23/07/2024
Paracatu-MG à Cristalina-GO
Friozinho na barriga ao atravessar a fronteira
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| Sensação única |
Acordei ansioso. Hoje não é apenas mais um dia de pedal. É o grande dia em que atravessarei uma fronteira estadual entre minhas andanças e pedalanças pelo Brasil! Para muitos, algo corriqueiro, mas, para uma mente paranoica como a minha, é um desafio. Acho que esse desafio rumo ao desconhecido é algo mais mental do que físico, apesar das longas distâncias percorridas sob o forte calor do centro oeste do Brasil. Sempre quis sair da região sudeste, afinal já conheço os quatro estados dessa linda região. Gosto demais de Minas, Rio, Espírito Santo e São Paulo, mas é sempre bom mudar de ares, conhecer novas culturas e horizontes. Quem sabe um dia faça uma viagem para o exterior?
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| A Serra da morte é cansativa, mas nos recompensa com um belo visual na parte da manhã. |
Logo no início da pedalada encaro a Serra da Morte, que, por sinal faz jus ao nome. Muito íngreme e sinuosa, mas dá para ir pedalando numa boa sem empurrar a bike. Por sorte, acordei disposto e bem humorado, algo não muito comum. Nessas situações é só ter paciência e usar a psicologia, não encarando muito o final da serra e se concentrar nos próximos dez metros. E assim, vagarosamente vamos indo, de dez em dez metros, pensamento focado no chão e sem olhar para o intimidador do alto da serra.
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| A temida Serra da morte, na saída de Paracatu |
Ao lado da BR um visual muito bonito, parecendo um enorme lago. Sinto até vontade de dar uma passada, mas um outro ciclista me informou que aquilo era resultado de exploração mineral e não era aberto ao público. Era simplesmente a maior mina de exploração à céu aberto de ouro do Brasil. É a Kinross Brasil Mineração. E o visual, de longe bonito, é devastador por perto. E não se pode banhar naquelas águas, devido à contaminação por arsênio, resultado da exploração de ouro.
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| Exploração de ouro em Paracatu-MG. (essa foto fiz o upload de um site de um jornal da região. |
Depois de 42 km chego à divisa de Minas e Goiás. Uma ponte faz a divisa dos estados, e um belo rio em volta. Fico emocionado, afinal, por tudo o que aconteceu em minha vida ainda tenho saúde para sair da região sudeste pedalando e bem, por sinal. Vários dias fiz mais de 100km. Estou feliz, realizado. É algo histórico para mim.
Simples e corriqueiro para muitas pessoas, mas especial e único para mim. Não só na parte física mas também na parte mental e psicológica. Não foi sorte, foi fruto de persistência e muito foco nos momentos mais difíceis. Só quem tem esquizofrenia é que entende esses medos, cismas e paranoias que aparecem do nada.
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| Feliz pela marca alcançada. Paz na terra aos homens de boa vontade. |
Entro em Goiás cheio de dúvidas. Incertezas sobre as estradas, os lugares, as cidades e, principalmente as pessoas. Imagino paranoicamente que tudo irá mudar por conta de uma simples demarcação geográfica. E então vou seguindo e meu medo aumenta ainda mais por conta do calor e da estrada quase que deserta.
Por volta do meio dia encontro um pequeno restaurante e uma vendinha, para o meu alívio. Era como se tivesse encontrado um oásis no meio do deserto. Pensava que iria percorrer um longo trecho solitário até a cidade de Cristalina. Que falta faz um GPS...
Durante o almoço a filha da dona do bar começa a conversar comigo, perguntando se eu aceitaria Jesus Cristo como salvador, dizendo que eu não estava bem, que estava longe da família, etc... Realmente não estava bem vestido e usava um tênis bem detonado. Mas é uma estratégia que uso durante as pedalanças. Não podemos ficar muito bem vestidos e com uma bike nova e boa, isso pode atrair meliantes e tirar um pouco do nosso sossego. E, fisicamente, claro, há sinais de que estou na estrada: um pouco mais magro, pele queimada de sol, o rosto demonstrando um certo cansaço. Afinal, são noites e mais noites seguidas dormindo em barracas após um dia de pedal sob o forte calor.
Digo para ela que nós é que devemos perguntar se Jesus nos aceita, por conta de nossas falhas e erros. Mas ela foi bacana comigo e disse que não precisaria pagar o almoço. Fiquei feliz e animado, imaginando que o povo de Goiás também seja hospitaleiro, assim como o mineiro. Aliás, não consegui identificar algo que demonstrasse que a pessoa fosse do estado de Goiás. O sotaque me pareceu bem semelhante com o mineiro.
