitos travestis e alguns caras escondidos no mato, mas não mexeram comigo. Ando mais um pouco e vou pela BR e chego na cidade, que está bem diferente. Até o castelo está mudado, agora enfeitado com bandeiras, canhões, caveiras e outros apetrechos. 
     Dessa vez encontro o dono do castelo, e conversamos por um longo tempo. Ele me contou que também já foi meio andarilho por muitos anos. Também contou detalhes sobre o castelo,que tem até área subterrânea, onde ficam as prisões e o calabouço.  Ele me deixa montar a barraca em frente de sua excêntrica residencia, em uma área gramada, que também está enfeitada por algumas esculturas de pedra. 


sexta-feira, 29 de março de 2019

18° dia pedalanças- Segunda etapa-São Mateus-ES à Marataízes-ES


Linhares-Barra do Shaí
      Dormi muito bem no posto de gasolina. Silêncio total e não estava fazendo muito calor. 
     Arrumei a bagagem e segui para Barra do Shaí,. A estrada é muito boa, mas é reta pura, que deixa a pedalança um pouco monótona. O clima está bom, céu um pouco encoberto. 

     Depois do almoço, dou uma descansada e escrevo o diário da viagem em uma praia de Barra do Shaí. Muitas pessoas na cidade por causa do carnaval. Mas consegui achar um cantinho para poder escrever sossegadamente. 
    Depois tomo um bom banho de mar, o que renova minhas energias. O lugar é tão agradável que estava pensando em dormir por ali mesmo. Mas ainda é cedo para parar e então resolvo seguir a pedalança, mas sem previsão de parar, ou seja, até quando o corpo aguentar. Há muitos tribos indígenas na região, até pensei em ir conversar com os moradores das aldeias, mas fiquei um pouco receoso, apesar de ter fortes traços indígenas. 

        Passo por várias praias até chegar à cidade de Fundão, por volta das sete da noite. 
        Consigo encontrar um posto de gasolina e o pessoal me deixa montar a barraca. Não tem ducha para o motorista tomar banho, mas com um pouquinho de jeito consigo um balde cheio de água para tomar uma bom banho no fundo do posto onde os carros são lavados. 

quinta-feira, 28 de março de 2019

17° dia pedalanças-Segunda etapa- São Mateus-ES à Marataízes-ES

praia deserta em Barra Nova
   Barra Nova - Linhares
    A noite na praia deserta em Barra Nova foi bem interessante, mas, depois que consegui me ajeitar e me proteger do vento frio tive um enorme susto. Estava deitadinho na areia, com a manta e a coberta, quando, do nada, senti algo me dando duas picadas de leve. Na verdade nem sei se foi picada, ficou parecendo mais as patas de um caranguejo ou siri, sei lá o que deve ter sido. Não foi um ato agressivo, não chegou a doer, foi como um beliscãozinho de leve. 
     Levei um susto tremendo e me levantei na hora.  Pensei que fosse tudo, até criatura do outro mundo, ou algum ser da natureza, querendo me assustar. E,para piorar a situação, não consigo achar a minha lanterna. Esperei um tempo até me acalmar e deitar novamente. Não demorou meia hora e senti novamente o beliscãozinho. Não parecia ser caranguejo, pois a maioria relata sentir fortes dores na região atingida. E não era siri, pois as patinhas deles são bem pequenas. A sensação era de dedos me apertando. Mas sempre gostei do sobrenatural e não fiquei apavorado, só um pouquinho assustado mesmo. 
     De manhã decidi não seguir pela praia, teria que caminhar mais uns 20k até o vilarejo mais próximo para tomar um café da manhã. Entrei do meu lado direito em uma casa. Ninguém atendia e então pulei o quintal até a estrada de terra. Na saída da casa um problema, a porteira estava com cadeado.Tive que tirar as mochilas, jogá-las do outro lado e depois levantar a bike e cuidadosamente colocá-la do outro lado. Não tinha ninguém no vilarejo acordado aquela hora da manhã. 

    Mas na estrada de terra também não havia lanchonetes e nem barzinhos, somente algumas casas, todas com as portas e janelas fechadas.  O jeito foi caminhar mais uns 10km até finalmente encontrar algo para comer. Os donos dos estabelecimentos cobram caro, pois sabem que não existe outra alternativa: ou compra ou fica com fome. O pastel custa 5 reais e não é tão bom assim. O recheio tinha uma parte que estava gelada. Mas quando estamos com fome tudo fica mais gostoso. O importante era ter comido algo para repor as energias.  Encontrei no bar 3 ciclistas da região, que ficaram admirados com as histórias de minhas pedalanças. Até tiraram foto minha. 
     Depois do lanche sigo o caminho e finalmente consigo pegar a estrada asfaltada que me levaria até a cidade de Linhares. Vou descer até Marataízes nesta segunda etapa de minhas viagens de bike. Estava programado inicialmente viajar e depois voltar de ônibus com a bicicleta desmontada. Iria até o litoral de Guriri e voltaria. Mas gostei tanto de pedalar que vou fazer vários percursos até voltar também pedalando de bike para casa. Sinceramente não imaginava que iria aguentar tantos quilômetros, ainda mais no calor do nosso verão. E a bike também está surpreendendo, com poucos defeitos na parte mecânica. 
   
