Está decidido o primeiro trajeto de minhas pedalanças, que começará no início do mês que vem.
Apesar da mania de perseguição que me persegue, irei sim fazer esta e mais outras caminhadas de bike. Estava com algumas dúvidas onde começar, pois estamos no período das chuvas.
A verdade é que se eu der atenção para a mania de perseguição, não sairei de casa. E minha vida sempre foi assim, enfrentando inimigos reais e imaginários que segui o meu caminho até os dias de hoje.
A bike não é das melhores, e por isso farei o trajeto bem devagar, andando cerca de 30 a 40km por dia. É o que consigo andar nessa "magrela" sem muita sofrência, isso se o caminho não tiver muitas subidas bruscas. E também não tenho a intenção de correr, se quisesse velocidade compraria uma moto usada e aprenderia a digirir, sei lá. Quero é curtir o caminho, sentir o vento no rosto, enfim, me desligar um pouco desse mundo em que estou vivendo.
Irei fazer este percurso do mapa da imagem, não irei fazer agora o caminho da estrada real por que estamos no período das chuvas. E qualquer chuvinha mais forte atrapalha e muito a caminhada na estrada real, pois 90% do percurso é de estrada de terra. É o caminho onde me sinto em casa, no meio do mato, subindo e descendo as serras e respirando um pouco de ar puro.
Conto com a força de todos os leitores do blog, cada um na sua fé, é claro, e também na força de quem não tem uma fé religiosa, pois procuro respeitar à todos, inclusive quem não tem fé nenhuma.
Serão 660 km entre Belo Horizonte e o litoral do Espírito Santo, que já tive oportunidade de conhecer na época que estava viajando a pé mesmo.
O segundo trajeto ainda não decidi, a viagem não quero planejá-la com tanta antecedência, pois até mesmo minha vida não a planejei.
Obrigado à todos os leitores do blog e continuarei postando aqui, falando de saúde mental e outros assuntos, e, claro, postando algumas fotos dessa viagem maluca.
Quem quiser contribuir mande mensagem pelos comentários ou pelo email, ainda faltam algumas coisinhas, mas nada que me impeça de começar a viagem.
Quando surtamos pela primeira vez, uma série de indagações invadem nossa mente. No início pensamos que todas aquelas paranoias e pensamentos persecutórios são uma realidade, e então às vezes literalmente fugimos. Não é raro parentes de portadores de esquizofrenia entrarem em contato com a polícia à procura de seus entes queridos desaparecidos. E não raramente boa parte está perambulando por alguma BR do Brasil.
Mas quando a situação se estabiliza outras indagações tomam conta de nossa cabeça. O que eu tenho que fazer para não surtar novamente?
Mudar de ambiente e evitar pessoas e situações que nos afligem obviamente é uma boa saída. Gente negativa que se preocupa mais com a vida alheia do que com si própria faz mal à qualquer pessoa, independente ou não de ser portadora de algum tipo de transtorno mental.
E ainda tem aquelas pessoas que, não sei por qual motivo, querem por que querem que você se dê mal na escola, no trabalho, no amor, enfim em tudo em nossas vidas. São pessoas que não têm vida própria e seu objetivo é atrasar a vida dos outros.
No meu caso em particular ter saído de um ambiente hostil foi a única solução que havia encontrado. Em uma pequena cidade do interior de Minas Gerais inúmeras situações me estressaram a tal ponto que ajudaram e muito a desencadear um surto psicótico.
O que me fez adoecer não foi uma pessoa, não foi uma única situação. Não culpo ninguém pelo fato de ser um portador de esquizofrenia. Costumo dizer que tenho esse transtorno desde quando nasci, ao analisar diversos fatos e fatores que apareceram em minha vida. Talvez tenha algum componente genético na minha esquizofrenia, mas o que posso dizer que minha existência neste planeta foi um pouco confusa e difícil.
Ainda não se sabe exatamente a causa desse transtorno, mas o que pude observar é que muitos portadores de esquizofrenia têm algum parente na família com o mesmo problema.
