Em 2012 tive um “surto positivo” psicótico e saí andando por aí pela região sudeste com a minha mochila e a minha barraca. Fiz dois dos quatro caminhos da estrada real a pé, percorrendo um total de mais de 700km. E ainda andei pelo litoral do Espírito Santo e de São Paulo. Fazer o caminho velho da estrada real foi a realização de um antigo sonho. Me ajudou a evoluir como pessoa. É difícil de explicar o que uma andança dessa faz em nosso interior. Só viajando mesmo. Foi o meu caminho de Santiago. Lá no blog publiquei o diário e as fotos dessas minhas andanças.
Mas no final de 2014 lesionei o meu dedão do pé esquerdo, quando estava passeando por um parque ecológico aqui em Belo Horizonte. Não era algo tão grave assim, mas a falta de atendimento pela rede pública fez com que acabasse tendo uma fratura por stress. Hoje somente com cirurgia é que poderei andar como antigamente.
Bem, não sou de ficar esperando as coisas, ainda mais do SUS. Comprei uma bike usada e comecei a consertá-la. Se tivesse que comprar bicicleta mais problemática não conseguiria. A vantagem é que aprendi a montar e a desmontar uma bike, bem como consertar quase todos os defeitos que possam surgir no caminho.
Pretendo agora fazer os 900km restantes da estrada real com a minha bike, depois que passar o período das chuvas, em março. E, se tudo der certo, se a bicicleta aguentar (e eu também!), pretendo sair viajando pelo Brasilzão afora.
Ainda tenho que acabar de reformar a minha bike. A principal reforma será colocar um freio a disco na roda traseira. Não é um luxo, é uma questão de segurança mesmo. Acho que o quadro dessa bike foi mal projetado, pois o freio traseiro não funciona bem, apesar de todas as tentativas de regulagem. Vou sair viajando por aí, mas com responsabilidade, afinal, outras vidas também correm risco se eu não estiver com bons freios. O freio da frente está bom, mas tenho que pensar na hipótese dele arrebentar o cabo em uma forte descida.
E também tenho que colocar um bagageiro na bike para colocar a minha mochila. E também um banco com gel, pois os bancos comuns costumam incomodar e muito o traseiro em uma longa distância. E tem outros itens que tenho que comprar para a viagem: a barraca, o saco de dormir e o colchonete inflável, que acabei vendendo, pensando que nunca mais iria conseguir viajar de novo. Viajar digo nas minhas condições, ou a pé ou de bike.
O freio a disco vou comprar usado, pois a bike é das antigas e ainda terei que fazer uma adaptação nela, pois o freio comum não fica muito bom na roda traseira.
A barraca custa certa de 120 reais, o saco de dormir também. Já o colchão inflável também deve estar nessa faixa de preço. Com o 13° salário irei comprar alguns itens como as roupas próprias para a viagem, e o capacete também, que é outro item muito importante.
Qualquer ajuda é bem vinda. Dúvidas usem o email do blog
Depois de três anos e alguns meses irei voltar a pôr os pés novamente nos caminhos da estrada real. Isso mesmo! Disse pôr os pês, pois as lembranças dessa minha aventura nunca saíram de minha mente aventureira desde que conheci o caminho, em meados de 2012. Antes de conhecê-la realmente, fiquei um ano viajando virtualmente na internet, em busca de informações e dicas sobre como percorrê-la. E, claro, tomando coragem também, pois hoje em dia o mundo está muito violento. E a gota d'água para abdicar do conforto do meu quartinho e sair viajando por aí foi o inferno que se transformou o local onde eu morava, em Ipatinga, devido à "expansão" do crack. Apesar de pagar um aluguel relativamente barato e ter um quarto razoável, não tive dúvidas em comprar a mochila e a barraca e cair na estrada. E foi paixão à primeira vista pelos vales e montes da minha querida Minas Gerais.
Gostei demais das minhas andanças pelos estados do Espírito Santo e São Paulo, mas a simplicidade e a receptividade do povo do interior de Minas Gerais não tem igual. E pão de queijo também né? O problema no dedão do meu pé esquerdo ainda continua, mas já deu uma boa melhorada depois que comecei a usar um tênis super macio e com a numeração um pouco maior do que a uso costumeiramente (uso o número 41, mas o vendedor me passou um tênis de número 43 e ficou muito bom, não apertando o dedão que está com problemas).
Então passei a pesquisar no "Dr. Google" alguns exercícios de fisioterapia para os joelhos que é a articulação que está mais sofrendo no momento pelo fato de ter que andar sem forçar o dedão problemático. A cada dia que passou estou sentindo menos pressão no joelho e também menos dores musculares quando vou almoçar no restaurante popular, aqui "pertim" de casa. Deve dar quase 4km na ida e volta, mas como todo bom mineiro que sou...
Infelizmente a realidade está sendo essa: estou conseguindo melhores resultados com o “Dr Google” (com letras maiúsculas mesmo) do que com o próprio sus (merece letra minúscula). E o engraçado é que quando vou consultar com esses médicos tenho que ouvir que não é para acreditar em tudo o que vejo na internet.... Oras, se os próprios médicos não nos dão atenção e não dialogam com a gente... É um pouco contraditória esses dizeres dos médicos do sus. Quando vou consultar, a impressão que tenho é que a consulta é um grande favor, e que estou ganhando e não a pagando com os impostos do dia a dia. Claro que existem bons profissionais no sus, mas infelizmente estão cada vez em menor número. Me lembro bem quando consegui a minha primeira consulta com o ortopedista em razão do meu problema no dedão do pé, e foi uma grande frustração:
- Isso é coisa da idade mesmo... - me disse o maledito, ao ouvir o meu breve relato sobre a situação do meu dedão, sem ao menos dar uma olhada no meu pé... E olha que naquele dia usei meia limpa e caprichei no banho de manhã.
Assim como não me entreguei e não me entrego na luta pela minha saúde mental, também não irei me entregar na luta pela minha saúde física e pelo simples direito de ir e vir. Confesso que tentei o pior quando o meu tornozelo ficou bastante inchado pelo fato de estar andando incorretamente. Me lembro daquele dia, foi um domingo e o meu tornozelo doía muito, mal dava para andar. Supliquei uma muleta nos grupos do facebook e fui para a UPA por volta das onze horas da manhã. Fui transferido para um hospital e voltei sem nenhuma melhora por volta da meia noite. Havia saído do hospital com a agulha do soro “milagroso” ainda no braço, sem o pessoal da segurança perceber, pois estava com blusa de frio. Mas, para o meu azar ou sorte, quando cheguei em casa o sangue havia coagulado e não seria mais possível deixar o sangue se esvair até a última gota. Acho que não iria estar aqui escrevendo estas linhas se o sangue não tivesse coagulado.
Mas deixemos as coisas tristes para trás. Estou fazendo a minha fisioterapia e confesso que está dando melhores resultados do que a que fiz com as “profissionais” no centro da cidade. Lá o atendimento é padronizado em dois modelos: quem estava imobilizado devido à uma cirurgia ou fratura e a fisioterapia dos idosos. Somente isso. Os exercícios eram passados e as profissionais ficavam no zap zap boa parte do tempo. E nada de diálogo e atendimento individualizado. O jeito então é seguir a minha fisioterapia, ouço o que o meu corpo está querendo me dizer e ai vou dosando a carga.
