sábado, 24 de janeiro de 2015

Quarto, doce quarto




Meu cantinho
    Depois de cerca de um mês em meu cantinho, pude chegar à conclusão de que tomei a decisão correta para a situação em que me encontrava (no abrigo e nas ruas).
    Estar em um abrigo, sair por ai viajando tem suas vantagens. A principal delas é a de não ter que pagar aluguel, que come praticamente metade do meu salarinho de aposentado. Sobra mais grana, mas falta privacidade, segurança, conforto, e uma séria de outras coisas. E privacidade é um item essencial para um pacato esquizofrênico. Creio que a maioria dos leitores do blog não devam saber como é ruim e desgastante(mentalmente falando) ter que ficar o tempo inteiro vigiando o celular enquanto o mesmo recarregue suas energias (a bateria). No parque ecológico onde eu ficava a maior parte do dia havia um tomada de energia perto do banheiro. E, quando a bateria estava totalmente descarregada, tinha que ficar cerca de três horas olhando para o telefone.
   A primeira coisa que fiz ao chegar ao meu novo quarto foi instalar a antena de TV. Nem foi preciso ficar ajustando a posição da antena para a recepção dos canais. A imagem ficou ótima em todas as emissoras! E fiquei todo bobo, admirando a imagem digital e conhecendo todas as funções do controle remoto. Nos primeiros dias, estava assistindo a tudo o que aparecia pela frente. Quer dizer, quase tudo né? Alguns programas são tão ruins que nem pagando consigo assistir. Mas esse entusiasmo por um simples aparelho é justificável. Fiquei dois anos andando por ai, sem muito conforto. Sou apaixonado por filmes, documentários, shows, etc. E, afinal, era a minha primeira TV digital né? Se é complicado ir à um cinema, então nada mais natural do que ter uma tela razoável para ver os filmes que mais gosto...
    Nesses dois anos de andanças, sempre quando via uma TV, me imaginava confortavelmente deitado na minha cama assistindo um belo filme. Consegui realizar este desejo, e até consegui realizar um outro, que tinha desde criança, que era de me ver na TV. Conectei o cado HDMI do notebook na TV e acessei o meu canal no youtube. Apesar de não ter gostado muito dos meus vídeos, fiquei me vendo pela TV e realizei mais este sonho. rsrsrsrs
    Também tenho um outro desejo, meio bobo, mas tenho: jogar fórmula 1 na TV. Primeiro tenho que comprar o jogo na versão de 2008, pois o note não tem configurações poderosas. Também tenho que comprar um cabo HDMI de uns seis metros, mais ou menos. E ainda tenho que torcer para que o jogo rode no windows 8.1, pois pode aparecer uma incompatibilidade entre o windows e o jogo. Ah! Que saudades do velho e bom windows xp! Esse pessoal da microsoft poderia inventar um sistema operacional idêntico ao xp, só que com o visual renovado. Essa sim seria a versão ideal do windows!
    O aluguel do quarto é um pouco salgado para mim, mas esses e outros "confortos" são necessários: um banheiro mais ou menos limpo, acordar na minha hora biológica e não às quatro da manhã, estar um pouco mais longe do mundo das drogas(nesse mundo em que vivemos, acho que só nas montanhas do Tibet é que não veremos drogas..).  Já estava com saudades de fazer coisas simples como ouvir música, lavar  roupas na hora que quiser sem ter que ficar vigiando-as até que sequem.,tomar a minha vitamina de matinal (leite de soja, gérmen de trigo, aveia, fibras, linhaça). É uma mistureba que não fica muito gostosa não. Bato todos os ingredientes no liquidificador e tomo tudo em uma golada só. Não adianta colocar leite condensado, frutas, etc.., o negócio é ruim de qualquer jeito. Essa vitamina é outra mania que tenho, mas é uma mania saudável. Creio que, se ficar muito tempo sem ela, poderei ter algum problema de saúde qualquer.
    Também me faz bem ficar longe das conversas sobre crimes e assassinatos, que me parece ser o tema preferido de grande parte do pessoal do abrigo em que estava. Mas, o mais importante de tudo, é o fato de estar sozinho em meu canto. Como "bom esquizofrênico" que sou, isso uma necessidade básica. A paz que a solidão me proporciona não tem preço e vale o sacrifício de ter que desembolsar metade do salário em aluguel. Muitos me aconselharam a morar na favela, pois o aluguel é mais barato. Realmente é um pouco mais em conta, tem quartos bons, etc. Mas, sem querer dar uma de preconceituoso, todo mundo sabe que a droga rola solto nas favelas. Não quero generalizar, pois sei que a maioria das pessoas que moram nas favelas são trabalhadoras, e não teria vergonha nenhuma de assumir se morasse em uma. Mas só quero estar um pouco mais longe desse universo das drogas. Não sou uma pessoa sociável, e, talvez os traficantes do lugar poderiam não ir com a minha cara. E também detesto as gírias do mundo das drogas: "cabuloso, caguete, sinistro, papo reto, boi(banheiro), entre outros. Gostaria de salientar que as drogas estão em todas as classe sociais, basta olhar o meu penúltimo post, sobre o brasileiro que morreu no México por mistura drogas com álcool. Essa é a pior maluquice: o cara tinha boas condições financeiras, tinha família, um trabalho, mas precisava das drogas para se divertir. Esse mundo ainda é muito bonito para precisarmos de drogas.

A paz

    Eu encontrava a paz viajando solitariamente pela estrada real e pelo interior de Minas Gerais. Estradas de terra, ar puro, gente simples e hospitaleiro desse estado tão bacana. Mas, apesar de considerar a vida uma viagem sem passagem de volta, não poderia passar o resto dos meus dias nas andanças. A mochila é pesada, e o colchonete não é muito confortável para se dormir. Apesar desses contratempos, dá uma vontade enorme de continuar a jornada pela estrada real. Não saber como será dia seguinte me dá uma energia e alegria de viver fora do comum. Não sei o que acontece, mas acho que isso explica o fato de conseguir andar cerca de 30km com cerca de 11kg nas costas, ora debaixo de chuva, ora debaixo de um forte sol escaldante. Enfim, é um perrengue bom.
    Mas, não bastou um mês em meu cantinho para que o tédio novamente se instalasse em minha vida. Nada de conhecer lugares novos e diferentes, só saio do meu quartel general para almoçar e já volto correndo. Hoje mesmo(sábado 24/11) aconteceu algo simples, mas que foi meio que trágico para mim. Por volta do meio dia, sai para pegar o marmitex e um bolo. Quando estou bem, não ouço vozes, mas tenho a chata sensação de que todos estão olhando para mim. Então ando apressado e, quando estou há um quarteirão de casa, a sacola de plástico rasga e o marmitex cai no chão, espalhando a comida pela rua. Ai fiquei num dilema: volto ou não volto? Poderia pegar um salgadinho no bar perto de casa e assim voltar para o quarto. Mas penso na minha saúde e então decido voltar ao restaurante e pegar um outro marmitex. O dono do estabelecimento foi compreensivo e me deixou pegar um outro sem pagar, ao ver a sacola rasgada(essas sacolas de hoje em dia não aguentam nada).
    Mas esse simples acontecimento foi quase uma tragédia para mim, estava quase no meu porto seguro, e tinha que voltar ao contato com a humanidade novamente. Juro que a última coisa que pensei foi no fato de ter que pagar um outro marmitex...
o que corrói é o tédio...