Não culpo ninguém por estar nessa situação, Aconteceram certas coisas em que não houveram culpados, a falta de informação é uma das principais causas de certos conflitos na família, no ambiente de trabalho, etc... Pouco se sabe ou se fala sobre transtorno mental. Os portadores são confundidos com preguiçosos, que o comportamento rebelde é coisa de aborrecente, etc..
O que acontece na vida da gente não determina se somos ou não portador de algum tipo de transtorno mental, mas pode desencadear um surto psicótico, uma depressão, etc.. Ou seja, não é a causa principal, mas os traumas, o stress podem sim ser o gatilho de uma crise.
Sair de um ambiente negativo não irá te curar, mas ajudará e muito na recuperação. Energias negativas e ambiente carregado faz mal à qualquer pessoa do bem e que queira apenas ser ela mesmo.
No meu caso em particular um certo local, um certo ambiente me fez adoecer. Nessa pequena cidade do interior de Minas Gerais sentia que os outros funcionários sentiam uma certa inveja de mim, pois procurava executar o meu serviço da melhor maneira possível e por isso conseguia ter um salário melhor do que os demais empregados. E era sempre escolhido pelos clientes, ou seja, a galera da firma não digeriu bem a ideia de um cara da capital ter se mudado para o interior e ter meio que roubado seus clientes.
Aquela carga de sentimentos negativos começou a me fazer mal. E a mania de perseguição, que antes era apenas uma cisma, foi se tornando uma neurose. A situação foi piorando e comecei a imaginar que não somente os funcionários da firma queriam me prejudicar. Já estava imaginando que o bairro também queria o meu mal.
Em pouco tempo, a mania de perseguição, que havia se tornado uma neurose acabou se transformando em psicose, pois eu não havia procurado ajuda e pensava que poderia enfrentar aquilo tudo sozinho.
Não queria ir embora daquela firma, pois gostava da cidade e ainda tinha a vantagem de morar na firma, economizando boa grana com o transporte. E esse foi o meu maior erro.
Fui ficando cada vez paranoico e o trabalho de operador de som deixou de ser um prazer para se tornar um martírio. O contato com as pessoas já não estava me fazendo bem.
E então aquele cara alegre e brincalhão e distraído deixou de existir para dar lugar à um paranoico que pensava que o mundo inteiro queria prejudica-lo.
Colecionei algumas inimizades depois que comecei a adoecer. E logo o boato de que eu estava com aids tomou conta da cidade. Talvez cismaram que eu tinha HIV por engordar e emagrecer inúmeras vezes. Comia muito doce e depois corria muito para emagrecer. E conseguia.
Uma mentira dita muitas vezes pode acabar se tornando realidade. Até para mim mesmo.
Estava com receio de fazer os exames e então planejei dar fim a minha vida assim que os sintomas da aids aparecessem.
Essa situação me deixou deprimido e em consequência disso comecei a emagrecer, a perder energia e me tornei apático e cada vez mais recluso. Não sei se por coincidência ou não, nesse período peguei dengue duas vezes, tive algumas diarreias e fui algumas vezes ao posto de saúde por causa de viroses, diagnóstico que os médicos dão quando não sabem exatamente a causa do mau estar do paciente.
Já estava no limite, ouvindo vozes e a única solução que havia encontrado era pedir demissão para fugir daquele ambiente. Mas era tarde demais, já estava paranoico e imaginando que o mundo inteiro queria me pegar. Mudei de cidade mas as vozes me perseguiam onde eu fosse. O jeito então era fugir para outro estado e a perambular pelas Brs.
E então foi uma longa história até conseguir me recuperar. Se talvez tivesse fugido daquela ambiente hostil logo no início provavelmente não teria surtado. Não tem como fugir de inimigos interiores, poderia ir até para outro país naquela situação, mas não iria adiantar muita coisa.
será que conseguimos estar bem em um ambiente negativo?
Mas as coisas às vezes não são tão simples assim. O mercado de trabalho não está nada fácil e nem sempre é possível ficar mudando de emprego sempre quando percebemos que uma ou outra pessoa não quer o nosso bem. Às vezes só o fato de estarmos bem e em paz conosco já é o suficiente para atrair sentimentos negativos.
