sábado, 25 de outubro de 2014

Esquizofrenia: deficiência ou não?

 
      Não tenho a pretensão de, neste post, definir se a esquizofrenia é uma deficiência ou não. Não me julgo capaz para tal ato, mas creio que tenho o direito de dizer o que penso e sinto sobre esse assunto tão controverso, ainda mais quando a questão do passe livre é discutida.
    Em Ipatinga-MG, por volta do ano de 2007, consegui o passe livre sem maiores problemas e quase nenhuma burocracia. Compareci no dia marcado no posto de saúde, o médico apenas conferiu o laudo e os documentos e depois me deu a concessão parar ir à empresa de ônibus que administra o trasporte coletivo da cidade. 
    Já em São Paulo, tentei em diversos lugares, mas sem sucesso. Na capital paulista o passe livre, que é chamado de bilhete único especial, é válido em todo o estado, ou seja, ele é municipal e intermunicipal.
    Logo nos primeiros dias de São Paulo fui à um Caps, próximo do abrigo Arsenal da Esperança, a fim de renovar o estoque de diazepan. Em relação ao antipsicótico até hoje não sei o que fazer, não decidi se tomo ou não tomo, às vezes sinto que é necessário, e outras vezes sinto que é urgentíssimo usar. Quando estou sozinho, não vejo tanta necessidade de tomar esses medicamentos.
afinal, quem não enlouquece e não se estressa com um trânsito desses?

    Estava um pouco assustado com todo o stress e correria de São Paulo e senti que era preciso voltar a tomar a cloprormazina, para, pelo menos, dar uma sossegada até me acostumar com Sampa.
    Fui atendido por duas mulheres que me fizeram um enorme interrogatório, um pouco cansativo e também muito chato, por ter que reviver com alguns detalhes os surtos psicóticos que tive.
    Depois da longa entrevista, que é chamada de acolhimento, uma das mulheres me perguntou onde eu morava. Quando respondi que estava ficando na Mooca, simplesmente ela me disse que não poderia fazer nada por mim, pois não estava no Caps da área de abrangência. Mas por que ela não me perguntou o meu endereço antes de começar a conversa?
    Ela então me deu o endereço de um outro Caps, localizado no bairro Bela Vista, muito mais distante deste primeiro que fui, que era na praça da Sé, em que tinha que pegar apenas o metrô da linha vermelha. Já no bairro Bela Vista eu teria que pegar dois ônibus, gastando a quantia de doze reais. Oras, que área de abrangência é esta? Depois eu que sou o doido...
    Então, no dia seguinte, logo cedo, depois de muito perguntar, consegui achar o tal bairro Bela Vista. São Paulo é uma cidade com enorme extensão territorial( não quis dizer cidade grande, hoje "tô" com os níveis de serotonina altos, pois acabei de tomar um toddynho e comer uma broa). Além disso, os paulistas não são tão solícitos na hora de dar informações, como os mineiros, que só faltam desenhar um mapa para ter a certeza que a pessoa chegará ao destino desejado. Já estava ficando irritado com tantos "não sei", até encontrar um taxista gente boa, que, após procurar no mapa, me indicou quais linhas de ônibus deveria pegar para se chegar ao Caps do Bela Vista.
    Bem, chegando lá, fui atendido por uma mulher que logo começou a fazer o interrogatório novamente. Estava cansado de tanta dificuldade para se pegar um simples diazepan e fui um pouco rude com ela:
    - Não tem jeito de me dar esse remédio sem essa burocracia toda?
     Ela ficou séria, a sensação que nos passam é de que um esquizofrênico não pode ficar irritado por que corre-se o risco de ter o local totalmente destruído. Ela então disse que eu poderia frequentar o Caps e ficou balançando a carteirinha do passe livre, como que dizendo:
    - Olha o que vou te dar se você vier aqui!...
    Recusei o passe livre, pois, naquele momento só queria ter o diazepan e voltar a tomar a cloprormazina , pois sentia que poderia surtar dentro de algum tempo, por não ter me adaptado à São Paulo. Disse a ela que iria frequentar o futebol, apenas para encerrar a conversa e ir embora.
    Três meses depois, já mais calmo, voltei ao mesmo Caps. Fui atendido por uma psicóloga, que me fez o tradicional interrogatório de acolhimento. Engraçado quando nos tratam quando chegamos à um Caps tranquilo, calmo, mais ou menos arrumado e com o cabelo mais ou menos penteado. Os funcionários olham entre si com que a perguntar:
    - O que esse cara está fazendo aqui, ele é normal, não precisa de remédios!
    Parece que esses funcionários e alguns profissionais baseiam seus diagnósticos apenas na aparência física da pessoa, eles não acreditam que uma pessoa possa estar extremamente perturbada e ainda assim estar se vestindo adequadamente e estar conseguindo esconder suas emoções.
    Desta vez, respondi todas as perguntas com tranquilidade, pois já estava mais adaptado à cidade, quer dizer, já tinha me acostumado com a louca correria dos paulistanos. Mas foram tantas perguntas que até pensei se ela não estava pensando que eu estava fingindo ter esquizofrenia apenas para obter o passe livre.
    No final da entrevista, ela me disse que não era preciso ser atendido no Caps, pois eu estava estabilizado. Ou seja, eu não teria direito ao benefício, pois o mesmo só pode ser preenchido por médico especialista, o psiquiatra. Então, se eu der um "piti" eu consigo o passe? Pois na primeira vez iria conseguir o benefício por ter sido apenas ríspido com a atendente. Às vezes somos tão mal atendidos no SUS que só alterando o tom de voz para sermos atendidos. Se chegarmos com educação e humildade, o máximo que ouviremos é um simples não. Estou cansado de ver mães dando piti para que seus filhos sejam atendidos...
    Desisti então de conseguir o passe livre. A minha intenção em São Paulo era dar um tempo para pagar os meus empréstimos e voltar a alugar um cantinho em Belo Horizonte. E, para dar esse tempo, eu teria que ocupar o meu tempo, para não ficar gastando todo o meu dinheiro(todo? até parece...) com bobagens, que no meu caso, não são tão bobagens assim. Sinto que o chocolate, as massas, o açúcar me dão a famosa sensação de bem estar. A sensação quando não como estes alimentos é a de que estou murchando. Irei fazer o exame de serotonina para ver no que vai dar. Se a serotonina estiver baixa, irei tentar alguma alternativa natural e, se não der resultado, ai sim partirei para um medicamento.
    Então, sem o passe livre, fiquei em São Paulo, retirado em parques e bibliotecas. Isso foi bom, pois, no silêncio que tive, pude dar uma boa revisada no livro Mente Dividida, já mais experiente na arte de escrever, com as postagens do blog. Creio que o resultado ficou bom, para adquirir é só seguir as instruções ao lado.
    Voltando ao assunto, eu não aguentei muito tempo ficar sem fazer nada, estava me sentindo um estrangeiro na capital paulista. Tentei novamente o passe livre, desta vez no Caps Itapeva, mas novamente me alegaram que eu estava estabilizado e só seria necessário ser atendido em uma unidade de saúde. Para piorar, o cara me fez duas entrevistas, em dias diferentes. No segundo dia, estava acompanhado por uma psiquiatra não muito simpática, que me olhava com ar de superioridade e sempre ficava me questionando:
    - Qual remédio você toma?
    - Tomo 0.5mg de risperidona, é o máximo que aguento tomar - respondi.
    - Ah! Mas essa dose não faz efeito!
   - Então por que essa dose é vendida nas farmácias? - perguntei.
    Percebi que ela ficou meio sem graça e pediu para sair da sala. Ela disse que a risperidona dá pouco sono. Essa afirmação me deu a certeza de que estava ela pensando que eu estava mentindo. Creio que o mal de alguns profissionais da área de saúde seja pensar que todos os pacientes são iguais, e que a mesma dose deva ser aplicada a todos, já que supostamente o  efeito será o mesmo. Acho que deve ser levada outras questões, como as condições de saúde do paciente, por exemplo. Algumas pessoas, por natureza são mais agitadas do que a outra. O inverso também acontece. Já me disseram nos comentários que talvez eu seja um paciente com metabolismo lento(ou algo parecido) e que doses baixas dos medicamentos para mim já bastam.
    Depois do Caps Itapeva, tentei mais um outro, não me lembro o nome do bairro. Fui bem atendido desta vez, mas a resposta foi quase a mesma: A atendente disse que eu não precisava do Caps por "saber" fazer as coisas...
   Agora, vou tentar o passe livre aqui em Belo Horizonte, apesar de descobrir que vários portadores amigos que tenho não conseguiram. Mas conheço um cara, que está estabilizado, que conseguiu.
   A minha pergunta é essa: será que o esquizofrênico estabilizado não tem direito ao passe livre?
   Será que não temos o direito de frequentar um Caps, ir a um Cersam, ou um centro de convivência? A passagem de ônibus não é barata e grande parte dos portadores não é aposentada, e, quando são, geralmente ganham um salário mínimo, como é o meu caso.
    Será que não sofremos por controlarmos as nossas emoções e não quebrarmos as "coisas"? Será que estamos realmente bem, para não podermos procurar algo para ocupar a nossa mente? Será que só quem tem déficit mental é que tem direito ao passe livre? Às vezes me pergunto se não seria bom voltar a ficar fora da realidade, como no primeiro surto, pois, depois que o pior já havia passado, eu conseguia dormir nas ruas, sem ter medo e não me preocupava com nada.
    Olhem o decreto federal que dá direito ao passe livre as pessoas com deficiência: (esse é interestadual, mas os outros são bem parecidos na questão da deficiência mental:

-IV- deficiência mental- funcionamento intelectual significativamente inferior a média, com manifestação antes dos dezoito anos e limitações associadas a duas ou mais áreas de habilidades adaptativas, tais como: comunicação, cuidado pessoal, habilidades sociais, utilização dos recursos da comunidade, saúde e segurança, habilidades acadêmicas, lazer e trabalho. 