    Minha vida agora se resume em assistir TV, ficar no PC, escrever alguma coisa, e não muito mais do que isso. No meu quarto consigo relaxar todos os meus músculos e respirar com tranquilidade. Esses pensamentos de perseguição acabam se refletindo no corpo, ficamos tensos, com a musculatura travada. É um alívio e tanto quando chego ao meu cantinho. Chego á pensar em fazer alguma atividade, até email para a cruz vermelha eu mandei. Quero ocupar a minha mente, pois sei que essa é uma das melhores terapias para várias situações de quem tem algum tipo de transtorno mental. Mas a passagem de ônibus é cara, não dá para ficar quase todo dia passeando de ônibus pela cidade. Queria tentar algo, ser voluntário na cruz vermelha, fazer alguns cursos, sei lá... Mas, já fiz as contas, e o meu orçamento não dá para fazer essas coisas que penso em realizar.
    Infelizmente na capital mineira os portadores de esquizofrenia dificilmente conseguem o passe livre. Em São Paulo percebi que muitos portadores conseguem o bilhete único especial. Quando morei em Ipatinga, consegui esse direito sem maiores burocracias.
    Não sei o motivo, mas percebo que poucas pessoas se preocupam com esse fato aqui em Belo Horizonte. Creio que o passe livre é uma ajuda e tanto para melhorar a qualidade de vida do portador de esquizofrenia. Os "Cersam's" fornecem o vale transporte para quem está fazendo o tratamento nestes locais. Mas a terapia e o tratamento consiste somente em ir à esses lugares, tomar os remédios, almoçar e ficar por lá o dia inteiro, sem fazer nada? Quais são as chances de melhora?
    Mas é isso, talvez alguém possa ter sugerido: " por que esse cara não arruma um serviço e não para de ficar reclamando da vida?" Infelizmente as coisas não são tão simples assim, se estivesse em  condições de trabalhar, eu estaria fazendo isso numa boa. A minha esquizofrenia não tem meio termo: ou são as alucinações, surtos etc, ou então são os sintomas negativos. Um ou outro momento eu me sinto bem fisicamente e mais animado. Mas, no geral, neste momento da minha vida, a apatia e o desânimo tomam conta da minha mente. Se pudesse, estaria trabalhando como operador de som, viajando e trabalhando nas festas. Era isso o que eu mais gostava, e não era somente um trabalho, era a minha diversão e alegria também.
    Como disse, o que pesa hoje são os sintomas negativos. Garanto que ninguém irá me ver em um show, me divertindo e dançando. Já tentei alguns antidepressivos, mas sem muito sucesso. Já até tentei usar a canela para tentar curar uma possível depressão, mas também em vão. O que aconteceu é que fiquei nervoso pra caramba com a ingestão desse condimento. Acho que a canela acelera o metabolismo, ou aumenta a pressão, sei lá.
    Em São Paulo, o médico me convenceu a usar a risperidona para esse caso. Até que nos dois primeiros dias fiquei bem mais animado e alegre, chegando a pensar que se tratava de um milagre da medicina contemporânea. Comecei a fazer musculação com prazer e até pensei em jogar futebol no abrigo arsenal da esperança. Mas, no terceiro dia, a moleza e o desânimo voltaram. Analisei a situação, e cheguei à conclusão de que o ânimo inicial foi motivado pelo excesso no consumo de carboidratos, devido a imensa sensação de fome que a risperidona nos dá. Engordei dois quilos e menos de uma semana e desisti de continuar com este medicamento, apesar de estar meio agitado por ainda não ter me adaptado à capital paulista. Se tivesse continuado, nunca iria conseguir comprar o TV, nem o note  e nem o home theather, pois gastaria todo o meu pagamento com besteiras.
    Mas, voltando à minha vidinha atual, é isso. Cada dia é uma luta, apesar de não aparentar ser. Às vezes chego a cogitar a nem ir almoçar e ir no barzinho em frente e comer qualquer coisa. Mas sei que, se fizer isso, poderei entrar em um caminho sem volta, pois poderei ficar debilitado e com o ânimo cada vez menor para realizar as atividades, como, por exemplo, voltar a fazer exercícios físicos. Todo dia, de manhã, tenho que encontrar forças e motivação para seguir em frente, à procura de algo que, se pelo menos não acabe, diminua significativamente esses sintomas negativos. Não tenho muito esperança na ciência à curto prazo. Talvez surja um medicamento com promessas, mas, os efeitos colaterais são sempre complicados.
    Confesso que já cheguei a pensar a fazer sessões de ECT. "Quem sabe se eu levar alguns "choquinhos" na caixola eu não fique mais animado?" - é o que chego a me perguntar algumas vezes.
Mas, não entendo nada desse tipo de tratamento, mas dizem que atualmente ele é menos agressivo. O máximo que fiz foi perguntar  a quem fez esse tratamento sobre os efeitos, e alguns relataram que se sentiram bem, em relação às paranoias e pensamentos, mas que tiveram a memória um pouco prejudicada. Ai é complicado... Creio que o maior desafio dos pesquisadores não seja controlar os sintomas da esquizofrenia, e sim criar tratamentos que não causem tantos danos, principalmente na parte física e biológica do ser humano.
    Penso em voltar a tomar a sertralina novamente, mas o atendimento no Cersam é tão complicado e dificultam tanto as coisas que já fico mais desanimado ainda só de pensar que tenho que voltar naquele lugar. Demorei cerca de um mês para apenas trocar uma medicação, pois o clínico geral que consulto regularmente não se acha na condição para tal coisa. E acho essa atitude louvável a do clínico, ter a humildade e reconhecer que não tem o conhecimento suficiente para receitar medicamentos para um psicótico, mesmo que este esteja apresentando um certo grau de lucidez. Talvez eu devesse mudar o nome do blog para Reclamações de um esquizofrênico, mas o que eu só quero é um simples diálogo com os psiquiatras quando vou conversar quando mais preciso. Já tive a oportunidade de me consultar com psiquiatras que são bons ouvintes, mas, na hora que mais precisava, nos momentos em que estava prestes a entrar em uma crise, infelizmente esses bons psiquiatras não apareciam. Infelizmente grande parte desses profissionais criam uma distância enorme entre eles e o paciente, e  pensam que a consulta é uma via de mão única, ou seja, quem dita as regras do tratamento são eles, de nada adiantando a opinião de quem está sendo atendido.
    Assim está a minha vida. Não fico parado, sentado, à espera de um milagre, e que, de uma hora para outra os cientistas apareçam com a cura da esquizofrenia em sua totalidade, ou seja, a cura dos sintomas positivos como dos negativos. Procuro pesquisar, testar alimentos, atividades, qualquer coisa que me faça ter um sentido para a vida, o que é de vital importância para uma melhora em uma possível depressão.
 

-obs: está chovendo enquanto escrevo o post. Esse é um conforto que queria desfrutar desde o dia em que me mudei(25/12/2014). Como era ruim quando chovia quando estava na rua! A primeira coisa que pensava era em um quartinho e em uma TV. Mas, depois que me mudei para o quarto, não choveu mais em Belo Horizonte(pelo menos na minha região). Cheguei até a pensar que o Criador também estava me perseguindo...

sábado, 17 de janeiro de 2015

Que droga de droga!!!

o brasileiro que foi encontrado morto no México
    Creio que a maioria dos leitores do blog estão por dentro do assunto que irei tratar neste post, que é sobre o brasileiro que foi encontrado morto no último dia 11 de janeiro, no México.
    O cara da foto é o paranaense Dealberto Jorge Silva, engenheiro e que foi até o país da tequila para o casamento de um amigo e se divertir. Depois ficou por lá para assistir um festival de música e tomar umas tequilas e mais "algumas coisas".
    A princípio, a suspeita era de sequestro, devido à última mensagem que ele passou. Vejam e ouçam a reportagem com o diálogo dele no vídeo abaixo:
video

    Dias depois, uma russa, que estava em sua companhia na noite do seu desaparecimento, afirmou que o cara havia feito uso de drogas e álcool. Bem, se observamos o diálogo em sua última mensagem, dá para perceber que ele estava bem agitado e ofegante. E o seu diálogo parecia um pouco confuso:
    - "Está todo mundo me olhando...".
    - Estou sendo seguido pela irmã da russa..."
    - "Deu coisa estranha, muito estranha..."
    Ele pediu para chamar a polícia federal e em uma outra mensagem para uma outra pessoa, afirmou que ou seria preso ou seria morto.
    Bem, se observarmos as mensagens, podemos, não com muita dificuldade, constatar que o cara estava muito agitado, mas não por causa de um possível sequestro. Como ela havia usado ecstasy com álcool, provavelmente teve paranoias e mania de perseguição, causadas por essas substâncias.
    Posso dizer isso com certa propriedade, pois, infelizmente sou expert em mania de perseguição e paranoias. A diferença para o cara que morreu no México é que não uso drogas e tampouco pedi para ser assim. Mas isto é um outro assunto. Logo constatei que o cara estava paranoico quando disse: "Está todo mundo olhando para mim."
    Era isso o que eu sentia nos surtos. Ainda sinto isso, mas posso dizer que já me acostumei com esta situação. Mas, nos primeiros surtos e na fase aguda, quase tive o mesmo fim do paranaense. Também cheguei a pedir a proteção da polícia. Fui até uma delegacia e disse para um policial que havia um monte de gente querendo me pegar. O "homem da lei" não deu muita importância ao que havia dito e continuou  sentado na cadeira lendo o seu jornal. E então tive que prosseguir a minha desesperada fuga dos meus inimigos imaginários que só estavam em minha mente.
    Acho que 99% das pessoas adultas sabem que as drogas causam paranoias e outros transtornos mentais. Até um "simples baseado" pode causar esses sintomas. Muitas pessoas argumentam:
" A maconha relaxa, como uma erva natural pode fazer mal à saúde?" Bem, o que não falta por ai são plantas e ervas venenosas e letais. Até a água mata. Se uma pessoa usa o ecstasy, ela fica eufórica e não para um minuto sequer de dançar, e ainda ocorre algumas reações no organismo que leva a pessoa a se desidratar rapidamente. Então o usuário ingere muita água, e, como o ecstasy retem  líquidos no organismo. a pessoa pode morrer por intoxicação por água.
    Conheço pessoas que hoje em dia tomam antipsicóticos e que afirmaram que começaram a ter os sintomas da esquizofrenia depois que passaram a usar a maconha. Mas também conheço pessoas que usam a erva e que aparentemente estão normais. Os hippies são um exemplo disso. Digo os verdadeiros hippies, e não simples artesãos.  Não me lembro de ter visto algum hippie roubando por causa do vício em maconha. Eles se sustentam e sustentam o vício com o próprio trabalho. Talvez isso varie de pessoa para pessoa, você quer provar para comprovar se tem a tendência ou não a desenvolver paranoias com o uso da erva?
   Eu não quero, e também não preciso de drogas. Não tenho vergonha de dizer que sou um careta. Nesses últimos anos, convivi com muitos usuários de drogas, quando passei a ficar um tempo em abrigos. Grande parte dos albergados são usuários de drogas, que não conseguem se livrar do vício. Outros já não ligam para nada mesmo e não querem nem saber de trabalhar: "Pra que trabalhar? Gasto tudo nas drogas mesmo..." Já cheguei a ouvir este argumento de um usuário de crack.
    Os caras que usam drogas chegam a ridicularizar quem é careta. A verdade é que eles precisam de algo para escapar deste mundo, por pelo menos alguns segundos. Eu não preciso disso, sou careta e procuro enfrentar o mundo de cara mesmo, se bem que atualmente prefiro ficar no meu quarto mesmo.
    As drogas estão em todas as classes sociais, o cara que morreu no México é um exemplo. Engenheiro, empresário, tinha grana para se divertir em lugares bacanas. Mas o que essas pessoas querem, afinal? Sinceramente não sei o motivo desse vazio interior, essa busca por algo que não sei explicar o que é, pois nunca tive vontade de usar essas drogas.
 