Depois da fisioterapia, irei começar a fazer alguns exercícios mais leves com aqueles aparelhos coloridos que a prefeitura de Belo Horizonte coloca nos parques, praças e outras áreas. A maior parte das pessoas que fazem estes exercícios são da terceira idade, me sinto um pouco estranho no meio deles, mas o bom que já vou me acostumando e aí não será um impacto tão grande assim que chegar a hora de ficar somente nesses aparelhos.
Assim que começar a fazer os exercícios com certa fluidez, passarei a correr, ou melhor, a trotar e depois sim a correr. E ai logo depois irei fazer os exercícios um pouco mais puxados, para estar em forma para pegar a mochila (11kg) e pôr os pés na estrada.
cachoeira Tabuleiro, no caminho dos Diamantes, com 273m de altura, é a segunda maior do Brasil...
Creio que em dois meses estarei pronto para percorrer sem sofreguidão os belos caminhos do meu estado. Claro que tem um pouco de sofreguidão sim, afinal estamos em Minas e são muitas serras. Além das intermináveis subidas e descidas, tem o calor, o frio, a chuva, as trilhas... Mas confesso que foram os melhores perrengues que já enfrentei em toda a minha vida. Quero suar, correr, andar, pular na água (não sei nadar), Quero ganhar água gelada quando estiver sedento no caminho e avistar uma simples casinha na beira da estrada de terra e "trocar dois depois de prosa" com o povo do interior das minhas Minas Gerais. Me lembro das minhas risadas quando me perguntavam se eu estava pagando promessa ou fazendo penitência ao me verem com a mochila nas costas....
Missão dada é missão cumprida! Fiz apenas dois dos quatro caminhos da Estrada Real. O tempo é implacável e, se bobear, não vai dar tempo de terminá-los. Já inventaram um quinto caminho, chamado de "Caminho religioso", que é basicamente o Caminho Velho, só que incluíram algumas cidades, começando na "devotíssima" cidade de Caeté-MG e terminando em Aparecida do Norte, em território paulista. Sei que estou correndo um risco do meu pé piorar ainda mais no caminho, mas estou sentindo que pelo sus não irei conseguir nada. Não sei se irei me acostumar a conviver com essa dor no pé, mas vamos lutar.
Então é isso pessoal, acredito que em alguns meses estarei postando não mais nesse quarto onde estou morando atualmente e sim em uma lan house em uma cidadezinha ou povoado do interior de Minas Gerais.
Irei fazer os dois caminhos restantes de uma vez só. O Caminho dos Diamantes, (395km) que começa em Diamantina e termina em Ouro Preto, e o Caminho Novo (515km) que começa em Ouro Preto e termina em Petrópolis, no Rio de Janeiro. Claro que irei dar uma parada de alguns dias em uma pacata cidade qualquer para descansar minhas canelas, pois não sou maratonista e a minha intenção não é chegar logo "nos finalmente"* e sim ter esse contato maior com a mãe natureza. Vou sentir saudades da minha caminha, do meu home theather, do notebook, do ventilador que ameniza o calor da tarde, de poder tomar banho na hora que der vontade, de poder usar o banheiro assim que der vontade também. Sentirei também muitas saudades dos filminhos que assistia pela internet na TV, graças ao bendito cabo HDMI, que, para mim, é a maior invenção do século...
Só espero que o meu anjo da guarda não peça aposentadoria depois que resolvi voltar as minhas andanças....
* estou começando a falar como o Odorico Paraguaçu, estou assistindo a novela "O Bem Amado"de 1973. Me lembro que era bem pequeno, mas não perdia um capítulo.
A consulta com o ortopedista consegui gratuita com um particular. E ele recomendou usar uma palmilha especial para proteger o dedo com problema. Ela custa 200 reais. E, caso não o problema não seja resolvido, a solução definitiva será a cirurgia mesmo.
o halux está mais do que rigidus, está detonado mesmo, e o jeito vai ser entrar na faca mesmo. Mas com halux ou sem halux, vou fazer o caminho da estrada real. Esses médicos que me atenderam não sabem o que é andar mais de dois anos com dores do dedão do pé e na musculatura toda e articulações.
Essa é a situação do meu halux rigido. Infelizmente só o halux que anda rígido ultimamente por aqui, pois estou numa pasmaceira danada. Mas com halux ou sem halux vou terminar de fazer os quatro caminhos da estrada real. Esses médicos do sus não sabem o que é andar por mais de dois anos com dores no dedão do pé, na musculatura e nas articulações e vendo sua saúde ir por água abaixo lenta e gradativamente.
Pode parecer um simples problema, mas não é. O problema é o local onde está o problema, que é uma importante articulação, sempre a usamos ao dar um passo. E então ando de uma forma errada, para não sobrecarregar e detonar ainda mais a articulação. E ai o corpo cobra:a musculatura da perna dói um bocado e as articulações também. No começo não era visível o problema, mas com o tempo as coisas foram piorando e o dedão está um pouco deformado, como se pode ver na imagem acima.
E é literalmente uma bola de neve, pois engordei três quilos e meio devido ao sedentarismo. E com o aumento de peso, as articulações sofrem ainda mais.
Algumas pessoas se ofereceram para ajudar no pagamento da consulta, mas já retirei a postagem em que pedia ajuda, pois, como já relatei, consegui uma consulta gratuita com um especialista dos pés super gente boa. Quem ainda estiver em condições de me ajudar entrem em contato comigo pelo email ou pelos comentários do blog.
juliocesar-555@hotmail.com
Tive uma ótima noite de sono na rodoviária de Cunha. Não fez o frio que eu estava esperando. O site da FIEMG diz que, em Cunha, a temperatura costuma variar entre 3°C à 14°C no inverno. Caprichei no papelão, e o frio foi legal para dormir, não foi preciso me encolher para espantar o frio.
Dormi cedo, por volta das sete horas da noite já havia tomado o meu remedinho para dormir. Às três horas da madruga já estava acordado, dava para ouvir o toque do sino da igreja, que tocava de hora em hora, que, convenhamos, é o ideal. Até hoje não consegui entender por que o sino da igreja de São João Del Rei tem que tocar de quinze em quinze minutos. Nem o google explica!
Começa a cair uma forte chuva de madrugada. Eu, que já estava decidido a ir para Paraty de qualquer maneira, começo a ficar em dúvidas novamente. É complicado começar a caminhada debaixo de chuva e logo assim de manhãzinha.
saída de Cunha
A minha parte racional tenta me convencer que o melhor que tenho a fazer é pegar um ônibus e chegar confortavelmente à Paraty. O argumento é de que não irei ganhar nada ao cruzar o último marco da estrada real. Mas, a sensação era de que o meu cérebro estivesse dividido ao meio, pois a parte das emoções me diz que seria covardia(um bundão mesmo) se eu não chegasse à Paraty do jeito que eu havia começado, ou seja, caminhando, por causa de uma simples chuvinha. Não teria graça nenhuma chegar a Paraty de ônibus. Não ia lá fazer turismo, o meu barato era a caminhada mesmo, o trajeto.