    Oras, a lei para mim é bem clara, apesar de crer que eu não tenho o funcionamento intelectual significativamente inferior a média. Mas, e o resto? É óbvio que, o esquizofrênico, mesmo que estabilizado, tem sérias limitações nas áreas citadas acima, como:
- comunicação: no meu caso, em particular, não é raro de, em alguns dias, no final da noite, conseguir contar as palavras que saíram dos meus lábios.
-utilização dos recursos da comunidade: o que eu mais uso é um parque ecológico, onde eu posso ficar sozinho a maior parte do dia.
- lazer: ai nem se fala, acho que dificilmente alguém irá me ver em algum show, cinema, teatro, etc. Para se ter uma ideia, eu nem fui ao show do Yanni quando ele esteve em São Paulo. Cheguei a ir ai ginásio do Ibirapuera, na parte da tarde, para ver se eles iriam ensaiar ou passar o som. Estava com dinheiro para o ingresso, mas acabei não me sentindo bem e fui embora. Hoje em dia, com a evolução dos sistemas de sonorização, já não é preciso ficar passando o som com tanta frequencia e o Yanni não apareceu de tarde.
- trabalho: muitos podem pensar que não gosto de trabalhar. Mas gostaria de dizer que trabalhei como operador de som dos 17 aos 34 anos, que foi o meu limite, pois comecei a surtar por volta dos 32 anos. O trabalho era o meu lazer, pois gostava e muito do que fazia. Hoje já não suporto multidões e som alto.
    Se analisarmos a lei, eu e a maioria dos portadores de esquizofrenia teria direito ao passe livre. Não quero o benefício para ir a um show de pagode ou funk, sou esquizofrênico mas não sou, sei lá.... Gostaria de ter alternativas para ocupar a minha mente. Mas por que não consigo então? É preciso ter um grande déficit mental, ter aparência estranha ou algo parecido?
   Já em BH, quando conversei com uma assistente social, ela me disse que iria marcar uma entrevista minha com um funcionário da BHtrans, que gerencia o transporte coletivo na capital mineira. Ela me disse: " É lá que você vai ter que provar que..." Ela não terminou a frase. O que ela quis dizer? Eu teria que provar que sou um louco? Como se prova isso? Eu teria que quebrar alguma coisa, falar coisas desconexas?
    Na minha opinião, essa lei deveria ser mais clara, e dar direito aos estabilizados, porém não curados, de ter uma possibilidade de melhorar a qualidade de suas vidas. Somos rotulados somente na hora da discriminação, na hora de requerermos nossos direitos dizem que não temos nada. A discriminação é tanta que nem existe lei na questão do emprego para portadores de esquizofrenia, o que existe em outras deficiências, sendo que o preconceito é muito maior para quem tem o transtorno da mente dividida.

-obs: gostaria de dizer que, por questões de economia de dinheiro, não estou acessando a internet com tanta frequência, e não está dando para conversar com todos que me procuram pelo email.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Exame de serotonina

    Recentemente uma leitora do blog postou um comentário afirmando que sua serotonina estava baixa, em torno de 6, quando o mínimo aceitável é 50. Fiquei intrigado e perguntei como ela sabia dessa informação. A resposta veio no mesmo dia: ela afirmou que foi através de um exame de sangue.
    Pesquisei no Dr. Google e constatei que esse exame realmente existe. Lembro-me que, por volta do ano de 2005 cheguei a perguntar  à um psiquiatra como eles descobriam que uma pessoa tinha realmente uma depressão. Ele me respondeu afirmando que o diagnóstico era feito baseado no relato do paciente, pois a serotonina era fabricada no cérebro e não circulava pela corrente sanguínea.
    Hoje, depois dessa descoberta, inúmeras dúvidas tomaram conta de minha cabeça. Se esse exame consegue realmente analisar os níveis de serotonina, por que então ele é pouco conhecido?
   A maioria das pessoas que têm depressão desconhecem esse exame, pelo que pude perceber, ao fazer a pergunta para alguns amigos virtuais e pessoalmente também.  Faço esse questionamento por que hoje em dia muita gente confunde tristeza com depressão. Qualquer fato negativo é motivo de se ir ao médico e começar a usar as famosas pílulas mágicas da felicidade. Eu mesmo experimentei a sertralina em um momento difícil de minha vida. Tive uma sensação que não sei se foi uma melhora de verdade. Na época estava triste por um motivo real, pois o local onde morava estava sendo tomado pelo crack. Com o medicamento notei que estava rindo de algumas coisas que não deveria achar graça, como os programas de domingo à tarde.Será que eu estava  me tornando mais imbecil do que já sou?
   Quando tomei a fluoxetina pela primeira vez, me senti super feliz e disposto, mas creio que foi o efeito placebo mesmo. Para mim, naquela época, esse medicamento era uma pílula milagrosa que nos trazia a felicidade, estava ainda no seu auge e era mais conhecida como Prozac. Já na segunda vez que usei, algum tempo depois, não senti nenhuma diferença.
    Voltando ao exame, me pergunto por que os médicos não o utilizam já que os consultórios hoje em dia estão lotados de pessoas se queixando do mal que é um dos que mais afastam as pessoas do trabalho..
Eu mesmo consegui a receita da sertralina em apenas alguns segundos, sem maiores questionamentos do médico, um clínico geral apressado e que costumava errar muito na hora de preencher as receitas. As consultas demoravam em média menos de dois minutos, como se pode ver no vídeo abaixo.
    No momento estou numa moleza de dar dó, não acho graça em nada e estou triste, esta é a verdade. Talvez seja os tais sintomas negativos da esquizofrenia também. Mas creio que não seja tão difícil descobrir que estamos tristes de verdade. Basta analisarmos os fatos, ou será tão complicado isso? No momento não estou morando em um local saudável, o papo no abrigo é deprimente, só se fala em drogas, comida e outras coisas que não me acrescenta em nada. Qualquer coisa pode ser motivo de brigas, basta o cara não estar em um bom dia. Isso não vem ao caso, mas tudo isso me deixa muito triste. O que tenho que fazer então? Sair desta situação o mais rápido possível. Falta pouco para atingir o meu objetivo e finalmente morar sozinho no meu canto. O meu objetivo é comprar algumas coisas antes, mas o principal é ter a paz que sempre tive. Não posso reclamar, eu entrei nesta situação e agora tenho que aturar certas coisas e conseguir sair desse jogo. Como disse anteriormente, a minha vida está parecendo uma espécie de vídeo game, onde tenho que ter muita paciência para ir avançando de fase até alcançar o objetivo final. A fase final é sempre a mais difícil, os dias demoram por demais a passar.
    Então, analisando os fatos, sei que estou triste e desmotivado e provavelmente não tenho depressão, e sim os sintomas negativos da esquizofrenia. Não vai ser uma pílula diária que irá me dar a felicidade. A sertralina não irá acabar com a discriminação contra um cabeludo mochileiro que anda de chinelos
ipanema( é melhor e mais barato do que o havaianas, pode confiar). O antidepressivo também não vai fazer com que eu ache graça nas conversas da maioria dos abrigados. Agora tenho que esperar até as oito e meia da noite, para assim entrar em um quarto mais tranquilo e poder dormir. Os caras mais agitados entram bem mais cedo. A maioria não trabalha e por isso ficam até tarde da noite gritando e fazendo zoeira. Eu, quando tinha energia de sobra, procurava gastá-la fazendo caminhadas e praticando esportes, mesmo quando trabalhava o dia inteiro. Felizmente nem todo mundo do abrigo é assim, tem muita gente boa por lá.
    O que ocorre com a tristeza pode ocorrer com a falta de sono. Os pans da vida não irão pagar suas dívidas ou resolver os problemas que estão atrapalhando o seu encontro noturno com Morfeu.
    Então, pensem bem antes de tentar um antidepressivo e medicamentos para dormir. E, se o exame for realmente eficaz, creio que ele deva ser divulgado para um maior número de pessoas possível. Ou será que existe um interesse em vender um maior número de medicamentos possível?

sábado, 27 de setembro de 2014

Missão quase impossível?