Às vezes o ambiente negativo está dentro de nossas casas, nossas famílias. E sair de casa nem sempre é fácil quando não estamos estabilizados financeiramente.
O que fazer então? É uma pergunta difícil de se responder, mas acredito que o primeiro passo seja o diálogo para tentar resolver qualquer rusga, seja em um ambiente familiar ou no trabalho. Praticar o perdão também pode ajudar e muito. Mas ficar calado e não resolver a situação pode trazer inúmeros prejuízos à saúde mental de uma pessoa.
Se a situação não foi resolvida com diálogo e nem com a tentativa do perdão aí sim uma mudança de ares seja muito benvinda. No meu caso no primeiro surto grave naquela cidade, tive uma boa melhora depois de uns três meses morando nas ruas. Por incrível que pareça o ambiente nas ruas era melhor do que um local de trabalho com muitas pessoas não aceitando o fato de você ter um salário um pouco melhor do que os demais.
Mas, antes de tudo devemos olhar para dentro de nós mesmos e tentar de alguma forma descobrir se não estamos exagerando uma situação. Se o problema não está em nós. A fuga de nós mesmos é praticamente impossível.
Também devemos sempre aprender com essas situações e nos fortalecemos e também aprendermos a evitar que aconteçam de novo. Nem sempre é possível mudar de ares quando encontramos um ambiente hostil e negativo.
Também existem as alternativas espirituais para os casos de ambientes negativos. Mas não irei entrar nesse campo. Não é a finalidade do blog falar sobre religião e espiritualidade. Tenho minhas crenças e procuro respeitar a fé alheia também. E a não fé também procuro respeitar, não sou de julgar alguém só por que é ateu. O católico reza, o evangélico ora, o devoto de Hare Khrisna acende um incenso e por aí vai....
Música The enemy inside
Banda Dream Theather
O Inimigo Interior
De novo e de novo
Eu revivo o momento
Estou carregando um fardo em meu interior
Feridas abertas escondidas sob minha pele
A dor é real
Como um corte que sangra
A face que eu vejo
Toda vez que eu tento dormir
Olhando para mim chorando
Estou fugindo do inimigo interior
(O inimigo interior)
Procurando pela vida que deixei para traz
(A vida que deixei para traz)
Essas memórias sufocantes
Estão gravadas em minha mente
E eu não posso escapar do inimigo interior
Eu me separo do mundo
Desligo-me completamente
Sozinho em meu próprio inferno
Triunfo com o medo irracional
Sob o peso do mundo em meu peito
Se eu cair e quebrar enquanto tento recuperar o fôlego
Em uma paranoica mente pequenos problemas acabam virando um tsunami. Pequenos detalhes, coisas simples que vão se somando e se multiplicando, causando enormes prejuízos no dia a dia de uma pessoa com esquizofrenia.
O conserto da bike
Comprei uma bicicleta usada e estava tendo muitas dificuldades para alinhar a parte traseira.
Na minha paranoica mente imaginava que o dono da magrela havia me passado para trás e que o quadro da bike estava danificado.
Fiquei horas e horas tentando improvisar algo para que amenizasse a “tortura” traseira da bike, mas tudo em vão. Cheguei a ficar cerca de sete horas seguidas tentando alinhar os raios da roda traseira em um dia. Desapertei todos os aros para alinhar novamente cerca de quatro vezes. Acredito que fiquei debruçado sobre esse pneu traseiro um total de 48 horas.
“Como existem pessoas más neste mundo”... – pensei.
Já estava pensando em comprar um outro quadro, pois a bicicleta estava fazendo um rangido estranho e tinha receio de que viesse a danificar nas minhas viagens que irei fazer por aí pelo Brasil afora.
Então tive a ideia de levar a bike em um mecânico que um conhecido havia me recomendado. Queria uma análise dele para confirmar que o quadro estava realmente torto e que teria que comprar um outro.