Consequências do ecstasy 

    -O ecstasy também pode desencadear problemas psiquiátricos, como quadros esquizofreniformes (formas de loucura), pânico (estados de alerta intenso, com medo e agitação) e depressão. Esses problemas têm maior ou menor probabilidade de ocorrer, dependendo das características da pessoa, do momento de sua vida, da frequência e do contexto de uso

    -Os efeitos positivos são as sensações de descontração, de proximidade do outro. O uso esporádico não teria problema, em princípio, não fossem as reações físicas de desidratação e hiperatividade, que podem levar à morte súbita mesmo o usuário ocasional. É como se o organismo passasse a funcionar em velocidade acelerada, daí a desidratação intensa de que o indivíduo não se dá conta por não sentir sede. Do ponto de vista dos efeitos psíquicos, no usuário ocasional (frequência menor do que uma vez por semana), eles não estão presentes. Quanto mais aumenta a frequência de uso, surgem os efeitos negativos que vão de um quadro de ansiedade ou pânico à depressão; algumas pessoas têm paranoia, insônia.

    -Estudos realizados em humanos consumidores dessa droga comprovam a perda da atividade serotoninérgica, que leva seu usuário a apresentar perturbações mentais e comportamentais, como dificuldade de memória, tanto verbal como visual, dificuldade de tomar decisões, ataques de pânico, depressão profunda, paranoias, alucinações, despersonalização, impulsividade, perda do autocontrole e morte súbita por colapso cardiovascular.
   
     Depois de constatar os malefícios do ecstasy, não fica difícil de se chegar à conclusão de que o que aconteceu com o brasileiro no México foi um lamentável acidente causado pelo uso de drogas e álcool. Podemos descartar a tentativa de sequestro e alguma possível desavença com algum traficante, apesar de que no México a situação também está complicada nesta questão. 
    Confesso que às vezes agradeço por ter nascido "meio maluquinho" e não precisar de drogas para aguentar as pancadas que a vida nos dá.

-obs: acabo de escrever este post,  sábado, dia 17. Quando olho para o relógio do pc, vejo que são cinco horas em ponto. Exatamente à 26 minutos atrás, é noticiado que um brasileiro foi executado na Indonésia por causa do tráfico de drogas. Não estou querendo entra no mérito da questão, se essa condenação é justa ou não, mas que a droga é uma droga, todo mundo já sabe...




-Música: "O careta"
- Artista: Roberto Carlos

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Esquizofrenia não é só esquizofrenia


    Antes de começar o post, gostaria de esclarecer novamente que não tenho aqui e em lugar nenhum de definir o que é esquizofrenia e tampouco mostrar o caminho para se livrar desse transtorno.
    Não sou formado em psicologia e nem em psiquiatria, mas o que vivi e passei acredito que me  credenciam para escrever algo sobre o assunto. Além de estudá-lo, infelizmente (ou felizmente?) tenho experiência e prática com a esquizofrenia. Só quem passou e passa por isso sabe do que estou falando.
   Não tenho a solução, apenas posto o que penso e sinto, e creio que isso ajuda de certa forma quem está lidando pela primeira vez com essa questão, seja direta(portador) ou indiretamente (familiares, namorados, patrões, etc).
    Nos grupos do facebook sobre os vários transtornos mentais, pude perceber uma enorme preocupação das pessoas no fato de acharem que tenham esquizofrenia. Vou tentar exemplificar:
    Uma pessoa, em um local público, "cisma" que está sendo observada. De vez em quando ela olha para os lados para tentar constatar se isso realmente corresponde à realidade ou não. Ao perceber que a galera está "pouco se lixando" para ela, continua a fazer normalmente o que estava fazendo antes. Isso é uma cisma, incomoda, é claro, mas não chega a impedir que a pessoa realize algo, como, por exemplo, ir à um shopping ou ao cinema.
    Agora, se a pessoa se incomoda e muito com esse pensamento de que está sendo observada, chegando a ficar tensa, isso já pode ser uma neurose. Por exemplo, o cara está sozinho, comendo uma bela pizza quatro queijos em um shopping. O local está relativamente vazio e ele se sente confortável naquele ambiente. Mas, de repente, as mesas começam a ficam ocupadas por casais e grupos de amigos. A musculatura vai se contraindo, a respiração já não é tão tranquila e serena. A pizza já não está tão atraente e a cerveja já não está descendo redonda. O cara evita olhar para os lados e come apressadamente a pizza. Isso já é uma neurose, é um distúrbio, mas não interfere na atividade do indivíduo e nem o seu raciocínio lógico.
    Agora, outra situação parecida, mas com reação um pouco diferente:
    A pessoa está em um local comendo a mesma pizza deliciosa de quatro queijos e, quando chegam várias pessoas ela começa a ficar tensa, e já começa a cogitar em ir embora. Olha para os lados, e, quando vê as pessoas rindo, tem a certeza absoluta de que o alvo da gozação é ela. Acredita firmemente que estão falando dela, e sua autoestima vai lá pra baixo. Ela tem duas saídas: ou deixa a pizza no prato ou vai embora, pois não sabe quanto tempo vai aguentar aquela situação, correndo o risco de mandar alguém "tomar suco de caju". Ou seja, ela teve a certeza em sua mente de que estavam falando dela, a sua neurose acabou virando realidade e virou uma psicose. Se o indivíduo ouvir comentários a seu respeito e que não foram reais, ai a chance de ser uma esquizofrenia é alta.
    Resolvi falar um pouco sobre isso, pois, devido a falta de informação e ao estigma que a esquizofrenia carrega, muitas pessoas ficam simplesmente apavoradas só de imaginarem que tem a possibilidade de serem esquizofrênicas.

esquiSofrenia?

    Nas redes sociais várias pessoas postam perguntas como a da imagem acima. Mas as coisas não são bem assim. Muita gente tem mana de perseguição, às vezes se sentem o salvador da pátria, outras chegam a conversar sozinhas. O que o esquizofrênico tem, os "os ditos normais" também podem ter, só que em menor grau. ou seja, isso não chega a atrapalhar muito a qualidade de vida do indivíduo, e nem o seu raciocínio e nem a perda do contato com a realidade.

Esquizofrenia não é só "esquizofrenia"
    Antes dos surtos, eu me definia como um cara muito tímido, retraído e com muitos complexos, principalmente de inferioridade. Nada muito além disso. Ia à shows e não reparava em nada além de quem estava se apresentando. Não conseguia me aproximar das garotas, mas saia de casa e me divertia com os meus amigos, principalmente os rockeiros, para demonstrar um pouco da minha rebeldia, pois desde criança já me sentia diferente dos demais. 
    Depois dos surtos e da esquizofrenia ter saído do estado de latência, as coisas começaram a ficar um pouco tensas pro meu lado. 
    Na imagem acima uma pessoa com TOC indaga se esse distúrbio possa ser um indício de esquizofrenia. Não sou psiquiatra para poder dar um diagnóstico, mas, poso dizer que as chances são mínimas, pois ela não relata os sintomas clássicos da patologia da mente dividida que são as alucinações e a mania de perseguição. Mas é sempre bom alertar os pais estarem sempre atentos aos seus filhos, pois a esquizofrenia também é comportamento e pensamento. Hoje em dia quando se vê uma criança agitada logo se fala em hiperatividade e já se fala em medicação. Creio que devem se preocupar mais quando uma criança é por demasia quieta e calada. Eu era assim quando ia na casa de desconhecidos, e isso era confundido com bom comportamento e educação. 
    Mas resolvi criar este post para comentar os diversos comportamentos que adquiri depois dos surtos, e creio que alguns portadores também tenham adquirido. É como se a esquizofrenia levasse a pessoa a ter outros distúrbios mentais. Esses outros distúrbios não são incapacitantes, mas incomodam e muito a vida de quem os tem. 

TOC

    Depois dos surtos fiquei com alguns comportamentos meio chatos. Para resumir, TOC são manias e rituais que uma pessoa acredita que são obrigadas a realizarem, caso contrário, poderá acontecer uma catástrofe ou então "as coisas" não irão dar certo.
    Isso acontece comigo, principalmente no futebol quando acompanho o meu time, seja pela TV ou pelo rádio. Na verdade, não sei nem se posso acompanhar o meu time. Se ele ganha e estou assistindo o jogo, chego à conclusão que ele ganhou por minha causa e então fico confiante para a próxima partida. Mas quando ele não ganha o próximo jogo vem a sensação de ser o pé frio e o causador da derrota, que a minha influência não foi boa para os jogadores. Então resolvo não assistir o próximo jogo. E se ele perde novamente o jogo e eu não estou assistindo, volto a assistir, pois ele perdeu por que eu não estava emitindo as minhas vibrações positivas. Não sei se deu para entender, o negócio é meio complicado mesmo. Até hoje não cheguei à conclusão se devo ou não acompanhar os jogos do meu time (não vou falar qual é). Quem adivinhar o time que eu torço vai ganhar um livro no formato PDF. Não vale dizer quem eu já revelei.
    Essa mania se estende para outros setores da minha vida. Se algo deu certo e funcionou bem, procuro fazer exatamente igual na próxima oportunidade, chegando a ser um ritual mesmo. Não é o fato de fazer algo com cuidado e dedicação, é fazer a coisa com os mesmos mínimos e insignificantes detalhes da vez anterior que deu certo. Chega a ser um sofrimento.


