16/07/2024
Felixlândia-Três Marias MGMinas não tem mar, ou o mar é que não tem Minas?
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| Quem disse que Minas não tem mar? |
Não dormi bem. Montei a barraca próxima ao bebedouro. E, pelo visto, era o ponto oficial de encontro dos caminhoneiros na madrugada. Gente indo e vindo, passos, vozes e ruídos amplificados pelo silêncio da noite. Apesar do frio fiquei surpreendentemente bem aquecido no meu casulo.
Acordei bem cansado, por volta das quatro e meia da manhã. E a batalha começa antes mesmo de pedalar: ajeitar a carga na bike. Tenho que conseguir arrumar tudo da melhor maneira possível, para que as coisas fiquem mais acessíveis. A mochila fica bem amarrada no bagageiro traseiro, e tem coisas que preciso durante o dia que fica difícil de pegar.
E a carga tem que estar bem amarrada e protegida para que não caia nada na estrada. Estou perdendo muito tempo e, o pior, gastando energia em algo que poderia ser mais prático. E de manhã sinceramente não é a hora em que estou mais animado.
Tomo o café e o roteiro nas primeiras horas da manhã se repete: frio congelante na BR, dedos congelados e doendo de tão frio e os lábios ardendo como se tivesse beijado um cubo de gelo. Manteiga de cacau entra na lista do meu kit de sobrevivência, pelo menos nesse trecho da viagem.
Por volta das nove horas o solzinho dá as caras e o meu humor também aparece. Cantarolo algumas músicas, já que não tem nenhuma plateia para ouvir, ou jogar tomates podres. Canto tão mal que uso esse artifício para apoquentar as pessoas, tipo o vizinho chatão de Belo Horizonte que ficava a madrugada inteira falando no celular, atrapalhando o meu sono. E então, para descontar de dia ficava cantando músicas, principalmente do Roberto Carlos e outras bregas. Tentei cantar heavy metal, mas minhas cordas vocais ficavam irritadas.
Mas logo esse bom humor fica um pouco diminuído. Uma longa e íngreme serra à minha vista! A encaro por alguns segundos e me propus um desafio: vencê-la sem empurrar a bike!
Teimosia, coragem e determinação são itens indispensáveis em uma cicloviagem.
No meio do caminho encontrei um andarilho, com apenas a roupa do corpo, uma trouxa e uma garrafa pet com água. Pelo sotaque vi que era gaúcho, e estava encarando o calor das estradas mineiras. Penso em gravar uma entrevista com ele, mas, não consigo. Acho muito interessante a história de vida dos andarilhos. Já fui um por algum período de tempo, quando tive meus primeiros surtos. Mas o gaúcho era lúcido e tinha boa aparência. Fico imaginando como deve ser cansativo andar por vários quilômetros no asfalto quente. Já fiz algumas viagens a pé, mas a maioria por estradas de terra, como no caminho velho, de Outro Preto, em Minas Gerais, até Parati, no Rio de Janeiro. O pouco de percurso que andei no asfalto senti muito cansaço, por conta do calor e do vapor que vem debaixo, somado ao calor que vem em nossa cabeça.
A temperatura não estava tão alto como no primeiro dia, e vou subindo a serra em boas condições, só parando para beber água e tirar algumas fotos pois a vista do alto da serra é muito bonita. Aliás para quem gosta de mato qualquer visão de serra é bonita. A diferença é que algumas fazem mais força para nos impressionar.
Fui subindo aos poucos, e aprendi um pouco de psicologia para vencer as serras íngremes. Não olhar para o alto, apenas se concentrar nos próximos dez metros. A gente cansa só de olhar as subidas de Minas Gerais, a verdade é essa.
E assim, de pouquinho em pouquinho fui vencendo a serra do Jacaré, no caminho para a cidade de Três Marias. Foram cerca de 8km somente de subidas! Obviamente fiquei envaidecido com a proeza, afinal estou em uma bike antiga, aro 26 e com uns 30 quilos de bagagem. E fora a bagagem de vida que eu tenho, são 56 anos de muitas alegrias, tristezas, perrengues, arrependimentos, etc.. Mas foram vividos, e isso é o mais importante. Se chorei ou se sorri...
Por sorte (ou ajuda lá de cima) assim que acabei de subir a serra, a temperatura esquentou.
Acho que estava na faixa de uns 37ºC.
serra braba vencida com sucesso!
A estrada não tem muitos estabelecimentos, mas consigo encontrar um bom restaurante por volta do meio dia. Apesar de ser grande, havia apenas um cliente almoçando. Resolvo, depois do almoço, descansar mais um pouco, para não pegar o sol forte, ao contrário dos outros dias, em que comecei a pedalar logo após o almoço.
O tempo passou mas o sol não diminuiu sua intensidade e o jeito foi começar a pedalar. Muitas subidas íngremes e, não orgulhoso, resolvo empurrar a bike em alguns trechos. Depois de duas horas pedalando, paro para descansar e percebo que o tornozelo do pé esquerdo está um pouco inchado. Como tenho o dedão do pé esquerdo quebrado, uso um pouco a lateral do pé para andar e para pedalar. Venci a Serra do Jacaré, mas ela me cobrou um certo preço...
Como irei melhorar do inchaço do pé pedalando? Essa dúvida ficou na minha cabeça até a chegada em Três Marias. A dor não era forte, mas me impedia de pedalar normalmente, fazendo mais força com o pé direito.
Paro em um posto de gasolina e um senhor começa a conversar comigo, perguntando de onde vinha, para onde ia, etc... Gentilmente ele me ofereceu o chuveiro do posto de gasolina, que veio como uma benção caída do céu, pois o dia foi cansativo, principalmente por conta do calor e da íngreme serra do Jacaré.
Esses pequenos gestos renovam minhas energias. O banho também. Já me sinto melhor, tirando a dor no tornozelo. Tomo um lanche e o pessoal também foi hospitaleiro, permitindo que eu montasse a barraca assim que o estabelecimento fechasse. Mais do que isso, o fato de conversarem com a gente, admirando nossa coragem de percorrer parte do Brasil de bike, o sentimento de ser acolhido faz qualquer cansaço ir embora rapidamente.
Esse ambiente tranquilo e generoso me acalmou, já não estou mais ansioso como no primeiro dia, em que tive alucinações. Já estou mais esperançoso para seguir a viagem. Mas acho que amanhã irei conhecer a tão falada cidade de Três Marias, com sua represa que mais parece um mar. Afinal, o esquizo pedarilho também merece descansar um pouco.




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