14/07/2024
Belo Horizonte-MG à Paraopeba-MG
Enfim, o dia da viagem havia chegado. Passei o dia dando os últimos ajustes na bike. Na verdade não tive o tempo necessário de prepará-la do jeito que queria. Porém as minhas dívidas já não podiam esperar mais e já havia passado a hora de meter o pedal na estrada.
De noite não estava conseguindo dormir devido à ansiedade e resolvi tomar um diazepan para relaxar. Com muita dificuldade consegui parar de tomar esse viciante medicamento, que mais atrapalha do que ajuda. A verdade é que o sono artificial não é tão bom quanto o natural e, quando acordamos não sabemos se dormimos ou apenas fomos desligados por um tempo. Meu ditado é: "Mais vale quatro horas de sono natural do que dez de sono artificial".
Coloquei o relógio para despertar às três e meia. Era domingo e queria sair o mais cedo possível, não estava muito afim de pegar o trânsito da via expressa que é o ponto de partida dessa minha saga para Belém do Pará.
Apesar de ser inverno, tomei um bom banho gelado para espantar a ressaca do diazepan. Depois fiz dois capuccinos e comi com um biscoito recheado de chocolate, para aumentar os níveis de dopamina no meu cérebro. Fiquei bem elétrico. Obviamente a agitação também era pelo fato de ser o primeiro dia de viagem. Seria a minha primeira pedalança fora da região sudeste. Para qualquer pessoa um fato normal, mas, para um extremo fóbico social, uma imersão no desconhecido. Coloquei meus pertences na Margarida com muito cuidado, para não acordar os vizinhos. Moro em um lugar que aluga quartos e de madrugada qualquer barulhinho vira um barulhão. Apesar da precaução o vizinho da direita começa a resmungar. A verdade é que ele é também um outro insone, passando quase todas as madrugadas conversando no celular. Ou falando sozinho? Dificilmente encontraria uma outra pessoa a ficar ouvindo as conversinhas dele da meia noite até às seis da manhã. Era um cara tão chato que pelo fato de passar a noite acordado exigia o máximo silêncio durante a manhã e boa parte das tardes.
Saí por volta das quatro e meia e ainda estava tudo escuro. Senti no rosto aquele ventinho gelado das madrugadas de Belo Horizonte. Estava ansioso, mas era uma ansiedade boa, aquele friozinho na barriga que me impulsionava a pedalar com prazer e energia. Estava morando no mesmo endereço há quase sete anos e só havia feito uma viagem de bike pela região sudeste no ano de 2019.  |
| Na madrugada de Belo Horizonte |
Passei pelo centro de BH que está um pouco abandonado pelo poder municipal. Muitos usuários de crack e outras drogas vagando pelas ruas e avenidas. Tive que tomar muito cuidado para que não acontece nenhum imprevisto e minha viagem fosse interrompida logo no primeiro dia. Não tinha um plano B caso fosse assaltado. Era eu e Deus nessa viagem meio maluca.
Aos poucos o dia foi clareando e já estava na BR040, que liga Belo Horizonte à Brasília. Que nascer do sol lindo! Aliás tudo fica mais bonito quando estamos felizes. O calor do astro rei em meu rosto me encheu de energia e coragem para prosseguir o caminho. Como era um domingo, encontro vários ciclistas pelo caminho que me desejavam uma boa viagem.
Desta vez fiz um bauleto para a Margarida, que coloquei no bagageiro dianteiro. Na minha primeira cicloviagem a carga ficava um pouco desorganizada, com uma mochila amarrada na frente da bike.
Mas o bauleto improvisado estava fazendo com que a porca que segura o guidão se afrouxasse, deixando a direção um tanto o quanto perigosa. Qualquer movimento brusco eu poderia ir parar no meio da movimentada BR040. Com muito cuidado pedalei por uns 5km até chegar em um mecânico que me emprestou uma chave para que eu fizesse o devido aperto.
 |
| Acima, a Margarida em 2019. Embaixo após a reforma. |
Porca apertada, volto para a BR e, para a minha alegria o guidão estava funcionando bem. Pedalo com confiança e em um bom ritmo, afinal estava pedalando cerca de 6km todos os dias para almoçar no restaurante popular de Belo Horizonte. E a sensação da liberdade, do ventinho no rosto me davam um gás extra. E a estrada tinha um bom acostamento, item essencial para um bom rendimento.