Hipocondria

    Antes dos surtos, não tinha a mínima preocupação com as bactérias, germes, e outros microrganismos nocivos à saúde. Dá até para contar às vezes em que fui parar no hospital. Só acidente mesmo. Me lembro que fui parar na farmácia todo sangrando quando era criança. Havia desmontado o velocípede e jogado o guidão para o alto. Fiquei olhando o objeto voando e ai... caiu bem em cima da minha testa. 
    Cheguei a comer uma lata de brigadeiro da nestlé com o prazo de validade vencido há um ano. "Confio nas defesas naturais do meu organismo!" - era o que eu costumava dizer quando alguém me pedia para não fazer essas estrepolias alimentares. Quase não usava o merthiolate, além de arder, não me preocupava realmente com as bactérias mesmo.
     Mas, depois dos surtos, tudo mudou. Penso nas bactérias quando entro no ônibus e tenho que me apoiar naqueles canos de ferro quando não acho um assento vazio. Quando entro no banheiro, quando vou ao posto de saúde, quando pego em dinheiro, imediatamente pensa nas bactérias. Chego a pensar a lavar as mãos antes e depois de urinar. 
     Quando estive em São Paulo fiquei chateado quando fui ao posto de saúde e não me deram a vacina para a gripe, por não estar na faixa etária indicada. Até que cheguei a insistir, mas não obtive sucesso. Já em Ipatinga-MG, por volta do ano de 2008 consegui tomar uma dose da vacina contra a gripe suína, que na época era somente administrada aos idosos e as crianças. Essa gripe estava virando uma epidemia no mundo e podia até matar. Fiquei desesperado. Mas, por sorte que conhecia uma enfermeira de um posto de saúde que entendeu a minha situação. Combinamos um horário de pouco movimento e, apesar de não gostar de agulhas, foi com o maior prazer que tomei a injeção contendo os anticorpos daquela doença. 
     No mesmo albergue em São Paulo, o pessoal do posto de saúde apareceu por lá certo dia para colher o material para fazer o exame de tuberculose para quem estivesse apresentando os sintomas, como tosse por mais de não sei quantas semanas. Claro que eu queria fazer o exame, apesar de não ter sintoma nenhum. Tive que insistir, mas consegui fazer o exame. Poucos abrigados quiseram fazer o exame, e isso não entrou na minha cabeça. Como pode? Um exame gratuito, a pessoa vem até ela, e o cara não quer? 
    A funcionária do posto de saúde disse que, depois dos exames feitos, quem tivesse tuberculose seria avisado para receber o devido tratamento.
    - Mas e quem não tem, deve ser avisado também né? Tão importante saber que tem é saber que não tem a tuberculose né? - reclamei. Como é bom receber um exame e ver que está tudo em ordem...
    Quando uma pessoa tosse ou espirra perto de mim, já fico tenso. Se esta pessoa não coloca a mão no rosto e faz essas coisas para baixo, tenho que me conter para não ser chato e não pedir que ela não espalhe suas bactérias pelo ambiente. 
    Houve uma época em que tomava antibióticos sem apresentar nenhum sintoma de que estava acontecendo algo de errado com o meu organismo. Era como se fosse uma forma de prevenção, pelo menos era isso o que se passava na minha cabeça. Era para matar uma eventual bactéria que estivesse passeando pelo meu corpo... Ainda bem que hoje em dia as farmácias hoje em dia só vendem esses medicamentos com receita médica.
    Uma vez por ano, costumo fazer a cura do limão. Muito tenso, tenho que tomar cerca de 120 limões em jejum em vinte dias. No décimo dia, são dez limões, de uma vez só. Dá uma tontura nesses dias, mas, no final, sinto que isso funciona e fico mais revigorado. 

Fobia social

    A fobia social já praticamente faz parte da esquizofrenia, nem é preciso entrar em detalhes. Evitamos a vida social por medo de sermos julgados, comentados, difamados, etc. De pensarmos que estamos sendo observados, de termos uma crise, sei lá Não é exatamente a fobia social, o tratamento provavelmente é diferente da esquizofrenia, mas é uma fobia social: 
-fobia= medo 
-social= do latim, que quer dizer "associação amistosa com outros".
    Às vezes não nos socializamos por tristeza mesmo, pois não é fácil receber um diagnóstico de esquizofrenia, de tão grande que é o estigma que cerca essa patologia. Deve ser algo parecido quando alguém recebe o resultado do exame de HIV. Não sei qual o procedimento para revelar esse diagnóstico para o paciente, mas sei que deve ser dado com muito cuidado e cautela. Eu mesmo, acho que pelo fato de trocar constantemente de psicólogas devido às minhas mudanças, nunca me falaram na cara que eu tinha esquizofrenia, somente fiquei sabendo mesmo quando fui fazer a minha primeira perícia e li o laudo. 
    Mas voltando ao assunto fobia social, creio que 80% dos portadores de esquizofrenia se isolam do mundo, tem imensa dificuldade de fazer novas amizades e até de manter as antigas. Foi o que aconteceu comigo. Hoje passo 23 horas por dia no meu quarto, não tenho amigos, nem me lembro da última namorada. Meu mundo é o meu quarto, por isso fiz tanta questão de comprar uma TV LCD, um notebook e um home theather. É o cinema em casa mesmo...
    Saio para almoçar e volto apressadamente. Não há o que fazer. Às vezes dou uma passada no centro de convivência, mas nem lá me sinto à vontade. Também, às vezes, vou ao parque ecológico, me exercitar um pouco naqueles aparelhos coloridos para o pessoal da terceira idade e também curtir um pouco a natureza. 

Depressão 
    

    A esquizofrenia tem o seu lado parecido com a depressão: falta de ânimo, apatia, embotamento afetivo, etc. São os chamados sintomas negativos. E eles são tão prejudiciais quanto os positivos. 
Até hoje não tenho isso resolvido em minha mente. Não sei se é algum problema de saúde, ou se preciso voltar a tomar a sertralina que não me deu muitos efeitos colaterais. Aliás, deu um sim, e bem estranho. Depois que passei a tomar este medicamento comecei a achar graça na programação dominical da TV aberta. Quando me peguei dando gargalhada vendo um certo programa, resolvi por conta própria parar com a medicação, pois o "abestamento" é uma reação adversa um pouco grave. 
    Bem, pessoal, é isso o que tenho a dizer. A esquizofrenia é tão complexa que engloba outros transtornos mentais, sendo até confundida às vezes com a bipolaridade: meu humor oscila bastante, de um dia para outro, ou melhor, de uma hora para outra, o que me faz evitar de marcar encontros, por não saber como estarei no dia marcado. Mas não penso em remédios para controlar isso, pois, como bom hipocondríaco que sou, já fico doente só de ler a bula dos remédios... 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Zyprexa

    Continuando a minha saga sobre as minhas frustradas e decepcionantes experiências com os antipsicóticos, irei descrever neste post a minha curta relação com o medicamento mais caro que já usei: o zyprexa, também conhecido como olanzapina.
    Devia ser o ano de 2008. Após várias tentativas frustradas com vários medicamentos, a psiquiatra sugeriu que eu experimentasse um novo antipsicótico que poderia me ajudar a resolver um pouco as minhas paranoias e outros pensamentos e comportamentos relacionados à esquizofrenia.
    Os surtos já haviam cessado, mas, infelizmente a esquizofrenia não é somente isso: é também a sacana da mania de perseguição, os delírios e o isolamento proveniente de acharmos que ninguém gosta da gente.
    E, para piorar, ainda tem os chamados sintomas negativos, que até hoje não sei dizer se são menos ruins do que os positivos. Nos sintomas positivos, surtamos, caímos e vamos para o fundo do poço, mas temos força para levantar e continuar a jornada. Confesso que os delírios de grandeza já me ajudaram a enfrentar diversos obstáculos e dificuldades em minha vida. Pensamos que podemos fazer tudo, que somos imbatíveis, que nada nos atingirá e que somos protegidos por uma força sobrenatural. Eu sempre costumava dizer que o meu anjo da guarda era muito forte. Até hoje eu acredito em anjos e creio que tem um que me protege dia e noite, mas acho que ele está querendo pedir aposentadoria, alegando stress e excesso de trabalho. Mas hoje estou mais quietinho e a minha fé não é a fé cega e irracional.
    Já nos sintomas negativos, tudo fica mais difícil. Qualquer coisinha se torna um enorme obstáculo para realizarmos qualquer tarefa. A falta de energia e motivação nos fazem pensar que estamos com depressão ou uma doença física mesmo. Ainda tem o embotamento afetivo, que não nos deixa achar graça em nada.
era assim que eu me sentia nos delírios de grandeza
    Era mais ou menos assim em que me encontrava naquele ano. Não tinha surtos, mas as paranoias me faziam um prisioneiro de mim mesmo,  vivendo trancado em meu quarto. Algumas vozes comentaristas ainda davam as suas caras. Por exemplo: certo dia, ao me pesar, notei que havia emagrecido dois quilos. Naquele mesmo instante me lembrei de experiências passadas em uma pequena cidade do interior de Minas Gerais, onde rolava um boato de que eu tinha o vírus da aids. Então, ao sair da farmácia, a voz me disse:
    - Ele está com aids! - a voz desta vez falou em um tom mais exaltado, por isso coloquei a exclamação. Geralmente as minhas vozes comentaristas são calmas.Na hora, claro, pensei que fosse um funcionário da farmácia que havia dito aquilo, mas hoje, analisando a situação, sei que foi apenas mais uma alucinação auditiva.
     Então a psiquiatra, que foi uma das mais atenciosas com quem já consultei, preencheu um enorme formulário e pediu que eu o levasse para a cidade vizinha de Coronel Fabriciano, em Minas Gerais.
O remédio seria fornecido gratuitamente pelo governo, já que cada caixa custava 800 reais na época. Até fiquei me sentindo uma pessoa importante. A princípio fiquei assustado com o valor do medicamento, mas depois me animei, imaginando que se tratava de algo muito bom e diferente de tudo o que eu já havia experimentado (melleril, haldol, stellazine, orap, etc).
    Depois de quase um mês, o medicamento chegou no lugar onde eu fazia as minhas consultas. Minhas esperanças se reacenderam, estava cansado e triste de não conseguir mais andar pelas ruas sem que a mania de perseguição me perseguisse. Também queria voltar a frequentar lugares que antes gostava de ir: shows, parques, e às vezes igrejas.
    Em 2007, o time do meu coração(não vou falar qual é) jogou em Ipatinga pelo campeonato brasileiro daquele ano. O estádio municipal ficava à cerca de 300 metros de onde eu morava, e o ingresso ainda não era tão caro naquela época. Mas, mesmo assim, não fui, apenas escutei pelo rádio, e dava para escutar os gritos da torcida vindos do estádio quando alguém marcava um gol. Foi ai que percebi que o caso ainda era grave, o que havia mudado eram os sintomas.
    Voltando ao zyprexa, me lembro muito bem de quando o experimentei pela primeira vez. Era uma sexta feira e realmente estava muito esperançoso. Então, todo contente engoli aquele comprimido que custava cerca de 26 reais cada um. Não demorou muito e apaguei. No dia seguinte continuei apagado, simplesmente não tenho recordações do sábado. Acho que dormi o dia todo, só acordando no domingo de manhã, eu acho. Acordar até que não é difícil quando tomamos antipsicóticos fortes e doses grandes, o problema é levantar. Simplesmente não tinha forças para sair da cama e então continuei a minha soneca. De tarde, como se estivesse com dengue e bêbado ao mesmo tempo, fui me arrastando até a mercearia para comprar um "lideleite" e um bolo para dar uma enganada no estômago, pois não estava com muita fome, a única coisa que queria era voltar para os braços de Morfeu (clica no link para saber o significado da frase, para não pensar outras coisas rsrsrs).
 
