quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Paranoia

    Hoje(18/11) tive um sono de qualidade. Parece uma coisa banal, mas não no meu caso e creio que no de alguns portadores de esquizofrenia. Demorei, mas acabei descobrindo quais são os quartos mais tranquilos neste albergue de Belo Horizonte. No arsenal da esperança, em São Paulo, existem quatro alas enormes, e os usuários são alocados pelas assistentes sociais de acordo com o perfil de cada um.
    Já neste abrigo em BH, a seleção é natural, os mais quietinhos chegam mais cedo e ocupam os primeiros quartos, já a galera mais agitada chega um pouco mais tarde e ocupa os quartos do fundo do corredor.
   Este sono bom só foi interrompido por um cara que parece não dormir. Às vezes ele passa a noite inteira andando de um lado para outro, que nem um sonâmbulo. Mas ele fica acordado e não para de falar um minuto sequer. Ele diz, entre outras coisas, que vai "desmanchar"(dar uma porrada) não sei quem. Apesar de conversar baixinho, o monólogo incomoda. De madrugada, qualquer ruído se transformo em um estrondo! Falo "xiu" para o zumbi se calar, mas ele não sossega. Provavelmente deve ter algum tipo de esquizofrenia.
    "São quatro e quinze da manhã, e ainda dá para cochilar uns 45  minutos" - pensei comigo mesmo.
    - Hoje vai ter jogo do Brasil, né? - pergunta um dos abrigados.
    - Vai sim, e esse jogo vai mudar as nossas vidas. - respondi, ironicamente.
   Não gosto de confusão e zoar as pessoas que não conheço direito, mas o cara vem me falar do "jogaço" da seleção do Dunga contra a poderosa seleção da Austrália, às quatro da manhã e em pleno horário de verão? Fala sério...
    O sono me proporcionou um sonho legal. Não foi nada de extraordinário, me lembro apenas que estava conversando com duas pessoas. Mas como um sonho tão simples pode ser considerado tão legal assim?
É que nele era o antigo Julio que estava falando e não o paranoico atual. Era um cara distraído e que não reparava em nada à sua volta. Acho que todo sonho de portador de esquizofrenia é se ver livre desse transtorno. Ganhar na mega sena talvez fique em segundo plano, pois com a cabeça cheia de paranoias não dá vontade de se fazer muita coisa. Acho que até aumentaria a mania de perseguição por ter tanta grana.
    Não tenho certeza se neste sonho estava dormindo profundamente ou se apenas estava pensando enquanto cochilava. A única coisa que sei é que sou um paranoico assumido e que sonha a todo momento em voltar a morar em meu canto. Mas não precisa ter medo do esquizo aqui, sou paranoico, mas sei me controlar. Muita gente ao menos desconfia que é paranoica e cometem atos de violência pensando que estão corretos. É preciso nos conhecermos melhor e mais profundamente. Surtar, no meu caso, teve esse lado positivo, pois, estudando a esquizofrenia, passei a me conhecer e a me entender melhor.
    Uma das coisas que mais tenho saudades é de sair andando pela cidade sem reparar em nada e em ninguém. Como era bom ir ao cinema e prestar atenção somente no filme!
    Por isso hoje o meu projeto é ter o meu cantinho, uma TV LCD e um home theather, ou seja, um pequeno cinema em casa. Pode parecer frescura, mas para quem permanece cerca de 23 horas dentro de seus aposentos, se faz necessário algo para se fazer para passar o tempo. Assistindo um bom filme consigo me desligar desse mundo maluco. Quando jogo futebol também consigo esquecer de tudo. Às vezes no mosaico também, isso quando não cismo com um dos participantes da oficina. Enfim, tudo é complicado em uma mente paranoica, até se divertir.
    Muita gente procura fugir do mundo usando as drogas ou o álcool, outros procuram o isolamento.  É o tal do escapismo, quem me apresentou à essa palavra foi um padre que preferiu seguir a vida religiosa. Eu fujo deste mundo em meu mundo, viajando nos filmes e seriados de TV.
cada um "escapa" do mundo de sua maneira