 
    A coisa está tão complicada que estou cogitando ir à igreja de São Judas Tadeu, o santo das causas impossíveis. Estou tão deprê que penso que esse lance de inferno astral não é realidade mesmo. A tristeza, aliada à mania de perseguição, me faz pensar se alguém não colocou algo em minha comida para me envenenar. Já deixei de frequentar certos lugares, e presto muita atenção quando peço algo em um estabelecimento: quando como um pão com manteiga, sigo sem desgrudar os olhos as mãos da balconista.
    Penso em voltar a tomar a sertralina, mas não quero ficar dependente de remédios. Usei esse medicamento uma vez, e me lembro que deu até um resultado. Certo domingo me peguei achando graça naqueles programas que passam de tarde, parecia que estava usando alguma droga para ficar feliz. O momento é complicado, estou ciente disso, e sei que antidepressivo não vai resolver estes problemas de origem financeira. Morar em albergue tem a vantagem de não se ter muitas despesas, mas não adianta se não temos liberdade e paz. A galera que fuma no abrigo fica uma fera quando os descobrem, ficam tentando achar o "caguete", mas não admitem que vacilaram, pois este abrigo tem até guarda municipal. Outro dia disse para o cara não dar bobeira, pois se o guarda não descobrir quem estiver fumando, todo mundo do quarto tem que dormir na rua. Ou seja, por causa de um fumante todo mundo tem que dormir na pista, no relento... E esses caras quando são pegos na maioria não assumem, e ai o barraco tá formado... Para mim, podem fumar a vontade, mas que segurem a onda e sejam homens.
o santo das causa impossíveis
    Mas voltando ao início, fui a igreja de São Judas Tadeu quando tinha por volta de uns sete anos. Estava lotada, deveria ser o dia dele. Em uma sala, as pessoas depositavam algumas provas de seus milagres: geralmente cartas ou então réplicas  de membros para simbolizar a graça alcançada, dentre outras coisas.
    Quando cheguei em frente da imagem, a minha madrinha me pediu para colocar uma fitinha na testa e fazer um pedido:
    -Quero passar de ano... - foi o que surgiu em minha mente naquele momento.
    Na verdade, não tinha muito o que pedir: não faltava bola para brincar nas ruas, jogava war e banco imobiliário na casa dos muitos amigos que tinha, principalmente no prédio vizinho. Alguns moradores chegaram a pensar que eu morava no prédio, pois não saia de lá. Ah! E jogava também Atari, que era o vídeo game sensação da época.
Do you remember? 

     Não precisava pedir proteção para o santo, afinal o mal só existia para mim nos filmes de terror. Até o Drácula naquela época não era tão ruim assim. Ele só queria um pouquinho de sangue, de preferência de uma linda mulher, e, em troca lhe dava a juventude eterna. Quem se arriscaria? shasuahsuashuashs
     Então, passar de ano foi o único pedido que fiz, não gostava de estudar, só fazia isso o suficiente para não tomar bomba.  Hoje sei que isso não é nada legal, ainda mais quando nos é dado a chance de se estudar em um colégio particular aqui no Brasil.
    Hoje, penso em voltar a essa igreja, mas os pedidos seriam muitos: saúde mental e física, bens materiais, proteção contra os inimigos, etc... Esse seria o primeiro pedido:
    - Livrai-me da esquizofrenia...
    O segundo seria:
    - Livrai-me dos inimigos...
    Ai paro para pensar. Que inimigos? Os que eu tenho de verdade ou os que eu imagino ter? Teria que mudar o pedido, para saber distinguir o que é coisa de minha cabeça da realidade...
     Acho que esse caso nem São Judas Tadeu resolve...
    Deixa para lá São Judas, se livrar o meu time da segunda divisão já está de bom tamanho...
Em breve irei publicar e imprimir um livro contendo os posts mais acessados e comentados do blog, juntamente com os que eu considero os melhores. Quem se interessar é só entrar em contato por email:
juliocesar-555@hotmail.com
O preço ainda não tenho ideia, ainda não tenho certeza de quantas páginas será o livro.

-obs: hoje em dia não tenho religião, tenho a minha crença e respeito a opinião de todos.

Você Se Lembra? 
Nós nunca falamos sobre isso, mas ouço que a culpa foi minha
Eu ligaria para pedir desculpas
Mas eu não queria desperdiçar seu tempo
Porque eu te amo, mas não consigo suportar mais
Tem um olhar que eu não consigo descrever em seus olhos
Se nós tentassemos, como tentamos antes
Você continuaria a me dizer aquelas mentiras?
Você se lembra?

Parecia que não tinha jeito de fazer as pazes
Porque parecia que você tinha tomado sua decisão
E o jeito que você me olhou me disse
É um olhar que eu sei que jamais esquecerei
Você poderia ter vindo pro meu lado
Você poderia ter me deixado saber
Você poderia ter tentado ver a distância entre nós
Mas parecia longe demais para você percorrer
Você se lembra?

Durante toda a minha vida
A despeito de toda a dor
Você sabe que as pessoas são estranhas as vezes
Porque elas apenas não esperam se machucar de novo
Me diga, você se lembra?

Existem coisas que não vamos recordar
E sentimentos que nós nunca acharemos
Está demorando tanto para ver isso
Porque nós nunca pareciamos ter tempo
Havia sempre alguma coisa mais importante para fazer
Mais importante para dizer
Mas "eu te amo" não era uma dessas coisas
E agora é tarde demais
Você se lembra?


Link: http://www.vagalume.com.br/phil-collins/do-you-remember-traducao.html#ixzz3EWLhFbFP

sábado, 20 de setembro de 2014

Divagações esquizofrênicas


As pancadas que a vida nos dá


  
futebol, crimes e fofocas sobre famosos, essa é a fórmula do sucesso do jornal...
   Estava meio pra baixo(totalmente, para falar a verdade) quando vi a frase acima em um jornal que costumo comprar, aqui em Belo Horizonte. Ele custa apenas 25 centavos, até que tem algumas coisas interessantes, mas não foge muito do formato que atrai a maioria das pessoas: tragédias, futebol e fofocas de famosos, principalmente mulheres.
    Tirando as fofocas e os crimes, até que dá para se ler alguma coisa: cultura, notícias interessantes e as palavras cruzadas de nível de dificuldade médio.
     Incrível como as palavras tem uma força, um poder invisível e às vezes invencível de nos motivar ou nos afundar mais ainda. 
    Acho que fiquei uns 15 dias nesta fase meio down. Às vezes chego a pensar que sou bipolar. Nem participei do campeonato de futebol entre os "cersams" de Belo Horizonte. Estava muito animado para participar, incentivei a galera para treinar para não fazer feio, mas, no dia da primeira partida estava mais sem graça do que o vilão quando cai o pano. Sou fominha de bola, jogo até me esgotar completamente, mas, quando bate esse desânimo... Semana passada nem pensei em publicar um post. 
    Meu estado de ânimo muda tanto e com tanta facilidade que procuro evitar de marcar compromissos. Há alguns anos atrás um psiquiatra que me atendeu em uma certa emergência chegou a me indicar o lítio. Mas o que me acompanhava normalmente disse que não era necessário. Hoje sei que a esquizofrenia e a bipolaridade tem alguns sintomas em comum e que não é raro o mesmo paciente ter diagnósticos diferentes. 
    Mas, voltando à frase, quando a vi me lembrei do momento em que tentaram me roubar o notebook em São Paulo. Eram três caras: um me derrubou por trás e os outros dois ficaram chutando a minha cabeça. Se reagisse, provavelmente perderia o note. A solução que encontrei foi me encolher como um tatu bola e ver até quando iria aguentar as pancadas, até quando iria resistir. Os caras estavam quase desistindo e, para minha sorte apareceu um senhor de idade que sacou algo de seu bolso e que assustou os meliantes. Se era um celular ou um revólver, não sei dizer... Quase não havia policiais nas proximidades, era dia de jogo de copa do mundo no Itaquerão, e a polícia estava trabalhando para a fifa protegendo os gringos... 
    Não recomendo à ninguém que faça o mesmo. Mas é difícil entregar assim com tanta facilidade algo que conseguimos comprar com tanto esforço. O negócio hoje está tão complicado que daqui a pouco rico vai ter que se fantasiar de pobre para não ser incomodado.
    Quando morava em Ipatinga, resolvi comprar um PC ao invés de um notebook. "Assim o ladrão vai ter  mais trabalho na hora de praticar seus delitos, por causa do monte de fios... " pensei. 
    Hoje em dia minhas compras estão condicionadas aos ladrões. Hoje tenho um celular bom, mas simples. Ele não é touch e não é da Samsumg, o preferido dos assaltantes. Tinha um com tv digital e era touch, mas, certa noite, quando dormi com o rádio do aparelho ligado, um @#$%  cortou a minha barraca e o levou embora. Nem pensei em correr atrás do meliante, até eu abrir os quatro zippers da barraca... 
    Hoje, com esse celular a minha preocupação é menor. Percebo que ele não atrai tantos os olhares da galera como o anterior, que custou bem mais caro. Também já passei da fase de querer ficar tirando onda com celular. Tem gente que fica mexendo no aparelho só por mexer, para mostrar mesmo. 