A minha relação com as chuvas, depois da esquizofrenia não tem sido das melhores. Eu penso que é um castigo do céu, sei lá.
Essa chuva de madrugada me fez lembrar do meu primeiro surto, em que fiquei escondido no meio do mato por uns sete dias. Estava fugindo dos inimigos, que só estavam em minha mente. Era janeiro, mês de muita chuva em BH, e só estava de calça e camiseta. Até hoje não sei explicar como aguentei ficar naquele lugar por tanto tempo, apenas tomando água.
O restante da madrugada passei nesse dilema, pensando no que fazer, nesse duelo entre as partes emocional e racional de minha mente.
Já quase de manhãzinha, nesse conflito interior, a minha parte emocional acabou me convencendo de que o melhor a ser feito seria percorrer o restante do caminho a pé mesmo, independente das condições do tempo. Como já disse no poste anterior, eu nunca iria me perdoar se fosse de ônibus. Eu me conheço o suficiente para saber que essa desistência ficaria para sempre martelando minhas ideias.
Pensei também em todos vocês, leitores do blog. Essa história merecia um final melhor do que um simples passeio de ônibus né? Já pensou, depois de 600km de caminhada e no final postar: peguei um busão e finalmente cheguei em Paraty?
Então, às sete horas da manhã já estava na loja de materias de construção, para comprar lona, a fim de proteger a minha barraca em caso de uma chuva no meio da noite. Como serão 57km de estrada de terra e asfalto, planejo parar perto do quilômetro trinta para dormir. O vendedor da barraca foi sincero na hora da venda, ao dizer que ela só aguentava chuviscos mesmo. Quer dizer, sincero até que ele foi, mas na verdade ele queria que eu comprasse uma mais cara. Vendedor só é sincero nessas ocasiões. E, como sou um M.O.A,(mochileiro de orçamento apertado), comprei a barraca mais baratinha mesmo, e agora tenho que me virar quando chove.
Depois vou ao supermercado e compro sacos de lixo de cem litros. Pego uma tesoura emprestada, e faço três aberturas em um saco de lixo, para passar a minha cabeça e os braços. Ficou perfeito, até parecia que foi feito sob medida. Melhor, só uma capa de chuva mesmo. Não estava chovendo, mas já deixo a mochila e o colchonete protegidos com os sacos de lixo, em caso de uma eventual chuva. Estava pronto para o que der e vier!
Logo no ínicio da caminhada descubro que o maior problema não seria a chuva, e sim a serra. Teria que subir até os 1450 metros de altitude na divisa dos estados do Rio e de São Paulo.
Na saída de Cunha tem uma bifurarcação e, como não havia nenhum marco, pergunto a um morador da cidade o caminho da estrada real até Paraty. O cara, sem demonstrar dúvidas, me informa que era só seguir em frente. Depois de andar cerca de 2km sem avistar os marcos, começo a ficar desconfiado de que poderia estar seguindo o caminho errado, que é somente de asfalto. Por volta do quilômetro cinco, passo a ter certeza. Fico furioso, e falo um monte de palavrões. Tinha tomado dois generosos copos de café e comido um biscoito recheado(de Nescau) e mais uma barra de chocolate(suflair) logo de manhã. Estava elétrico, era como se fosse um dopping. Aliás, foi um dopping, legal, dentro da lei e tudo, mas foi um dopping.
Queria chegar a Paraty seguindo os marcos da estrada real, e não pelo asfalto. Estava decepcionado, não tinha como voltar a Cunha e começar tudo de novo. Essa raiva, misturada com os efeitos do café com o chocolate, fizeram com que eu subisse a serra numa velocidade incrível, até encontrar uma lanchonete e pedir informações sobre o caminho.
A proprietária foi muito atenciosa comigo. Me deu todas as informações que eu precisava, o que me deixou mais aliviado. Ela me explicou que, seguindo em frente, iria encontrar novamente os marcos da estrada real e que chegaria à Paraty conforme a planilha explica. O que aconteceu é que, na saída de Cunha, eu peguei o caminho errado, seguindo as orientações do bendito morador da cidade, que nem devia saber o que é a estrada real. Ele disse para seguir o asfalto para Paraty, fazendo com que eu perdesse cerca de uns 20km de estrada real. . Se seguisse todos os marcos da planilha, teria que percorrer ao todo, 57km. Pelo asfalto são apenas 44km.
Mas só o fato de chegar à Paraty em meio a natureza já me deixa mais aliviado e a raiva vai embora. Então mudo os meus planos e penso em chegar ao final hoje mesmo, imprimindo um ritmo mais forte. Acho que chegarei ao último marco de noite, se andar sem parar muito para descansar. O risco é que escureça na descida da serra da Bocaina, que não tem iluminação nenhuma. É uma área de preservação ambiental, e é proibido as intervenções do homem.
Continuo então subindo a serra, em boa velocidade. A dor na canela esquerda havia sumido há algum tempo, graças aos dias em que fiquei parado, por causa da chuva. Quando paro para fotografar uma paisagem, ouço alguém me chamar:
- Ô mineirão!
Olho para trás e vejo o paulista que estava no albergue em Aparecida do Norte. Ele vinha caminhando desde a cidade da padroeira, e debaixo de chuva. O engraçado é que ele apareceu assim do nada, em uma curva. Era para ele ter me visto em uma reta. Seguimos o caminho conversando, o que é bem legal, ajuda um pouco a distrair a mente e parece que cansamos menos.
Logo encontramos um restaurante. Segundo a planilha, era o único que havia pelo caminho, não tinha como escolher. Restaurante de grã-fino, carros luxuosos no estacionamento. Comida cara, o prato mais simples saia por quinze reais, e pedi então dois, um para mim e outro para o paulista, que estava sem grana.
O rango estava demorando a sair, tive que ir duas vezes na entrada da cozinha para apressar o chef. Disse-lhe que precisava caminhar para sair da serra da Bocaina antes de escurecer. A atendente disse que a demora era por que tudo era feito na hora.
O céu já estava começando a dar indícios de que poderia chover. Já estava quase perdendo a paciência, quando, depois de uma hora, o rango chegou: uma pequena porção de arroz, um filé de frango, e alguns legumes. Tudo montadinho, bonititnho, tinha até uma flor em cima do arroz. Apesar da fome, não ataquei a comida, esperando o feijão e o macarrão ou batatas fritas. Como o restante do almoço demorava a chegar, fui até o balcão reclamar e a atendente disse que a refeição que eu havia pedido era só aquilo que estava no prato mesmo. Fiquei pé da vida! Quinze reais por um pouquinho de arroz, com um filé de frango e um pouco de legumes e uma flor? Não fui grosseiro, mas deselegante, estava nervoso, ainda era o efeito do café com chocolate que havia tomado no café da manhã. Disse para ela que estava caminhando e que não tinha carro, e que não precisava de comer flor e sim feijão e carboidratos e de outros nutrientes. O paulista ficou meio sem graça e resolvi dar uma maneirada nas reclamações. Tive que pagar mais dez reais por uma porção de feijão. Ainda bem que um leitor do blog comprou um livro e depositou uma quantia generosa na minha conta, muito maior do que o valor pedido. Valeu pela ajuda cara, essa grana ajudou muito nesse final de viagem, que é um pouco desgastante, e, sem um feijão, as coisas iriam ficar mais difíceis.
