domingo, 1 de julho de 2012

Meu livro

    

   Sempre quando conhecia novas pessoas, a maioria no mundo virtual, durante a conversa sempre surgia a pergunta:
    - E ai, o que você faz da vida? Trabalha, estuda?
    No começo eu mentia, com receio da reação da pessoa. Dizia que ainda trabalhava. Mas com o tempo acabei cansando de mentir para as pessoas e principalmente para mim mesmo. 
    Então resolvi contar a verdade. Na maioria das vezes sempre tinha que explicar o que era esquizofrenia e sempre acabava contando minhas "aventuras" nas ruas durante os surtos, pois nunca cheguei a ser internado, talvez pelo fato de não ser agressivo e ficar quase sempre calado durante as crises. Acabava indo para as ruas para tentar fugir dos inimigos que estavam em minha mente. Ao ouvirem o meu relato, muitas pessoas ficavam impressionadas e algumas me sugeriram que eu escrevesse um livro sobre esses acontecimentos. 
    Depois de analisar tudo o que me aconteceu antes, durante e depois dos surtos, cheguei à conclusão de que a história poderia render um bom livro. Se o livro da Bruna surfistinha e outros da mesma linha conseguiram ser editados, por que o meu não poderia ser? 
    O livro tem 127 páginas. Foram cerca de sete meses relembrando situações duplamente difíceis de serem narradas. Primeiro pelo fato de terem acontecido há muito tempo e, segundo, por ser extremamente complicado narrar situações em um momento em que não estava em pleno gozo de minhas faculdades mentais (todo post eu tenho que falar como médico rsrsrs). Tive de tomar muito cuidado para que a narrativa não ficasse confusa, sendo que minha principal intenção é fazer com que o leitor tenha a visão de quem estava surtado, no caso eu. 
    À princípio, o título do livro é "Mente dividida" e o subtítulo "Memórias de um esquizofrênico", que também é o nome do meu blog. 
    Não tenho a pretensão de ficar famoso ou ganhar dinheiro com o livro. Sei o quanto é difícil de se editar um livro e só os que tem uma excelente vendagem é que geram algum lucro. 
    Gostaria apenas que essa história fosse registrada, pois ela reúne diversos elementos em uma história só: tristezas, alegrias, a solidariedade das pessoas nos meus momentos mais difíceis, aventura, tragédia, coisas engraçadas. Para resumir, digo que esse livro é uma tragicomédia, por reunir elementos tão distintos. 

-Obs: Essa postagem foi feita no ano de 2012. Depois de alguns meses e algumas correções, o livro finalmente ficou pronto e já está à venda. São 127 páginas em que falo a minha relação com a esquizofrenia, desde a infância, passando pelas dificuldades durante os surtos, a parcial recuperação até o momento em que tive que me aposentar e procurar algum sentido para a vida. Para maiores informações, basta enviar um email com o assunto "livro" para:
juliocesar-555@hotmail.com

Contato

Email: memoriasdeumesquizofrenico555@gmail.com
Facebook: https://www.facebook.com/profile.php?id=100080049668229

    Sou um cara caladão, de ficar mais na minha mesmo. Mas se eu puder ajudar em algo entre em contato pelos canais acima.



Sobre o blog

    A minha intenção ao escrever este blog é a de mostrar a esquizofrenia na visão de um portador, de uma maneira o mais simples possível. Nada contra quem usa uma linguagem mais acadêmica. Mas, quando comecei a estudar o transtorno para tirar as inúmeras dúvidas que assolavam minha mente, me deparei com inúmeros sites que não me ajudaram muito, justamente por usar esse tipo de linguagem. 
    Como a esquizofrenia é uma patologia cercada de mistérios e mitos, senti que faltava algo que pudesse falar sobre esse assunto de uma maneira aberta e direta. 
   Hoje sou aposentado e não me preocupo tanto assim com o que os outros irão dizer. Confesso que, se ainda estivesse no mercado de trabalho, não teria feito os vídeos para o youtube e nem colocaria a minha foto no blog, pois essa exposição poderia me prejudicar na hora de procurar um trabalho ou então colocar o meu emprego em risco caso estivesse trabalhando. 
    Não quero aparecer, quero apenas ajudar um pouco a quebrar esse preconceito o estigma que cercam essa patologia que acomete cerca de 1% da população. Isso não é pouco, é muita gente que sofre com esse preconceito e acho que isso precisa ser divulgado e não apenas quando alguma pessoa com algum transtorno mental comete algum crime, como se as prisões hoje em dia não estivessem superlotadas com pessoas ditas normais. 