Preconceito
    O preconceito contra os moradores do albergue é tão grande, que, certo dia, quando entrei em uma sorveteria, uma mulher, ao me ver, ficou assustada e correu até a mesa para pegar o seu celular. 
    - "Eu tenho um celular, não se preocupe, e ele é original..." ironizei.
    - O meu também é original, e custa 900 reais!- disse, com toda a pompa, a moradora do bairro. 
    Essa moradora do bairro 1º de maio, além de ser "mitida", provavelmente não deve pensar muito. Eu estava com uma mochila de 11kg nas costas. Como iria sair por ai para roubar? Ela não tem uma perna, usa prótese, mas com certeza correria mais do que eu com todo esse peso nas costas. 
    Então pensei: por que se sacrificar para comprar um celular e ficar estressado por causa da preocupação de vê-lo sendo roubado? Rico, quando é roubado, geralmente nem liga para o valor do produto, fica mais chateado com o trabalho de recuperar o número e os contatos. 
palavras podem machucar mais do que gestos

    Mas, voltando ao assunto, não falo das pancadas da vida no sentido literal. Essas muitas vezes são curadas, nem deixando cicatrizes em alguns casos. Falo de coisas que acontecem que são bem piores do que um soco na cara. O preconceito é uma delas. Até que não sofro tanto preconceito por causa da esquizofrenia, sou aposentado e não tenho que tentar me ingressar no mercado de trabalho. Também posso viver mais retirado, sem ter muito contato com as pessoas. Mas, no momento, como morador de rua o negócio é complicado, é preciso ser forte para relevar certas situações, como o mau atendimento no posto de saúde do bairro 1º de maio. Sou tratado como um lixo quando os funcionários descobrem que moro no abrigo. Creio que os outro albergados também sejam. Sou melhor atendido em outros bairros quando falo que sou morador de rua mesmo e que durmo na minha barraca. Prefiro pagar o metrô e ir para outro posto de saúde para pegar o meu pan nosso de cada dia.
    Algumas pessoas do bairro 1° de maio me parecem ser um pouco prepotentes, sei lá, acho que pensam que moram na Savassi... Já almocei em alguns restaurantes caros em outros bairros, com a minha mochila e com roupas simples, e não sofri nenhum tipo de preconceito, como acontece aqui neste bairro do abrigo. Está certo que alguns albergados aprontam, mas generalizar não é o melhor caminho. Procuro sempre ficar na minha e evito confusão, não mereço ser tratado como se fosse um bandido. Aliás, os comerciantes do bairro provavelmente não falam nada quando avistam um traficante entrando em seus estabelecimentos. 
    Mas não existiu pancada em minha vida tão forte como a esquizofrenia. Parece um direto no queixo, que quase nos leva à nocaute. Ficamos no chão, caídos, atordoados, sem saber o que está acontecendo. A contagem regressiva não dura oito segundos, pode durar meses ou anos, depende de cada um. Os remédios funcionam como um intervalo entre os rounds de uma luta, onde podemos nos recuperar do golpe, que, infelizmente, pode ser o fim da luta pela vida. Recentemente um colega de grupo do facebook faleceu por causa da esquizofrenia. Ele tinha um canal no youtube, cantava bem pra caramba e chegou até a aparecer no programa da Eliana, mas a música era outra sem ser essa do vídeo.


    Sei que vou sofrer um pouco de preconceito por causa da esquizofrenia na hora de alugar um quarto. Não tem como esconder que sou aposentado. Afinal, fico o dia inteiro no meu canto. Vou dizer o que? Vou inventar? Você alugaria um quarto para um portador de esquizofrenia? Vote na enquete, mas vote com a sinceridade, não ficarei magoado com o resultado. Eu entendo um pouco o preconceito em relação a esquizofrenia. Eu também tinha muito preconceito, antes de surtar. Pensava que um vizinho era doido e não esquizofrênico. Ele tinha movimentos involuntários da face e dos membros, e não parava de andar. Às vezes eu o encontrava dormindo nas calçadas da cidade onde morava. Confesso que cheguei a imitá-lo de brincadeira. Ele não dava sinais de loucura. Apenas ficava a maior parte do tempo sentado na calçada em frente de sua casa. Cumprimentava todos, mas seu rosto não expressava nenhum sentimento. 
    Hoje sei que ele andava sem parar por causa da medicação. Ele tomava haldol e a acatisia é uma reação adversa muito incômoda. E os movimentos involuntários são a tal da discenesia tardia, também provocada pelos medicamentos, principalmente os mais antigos. O rosto sem expressão provavelmente é o embotamento afetivo, e hoje eu tenho um pouco disso. 
    Eu tinha aquele preconceito não por ser uma pessoa má, e sim pela falta de informação. Ninguém me falou nada sobre o que era esquizofrenia. Para mim era simplesmente o nome de um disco da banda Sepultura, daqui de Belo Horizonte. Por isso escrevo o blog, mas não quero e nem gosto de aparecer. Se quisesse chamar a atenção faria outra coisa ou abordaria um outro tema que chamasse mais a atenção.
a minha intenção é atingir também quem não tem ligação direta com o assunto...
    A maioria das pessoas chegam a este blog por terem alguma ligação com o assunto, por isso estou saindo por ai colando panfletos do blog. Quem quiser pode fazer o mesmo, não irei reclamar sahsuashasuahsuashs
Queria que um número maior de pessoas entendessem de verdade  o que é realmente a esquizofrenia e que não somos esses monstros que a mídia(ou parte dela) insiste em mostrar. Queria que todos soubessem o quanto ficamos tristes quando somos marginalizados e discriminados. Monstros e loucos vemos todos os dias, basta abrir as páginas dos jornais.

esta "linda" mulher cortou o pênis do ex-noivo por não aceitar o fim do relacionamento
Eu que sou doido?
     Notícias como a da foto acima são muito comuns e passam quase desapercebidas pelas pessoas. É normal, faz parte do dia a dia. Além dessa "linda" mulher da foto, uma outra cortou o pênis do seu companheiro alegando que iria fazer sexo oral... Homens que matam mulheres também parece ser considerado normal. "Se não vai ser minha, não vai ser de ninguém", é o que esses caras devem pensar. Mas, e quando um esquizofrênico comete algo? Aí é o maior escândalo, vira manchete nacional e alvo de discussões. Nem questionam se o cara não está "dando uma de louco", seguindo a orientação de seu advogado, para cumprir a pena em um manicômio judicial ou então ter a mesma reduzida ou até mesmo ser considerado inimputável.


Adotem o Chimbinha!
juro que não pensei no guitarrista do Calypso na hora de batizar o cachorro, olhei para a cara dele e vi que tinha cara de Chimbinha...
  No início ele se aproximava um pouco de mim, lá no parque. Mas, quando eu me movimentava, ele saia assustado. Na terceira vez que me viu ele não correu. Então o acariciei e a partir daí não largou mais de mim. De manhã, ele chega a ser quase um chato, insistindo em receber um carinho por ter ficado tanto tempo longe de mim. Não me deixa ler o jornal. Quando um outro cachorro se aproxima, mostra os seus dentes e rosna ameaçadoramente. Mas ele é muito dócil e brincalhão e parece estar saudável. Ele é sem raça definida(vira latas mesmo) mas é uma boa companhia. Se pudesse, o adotava. Quem quiser ou souber de alguém e for de BH e se interessar, entre em contato comigo por email. Provavelmente o dog vive feliz no parque, livre e solto, com espaço de sobra para correr.  Os funcionários do parque dão um pouco de ração de pato e resto de suas refeições para ele. Mas creio que Chimbinha deve sofrer com o frio e com as chuvas de noite, e com os cachorros maiores também. Conheço muita gente que gosta dos vira latas, quem sabe não consiga uma casa para o Chimbinha. 
ele é vira latas mas é estiloso...

terça-feira, 2 de setembro de 2014

O bom filho ao albergue retorna...