Depois do rango, sem descanso, continuamos a subir a serra. Até me surpreendi com a minha resistência, já que o paulista, sete anos menos velho do que eu, teve que parar algumas vezes para dar uma respirada. E olha que ele carregava apenas algumas roupas na pequena mochila, e eu tinha que carregar dez quilos nas costas. Chegamos a divisa dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro por volta das duas horas da tarde. O tempo não poderia ser melhor: nublado, mas sem chuvas.
A descida da serra para Paraty é bem acentuada, e exige muito das articulações, principalmente do joelho. A musculatura também é muito exigida, temos que descer meio que freando, para não sairmos rolando, pois o terreno é cheio de buracos e pedras escorregadias. Não tem essa de que para descer todo santo ajuda.
Meus pés começaram a doer um pouco, mas combinamos de não parar para descansar, pois poderíamos correr o risco de ficarmos na serra quando escurecesse. Havia muita neblina, e não deu para tirar muitas fotos. O trecho é um pouco complicado para carros sem tração 4x4, mas, por causa do feriado prolongado, muitas pessoas desciam a serra com seus carros comuns de passeio.
Por volta das cinco horas da tarde chegamos ao fim da serra, para o nosso alívio. Um hippie estava tranquilamente sentado em uma pedra, com seus cachorros. Nos ofereceu algumas bananas, havia vários pés dessa fruta na região. Parecia que ele morava na serra, no maior sossego, longe da confusão das grandes cidades.
Apesar do cansaço e de algumas dores, continuamos o caminho sem parar. É a ansiedade do fim do caminho, parece que conseguimos uma energia extra na reta final. Algo semelhante ocorreu no caminho do padre Anchieta.
O restante do caminho até o litoral é em retas. Esse sobe e desce da serra foi bem puxado, estava até surpreso por ter conseguido andar os 44km. Claro que o tempo ajudou e muito, se o sol estivesse forte, não sei se chegaríamos a tempo. Mas, no final, estava caminhando somente nas ruas, já que estava até difícil de levantar as pernas para subir nas calçadas.
último marco final
Com muito esforço e luta, chegamos ao último marco da estrada real exatamente às 18:56m. Era véspera de feriado, e os barzinhos estavam lotados de turistas. Não estava exausto, apenas cansado e com os pés doendo. Como no caminho do padre Anchieta, não tive vontade de sair gritando e pulando de alegria. Essa caminhada, para mim, não é um desafio, como escalar o monte Everest, é mais uma curtição mesmo, como já havia dito em posts anteriores, sendo que a parte mais legal é o próprio caminho, e não a chegada ao destino propriamente dito.
Sentei no passeio e o filme da viagem começou a se passar em minha cabeça. O início, em Ouro Preto, as dificuldades do caminho, as pessoas que conheci, as paisagens...
Foi um pouco sofrido, só dormindo em minha barraca, mas valeu a pena, e muito. As dificuldades, como os dias quentes, as noites frias, as dores, não foram chegaram nem perto da parte positiva do caminho, que é o contato com a natureza, com as pessoas simples e hospitaleiras do interior de Minas Gerais.
Agradeço a Deus por estar comigo no caminho, do início até o fim. Não sou louco e nem corajoso demais, apenas acredito em meu anjo da guarda, enviado por Deus, e, que até hoje, não pediu aposentadoria por receber a missão de proteger o maluquinho aqui.
Agradeço também a todas as pessoas que me ajudaram pelo caminho, e também aos leitores do blog, é claro. Vocês fizeram com que eu me sentisse uma pessoa melhor, e foram de fundamental importância, principalmente durante as chuvas, quando pensei em desistir.
Na madrugada em Cunha, prometi a Deus que colocaria essa música do Casting Crowns no post, caso não chovesse no último dia de caminhada. A tenho no meu celular e, apesar de não ser evangélico, a curto muito. Gosto de boa música, independente de religião, credo, raça, etc.
Voz da Verdade
Oh, o que eu faria para ter
O tipo de Fé necessária
Para sair desse barco que estou?
De encontro às ondas
Dar um passo para fora da minha zona de conforto
Para dentro do mundo desconhecido onde Jesus está
E Ele esta estendendo sua mão
Mas as ondas estão gritando meu nome
E rindo de mim
Lembrando-me de todas as vezes
Que eu tentei antes e falhei
As ondas continuam dizendo-me
Repetidamente: "Menino, você nunca vencerá",
"Você nunca vencerá".
Refrão:
Mas a voz da verdade me conta uma diferente história
A Voz da Verdade diz: "Não tenha medo"
E a Voz da Verdade diz: "Isto é para minha Glória"
De todas as vozes que me falam
Eu escolherei obedecer e acreditar na Voz da Verdade
Oh, que eu farei para ter
O tipo de força necessária para sustentar-me diante de um gigante
Com apenas um estilingue e uma pedra
Cercado pelo som de mil soldados
Sacudindo suas armaduras
Desejando que eles tivessem a força para agüentar firme
Mas o gigante grita meu nome
E ri de mim
Lembrando-me de todas as vezes
Que eu tentei antes e falhei
Os gigantes continuam dizendo-me
Repetidamente: "Menino, você nunca vencerá",
"Você nunca vencerá".
Mas a pedra era exatamente do tamanho certo
Para colocar o gigante do chão
E as ondas elas não parecem tão altas
Olhando de cima delas para baixo
Vou voar com asas de Águia
Quando eu parar e escutar o som da voz de Jesus
Chamando-me
Eu escolherei escutar e acreditar na Voz da Verdade
Não sei bem o que fazer da vida neste momento. Acho que o melhor que tenho a fazer é "deixar a vida me levar", como nos ensina a música do Zeca Pagodinho, que gosto tanto de cantar, quando estou sozinho, é claro, ninguém pecou tanto no mundo para ouvir a minha desafinação. Talvez eu fique andando por ai, nas minhas andanças, como o personagem Zé Araújo, do filme O homem que desafiou o diabo, que andava pelo sertão nordestino, a procura de uma cidade onde as montanhas são feitas de rapadura e os rios de leite. Como bom mineiro que sou, a minha terra dos sonhos tem montanhas de broa de fubá e pão de queijo dá em abundância nas árvores. As vacas têm uma delícia diferente em cada teta: em uma sai leite, em outra café com leite, em outra yakult, e em outra, doce de leite purinho. As goiabas não tem semente, e não existem manifestações, simplesmente por não haver motivo por qual protestar.