Sobre mim

                                                         Infância
    Se fazer uma auto análise para que as outras pessoas vejam ou ouçam é uma tarefa meio complicada para as pessoas ditas normais, imagine para quem teve uma vida complicada com um transtorno mais complicado ainda. 
    Para começar a complicação já vem na data de nascimento, que foi trocada no cartório quanto eu tinha cerca de oito anos de idade. Minha mãe me levou ao cartório para tirar a segunda via do documento, que deve ter sido perdida. Ao pegá-lo, notei que o dia do meu nascimento foi trocado, apenas o mês e o ano estavam corretos. Nasci no dia 26/09/1969 e na certidão nova estava dia 27/09/1969. Olhei para minha mãe, mas, como ela não havia dito nada, resolvi deixar para lá esse assunto. Pensei que poderia até ter dois aniversários para comemorar
    Costumo dizer que não "fiquei" esquizofrênico após o primeiro surto, aos 32 anos de idade, e sim que já nasci esquizofrênico, ao relembrar e analisar meus pensamentos e atitudes durante minha infância, adolescência e na fase adulta também. Fui criança até os 14 anos de idade, brincando de esconde esconde, queimada, banco imobiliário e outras coisas daquela época. Quando não estava fazendo isso, ou estava fazendo bagunça ou jogando bola. Virei adolescente por volta dos 15 anos de idade e virei adulto aos 17, quando minha avó faleceu e tive que começar a trabalhar. Foi uma mudança muito repentina e resolvi sair de casa, pois a sensação que eu tinha era de que estava sobrando naquela casa.
    Nunca houve um diálogo em nossa casa. Não brigávamos, mas também não conversávamos. Somente minha avó conversava um pouco comigo, às vezes. Minha mãe tinha problemas de audição e se isolava do mundo. Mas, além disso, creio que também deveria ter algum transtorno mental, pois até hoje me lembro do dia em que ela teve uma crise e foi levada ao hospital. Quando minha avó chegou em casa, disse, meio que reclamando.
- O médico disse que a minha filha é louca".
    Não tenho nenhuma lembrança do meu pai. Provavelmente deve ter se separado de minha mãe antes que eu completasse quatro anos de idade.
    Por não ter alguém para me educar e me impor limites, fui um menino bem bagunceiro. Qualquer coisa de errado que acontecesse na rua os vizinhos não pensavam duas vezes em bater em nossa porta para tirar satisfações. Confesso que, na maioria das vezes eles tinham razão.
    Era tão bagunceiro que, no dia da primeira comunhão, pensei em fazer uma lista de todos os meus pecados, com medo de esquecê-los na hora de me confessar para o padre. Estava preocupado, com receio de que Deus iria me castigar cruelmente caso não contasse todas as minhas peraltices. Estudava em um colégio de freiras, e tinha ouvido falar que certa vez a hóstia se transformou em  sangue na boca de um menino que tinha resolvido ocultar os seus pecados. Também estava preocupado com a cerimônia, pois, se resolvesse contar tudo, certamente iria atrasá-la em cerca de meia hora. No dia da primeira comunhão lembro-me que acordei febril e suando frio, mas, quando chegou a minha hora de confessar, só contei dois "pecadinhos" e o padre pediu para que eu rezasse cinco ave marias e cinco pai nossos.
                                                        Adolescência
    Como disse anteriormente, fui criança até os quatorze anos de idade, o que era algo normal para a época.  Já sentia que havia algo estranho em mim, me sentia diferente e pressentia que algo de não muito bom estaria por vir, pois não estava gostando muito da ideia de me tornar um adulto.
    Fiquei um pouco rebelde, e para demonstrar essa minha nova fase, virei metaleiro. Deixei o cabelo crescer e comecei a ouvir bandas de heavy metal. Não cheguei a usar drogas, já era meio maluquinho por natureza mesmo e, para me enturmar com os metaleiros, bebia um pouco e fingia estar bêbado, também com o pretexto de poder fazer minhas brincadeiras e palhaçadas.
    Aos dezessete anos, prestes a terminar o curso técnico de eletrônica, minha avó faleceu e então comecei a trabalhar. Como a única referência de família não estava mais em casa, resolvi ir embora.
    Meu primeiro serviço foi em uma firma que vendia e consertava equipamentos hidráulicos, compressores, etc. Era ajudante de mecânico, e, como detestava graxa, fiquei nesse trabalho por apenas sete meses.
    Como gostava de música, meio que por acaso consegui um trabalho em uma firma de sonorização para shows, festas e outros eventos. Trabalhar nessa área me fazia feliz e desisti da eletrônica, pois a grana que eu ganhava não dava para pagar o colégio também.
                                                       
