Margarida, minha fiel companheira (só eu que ando nela!)
Existem decisões que não tomamos somente com a cabeça, mas com o espírito. Ou com os dois. Diante das dívidas e do tédio que me corroía a alma, decidi novamente pegar a estrada. E o destino? Um lugar meio que aleatório, era cismado com Belém desde criança e botei na cabeça que um dia iria conhecer. Como, não importa. Se não tem carro, vamos de bicicleta. E não estava sozinho, comigo, além de Deus, estava a Margarida, minha fiel companheira desde 2018, carregando as marcas em seu alumínio resistente que já aguentou muita estrada esburacada por esse nosso país. E agora ela guarda também a poeira de dez estados brasileiros percorridos por minhas finas canelas de ciclista. Quando saí de Belo Horizonte em julho de 2024, o horizonte não era apenas uma linha no mapa, era um desafio não só físico como mental e silencioso que se estendia por mais de 3000km até as águas da cidade de Belém do Pará. Queria também conhecer a ilha de Marajó que um dia vi na TV com seus búfalos. Este livro não é apenas um relato de quilometragens ou coordenadas geográficas. É o registro de quase dois meses em que o tempo passou a ser medido pelas pedaladas e a segurança passou a ser o teto de minha barraca montada entre o barulho das carretas em postos de gasolina e a solidão das madrugadas nas rodoviárias das pequenas cidades do interior do Brasil (para mim os melhores lugares para se dormir na barraca em uma cicloviagem).

Pelas páginas que se seguem, você encontrará o diário visual e escrito de uma jornada de extremos. Vivi o sol impiedoso que deforma o horizonte, a chuva que lava a alma e encharca o equipamento. E o frio das madrugadas de inverno em Minas Gerais, que chegavam a queimar os meus lábios. Vivi a angústia da sede em trechos isolados e o vento deslocado pelas gigantes carretas que dividiam comigo o espaço vital do acostamento, passando a centímetros de minha bike. Mas vivi, vivi um sonho de liberdade, a liberdade não somente de ir e vir, mas também de ser quem realmente somos, sem máscaras ou limites.  Todo cuidado é pouco nas estradas.
Pedalar de Minas ao Pará em uma bike fabricada em 1990 não é só um exercício físico intenso e desgastante, também é um exercício de paciência e humildade. A Margarida me ensinou que não precisamos do mais moderno e do mais caro para se chegar ao destino, mas sim de coragem(muita coragem) de continuar girando os pedais, mesmo quando nosso corpo pede parar. Como disse no início, a cicloviagem é uma atividade que requer tanto do físico como do psicológico. Nas enormes serras, aprendi que não devemos ficar focando muito no fim, fixando nosso olhar para o alto. Nessas horas o melhor a se fazer é baixar a cabeça e focar nossa mente nos próximos dez metros à nossa frente. E assim, aos poucos, chegamos ao pico das serras, tão comuns em nosso país. Encontrei serras que me cansavam só de olhar para o alto.
Entre as fotos das diversas paisagens - do cerrado ao norte com suas matas, relato encontros com desconhecidos que se tornaram anjos da estrada. Nos dias de extremo desânimo, essas almas apareciam nas horas e lugares exatos, me oferecendo aquela água gelada, alimento e, o principal, uma palavra de incentivo que recarregava minhas energias. Sem esses anjos disfarçados de humanos não teria concluído o meu projeto. Convido você a montar na garupa dessa história e sentir o cheiro da estrada, o peso da bagagem e a liberdade indescritível de atravessar o Brasil no ritmo do próprio coração. Bem vindo à estrada. Prepare-se para o suor, para a poeira e para a beleza de um país que só se conhece de verdade quando se tem a coragem de percorrê-lo sobre duas rodas. Obs: todos os dias irei postar o diário com as fotos dessa viagem.
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