Para variar, sou acordado às cinco horas da manhã pelo vigia do albergue. Mas por que será que todos os albergues têm que acordar as pessoas neste horário? Não dá para pelo menos esperar o dia clarear? Eu e mais quatro caras tomamos o café da manhã e fomos para a rodoviária. Depois, cada um foi para o seu destino. Tinha um cara de São Paulo que ia para Paraty a pé também, só não fui com ele pois não poderia perder a oportunidade de conhecer a basílica por dentro.
Fico vendo a TV em uma lanchonete, e a previsão do tempo não é das mais animadoras. Segundo os noticiários matinais, haverá chuva no transcorrer do dia em todo o estado de São Paulo. Os dois últimos dias foram semelhantes, em relação ao tempo: sol de manhã e muita chuva de tarde.
Fico sem saber o que fazer, num dilema terrível. É uma decisão muito difícil a que tenho que tomar, pode parecer frescura, mas, afinal, foram quase 600km de caminhada. Penso em fazer esses 110km finais na base do sacrifício, mesmo debaixo de forte chuva. Além de incomodar muito, a chuva não deixa curtirmos o caminho, as paisagens, parar para descansar e refletir. Então descarto essa ideia, pelo menos por enquanto. Se pelo menos no final do dia pudesse tomar um bom banho e dormir em uma cama bem macia nesse final, eu seguiria tranquilamente. Mas, analisando as planilhas, entre Guará e Cunha, e entre Cunha e Paraty, dá para notar que não tem lugares para descansar, a não ser pousadas bem caras.
relógio das flores
Novamente cogito em pegar um ônibus para Paraty, mas analisando bem as coisas, tiro essa ideia de minha cabeça. Seria um final muito frio e sem graça para essa aventura tão legal. Tem que ter emoção, suor, sacrifício. Não combina comigo chegar ao final da luta limpo e na maior facilidade. Tudo em minha vida foi na base da luta, e nessa viagem não poderia ser diferente.
Fico então tentando achar uma solução para esse dilema. Não tenho grana para me hospedar em um hotel e esperar o tempo melhorar. Conversei com o pessoal do albergue de Aparecida, contei toda a história da caminhada, mas eles não se sensibilizaram e disseram que não poderiam abrir uma exceção para mim e eu só poderia ficar uma noite apenas.
São sete horas da manhã e resolvo visitar a basílica. Fico impressionado com a construção. Não tanto pela beleza, mas sim pelo tamanho e pela imponência. O espaço é tão grande que não sei nem por onde começar a tirar as fotos. Afinal, é a segunda maior basílica do mundo, perdendo apenas para a do Vaticano.
Não há muitos turistas, creio que no feriado de amanhã a cidade deva estar bem cheia. A basílica tem uma estrutura muito boa: ótimos banheiros, setas que indicam os locais a serem visitados, tudo muito limpo mesmo. Visito a imagem da padroeira, apesar de não ser devoto. Respeito a fé e a crença de cada um, menos as religiões que prometem melhorar a vida financeira da pessoa, pedindo dinheiro. A verdade é que estão melhorando a vida financeiro é a do bispo né?
Depois da visita a basílica, vou a uma lan house para saber uma previsão mais detalhada sobre o tempo para os próximos dias. Acesso primeiro o blog, respondo alguns comentários, mas logo a net cai e, como demora para voltar, volto para o albergue para almoçar, sem saber ainda o que fazer neste final de viagem.
Depois de saciada a minha fome, volto para a rodoviária. Sento-me em uma cadeira e continuo a refletir sobre o que fazer. O céu está nublado e pode chover a qualquer momento. Tenho que sair de Aparecida hoje, isso é certo, já que amanhã, por causa do feriado, a cidade deve ficar lotada de fiéis. Decido então seguir para Cunha de ônibus, a fim de ganhar mais um dia e resolver o que fazer e esperar se o tempo irá melhorar ou não.
em Aparecida também tem os apóstolos
Em Cunha, acesso a net e os sites não são unânimes sobre a previsão do tempo. Alguns dizem que irá chover na região, enquanto outros dizem que o tempo irá ficar apenas nublado. Acabo então chegando a conclusão que não posso ficar dando muita bola para essas previsões do tempo. Na TV, hoje, disseram que iria chover. o que não ocorreu, e perdi um dia de caminhada.
Dou uma boa olhada no dedão do meu pé esquerdo e vejo que o ferimento está quase que totalmente curado. Vai dar para calçar o tênis. Andar na lama com chinelo é muito complicado. O fato de poder andar calçado me motivou e muito. Uma imensa vontade de concluir o caminho a pé tomou conta de mim e decido então fazer o restante do caminho amanhã, mesmo que chova canivete. A verdade é que estava me sentindo meio culpado por ter andado cerca de 70km de ônibus, não estava fazendo parte do script isso.
Espero que o tempo ajude, pois essa região é serrana e faz muito frio. E frio e chuva não é uma combinação muito legal.
Depois de dar uma volta pela cidade, vou para a rodoviária, que foi o local mais tranquilo que achei para montar a minha barraca e dormir. Tenho que dormir bem e acordar melhor ainda, pois esse final é muito difícil de ser percorrido.
Essa música é de uma banda mineira. o 14 Bis, que fez muito sucesso na década de 80. Eles fizeram essa música juntamente com o Renato Russo e vale muito para o momento atual da viagem. Claro que eles não falam sobre o sol no sentido literal, claro que é subjetivo, mas vale também.
Mais uma vez 14 Bis
Mas é claro que o sol
Vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei
Escuridão já vi pior
De endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem
Tem gente que está do mesmo lado que você
Mas deveria estar do lado de lá
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar
Tem gente enganando a gente
Veja nossa vida como está
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo
Quem acredita sempre alcança
Nunca deixe que lhe digam
Que não vale a pena
Acreditar no sonho que se tem
Ou que seus planos nunca vão dar certo
Ou que você nunca vai ser alguém
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar
Mas eu sei que um dia a gente aprende
-obs: Lais, por favor, se estiver vendo o post, entre em contato comigo, me add no facebook, é só clicar em contato e copiar o link do facebook. Apaguei sua mensagem por ser algo particular e foi a única forma que encontrei para lhe responder.
Vila do Embau-Lorena-Guaratinguetá-"Aparecida do Norte"
manhã não muito animadora
Não encontrei nenhum lugar para tomar um bom banho em Vila do Embau. Antes, há muitos anos atrás(muitos mesmo!), confesso que conseguia dormir sem tomar banho, era muito desleixado com a higiene(hoje sou só um pouco), mas atualmente não consigo pegar no sono sem entrar no chuveiro. Também não consegui papelão, e a noite foi das mais frias até hoje.
Como disse, no post anterior, o único lugar coberto que encontrei para dormir foi um ponto de ônibus. Às cinco e meia da tarde já havia escurecido, como se fosse de noite. Às seis, já estava descansando minhas canelas em minha barraca.