                                                      Fase meio adulta...
    Com o tempo, fui deixando de ser o rebelde metaleiro para ser o pacato cidadão, o que sou até hoje. Comecei a me fechar para o mundo depois que minha avó faleceu. Ficava sempre na minha mesmo, apesar de ser um cara engraçado e até meio esquisito. Chamava a atenção das garotas, apesar de não ser bonito. Tinha o cabelo comprido e cheguei até dar autógrafos quando estava trabalhando em um show. Às vezes, as garotas prestavam mais atenção em mim do que na banda que estava tocando em cima do palco.
     E, desde então passei a só trabalhar na área de sonorização. Era o que eu gostava: música, shows, conhecer novos lugares e pessoas. Não me importava nem um pouco de ter que trabalhar mais nos finais de semana e feriados do que nos dias de semana. Chegava a ficar meio deprimido, quando chegava o mês de janeiro, época de pouco serviço. Um mês de férias era muito para mim.
    Fui um bom funcionário por todos os lugares onde havia passado. Era meio cigano, não ficava muito tempo em um serviço e mudava constantemente de cidade, como se estivesse à procura de algo, que hoje sei que está dentro de mim. Consegui trabalhar bem até por volta dos trinta anos de idade, quando os primeiros sinais da esquizofrenia começaram a aparecer. A sensação de que estava sendo observado e de que estavam todos contra mim começou a atrapalhar o meu rendimento no trabalho e o meu convívio social.
Houve uma época em que realmente havia algumas pessoas contra mim, principalmente na firma onde eu trabalhava, simplesmente pelo fato de eu ganhar mais e ser um profissional mais requisitado para os serviços da empresa.
    Esses pensamentos e sensações viraram uma bola de neve e então tive meu primeiro surto aos trinta e dois anos de idade.Abandonei o serviço e morei nas ruas por aproximadamente cinco meses, até me estabilizar novamente, e então voltei a trabalhar. Um ano depois, voltei a surtar e, após voltar para as ruas, fui levado para um albergue, onde fiquei por cerca de um ano e meio, até conseguir o auxílio doença.
    Depois de cinco exaustivos anos fazendo perícias no INSS, consegui me aposentar.
                   
                                                        Hoje em dia
    A aposentadoria foi um mal necessário e que trouxe um grande vazio em minha vida. A sensação de inutilidade é muito grande e procuro preencher isso fazendo cursos, aprendendo coisas novas e escrevendo este blog.
    Também escrevi um livro contando sobre os meus surtos até os dias de hoje. É uma história diferente, pois, ao contrário da maioria dos portadores de esquizofrenia que são internados quando surtam, eu, acho que por não ser agressivo, ia para as ruas até conseguir me estabilizar novamente. Não posso contar muita coisa do livro neste blog, pois, apesar das dificuldades, sonho em vê-lo sendo publicado algum dia.
    Quem souber de uma ideia ou alguém que possa me ajudar nisso, entre em contato comigo. Queria deixar bem claro que não estou escrevendo este blog para conseguir alguma ajuda para o livro, queria apenas compartilhar minhas experiências com as pessoas sobre a minha visão sobre a esquizofrenia, tentando ajudar a diminuir o preconceito e o estigma que cerca essa patologia.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