esse é o único efeito colateral do zyprexa que tive...

    Na segunda feira acordei por volta do meio dia. Estava lento, mas já estava bem melhor. Consegui me deslocar até o restaurante popular da cidade e, aos poucos, a ressaca do medicamento foi passando. Não tive coragem e nem vontade de tomar mais um comprimido daquele verdadeiro sossega leão. Fico assustado e incrédulo quando ouço uma pessoa dizer que toma esse medicamento e está bem na minha frente, falando normalmente e sem cara de sono! Eu nunca iria me "adaptar"(ou viciar mesmo) ao medicamento. Provavelmente iria morrer de inanição, pois, como moro sozinho, tenho que me virar e fazer as minhas coisas. E também tinha que ser acordado para tomar o remédio na hora certa...
    Talvez eu seja do grupo de pessoas mais sensíveis aos medicamentos. Já vi nos comentários do blog uma pessoa dizer que existem pessoas com o metabolismo lento e que precisam de doses menores de antipsicóticos para se estabilizarem. Na minha cabeça paranoica e hipocondríaca, eu tenho um problema de saúde qualquer que me impede de tomar esses remédios. Penso que tenho um troço qualquer no coração, sei lá. Já fiz alguns eletrocardiogramas, vários hemogramas e tudo está sempre normal, com exceção dos triglicerídeos. Costumo comer muito doce, confeitos de padaria e massas para ficar mais animado e aumentar os níveis de serotonina e outras 'inas' no cérebro.
   Então, depois de mais uma frustrada tentativa, devolvi a caixa para a psiquiatra, para repassá-la a quem precisasse e aguentasse tomar esse antipsicótico tão caro e que me havia deixado tão esperançoso. Até hoje me pergunto como um comprimido possa melhorar esses meus pensamentos que creio que foram resultado de muitas experiências negativas ao longo da vida...
   Bem, o que acabei de relatar foi apenas a minha experiência com mais um medicamento. Não deu certo para mim, mas isso não quer dizer que isso vá acontecer com todo mundo. A única coisa que tenho certeza é de que falta muito para encontrar se não a cura, pelo menos um melhor controle dos sintomas da esquizofrenia, sem interferir muito na qualidade de vida dos portadores.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Seja o seu papai noel o ano inteiro

    Natal, fim de ano... Para uns, tempo de confraternização, festas, trocas de presentes, muita bebida e comilança. Para outros, depressão total, solidão, saudades, sendo um martírio ouvir aquelas músicas natalinas e os comerciais de televisão lembrando que é tempo de se festejar.
    Existe ainda outras tribos específicas em relação ao fim de ano: a dos mais espiritualizados e que ainda hoje acreditam ou querem acreditar que Jesus nasceu realmente nesta data . Existem os introspectivos e que aproveitam essa época para fazer um balanço de suas vidas e uma profunda análise de como foi o ano que se passou.
    Talvez exista um grupo que fique indiferente à esta data, aquelas pessoas solitárias ou os que só pensam no trabalho, odiando as festas e os feriados.
    Independente de qual tribo você pertença, não espere que o bom velhinho saia do pólo norte para deixar suas meias cheias de presentes. Não espere que alguém faça algo por você. Olhe para dentro de si mesmo e veja o que você pode fazer para melhorar a sua vida: uma limpeza interior, esquecer o passado, perdoar alguém e perdoar a si próprio, sei lá...
    Não espere que o príncipe ou a princesa encantada entre em seu quarto. Ninguém irá te encontrar com você lá dentro. Em um grupo do facebook já vi a pergunta: "Será que uma companhia irá melhorar a minha depressão?" Respondi mais ou menos assim: Se você ficar trancada dentro do quarto, dificilmente irá encontrar alguém.Se você sair por ai, gostar de si mesma, se libertar dos medos e traumas, será mais fácil encontrar alguém para ser um complemento de sua felicidade e não a peça fundamental para este estado de espírito.

Meu mundo
    No início de fevereiro de 2013 eu estava saindo do meu quartinho na cidade de Ipatinga-MG. Cheio de sonhos, queria conhecer o Brasil inteiro, depois de ficar oito anos preso em meu mundo. Estava preso não por ter cometido um crime, mas refém e escravo da esquizofrenia, em que o mundo à minha volta não prestava, tudo era uma bosta mesmo. Meu quartinho era o meu refúgio e meu mundo: tinha uma tv(de tubo mesmo), um bom PC, um home theather da CCE e um frigobar.
    Havia pintado o meu quarto e, de, dentro dele, não se dava a impressão que eu morava próximo a crackolândia da cidade. Saia apenas para almoçar e voltava rapidamente para o meu mundo. Não era a vida que tinha pedido à Deus, mas pelo menos tinha a paz. A solidão me traz a paz, pois, depois que passei a me conhecer melhor, depois dos surtos, aprendi a conviver melhor comigo mesmo e com os meus pensamentos, não fazendo tantos questionamentos como fazia antigamente. 
    Mas, infelizmente o crack começou a se expandir pelo entorno da crackolândia da cidade. O aluguel era barato, o quarto muito bom e espaçoso, mas a situação estava ficando complicada demais. Uma das coisas mais importantes para um portador de esquizofrenia é a paz. Sem ela, tudo fica mais difícil. Todo mundo já deve saber o que o crack faz, não só com o usuário, como também o estrago que ela faz em quem está indiretamente envolvido, como a família e os vizinhos. O negócio é tão complicado que até os traficantes de algumas comunidades do Rio desistiram de vender essa droga de droga.
 
os próprios traficantes proibiram a venda da droga....
    Dos oito anos que morei em Ipatinga, cerca de seis anos foram relativamente tranquilos. Até dava para dormir de janela e porta aberta, por causa do forte calor que se faz no leste de Minas Gerais. Mas, com o avanço da droga, a situação se tornou insustentável: brigas entre os usuários, roubos, funk rolando madrugada adentro. Fiquei mais dois anos neste lugar, na esperança que as coisas melhorassem, mas só pioraram. Depois de muito resistir, e até a brigar com um crackudo, cheguei à conclusão de que não poderia parar essa epidemia chamada crack. 
    Estava pagando alguns empréstimos com o banco, e o aluguel em outros lugares da cidade era caro, Para piorar, o restaurante popular da cidade havia fechado, por falta do pagamento da prefeitura. O prefeito da época havia fechado tudo o que tinha direito, inclusive deixou uma lagoa artificial secar por não mandar consertar uma simples bomba de água. Todos os peixes morreram. Resolvi então fazer algo que sempre cutucava a minha mente: sair viajando por ai, por esse país maravilhoso chamado Brasil. Vendi "tudo" o que tinha, comprei uma barraca, uma mochila e pus o pé na estrada. 
    O primeiro ano foi melhor do que eu imaginava: conheci lugares e pessoas maravilhosas, não tinha que pagar aluguel e poderia escolher onde morar. Além de tudo, ainda dava para me alimentar melhor, pois a grana do aluguel comia quase metade do meu salário de aposentado. Não sabia que ainda tinha forças para andar 30km em um dia com 11kg nas costas. Não considero essa fuga uma loucura, seria pior ficar trancado naquele lugar cercado de usuários de crack e no ambiente que essa droga faz. Se foi uma loucura, poderia se dizer que foi uma loucura positiva. Liberdade, ar puro, paz, belas paisagens, era tudo o que eu queria naquele momento. E desde pequeno gostei de caminhar, que, para mim é um ato sagrado. Também sonhava em viver fora do sistema, chegando a me imaginar morando perto de uma cachoeira e nada mais. 
    Depois de um ano de andanças, uma parada em São Paulo. O stress e a correria da capital paulista não me fizeram bem. Além do preconceito contra quem está nos abrigos ou morando nas ruas, ainda tinha a violência. Quase desmaiei quando tentaram roubar este notebook que estou escrevendo estas linhas neste momento. Tive que ser resistente para não deixarem levar o que eu havia comprado com tanto custo. Resolvi então voltar a morar em um cantinho novamente. Mas, para isso tinha que acabar de pagar os meus empréstimos e comprar algumas coisas, pois não adianta nada se trancar em um quarto e não ter o que se fazer dentro dele. 
     Eu sou um mochileiro, que anda de chinelo, cabelo grande e, às vezes, deixo a barba por fazer. No interior de Minas não sofri muito preconceito, apenas algumas abordagens da polícia, pois o mineiro é muito desconfiado, mas muito acolhedor. Já nas capitais o preconceito, ou até o medo mesmo, é muito grande. Já estive nas ruas no ano de 2002, devido aos surtos psicóticos que tive naquela época. O cenário era um pouco diferente, o crack era mais usado e consumido nas capitais e nas crackolândias. Hoje em dia está tudo mudado: em plena luz do dia, no centro de Belo Horizonte se pode ver pessoas acendendo o cachimbo. 
usuário de crack na AV. Santos Dumont, em plena luz do dia