Por volta das sete, três caras foram ao ponto de ônibus para acenderem um baseado. Estavam ouvindo funk, para piorar a situação. Começaram a puxar conversa comigo, me ofereceram a erva danada, e eu, dentro de minha barraca, recusei. Acho que já disse isso antes, não preciso de drogas, não preciso de artifícios par fugir da realidade. Acho que vivo a minha realidade dentro da realidade desse mundo. Uma vez, me disseram que, se tomasse determinado medicamento, eu iria ficar mais dentro da realidade. Apenas respondi, perguntando:
- E quem disse que eu quero entrar nessa realidade deste mundo? Talvez a minha realidade seja melhor de se viver.
Voltando a viagem, os caras demoraram para ir embora. Falaram sobre drogas, sobre a barraca, e outras coisas mais. Confesso que cheguei a ficar um pouco receoso, afinal, era a minha primeira noite em terras paulistas. Pensei que os caras estavam procurando saber quem estava na barraca, para voltarem mais tarde e me roubarem.
Por precaução, não tomei o meu "pan de cada dia" e por isso não consegui dormir. Acordei cansado, mas animado, pelo fato da chuva ter dado uma trégua.
muita lama no caminho
O começo do caminho para Guaratinguetá é uma trilha, que estava bem complicada de se percorrida, devido a chuva. Ainda mais por que estava de chinelo, que a todo momento ficava grudado na lama, além de ficar muito pesado com o barro que ficava impregnado na sola.
chegada em Lorena
Depois da trilha, asfalto e estrada de terra até Lorena. A estrada de terra é boa, mas com muito movimento de carros e principalmente de caminhões. Tem muitas fazendas na região e quase todo o trecho inicial tem cerca dos dois lados. Foi difícil achar um local mais reservado para fazer a necessidade básica do dia a dia. Tive que contar com a sorte também para não ser pego no flagrante.
cidade de Cachoeira Paulista, a construção maior é o templo da Canção Nova
Como não havia dormido bem, a caminhada não rendeu muito. Tive que parar várias vezes para descansar, e, como Guaratinguetá está a 38km de Vila do Embau, decidi percorrer apenas 20km e parar na cidade de Lorena.
Quando estava prestes a chegar ao centro de Lorena, ela, a temida chuva, apareceu novamente na parte da tarde, como no dia anterior. Consegui pegar um ônibus até o centro da cidade, e, como não havia nenhum albergue na cidade, resolvi pegar um outro ônibus até Guaratinguetá. Passagem baratinha, cheguei a me espantar com o preço:2,90 reais! Afinal, eu estava me deslocando de um município para outro, e a distância era considerável, e paguei o mesmo que teria que pagar se me deslocasse de um bairro para outro em Belo Horizonte.
Em Guará, fiz um bom lanche na rodoviária, já que não havia almoçado. Coxinha, empada, torta de chocolate e dois pedaçoes de pudim de leite de sobremesa. Já que o tempo não estava ajudando, pelo menos tinha que tirar a barriga de miséria né? O jeito era comer e comer mesmo. Após me informar, fiquei sabendo que somente na cidade vizinha de Aparecida é que havia um albergue. Fiquei mais surpreso ainda com o preço dessa passagem:2,25 reais! Nunca havia cruzado três municípios em um espaço de tempo tão curto em toda a minha vida.
falta pouco...
A essa altura, já havia perdido o receio inicial de estar em São Paulo. Todas as pessoas que pedi informação foram muito atenciosas , principalmente as paulistas, que, a princípio, pareceram ser bem mais extrovertidas do que as mineiras. As mineiras são mais fechadas para com os estranhos, acho que por pensarem que os homens irão pensar que elas estão dando bola para eles, simplesmente por conversarem ou olharem para eles, mesmo sendo estranhos. Bem, não sei se deu para entender o meu raciocínio, mas acho que é mais ou menos isso. Conversei com algumas paulistas e elas foram atenciosas, algumas até sorridentes, bem legais mesmo, mas não é por causa disso que achei que estavam a fim de mim. É a cultura de cada estado mesmo. Mas que existe isso entre homens e mulheres existe, já aconteceu de, estar a fim de fazer amizade com algumas mulheres, e as mesmas pensarem que eu estava a fim delas. É uma relação um pouco complicada. Por isso, as mulheres não devem sentir ciúmes do namorado ou marido quando eles ficam muito tempo com os amigos, jogando conversa fora ou assistindo futebol, isso é coisa de homem mesmo, sentimos mais a vontade de falar palavrão, essas coisas. O inverso também acontece, os homens não devem se preocupar se as mulheres ficam a tarde inteira no cabelereiro, conversando com as amigas, é o tipo de conversa que só é feito entre mulheres mesmo. Bem, chega de falar sobre o comportamente humano e retomemos o assunto do post, que é a viagem. Dicas de relacionamento eu não sou bom, minha vida amorosa não tem sido das melhores. rsrsrs
O tempo estava muito fechado, muita chuva mesmo. E parecia que não iria melhorar tão cedo. Estou pensando seriamente em abortar a viagem, pois não tem como subir e descer as trilhas com a terra molhada, e ainda mais de chinelo. Falta pouco para o final, eu sei, mas caminhar nestas condições levará muito tempo do que em condições normais, já que a maior parte do caminho é feito em estrada de terra. Não sei o que fazer, o jeito é esperar até amanhã para ver se o tempo melhora.
Foi isso basicamente que pensei e refleti durante a "viagem" entre Guará e Aparecida, que durou uns quinze minutos. Estava tão preocupado e desanimado com o tempo que só me toquei que Aparecida era a cidade de Aparecida do Norte quando avistei a Basílica, já perto do ponto final. Muito linda e imponente a construção, e o espaço em torno dela é bem grande, tem até um parque de diversões ao lado. Várias lojas de artigos religiosos tomam conta das proximidades da basílica.
Descendo no ponto final, fico sabendo que o albergue de Aparecida fica um pouco longe. Estava meio exausto, mas, na chuva sempre se arruma forças para caminhar.
Depois de um bom tempo andando, chego ao albergue. Tomo um banho, faço a minha barba. Meus pés estão doendo um pouco, mas a minha maior preocupação é sobre o que fazer: continuar o caminho, debaixo de chuva, com frio e nas estradas de terra, ou parar e reconhecer que não vale a pena tanto sacrifício por nada? Ou será que Deus, de uma forma indireta, me levou até Aparecida do Norte, para conhecer a basílica que sempre quis visitar quando a via pela TV?
-Obs. No título do post, coloquei o nome da cidade entre aspas, pois ela não está incluída no caminho da estrada real.
Sou acordado exatamente às cinco e meia da manhã pelo funcionário do albergue de Passa Quatro. Às seis, já estava na rua.
Tive uma excelente noite de sono, que recuperou minhas energias, mas não o meu ânimo e a vontade de prosseguir na estrada real. O albergue de Passa Quatro é muito aconchegante, limpo e o funcionário fez uma ótima sopa ontem de noite.
