quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Paranoias diárias: Primeira comunhão


   Costumo dizer que a esquizofrenia apareceu em minha vida aos 32 anos de idade, quando os surtos vieram e toda aquela loucura que a mania de perseguição provocava em minha vida.
Mas a esquizofrenia não é somente o surto em si. Delírios, pensamentos e comportamentos também são elementos que merecem serem destacados. 
  Essa não é uma das minhas paranoias diárias do meu dia a dia, já que ela aconteceu quando eu tinha oito anos de idade e não tem mais como acontecer novamente, pois primeira comunhão só acontece uma vez em nossas vidas(dããããããããã). Mas, durante toda a minha vida pré-surto tive (e ainda tenho) muitos delírios místicos: para onde iremos após esta vida, sobre o que é certo e o errado (se é que existe isso) e também achava que era uma pessoa especial com uma proteção especial do Criador.  Enfim, é aquela eterna briga entre o bem e o mal que é travada em nossas consciências e que, se não forem muito bem assimilada pode sim causar um grande desequilíbrio em nossas mentes. 
    Estudava na época em um colégio de freiras aqui em Belo Horizonte, o Nossa Senhora do Monte Calvário. Sempre gostei deste colégio, principalmente da hora do recreio, pois não gostava muito de estudar. Algumas freiras eram bem engraçadas e humoradas, já outras eram mais sérias e ranzinzas. Tinha uma freira no pré-primário que carregava os alunos pela orelha quando faziam alguma travessura. Ela era bem estressada e toda a galerinha morria de medo dessa freira, pois ela tinhas as mãos bem grossas.
    Na oitava série todos os alunos eram obrigados a fazerem a primeira comunhão. Mas antes tínhamos que fazer a preparação, frequentando algumas aulas em plena manhã de sábado.
Estava tenso e muito ansioso para que passasse logo esse dia. Fui um menino bem bagunceiro, tanto dentro como fora de casa, apesar de que só ficava em casa para dormir e almoçar. Às vezes nem no almoço aparecia,  pois também gostava de “filar” um rango na casa dos meus amigos da rua.
    Era bagunceiro mas até que tinha um bom coração, não repetindo minhas travessuras quando alguém explicava o motivo de não fazer aquelas coisas. Por exemplo, um vizinho correu atrás de mim depois que soltei uma bomba no quintal da casa dele. Não era uma bombinha, era daquelas cabeças de nego. Na minha cabeça era uma simples brincadeira, mas depois que o cara correu atrás de mim zangado e assustado dizendo que a avó dele quase havia morrido do coração nunca mais fiz essa "brincadeira".
    Não tive pai e minha mãe acredito que também tenha algum tipo de transtorno mental, pois ela quase não se comunicava com as pessoas. Era quase catatônica. Saí de casa aos 17 anos e até hoje não sei exatamente o que aconteceu com ela para que ficasse daquele jeito.
    Mas, voltando ao tema da primeira comunhão, nas aulinhas preparatórias ficávamos conversando sobre o que dizer no dia para o padre. Uns diziam que iam contar tudo pelo simples fato de não terem muito para contar. Já eu estava vivendo um dilema, se contava tudo ou não contava. Naquela época já me questionava sobre o porquê de ter que contar tudo para o padre, já que Deus sabia até o que a gente estava pensando. Mas a verdade é que eu não queria pagar para ver e já estava até pensando em anotar tudo em um caderninho pois provavelmente iria esquecer algum pecadinho que eu havia cometido há algum tempo atrás. Mas logo desisti da ideia pois, se anotasse todas as minhas travessuras em um caderninho com certeza a cerimônia da primeira comunhão iria atrasar e muito por causa da minha longa listinha de infrações pecaminosas...
    A principal preocupação era de quantas ave-marias e pai-nosso eu teria que rezar para que todos os meus pecados fossem perdoados. Não podia rezar em pé, tinha que ser ajoelhado, diziam meus colegas.
    Por falar em colega, depois da aula do catecismo, um amigo de turma durante nossas conversas teve a infeliz ideia de dizer que certa vez a hóstia havia se transformado em sangue na boca de um menino que havia ocultado um pecado durante a confissão.
Naquele mesmo instante me imaginei de frente para o padre com a boca toda ensanguentada e a igreja lotada e todo mundo olhando para mim....Era mais uma paranoia mística que foi implantada em minha cabeça.
