quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Pedalanças -Belo Horizonte à Belém do Pará 2º dia-Tive alucinações!

 15/07/2024
Paraopeba-MG à Felixlândia 

Adentrando o cerrado mineiro



    Não dormi bem, apesar de dormir em um bom posto de gasolina. O silêncio tomava conta da madrugada, ao contrário de minha inquieta mente. Afinal era o primeiro dia de viagem. Os leitores do blog sabem que faço essas viagens malucas desde o ano de 2012. Mas estava há um bom tempo trancado no meu quartinho em Belo Horizonte. E, como todo bom paranoico, sempre tenho minhas cismas, em quaisquer circunstâncias. 
    Poucas pessoas no posto. Entrei na minha barraca por volta das oito da noite. Não sei à que horas exatamente, mas o som inconfundível de chinelos se arrastando rompeu o silêncio. Abri o zípper da barraca, mas, lá fora, ninguém... Me lembrei da minha viagem em 2019, quando dormi na calçada sem montar a barraca, por conta do sufocante calor da cidade de São Mateus, no Espírito Santo. A bike estava presa com cadeado, e minha mochila amarrei com corda em meu corpo, uma armadilha para meliantes. E não demorou muito para aparecer um indivíduo desses. O chinelo arrastado era sua tática para testar meu sono. Por três vezes ele apareceu, mas, quando me viu abrindo os olhos seguiu em frente. Provavelmente na quarta vez não acordei, mas, graças a corda, salvei meus documentos e minha viagem naquele dia. 
     E agora estava ouvindo esse arrastar de chinelos cinco anos depois em um posto de gasolina. Mas a diferença é que esse som estava vindo de dentro de minha cabeça. E foram umas três vezes que tive essa alucinação auditiva. E o posto estava uma tranquilidade, poucos caminhoneiros pararam para dormir ali.
Seria a esquizofrenia ecos do passado?
     E, para piorar a situação, comecei a ter alucinações tácteis. É isso mesmo, na esquizofrenia a pessoa não só ouve coisas, enxerga coisas que não existem. Ela também pode ter a sensação de que estão tocando nela ou outra sensação tátil. Naquela madrugada senti mãos atravessando a barraca e encostando em mim. E não era sonho, não estava dormindo. E também não estava completamente acordado. Estava no meio termo, quase pegando no sono. 
      Como tenho anos e anos de esquizofrenia e aquilo não era uma novidade para mim, apenas levei um enorme susto. Mas não me desesperei como no início dos surtos, quando não tinha a mínima ideia do que era esquizofrenia. E continuei a tentar a pegar no sono. 
      Fez bastante frio de madrugada. Mas isso não foi o maior problema desse primeiro e segundo dia.
     Acordei bem cedo, tomei 700ml de água em jejum e comecei a desmontar o acampamento. A carga da bike estava bastante desorganizada. Não estava achando nada, ficava tudo misturado na mochila.Não sabia qual o melhor lugar minhas coisas. Demorei bastante para ajeitar a bike para começar a pedalar. Não havia preparado a Margarida para essa viagem, essa é a verdade. Primeiro foi o guidão que não tinha fixação suficiente para aguentar o peso do bauleto frontal. Apesar do aperto na rosca, ainda estava dando uma pequena folga com o passar do tempo e tive que redobrar a atenção a cada curva e obstáculo na minha frente. 
    Tomei um bom café no posto de gasolina. Ainda tive que esperar um pouco para o sol aparecer, pois no inverno os dias são mais curtos, com o sol se pondo mais cedo e nascendo mais tarde.
      E o frio se tornou intenso quando desci a serra. Meus dedos congelaram com o vento. Meus lábios começaram a arder. 
    Mas Minas Gerais todo mundo sabe como é. Muita serra e tem regiões em que se você não está subindo você está descendo. E é bem desse jeito na saída de Belo Horizonte para Brasília. Mas estou em um bom ritmo, acho que as modificações na mecânica da bike ajudaram bastante. Coloquei rolamentos bons nas rodas e no pedal. Em 2019 a Margarida usava esferas e era complicada a manutenção. Já o esquizo pode ter perdido um pouco de força, mas, a resistência continua a mesma. 
Acidentes...