Não demorei a encontrar o endereço e cheguei em sua oficina. Relatei o ocorrido e ele de primeira afirmou:
- É a roda da bike que está torta....
Para o meu alívio o mecânico tinha no seu estoque duas boas rodas aero usadas que serviram muito bem nessa minha bike, que passou a andar com mais fluidez.
Muitos pensam que tenho boa vida, mas é que procuro disfarçar bem, acho que sou um bom ator de gente normal. Um simples defeito em uma roda, mas, devido as paranoias, o meu primeiro pensamento era de que o antigo dono da bike quisesse me prejudicar. Perdi muitas horas vendo vídeos no youtube e tentando achar uma solução. Pensava somente que era o quadro da bike que estava com problemas e não a roda propriamente dita, que seria a primeira opção ao se fazer análise da situação da magrela.
Foi um grande stress por um defeito tão simples e corriqueiro em bicicletas.... Mas a esquizofrenia para mim é isso mesmo, uma luta diária, e não desisto fácil.
“Ah, mas por que você não toma os remédios?”. Me perguntam costumeiramente.
Oras, se eu estivesse tomando os maleditos antipsicóticos simplesmente não teria vontade de andar de bicicleta como tenho andado ultimamente, às vezes chego a andar quase 40km em um dia, o que é uma distância razoável para uma bike aro 26 e para um cara que está com 50 anos. É uma decisão difícil a ser tomada no meu caso, mas não tenho sombra de dúvidas que é o melhor caminho para mim, o caminho que eu mesmo escolhi(acho que já ouvi essa frase antes...) que é de ser eu mesmo, sem máscaras, sem tranquilizantes, enfrentando o mundo de cara limpa. Drogas eu estou fora, sejam elas ilícitas ou lícitas, sem condenar quem optou pelo uso dos remédios
Quero me emocionar, senti o vento no meu rosto quando estiver andando de bicicleta, que foi o melhor investimento que fiz em minha vida. Quero me emocionar, mesmo que seja para chorar em alguns momentos. Não estou aqui incentivando ninguém a seguir o mesmo caminho que escolhi, cada um tem o seu jeito de ser e de pensar. E no meu caso não tive muitas escolhas, pelo fato de morar sozinho e ter que ter disposição para resolver meus problemas do dia a dia, algumas vezes tendo que acordar cedo, coisa que não consigo fazer tomando antipsicóticos. Até consigo levantar da cama, mas fico meio que sendo um zumbi, acordar de fato é outra coisa.
Queria agradecer de coração à todos que estão me ajudando nesta jornada, que é o “Pedalanças”. Graças à ajuda de vocês estou conseguindo montar a minha bike e adquirir os itens necessários para se fazer uma viagem de longa distância com uma bicicleta.
Como fazer o desmame e parar de tomar o diazepan e rivotril
desmame do diazepan
Hoje em dia finalmente posso dizer que estou livre do diazepan...
Usava esta "droga" desde o ano de 2002, quando tive o meu primeiro surto psicótico grave. A receita eu consegui na minha primeira consulta, que durou menos de dez minutos. Como não conseguia tomar os antipsicóticos e trabalhar como operador de som, esse ansiolítico funcionou por um bom tempo como um S.O.S sempre quando eu sentia que poderia surtar.
Não é o ideal essa solução que encontrei, mas era o que tinha na época. Não tive escolha e quase sofri um acidente de trabalho sob o efeito do haldol. Tinha que ter disposição para trabalhar e resolver meus problemas, antipsicótico nem pensar
Com o diazepan eu tinha um pouco do controle do nível de sedação e poderia assim tentar trabalhar. Um comprimido de 10mg era o suficiente para andar no centro da cidade onde morava no início do ano de 2003. Quando sentia que estava querendo correr e fugir para casa tomava mais um. Na maioria das vezes resolvia o problema parcialmente.
Depois de viciado nesse ansiolítico não conseguia sair de casa sem ter uma cartela no bolso. Era a tal da dependência psicológica que havia aparecido.
Com o passar do tempo, a maturidade, a aposentadoria e o que aprendi com a prática sobre a esquizofrenia, pude aos poucos ir fazendo o desmame do "pan nosso de cada dia".