   
    Pela terceira vez volto a este abrigo em Belo Horizonte. A capital mineira tem apenas dois albergues, que é um número considerado baixo, para o tamanho da cidade. Em São Paulo, pelo que deu para sentir, deve ter mais de vinte lugares para ficar em caso de necessidade.
    Na primeira vez, em abril do ano passado, fiquei apenas alguns dias, para me recuperar de uma tendinite que tive na minha primeira viagem, caminho do Padre Anchieta. Estava numa boa, curtindo a praia no simpático balneário de Barra de Jucu, quando bati o calcanhar em uma pedra no fundo do mar. Fui teimoso e percorri os 75km restantes manquitolando mesmo. Me aconselharam na praia a procurar uma UPA, mas todo mundo sabe como é o atendimento nestes lugares... Só procuro a UPA quando o negócio não tem jeito mesmo. Se já é difícil andar com a mochila em plenas condições físicas,  imaginem machucado.
    A segunda vez foi depois da viagem pelo caminho velho da estrada real. Foram 23 dias e 710km de muitas andanças e de muita ralação. Depois da viagem de volta de ônibus, meus pés ficaram muito inchados. E, além de tudo, estava muito cansado. Esse negócio de montar e desmontar barraca todos os dias cansa...
   Agora volto depois de oito meses em São Paulo. Muitas saudades de BH: das vitaminas consistentes e geladinhas, dos preços camaradas, do clima, do trânsito um pouco menos complicado. Do metrô com pessoas menos estressadas e mais calmas.. E, claro saudades do parque onde costumo descansar(de que que eu não sei...)
   Tive muitas incertezas na volta, já que poderia ficar mais dois meses no abrigo em São Paulo. Não sabia se voltaria a ser aceito no abrigo de BH, pois não era a primeira vez que o procurava. Tive que pegar um encaminhamento na rodoviária, mas deu tudo certo. Acabei sendo aceito, ser bom comportado vale a pena sim e tem suas vantagens, que, se não são imediatas, são bem mais lucrativas. O ambiente neste abrigo é tranquilo, às  vezes costuma ficar não muito bom, e é preciso muita paciência e tranquilidade para não fazer e falar algo de errado: é um cara que fura a fila na hora do  banho ou do jantar, é gritaria até tarde da noite, funk rolando naquelas caixinhas de se pendurar no pescoço e por ai vai. Às vezes ouço uma indireta de caras criticando a minha situação de aposentado, mas faz tempo que deixei de ligar para o que as pessoas pensam a meu respeito. E o papo não costuma ser muito sadio: drogas, crimes, caras contando suas proezas sexuais e detalhes de suas aventuras amorosas, etc. Homem tem muito disso, em uma rodinha costuma contar como foram suas transas. Contam quantas vezes conseguiram chegar lá e tals... Mas, para mim isso não quer dizer muita coisa, se é que o cara não está mentindo. Me pergunto se ele por acaso sabe se ela chegou lá também, se é que chegou, devido ao egoísmo. Mas chega desse papo de sexólogo, afinal, quem sou eu para falar sobre o assunto, já nem sei se meus preservativos estão com o prazo de validade vencido, pois as embalagens estão muito desbotadas.
olhem o estado, mas não é por que eu sou descuidado, é pela falta de uso mesmo...

    Mas, voltando ao assunto abrigo, gostaria de dizer para as pessoas não generalizarem e não discriminarem quem mora em um lugar desses. A maioria realmente está em dificuldades e querem mudar de vida, outros, por vários motivos, não conseguem um trabalho. Muitos trabalham e são do bem, mas uma minoria apronta e ai fica o preconceito. É aquele negócio, não é legal o preconceito, mas, por causa dessa minoria não é aconselhável dar muito mole ao pessoal  Roubo de celulares no albergue é muito comum, principalmente de madrugada. O cara dorme com o celular na cama e ai já era. Já até roubaram o meu relógio do Paraguai que me custou dez reais! Fui ao banheiro de madrugada e nem imaginei que alguém iria querer um relógio xing ling, com a lente trincada e todo colado. Então fui ao banheiro me aliviar e deixei o relógio na cama mesmo. E adivinhem o que aconteceu? Isso mesmo, um @#$%& roubou o meu xodó, meu companheiro de andanças! Há um ano que eu o comprei e fiquei chateado, cheguei a oferecer cinco reais para o meliante me "vender" o relógio, mas não tive sucesso em recuperá-lo. Acho que tem gente que rouba por prazer mesmo. Muitos tem problemas com drogas e álcool e por isso comentem esses pequenos delitos, outros querem realmente sair dessa situação, mas não encontram forças e nem ajuda suficiente. Mas muitos também estão acomodados com essa história de albergue. Eu mesmo confesso que fiquei um pouco acomodado, poderia ter juntado uma boa grana para pagar os empréstimos e comprar as coisas que quero em menos tempo. Mas creio que será  a última vez.
    Mas ainda nem sei se poderei permanecer no abrigo, pois ainda não conversei com a assistente social. Quando a vejo nos corredores, abaixo a cabeça e faço cara de sério, para ela não me reconhecer. Mas, se na conversa ela não me der o prazo suficiente para concluir o meu projeto, voltarei a morar na minha humilde barraca de camping. Antes meus projetos eram outros, queria se alguém na vida, ter coisas, possuir coisas, mas hoje, depois dos surtos meu projeto principal é ter paz e ficar em meu cantinho mesmo.
    Meu projeto é esse: voltar a alugar um quarto, depois de quase dois anos. Mas antes tenho que comprar as coisas que tinha antes de sair viajando por ai: um notebook, uma TV, um home theather e um frigobar. O note já comprei, e quase me roubaram em São Paulo. Levei algumas pancadas, mas não dei mole para os três meliantes que me cercaram. Mineiro é pacífico, mas não costuma afinar não...
    Já a TV e o home theather provavelmente irei comprar no próximo pagamento. A Dilma fez uma gracinha este ano(por que será?) e antecipou o 13° da galera aposentada. Para mim foi ótimo, vai ser alguns dias a menos no abrigo ou nas ruas. Mas se a "presidenta" pensa que conseguiu o meu voto... Aliás, se a Dilma fosse como eu, seria uma caminhante ou uma caminhANTA?
Aliás, muitos albergados estão preocupados com as eleições, a maioria está com a Dilma, por causa do bolsa crack, quer dizer, bolsa família.
    O frigobar fica para o próximo mês. Não tem como pagar aluguel e adquirir certas coisas. Chega a ser uma quase obsessão comprar os eletrônicos que tinha quando morava em Ipatinga.  Já perdi a conta de quantas vezes sonhei acordado, me vendo assistindo uma TVLCD de 32 polegadas ou curtindo um som no home theather. É mesmo uma obsessão: não quero o som comum, estéreo, tem que ser home thather! É uma sensação muito boa ouvir um show, parece que estamos no meio da plateia, com as caixas espalhadas pelo quarto. Coloco duas atrás da cama e as outras quatro perto da TV. O som do público sai nas caixas traseiras, e os instrumentos, juntamente com outros efeitos(ecos, reverber) saem "dançando" pelas caixas.
    Já o note é onde encontro os meus amigos, e onde aprendi muitas coisas, através das pesquisas, inclusive sobre a esquizofrenia. Aprendi também que não devemos nos impor limites, pois havia colocado em minha cabeça que nunca iria aprender a mexer em um computador e muito menos digitar sem olhar para o teclado. Já o frigobar é uma questão de saúde mesmo, onde guardo as frutas e verduras, além de yogurte. Tomo também um produto natural chamado Enziplus, que me dá um bem estar danado, com a sensação de que tudo está funcionando perfeitamente em nosso organismo. E essa boa sensação física acaba refletindo na parte mental, pois creio que está tudo muito ligado.