Estou pedalando com mais calma do que em 2019, fazendo paradas para me alongar e dar uma descansada. E, claro para dar uma aliviada na poupança, pois, por melhor que seja o selim e a bermuda, sempre tem aquela dorzinha que incomoda bastante. Acho que o selim é a parte mais difícil de se escolher. Não é a regra de quanto maior e mais macio melhor. Dizem que o selim tem que ser do tamanho da distância entre os ísqueos de nossa bunda. Ìsqueos são os ossos de nossa poupança. Por isso tem ciclista com selins bem duros.
Hora do almoço e eu já havia pedalado pouco mais de 50km! Pego um marmitex em um restaurante e vou para perto de uma carreta para me abrigar do escaldante sol do meio dia. Os dias também são quentes nessa região de Minas Gerais, apesar de estarmos no inverno. E hora do almoço é aquela dúvida: como comer pouco com uma comida tão gostosa? Não consigo e o jeito é comer bem e dar uma boa descansada para conseguir pedalar sem problemas depois da refeição. Pedalar com sol quente e barriga cheia de comida do almoço não é nada bom, pois ainda vem a sede e enchemos mais ainda a barriga de água. Encontro o dono da carreta onde peguei uma sombra e começamos a jogar conversa fora. Ele fazia o seu próprio almoço, no baú da carreta tinha um fogãozinho, o gás e muito mantimento. Me pergunta o motivo da viagem e apenas respondo : É por que gosto ué!"
Depois do descanso, pego a BR novamente e sempre encontro vários motociclistas indo sentido Brasília. Um movimento não muito normal, eram muitas motos mesmo. Daquelas pretas e enormes. A maioria me cumprimenta e depois fico sabendo que em Brasília irá ter um encontro nacional de motociclistas.
 |
| Sol escaldante na parte da tarde. |
De tarde o solzinho veio rachando, mas logo apareceram algumas nuvens que suavizaram a pedalada, deixando o calor suportável. Nesse trecho da BR não faltam restaurantes e postos de gasolina, e sempre foi possível encher as garrafinhas com uma deliciosa água gelada.
Também de tarde o asfalto do acostamento não estava tão bom quando no início, na saída de Belo Horizonte. A má qualidade do piso fazia a bicicleta trepidar muito e não consegui imprimir a mesma velocidade do que na parte da manhã.
Mas, apesar disso o entusiasmo inicial dessa segunda pedalança me fez chegar até a cidade de Paraopeba, distante de Belo Horizonte 110km! Nada mal para o primeiro dia. Para alguns parece muito, mas alguns ciclistas que só pedalam com bikes caríssimas e sem carga irão dizer que é pouco. São ciclistas bem mais jovens do que eu esses que falam que 110km é pouco para um dia. Mas tenho certeza de que não fazem isso em uma bike de 1990 e com uma carga de mais ou menos 30kg.
 |
| Acampamento montado |
Parei em um posto de gasolina. Os frentistas foram gente boa comigo e me deixaram tomar um bom banho relaxante. A água era fria, mas estava muito boa e também não tenho do que reclamar. Imaginem dormir sem tomar banho depois de um dia inteiro de pedal?
Na verdade não consigo dormir nessas condições. Raramente fico sem banho, mas já aconteceu. E o corpo da gente fica coçando com aquele suor e ficamos nos revirando dentro da barraca.
De noite, tomei um lanche e montei minha barraca por volta das oito da noite. Queria acordar por volta das cinco da manhã para aproveitar mais o dia e evitar o sol escaldante do meio dia. Estava um pouco agitado, afinal era o primeiro dia da viagem. A primeira noite dormindo na barraca, que viria a ser a minha residência por vários meses.
 |
| 110km! Nada mau para o primeiro dia. |
Nenhum comentário:
Postar um comentário