Eficiente?
    Tenho consciência de que, no momento atual não estou bem. Quero trocar o medicamento, a risperidona me dá uma fome danada, e, consequentemente um considerável prejuízo financeiro, além de aumentar os meus níveis de colesterol.
    Ontem(17/11) avistei, na fila de entrada do abrigo,  um opala preto de quatro portas passando lentamente  pela rua. Naquele instante não dei muita importância ao fato, mas, depois que avistei algumas pessoas com quem tive pequenos atritos por não respeitarem o sono alheio, as paranoias voltaram com uma intensidade parecida com a dos surtos que tive.
   Comecei a pensar que os caras do opala estavam à minha procura. Havia quatro caras no opala de quatro portas. Se estavam andando devagar é por que realmente estavam procurando algo. Geralmente esse tipo de veículo é usado para facilitar a saída e entrada em uma fuga.
    Essas situações provocadas pelas paranoias são estressantes, mas não me desespero. Se querem me matar realmente, então que façam isso o mais rápido possível. Creio que essa indiferença com esta vida terrena me ajuda a não ser agressivo. Digo indiferença e não vontade de me auto exterminar, o que é bem diferente. Se querem tirar a minha vida por não ser um cara "sociável", então que me eliminem, como se fosse a vida fosse um BBB, um jogo cheio de falsidades e interesses. Não sei mudar o meu jeito de ser para agradar as pessoas.
    Neste abrigo não sou bem quisto. Aliás, me estranharia se fosse popular neste ambiente. Não converso muito, e isso às vezes é confundido com mitidez. Estou estressado, e às vezes digo coisas que não deveria falar. Sei que este não é o meu lugar, este abrigo deve estar parecendo com uma cadeia(nunca estive em uma, para poder fazer e comparação. Só fui em uma quando trabalhava como operador de som. Mas não se assustem, estava na penitenciária trabalhando na inauguração da mesma. Teve até salgadinho e o serviço de som foi necessário para que as autoridades falassem.
    Nos primeiros surtos que passei, tive pensamentos persecutórios bem parecidos com este que tive em relação ao opala preto de quatro portas. A diferença é que naquela época todo mundo queria me matar e não somente um grupo específico de pessoas. (hoje sei que naquela oportunidade uma pessoa apenas queria tirar a minha vida, se aproveitando do meu estado mental. Sei que superdimensionei a realidade). Tinha algumas pessoas querendo que eu me desse mal, mas não era todo mundo. Então, depois de vários dias surtado e fugindo dos inimigos que estavam em minha mente, minhas energias se esgotaram. Parei de fugir das pessoas e pensava que os catadores de material reciclável queriam a todo custo me matar. Era o ano de 2003, e estava no meu segundo surto psicótico. Naquela época, certos catadores não se davam muito bem com os moradores de rua que não trabalhavam e tomavam umas cachacinhas. Certa noite avistei um catador e não fugi como sempre fazia. Permaneci deitado, imaginando que ele voltaria com seus amigos para darem o fim em mim. Não me desesperei, já estava cansado de fugir de tudo e de todos. Então, se me matassem, o sofrimento também cessaria. Considero isso um breve momento de lucidez inconsciente de uma mente paranoica e surtada.
    O ambiente neste abrigo é um pouco carregado e tenso, na maioria das vezes. Já disseram que ali funcionava um IML e que o local talvez esteja povoado de espíritos que perambulam pela terra. Almas penadas, que não foram bonzinhas o suficiente para irem para o paraíso, mas que também não foram tão mauzinhas para queimarem eternamente nas chamas ardentes do inferno. Mas não creio que fatores sobrenaturais sejam a causa do ambiente pesado. São muitas pessoas vivas confinadas, cheias de problemas a causa de tudo. Então, qualquer coisinha pode ser motivo para uma briga ou discussão. Até mesmo a abstinência do álcool e das drogas causa uma certa confusão.
    Nesta situação e ambiente, eu não poderia estar bem. Sei que preciso conversar com um psiquiatra sobre medicamentos. no CERSAM me informaram que só atendem emergências. Já no posto de saúde, onde pego os medicamentos, o clínico geral que me atende me disse que não tem permissão para trocar medicamentos psiquiátricos. Fui em um hospital e só tem vaga para o ano que vem, pois o pessoal já está de férias. Cadê a eficiência citada no comentário por essa pessoa? Essa pessoa só pode estar brincando, ou então não depende do SUS e nem assiste os noticiários da TV. Não deve ter noção do que é esperar uma consulta com um especialista, por exemplo. Na minha primeira viagem, há quase dois anos atrás, tive uma tendinite que me fez mancar por alguns meses. Ficaram de marcar uma consulta com o ortopedista e até hoje não me ligaram.... A pessoa do comentário, quando pega uma dengue,  será que vai para uma UPA para ser atendida no corredor e esperar cerca de doze horas? Ou será que o SUS é realmente eficiente, e eles estão me boicotando por criticá-los aqui no blog?( brincadeira, não estou tão paranoico assim....)
    Meu caso não é extremamente grave, mas é complicado e o sofrimento não deixa de ser menor por talvez eles acharam que estou estabilizado. Mas a verdade é que não existe a medicação contra a realidade deste mundo. Cada um escolhe a maneira de escapar dessa loucura toda. Não uso drogas , prefiro ficar no meu cantinho, e literalmente viajar assistindo filmes.
    Paranoias: elas não diminuíram , apenas me acostumei com elas e aprendi a ligar melhor com este mal que assola a cabeça de tanta gente.

Sincronicidade

    Meu mundo e nada mais
    Já que abordei o tema escapismo neste post, queria colocar a música "Além do Horizonte", do Roberto Carlos, ou então "Vamos fugir" com o grupo Skank. Mas no dia em que digitei este post e o arquivei como rascunho, resolvi baixar algumas músicas do Guilherme Arantes e do Flávio Venturinni.  De tarde, já no parque, comecei a ouvi-las e quase não acreditei quando rodou "Meu mundo e nada mais", do Guilherme Arantes. Tive que ouvi-la de novo para ver se era realmente verdade o que tinha ouvido. Era coincidência demais, com o que estou vivendo e passando. Ou seria a tal sincronicidade?