enfim, asfalto
     O caminho asfaltado para Linhares é entediante: pura reta, e sem nenhum restaurante pelo caminho, para dar uma parada, trocar um dedo de prosa ou beber um revigorante caldo de cana geladinho, uma das coisas mais gostosas de se fazer na viagem. Essas retas me cansam mais mentalmente do que fisicamente. Só de olhar o retão já fico cansado. O celim da bike está rasgado e incomodando muito. As pernas até indicam que dá para continuar a pedalar, mas as "ardências analógicas" devido ao celim rasgado me pedem para dar um bom descanso. 
        Chego em Linhares por volta das duas da tarde. Quando estou na avenida que entra na cidade, uma viatura aciona as sirenes. Não sei se é paranoia minha, mas parece que alguns policiais têm o costume de fazer isso para intimidar algum viajante que esteja chegando na cidade. 
      Pego um rango e depois vou para a lan house. Passo um bom tempo acessando a internet e  organizando os vídeos da viagem.  

      Depois mais uma luta nesta viagem: encontrar algum lugar para tomar banho. Chego por volta das seis e meia da tarde no ginásio coberto da cidade, mas para meu azar o vigia não estava lá. Linhares é uma cidade grande e andei 6km até chegar o ginásio. 
     Na BR que corta a cidade tem vários postos de gasolina, mas nenhum que seja aqueles de apoio ao caminhoneiro, que dá para tomar banho e montar a barraca para dormir.
    Me indicaram um posto distante 10km de Linhares. Já devia ser umas sete e meia da noite e a BR é um pouco escura. Para falar a verdade era quase que totalmente escura na ausência de veículos com seus faróis a iluminar o caminho. A bike não tem nenhuma sinalização para andar de noite. Mas, como estava muito suado e sujo o jeito foi arriscar a BR, me guiando pela faixa amarela que dava para ver não muito bem. Mas era uma referência. 
    No início tive um pouco de medo. Confesso que esse tipo de adrenalina me excita um pouco. Sorte minha é que a estrada é muito boa e tem um bom acostamento. Quando não tinha carro ou caminhão passando, andava bem devagarinho para não levar um tombo grande se por acaso passasse em um buraco ou algo como um galho de árvore.
     Consegui chegar no posto de gasolina por volta de oito e meia da noite. Sempre tem gente boa nesses postos e um deles me indicou um lugar tranquilo para montar a minha barraca. Tomei um bom banho frio e fiz um lanche na lanchonete, e, como sempre, tudo muito caro. 
    Depois fui dormir, o dia foi bem cansativo. 