     Hoje, estando nas ruas por vontade própria, dá  para se constatar a diferença, ao ver o andar apressado das mulheres segurando firmemente suas bolsas. Creio que, se tivesse surtado hoje, certamente não seria tão ajudado como fui no ano de 2003. Quando se vê uma pessoa suja e mal arrumada nas ruas, o primeiro pensamento que aparece em nossas mentes  é de que ela está usando o crack. 
      Quando não era mochileiro, era um morador de albergue, e o preconceito também existe. Não tinha mais vontade de montar a barraca em Belo Horizonte, pois fui roubado certa noite quando deixei a música do celular ligada e dormi.  Resultado: um meliante, provavelmente usando uma faca, fez um buraco na minha humilde residência e fiquei sem o meu aparelho. O jeito foi morar no albergue até juntar a grana para comprar as coisas para o meu quartinho. 
      Morar em um abrigo e ser aposentado tem a vantagem de se ter a possibilidade de se juntar uma graninha, mas aparecem uma série de desvantagens pequenas, mas, que juntas se tornam um problemão: acordar às cinco horas da manhã em pleno horário de verão,  e ter que sair mesmo debaixo de uma forte chuva. O pior também é, ao sair, não ter o que fazer, um objetivo a ser alcançado. O jeito era procurar um refúgio, no parque perto do abrigo e que era pouco frequentado, mas muito bonito. Havia também aquele desgaste para simplesmente carregar o celular nas tomadas que encontrava por ai: não poderia desgrudar o olho um minuto sequer, ou seja, tinha que ficar olhando para o aparelho por cerca de três horas diretas.... À todo instante olhava o aparelho, na esperança de que as barrinhas ficassem cheias, e a última era uma eternidade para ser carregada... Para lavar a roupa, a mesma coisa: tinha que esperar que secassem quase que completamente, não tem essa de que os larápios perdoam os pobres, se tiver algo interessante eles metem a mão mesmo. Roubaram uma camisa novinha que eu tinha da Argentina quando a deixei secando em uma grade perto de uma igreja. 
    Além disso, o abrigo em Belo Horizonte estava com um clima um pouco tenso. Na primeira vez que havia ficado por lá, no ano passado, as coisas eram bem tranquilas. Mas, depois que voltei para lá, em agosto deste ano, as coisas haviam mudado e muito, inclusive o perfil de quem usava o albergue. Havia muitas discussões tolas, algumas brigas, roubos de celulares, conversas não muito sadias e falta de respeito com o sono alheio. Algumas pessoas estão lá para tentarem realmente mudarem de vida, se tornam evangélicos, tentam se livrar das drogas e vícios, mas, uma boa parte não quer saber de nada mesmo...
      Essa situação acabou me deixando a ponto de surtar. Ser confundido com esse tipo de pessoa me fez muito mal. Não sou santo, mas também sou um cara que procura ser o mais correto possível. Em minha cabeça, aonde eu ia, imaginava que as pessoas estavam me chamando de ladrão. Encarava como uma ofensa quando uma mulher passava segurando a bolsa perto de mim, pensava que aquele gesto era única e exclusivamente por causa de mim.
    Essas pequenas dificuldades, juntamente com o preconceito, me fizeram ter uma saudade imensa do tempo em que eu morava no meu quartinho em Ipatinga. Alguns filmes nos fazem pensar que sair por ai sem destino é uma aventura sensacional, o que não é verdade. 

 O meu presente

    Então bolei o meu projeto: comprar tudo o que havia vendido e alugar um cantinho, agora em Belo Horizonte. Era um desafio e tanto, queria as coisinhas de volta, mas melhores de que quando tinha em Ipatinga. Queria uma TV LCD, um bom notebook e um home theather da LG. 
    Foram oito meses morando em albergues, passando os dias em praças, parques e bibliotecas, até conseguir a grana para comprar os aparelhos e deixá-los na casa de um amigo. Foi muito difícil, e tive que ter uma paciência de Jó, Eu, um cara que desde os 17 anos sempre morou sozinho, agora tinha que conviver com cerca de 200 pessoas em um mesmo espaço. Encarei como um teste e acho que fui bem, quase não me envolvendo em confusões. Ambiente de abrigo é um pouco carregado, cada um tem sua história de vida, e muitos problemas. Qualquer coisinha pode ser motivo para uma forte discussão e por mínimos detalhes pode virar briga física mesmo.
    Então, no início de dezembro já comecei a procurar alguns quartos. O aluguel aqui em BH é caro, e tive que fazer as contas para ver se daria para alugar um quarto em um local tranquilo e seguro. Se não gastasse grana com bobeira, e parando de comer bobagens, até que daria para ir levando... 
  Ocorreu tudo naturalmente. Com a proximidade do natal, a necessidade do isolamento foi se tornando maior e, finalmente, depois de muita procura, exatamente no dia 23, consegui encontrar um pequeno quarto, não muito longe do centro da cidade. 
    No dia 24, comprei um pequeno objeto, mas de fundamental importância para mim: uma antena de TV. Passei o natal no abrigo, quieto em meu canto, enquanto o resto da galera saboreava um rango especial de natal, organizado pelo pessoal do albergue. Passei a noite sonhando comigo, em meu canto, assistindo uma TV, com tranquilidade e paz, acima de tudo. Aliás, sonhei com isso por oito meses seguidos. Não podia ver uma TV que dava aquela angústia no peito. No dia 25, logo de manhã, me dei o melhor presente de natal que poderia ganhar: sai do abrigo sem me despedir de ninguém, peguei os aparelhos e as roupas na casa do meu amigo e peguei um táxi até o meu novo lar. 
     Estava agitado, alegre, aliviado. O pesadelo finalmente havia acabado. Rapidamente acomodei os meus pertences no quarto. As minhas velhas roupas se tornaram novas. Só quando perdemos é que damos valor à pequenas coisas: deixar o celular carregar  enquanto dormimos, assistir um filminho antigo na TV(não precisa ser a cabo), lavar a roupa, colocar amaciante e deixar secá-la sem preocupações... Poder ouvir uma música à noite, poder relaxar todos os nossos músculos em uma caminha bem macia, ouvir o som do silêncio, tomar um banho na hora que sentir vontade, acordar na hora que desejar... 
     Mas, o melhor presente que me dei não foi material: não foi o home theather da LG, nem o notebook e muito menos a TV de 32 polegadas. O melhor presente que ganhei de mim mesmo foi a privacidade, a solitude e, principalmente a PAZ!
     Esse foi o presente que me dei. E você, se permitiu dar um presente para si mesmo ou ficou esperando o papai noel aparecer?


Música: Meu Jardim
Artista: Vander Lee
Tô relendo minha lida, minha alma, meus amores
Tô revendo minha vida, minha luta, meus valores
Refazendo minhas forças, minhas fontes, meus favores
Tô regando minhas folhas, minhas faces, minhas flores

  Tô limpando minha casa, minha cama, meu quartinho
Tô soprando minha brasa, minha brisa, meu anjinho
Tô bebendo minhas culpas, meu veneno, meu vinho
                                 Escrevendo minhas cartas, meu começo, meu caminho                              