    No início me senti deslocado no albergue, apesar de ser a terceira vez que vou para lá. A turma havia mudado. Encontrei alguns que ainda estão por lá. Fiquei feliz por revê-los, mas de um certo modo triste também, pelo fato de ainda não terem saído dessa situação. Morar em albergue é um pouco complicado: fila para entrar, para tomar banho, para guardar a mochila, pegar a toalha, jantar, devolver a toalha, etc... A conversa do pessoal às vezes não é das mais sadias. Não me considero melhor nem pior do quem está por lá, mas me interesso por outros assuntos. É um sacrifício ter que ouvir tanta coisa que não nos interessa e que não achamos graça nenhuma. Mas esse sacrifício vai valer a pena, meus empréstimos estão quitados e, na ponta da caneta, vai dar para me virar e pagar um aluguel. Estou há muito tempo sem ficar em um cantinho, tirando às vezes em que ficava no meio do mato nas andanças...
    Já me perguntaram e creio que muitos perguntam por que eu não trabalho. Oras, se eu tivesse condições de trabalhar, eu não teria me aposentado. Adorava o que fazia, viajar e trabalhar com sonorização para shows, conhecer lugares novos e pessoas, mas hoje em dia isso não dá mais para mim. Aliás, o convívio social não é para a minha pessoa, tenho que ser realista, creio que dificilmente serei a mesma pessoa despreocupada de antigamente. Não creio que um medicamento irá mudar a minha mente.
     Morar em um albergue é como estar preso em um regime semiaberto, onde temos que nos apresentar todos os dias para dormir no local. Mas o pior de tudo mesmo é o preconceito: andando de mochila, e não muito bem arrumado, somos muito discriminados, principalmente no bairro. Eu ligo muito para isso, infelizmente. Sempre procurei ser um cara correto e ser confundindo com um meliante me deixa um pouco irritado, às vezes. Outro dia machuquei o meu dedão do pé e foi uma dificuldade para conseguir duas pedras de gelo no bairro onde se situa o abrigo. Em uma sorveteria, um cara, ao me ver, disse:
    - Hoje o ambiente não tá legal não...
    O engraçado é que provavelmente ele não deve dizer isso para os traficantes que moram naquele bairro...
     Eu entendo o lado de quem mora perto de um abrigo. Infelizmente uma minoria de usuários do serviço ficam na porta o dia inteiro, alguns aprontam, brigam, chegam a urinar nos postes. Eu mesmo não queria um abrigo em frente de minha casa. Mas sair discriminando todos ai já é um pouco de maldade.
     Na internet já sofri um pouco de preconceito por morar na rua, mas não preciso esconder nada de minha vida. Me considero um cara vitorioso por ter sobrevivido a tudo o que passei. Claro que não teria conseguido passar por todas aquelas situações complicadas sem a ajuda das pessoas. Foi por esse motivo que resolvi escrever o livro: queria contar que ainda existem pessoas boas neste mundo. Não disponibilizo o livro gratuitamente pois sonho um dia em vê-lo publicado. Se puder ganhar alguma grana com ele, ótimo, se não der, tudo bem. Tenho consciência que livro no Brasil para se ganhar dinheiro tem que vender bastante mesmo. Mas o importante é que esse história de sobrevivência e aventura foi registrada a tempo, pois consegui me lembrar da maioria das coisas que aconteceram antes, durante e depois dos surtos. É um engano acreditar que todos os portadores esqueçam dos fatos ocorridos durante os surtos, pois o que acontece é que ficamos fora da realidade, e não desmemoriados. Não perdemos o raciocínio, apenas pensamos baseados na realidade que se apresenta em nossa mente.
    Creio que vou ficar mais algum tempo no abrigo, ou nas ruas. Mas tenho que fazer isso. Já estou cansado desta vida. Parece que é uma vida boa, andar por ai sem destino, sem ninguém para nos mandar fazer isso ou aquilo. Mas tem a questão da higiene, do sono, da violência. Como costumo ficar praticamente 23 horas no dia no local onde moro, tenho que ficar mais um tempo nas ruas e comprar o restante do que quero ter. Não adianta nada morar em um quarto e não ter nada o que fazer. Acho que provavelmente piraria se fizesse isso.
    Morar no abrigo é a melhor opção no momento. Dá para ficar no parque durante o dia, que é muito tranquilo e cercado por enormes árvores, e de manhã o canto dos pássaros é um bom calmante.
    Às vezes, um cara do albergue, que afirma ter nascido na Nigéria vem conversar comigo. Ele é psicótico também, mas não é agressivo. Vive fazendo previsões de catástrofes, e diz algumas coisas sem sentido, mas ele não me incomoda, a não ser quando estou querendo ouvir música. Gravei um pouco de suas previsões, claro que, por motivos óbvios não gravei seu rosto, gravei o vídeo com a câmera do celular virada para o alto. Acho uma falta de ética e consideração gravar uma pessoa que não está em plenas faculdades mentais.
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    E tem também o Chimbinha, um cachorro vira latas que mora no parque. Fiz apenas um carinho nele e agora não desgruda de mim. Não me deixa brincar com os outros cachorros e rosna quando alguém se aproxima de mim. No final da tarde ele me acompanha até a saída do parque, e para no portão. Ele fica me olhando, como se perguntasse se eu não o poderia levar para onde moro. Mas, por causa do barulho dos carros, acaba entrando novamente para o parque.
   Se pudesse, adotaria o Chimbinha. Ele é negro e vira lata, mas não sou preconceituoso e nem racista.
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essa "torcedora" afirmou que xingou um jogador de macaco por que estava com raiva...



então ela já anda nervosa há um bom tempo...


quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Haldol


     Hoje irei falar sobre a minha experiência com um dos antipsicóticos mais polêmicos usados no controle da esquizofrenia(aliás, todo antipsicótico gera polêmicas, não existindo uma unanimidade).
    Trata-se do haloperidol, mais popularmente conhecido com haldol. Afinal, ele é bom ou ruim? Faz tanto mal assim? Não sou fã do control v + control c, mas ai vai um pouquinho da história desse medicamento:

    "Foi desenvolvido em 1957 pela companhia belga Janssen Farmacêutica e submetido ao primeiro teste clínico na Bélgica no mesmo ano.3 Foi aprovado para uso pelo Food and Drug Administration em 12 de abril de 1967. O haloperidol tem como mecanismo de ação o bloqueio seletivo do sistema nervoso central, atingindo por competição os receptores dopaminérgicos pós-sinápticos. É, portanto, um bloqueador do receptor D2 da dopamina.4 O aumento da troca de dopaminas no cérebro produz o efeito antipsicótico. O pró-fármaco decanoato de haloperidol, libera lentamente o haloperidol de seu veículo. Em consequência do bloqueio dos receptores de dopamina ocorrem efeitos motores extrapiramidais no paciente."
-Fonte: wikipedia.
-obs: como sempre, a ação do medicamento é o tal do bloqueio da dopamina. Se pegarmos os medicamentos atuais, a história é a mesma... Será que estamos no caminho certo?

    Bem, ele me foi apresentado no ano de 2003, depois de haver tentado por um tempo o melleril, que me deu uma reação adversa bem estranha: na hora do orgasmo sentia prazer normalmente, mas não saia nenhum líquido seminal, a não ser o transparente, que é produzindo naturalmente pelo homem e serve como lubrificante. Com receio de que me pudesse causar problemas mais sérios no meu "brinquedo", resolvi parar com este medicamento. Como já disse várias vezes, depois desse meu primeiro surto eu estava relativamente bem na parte mental e super disposto fisicamente. Foram quatro meses fora da realidade nas ruas e br's de Belo Horizonte. Precisava mais de orientações e informações do que propriamente de medicamentos. Mas a minha primeira consulta foi frustrante e não demorou não mais do que dez minutos. Sai praticamente diagnosticado e com a receita na mão.
    Provavelmente devo ter tomado uma dose de 25mg de melleril, pois não me sentia muito dopado quando o tomava. No primeiro dia tomei um comprimido logo na parte da tarde, assim que saí do consultório. Tinha em mente a esperança que aquela pílula fosse mágica e faria desaparecer todos os meus problemas de origem mental.
    Estava me sentindo muito bem, ser ajudado por tantas pessoas foi o verdadeiro e melhor remédio para sumir com os inimigos que estavam em minha mente. Fui tanto ajudado que cheguei a pensar que o meu caso tivesse sido divulgado na tv ou no rádio. Engordei vinte quilos em um mês. Até que me senti um pouco melhor tomando o melleril, mas creio que o efeito foi psicológico, era como se estivesse tomando placebo. Mas, orientação e informação não tive nenhuma naquela época.
    Então, com medo de que o melleril prejudicasse o meu "brinquedinho", resolvi partir para o haldol, que me foi indicado pelo psiquiatra.  Me lembro que, nos primeiros dias, sentia uma enorme necessidade de ficar andando sem parar. Como estava morando nas ruas, aquilo até certo ponto foi positivo, pois tinha que me deslocar bastante para tomar café, almoçar, tomar banho e achar um lugar tranquilo para dormir. Com o tempo fui descobrindo os "points" ou bocas de rango do pessoal de rua. Belo Horizonte tem muitos lugares para acolher as pessoas que precisam de ajuda, e, claro que neste meio entram algumas pessoas que se acomodam com a situação e nem pensam em procurar um trabalho.
a acatisia atrapalha o sono, deixando nossas pernas inquietas