Quando eu fui ferido vi tudo mudar

Das verdades que eu sabia



Só sobraram restos e eu não esqueci
Toda aquela paz que eu tinha



Eu que tinha tudo hoje estou mudo, estou mudado
À meia-noite, à meia luz, pensando
Daria tudo por um modo de esquecer



Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto
À meia-noite, à meia luz, sonhando
Daria tudo por meu mundo e nada mais



Não estou bem certo se ainda vou sorrir
Sem um travo de amargura



Como ser mais livre, como ser capaz
De enxergar um novo dia

Link: http://www.vagalume.com.br/guilherme-arantes/meu-mundo-e-nada-mais.html#ixzz3Jm7mQFBR

sábado, 15 de novembro de 2014

A química do cérebro


                              Outubro negro
    Creio que o 10º mês deste ano tenha sido o mais difícil para a realização do meu projeto de voltar a ter o meu cantinho de volta. Finalmente consegui, depois de muito custo, adquirir a tão sonhada TV de LCD.
    Nessas andanças, sempre quando via uma tv dessas em qualquer lugar, logo me imaginava assistindo um belo filme deitado confortavelmente em uma cama. Quando lia nos jornais os filmes que iriam passar nos canais de TV, me dava um aperto no coração e uma enorme saudade do meu quartinho lá em Ipatinga! Mas não me arrependo de nada do que fiz. Essas andanças que fiz não tem preço, quer dizer, até que tem, e não foi tão caro, por dormir na barraca e assim economizar uma boa grana de hotel. Digo que o que não tem preço são as aventuras pelas quais passei, as pessoas que conheci e as paisagens pelas quais passei. Essas situações só aconteceram por que fiz o caminho a pé, na raça mesmo. Mas foi um sacrifício gostoso, uma coisa é se aventurar pelas br's, outra é sair pelas estradas de terra de Minas, onde geralmente encontramos uma água geladinha (seja da fonte ou das casas dos moradores), cachoeiras e gente para trocar dois dedos de prosa. Às vezes rolava um cafezinho, um biscoito, um bolo...
    Mas, voltando à TV, decidi que, para adquiri-la, teria que fazer um certo sacrifício neste mês de outubro, e abrir mão da broa de fubá, do pão de queijo e dos quitutes da culinária mineira. Ao receber o pagamento, fiz as contas, separei o suficiente para o almoço(o abrigo fornece a janta), comprei os sabonetes, o shampoo e então realizei o tão sonhado sonho de consumo.
    Mas não foi tão simples assim. Sabia que era dependente do açúcar, massas e outras gulodices para manter os níveis de serotonina em um bom patamar. Mas não imaginava que era tão dependente assim! Por causa dessa dependência, meus triglicerídeos já chegaram à casa dos 580mg, quando o máximo aceitável é 200mg. Mas, graças ao  ômega 3 e uma maneirada na comilança, consegui abaixar os níveis dessa indesejada gordura para 270mg, sem a ajuda da "milagrosa" sinvastatina.
quem não ficou com água na boca?

    Praticamente "murchei" sem as gulodices, neste mês. Emagreci dois quilos, parecia que eu estava doente. Desânimo total. Não aguentei, no final do mês abri conta em três padarias para comer algumas tortas de chocolate e broas. O desodorante acabou, e tive que comprar um fiado na farmácia. O cara não foi nada legal, parecia que estava me dando o desodorante e não me vendendo para pagar depois, nem me deixou escolher e me passou um que tem um cheiro muito forte. Por alguns dias fiquei na dúvida se o cheiro do meu suvaco não seria menos ruim do que o desodorante passado pelo farmacêutico.
desodorante Le Gambe
Pior do que isso
só o seu cecê
    Ainda bem que não estou na cidade onde tive os surtos, pois certamente iriam dizer que eu estava com aids. Eu estava me sentindo tão mal fisicamente que cheguei a pensar que uma mulher que fez uma oração para mim, era, na verdade, uma pessoa do mal. Eu estava na estação do metrô São Gabriel, quado ela apareceu de repente e me perguntou se eu queria uma oração. Respondi que sim, e ela me pediu para estender a palma das mãos. Ela colocou sua mão sobre a minha e fez uma silenciosa oração, não dando para entender o que dizia. Depois foi embora rapidamente. Na hora não achei estranho, mas depois percebi que ela não fez como os demais evangélicos, que costumam conversar um pouco com a gente. Então, assim que comecei a ficar irritado com a abstinência do chocolate e outras bobeiras, comecei a pensar que essa senhora tivesse feito algo de mal, rogado uma praga contra mim, sei lá... Fiquei me culpando por ter confiado em uma pessoa estranha e pedi para Deus que me protegesse das pessoas que fazem esse tipo de coisa. Agora estou com mais uma paranoia, não irei deixar qualquer pessoa fazer oração para mim, a não ser que esteja em uma igreja.
    Fiquei um pouco "bolado" aqui em BH, pensando que as pessoas talvez estivessem pensando que eu estivesse usando drogas, mas precisamente o crack. Mas a única droga com que estou me envolvendo ainda é o meu time, que atualmente não ganha de ninguém. Já tentei parar de torcer, mas não consigo. O máximo que consegui fazer é deixar de ser fanático, mas fico triste quando ele perde, apesar de saber que, mesmo depois da derrota, os jogadores irão para uma churrascaria ou então para o conforto de suas casas, isso quando não caem na balada. E eu continuarei aqui no abrigo, às vezes até sem dormir, por que as noites por aqui costumam ser agitadas...
    Voltando à química do cérebro, gostaria de dizer que a felicidade não é apenas estar com os níveis da serotonina dentro dos padrões. É um conjunto de fatores, que não irei me estender, pois não me julgo capaz de definir o que é a felicidade, se é que existe uma definição única, ímpar, para esse estado de espírito. Vejo pessoas felizes com tão pouco e muita gente infeliz com muitos bens materiais. Mas, por experiência própria, se a química do cérebro não estiver ok, a pessoa pode ser milionária que não achará graça em nada, nem em seu iate de não sei quantos mil dólares... O dinheiro irá apenas amenizar a situação. Prefiro ficar triste e deprimido em uma bela casa de praia do que em um albergue ou até mesmo nas ruas.
    Com a TV comprada, falta pouca coisa para se concretizar o projeto Meu quarto Minha vida. As andanças deixaram de ser um prazer quando comecei a juntar dinheiro. Já são quase dois anos com a mochila nas costas. O primeiro ano foi o máximo, o vento na cara, a sensação de liberdade, dormir onde quiser e não ter que pagar aluguel... Poder planejar as viagens... Mas o cansaço foi tomando conta de mim, afinal não sou mais um garoto. Mas, pior do que as dores físicas é o preconceito. Dói demais ser confundido com um malfeitor, eu que sempre procurei ser uma pessoa correta(não um santo, mas ético, pelo menos). Hoje só devo o banco, que não quis negociar a dívida do cartão.
                                                             
