07/08/2024Alto Paraíso-GO à São Jorge-GO
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| Estrada maravilhosa de se percorrer |
Dormi muito bem na entrada do bar. E acordei bem animado, não só pela noite bem dormida quanto pelo fato de ser o dia de finalmente conhecer o Vale da Lua, na chapada dos veadeiros.
Na verdade foi a foto da Vale da Lua que me fez ter o desejo de conhece essa região maravilhosa e cheia de encantos naturais. Foi a foto do Vale em uma revista que vi há cerca de trinta anos atrás. Vai ser mais um lugar que será riscado da minha lista de desejos.
São cinco horas da manhã e ainda está tudo escuro. Estou desmontando acampamento e, de repente, toda a iluminação pública da região apaga e aí é que vira um breu mesmo. Levei um susto e fiquei um pouco com medo, em estado de alerta. Imaginei que estavam armando algo contra a minha pessoa e que haviam desligado a iluminação para dificultar as coisas para mim.
Mas logo a energia se estabeleceu e tudo voltou ao normal, inclusive a minha mente. É um dia especial e então vou tomar um café especial também. Para todo comedor compulsivo, qualquer coisa é pretexto para comer um pouco mais do que o normal....
| O dia está lindo |
Para animar ainda mais o dia, o céu está limpo e sol está cooperando, não castigando muito. O caminho tem um visual de arrepiar, me fazendo prestar mais atenção nas montanhas, formações rochosas e vales do que na estrada. Felizmente ela é pouco movimentada e tem um bom acostamento, que é uma ciclovia também. A solidão da BR só é interrompida quando avisto animais atravessando a pista. Não tenho muitos conhecimentos da fauna da região e não sei o que seres são esses. Paro no caminho várias vezes para gravar vídeos e tirar fotos.
No caminho passei por um cicloviajante que vinha em sentido contrário, provavelmente estava em São Jorge. Como estava em uma descida apenas o cumprimentei com a cabeça. Na verdade não o cumprimentei por ser antissocial mesmo, o embalo da descida foi apenas um pretexto. Gostaria de ser mais comunicativo com estranhos, mas isso seria forçar um pouco. Gosto de ser quem sou, não fingir muito para me socializar, deixar as coisas acontecerem naturalmente. Quando conheço a pessoa, passo a ser um pouco mais falante. Coisas de um mineiro esquizofrênico como eu. Acho que os esquizofrênicos cariocas são mais comunicativos do que eu. Pode parecer ironia, mas tem um pouco de sentido isto.
Essa trilha nos convida a subir para o alto... Mas, voltando ao caminho, encontrei uma linda montanha que tinha uma trilha que dava no pico. Queria subir e curtir a imensidão da chapada, mas resolvi deixar para fazer esta contemplação na volta para Alto Paraíso. A beleza do lugar e do entorno merece um bom tempo para se curtir com calma e também aproveitar para ficar sozinho e refletir um pouco sobre tudo.
O acostamento está muito bom e a maior parte do caminho são retas. As subidas não são fortes Então completo os 37km entre Alto Paraíso e São Jorge em duas horas e trinta minutos.
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| Uma das viagens mais gostosas que fiz em minha vida. |
São Jorge
O povoado é bem pequeno mesmo, a maioria das ruas são de terra. Na rua principal estão sendo colocados bloquetes. Muita poeira subindo.
Pela quantidade de pousadas e placas indicando locais de camping é um distrito muito visitado. Afinal boa parte dos encantos da Chapada dos Veadeiros se encontram próximos à ele.
Não consigo encontrar a pousada que o dono da bicicletaria em Alto Paraíso havia me indicado. Na minha paranoica mente ele estava apenas querendo me enganar.
Encontrei uma lan house, algo difícil de se encontrar hoje em dia. Aproveito para passar todas as fotos e vídeos da viagem dos cartões de memória para o HD externo. Como disse, sou um cicloviajante raiz e levo uma câmera compacta para registrar tudo. Tenho um J1 mini para fazer as ligações, ou melhor, receber as ligações. E tenho um Motorola G4 com a bateria estragada. Então fiz uma gambiarra e coloquei direto no carregador. OU seja, só funciona na tomada. Mas dá para editar alguns vídeo que envio para o meu canal no youtube.
A atendente foi super gente boa comigo e me deixou à vontade no computador. Passou um cara do lado de fora e perguntou para ela se estava tudo bem. Isso é um procedimento comum entre moradores de cidades e vilarejos para se protegerem de viajantes mal intencionados. O que não é o meu caso. Só quero curtir a natureza e viajar. Se pudesse ser de Hilux e dormir em um hotel de luxo seria ótimo. Mas como não tenho condições para isso, vai de bike e barraca mesmo.
Demorou um pouquinho para passar todas as fotos e vídeos da viagem. Depois sigo para a praça central do distrito para descansar e curtir a energia do local.
O Vale da Lua
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| Estrada de terra em boas condições |
Almoço por volta das onze horas e já sigo para o Vale da Lua. Estou me sentindo muito bem fisicamente e mentalmente. Não sei explicar o motivo. Seria a energia do lugar? Ou o entusiasmo de conhecer um local tão abençoado por Deus?
São 5km até o Vale da Lua. 3km de asfalto e 2km de terra. Está sendo um prazer pedalar por aquela BR maravilhosa. Além do visual tem o ar puro também, fazendo a gente respirar mais fundo.