A mania de perseguição que me persegue parte 2


    Após uma longa e intensa batalha contra a balança, finalmente consegui chegar ao meu peso ideal, que é em torno de 82 quilos. Pode até parecer bichice isso, coisa de mulher e tal, mas ter tirado um excesso de oito quilos de minhas  costas me deixou mais ágil e bem disposto, sem contar que os triglicérides voltaram a uma taxa que é considerado aceitável. 
    Deveria ser motivo de total alegria para mim essa pequena conquista, pois não foi fácil diminuir o delicioso pudim de leite e outros quitutes da culinária mineira. Sem contar que sou um chocólatra assumido, coisa que geralmente é de mulheres também, mas o fato é que o chocolate contém uma substância que ajuda na captação da serotonina (olha eu falando que nem médico de novo), e que dá a famosa sensação de bem estar, e por isso as mulheres recorrem a essa gostosura, principalmente quando estão com tpm
    No meu caso, fico bem humorado, alegre, disposto, tudo fica mais colorido em minha vida quando como chocolate. Cheguei a pesquisar no google outros alimentos que poderiam ajudar na produção da serotonina, mas, infelizmente, só o chocolate e os carboidratos é que conseguem fazer isso. Algumas frutas, como a banana, até cheguei a ler que ajudam um pouco nessa questão, mas o efeito não é tão imediato e intenso como o dos achocolatados, massas e açúcar em geral.  Gostaria de deixar bem claro que essa substância é fabricada naturalmente pelo organismo da pessoa, não precisando de nenhum alimento para tê-la em nosso corpo. Mas, em algumas pessoas, parece que o cérebro não consegue fabricar ou captar essa substância, o que pode gerar uma depressão. 
    O chocolate é como se fosse uma droga para mim. Aliás, acho que é uma droga, pois considero droga qualquer substância que altere o estado de ânimo natural da pessoa. Em poucos segundos depois de ingerir, meu cérebro parece que diz: obrigado! O problema é que o meu corpo não pode dizer o mesmo, pois, além de engordar muito, os triglicérides estavam em 420mg, quando o limite é de 200mg, ou seja, mais do que o dobro. 
    A necessidade de comer chocolate e carboidratos, aliado ao fato de me preocupar com a minha saúde, me fizeram engordar e emagrecer várias vezes. Isso fez com que aparecessem boatos de que eu estava com aids, há uns dez anos atrás. Começou aos poucos como um bochicho, apenas no bairro, mas acabou virando uma bola de neve e, em pouco tempo, o boato se espalhou rapidamente pela cidade onde eu morava naquela época. 
    Para piorar, nessa época tive dengue e fiquei muito mal. O boato acabou "virando realidade' e o zun zun zun foi geral. E, para piorar mais ainda, depois de me recuperar da dengue, peguei uma virose braba. Nesse momento, os moradores da cidade, que prefiro preservar o nome, já haviam decretado o meu fim. Prefiro preservar o nome do município, pois pode ficar parecendo que guardo rancor dos moradores dessa localidade. Procuro nunca alimentar esses sentimentos negativos e também sei que existem pessoas boas por lá e que não gostam de ficar comentando a vida alheia. Já morei em diversas cidades do interior de Minas Gerais, rodei boa parte do Brasil, e não me lembro de ter tantas inimizades como tive nessa cidade, pois sempre fui um cara bem retraído mesmo. 