Estou podando meu jardim
Estou cuidando bem de mim

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Quetiapina: parte 2

    Há muito tempo ando estressado e com o nível de energia lá embaixo. Como já disse anteriormente, a minha vida está parecendo um vídeo game mesmo, preciso urgentemente fazer algo para aumentar a minha vida deste jogo para conseguir chegar ao final desta fase.
    Houve o caso do opala preto que avistei em frente ao abrigo e algumas vozes comentaristas andam me perturbando um pouco. Tive poucas vozes de comando até hoje, e me sinto aliviado por isso. Não deve ser nada agradável ouvir uma voz lhe mandando fazer coisas como agredir uma pessoa, etc As poucas vozes que tive não foram muito sérias, apenas me mandavam entrar em alguns estabelecimentos comerciais. Em 2003, quando entrei em uma lanchonete, todo sujo. o balconista não teve muita paciência e foi logo me dando um forte soco no peito. Só não parei no meio da rua por que havia uma árvore no meio do caminho.
Mas no geral só tive ajudas nos momentos mais difíceis, não posso reclamar de maus tratos durante os surtos.
    Mas chega de falar do passado. Depois de oito meses me sentindo um estrangeiro em São Paulo, senti que era hora de voltar para Belo Horizonte e para o abrigo, para acabar de juntar uma grana e concluir o projeto de morar novamente em um quarto. Mas infelizmente o abrigo não é mais o mesmo. Não vou entrar em detalhes, mas as coisas agora costuma ficar meio tensas por lá. O resultado não poderia ser outro: stress total e a sensação de que se continuar assim, poderei surtar de novo. Então tenho que dar uma "apagada" geral para colocar os pensamentos em ordem e dar uma respirada.
    Analisando todos os medicamentos que já havia experimentado, cheguei a conclusão de que clorpromazina seria o ideal para esse caso, apesar de ter me dado um baita torcicolo da última vez que a experimentei no início do ano em São Paulo.
    O clínico geral com quem pego a receita do diazepan me disse que não poderia trocar a medicação. Foi marcado então uma consulta com a psicóloga da unidade de saúde, mas eu não poderia esperar um mês para conversar sobre a situação. O clínico me informou que eu iria me consultar com um psiquiatra com que eu havia encontrado há uns doze anos atrás. Ele foi o primeiro com quem conversei. Me lembro muito bem,  a consulta demorou cerca de uns sete minutos e o cara nem olhou para mim, apenas fazia algumas anotações e respondia friamente às minhas perguntas. Eu não gosto muito que me encarem fixamente por muito tempo(acho que ninguém gosta) mas também não precisa ter medo né?
    Então desisti de tentar o medicamento com este psiquiatra, provavelmente não teria paciência e nem tempo para ouvir um esquizofrênico que acha que sabe alguma coisa e que já tenha em mente a medicação a ser usada. Procurei então um hospital, indicado por um amigo que frequenta o parque. Infelizmente o pessoal da psiquiatria já estava de férias e só seria atendido em janeiro.

Cersam
     A solução foi procurar o Cersam. na primeira tentativa não fui atendido, me disseram que eu poderia continuar com a risperidona, que em Belo Horizonte não é fornecida gratuitamente. Além de tudo, este medicamento me dá um prejuízo danado, ao aumentar ainda mais a minha gula por doces e massas. 
    E a coisa estava tensa no Cersam naquele dia. Um cara com as mãos enfaixadas, já sedado, conversava com as enfermeiras. O SAMU também havia chegado com um cara totalmente apagado, provavelmente deve ter tomado um sossega leão. Um senhor reclamava que o seu filho estava andando pelado pelas ruas. Ou seja, o meu caso era "fichinha" em relação ao que estava sendo atendido por ali. 
   Fui embora e desisti da clorpromazina, é cansativo e muito frustante não ser atendido quando mais precisamos. Ou será que o pessoal espera o caso virar uma emergência? Mas, depois de alguns dias vi que a coisa estava piorando e resolvi pegar um encaminhamento para o Cersam com uma assistente social do abrigo em que estou ficando no momento. Nem quando estou no parque, ouvindo música clássica ou Yanni, estava conseguindo relaxar e parar de pensar que estou sendo observado. O parque era o meu refúgio e no ano passado era como se fosse um paraíso para mim. Estava dando algumas más respostas para alguns abrigados e não estava com a mínima paciência para ouvir o que era discutido ou conversado nas dependências do albergue. Para falar a verdade, geralmente a conversa não me interessa mesmo. 
    Mas ninguém tem nada a haver com as minhas paranoias e voltei então ao Cersam. As coisas estavam mais calmas desta vez. Devia ser umas oito horas da manhã e fui informado que o psiquiatra só chegaria na parte da tarde. Como era o dia do almoço de confraternização do natal, fui convidado a ficar por lá mesmo
    No refeitório havia muitos pacientes. Alguns deitados no chão, outros isolados em seus cantos. Um ou outro era mais agitado e comunicativo. Prestei atenção em quase todos os pacientes e alguns se aproximavam bastante do que é considerado normal pela sociedade, acho que se estivessem na rua passariam desapercebidos. Havia muitos que estavam tranquilos, mas seus olhares não demonstravam nenhum emoção ou sentimento, creio que devido ao fato de usarem os medicamentos. 
    Havia também três estagiárias bonitas, e os caras não davam muita trégua para elas. Uma parecia incomodada e acabou se retirando do refeitório, dizendo estar incomodada com a fumaça dos cigarros que os pacientes fumavam. As outras duas tiravam algumas fotos e pareciam estar se divertindo com a festa. 
     Quanto a mim, não estava me sentindo bem, apenas resumia a cumprimentar os pacientes e responder algumas perguntas que me eram feitas. O almoço estava uma delícia, mas não queria almoçar, a única coisa que desejava naquele momento era ter em mãos a clorpromazina e o fenergam para dar uma desligada do mundo. 

O psiquiatra

    Por volta das três horas da tarde fui atendido pelo psiquiatra, que parecia ter cara de gente boa. Mas na hora de me atender me pareceu ser uma pessoa esquisita: coluna ereta, sem encostar na cadeira. E olhava fixamente para mim, e parecia que não piscava os olhos. Os óculos de grau davam a impressão que seus olhos eram maiores do que realmente eram. Ele fez algumas perguntas e só respondia: sim, sim sim...
Sentei-me de lado para evitar aquele olhar invasivo, e ele parecia estar meio estressado com tanto serviço naquele Cersam. Comecei a ficar nervoso e confesso que com muito custo não xinguei o cara. Por que será que ele não encosta na cadeira, dá uma relaxada e conversa normalmente comigo?- me perguntei. 
    No final da consulta, ele, só para me contrariar, não me passou a clorpromazina. Disse que eu tinha que tomar um novo medicamento chamado quetiapina, pois era o melhor para o meu caso. Não deu muita atenção quando eu disse que me senti bem quando usei a clorpromazina, apesar de ser um dos primeiros medicamento usados para combater os sintomas da esquizofrenia. Havia dito que a quetiapina me havia dado muito sono na única vez que a usei, mas ele mesmo assim o receitou para mim. E, para comprovar que eu estava tomando o medicamento, o engoli no Cersam mesmo, por volta das quatro da tarde, para também conseguir acordar cedo no dia seguinte.  

A soneira
    - É de quantas miligramas? - perguntei para a enfermeira na hora de tomar a quetiapina.
    - Não sei...- ela me respondeu, me mostrando que a embalagem já cortada não tinha essa informação. 
    Resolvi tomar mesmo não sabendo a dosagem, não estava mais aguentando aquela situação e tinha que apagar por pelo menos uma noite. o problema seria acordar no dia seguinte, às cinco horas da manhã. Levantar e acordar, com condições de andar né? A clorpromazina eu conheço, não dá muito sono, o fenergam, que é usado para tirar a alergia ao medicamento, é que nos dá a sonolência. Mas o bom que a ressaca não dura muito tempo, ao contrário da maioria dos antipsicóticos. 
    Depois de tomar a quetiapina, fui correndo pegar o ônibus de volta para o abrigo. Para a minha sorte o remédio só começou a fazer efeito depois que já havia chegado e estava na fila de entrada. Comi um pedaço de bolo antes, pois sabia que seria difícil estar com vontade de jantar às sete e meia da noite. Com alguma dificuldade consegui tomar um banho e cair na cama. Comecei a falar meio embolado com os vizinhos de beliche e apaguei. 
    De manhã, aquela canseira e dificuldade para me levantar. Fui me arrastando para o banheiro e depois para o refeitório. Não conseguia raciocinar direito e peguei algumas coisas na mochila. Assim que sai do abrigo, comi dois pedaços de pudim. Estava com muita fome, uma sensação menor do que a risperidona, mas esse medicamento parece aumentar o apetite também. 
    Fui para o Cersam chateado, o psiquiatra não me ouviu, quando lhe disse que era meio fraco para remédios. Queria tomar metade da dose mínima, e provavelmente me deu inteira, pela experiência que tive no ano passado. Estava muito mais lento e cansado do que na primeira vez que havia experimentado a quetiapina. 
    Conversei com a assistente social e ela me disse para dar um crédito para o psiquiatra, dizendo que ele era muito bom. Para mim psiquiatra bom é aquele que conversa normalmente com a gente. Ela também disse que esses efeitos colaterais da quetiapina duram apenas três meses! Do jeito que ela me disse isso, parecia que era algo muito simples ficar noventa dias com aquela enorme sensação de cansaço e sonolência. Como já disse, tenho que me virar sozinho, não posso ficar tanto tempo parado. 
parece que os sentimentos somem quando uso a quetiapina...

    Mas o pior da quetiapina é a robotização, tanto no sentido físico como no emocional. Ficamos lentos demais e não ficamos muito tranquilos também, mas também não achamos graça em nada! Me parece uma lobotomia química, para ser sincero. Não sou contra os medicamentos, sempre costumo dizer isso, preciso sempre estar repetindo, para não ser mal interpretado. Digo que são um mal necessário em alguns casos, e algumas vezes pode ser por algum tempo apenas. 
     Voltando ao Cersam. o psiquiatra aparecia de vez em quando para chamar os pacientes. Se assustou quando me viu pela primeira vez, pois eu não estava com cara de quem estava satisfeito com a medicação. 
    - Olha o que você fez comigo! - era o que eu queria dizer com um olhar de poucos amigos. 
    Devia ser umas três horas da tarde e a ressaca da quetiapina não havia cessado, e já estava quase na hora de tomar mais um comprimido. Como iria reagir tomando o remédio já estando sonolento e cansado? 
    Acho um pouco de responsabilidade desse pessoal dar os medicamentos às pessoas e depois dispensá-las. Se por acaso essas pessoas moram um pouco longe e têm que atravessar ruas e avenidas movimentadas:? Vi que poderia ficar mais sonolento e cansado do que já estava e resolvi que o melhor a ser feito era tentar uma outra alternativa...