    Mas agora o que tenho que fazer é esperar e ter muita paciência apenas. Nada de viagens, meu pé esquerdo já está um pouco detonado por causa do peso da mochila. O jeito é ficar quietinho, lá no parque, mas os dias parecem intermináveis. Outro dia, uma menina, ao me olhar, disse para sua irmãzinha que se aproximava de mim:
    - Cuidado com o doido!
    A menina começou a chorar e deu meia volta, ao encontro de seu pai.
    Ri da situação. Na verdade fico ofendido se me chamarem de normal. Estou com os cabelos compridos, barba por fazer e com a mochila nas costas A menina talvez tenha ouvido a história do homem do saco. Mas isso não tem o menor problema para mim, ser taxado de louco em uma sociedade que nem sabe cuidar do planeta onde vive. Às vezes penso, quando alugar um quarto, andar extremamente bem arrumado, para não ser mais chamado de doido, mendigo ou andarilho. Mas, penso um pouco e chego à conclusão de que isso não pode ser uma boa ideia. Andar bem vestido poderia chamar a atenção dos meliantes, e nem pensar em comprar smartphone da samsumg. Me lembro que, quando era rockeiro, escapei de um assalto quando os larápios viram minhas calças rasgadas de metaleiro. Só faltou os caras me darem uns trocados..
Se correr o bicho pega, se correr o bicho come...




sábado, 8 de novembro de 2014

Eu que sou doido?


    Gostar de mais faz mal?
    O Chimbinha se apegou tanto a minha pessoa que acabou se tornando um grande problema para mim. 
    Logo de manhã, quando chegava ao parque ecológico, ele vinha alegremente correndo em minha direção, como se estivesse me dando um bom dia. Ele não sossegava enquanto eu não o acariciasse e brincasse com ele um determinado tempo. E parecia que ele tinha anotado esse tempo em sua cabeça, pois, no dia em que eu não estava a fim de muita conversa, eu apenas passava a mão em sua cabeça. Mas ele não se contentava e eu tinha que fazer sempre o mesmo ritual: brincar bastante, fazer cócegas em sua barriga e ainda lhe dar um pão(tinha que ser novo, velho ele não come) Se não fizesse o ritual, ele nem me deixava ler o jornal. 
    Mas, com o tempo, ele acabou mostrando o quanto é ciumento e possessivo. Na minha companhia, enfrentava cachorros bem maiores do que ele, e não deixava mais ninguém se aproximar. Quando estava longe de mim, tinha até medo de filhote de poodle. 
quem tem medo do Chimbinha?
     Com o tempo a coisa foi piorando. Qualquer pessoa que se aproximasse do seu território demarcado, ele corria atrás e latia muito. Claro que eu sei que ele não iria morder ninguém, o dog estava apenas querendo demonstrar quem manda no pedaço. Quando eu estava viajando pela estrada real, não raramente um bando de cachorros saia das casas nas estradas de terra e iam em minha direção. Eu apenas ficava calado e continuava a caminhada e nunca fui mordido por nenhum cachorro.
     Além de tudo, o Chimbinha não é grande e é magrinho, mas nem todo mundo tem noção de psicologia canina. Tive que ouvir várias reclamações, pois todo mundo que frequenta o parque pensa que eu sou o dono do animal. Até quando ia ao banheiro ele me acompanhava. É um cachorro diferente, olha bem nos olhos da gente. Não sei se é loucura minha, mas chego a pensar que ele está querendo me dizer algo. 
   A situação ficou tensa certa manhã, quando um cara, de uns 50 anos ficou uma fera com a latição do Chimbinha e acabou pegando uma pedra enorme do chão:
    - O senhor está com medo de um vira latas desse tamanho? - perguntei.
    Essa simples indagação foi o suficiente para o cara explodir e descarregar toda a sua raiva em mim. Não me lembro de tudo o quanto fui xingado, mas não foi pouco. Mas ele não conseguiu o que queria, que era me deixar irritado também. O máximo que fiz foi pegar também um pedaço de pedra, para fazer o mesmo que ele estava pensando em fazer: usar a ignorância e a violência. E a verdade é que ele tinha algo de ruim guardado dentro de si, e queria descarregar tudo no cachorro e em mim também. 
    Apenas continuei ouvindo a sua xingação, e, como naquele dia estava extremamente bem humorado, pedi para que ele fizesse o que o levou ao parque: exercícios físicos, pois a sua barriga estava bastante saliente. 
    Dias depois algo aconteceu que me fez mudar de opinião sobre o Chimbinha: ele correu atrás de uma criança. Cachorro tem esse instinto de sair correndo atrás de tudo que se move, até de carros e motos, não sei com qual finalidade eles tentam morder os pneus dos veículos. Percebi que o negócio poderia ficar sério e dei uns tapas nele. Mas não adiantava, ele demarcou o território e se achava o dono da área. Falei para o pessoal do parque sobre a situação, mas em vão. Eles apenas recomendaram a dizer para as pessoas que o animal não era meu. Cheguei a sugerir que o levassem para a sociedade protetora dos animais, mas não deram muita atenção. 
os cães latem para demonstrar que não estão satisfeitos com a presença de estranhos na sua área

