terça-feira, 3 de março de 2026

18º dia pedalanças Belo Horizonte à Belém Finalmente cheguei no Paraíso!

 05/08/2024
70km de serras complicadísssimas!
Muita serra e calor no caminho

    Mais uma noite em São João D’Aliança sem perrengues. De madrugada ouvi uns ruídos, parecendo alguém mexendo em algo. Mas não fiquei assustado, pois São João é uma cidade muito tranquila. Não fiz muitas amizades ali mas também ninguém implicou com a minha presença. Abri o zíper da barraca e olhei para fora. Era apenas o dog que me fez companhia de tarde se ajeitando nas folhas para se aquecer do frio. Queria deixa-lo entrar em minha barraca, mas ele estava muito sujo. 
    Fiquei triste ao vê-lo sem casa. Ele não comeu nada de tarde, apenas bebeu água que dei para ele por volta das seis da tarde. Sinto que os cachorros têm sentimentos bem parecidos com os dos homens. Acho que irão para o céu também. Bem, era o que eu gostaria que acontecesse. Tive alguns cães que gostaria de vê-los depois dessa vida. Acredito que todos os animais têm sentimentos, mas os cães são bem parecidos com os homens. Às vezes penso em levar um cachorro pequeno e leve comigo nas viagens, mas acho um pouco sofrido para eles ficar boa parte do dia em uma pequena caixa em uma bike, enfrentando o calor a chuva. 
    Acordei animado, afinal finalmente chegou o dia de conhecer Alto Paraíso! E tudo começa bem na pequena padaria dos quitutes deliciosos e não muito caros. Essa é a melhor parte de dormir em pequenas cidades ao invés de postos de BR, que tem maior estrutura para cicloviajantes, porém as coisas são bem caras.  Peço alguns pães de queijo pequenos e um pedaço de bolo de chocolate. E um toddynho quente para completar e me animar e me esquentar um pouco. 
Muitas sociedades secretas, irmandades e fraternidades tem instalações na região

    Como disse, o dia vai ser puxado. Não tanto pela quilometragem e sim pela quantidade de serras que encontrarei pelo caminho. Mas isso não me desanima e no início sigo em um bom ritmo. Asfalto bom com acostamento estreito mas com pouco movimento. Natureza em volta e então o astral da viagem fica lá em cima. Só quem faz cicloviagem sabe esse gostinho de pedalar com liberdade, olhando as paisagens, sem pressa, sem stress do dia a dia, sem pensar nos problemas do cotidiano de um morador de uma grande cidade. 
    Pela primeira vez na viagem tenho que empurrar a bike, mas foi pouca coisa. Não sou de correr muito ou tenho muita força para adquirir velocidade, mas tenho uma boa resistência e consigo enfrentar bem as serras. Mas às vezes gosto de empurrar a bike ao invés de parar para descansar, para aliviar a tensão na poupança e para movimentar outros músculos que não movimentamos quando estamos pedalando. O selim é a parte mais crítica de uma bike .É o componente mais difícil de se acertar na compra dos componentes de uma magrela. 
    Por volta das onze horas chego no restaurante que me informaram que iria encontrar pelo caminho. Não estou com fome, mas é o único que irei encontrar. Então compro um marmitex, pedindo um desconto pois  viajar de bike é um pouco custoso. Tem a manutenção da bike e os restaurantes de BR são caros. 
                                              Além do horizonte deve ter....

Coloco o marmitex em uma sacola e amarro no guidão. E pedalo por mais uma hora até encontrar generosas árvores na entrada de uma propriedade particular. Os sítios ficam longe da estrada e me sinto à vontade para descansar debaixo daquelas árvores.     O plano está indo bem, 40km até o meio dia. À tarde o sol promete rachar, o céu está com poucas nuvens, mas estou me sentindo bem fisicamente. O entusiasmo de chegar em uma cidade que havia prometido conhecer há uns 30 anos atrás me traz uma energia extra. 
    Depois de uns 40 minutos de descanso, volto a pedalar. A alta temperatura é amenizada pelo vento forte que circula pela BR. Isso ajuda a refrescar, mas atrapalha na pedalada. Não sei qual motivo, razão ou circunstância, mas todo vento é contrário. Não é brincadeira. Até hoje nas minhas pedalanças nunca senti um vento forte por trás que ajudasse a pedalar mais rápido. Sempre contra, e, quando o vento está bonzinho, ele nos pega de lado, o que atrapalha bastante também. Mas nunca o vento fica a nosso favor. Será que ele tem algo contra nós, pobres cicloviajantes mortais? Em um certo momento acredito que a ventania deva ter chegado à uns 70km por hora, pois quase não consegui pedalar. O vento deve ter durado uns 3 minutos e se continuasse teria que parar. 
Paisagens bonitas ajudam a manter o bom astral na viagem