    Os dias foram se passando e a primeira comunhão chegando. Estava muito apreensivo, vivia pensando no que seria reservado para mim depois desta vida. Não me achava um santo mas também não me achava um menino totalmente mau.
    O dia finalmente havia chegado. Acredito que desde a sétima série já estava pensando nesse momento. Era muito encucado com essas coisas de céu x inferno, bem x mau. Sempre ouvia aquela velha frase quando fazia bagunça:
- “Podi naum”, papai do céu vai castigar...
criança normal faz uma baguncinha... 

    Não me lembro se havia conseguido dormi naquela noite de sábado para domingo. Só sei que acordei cansado, com febre e suando frio. Me lembro bem de uma foto tirada na frente da  igreja em que saí com o pescoço brilhando, de tanto suor que estava saindo de meus poros.
    Só queria que aquele dia passasse logo. Tomei o meu café da manhã e desci as escadas que davam para o quintal de casa com um punhado de canjiquinha para dar para os pintinhos que ciscavam pelo quintal. Os bichinhos, ao me avistarem foram logo subindo a escada e eu joguei uma porção de canjiquinha na minha frente dois degraus abaixo de onde estava...Imaginem o que aconteceu: eu estava descendo e os pintinhos subindo... Quando viram a canjiquinha caindo se atiraram para comer os grãos e não deu tempo para frear e então pisoteei um pintinho. O bichinho ficou agonizando com um ferimento no pescoço. Minha avó e meus irmãos chegaram para socorrer o pintinho, mas foi em vão. Ele não resistiu ao ferimento e então meu irmão disse, me encarando com aquele olhar de acusação:
    - Ele fez isso por querer....
    Minha avó me deu aquela encarada, e nem tentei argumentar. Era o bagunceiro da casa, ou melhor dizendo, da rua onde eu morava. Qualquer janela quebrada já iam bater na porta de casa...Mas isso não era a minha principal preocupação naquele momento. Se antes do incidente estava imaginando que minha pena seria de 100 ave-marias e cem pai-nosso, depois de ter matado o pintinho minha estimativa havia aumentado para cerca de quinhentas orações. Já estava imaginando a dor que iria sentir em meus joelhos...
    Mas não tinha jeito. Tinha que ir nessa primeira comunhão. Não havia ainda planejado o que dizer para o padre. Estava na dúvida se omitiria os pecados principais, deixando só os pecadinhos mesmo. Afinal Deus já sabia de tudo o que eu havia aprontado nesta vida. E também não queria atrasar a cerimônia contando as minhas aventuras.
    Fomos para o colégio. Estava de cara fechada e muito mal humorado, e ainda tinha que aguentar o fotógrafo à todo momento me pedindo para olhar para a câmera e dar um sorriso. Foram umas vinte fotos, e em todas elas eu fiz cara fechada e algumas até careta eu fiz. Só não fiz careta nas fotos que o fotógrafo me pegou distraído. E ainda tinha que aguentar o flash que quase me cegava os olhos...
    Havia chegado o grande momento. A igreja estava lotada. Estava um pouco na dúvida sobre contar tudo, pois a hóstia poderia se transformar em sangue na minha boca. Era um dilema e tanto para resolver em tão pouco tempo. Fiquei observando os alunos que se comungaram antes de mim. Eles estavam se confessando muito rápido, questão de segundos mesmo. Ninguém estava relatando tudo o que haviam feito de errado. E não seria eu o único a contar tudo né?
    A minha vez havia chegado. Respirei fundo e na hora decidi dar uma grande resumida nas minhas falhas de criança:
1-Havia brigado com meus coleguinhas
2-Havia discutido com minha mãe. 
   Olhei para o padre com um misto de medo e dúvida. Ele me encarou e a sensação que tive naquele momento é que ele sabia que eu estava ocultando muita coisa. Não me lembro exatamente a quantidade de ave Maria e pai nosso que mandou rezar, mas não foi muito. Acredito que foi umas quinze de cada, para o meu alívio. E, para maior alívio ainda a hóstia não havia se transformado em sangue na minha boca.... 
    Mas não fiquei totalmente aliviado, deixei o resto da conversa para ser tratada diretamente com Deus, nas orações que eu fazia quando pequeno. Iria explicar que não tinha contado tudo para não atrasar a cerimônia e também para não cansar o padre. 
Depois da igreja fomos todos para o pátio do colégio onde teve muitos comes e bebes e então pratiquei sem culpa o pecado da gula...