Os tetos dos carros estão molhados pelo sereno da madrugada. Sento-me no gelado banco da praça para esperar o supermercado abrir. Tento, em meus pensamentos, encontrar algo que me dê ânimo para seguir o caminho. Na verdade, ao fazer uma reflexão, o que está pegando tanto não é o ânimo, e sim o receio de entrar em terras paulistas. Não sei como os paulistas irão receber o mineiro aqui. Pelo que pude perceber, os mineiros não têm nenhuma rixa com nenhum outro estado. Com a chegada da internet, pude perceber claramente a rivalidade entre paulistas e cariocas, ao ver os comentários em alguns sites. Por exemplo, quando acontece algo de ruim no Rio, os paulistas entram no site de notícias e fazem comentários bem pesados. O inverso também acontece. Sinceramente, não sei como esses sites publicam esses comentários, e, quando o assunto é futebol, ai é que o nível desce mesmo.
Me questiono se ganharei alguma coisa se chegar em Paraty, já que o caminho foi bem legal até o momento. Mas também penso sobre como seria se desistisse, já perto do final. Provavelmente não iria me perdoar nunca. É aquela história: nadar, nadar e nadar e morrer na praia. Penso também nos leitores do blog, não iria me sentir nada bem publicando um post informando a minha desistência. Como estou bem fisicamente, resolvo proseguir.
No supermercado, compro bananas, maçãs, biscoitos. A planilha informa que não encontrarei nenhum restaurante na hora do almoço, a não ser que eu ande bem devagar
Até Vila do Embau, foram 33km de estrada de terra, trilhas e asfalto. Queria muito calçar o tênis, para poder acelerar a caminhada, mas o dedão do pé ainda não está 100% curado.
No caminho, saindo de Passa Quatro e entrando no asfalto, não encontro o marco 1218, e tive meio que deduzir o caminho a seguir, pois os motoristas dificilmente param em estradas de asfalto. É muito ruim caminhar na incerteza até conseguir achar o marco seguinte.
Por volta das dez e meia já estava na divisa dos estados de Minas Gerais e São Paulo. Foi uma sensação legal que tive, como se estivesse cumprido uma etapa do caminho. As terras paulistas são uma incógnita para mim, e o desconhecido, ao mesmo tempo que me dá um pouco de medo, também me aguça a curiosidade.
Saio do asfalto e entro em uma trilha na serra da Mantiqueira, que parece terminar em uma solitária propriedade com muitos pés de mexerica. Como não estava mais avistando os marcos, começo a bater palmas para ver se havia alguém em casa para me informar sobre a trilha. Quem me atende é um senhor aparentando ter uns 55 anos de idade, mais ou menos. O cara é super gente boa, com seu jeito de caipira me diz que os marcos da trilha foram jogados no chão há quatro anos atrás e que nunca foram colocados em seus devidos lugares, para orientar o viajante.
os marcos não foram colocados, a esquerda, a barriga do gente boa seu Jair
Ele então me dá as coordenadas para seguir a trilha, e me alertou sobre as temíveis cobras urutus, que são comuns na região. Cortou um pedaço de árvore e me deu, para que eu pudesse me defender de um eventual ataque dessas cobras. Mas, antes de seguir o caminho, o seu Jair, me convidou para o almoçar. Claro que aceitei, não poderia recusar uma gentileza dessas. Conheci sua esposa, a dona Sônia, que é bem tímida. Conversamos um bom tempo enquanto almoçávamos. E eu sempre achando divertido o jeito caipira do Jair de conversar.
-Você é de onde?
-Belo Horizonte.-respondo.
- Tudo quanto é pessoa que passa aqui é de Belo Horizonte! Outro dia passou uma mulher com uma bicicleta que só faltava falar!- ele disse, e eu achando maior graça.
-É que o mineiro gosta de caminhar...
Foi difícil me despedir do seu Jair. Sua simplicidade e generosidade me deixaram muito feliz e aumentou a minha motivação de proseguir o caminho. Comecei a gostar de caminhar pelo estado de São Paulo.
Olho a trilha e vejo que ela entra em uma mata bem fechada. Olho a planilha e fico na dúvida; seguir 3,5km de trilhas, com possíveis ataques de cobras urutus e descalço, ou então seguir 6,5km de asfalto, com carros passando a toda velocidade ao meu lado?
Nem demorei muito para pensar e escolhi a trilha, é claro. Além de ser mais perto, tenho essa forte ligação com a natureza. Peguei o galho de árvore que o seu Jair havia me dado e me embrenhei pela mata adentro. A trilha realmente entra em uma mata bem fechada, e, sem os marcos, as coisas ficam mais difíceis. Chega a bater um leve desespero em mim, mas logo em frente encontro um cara trabalhando no meio do mato, parece que estava abrindo caminho. Ele me informa que tenho que virar a direita para proseguir na estrada real. Foi sorte a minha, provavelmente iria seguir em frente e não sei aonde iria parar, perdendo um bom tempo até achar o caminho correto.
Essa trilha não é difícil de ser percorrida, mas aconselho a quem a deseja seguir, que pense duas vezes e procure se informar antes, se não souber exatamente onde se tem que virar a direita.
Não encontrei nenhuma cobra pelo caminho, mas dizem que ela é muito perigosa, e ainda estava descalço, para complicar as coisas.
Terminada a trilha, sigo a BR052, que é boa de se andar, pois tem um bom acostamento. Só é preciso tomar cuidado nas curvas, pois alguns motoristas passam "voando" e não respeitam o acostamento.
No céu, pela segunda vez no dia, um helicóptero sobrevoa a região. Na minha paranoica cabeça, são pessoas que estão monitorando a minha entrada em terras paulistas.
Estava bem fisicamente, sem dores e caminhando com boa velocidade. Mas, de repente, o céu começou a ficar um pouco mais cinzento e a temida chuva começou a cair sem piedade nenhuma aqui do mineiro. Abro a barraca e me protejo do jeito que posso. Até que dá para continuar a caminhar sem me molhar muito, mas o pior de tudo é o frio misturado com a água que cai sem parar. São duas horas da tarde e sigo até Vila do Embau sem parar, para não esfriar o corpo e também é complicado descansar debaixo de água. Com mais duas horas de caminhada, em estradas de terra e asfalto, chego finalmente ao destino do dia. Paro em uma mercearia e procuro me informar sobre onde poderia montar a minha barraca e passar a noite. Alguns moradores dizem que não sabem sobre algum lugar coberto, o que me deixa preocupado, pois o vendedor na hora foi sincero ao falar sobre a barraca, dizendo que a mesmo não aguenta fortes chuvas. Estava também fazendo aquelas perguntas para saber como é o povo paulista, se são atenciosos, receptíveis,etc. Depois de muito perguntar, um morador me indica o ponto de ônibus do distrito.
Espero a chuva dar uma trégua e vou ao local que me indicaram. O ponto de ônibus é bem amplo, é dá para montar a barraca sem problemas com a chuva. O dia está fechado, às cinco e meia da tarde tudo já está escuro em Vila do Embau. Espero que amanhã o tempo melhore. É a segunda vez que chove durante o caminho, que, para mim, é pior do que o sol forte e o frio. Estou muito ansioso sobre essa minha primeira noite em São Paulo, sinceramente não sei como será a receptividade dos paulistas. Creio que terei muita dificuldade de pegar no sono.