    Dizem que na Patagônia os ventos chegam a 100km e o cicloviajante tem que ter um aplicativo que mostra as condições do vento no dia seguinte para saber se poderá seguir viagem ou não. 
    As serras mais brabas começam a aparecer. E o cansaço também, por conta do calor. Poucas casas pelo caminho e tenho que racionar a água. Realmente é um trajeto um pouco difícil para um viajante de bike. 
    A natureza em volta é linda, tem algumas placas indicando lugares turísticos, penso em entrar mas, como não levo comida, tenho que ir direto para Alto Paraíso para conseguir um lugarzinho para montar a barraca e comprar um lanche. Na próxima viagem levarei comida, assim poderei acampar no meio da natureza e fazer um ranguinho. Claro que terei que aprender a cozinhar, só sei fazer miojo e ovo cozido. 
    Estava exausto por conta das serras, mas desta vez não empurrei a bike. Em um trecho a água havia acabado, e o calor, intenso. E não passava carro, afinal era uma segunda feira. Com muito esforço e um pouco de sorte encontrei uma casa no caminho e consegui encher as garrafinhas. 
Quase chegando...

    Por volta das quatro horas da tarde cheguei finalmente ao Paraíso! É bem maior do que imaginava. Pensava que, por ser mística também, fosse pequena igual São Thomé das Letras, que tem uns sete mil habitantes. 
    Havia visto no youtube que em Alto Paraíso havia um cara que dava suporte para cicloviajantes. Só que não havia decorado o nome dele. E como pensava que era uma cidade pequena, iria facilmente encontra-lo. Mas perguntei para várias pessoas e ninguém soube informar. Acho que só no interior de Minas Gerais é que todo mundo conhece todo mundo. 
    Fiquei um pouco agitado, imaginando que todos estavam olhando o ciclista maluco com sua bicicleta improvisada. Passei na avenida principal da cidade e realmente alguns me olhavam bem nos olhos. Será que sou uma pessoa peculiar?   
    Desci a avenida até uma pracinha para descansar as canelas. O lugar é bem bacana, uma mulher fazia uma ginástica estranha, ela se contorcia toda, parecia feita de elástico. Uns caras fumavam um baseado em um bambuzal. E muitas crianças brincavam na grama. Tinha um americano que parece morar em uma casa próxima e estava brincando com seus filhos. A única coisa que entendi era que ele havia dito “Come on” para seus filhos. 
    As mães das crianças não pediam para elas se afastarem de mim, talvez estejam acostumadas com seres peculiares naquele lugar. Quem vai para Alto Paraíso quer paz,  harmonia e curtir a natureza. E era isso o que eu procurava. Sempre quando ia em São Thome das Letras voltava renovado. 
                                                       Força nas canelas!

     Já estava escurecendo e voltei para a BR para achar um posto de gasolina para montar a barraca. O primeiro que achei não deixou, o frentista disse que haviam câmeras e o dono não gostava de pessoas montando barracas lá. O segundo também não deixou montar no posto, mas permitiu que eu montasse na grama na entrada.
Estava ventando muito. Quase não consegui montar a minha humilde residência. Fiquei receoso de montar e passar frio de madrugada, pois a barraca é simples, não é daquelas que tem proteção boa contra chuva e ela fica úmida no sereno. 
Infelizmente a noite chegou e não tive escolha. Era montar a barraca ali ou então ficar acordado a noite inteira. 

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