Não foi nada fácil: coração disparado, dores de cabeça, pulsação forte, me lembro que algumas vezes sentia o coração batendo na ponta dos dedos das mãos. Esses foram os sintomas físicos da abstinência dessa viciante droga.
Já os sintomas psíquicos não foram menos complicados: mania de perseguição aumentada, paranoias, nervosismo, stress e o medo de surtar a qualquer momento
Mas, com muita persistência e insistência finalmente consegui. De 20mg diminuí para 10mg. Depois para 5mg que foi a fase mais difícil, quando perdi muitas noites de sono. De 5mg fui bem lentamente diminuindo para cerca de 2.5mg, pois dividia o comprimido de 10mg em quatro pedaços e depois dividia cada pedaço ao meio. E então, depois de muitos meses, passei a tomar cerca de 1mg. Fiquei nessa dosagem por um bom período de tempo, até ir ficando algumas noites sem tomar nenhum tipo de ansiolítico na hora de dormir.
Com o passar do tempo fui arriscando a ficar dois, três dias sem usar o "pan nosso de cada dia". Aí tomava um pedaço sempre quando meu corpo pedia. O nosso organismo sempre dá alguns sinais. E também procurava rever de noite como foi o meu comportamento durante o dia, para analisar se não estava ficando agitado ou nervoso.
E foi questão de tempo para largar de vez os diazepínicos, minha memória recente parece estar melhorando gradativamente, antes não conseguia nem decorar metade de um número de telefone .A memória antiga estava preservada. Também senti uma pequena melhora na condição física, estou andando de bike todos os dias, e às vezes até de noite.
Minhas noites de sono não são das melhores, mais estou acordando mais disposto, sem aquela tradicional ressaca desses medicamentos. Mais vale quatro horas de sono natural do que oito com o diazepan....
Tenho que tomar muito cuidado e me policiar constantemente para não surtar novamente. Em 2003 tive um surto gravíssimo justamente por ter ficado sem o diazepan por quase um mês
É um vício que não pedi ter. Os médicos deveriam orientar seus pacientes sobre os riscos da dependência física e psicológica desse ansiolítico. Na época eu não tinha acesso à internet e a bula dos medicamentos tinham letras minúsculas, e nos postos de saúde nos dão apenas a cartela.
Os medicamentos são sim necessários, mas na dosagem, quantidade e períodos adequados para cada caso.
O diazepan não irá resolver os problemas que estão lhe tirando o sono e nem irá pagar suas dívidas...
Espero com esse relato conscientizar as pessoas sobre os riscos que esses medicamentos podem trazer à nossa saúde. O Brasil é campeão mundial no uso do Rivotril, que, segundo pesquisas podem causar inúmeros danos ao nosso organismo se for consumindo de uma forma exagerada e por um longo período de tempo.
Mas é que no início do mês que vem irei viajar de bike pelo Brasil afora.
Não sabia que as "coisas" de ciclista eram tão caras assim. Já vendi a minha TV e ainda falta alguns itens. Outros nem irei comprar de tão caros que são. Uma bermuda de cilcista custa 120 reais. E ela é necessária para evitar assaduras e ferimentos na região da virilha, pois irei passar muitas horas seguidas pedalando. Mas a bermuda irei substituir por aquelas bermudas que jogadores de futebol usam.
Fiz uma lista e ainda faltam algumas coisas. A bike está quase pronta.
Iria viajar depois do período das chuvas, no início de abril, quando começa o outono e o clima também está mais fresco. Mas aqui onde moro tem um vizinho doente que não conseguiu se aposentar e que está implicando um pouco comigo pelo fato de eu ser aposentado. Sinto uma energia negativa muito forte vinda dele. Então irei viajar no início do próximo mês. Prefiro pegar uma boa chuvinha do que pegar energias negativas.
Não precisam ficar receosos e pensar que estarão ajudando em uma viagem irresponsável. Me preparei cinco meses, andando de bike para tudo quanto é canto aqui em Belo Horizonte. Aprendi também a consertar os principais defeitos que podem ocorrer em uma bike e já comprei todas as ferramentas necessárias.