O local que havia escolhido para montar a barraca parecia ser bem tranquilo. Parecia e era, até por volta das dez horas da noite.
Perto da igreja matriz, foram montadas, com certa antecedência, as barracas para a festa junina da cidade. Conversei então com os donos de restaurantes que ficavam próximos as barracas e eles não colocaram nenhum impecilho para que eu passasse a noite naquele lugar. Não havia muito movimento, e o melhor, iria dormir em um local coberto e cercado, só quem passava ao lado da barraca da festa é que poderia ver a minha humilde residência.
Mas, aos poucos, alguns sons começaram a me deixar meio cabreiro. Primeiro, o abrir de portas de bares. Depois, as músicas. Algumas vozes começaram a aparecer e, em pouco tempo, se transformou em um alto burburinho que não dava mais para identificar o que estava sendo falado. Nem sai da minha barraca, mas devia ter, pelo menos umas duzentas pessoas em volta de minha barraca. Simplesmente eu estava no point de encontro da galera de Itanhandu.
De repente, ouço uma voz nas caixas de som do bar:
- Alô! Um, dois, teste. Som...
Depois, regularam o som do violão e o cara começou a tocar. Repertório muito bom, Zeca Baleiro, Engenheiros do Hawai, etc. Mas o cara cantava mal pra caramba. Como já havia tomado o meu pan de cada dia, resolvi continuar deitado e curtir o som. "Lá pelas três horas todo mundo já deve ter ido embora e vai dar para descansar um pouco", pensei.
Dava para ouvir também a transmissão do UFC em um outro bar. Era uma enorme confusão de sons, mas, como já havia trabalhado como operador de som, estava acostumado com aquilo e até que consegui descansar um pouco. Aos poucos, o clima do UFC parece ter tomado conta dos frequentadores do local. Vez ou outra, surgia um princípio de briga, dispersados sempre pela "turma do deixa disso". Mas, a uma certa altura, não teve jeito: uma briga generalizada tomou conta do lugar. Copos quebrando, as meninas gritando, os caras xingando. Não demorou muito para a polícia chegar e botar ordem lugar. Deu até para ouvir o som do disparo da arma de choque contra um cara. Deve ser muito ruim levar um choque desse, pois, pelo grito que o cara deu, deve doer um bocado. Continuei dentro de minha barraca, como se nada estivesse acontecendo, vai que um dos guardas cisma comigo e ai começa com as perguntas de praxe, que até já decorei. Aos poucos, a calma voltou a reinar e a galera foi embora. Deu para descansar um pouquinho e tirar um cochilo.
caminho muito legal de se percorrer
O domingo não poderia ter começado melhor: uma bela manhã de sol, mas com muito frio. Sai andando pela cidade à procura de uma padaria de meia e chinelo, para não congelar os dedos dos pés. O ferimento do dedão ainda não estava 100% cicatrizado.
Apesar de estar mais ou menos próximo do final, ainda não estou com aquele ânimo que pensava que teria quando chegasse essa etapa do percurso. O verdadeiro dia da preguiça, para mim, é o domingo, não dá vontade de fazer absolutamente nada.
Por falar em preguiça, caminhei apenas 13km até a charmosa cidade de Passa Quatro. Não sei por que, mas não encontrei vários marcos no início do caminho. Mas esse caminho até que não tem muitos segredos, é só ir margeando a ferrovia desativada, e ainda tem muitas casas no caminho, para tirar nossas dúvidas.
a pink tomando um bronze...
Cheguei em Passa Quatro por volta das onze horas e consegui achar um restaurante perto da pracinha, que deve ser o centro da cidade. Como o próximo destino é a 33km de distância, passo o domingo dormindo na pracinha de Passa Quatro. Foi difícil descansar, pois no sol se sentia muito calor, e na sombra, muito frio. Mas a cidade é bem tranquila. O comércio estava praticamente todo fechado. Além do restaurante, apenas uma loja de doces e uma de artesanato estavam abertas nas proximidades. A maria fumaça também funcionava sem parar, mas com poucas pessoas. Somente quando um grupo do Rio de Janeiro apareceu em um ônibus, é que ela teve uma boa ocupação.
a simpática cidade de Passa Quatro
A tarde começava a cair e então ligo o meu companheiro das horas de solidão: o celular. Estou tentando conseguir o ânimo para prosseguir, tirar forças de algum lugar. Estou bem fisicamente, mas estou um pouco receoso. A próxima parada já é em terras paulistas, e confesso que estou com um pouco de medo. Não conheço nada de São Paulo, a não ser a cidade de Ribeirão Preto, quando fui a trabalho, há muitos anos atrás. Não sei se os paulistas serão tão hospitaleiros e amigáveis como os mineiros foram nesta viagem. Estou há cerca de vinte quilômetros da divisa com São Paulo. Me pergunto se uma pequena distância como essa pode influenciar o modo de ser das pessoas, a cultura, o modo de falar. Passo a tarde inteira refletindo sobre essas coisas, como as fronteiras estaduais foram criadas, por que cada estado tem a sua maneira de falar, etc. A tarde foi meio melancólica, meio triste mesmo, cheio de dúvidas para entrar ou não em São Paulo. Para avacalhar tudo, o meu amigo celular toca "Evebody Hurts", do The Corrs. É uma musiquinha bem melancólica, mas acho legal ouvir em certos momentos. Estava meio que sofrendo, com minhas dúvidas sobre o caminho, principalmente sobre como seria andar em terras paulistas.
O meu domingo foi assim, cheio de preguiça e reflexões. Já estava começando a ficar preocupado com o frio da madrugada, pois não havia conseguido nenhum pedaço de papelão para me aquecer. Um hippie apareceu e me disse que havia um albergue em Passa Quatro, que era só se identificar no posto policial e pegar uma ficha. Não poderia ter recebido notícia melhor naquele momento, parece que Deus, às vezes, nos presenteia com esses momentos, para nos dá forças para proseguir o caminho.
- Música: Everybody hurts
- Artista: The Corrs
Todo Mundo Se Machuca
Quando seu dia é longo... E a noite
E a noite é solitariamente sua
Quando você está certo de que já teve o suficiente... dessa vida, bem segura ai
Não se deixe ir
Porque todo mundo chora...
E todo mundo se machuca... Às vezes
Às vezes tudo está errado
Agora é hora de cantar sozinha
Quando seu dia é uma noite (Aguente, aguente)
Se você se sentir deixado pra lá (Aguente)
Se você pensa que já teve demais...dessa vida, bem segura ai
Porque todo mundo se machuca... as vezes
Tenha conforto em seus amigos
Todo mundo se machuca
Não solte sua mão. Oh, não.
Não solte sua mão
Se você se sentir como se estivesse sozinho
Não, não, não, você não está sozinho
Se você está sozinho... nesta vida
E se os dias e as noites estão longos
Quando você pensa que já teve demais... segura
Bem, todo mundo se machuca as vezes
Às vezes todo mundo chora
E todo mundo se machuca, Às vezes
E todo mundo se machuca, Às vezes. Então, Segura ai.