    Então, quem seria responsável caso o Chimbinha mordesse uma criança, por exemplo? O parque, por saber da situação e não tomar nenhuma providência, ou eu, por simplesmente alimentar e brincar com o animal? Os guardas municipais não são contratados para manter a ordem a segurança do patrimônio público?
   Claro que a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco e senti que tinha que tomar providências. Nessa hora me perguntei se era eu quem tinha realmente um transtorno mental... Me considero mais responsável do que os responsáveis pelo parque e decidi que tinha que arrumar alguma maneira do Chimbinha desgostar de mim. 
    Passei a não dar mais comida para ele, pensando que talvez fosse apenas um cachorro interesseiro e faminto. Mas me enganei, ele queria mesmo era a minha companhia e o meu carinho, permanecendo sempre ao meu lado enquanto estivesse no parque, me acompanhando até a saída. Ele continuou a latir para as pessoas que entrassem em seu território, ainda mais quando eu estava por perto. 
    Tive que ser forte, e, a contragosto, dei umas chineladas no Chimbinha. Descarreguei um pouco de minha raiva também. Raiva por não ter condições para mal me sustentar e alugar um barracão e ter um animal de estimação. Ele se afastou de mim, mas logo depois, aos poucos, bem de mansinho, se aproximou novamente de mim, como o seu olhar de "pidão". 
    Já estava cansado e estressado de ter que explicar a todos que ele apenas latia e que não era o dono dele. O jeito foi dar umas palmadas mais fortes e dar uma correria atrás dele. 
     Este método funcionou, e o Chimbinha passou a ter medo de mim. Mas em poucos dias ele ficou mais magro, triste e muito mais medroso do que antes. Mas eu não tive outra alternativa. Agora ele anda escondido no mato, e raramente aparece em seu território demarcado. 
   Depois do medo inicial, ele agora está apenas com receio de se aproximar de mim. Mas continua a me olhar nos olhos, como se quisesse me pedir desculpas, ou algo parecido. O Chimbinha tinha uma coleira e parecia ter um dono, talvez por isso seja tão dependente de uma pessoa. Ele não é como a maioria dos vira latas que já nascem nas ruas e sabem se virar. Nos dias de chuva ele fica desolado e tremendo de frio, enquanto os outros cachorros brincam descontraidamente no parque, não se importando com a água que cai do céu. 
    Às vezes me dá vontade de me aproximar dele, mas sei que, se fizer isso, tudo vai começar de novo. Ai sou eu quem olha para os seus olhos, dizendo:
    - Chimbinha, seja forte, eu não posso te adotar, e com o tempo você vai aprender a se virar como todo cachorro de rua. Infelizmente você é um SRD(sem raça definida) e dificilmente será adotado, apesar de toda a sua fidelidade. Mas, em compensação terá a liberdade de ir para onde bem quiser.
    Vejo o cachorro de algumas madames. São lindos, pelos lisos, tomam banho com xampu e condicionador. São obedientes, mas seus olhos demonstram tristeza....

-obs: escrevi este post há uns sete dias atrás. Aos poucos o Chimbinha foi se aproximando de mim. No começo nem olhava para ele, mas, com o tempo, acabou me seguindo de novo. Não tenho coragem e não sou mal para dar uma surra nele para que se afaste de mim. Não resisti e dei comida para ele novamente e agora voltou com a latição de novo. Já ameaçaram o pobre dog de morte e não sei o que fazer. Conversei novamente com os guardas municipais do parque e a resposta foi a mesma: "diga que o cachorro não é seu". Quero ver se o pai de uma criança irá compreender a situação e não me xingar de tudo quanto é nome, isso se não querer me agredir. O que você faria nesta situação? 

sábado, 25 de outubro de 2014

Esquizofrenia: deficiência ou não?

 
      Não tenho a pretensão de, neste post, definir se a esquizofrenia é uma deficiência ou não. Não me julgo capaz para tal ato, mas creio que tenho o direito de dizer o que penso e sinto sobre esse assunto tão controverso, ainda mais quando a questão do passe livre é discutida.
    Em Ipatinga-MG, por volta do ano de 2007, consegui o passe livre sem maiores problemas e quase nenhuma burocracia. Compareci no dia marcado no posto de saúde, o médico apenas conferiu o laudo e os documentos e depois me deu a concessão parar ir à empresa de ônibus que administra o trasporte coletivo da cidade. 
    Já em São Paulo, tentei em diversos lugares, mas sem sucesso. Na capital paulista o passe livre, que é chamado de bilhete único especial, é válido em todo o estado, ou seja, ele é municipal e intermunicipal.
    Logo nos primeiros dias de São Paulo fui à um Caps, próximo do abrigo Arsenal da Esperança, a fim de renovar o estoque de diazepan. Em relação ao antipsicótico até hoje não sei o que fazer, não decidi se tomo ou não tomo, às vezes sinto que é necessário, e outras vezes sinto que é urgentíssimo usar. Quando estou sozinho, não vejo tanta necessidade de tomar esses medicamentos.
afinal, quem não enlouquece e não se estressa com um trânsito desses?