Mas ainda faltam alguns itens, como podem ver nas imagens. Quem puder ajudar entre em contato comigo pelo chat ou então ajude depositando qualquer valor na seguinte conta;
Julio Cesar dos Santos de Oliveira
Agência 2332 Ipatinga MG
Caixa Econômica Federal
Operação 023
Conta 00016678-2
Também podem ajudar adquirindo um dois meus dois livros que escrevi.
Em 2012 tive um “surto positivo” psicótico e saí andando por aí pela região sudeste com a minha mochila e a minha barraca. Fiz dois dos quatro caminhos da estrada real a pé, percorrendo um total de mais de 700km. E ainda andei pelo litoral do Espírito Santo e de São Paulo. Fazer o caminho velho da estrada real foi a realização de um antigo sonho. Me ajudou a evoluir como pessoa. É difícil de explicar o que uma andança dessa faz em nosso interior. Só viajando mesmo. Foi o meu caminho de Santiago. Lá no blog publiquei o diário e as fotos dessas minhas andanças.
Mas no final de 2014 lesionei o meu dedão do pé esquerdo, quando estava passeando por um parque ecológico aqui em Belo Horizonte. Não era algo tão grave assim, mas a falta de atendimento pela rede pública fez com que acabasse tendo uma fratura por stress. Hoje somente com cirurgia é que poderei andar como antigamente.
Bem, não sou de ficar esperando as coisas, ainda mais do SUS. Comprei uma bike usada e comecei a consertá-la. Se tivesse que comprar bicicleta mais problemática não conseguiria. A vantagem é que aprendi a montar e a desmontar uma bike, bem como consertar quase todos os defeitos que possam surgir no caminho.
Pretendo agora fazer os 900km restantes da estrada real com a minha bike, depois que passar o período das chuvas, em março. E, se tudo der certo, se a bicicleta aguentar (e eu também!), pretendo sair viajando pelo Brasilzão afora.
Ainda tenho que acabar de reformar a minha bike. A principal reforma será colocar um freio a disco na roda traseira. Não é um luxo, é uma questão de segurança mesmo. Acho que o quadro dessa bike foi mal projetado, pois o freio traseiro não funciona bem, apesar de todas as tentativas de regulagem. Vou sair viajando por aí, mas com responsabilidade, afinal, outras vidas também correm risco se eu não estiver com bons freios. O freio da frente está bom, mas tenho que pensar na hipótese dele arrebentar o cabo em uma forte descida.
E também tenho que colocar um bagageiro na bike para colocar a minha mochila. E também um banco com gel, pois os bancos comuns costumam incomodar e muito o traseiro em uma longa distância. E tem outros itens que tenho que comprar para a viagem: a barraca, o saco de dormir e o colchonete inflável, que acabei vendendo, pensando que nunca mais iria conseguir viajar de novo. Viajar digo nas minhas condições, ou a pé ou de bike.
O freio a disco vou comprar usado, pois a bike é das antigas e ainda terei que fazer uma adaptação nela, pois o freio comum não fica muito bom na roda traseira.
A barraca custa certa de 120 reais, o saco de dormir também. Já o colchão inflável também deve estar nessa faixa de preço. Com o 13° salário irei comprar alguns itens como as roupas próprias para a viagem, e o capacete também, que é outro item muito importante.
Qualquer ajuda é bem vinda. Dúvidas usem o email do blog
Costumo dizer que a esquizofrenia apareceu em minha vida aos 32 anos de idade, quando os surtos vieram e toda aquela loucura que a mania de perseguição provocava em minha vida.
Mas a esquizofrenia não é somente o surto em si. Delírios, pensamentos e comportamentos também são elementos que merecem serem destacados.