    O céu está limpo e lindo, sem nuvens. Mas essa beleza cobra um preço, por volta das dez da manhã o calor já estava castigando. As garrafinhas esvaziavam rapidamente, e as casas e postos de gasolina iam ficando raras. 
    Às onze horas a situação se complicou. A água havia acabado, estava levando apenas duas garrafinhas na bike. Carrego um cantil no bauleto, mas não havia colocado água nele, pois cada litro de água significa um quilo a mais de bagagem. Na minha cabeça só iria precisar de encher o cantil depois de ultrapassar o estado de Goiás. 
     Aos poucos vejo a vegetação se modificando. As árvores baixas e tortuosas com poucas folhas indicam que estou adentrando o cerrado. Em todas as minhas andanças e pedalanças não havia visto um bioma diferente. Todas as minhas viagens foram na região sudeste, com suas matas e florestas densas. 
Adentrando o cerrado. Um pouco de medo do calor. 


    Por volta das onze horas a situação ficou insustentável em uma serra braba. Não estava com fome, apesar de ter tomado café da manhã bem cedo. Era a sede que me incomodava e tirava minhas forças. Convenhamos que a sede é pior do que a fome. O estômago pode esperar algumas horas, sobrevivemos vários dias sem comer, mas sem água a situação fica complicada, afinal somos feito de 75% desse elemento da natureza. Dizem que podemos ficar no máximo quatro dias sem água, dependendo do indivíduo. E, como boto bastante doce para dentro da barriga, acho que não consigo ficar três horas sem beber nada. 
    Subindo a serra avistei algumas casas no meio da montanha. Alguns carros passavam e eu erguia a minha garrafinha, em um gesto silencioso, porém já com um pouco de angústia. Ninguém parou. Não restou outra alternativa a não ser entrar pela estrada de terra e seguir em direção ao vilarejo, que, para o meu desespero, parecia abandonado. Casas vazias, portões fechados e silêncio. Quando avistei um carro, eram de pessoas que trabalhavam na empresa de abastecimento de água. E, por incrível que pareça, eles estavam sem água. O jeito era seguir pela estrada de terra até encontrar alguma alma caridosa. O meu medo era de não encontrar ninguém e me afastar mais ainda da BR. 
    Mas tinha que escolher um caminho. Já estava meio debilitado e era mais fácil descer. E prossegui pela estrada de terra até encontrar uma sorveteria! Isso mesmo, uma sorveteria naquele lugar deserto!
Não poderia encontrar lugar melhor para me refrescar. 
  
Não é miragem, uma sorveteria no meio do nada!

    A dona do local estava fazendo almoço, e era um pouco séria. E como também sou meio caladão e difícil de iniciar conversas, um silêncio um pouco constrangedor tomou conta do local. A ausência de sons só era quebrada quando algumas crianças estudando nas mesas falavam alguma coisa. 
    Pedi água e sorvete para enganar o calor. Meu estômago estava roncando mais do que os motores dos caminhões da estrada. E perguntei se ela poderia me vender um almoço, pois a BR naquela região era um pouco deserta. Acho que já estávamos no cerrado, com as árvores mais baixas. Ela disse que poderia sim servir o almoço, com a cara mais séria ainda. Estava um pouco constrangido por aquela situação, mas não tinha por onde recorrer. E enquanto esperava o rango, pluguei o celular e a câmera compacta velha de guerra. Sou um cicloviajante bem raiz mesmo, não tenho GPS, nem GOPRO, sou guiado por minhas intuições e por Deus. 
Rumo à Felixlândia. 


     Depois do rango, sigo em frente, apesar do forte sol do meio dia da região. Na BR tenho a confirmação de que tomei a decisão correta de entrar pela estrada de terra. Só 20km em frente que encontro algum lugar para pegar água. Se seguisse pela BR teria que ter a sorte de encontrar algum caminhoneiro que me parasse seu veículo para matar a minha sede.  
    Pedalo mais um pouco e por volta das cinco da tarde encontro um posto de gasolina na cidade de Felixlândia. Foram 98km e para minha surpresa estou em boas condições. Como não tenho lanterna e não conheço a região e muito menos tenho GPS, não tenho dúvidas em parar para descansar e procurar um local para montar acampamento. 
    Foi um dia difícil. Aprendi que tenho que estar melhor preparado na questão da água e me informar melhor com as pessoas sobre o caminho. Não sou muito de planejar o quanto irei pedalar no dia, vou seguindo e pronto. Mas tenho que pelo menos organizar um dia de cada vez, para não passar nenhum perrengue por conta de mau planejamento. Não tenho pressa para chegar em Belém, quero curtir o caminho, sem neuras e sem pressa. Mas um dia de cada vez, assim como faço na minha vida. 
98km debaixo de um sol escaldante no cerrado de Minas. 


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