    Então, de tanto ouvir que estava com aids, que eu mesmo acabei acreditando naquilo, apesar de sempre usar preservativos em minhas relações sexuais. Como diz o velho ditado: " Uma mentira dita várias vezes acaba virando verdade". Fiquei muito deprimido, e pensei em me matar assim que os primeiros sintomas da aids aparecessem, pois não queria sofrer morrendo aos poucos, apesar de saber que já naquela época os remédios para a aids davam uma boa perspectiva de vida ao indivíduo. 
    Por onde eu andava na cidade, reparava que as pessoas olhavam para mim de uma maneira diferente, algumas com pena, outras com um ar de discriminação e preconceito, chegando ao cúmulo de um dono de restaurante não ter gostado da minha presença em seu estabelecimento. Talvez ele pense que o vírus da aids possa ser transmitido pela saliva através dos talheres, ou então por simples preconceito mesmo. Também senti na pele o preconceito que os portadores do vírus hiv sofrem, ao fazer uma manutenção no sistema de som em um clube da cidade. Uma mulher que estava se bronzeando na beira da piscina, ao me ver, perguntou para um funcionário com um ar de repugnância:
    - Esse cara está frequentando o clube agora?
    Um fato que  me deixou para baixo nessa onda de boatos ocorreu quando reencontrei  uma garota que tinha conhecido anos atrás. Fiquei feliz ao vê-la e pensei em ir conversar com ela, mas logo desisti quando reparei em seu olhar um misto de raiva e reprovação. Depois fiquei sabendo que ela ficou desesperada pensando que poderia ter contraído o vírus da aids, sendo que ficamos apenas nos beijos e abraços e nunca chegamos "aos finalmente". 
    Com tudo aquilo acontecendo fui cada vez mais ficando deprimido. Já não saia mais de casa e conversava o mínimo possível. Depois de algum tempo, resolvi fazer o teste do hiv para pegar os medicamentos e começar a fazer o tratamento. Mas, para a minha surpresa, o teste deu negativo. Já estava tão paranoico que imaginei que o laboratório havia falsificado o resultado, para que assim eu não pudesse pegar os remédios e sofresse mais e morresse mais rápido. 
    Pensei em fazer o teste em outra cidade, mas a mania de perseguição era tão grande que cheguei a imaginar que todos os laboratórios do Brasil tinham o meu nome e a minha foto, e que havia uma conspiração para não darem o "suposto verdadeiro" resultado do exame. Cogitei em fazer o exame no Paraguai, mas naquela época estava sem grana, pois ganhava por serviços prestados e, como estava muito pra baixo, já não estava conseguindo trabalhar bem. 
    Certo dia, tive um flash back e em minha mente veio a cena de uma relação em que o preservativo se rompeu. No mesmo instante, imaginei que havia transmitido o vírus da aids para a mulher com quem estava e me senti um verdadeiro assassino. Um filme começou a passar em minha cabeça e me lembrei de duas relações em que não usei o preservativo. Então, o número das supostas vítimas havia subido para três, em minha mente. Um enorme sentimento de culpa se alojou em minha cabeça, sendo que, quando estava surtado, em duas ocasiões pedi  para que policiais me prendessem, chegando a dizer que era um réu confesso. Na primeira vez, o policial achou engraçada a situação, pois me apresentei à ele com as mãos juntas na posição para serem algemadas e repetindo que era um réu confesso. O policial, sorrindo, falou de Deus para mim e me ofereceu um marmitex, que, apesar da fome em que estava, acabei jogando fora, imaginando que a comida poderia estar envenenada. Na segunda vez, os policiais não foram tão amistosos assim, pois eu havia telefonado de um orelhão dizendo que era um réu confesso. Em poucos minutos, a viatura chegou ao local e me abordaram com uma arma. Após me revistarem, me deixaram na br. 
    Demorou alguns anos para que essa ideia de que estava com aids saísse de minha cabeça. Mudei de cidade e o tratamento na área de saúde mental aqui é bom, muito melhor do que  onde ocorreram os boatos. Sem contar o fato de que aqui as pessoas não ficam falando sobre mim como acontecia na outra cidade, acho que pelo fato de ser bem maior. Com o tempo e o tratamento fui melhorando aos poucos e, depois de quatro testes negativos, finalmente acreditei que não tinha nenhum vírus da aids. Um peso enorme saiu de minhas costas, não era mais um assassino e poderia voltar a beijar na boca de novo!
    Mas, nem tudo está bem. Ainda hoje, aqueles comentários ecoam em minha mente, principalmente quando consigo voltar ao peso normal. Fico feliz e triste ao mesmo tempo por ter conseguido emagrecer, pois, imagino que as pessoas estão comentando que estou com aids. Cheguei a ter uma pequena alucinação auditiva, quando fui conferir o meu peso em uma farmácia. A voz dizia que eu estava com aids. Na hora, acreditei realmente que algum funcionário da farmácia havia dito isso, e sai rapidamente do local. Mas, depois de alguns dias, analisando a situação, cheguei à conclusão que foi paranoia minha mesmo. 
    Caminhando pela cidade a sensação que tenho é que todos estão olhando para mim, observando minhas roupas que ficaram largas e falando que tenho aids. E quando por algum motivo tenho que ir em uma unidade de saúde, essa sensação aumenta e muito. Mas hoje em dia a situação é bem diferente. Tenho consciência das minhas paranoias, o que, apesar de não resolver o problema, ajuda e muito a conviver melhor com as pessoas. 
    Hoje não me importaria tanto se uma pessoa fizesse um comentário de que estou com aids. Aprendi a acreditar mais em mim mesmo do que em outras pessoas. Claro que é uma situação chata, mas, pessoas que precisam de falar da vida alheia por simples falta de assunto não merecem um pingo de nossa preocupação. Portanto, se você é alvo de pessoas desse tipo, simplesmente ignorem e as deletem de suas cabeças. 
    