    Estava um pouco assustado com todo o stress e correria de São Paulo e senti que era preciso voltar a tomar a cloprormazina, para, pelo menos, dar uma sossegada até me acostumar com Sampa.
    Fui atendido por duas mulheres que me fizeram um enorme interrogatório, um pouco cansativo e também muito chato, por ter que reviver com alguns detalhes os surtos psicóticos que tive.
    Depois da longa entrevista, que é chamada de acolhimento, uma das mulheres me perguntou onde eu morava. Quando respondi que estava ficando na Mooca, simplesmente ela me disse que não poderia fazer nada por mim, pois não estava no Caps da área de abrangência. Mas por que ela não me perguntou o meu endereço antes de começar a conversa?
    Ela então me deu o endereço de um outro Caps, localizado no bairro Bela Vista, muito mais distante deste primeiro que fui, que era na praça da Sé, em que tinha que pegar apenas o metrô da linha vermelha. Já no bairro Bela Vista eu teria que pegar dois ônibus, gastando a quantia de doze reais. Oras, que área de abrangência é esta? Depois eu que sou o doido...
    Então, no dia seguinte, logo cedo, depois de muito perguntar, consegui achar o tal bairro Bela Vista. São Paulo é uma cidade com enorme extensão territorial( não quis dizer cidade grande, hoje "tô" com os níveis de serotonina altos, pois acabei de tomar um toddynho e comer uma broa). Além disso, os paulistas não são tão solícitos na hora de dar informações, como os mineiros, que só faltam desenhar um mapa para ter a certeza que a pessoa chegará ao destino desejado. Já estava ficando irritado com tantos "não sei", até encontrar um taxista gente boa, que, após procurar no mapa, me indicou quais linhas de ônibus deveria pegar para se chegar ao Caps do Bela Vista.
    Bem, chegando lá, fui atendido por uma mulher que logo começou a fazer o interrogatório novamente. Estava cansado de tanta dificuldade para se pegar um simples diazepan e fui um pouco rude com ela:
    - Não tem jeito de me dar esse remédio sem essa burocracia toda?
     Ela ficou séria, a sensação que nos passam é de que um esquizofrênico não pode ficar irritado por que corre-se o risco de ter o local totalmente destruído. Ela então disse que eu poderia frequentar o Caps e ficou balançando a carteirinha do passe livre, como que dizendo:
    - Olha o que vou te dar se você vier aqui!...
    Recusei o passe livre, pois, naquele momento só queria ter o diazepan e voltar a tomar a cloprormazina , pois sentia que poderia surtar dentro de algum tempo, por não ter me adaptado à São Paulo. Disse a ela que iria frequentar o futebol, apenas para encerrar a conversa e ir embora.
    Três meses depois, já mais calmo, voltei ao mesmo Caps. Fui atendido por uma psicóloga, que me fez o tradicional interrogatório de acolhimento. Engraçado quando nos tratam quando chegamos à um Caps tranquilo, calmo, mais ou menos arrumado e com o cabelo mais ou menos penteado. Os funcionários olham entre si com que a perguntar:
    - O que esse cara está fazendo aqui, ele é normal, não precisa de remédios!
    Parece que esses funcionários e alguns profissionais baseiam seus diagnósticos apenas na aparência física da pessoa, eles não acreditam que uma pessoa possa estar extremamente perturbada e ainda assim estar se vestindo adequadamente e estar conseguindo esconder suas emoções.
    Desta vez, respondi todas as perguntas com tranquilidade, pois já estava mais adaptado à cidade, quer dizer, já tinha me acostumado com a louca correria dos paulistanos. Mas foram tantas perguntas que até pensei se ela não estava pensando que eu estava fingindo ter esquizofrenia apenas para obter o passe livre.
    No final da entrevista, ela me disse que não era preciso ser atendido no Caps, pois eu estava estabilizado. Ou seja, eu não teria direito ao benefício, pois o mesmo só pode ser preenchido por médico especialista, o psiquiatra. Então, se eu der um "piti" eu consigo o passe? Pois na primeira vez iria conseguir o benefício por ter sido apenas ríspido com a atendente. Às vezes somos tão mal atendidos no SUS que só alterando o tom de voz para sermos atendidos. Se chegarmos com educação e humildade, o máximo que ouviremos é um simples não. Estou cansado de ver mães dando piti para que seus filhos sejam atendidos...
    Desisti então de conseguir o passe livre. A minha intenção em São Paulo era dar um tempo para pagar os meus empréstimos e voltar a alugar um cantinho em Belo Horizonte. E, para dar esse tempo, eu teria que ocupar o meu tempo, para não ficar gastando todo o meu dinheiro(todo? até parece...) com bobagens, que no meu caso, não são tão bobagens assim. Sinto que o chocolate, as massas, o açúcar me dão a famosa sensação de bem estar. A sensação quando não como estes alimentos é a de que estou murchando. Irei fazer o exame de serotonina para ver no que vai dar. Se a serotonina estiver baixa, irei tentar alguma alternativa natural e, se não der resultado, ai sim partirei para um medicamento.
    Então, sem o passe livre, fiquei em São Paulo, retirado em parques e bibliotecas. Isso foi bom, pois, no silêncio que tive, pude dar uma boa revisada no livro Mente Dividida, já mais experiente na arte de escrever, com as postagens do blog. Creio que o resultado ficou bom, para adquirir é só seguir as instruções ao lado.
    Voltando ao assunto, eu não aguentei muito tempo ficar sem fazer nada, estava me sentindo um estrangeiro na capital paulista. Tentei novamente o passe livre, desta vez no Caps Itapeva, mas novamente me alegaram que eu estava estabilizado e só seria necessário ser atendido em uma unidade de saúde. Para piorar, o cara me fez duas entrevistas, em dias diferentes. No segundo dia, estava acompanhado por uma psiquiatra não muito simpática, que me olhava com ar de superioridade e sempre ficava me questionando:
    - Qual remédio você toma?
    - Tomo 0.5mg de risperidona, é o máximo que aguento tomar - respondi.
    - Ah! Mas essa dose não faz efeito!
   - Então por que essa dose é vendida nas farmácias? - perguntei.
    Percebi que ela ficou meio sem graça e pediu para sair da sala. Ela disse que a risperidona dá pouco sono. Essa afirmação me deu a certeza de que estava ela pensando que eu estava mentindo. Creio que o mal de alguns profissionais da área de saúde seja pensar que todos os pacientes são iguais, e que a mesma dose deva ser aplicada a todos, já que supostamente o  efeito será o mesmo. Acho que deve ser levada outras questões, como as condições de saúde do paciente, por exemplo. Algumas pessoas, por natureza são mais agitadas do que a outra. O inverso também acontece. Já me disseram nos comentários que talvez eu seja um paciente com metabolismo lento(ou algo parecido) e que doses baixas dos medicamentos para mim já bastam.
    Depois do Caps Itapeva, tentei mais um outro, não me lembro o nome do bairro. Fui bem atendido desta vez, mas a resposta foi quase a mesma: A atendente disse que eu não precisava do Caps por "saber" fazer as coisas...
   Agora, vou tentar o passe livre aqui em Belo Horizonte, apesar de descobrir que vários portadores amigos que tenho não conseguiram. Mas conheço um cara, que está estabilizado, que conseguiu.
   A minha pergunta é essa: será que o esquizofrênico estabilizado não tem direito ao passe livre?
   Será que não temos o direito de frequentar um Caps, ir a um Cersam, ou um centro de convivência? A passagem de ônibus não é barata e grande parte dos portadores não é aposentada, e, quando são, geralmente ganham um salário mínimo, como é o meu caso.
    Será que não sofremos por controlarmos as nossas emoções e não quebrarmos as "coisas"? Será que estamos realmente bem, para não podermos procurar algo para ocupar a nossa mente? Será que só quem tem déficit mental é que tem direito ao passe livre? Às vezes me pergunto se não seria bom voltar a ficar fora da realidade, como no primeiro surto, pois, depois que o pior já havia passado, eu conseguia dormir nas ruas, sem ter medo e não me preocupava com nada.
    Olhem o decreto federal que dá direito ao passe livre as pessoas com deficiência: (esse é interestadual, mas os outros são bem parecidos na questão da deficiência mental:

-IV- deficiência mental- funcionamento intelectual significativamente inferior a média, com manifestação antes dos dezoito anos e limitações associadas a duas ou mais áreas de habilidades adaptativas, tais como: comunicação, cuidado pessoal, habilidades sociais, utilização dos recursos da comunidade, saúde e segurança, habilidades acadêmicas, lazer e trabalho. 

    Oras, a lei para mim é bem clara, apesar de crer que eu não tenho o funcionamento intelectual significativamente inferior a média. Mas, e o resto? É óbvio que, o esquizofrênico, mesmo que estabilizado, tem sérias limitações nas áreas citadas acima, como:
- comunicação: no meu caso, em particular, não é raro de, em alguns dias, no final da noite, conseguir contar as palavras que saíram dos meus lábios.
-utilização dos recursos da comunidade: o que eu mais uso é um parque ecológico, onde eu posso ficar sozinho a maior parte do dia.
- lazer: ai nem se fala, acho que dificilmente alguém irá me ver em algum show, cinema, teatro, etc. Para se ter uma ideia, eu nem fui ao show do Yanni quando ele esteve em São Paulo. Cheguei a ir ai ginásio do Ibirapuera, na parte da tarde, para ver se eles iriam ensaiar ou passar o som. Estava com dinheiro para o ingresso, mas acabei não me sentindo bem e fui embora. Hoje em dia, com a evolução dos sistemas de sonorização, já não é preciso ficar passando o som com tanta frequencia e o Yanni não apareceu de tarde.
- trabalho: muitos podem pensar que não gosto de trabalhar. Mas gostaria de dizer que trabalhei como operador de som dos 17 aos 34 anos, que foi o meu limite, pois comecei a surtar por volta dos 32 anos. O trabalho era o meu lazer, pois gostava e muito do que fazia. Hoje já não suporto multidões e som alto.
    Se analisarmos a lei, eu e a maioria dos portadores de esquizofrenia teria direito ao passe livre. Não quero o benefício para ir a um show de pagode ou funk, sou esquizofrênico mas não sou, sei lá.... Gostaria de ter alternativas para ocupar a minha mente. Mas por que não consigo então? É preciso ter um grande déficit mental, ter aparência estranha ou algo parecido?
   Já em BH, quando conversei com uma assistente social, ela me disse que iria marcar uma entrevista minha com um funcionário da BHtrans, que gerencia o transporte coletivo na capital mineira. Ela me disse: " É lá que você vai ter que provar que..." Ela não terminou a frase. O que ela quis dizer? Eu teria que provar que sou um louco? Como se prova isso? Eu teria que quebrar alguma coisa, falar coisas desconexas?
    Na minha opinião, essa lei deveria ser mais clara, e dar direito aos estabilizados, porém não curados, de ter uma possibilidade de melhorar a qualidade de suas vidas. Somos rotulados somente na hora da discriminação, na hora de requerermos nossos direitos dizem que não temos nada. A discriminação é tanta que nem existe lei na questão do emprego para portadores de esquizofrenia, o que existe em outras deficiências, sendo que o preconceito é muito maior para quem tem o transtorno da mente dividida.