    Certa noite, na hora de dormir, senti vontade de fazer flexões de braço. Pensava que a minha saúde estava melhorando e que estava ficando forte. Mas, com o tempo a sensação nos músculos foi se tornando bem desagradável, me deixando bastante agoniado. Confesso que dava vontade de chorar. Ora sentia vontade de andar,e, logo depois sentia necessidade de me deitar um pouco. E ficava assim o dia inteiro.
      Quando a sensação atingiu limites insuportáveis, resolvi ir até o hospital Raul Soares:
    -"Tô sentindo um negócio esquisito nos músculos"... disse, mostrando os braços.
    - Você está com vontade de andar sem parar? - me perguntou o psiquiatra.
    - Isso! - disse, num misto de surpresa e espanto, por ele ter "adivinhado" o que eu estava sentindo.
    Ele foi bem mais atencioso do que o médico com quem eu consultava no posto de saúde do parque municipal. Me explicou que eu estava com uma reação adversa chamada acatisia.
     A partir daí comecei a ler as bulas dos medicamentos, que hoje em dia estão mais acessíveis e fáceis de se ler. Lia antes algumas bulas, acho que por ser um pouco hipocondríaco. Incrível como a esquizofrenia traz alguns sintomas de outras patologias. Realmente existe uma tal de síndrome das pernas inquietas. Vivo em meu mundo, e, depois de estudar um pouco o autismo, fiquei com a sensação de que tenho essa patologia também.
    Então, como estava me sentindo bem, resolvi voltar a trabalhar, mesmo ainda não tendo descoberto um medicamento que me fizesse bem sem me causar reações adversas. Voltei para a cidade onde tive o meu primeiro surto psicótico. Experimentei outros medicamentos por lá, mas todos sem sucesso, pois eu tinha que trabalhar, acordar cedo e, nos finais de semana tinha que trabalhar até o sol raiar.
    Certa vez, em uma terapia, a psicóloga conseguiu me convencer que o haldol injetável era melhor do que em drágeas. Como já disse, sou hipocondríaco e gosto de tomar vacinas e injeções, ficando até chateado quando não ganho a vacina contra a gripe. Não fiz objeções e enfermeira então me aplicou o haldol e fui para casa. Não demorou muito e a inquietude começou a me atacar. Era cinco minutos andando sem parar intercalados com cinco minutos de descanso na cama. Chegava a ser desesperador, e não tinha ninguém para conversar sobre aquela coisa estranha que estava sentindo. Não tinha a mínima noção do que fazer, e o atendimento na unidade de saúde era péssimo e a consulta não demorava mais do que cinco minutos. A única coisa que sabia era que o efeito durava um mês.
    Esses dias, além de terríveis, pareciam intermináveis. Não conseguia trabalhar de noite como operador de som. Tinha muito sono e dormia na tampa  da mesa de som, durante o show. Antes, até sem tomar os medicamentos eu chegava a tirar uma soneca, para estar mais disposto na hora de desmontar o som, depois do evento.
    O que eu penso é que os medicamentos modernos tem os mesmos efeitos do que os antigos. É o lance da captação da dopamina, como sempre. Leia a bula de um medicamento dos anos 50 e um moderno. A diferença é que os modernos são bem mais tolerados e tem menos reações adversas. Me pergunto se um dia será criado um medicamento que só atue na parte mental sem influenciar no rendimento físico. No dia que isso acontecer, ai sim será uma grande evolução. Os medicamentos atuais são apenas uma lobotomia química. A diferença da lobotomia antiga é que, se pararmos de tomar os medicamentos, dá para voltar ao que éramos antes.
      Mas, voltando ao assunto, foi um alívio e tanto depois que esses trinta dias se passaram. A psicóloga me disse que havia se esquecido de passar o biperideno para mim. Esse medicamento serve para diminuir os efeitos colaterais do haldol. Ela também me disse que a esposa do dono da firma havia telefonado para o centro de saúde mental, para saber o que estava acontecendo comigo. Só sei que, a partir desse dia, haldol nunca mais!
    Agora, me pergunto, como um psicóloga pode esquecer o biperideno? Se o haldol já é ruim com ele, imaginem sem? Uma psicóloga pode receitar ou indicar injeções? Eu não estava em crise e nunca fui agressivo, então por que aquele tipo de experiência? Ainda mais uma que dura trinta dias...
    Outra coisa que não consigo entender é o motivo dos profissionais da área de saúde mental aplicarem medicamentos injetáveis pela primeira vez em um paciente. Se o efeito dura um mês, não seria mais prudente começar com comprimidos para se certificar se não haverá reações adversas?
   Creio que o medicamento injetável possa ser uma boa se a pessoa já estiver adaptada aos componentes do mesmo. Acho que o estômago e o fígado irão agradecer... Agora, experiências em que o efeito dure trinta dias não sei se é uma boa não... Mas, acho que eles não ligam muito para isso, quem sofre é o paciente mesmo. E haja paciência para ficar um mês impregnado com o haldol, por exemplo.
   Já disse que as minhas experiências com as psicólogas não foram muito frutíferas, para falar a verdade não me ajudaram em nada. Não sou contra a terapia, tem gente que se beneficia com ela. Sou contra os maus profissionais que existem em todas as áreas, e na saúde mental não é diferente.
   Creio que a informação e o esclarecimento são de fundamental importância no combate à esquizofrenia. Os técnicos de futebol estudam os adversários para vencê-los. Nós, os portadores e esquizofrenia temos que fazer a mesma coisa em relação à patologia da mente dividida. Se os profissionais, não sei por qual motivo, não querem nos orientar e informar, então façamos isso por conta própria. A internet pode ser usada tanto para o bem como para o mal, tudo depende de nós mesmos.
os antipsicóticos atrasam a ejaculação ou...
     Já ouvi um psiquiatra dizer que os antipsicóticos atrasam a ejaculação. Não é bem isso, tira a líbido mesmo. Alguns mais, outros menos, tudo dependendo da dose também. Se só atrasassem a ejaculação, então por que não usam esses medicamentos para a ejaculação precoce? Já que são "ótimos" e quase sem efeitos colaterais?
    Não estou aconselhando ninguém a parar com os medicamentos. Recebo algumas críticas por falar mal desses remédios. Mas, no meu caso, nem com viagra e com todas as garrafadas do nordeste o "briquedo" funciona. Se eu tomar, as paranoias e outros pensamentos somem, mas, juntamente com eles somem um monte de coisas, inclusive a vontade de viver.
   Usar ou não os medicamentos ou diminuir a dose ou até então tentar outra alternativa, vai de acordo com cada um, de suas condições financeiras, etc. Mas todos devem se conhecer bem o bastante e avaliar os prós e os contras de suas decisões.
    Para finalizar, não condeno totalmente o haldol, conheço algumas pessoas que se deram bem com ele. Acho que 90% das pessoas que eu perguntei disseram que não gostam do medicamento, mas cada organismo reage de uma maneira diferente aos componentes da fórmula. O negócio é tentar, tentar e tentar. Mas que é haldol é quase uma unanimidade negativa, isso é...


sábado, 23 de agosto de 2014

Minha vida é um video game?