Essa não é uma das minhas paranoias diárias do meu dia a dia, já que ela aconteceu quando eu tinha oito anos de idade e não tem mais como acontecer novamente, pois primeira comunhão só acontece uma vez em nossas vidas(dããããããããã). Mas, durante toda a minha vida pré-surto tive (e ainda tenho) muitos delírios místicos: para onde iremos após esta vida, sobre o que é certo e o errado (se é que existe isso) e também achava que era uma pessoa especial com uma proteção especial do Criador. Enfim, é aquela eterna briga entre o bem e o mal que é travada em nossas consciências e que, se não forem muito bem assimilada pode sim causar um grande desequilíbrio em nossas mentes.
Estudava na época em um colégio de freiras aqui em Belo Horizonte, o Nossa Senhora do Monte Calvário. Sempre gostei deste colégio, principalmente da hora do recreio, pois não gostava muito de estudar. Algumas freiras eram bem engraçadas e humoradas, já outras eram mais sérias e ranzinzas. Tinha uma freira no pré-primário que carregava os alunos pela orelha quando faziam alguma travessura. Ela era bem estressada e toda a galerinha morria de medo dessa freira, pois ela tinhas as mãos bem grossas.
Na oitava série todos os alunos eram obrigados a fazerem a primeira comunhão. Mas antes tínhamos que fazer a preparação, frequentando algumas aulas em plena manhã de sábado.
Estava tenso e muito ansioso para que passasse logo esse dia. Fui um menino bem bagunceiro, tanto dentro como fora de casa, apesar de que só ficava em casa para dormir e almoçar. Às vezes nem no almoço aparecia, pois também gostava de “filar” um rango na casa dos meus amigos da rua.
Era bagunceiro mas até que tinha um bom coração, não repetindo minhas travessuras quando alguém explicava o motivo de não fazer aquelas coisas. Por exemplo, um vizinho correu atrás de mim depois que soltei uma bomba no quintal da casa dele. Não era uma bombinha, era daquelas cabeças de nego. Na minha cabeça era uma simples brincadeira, mas depois que o cara correu atrás de mim zangado e assustado dizendo que a avó dele quase havia morrido do coração nunca mais fiz essa "brincadeira".
Não tive pai e minha mãe acredito que também tenha algum tipo de transtorno mental, pois ela quase não se comunicava com as pessoas. Era quase catatônica. Saí de casa aos 17 anos e até hoje não sei exatamente o que aconteceu com ela para que ficasse daquele jeito.
Mas, voltando ao tema da primeira comunhão, nas aulinhas preparatórias ficávamos conversando sobre o que dizer no dia para o padre. Uns diziam que iam contar tudo pelo simples fato de não terem muito para contar. Já eu estava vivendo um dilema, se contava tudo ou não contava. Naquela época já me questionava sobre o porquê de ter que contar tudo para o padre, já que Deus sabia até o que a gente estava pensando. Mas a verdade é que eu não queria pagar para ver e já estava até pensando em anotar tudo em um caderninho pois provavelmente iria esquecer algum pecadinho que eu havia cometido há algum tempo atrás. Mas logo desisti da ideia pois, se anotasse todas as minhas travessuras em um caderninho com certeza a cerimônia da primeira comunhão iria atrasar e muito por causa da minha longa listinha de infrações pecaminosas...
A principal preocupação era de quantas ave-marias e pai-nosso eu teria que rezar para que todos os meus pecados fossem perdoados. Não podia rezar em pé, tinha que ser ajoelhado, diziam meus colegas.
Por falar em colega, depois da aula do catecismo, um amigo de turma durante nossas conversas teve a infeliz ideia de dizer que certa vez a hóstia havia se transformado em sangue na boca de um menino que havia ocultado um pecado durante a confissão.
Naquele mesmo instante me imaginei de frente para o padre com a boca toda ensanguentada e a igreja lotada e todo mundo olhando para mim....Era mais uma paranoia mística que foi implantada em minha cabeça.
Os dias foram se passando e a primeira comunhão chegando. Estava muito apreensivo, vivia pensando no que seria reservado para mim depois desta vida. Não me achava um santo mas também não me achava um menino totalmente mau.