Depois do almoço, aquela molezinha corriqueira. Nessas horas vem sempre a dúvida: comer bem por conta das deliciosa culinária brasileira, ou maneirar, para não encher muito a barriga e pesar na hora de pedalar. Pois de tarde tenho mais sede, e aí a água se mistura com o almoço e às vezes aparece aquela dorzinha no lado esquerdo da barriga quando não faço a cesta.
Mas na maioria das vezes não manero na comilança e, além da comida ser gostosa, ainda conta o fato da grana. A gente que é pobre não se pode dar ao luxo de pagar um almoço e dar uma beliscadinha. Então sempre como bem e procuro descansar uma hora, mais ou menos.
E foi o que fiz. Apesar do calor, sigo a viagem ainda com um pouco de receio, ao avistar a estrada deserta. Mas esse medo me incentiva, acendendo uma chama interior que estava adormecida por anos seguidos morando no mesmo lugar e seguindo a mesma rotina entediante de um aposentado. Ficar em casa na TV e no PC. Sair geralmente para almoçar e voltar para casa e passar o restante do dia em casa. Essas viagens me fazem sentir vivo novamente.
Por volta das três encontro uma outra vendinha, parecida com a do almoço. Estou um pouco molenga fisicamente falando. Compro uma coca cola para animar. Não sei se tem comprovação científica, mas fico mais animado ao tomar esse refrigerante. Tem gente que toma com café para ficar acordado de noite.
Sentado próximo a vendinha encontro um outro cicloviajante. Aparenta uns 60 anos e está embriagado. Tento puxar assunto, mas ele está muito bêbado. A sua bike é uma aro 29 cheio de apetrechos.
Essa moleza nesse primeiro dia de Goiás me faz pensar em montar a barraca na vendinha, apesar do horário. A dona permite montar, mas na entrada do estabelecimento, onde ficam os carros.
Fico nessa dúvida por uns vinte minutos. Sigo ou paro. Tomo um café e com os níveis de dopamina aumentados, resolvo seguir viagem. Acho que o café, além de aumentar a vontade, também aumenta a coragem. São três da tarde e faltam 40km até a cidade de Cristalina. A estrada está muito boa, inclusive o acostamento está lisinho, sem aquela trepidação da BR040 em Minas Gerais. Aliás, estou na 040, mas em Goiás, e o asfalto mudou radicalmente de qualidade.
Como estou ansioso para atravessar a fronteira regional, sigo em bom ritmo até a ponte que separa Minas de Goiás. O rio São Marcos ajuda a dar aquele clima nesse marco em minhas pedalanças. O lugar é maravilhoso e atravesso a ponte a pé, para curtir melhor o momento. Claro que também tenho medo de atravessar pontes, seja a pé, seja de bike. E é o mais aconselhável a se fazer em uma cicloviagem, pois as pontes são estreitas e as carretas passam a mil por hora, mesmo nas pontes. A sensação de atravessar essa fronteira era como se tivesse batido um recorde. Revi boa parte de minha vida, e nunca havia imaginado que um dia iria conseguir viajar parte do Brasil de bicicleta. A verdade é que cansa só de imaginar. Mas, quando estamos na estrada, não sei o que acontece e ganhamos uma energia que não sei de onde sai e conseguimos pedalar e pedalar até chegar ao nosso destino.
Apesar do calor chego em boas condições em Cristalina por volta das seis horas. O posto de gasolina é enorme e muito bonito. Por sorte, o banheiro estava em manutenção e não cobraram o banho. Os funcionários são muito atenciosos e educados, apesar de ser um ciclista e, como relatei, não muito bem vestido. Não estou como um andarilho, lavo minhas roupas e tudo mais. Mas não uso tênis novo e de marca conhecida. As camisas são bem usadas também. E a bike é uma antiga Caloi dos anos 90. A guerreira Margarida, que tem muitas histórias para contar. E que tenha muitas outras para viver ainda.
Foi um dia legal, apesar da moleza na parte da tarde. As dúvidas e incertezas me motivam a seguir o caminho. Não teria a mesma motivação se seguisse por um caminho que já havia percorrido. Essa novidade é meu principal combustível para continuar a pedalar. Hoje foram 116km e estou bem satisfeito com o meu rendimento e a performance da Margarida.
Monto a barraca na borracharia e agradeço à Deus por mais um dia e uma conquista tanto no campo físico como psicológico.
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