Conclusão
sonhar não custa nada...

    No meu caso, em particular, é um dilema e tanto tomar ou não os medicamentos. Não se pode chegar à uma conclusão, pois moro sozinho desde os dezessete anos e sempre tive que me virar. Para mim, é quase impossível tomar os medicamentos e exercer qualquer atividade renumerada, a não ser que o seu patrão seja bastante compreensivo. Se o transtorno é incapacitante, os medicamentos não deixam de ser também de uma certa forma. 
    No início do ano eu não fui ao show do Yanni, em São Paulo, por causa das minhas paranoias. Cheguei a ir até o ginásio do Ibirapuera, mas não comprei o ingresso. Mas, se estivesse tomando algum medicamento, também não iria, pelo fato de estar sonolento e meio robotizado, não achando graça em nada. Analisando os fatos, prefiro não tomar os remédios e ficar em casa, mas com as minhas emoções, para, pelo menos rir e chorar com os filmes e coisas que assisto na TV. Sem emoções jamais! E também, por que não, sonhar um pouco de vez em quando. Não há nada demais em sonhar, o que não podemos fazer é ficar muito tempo no mundo do sonhos...
    Não escrevo este blog para desestimular as pessoas a tomarem os medicamentos. Relato apenas as minhas experiências com eles. Cabe a cada portador estudar não só a patologia como os remédios e tudo o que possa melhorar a sua qualidade de vida. Cada um, com a ajuda do psiquiatra, deve tentar achar o melhor medicamento e a dose certa para cada caso, o que às vezes pode se tornar uma difícil tarefa. 
    Dizem que em três meses nos "adaptamos" aos medicamentos. Não creio que o termo certo seria adaptação e sim se acostumar, viciar mesmo, como acontece com o diazepan, que, no início dá até uma pequena sonolência. Mas, com o passar do tempo já não faz mais o mesmo efeito e ai temos que ir aumentando a dose. Já cheguei a tomar 20mg e a tomar o levozine mas vi que, se continuasse naquele ritmo, iria ficar como o Michael Jackson, tendo que tomar até anestesia para dormir. O levozine faz dormir, mas temos que colocar um pinico debaixo da cama, pois é quase impossível ir ao banheiro de madrugada. Já o diazepan sinto que atrapalha um pouco a minha memória. Então resolvi ir aos poucos diminuindo o diazepan e hoje tomo apenas 5mg e, quando estiver em um ambiente tranquilo, tomar 2mg para, quem sabe, um dia estar livre dos medicamentos. 


-obs: desculpem os prováveis erros de português, é que, apesar do corretor do blog, estando em uma lan house, não dá para se fazer um trabalho como se estivesse em meu quarto. 1
    

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Divagações esquizofrênicas


Domingo...
    -Tá na hora! Não se esqueçam de entregar os lençóis! - nos avisa o monitor do abrigo, nos acordando às cinco horas da manhã em pleno domingo de horário de verão. 
    Se não fosse a violência urbana, continuaria dormindo na minha barraca. Fui feliz enquanto estive nela, por cerca de quatro meses, no bairro Barro Preto em Belo Horizonte. Alguns vizinhos até já tinham se acostumado comigo, me davam água gelada e às vezes frutas. Mas certo noite dormi com o rádio do celular ligado. Resultado: um meliante, ao ouvir a música, passou uma faca ou algo parecido e levou o meu aparelho. 
    A chuva cai com uma certa intensidade, deu para se notar pelo barulho dos pingos caindo no chão. Pelo jeito vai ser assim o dia inteiro. Mas desde o começo do ano não reclamo mais quando São Pedro resolve abrir a torneira do céu. Não tomo o café no abrigo. Foi servido café e biscoitos em uma bacia. A galera pega os biscoitos com a mão mesmo, e alguns deixam cair um monte  na bacia novamente, ao encherem as mãos. No banheiro dá para notar que alguns saem sem lavar as mãos. 
    Vou para debaixo de uma marquise, à espera da padaria abrir. Aliás, foi uma das coisas que mais senti saudades enquanto estive em São Paulo. Lá não tem tantas padarias como em BH. O mineiro que gosta de uma broa de fubá e um pão de queijo sofre um pouquinho na capital paulista. 
    Domingo, para mim, como albergado é um tédio: lan house fechada, e o restaurante popular também não funciona. Não vou aos lugares de doações, onde fornecem almoço para o pessoal dos abrigos e moradores de rua. Não por que eu me ache melhor do que eles, mas não gosto muito de agitação mesmo. Apesar de estar juntando uma grana para alugar um quarto, prefiro gastar do meu próprio bolso para comprar um lanche e ficar no parque mesmo. Em dias de chuva, só existe um lugar para se ficar no parque, debaixo do telhado de uma casinha. Neste domingo quase ninguém apareceu, só um cachorro molhado e rançoso insistia em ficar ao meu lado se abrigando da chuva. 
    Se domingo já é complicado para mim nesta momentânea situação, um domingo chuvoso é um convite a não fazer nada. Nessas horas dá saudades de ver o Globo Rural nas manhãs de domingo. Já perdi a conta de quantas vezes sonhei com um cobertor, uma cama e uma TV. Nada mais. O silêncio também não pode faltar. Domingo que é o verdadeiro dia da preguiça para mim, apesar de não cair na night e ficar de ressaca.
    Mas a minha vida é um vídeo game mesmo. Acho que estou na penúltima fase dessa parte de minha vida. O mais difícil já passei. Foram quase dois anos viajando por ai e morando em albergues. 

Natureza Selvagem?

    O primeiro ano das andanças foi uma maravilha. Estava com um ânimo que há muito tempo não sentia, depois de ficar oito anos trancado em meu quarto em Ipatinga. Estava um pouco acima do peso, devido ao sedentarismo. Mas a alegria e a novidade da liberdade compensavam a falta de preparo físico. 
     Me senti, ao sair por ai, como o cara do filme Na natureza selvagem. Mas, para mim o que está selvagem é o nosso mundo mesmo, principalmente as capitais. Podemos ser atacados a qualquer momento por marginais e usuários de crack. Tenho mais medo deles do que de cobras e outros animais que talvez possa encontrar nas minhas viagens pelo interior de Minas Gerais. A maioria dos animais precisa se sentir ameaçada para atacar uma pessoa. Mas precisamos de tomar banho, de nos alimentar corretamente, de escovar os dentes, não dá para viver no meio do mato para sempre...
    Não tenho preconceito contra os usuários de crack. A maioria quer sair dessa, mas não consegue... Alguns são acomodados mesmo. Mas a verdade, é que tenho medo da pessoa que o crack faz a pessoa ser, ou seja, um indivíduo sem controle e desesperado para alimentar o seu vício, roubando até os próprios familiares. 
    
Preconceito?
     No início de janeiro será a segunda vez que procuro um quarto, como um portador de esquizofrenia. Na primeira vez tive sorte. Estava em uma rua, olhando para a janela de um quarto, quando um senhor parou seu carro perto de mim e me perguntou se estava à procura de quartos para morar. Respondi que sim, e ele me levou à um prédio onde alugava vários quartos. Me mostrou um que era muito bom, espaçoso e com cerâmica no chão. O preço era razoável e me alugou no mesmo instante, sem sequer me perguntar o nome. 
    Hoje sei que o aluguel era relativamente barato por estar perto da crackolândia da cidade. Mas deu para viver tranquilamente por cerca de seis anos. O consumo de crack aumentou e a situação naquele lugar se tornou insustentável, o que me motivou a sair viajando por ai.
    Agora vou procurar um quarto novamente. E, provavelmente terei que falar que sou aposentado e, consequentemente, portador de esquizofrenia. Será que vou ser discriminado? Não seria melhor mentir neste caso? Acho que sim, mas não sou muito bom em inventar histórias...

Divulgação do livro
    No último dia 12, houve um evento no espaço Suricato para divulgar o meu livro. Não apareceu muita gente, o livro não foi um sucesso de vendas, mas não fiquei decepcionado. Foi algo muito positivo para mim, pois considero que obtive uma pequena vitória: consegui falar para um grupo de pessoas, sem precisar tomar o pan nosso de cada dia! Foi até positivo não ter aparecido tanta gente, pois fiquei um pouco nervoso, mas deu para falar alguma coisa. 
    Por volta do ano de 2003 eu não conseguia nem sair de casa, em uma pequena cidade do interior de Minas, sem antes tomar um diazepan. E não raramente tinha que engolir mais um no meio do caminho até o centro da cidade. Não foi fácil falar, com o nervosismo não consegui decorar o que eu tinha que dizer, e tive que recorrer a uma colinha. Mas o mais importante foi feito, que é falar um pouco sobre a esquizofrenia. Não sei quanto tempo vai demorar e se estarei aqui para ver, mas sei que um dia esse preconceito e o estigma que cerca a esquizofrenia irá acabar. E sei que estou fazendo a minha pequena parte neste processo. 

                                                                   Música: Rise
                                                              Artista: Eddie Vedder

Erguer-se

Tal é o jeito do mundo
Você pode nunca saber
Apenas onde colocar toda a sua fé
E como ela crescerá

Vou me erguer
Queimando buracos negros em memórias negras
Vou me erguer
Transformando erros em ouro

Tal é a passagem do tempo
Rápida demais para se envolver
E de repente engolida por sinais
Abaixe-se e observe

Vou me erguer
Encontrar minha direção magneticamente
Vou me erguer
Jogar minha pressa no buraco