20/07/2024
Luizlândia-João Pinheiro-MG
Solitude na BR
Na noite anterior ajustei o despertador para tocar mais cedo, às 4:30 da madruga. Afinal hoje tem um grande desafio para o esquizo:100km entre as cidades de Luizlândia e João Pinheiro! E, para completar, o caminho é praticamente deserto, não irei encontrar nenhum estabelecimento no horário de almoço. Terei que levar lanche para enganar o estômago.
Na padaria no centro de Luizlândia tomo um bom café e compro um salgado e pão de queijo para a viagem. Estava me sentindo muito bem e animado para o dia, não temendo a quilometragem. Às vezes gosto de me impor certos desafios.
A BR040 neste trecho é boa, a temperatura não está tão alta e as tradicionais serras mineiras não aparecem por aqui. Maior parte do caminho é reta. Para melhorar ainda mais, uma brisa suave me acompanha pelo trajeto.
Logo no início avisto uma lanchonete e paro para encher as garrafinhas e tomar um café com leite. Sei que esse será o último ponto de apoio que avistarei antes de João Pinheiro.
Sentado em uma mesa encontro um ciclista com o mesmo capacete que estou usando e brinco:
-Bonito capacete, hein? Só quem tem 50 anos ou mais irá entender a brincadeira, que é de um comercial de camisas em que o dono da empresa e o funcionário usam a mesma vestimenta e o dono diz: "Bonita camisa, hein Fernandinho?"
O cara gentilmente me convidou para sentar em sua mesa e pagou uma deliciosa pamonha. Entre a doce e a salgada, preferi a doce, é óbvio. E ficamos um bom tempo conversando sobre um assunto que não poderia ser outro: bikes. E sobre a viagem, é claro.
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| O ciclista gente boa que conheci no caminho para João Pinheiro. |
As propagandas mais antigas eram bem mais criativas
Com muita dificuldade, me despedi do amigo de pedal e segui em frente, determinado. Essa é a parte dolorida de fazer amizades durante a viagem: a despedida. Mas, não tem jeito, temos que seguir viagem.
Tenho aprendido a planejar a viagem do mesmo jeito que levo a vida: um dia de cada vez. Não gosto de montar dois dias à frente- a estrada é imprevisível, e a vida sempre foi assim comigo. Nunca fui de controlar o futuro, sempre deixando tudo acontecer naturalmente. Mas agora estou me informando melhor sobre o trajeto com as pessoas que encontro pelo caminho, gosto de surpresas e do inesperado, mas até certo ponto.
Com as condições favoráveis, sigo em um bom ritmo. As retas ajudam bastante, mas tem a parte negativa, pois deixa a pedalada um pouco monótona e sonolenta. O jeito é cantar para espantar o sono. Muitos acidente acontecem em retas, pois os motoristas perdem o foco e acabam se distraindo.
Dou uma parada para descansar e curtir a solitude na BR. Nessas viagens uma das coisas que mais aprecio é conhecer pessoas de diferentes lugares, mas também gosto de curtir o silêncio e a paz das estradas. É o encontro com nossa essência, que muitas vezes esquecemos no dia a dia.
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| Trecho bem isolado e deserto do caminho |
As melhorias que fiz na Margarida estão surtindo efeito nessa viagem em relação a outra que fiz em 2019. Estou pedalando mais rápido e cobrindo maiores distâncias em um dia. Paro por volta do meio dia para "almoçar" e me arrependo de ter comprado apenas um salgado e um pão de queijo. Não deu aquela sustância. A verdade é que um arroz, um feijãozinho e uma carninha fazem toda a diferença.
Perco um pouco do entusiasmo matinal e mesmo assim vou na raça e vontade. Quero estar em João Pinheiro à tempo de pegar um rango de verdade.
Cheguei em João Pinheiro por volta das duas e meia da tarde. Mas, como era uma cidade grande e bem movimentada, resolvo seguir adiante. Chega a lembrar um pouco Belo Horizonte, pois, debaixo do viaduto havia alguns usuários de droga. Apesar do cansaço, sigo em frente, à 10km me informaram que encontraria um posto de gasolina, que é onde me sinto mais tranquilo. Não gosto muito da muvuca das cidades grandes e médias.
Arranco energia lá do fundo da minha alma e chego ao posto de gasolina exausto. Foram 115km em uma bike aro 26 com mais de 30 kg na bagagem. O cansaço falou mais alto do que a fome e então abro o colchonete para dar uma boa descansada atrás do restaurante. O problema maior não foi a distância, e sim o fato de ter me alimentado mal na hora do almoço.
Depois do descanso, vou para o restaurante e pego um rango, que estava muito bom por sinal.O tornozelo voltou a ficar inchado, resultado do esforço dos 115km e da serra do Jacaré. Mas não estava doendo tanto. Um cachorro enorme e amigável sem pedir licença pega o meu marmitex com o resto de comida que havia deixado. Claro que não fiquei bravo e brinquei com o dog. Aliás, praticamente todos os postos de gasolina que avistei tinha seus cachorros, principalmente caramelos.
Na parte da tarde fico proseando com alguns caminhoneiros, que me perguntam o motivo da viagem. Simplesmente digo que não tem significado espiritual e nem mental ou outra coisa qualquer. Digo que estou viajando de bike pelo simples fato de gostar de viajar. É isso.
Planejo montar minha barraca na frente do restaurante, assim que o estabelecimento fechar. Na maior calma, na maior tranquilidade. Nessas viagens fico mais zen, não ligando muito para horários, para as notícias do dia a dia, se o meu time ganhou ou perdeu. Simplesmente pedalo, simplesmente vivo um dia de cada vez.
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| Entardecer em João Pinheiro |
Quando tudo caminhava para um final de dia tranquilo, mais um perrengue perrengoso: as funcionárias me avisam, meio sem jeito, que o dono não permite que ninguém monte barraca ali.
Fiquei um pouco desolado, pois não havia visto nenhum lugar coberto que fosse possível montar acampamento. O sereno da madrugada chega a deixar as laterais da barraca bem úmidas, e isso baixa bastante a temperatura na minha humilde residência. Mas, do nada aparece um cara sorridente me oferendo um cantinho de sua oficina de carros e caminhões. Salvo bem na hora!.
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| Hoje foram 115km de raça, amor e paixão pela BR! |





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