domingo, 14 de junho de 2026

24º dia pedalanças Belo Horizonte à Belém do Pará- Monte Alegre-GO à Combinado-TO

 11/08/2024
Entrando em Tocantins

Cidade de Combinado, em Tocantins

    Noite mais do que revigorante em Monte Alegre.  Consegui recuperar as energias do dia anterior, que foi muito desgastante, por ter pedalado quase 100km sem almoço e sob um forte calor típico do Tocantins. Seria uma prévia do que iria encontrar mais para frente?
    Tudo colaborou para que tivesse uma excelente noite de sono: havia dormido no lava jato, tomado um bom banho, me alimentado bem e tudo mais. E também dormir com uma pessoa conhecida ajuda a aumentar a sensação de segurança. E havia conhecido pessoas legais, que eram os proprietários do estabelecimento. Conversamos muito na noite anterior e rimos muito. E rir sempre é o melhor remédio, inclusive para pegar no sono. 
    O ciclista cearense disse que não havia dormido tão bem, por conta dos mosquitos. Estava  usando uma rede. Ele é bem prático, leva apenas uma mochila que não é muito grande, e a rede, é claro. Todas as três vezes que o encontrei pelo caminho estava usando a mesma roupa preta. Rapidamente desmonta seus apetrechos e está pronto para partir. Pacientemente ele me espera desmontar acampamento. Fomos até a padaria mais próxima e tomamos o café da manhã, cada um pagando a sua conta. Ele tinha um celular de tela grande e a bike dele era uma aro 29. Não sei se ele tinha condições financeiras boas, mas pelo tipo de conversa parecia sim ser de classe média ou mais. 
Estradas desertas vão tomando conta do caminho à medida que avanço sentido Belém


    Pensei que ele fosse viajar para outros rumos, mas ele foi me seguindo pelo caminho. Gosto de viajar sozinho, estava meio sem jeito de dizer isso para ele, mas segui na frente boa parte do caminho e acelerei um pouco, e ele ficou para trás. Foi a forma que encontrei de dizer que gosto da solitude das estradas. 
     Mas, como ele era bem mais jovem do que eu e tinha uma bike melhor, com facilidade acabou me passando sem me dizer nada. Acho que ele entendeu que a minha caminhada é solitária. 
    E segui viagem, no meu ritmo, pela quase deserta estrada. Percebo que, à medida que vou me aproximando de Tocantins, as estradas vão ficando mais solitárias também. Me disseram na entrada de Goiás que em Tocantins existem muitos trechos semi desertos. E, como não tenho GPS terei que tomar o máximo de cuidado para não cair em um trecho longo e pouco habitado, pois não levo muita água e nem comida na bagagem. Terei que me informar o máximo possível com os moradores da região sobre os percursos e os melhores caminhos a seguir. 
     O meu GPS está sendo Gente e Pessoas Solicitas. E é melhor do que o google maps, afinal os moradores da região conhecem os atalhos e as belezas dos lugares onde moram melhor do que ninguém. 
    A estrada para Campos Belos é muito boa, como a maior parte das Brs de Goiás. Parece que as “estradas ruins” desse estado são melhores do que as estradas boas de Minas Gerais. E, como havia descansado bem na noite anterior, segui em um bom ritmo e cheguei em Campos Belos por volta do meio dia. Foram quase 80km só na parte da manhã!  Meu rendimento em relação à primeira pedalança em 2019 está bem melhor. Fiz alguns ajustes na Margarida e eu, apesar de quase seis anos depois, continuo pedalando bem. 
    Parei em uma pracinha, e, antes de me sentar, o pessoal da igreja assembleia de Deus me chamou para lanchar. Eles estavam distribuindo lanches para os moradores de rua e outras pessoas naquela praça. Era o dia dos pais. Nem sabia, já sou meio alheio às datas comemorativas, e nessas minhas viagens fico por fora de tudo. 
Pracinha em Campos Belos onde tomei um gostoso lanche que serviu como almoço


    Comi cachorro quente, melancia, e tomei uns quatro copos de refrigerante. Foi o meu almoço. Além da barriga, a cabeça está cheia, só que de dúvidas. Não sei qual rota seguir até Palmas, capital de Tocantins. Monte Alegre é a última cidade de Goiás, antes de entrar no estado mais novo do Brasil. Me falaram que seguindo pela cidade de Arraias, que é o caminho mais usado pelos veículos, eu iria enfrentar grandes percursos desertos. Não quero me desgastar muito, como foi no dia anterior. Além de não almoçar, ainda tem o problema de ficar sem água nessas estradas solitárias. Perguntei para várias pessoas um caminho alternativo para a capital de Tocantins. Ninguém soube me responder. Estava quase desistindo e pensando em dormir em Monte Alegre quando uma mulher me disse que se eu seguisse em direção à cidade de Dianópolis iria pegar estradas mais habitadas e o caminho seria mais interessante em termos de atrações. Ela me disse que essa rota passa pelo menor rio do mundo, conhecido como Rios Azuis. Teria que pedalar cerca de 150km a mais, mas como já disse, pressa é uma palavra que não existe no meu vocabulário de cicloviajante. O importante é curtir o caminho, e não a chegada, afinal é uma cicloviagem e não uma corrida contra o tempo. 
Qual caminho seguir? O mais curto ou o mais agradável?


    Havia chegado meio desanimado e cheio de dúvidas em Campos Belos. Mas, depois do lanche amigável e de descobrir uma rota bacana para Palmas, já fico um pouco mais animado e depois de um breve descanso sigo adiante em direção ao estado de Tocantins.
    Na saída de Campos Belos encontro um senhor fazendo manutenção em uma “Kombihome”, que, basicamente é uma Kombi transformada em uma casa sobre quatro rodas. O veículo é bem conservado e as adaptações ficaram ótimas. Conversamos por um bom tempo e nos despedimos.  
Uma linda Kombihome na saída do estado de Goiás 

Entrando em Tocantins...


    Entro em Tocantins na cidade de Novo Alegre e resolvo continuar, estou bem fisicamente hoje. Uma noite bem dormida recupera bem o meu físico. E a estrada é ótima, cercada de verde para todos os lados. Ainda estamos no cerrado, mas a impressão é de as árvores são mais altas e a vegetação um pouco mais verde do que em Minas Gerais e em Goiás. 
    Chego na cidade de Combinado por volta das cinco da tarde. É uma pequena cidade com poucas pessoas nas ruas, e, além de tudo era um domingo. Ainda tinha forças para continuar a pedalar, mas, como não tenho lanternas, resolvo parar ali. Foram quase 80km que começaram cheio de dúvidas e incertezas, mas que terminaram bem em uma simpática cidade do interior do Tocantins. 
   Parei em um posto de gasolina e os frentistas foram muito atenciosos comigo, ficamos conversando por um bom tempo, até o momento em que resolvi montar a barraca, por volta das dez horas da noite. Fiquei sabendo que o nome da cidade se deu por que no início haviam vários proprietários de terra no local e que combinaram de juntar suas posses para inaugurar a cidade. Dai o nome de Combinado. 
 O proprietário do posto apareceu por lá e trocamos ideias também. O povo de Tocantins parece ser bem hospitaleiro e muito comunicativo. Hoje foi um belo dia, com boas energias e um ritmo bom sem se cansar muito. 
A vegetação em Tocantins ainda é cerrado, mas com mais árvores e verde. 


Centro de Combinado-TO



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