O dia finalmente havia chegado. Acredito que desde a sétima série já estava pensando nesse momento. Era muito encucado com essas coisas de céu x inferno, bem x mau. Sempre ouvia aquela velha frase quando fazia bagunça:
- “Podi naum”, papai do céu vai castigar...
criança normal faz uma baguncinha...
Não me lembro se havia conseguido dormi naquela noite de sábado para domingo. Só sei que acordei cansado, com febre e suando frio. Me lembro bem de uma foto tirada na frente da igreja em que saí com o pescoço brilhando, de tanto suor que estava saindo de meus poros.
Só queria que aquele dia passasse logo. Tomei o meu café da manhã e desci as escadas que davam para o quintal de casa com um punhado de canjiquinha para dar para os pintinhos que ciscavam pelo quintal. Os bichinhos, ao me avistarem foram logo subindo a escada e eu joguei uma porção de canjiquinha na minha frente dois degraus abaixo de onde estava...Imaginem o que aconteceu: eu estava descendo e os pintinhos subindo... Quando viram a canjiquinha caindo se atiraram para comer os grãos e não deu tempo para frear e então pisoteei um pintinho. O bichinho ficou agonizando com um ferimento no pescoço. Minha avó e meus irmãos chegaram para socorrer o pintinho, mas foi em vão. Ele não resistiu ao ferimento e então meu irmão disse, me encarando com aquele olhar de acusação:
- Ele fez isso por querer....
Minha avó me deu aquela encarada, e nem tentei argumentar. Era o bagunceiro da casa, ou melhor dizendo, da rua onde eu morava. Qualquer janela quebrada já iam bater na porta de casa...Mas isso não era a minha principal preocupação naquele momento. Se antes do incidente estava imaginando que minha pena seria de 100 ave-marias e cem pai-nosso, depois de ter matado o pintinho minha estimativa havia aumentado para cerca de quinhentas orações. Já estava imaginando a dor que iria sentir em meus joelhos...
Mas não tinha jeito. Tinha que ir nessa primeira comunhão. Não havia ainda planejado o que dizer para o padre. Estava na dúvida se omitiria os pecados principais, deixando só os pecadinhos mesmo. Afinal Deus já sabia de tudo o que eu havia aprontado nesta vida. E também não queria atrasar a cerimônia contando as minhas aventuras.
Fomos para o colégio. Estava de cara fechada e muito mal humorado, e ainda tinha que aguentar o fotógrafo à todo momento me pedindo para olhar para a câmera e dar um sorriso. Foram umas vinte fotos, e em todas elas eu fiz cara fechada e algumas até careta eu fiz. Só não fiz careta nas fotos que o fotógrafo me pegou distraído. E ainda tinha que aguentar o flash que quase me cegava os olhos...
Havia chegado o grande momento. A igreja estava lotada. Estava um pouco na dúvida sobre contar tudo, pois a hóstia poderia se transformar em sangue na minha boca. Era um dilema e tanto para resolver em tão pouco tempo. Fiquei observando os alunos que se comungaram antes de mim. Eles estavam se confessando muito rápido, questão de segundos mesmo. Ninguém estava relatando tudo o que haviam feito de errado. E não seria eu o único a contar tudo né?
A minha vez havia chegado. Respirei fundo e na hora decidi dar uma grande resumida nas minhas falhas de criança:
1-Havia brigado com meus coleguinhas
2-Havia discutido com minha mãe.
Olhei para o padre com um misto de medo e dúvida. Ele me encarou e a sensação que tive naquele momento é que ele sabia que eu estava ocultando muita coisa. Não me lembro exatamente a quantidade de ave Maria e pai nosso que mandou rezar, mas não foi muito. Acredito que foi umas quinze de cada, para o meu alívio. E, para maior alívio ainda a hóstia não havia se transformado em sangue na minha boca....
Mas não fiquei totalmente aliviado, deixei o resto da conversa para ser tratada diretamente com Deus, nas orações que eu fazia quando pequeno. Iria explicar que não tinha contado tudo para não atrasar a cerimônia e também para não cansar o padre.
Depois da igreja fomos todos para o pátio do colégio onde teve muitos comes e bebes e então pratiquei sem culpa o pecado da gula...