quarta-feira, 27 de março de 2019

16° dia pedalanças-Segunda etapa- São Mateus-ES à Marataízes-ES


São Mateus-Guriri-Barra Seca
      Fiquei mais dois dias em São Mateus, apenas esperando o tempo passar para sacar o meu pagamento. Não gosto muito de cair na estrada sem algum dinheiro para comer. 
 Mas, após mais uma noite quentíssima naquele lugar, decido sair da cidade, à procura de uma refrescância e, claro, de praias. Estava quente até debaixo das sombras das árvores, um calor muito estranho, que não havia sentido até então. Fico numa moleza danada após o almoço.E também não viajei 780km para voltar para casa sem curtir um marzão. 
    Como sempre em São Mateus acordo por volta das cinco e meia da manhã, quando o sol começa a clarear por aqui. Por volta das seis horas um cara parecido com um morador de rua que tinha visto no centro da cidade sentou-se bem perto da minha barraca, enquanto estava arrumando minhas coisas depois de ter acordado. O cara não tirava o olho de minha mochila menor, onde geralmente guardo a grana que gasto na viagem. 
    Quando vou para o banheiro encontro mais três moradores de rua. Claro que estranhei, pois tal fato não havia acontecido nesses dias em que estou dormindo no posto de gasolina. 
    Para completar, quando vou deixar a roupa que havia lavado secar na grama em frente ao posto, um outro morador de rua, ficou me observando, como se estivesse esperando um momento em que eu me afaste da mochila para assim dar o bote e pegar meus pertences. Parece que os moradores de rua da cidade estão de olho na minha mochila menor, pois sempre mexo nela para pagar o que estou consumindo nesse tempo em que estou em São Mateus. 
    Quando estava andando de bike pelo centro da cidade já havia notado esse comportamento dos moradores de rua. Eles ficavam também me encarando, como se eu fosse uma presa fácil. É incrível como existe gente ruim neste mundo. Ganho pouco, só consigo ir para a praia se viajar de bike e ainda tem gente querendo subtrair o pouco que tenho. Claro que não estou querendo afirmar que os larápios devam roubar somente dos ricos. Roubo é roubo, nunca deveria ser praticado, mas que o ato ganha uma dramaticidade maior quando a vítima é pobre, isso ganha. 
    O jeito era sair de São Mateus. Alguns até gostavam de mim, conversavam comigo e faziam perguntas sobre as minhas viagens. Já outros eram indiferentes. Mas um bom número de pessoas não digeriam muito bem a situação, me chamando de vagabundo e dizendo que eu deveria trabalhar. Obviamente não dei importância à esses comentários, sou feliz e estou em paz comigo mesmo. Não preciso de me preocupar com a opinião alheia, falar até cachorro fala, tem até alguns vídeos no youtube de cachorro falando. 
     Então almocei por volta das onze horas no mercado central. As telhas de alumínio tornavam o ambiente mais quente ainda, beirando o insuportável. 
    Pedalei até uma árvore para descansar um pouco, e esperar a temperatura abaixar. Mas não adiantou muito, o calor só aumentava, até mesmo debaixo de uma sombra estava difícil de ficar. 
    Molho a cabeça e a camisa e reúno forças para recomeçar as minhas pedalanças. Não poderia ficar naquele lugar por mais tempo. Os dias passavam e o calor só aumentava.
    Apesar do forte calor consigo pedalar bem até Guriri, que fica distante cerca de 20km de São Mateus. A maior parte do percurso é plana, não desgastando muito a musculatura. 
a água do mar em Guriri estava morna, por causa do forte calor, estava uma delícia. 
    Tomo um bom banho de mar, coisa que não fazia desde 2014, quando fazia minhas andanças pelo litoral de São Paulo.
    Havia muitos trios elétricos estacionados na avenida da orla, o carnaval de Guriri é bem conhecido pelos mineiros. Quero fugir da muvuca dessa festa e então parto para o vilarejo de Barra Seca, distante cerca de 75km de Guriri. 
será que o motorista do trio sofre quando a banda toca?
    A estrada é um pouco ruim, com muitas costeletas e areia, o que faz a bike derrapar com frequência, já que o pneu traseiro é liso. A bicicleta na verdade não é específica para esse tipo de terreno. Mas o visual do caminho me deixa mais animado. 

claro que nem entrei nesse restaurante....

muita areia pelo caminho
    Depois de Barra Seca tem o simpático vilarejo de Barra Nova, onde tenho que fazer a travessia de barco pelo rio de mesmo nome. É um lugar bastante tranquilo, com casas simples e algumas pousadas. Silêncio e sossego imperam naquele lindo lugar. 
    O barco é pequeno e balança bastante, e eu, que não sei nadar, fico com um pouco de medo. Mas a vista é muito bonita e vale a pena. O rio também não é muito fundo. 
travessia de barco pelo rio Barra Nova
    Estou mais animado agora, desde Guriri uma forte brisa tem me acompanhado pela viagem. O clima fica um pouco menos quente. Essa brisa me deixou tão animado que resolvo seguir o caminho pela beira da praia mesmo depois do pôr do sol. Barra Nova é um local bastante agradável, ideal para quem busca paz e tranquilidade. 
     Por volta das sete horas, escuridão total na praia. Como a maré está baixa, dá para andar de bike sem atolar uma boa parte do percurso. A brisa começa a dar lugar a um forte vento frio. 
    Estava achando sensacional a ideia de dormir na praia, olhando para as estrelas no céu. Estava precisando ficar sozinho comigo mesmo por um bom tempo. Moro de aluguel em quartos, e nem sempre temos um bom ambiente. 
    Quando a bike começa a atolar na areia, começa a empurrá-la e vejo muitos siris e caranguejos. Alguns saem correndo quando me vêem, mas outros inexplicavelmente ficam parados, correndo o risco de serem pisoteados ou atropelados pela bike. E muitos outros estavam fazendo amor na areia. Então, com o risco iminente de fazer uma matança de siris e caranguejos, resolvo montar a barraca naquela escuridão. O céu não está limpo, a lua não está aparecendo, mas tenho a sensação de que não irá chover esta noite. 
    Deito na areia para descansar, e fico curtindo aquele momento, escutando o barulho das ondas do mar, me refrescando com a brisa do mar e olhando para o céu. Seria o homem mais feliz do mundo se todos os pedidos fossem realizados, a cada vez que vi uma estrela cadente. 
é bom curtir uma praia à noite

     Nenhum sinal de vida humana por perto. No mar, apenas a luz de um navio que está parado.  
     O vento começa a ficar muito forte e frio, e fica impossível montar a barraca. Por sorte não havia tomado banho de mar em Barra Nova. O jeito foi pegar a minha blusa de frio, colocar o lençol na areia e usar a manta para me cobrir. 
    Mas o vento é tão forte que preciso usar o lençol para impedir que chegue até o meu corpo. A manta tem buraquinhos e o vento estava me fazendo sentir muito frio.