sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Pedalanças-Belo Horizonte à Belém-7º dia-Desafio dos 100km sem almoço!

 20/07/2024
Luizlândia-João Pinheiro-MG
Solitude na BR


    Na noite anterior ajustei o despertador para tocar mais cedo, às 4:30 da madruga. Afinal hoje tem um grande desafio para o esquizo:100km entre as cidades de Luizlândia e João Pinheiro! E, para completar, o caminho é praticamente deserto, não irei encontrar nenhum estabelecimento no horário de almoço. Terei que levar lanche para enganar o estômago. 
    Na padaria no centro de Luizlândia tomo um bom café e compro um salgado e pão de queijo para a viagem. Estava me sentindo muito bem e animado para o dia, não temendo a quilometragem. Às vezes gosto de me impor certos desafios. 
     A BR040 neste trecho é boa, a temperatura não está tão alta e as tradicionais serras mineiras não aparecem por aqui. Maior parte do caminho é reta. Para melhorar ainda mais, uma brisa suave me acompanha pelo trajeto.
     Logo no início avisto uma lanchonete e paro para encher as garrafinhas e tomar um café com leite. Sei que esse será o último ponto de apoio que avistarei antes de João Pinheiro. 
     Sentado em uma mesa encontro um ciclista com o mesmo capacete que estou usando e brinco:
     -Bonito capacete, hein? Só quem tem 50 anos ou mais irá entender a brincadeira, que é de um comercial de camisas em que o dono da empresa e o funcionário usam a mesma vestimenta e o dono diz: "Bonita camisa, hein Fernandinho?"
        O cara gentilmente me convidou para sentar em sua mesa e pagou uma deliciosa pamonha. Entre a doce e a salgada, preferi a doce, é óbvio. E ficamos um bom tempo conversando sobre um assunto que não poderia ser outro: bikes. E sobre a viagem, é claro.
O ciclista gente boa que conheci no caminho para João Pinheiro. 

                                        As propagandas mais antigas eram bem mais criativas 
    Com muita dificuldade, me despedi do amigo de pedal e segui em frente, determinado. Essa é a parte dolorida de fazer amizades durante a viagem: a despedida. Mas, não tem jeito, temos que seguir viagem.
    Tenho aprendido a planejar a viagem do mesmo jeito que levo a vida: um dia de cada vez. Não gosto de montar dois dias à frente- a estrada é imprevisível, e a vida sempre foi assim comigo. Nunca fui de controlar o futuro, sempre deixando tudo acontecer naturalmente. Mas agora estou me informando melhor sobre o trajeto com as pessoas que encontro pelo caminho, gosto de surpresas e do inesperado, mas até certo ponto. 
     Com as condições favoráveis, sigo em um bom ritmo. As retas ajudam bastante, mas tem a parte negativa, pois deixa a pedalada um pouco monótona e sonolenta. O jeito é cantar para espantar o sono. Muitos acidente acontecem em retas, pois os motoristas perdem o foco e acabam se distraindo. 
      Dou uma parada para descansar e curtir a solitude na BR. Nessas viagens uma das coisas que mais aprecio é conhecer pessoas de diferentes lugares, mas também gosto de curtir o silêncio e a paz das estradas. É o encontro com nossa essência, que muitas vezes esquecemos no dia a dia. 
Trecho bem isolado e deserto do caminho 


     As melhorias que fiz na Margarida estão surtindo efeito nessa viagem em relação a outra  que fiz em 2019. Estou pedalando mais rápido e cobrindo maiores distâncias em um dia. Paro por volta do meio dia para "almoçar" e me arrependo de ter comprado apenas um salgado e um pão de queijo. Não deu aquela sustância. A verdade é que um arroz, um feijãozinho e uma carninha fazem toda a diferença. 
     Perco um pouco do entusiasmo matinal e mesmo assim vou na raça e vontade.  Quero estar em João Pinheiro à tempo de pegar um rango de verdade.
   Cheguei em João Pinheiro por volta das duas e meia da tarde. Mas, como era uma cidade grande e bem movimentada, resolvo seguir adiante. Chega a lembrar um pouco Belo Horizonte, pois, debaixo do viaduto havia alguns usuários de droga. Apesar do cansaço, sigo em frente, à 10km me informaram que encontraria um posto de gasolina, que é onde me sinto mais tranquilo. Não gosto muito da muvuca das cidades grandes e médias. 
     Arranco energia lá do fundo da minha alma e chego ao posto de gasolina exausto. Foram 115km em uma bike aro 26 com mais de 30 kg na bagagem. O cansaço falou mais alto do que a fome e então abro o colchonete para dar uma boa descansada atrás do restaurante. O problema maior não foi a distância, e sim o fato de ter me alimentado mal na hora do almoço.
      Depois do descanso, vou para o restaurante e pego um rango, que estava muito bom por sinal.O tornozelo voltou a ficar inchado, resultado do esforço dos 115km e da serra do Jacaré. Mas não estava doendo tanto. Um cachorro enorme e amigável sem pedir licença pega o meu marmitex com o resto de comida que havia deixado. Claro que não fiquei bravo e brinquei com o dog. Aliás, praticamente todos os postos de gasolina que avistei tinha seus cachorros, principalmente caramelos. 
      Na parte da tarde fico proseando com alguns caminhoneiros, que me perguntam o motivo da viagem. Simplesmente digo que não tem significado espiritual e nem mental ou outra coisa qualquer. Digo que estou viajando de bike pelo simples fato de gostar de viajar. É isso. 
      Planejo montar minha barraca na frente do restaurante, assim que o estabelecimento fechar. Na maior calma, na maior tranquilidade. Nessas viagens fico mais zen, não ligando muito para horários, para as notícias do dia a dia, se o meu time ganhou ou perdeu. Simplesmente pedalo, simplesmente vivo um dia de cada vez. 
Entardecer em João Pinheiro


     Quando tudo caminhava para um final de dia tranquilo, mais um perrengue perrengoso: as funcionárias me avisam, meio sem jeito,  que o dono não permite que ninguém monte barraca ali.
     Fiquei um pouco desolado, pois não havia visto nenhum lugar coberto que fosse possível montar acampamento. O sereno da madrugada chega a deixar as laterais da barraca bem úmidas, e isso baixa bastante a temperatura na minha humilde residência. Mas, do nada aparece um cara sorridente me oferendo um cantinho de sua oficina de carros e caminhões. Salvo bem na hora!. 
Hoje foram 115km de raça, amor e paixão pela BR!


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