   
Como disse no post anterior, o esquizo aqui não aguentou a correria e o stress da megalópole paulista. Minha mania de perseguição havia atingido índices perigosos. Não importando o lugar onde estivesse, sentia-me observado, e que queriam me prejudicar.
    No albergue, durante as refeições, chegava a ficar olhando os pedaços de carne que eram servidos às pessoas que estavam na minha frente. Quando ganhava um pedaço menor do que a galera, logo pensava que o pessoal da cozinha estava fazendo um complô contra a minha pessoa:
    - "Deem o menor pedaço para o mineiro"- era a ordem que eu pensava que fosse dita aos funcionários.
    O negócio é complicado, chegava até a observar se estavam colocando algo em minha comida...
    No centro então, a situação ficava crítica. chegando a quase entrar em pânico certa vez. Andar de metrô, nem pensar. O jeito foi mesmo me retirar em parques e bibliotecas públicas, depois que quase fui assaltado. Mas até mesmo na solidão dos parques me sentia vigiado. E até tinha um pouco de razão nisso, pois os guardas municipais fazem o seu trabalho. Apesar de não usar drogas e ser um correto cidadão, a presença da polícia me incomoda um pouco, ao mesmo tempo que me dá uma certa sensação de segurança. Quando morava em Ipatinga, perto da crackolândia, depois que essa droga tomou conta do lugar, me sentia duplamente perseguido: ora imaginava que os traficantes pensassem que eu era quem os denunciava, pelo fato de não usar drogas. Por outro lado, tinha a quase certeza de que a polícia tinha a certeza absoluta que eu era um traficante. Ou seja, estava, em minha imaginação, cercado pelos dois lados.
    Na biblioteca lia alguns livros no notebook e, às vezes jogava calheiros do zodíaco. Apesar de permanecer em silêncio e me comportar adequadamente, pensava que os funcionários não gostavam muito de minha presença.
    Na hora de dormir, não me sentia à vontade. Os beliches do segundo albergue que fiquei são bem próximos uns dos outros. E parecia que estava na ala dos roncadores. Eram roncos dos mais variados estilos e tons. Parecia uma sinfonia, e, para piorar, são os roncadores é que conseguem geralmente pegar no sono primeiro. .
    Outra coisa que me incomodava bastante na megalópole é que os preços também são megas. Sentia-me assaltado toda vez que comprava algo e sempre me lembrava das padarias e sacolões de Belo Horizonte.
    Enfim, não conseguia ficar sozinho um minuto sequer, e isso é quase uma necessidade para mim. E um dia o caldo entornou, quando o metrô apresentou um pequeno defeito e ficou parado por cerca de cinco minutos. Ao sair da estação, não aguentei: falei alguns palavrões e rasguei um cartaz que estava no mural.
    O segundo albergue que fiquei em São Paulo é bem simples, e deve abrigar umas duzentas pessoas, entre homens, mulheres e crianças. No arsenal da esperança, as coisas eram diferentes. Por ser muito grande, era como também se estivéssemos em uma grande cidade. Quase não conversava com os outros usuários e a relação com os funcionários era profissional mesmo, parece que eram recomendados a não terem muita intimidade com a galera. Já no segundo albergue, pelo fato de ser menor, havia bastante diálogo entre os funcionários e os usuários. Chegava a conversar com poucas pessoas. Não me considero nem melhor nem pior do que os outros abrigados, mas não faço muita questão de conversar com pessoas que adotam o funk como estilo de música predileto.
    Então, depois do stress no metrô vi que era hora de voltar para Belo Horizonte. Poderia pirar a qualquer momento se continuasse naquela situação. O dia da despedida foi difícil, como sempre. Aliás, não me despedi de ninguém, não gosto muito, acho muito triste dar adeus para as pessoas. Notei que algumas pessoas ficaram tristes ao me ver com a mochila nas costas.
    Me surpreendi quando percebi que alguns usuários pediram para permanecer um pouco mais de tempo na casa. Alguns funcionários perguntaram:
    - Mas já vai?
    É que o meu prazo na casa ainda não havia se encerrado, e ainda poderia permanecer por mais dois meses. Tinha caras que estavam lá há mais de um ano. Em minha paranoica mente, todo mundo detestava o esquizo caladão e sério. Mas, analisando os fatos, eu fui um bom albergado, me comportando exemplarmente. Não tive sérios atritos, só pequenos perrengues mesmo. O ato de conviver com as pessoas é muito difícil para mim, mas consegui levar numa boa esse tempo todo que fiquei morando com várias pessoas em um mesmo local. Tive alguns perrengues com alguns corinthianos, que são muito fanáticos e não toleram zoação, que, para mim é o que resta fazer desse atual e pobre futebol brasileiro.
    Foi uma decisão difícil essa de voltar para Belo Horizonte. Em São Paulo deve ter uns vinte albergues. Já na capital mineira, apenas dois. Um é o tia Branca, que deve abrigar umas quinhentas pessoas. Mas lá o negócio costuma ficar tenso durante a noite, ocorrendo algumas brigas. Tem um outro abrigo menor, que é relativamente tranquilo, mas não tinha certeza se seria acolhido novamente, pois estive no ano passado por lá. Caso não fosse aceito,  teria que voltar a morar na minha barraca e carregar a mochila nas costas todos os dias, até conseguir a grana para concluir o meu projeto.
    Depois de alguns dias refletindo, cheguei a conclusão de que não dava mesmo para continuar em Sampa. Mas não é uma crítica à cidade, apenas ela não tem as características mas adequadas à minha pessoa. Não é para mim toda aquela agitação, e creio que tive a tal da síndrome do estrangeiro. Não precisa estar em um outro país para ter esta síndrome. A pessoa pode não se sentir bem em casa, na escola, no trabalho, etc. Sou grato à esta cidade, pois foi nela que consegui finalmente quitar os meus empréstimos e concluir a primeira parte do projeto, que é comprar um notebook.
A viagem
    Comprei a passagem de volta para o horário das 22:45hs, assim estaria em "Beuzonte" por volta das sete da manhã. Cheguei na rodoviária por volta das cinco da tarde! Preguei alguns panfletos do blog em torno do terminal tietê e entrei. Tentei dormir um pouco, mas, nos auto falantes o cara não parava de dar avisos sobre horários e também alertava as pessoas a tomarem cuidado com os seus pertences. O pior é que ele repetia tudo em espanhol e depois em inglês. O jeito foi dar algumas voltas, pois o terminal é bem grande. Consegui encontrar uma deliciosa canjica geladinha, que me fez sentir em Minas Gerais. O preço é que me remetia de volta para São Paulo: cinco reais um copinho!
    A viagem não foi tranquila. Havia uns dez nordestinos que não paravam de falar e contar piadas. Não tenho nada contra os nordestinos, muito pelo contrário, mas, depois das dez horas da noite, o silêncio é bem vindo, ainda mais em uma cansativa viagem. No ônibus também vieram dois caras que falavam francês, deviam ser haitianos que estavam no Acre.
    Na chegada, a primeira coisa que fiz foi comprar um pão de queijo e o tradicional cafezinho. Além de estarem deliciosos, o preço era razoável. Já na saída da rodoviária, logo senti a diferença da qualidade do ar. Respirei profundamente por diversas vezes. Foi uma sensação muito boa, fazendo com que eu me perguntasse se a qualidade do ar não chega a interferir no raciocínio das pessoas, pois me senti bem mais tranquilo e disposto. Em São Paulo o clima estava quase desértico, e a umidade do ar na capital mineira naquele dia estava girando em torno dos 60%.
    Era como se estivesse voltando de uma grande batalha. E a tinha vencido! Consegui ficar oito meses na agitada São Paulo, sem maiores problemas. A sensação é que minha vida é um jogo de video game. Tenho que passar por fases e ganhar créditos para alcançar o meu objetivo. É preciso muita paciência e uma certa inteligência neste jogo, pois não é nada fácil conviver com muitas pessoas em um albergue, pois cada um chega lá com os seus problemas, e a situação às vezes chega a ficar tensa. Não são raros os roubos de celulares e dinheiro.
    Algumas pessoas podem pensar que eu seja um vagabundo por não trabalhar, mas, se hoje estou aposentado, é por que trabalhei bastante em minha vida e procurei sempre ser uma pessoa correta.
Permanecer em São Paulo por tanto tempo foi difícil, não por causa da cidade em si, e sim por causa das minhas paranoias e medos. Era com se estivesse vencido a mim mesmo. Às vezes o nosso maior adversário é a gente mesmo.

    Mas ainda a luta não acabou. Fui aceito novamente no abrigo, mas não sei por quanto tempo. Ainda não conversei com a assistente social e talvez outras pessoas precisem da vaga. Mas, mesmo que tiver que voltar a morar na barraca não vou desistir de terminar  a segunda parte do projeto: comprar uma tv lcd e um home theather, além de um frigobar. Assim, estarei até em uma situação melhor do que há mais de um ano atrás, quando morava em Ipatinga, pois lá a tv que tinha era de tubo e o home theather não era muito bom.
    Mas, além disso, o que ganhei de aprendizado e vivências nestas andanças não tem preço. Foi tão bom andar por ai pelas estradas de Minas que vou continuar com este projeto. Muitos não entendem o motivo de sair andando pelo mato, só com a barraca e a mochila, mas só quem gosta desse contato com a natureza é que sabe do que estou dizendo. Não tem como achar as palavras para explicar.
    Me sinto em casa na cidade onde nasci. Não sou uma unanimidade, não sou uma simpatia de pessoa. Sei que muitas pessoas não gostam muito do meu jeito de ser, mas isso não me importa, quem tem que gostar ou não sou eu mesmo. Aprendi com a vida que não podemos agradar a todos se formos verdadeiros e originais. Aprendi na prática que não podemos prestar atenção ao que pensam sobre nós.
    É isso ai, estou mais animado. A cada dia conto as horas que faltam para conseguir juntar a  grana, me vejo assistindo uma tv na minha cama, e isso é o que me motiva a não gastar todo o meu dinheiro com comida. Vai ser difícil, mas sei que vou conseguir, não sei o que vem pela frente, mas creio que o mais difícil já passou.