    
"As coisas mais belas são ditadas pela loucura e escritas pela razão."
André Gide




sexta-feira, 22 de junho de 2012

Traficantes decidem parar a venda de crack

     Ontem, ao assistir o jornal hoje, na globo, me deparei com uma notícia no mínimo curiosa: "Traficantes de duas favelas do Rio de Janeiro decidem encerrar a venda de crack." É estranha essa notícia, já que essa substância representa uma boa porcentagem nos lucros dos traficantes.
    Mas as brigas, os roubos e as confusões geradas pelos usuários do crack fizeram com que até os traficantes desistissem de trabalhar com essa droga. Isso estava chamando a atenção da polícia, e, como a copa do mundo está chegando, a intenção é de mostrar uma cidade mais condizente com o que os estrangeiros tem da cidade que não é totalmente maravilhosa. A maioria dos estrangeiros imaginam uma cidade repleta de praias e belas mulheres, e a prefeitura não quer fazer feio na copa das confederações e nem na copa do mundo. Então uma "limpa" na cidade foi a solução encontrada pelos governantes, e os traficantes tiveram que desistir de vender o crack. Usuários de outras drogas são mais comportados e são de classe social mais alta. Não estou aqui querendo ser moralista, dizendo o que é certo ou o que é errado. Acho que cada um sabe o que faz, e tem o direito de fazer o que quiser de sua vida, desde que não prejudique ou desrespeite o próximo.
    Moro em uma cidade de porte médio para grande no interior de Minas Gerais e o crack está fazendo seus estragos por aqui também. No centro da cidade, garotas super magras perambulam pelas ruas atrás de clientes para fazer um programa,  e conseguir o dinheiro para manter o vício. O número de roubos aumentaram, as pessoas já andam meio paranoicas nas ruas, principalmente as mulheres, apertando suas bolsas ao corpo com o braço. O número de policiais nas ruas também aumentou,  principalmente na época de pagamentos.

    Como o crack é uma droga altamente destrutiva, as pessoas rapidamente ficam debilitadas, ou seja, um usuário de crack não é um bom cliente para os traficantes. Os homens, geralmente perdem seus empregos, vendem o que tem, roubam a família e depois começam a roubar outras pessoas. Mas, com o tempo ficam debilitados e quase nem conseguem correr ao praticar um furto. Já as mulheres, além de roubarem, se tornam garotas de programa para sustentarem o vício, mas, com o tempo, acabam emagrecendo muito, e não são tão procuradas pelos clientes.
     Resumindo, o crack não é um negócio tão lucrativo assim, pois, além de geram muita confusão, os clientes não "duram" muito tempo, pois rapidamente estão destruídos por essa droga. Infelizmente essa é a verdade. Internar à força esses dependentes seria a solução?
    Para falar a verdade, não vejo uma solução a curto prazo para esse problema.
    Vale lembrar que esse assunto não foge muito aos temas que proponho aqui no blog, já que as drogas causam alucinações e transtornos mentais, como a esquizofrenia. No meu caso, a causa foi genética mesmo, somada a fatores externos, como o stress. Volto a dizer que não sou moralista, mas acho que as pessoas deveriam pensar e muito antes de entrarem para esse mundo.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Ozzy Osbourne: de comedor de morcegos a um sonhador?


