02/08/2024
Planaltina -DF à São Gabriel de Goiás-GO
Saudades de pedalar
Dia nublado, mas quem está na cicloviagem é para enfrentar chuva e sol Finalmente chegou o dia estipulado para voltar as pedalanças! Era o que tinha previsto para o tornozelo sarar por completo, já estava caminhando sem aquele temor de doer alguma coisa. Se continuasse a pedalar naquelas condições, a situação poderia piorar.
Me despedi do pessoal do centro de recuperação, e quase chorei, principalmente por conta dos cadeirantes. Alguns que implicaram comigo nem olhei na cara. As despedidas são complicadas para mim, principalmente nas viagens. E saí para pedalar rumo à São Gabriel de Goiás. Algumas cidades têm o nome do estado no final, pois nessa região muitos municípios têm nomes iguais em estados diferentes. Planaltina onde estou também tem em Goiás e é vizinha à Planaltina do DF! Imagino que muita gente deve fazer confusão ao ler as placas e acabar parando na cidade não planejada.
Não sei a distância, a vontade de me sentir livre novamente é tanta que simplesmente saí, só perguntando a direção. O dia amanheceu bem nublado, com cara de chuva. Mas o pessoal do centro de recuperação me informou que as precipitações pluviométricas ocorrem mais no início de setembro na região. Como o meu destino é Belém do Pará, o correto seria seguir a movimentadíssima BR Belém Brasília, mas, como pretendo conhecer a chapada dos Veadeiros, sigo em direção à São Gabriel, na BR 010. Terei que dar uma boa volta no estado de Tocantins, mas, como sempre digo, pressa não existe no vocabulário do cicloviajante raiz. O barato da viagem não é o destino, e sim o próprio caminho. O percurso, as cidades e pessoas que conhecemos, as alegrias, as tristezas, os perrengues, enfim, a jornada. E conhecer Tocantins que é um estado relativamente novo me fascina.
Logo no início avisto uma "Ghost Bike", em homenagem à um jovem ciclista que morreu no local, vítima de um irresponsável motorista embriagado. Sempre quando me deparo com alguma cruz na beira da estrada paro para refletir sobre os cuidados que tenho que tomar para não virar uma na estrada. Uso capacete, retrovisor e muito cuidado nas BRs. Mas todo cuidado pode ser pouco se nos depararmos com motoristas irresponsáveis que usam bebida alcóolica enquanto dirigem. Além da proteção física dos equipamentos, também peço proteção no campo espiritual também, todas as manhãs antes do começar o pedal. E, no final do dia, geralmente no pôr do sol, agradeço pelo dia sem acidentes e incidentes. O pôr do sol me fascina e me encanta, não consigo descrever a sensação, apenas contemplo até o astro rei desaparecer no horizonte. É um momento que me traz muita paz.
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| Uma "Ghost Bike" na saída de Planaltina |
Muita serra no início do caminho. A bike parece que está mais pesada do que de costume. Estou usando o pneu traseiro com cravos, para diminuir os furos. Mas penso em voltar a usar pneus lisos, pois de que adianta não furar pneus e ter o ritmo bem reduzido?
O trânsito intenso de Luziânia até Brasília não existe mais por aqui. E isso me alivia bastante, não só na questão do tráfego mesmo. Fico mais aliviado na questão mental, aquele barulho incessante de carro me deixa um pouco tonto e sem energia. E pedalar ouvindo música pode ser perigoso. Gosto de viajar olhando para o horizonte, para a vegetação, ouvindo o som dos pássaros ou simplesmente ouvindo o som do silêncio nas brs solitárias.
A moleza não passou, continuei a pedalar em ritmo lento, ou seria a estrada que teria muitas subidas? Sinceramente acho que foram os dois fatores que me fizeram pedalar nesse ritmo lento.
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| Saudade das Brs não muito movimentadas |
Cheguei em São Gabriel por volta das duas da tarde. Isso mesmo. Saí oito horas da manhã de Planaltina e foram apenas 56 km. Me senti cansado, sem energia, mesmo após um delicioso almoço no restaurante da cidade. Estava com prisão de ventre, acho que por conta dos biscoitos e pães de queijo na clínica em Planaltina. Ficava três dias sem ir ao banheiro, e, quando ia, era aquela dificuldade. Estava cagando igual cabrito.
Resolvo ficar em São Gabriel, apesar de ter boa parte da tarde para pedalar. Já havia até arrumado um lugar para montar a barraca. Na praça principal haviam várias lanchonetes sem funcionar. E eram cobertas. Muito bom para dormir.
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| Quase chegando no Paraíso... |
E fico ali a tarde para descansar, na maior tranquilidade. Mas aparece um ciclista, que diz ser viajante. Curiosamente e estranhamente ele não carrega nenhuma bagagem. Começa a perguntar o que eu levo na mochila, no bauleto, etc...
Aquele interrogatório me acendeu o alerta e tudo piorou quando ele tirou uma faca para descascar mangas que pegamos nos pés da praça.
Não ando com faca, para evitar confusão. Nas pedalanças de 2019 não cheguei a ser abordado pela polícia. Só fui abordado uma vez em 2013 nas minhas andanças por Minas Gerais. Apesar disso, prefiro não usar facas. Diante da desconfiança do homem, saio de fininho e sigo a BR até encontrar um posto de gasolina no final da cidade. Não tem como, é no posto de gasolina que me sinto à vontade e protegido.
Na saída do posto tem uma graminha deliciosa de ficar pisando. Gosto de pisar na terra, na areia e na grama, é comprovado cientificamente que isso descarrega nossas energias acumuladas. E fico ali, ora em pé, ora deitado, apenas deixando o tempo passar, sem stress, sem preocupações, sem querer saber se o meu time ganhou ou perdeu, apenas ali, parado.
O dia não rendeu muito, espero amanhã estar em melhores condições para pedalar mais kms.
| Hoje foram apenas 56km, estava um pouco desanimado. |




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