terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

16º dia pedalanças Belo Horizonte-MG à Belém-PA Quase chegando no paraíso!

 03/08/2024
São Gabriel -GO à São João D'Aliança -GO

Quase chegando no Paraíso!


     Noite tranquila no posto de gasolina em São Gabriel, com exceção de um som altíssimo que vinha de uma boate nas proximidades. Acredito que a zoeira parou por volta das três e meia da madruga. E começou por volta das dez. Levei um baita susto. O som foi o mais alto  que cheguei a ouvir dentro da barraca em todas as minhas viagens. O pano da minha casinha ficava balançando com a vibração dos graves, que era superpotente, mesmo a boate não estando muito próxima ao posto de gasolina. Mas era sábado, dia de cair na night, nem todo mundo é igual à mim que gosta de ficar entocado na sua tocaia. 
    Mas, apesar das poucas horas de sono, acordo bem disposto. O que vale é a qualidade do sono e nem sempre a quantidade. E a sensação de estar quase realizando um sonho. Aliás, mais um sonho. Quando vi as fotos de Alto Paraíso pela primeira vez por volta do ano de 1995 fiquei apaixonado e disse a mim mesmo que um dia iria conhecer a Chapada dos Veadeiros. 
     Tomo um bom café em uma conveniência na beira da estrada. Estava vazio mas,  de repente ficou lotado de turistas que chegaram em vans. Provavelmente estão indo para Alto Paraíso também. Fiquei um pouco agitado, afinal não tinha para onde ir. Já estava ali mesmo e não estava muito a fim de sair procurando padaria não muito cheia. O contato social é um stress para mim, não por conta das pessoas, é algo que está em mim, e até hoje não achei remédio para isso. 
    O sol logo apareceu pela manhã. O céu estava lindo, com algumas nuvens. Voltei a pedalar bem, de manhã consegui dar uma boa aliviada no meu estômago, que, aos poucos, vai voltando ao ritmo normal de viagem. Quando estou em casa compareço no trono todo dia, mas, quando estou viajando nem sempre. No centro de recuperação em Planaltina comi muito pão de queijo e isso prende um pouco o estômago, por causa do polvilho. 
Br com acostamento estreito, mas quase não passava veículos 

     Acho que a expressão "enfezado" tem a ver com prisão de ventre, realmente ficamos um pouco indispostos e mau humorados quando estamos com o intestino preso. A outra teoria da origem palavra enfezado vem de que os escravos no Brasil colônia tinham que carregar as fezes das casas em baldes na cabeça. E às vezes o balde caía e eles então ficavam enfezados. Não sei qual teoria é a correta. 
    Não há posto de gasolina entre as duas cidades. Poucas casas. Mas pedalando bem consigo achar um restaurante simples no meio do caminho. Mas é nos restaurantes simples que a comida é boa, o tempero é melhor preparado. 
      E vou pedalando com aquela paz interior e feliz. Só quem faz essas viagens sabe do que estou falando. Uma sensação inexplicável de liberdade misturada com outras coisas que não sei expressar. E a liberdade não só de ir e vir, é a liberdade principal, de sermos o que somos. E ponto. No meio da estrada avisto uma placa que indicava o caminho para uma sede dos Templários. Tive uma fase new age quando tinha uns 25 anos e era muito curioso. E as sociedades secretas e místicas me despertavam muito interesse. Quase entrei, mas pensei bem e talvez o ciclista não muito bem vestido não fosse bem vindo naquele local. Mas se fosse há uns 30 anos atrás eu iria bater na porta daquele lugar sem cerimônias. Hoje procuro Deus de uma maneira simples, sem muitos rituais, sem complicações. Deus é simplicidade, nós é que complicamos as coisas. 
Bora conhecer os Templários?

       Estou me sentindo bem novamente. Livre daquele trânsito infernal de Brasília e arredores. 
    A estrada é boa, bem pavimentada. O acostamento não é muito largo, mas também raramente passa algum caminhão ou carreta. Então a pedalança do dia é tranquila e o ritmo bom. Chego em São João D'Aliança por volta das três horas da tarde. 
O portal da chapada dos Veadeiros


      Paro no posto de gasolina, e, como sempre, o contato inicial para mim é um pouco estressante. Tenho que me apresentar, falar para onde vou, para tirar um pouco da desconfiança dos moradores da cidade. Se bem que do jeito que a minha bike está montado e as minhas roupas a maioria das pessoas deduzem que sou um viajante. Alguns param para conversar, uma minoria acha ruim, chegando a afirmar que não trabalhamos, que somos vagabundos, sem ao menos conhecer a nossa história. E outros parecem indiferentes, acho que já acostumados com andarilhos e pedarilhos. 
Só preciso de um cantinho, para a Margarida e para minha barraquinha. E paz. 


     Depois de conversar rapidamente com o frentista, lavo minhas roupas e tomo aquele banho relaxante que é quase garantia de uma boa noite de sono. Acho um local tranquilo cercado de árvores para passar o resto do dia, na maior paz. O entardecer é tranquilo, apesar de ser um sábado. Não há muita movimentação na cidade, apenas carros passando na avenida central, boa parte indo em direção à Alto Paraíso. Os frentistas  permitem que eu monte minha barraca atrás do posto. Enfim, um dia tranquilo e bom de se viver. Estrada boa, clima bom, pessoas amigáveis, natureza, um bom banho e o principal, paz. 
Hoje foram 63km de muita paz e tranquilidade. 


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