É uma longa descida para o Vale da Lua. Na entrada prendo a bike em uma cerca mas os funcionários do local me falam que não é necessário, pois ninguém iria mexer em nada. E realmente não iriam mexer. Só haviam turistas com boas condições financeiras, e boa parte estrangeiros. O que iriam fazer com uma bicicleta de 1990? Mas, como bom paranoico que sou, deixo por meio das dúvidas o cadeado na Margarida.
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| Chegando... |
Estou com aquela animação do início da viagem, há alguns metros de conhecer o Vale da Lua, finalmente. Era algo que não saia de minha mente. Foi um prazer também ir a pé pela trilha, são cerca de 1km da entrada até o Vale propriamente dito. É uma trilha gostosa de se percorrer, aliás, para mim todas as trilhas na natureza são legais, até as que deixa a gente um pouco perdido...
É uma emoção que não consigo descrever. Afinal, havia prometido a mim mesmo conhecer esse lugar. Não sabia se teria condições financeiras para isso, pois em cidades turísticas tudo é muito caro. Não imaginaria que seria dessa forma que iria conhecer o lugar. Viajando de bike e dormindo em uma barraca.
À medida que me aproximava do local ficava cada vez mais entusiasmado, nem mesmo o cansaço da pedalada do dia estava me atrapalhando. O entorno do Vale da Lua também é muito bonito, cercado por serras e muito verde.
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Vou seguindo pela trilha e finalmente me deparo com a imagem maravilhosa do local. Era exatamente como havia visto na revista há 30 anos atrás! O solo esburacado lembra um pouco o satélite da terra, e, para completar, descia uma água cristalina para refrescar os visitantes.
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| A maior parte da galera é gringa... |
Boa parte dos turistas eram estrangeiros. Estava tão entusiasmado que comecei a tirar fotos e mais fotos. E passei pela cordão de isolamento, entrando em uma área proibida, por ser um pouco perigosa. Qualquer vacilo ou pisada em falso poderia cair em buracos grandes nas rochas e até me afogar. Mas como estou confiante começo a tirar fotos e mais fotos daquele lugar maravilhoso, sabia que não iria ter outra chance de voltar. Não demorou cinco minutos e um funcionário do local apareceu e me chamou a atenção por estar em local proibido. Claro que fiquei todo sem graça, imaginando que todos estavam olhando para a minha pessoa. O único baixa renda naquele lugar.
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| Deu ruim atravessar o cordão de isolamento |
Além de me chamar a atenção por tirar fotos em local proibido, ele me disse que para entrar ali teria que pagar 40 reais. Não sabia que a entrada era paga, se havia alguma placa ela não era tão grande e não estava em um lugar tão visível. Mas, acho que eles abriram uma exceção para mim por ser um cicloviajante de parcos recursos financeiros. E também havia cumprimentado todos os funcionários na entrada. Nessas viagens fico bem mais comunicativo do que no dia a dia.
Não tomei banho nas águas do Vale da Lua, pois estava com muitas pessoas. Na verdade estava longe de estar lotado, afinal era um dia da semana qualquer. Mas para qualquer antissocial qualquer aglomeraçãozinha já é motivo de não se aproximar. Mas a intenção não era um mergulho e sim conhecer e sentir a energia do lugar e cumprir uma promessa de trinta anos atrás. Claro que uma boa refrescada em águas cristalinas seria muito bem vinda, mas deixa pra lá...
Não dormi em hotel e viajei de ônibus. Foi em uma bike velha e meu hotel era uma barraca simples, montava às vezes em locais perigosos e não muito confortáveis. Mas agradeço à Deus por ter saúde e disposição de fazer uma aventura e saga dessas aos 56 anos de idade.
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| O entorno do Vale também é lindo |
A subida da volta para a BR é forte, no meio do caminho o cara que me chamou a atenção no Vale da Lua me oferece uma carona em sua caminhonete. Estava sorridente, ao contrário de quando estava no Vale da Lua. Mas sei que ele estava apenas cumprindo sua função, certamente algum maluco deve ter caído naqueles buracos cheios de água e se afogado. Como estou super disposto, não aceito a carona e agradeço, dizendo que é apenas mais uma subida dentre muitas de uma longa viagem...
O psicológico influencia e muito no nosso físico. Quando estava morando em Belo Horizonte, com todos os dias sendo quase que exatamente iguais aos outros, me sentia fraco e deprimido. O tédio me corroía por dentro.
Às vezes consultava o google para ver ser tinha alguma doença se tinha uma simples dor de cabeça. Ficava cansado só de me imaginar pedalando de Belo Horizonte até Belém do Pará. Mas, quando boto o pé no pedal e na estrada, tudo se transforma e me sinto um jovem em busca de aventuras.
Chegando em São Jorge, consigo encontrar a pousada que me indicaram em Alto Paraíso. É uma pousada com um visual rústico, que cai muito bem naquele lugar. Os proprietários foram super educados comigo e montei a barraca no quintal. Tomei um bom banho e fiquei descansando e pensando no que fazer no dia seguinte. Dá vontade de conhecer os outros pontos turísticos, mas, como descobri no Vale da Lua, tudo é pago naquela região. Me disseram que 90% das cachoeiras da chapada tem entrada paga, geralmente entorno de 50 reais.... Para mim infelizmente não dá. Não quero correr o risco de pedalar 10km e ser barrado na entrada...
Ainda não anoiteceu, mas o dia já valeu a pena e fico na barraca. A proprietária comentou com alguns amigos dela que sou antissocial, que não saía da barraca para nada. E acertou shasuashuashas
Foi um dia lindo e que ficará para sempre marcado em minha mente.
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| Na lua... |









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