    Essa manhã, ao dar uma passada na página inicial do youtube, fiquei encantado e surpreso com o que vi: Uma música do Ozzy Osbourne, chamada dreamer, que quer dizer sonhador. Mas, ai vocês devem estar se perguntando: O que tem demais um simples vídeo de uma música?
    Bem, para quem não conhece Ozzy Osbourne, ele é considerado o pai de heavy metal, ou como o "príncipe das trevas", por abordar temas relacionados ao  terror em suas músicas. 
    De família pobre, começou a trabalhar aos 15 anos, entrando para o mundo do crime logo depois, cometendo pequenos assaltos. Mas, após passar um período preso, resolve se dedicar a  música. Fez parte de algumas bandas, mas o sucesso mesmo veio com o Black Sabbath, no início da década de 70. Os integrantes da banda, ao passarem em frente a um cinema em que predominavam os filmes de terror, imaginaram se esse tema não chamaria atenção também nas músicas. A partir daí, o Black Sabbath e Ozzy Osbourne se tornaram ícones nesse gênero musical, servindo de influência para outras bandas que também usaram e ainda usam o mesmo tema em suas letras. 
    Um dos fatos mais marcantes em sua carreira ocorreu em um show em que ele simplesmente arrancou a cabeça de um morcego. Após o show, ele chegou a passar mal e teve que tomar algumas injeções. Não estou aqui para defendê-lo, mas a verdade é que ele pensou que se tratava de um morcego de borracha, já que os fãs sempre atiravam objetos para ele nos palcos. Ele só ficou sabendo que se tratava de um morcego de verdade quando o sangue do bichinho começou a escorrer por sua boca. 
   
     Ozzy ficou dependente de álcool e drogas, e chegou a ser mandado embora do Black Sabbath, pois o vício estava atrapalhando a convivência entre os membros da banda e as apresentações. 
    Depois de uma discussão com sua mulher, em que tentou enforcá-la, Ozzy é internado em uma clínica de recuperação para viciados em drogas e álcool. Chegou a voltar aos palcos e mostrou uma postura diferente, com músicas voltadas para outros temas sem ser o terror e coisas macabras. Hoje, livre do vício, aos 64 anos, Ozzy está casado e pai de três filhos, e tornou-se vegetariano.(acho que foi trauma de carne de morcego rsrsrs).
    Ai vem a pergunta: as pessoas podem mudar? Ou pau que nasce torto nunca se endireita? Eu, acho que as duas coisas podem acontecer. Assim como no amor não existe regras, acho que para esse tema também não existe um único caminho. Existem pessoas que mudam realmente, devido aos fatos e experiências que passaram em suas vidas, tornando-se pessoas melhores. Já outras pessoas, as de cabeça dura, não mudam de nenhuma forma, mesmo com a vida lhe trazendo lições. Outras, já não mudam, apenas fingem para tirarem proveito de uma suposta mudança, como obter o perdão das pessoas e ter novas chances na vida. 
    Essa música ele relata o sonho  que ele tem de ver um mundo melhor para as gerações futuras. 



                          Sonhador

Contemplando pela janela o mundo afora
Desejando saber se a mãe terra sobreviverá
Esperando que a humanidade parasse de abusar dela alguma vez

Afinal só existem dois de nós
E aqui estamos, ainda lutando por nossas vidas
Vendo toda história se repetir, vez por vez

Sou apenas um sonhador
Eu sonho minha vida
Sou apenas um sonhador
Que sonha com dias melhores

Vejo o sol descer como todos nós
Estou aguardando que o amanhã traga bons sinais
Dessa vez, um lugar melhor para aqueles que virão depois de nós

Sou apenas um sonhador
Eu sonho minha vida
Sou apenas um sonhador
Que sonha com dias melhores

Sua força maior talvez seja Deus ou Jesus Cristo
Isso não tem muita importância para mim mesmo
Sem ajudar uns aos outros não haverá esperança para nós
Vivo num sonho de fantasia

Se ao menos pudéssemos encontrar serenidade
Seria ótimo se pudéssemos viver como um só
Quando acabará toda essa raiva e fanatismo?

Sou apenas um sonhador
Eu sonho minha vida
Sou apenas um sonhador
Que sonha com dias melhores

Sou apenas um sonhador
Que hoje está procurando o caminho
Sou apenas um sonhador
Sonhando minha vida

"Assim que nascemos, choramos por nos vermos neste imenso palco de loucos."
William Shakespeare