-obs: gostaria de dizer que, por questões de economia de dinheiro, não estou acessando a internet com tanta frequência, e não está dando para conversar com todos que me procuram pelo email.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Exame de serotonina

    Recentemente uma leitora do blog postou um comentário afirmando que sua serotonina estava baixa, em torno de 6, quando o mínimo aceitável é 50. Fiquei intrigado e perguntei como ela sabia dessa informação. A resposta veio no mesmo dia: ela afirmou que foi através de um exame de sangue.
    Pesquisei no Dr. Google e constatei que esse exame realmente existe. Lembro-me que, por volta do ano de 2005 cheguei a perguntar  à um psiquiatra como eles descobriam que uma pessoa tinha realmente uma depressão. Ele me respondeu afirmando que o diagnóstico era feito baseado no relato do paciente, pois a serotonina era fabricada no cérebro e não circulava pela corrente sanguínea.
    Hoje, depois dessa descoberta, inúmeras dúvidas tomaram conta de minha cabeça. Se esse exame consegue realmente analisar os níveis de serotonina, por que então ele é pouco conhecido?
   A maioria das pessoas que têm depressão desconhecem esse exame, pelo que pude perceber, ao fazer a pergunta para alguns amigos virtuais e pessoalmente também.  Faço esse questionamento por que hoje em dia muita gente confunde tristeza com depressão. Qualquer fato negativo é motivo de se ir ao médico e começar a usar as famosas pílulas mágicas da felicidade. Eu mesmo experimentei a sertralina em um momento difícil de minha vida. Tive uma sensação que não sei se foi uma melhora de verdade. Na época estava triste por um motivo real, pois o local onde morava estava sendo tomado pelo crack. Com o medicamento notei que estava rindo de algumas coisas que não deveria achar graça, como os programas de domingo à tarde.Será que eu estava  me tornando mais imbecil do que já sou?
   Quando tomei a fluoxetina pela primeira vez, me senti super feliz e disposto, mas creio que foi o efeito placebo mesmo. Para mim, naquela época, esse medicamento era uma pílula milagrosa que nos trazia a felicidade, estava ainda no seu auge e era mais conhecida como Prozac. Já na segunda vez que usei, algum tempo depois, não senti nenhuma diferença.
    Voltando ao exame, me pergunto por que os médicos não o utilizam já que os consultórios hoje em dia estão lotados de pessoas se queixando do mal que é um dos que mais afastam as pessoas do trabalho..
Eu mesmo consegui a receita da sertralina em apenas alguns segundos, sem maiores questionamentos do médico, um clínico geral apressado e que costumava errar muito na hora de preencher as receitas. As consultas demoravam em média menos de dois minutos, como se pode ver no vídeo abaixo.
    No momento estou numa moleza de dar dó, não acho graça em nada e estou triste, esta é a verdade. Talvez seja os tais sintomas negativos da esquizofrenia também. Mas creio que não seja tão difícil descobrir que estamos tristes de verdade. Basta analisarmos os fatos, ou será tão complicado isso? No momento não estou morando em um local saudável, o papo no abrigo é deprimente, só se fala em drogas, comida e outras coisas que não me acrescenta em nada. Qualquer coisa pode ser motivo de brigas, basta o cara não estar em um bom dia. Isso não vem ao caso, mas tudo isso me deixa muito triste. O que tenho que fazer então? Sair desta situação o mais rápido possível. Falta pouco para atingir o meu objetivo e finalmente morar sozinho no meu canto. O meu objetivo é comprar algumas coisas antes, mas o principal é ter a paz que sempre tive. Não posso reclamar, eu entrei nesta situação e agora tenho que aturar certas coisas e conseguir sair desse jogo. Como disse anteriormente, a minha vida está parecendo uma espécie de vídeo game, onde tenho que ter muita paciência para ir avançando de fase até alcançar o objetivo final. A fase final é sempre a mais difícil, os dias demoram por demais a passar.
    Então, analisando os fatos, sei que estou triste e desmotivado e provavelmente não tenho depressão, e sim os sintomas negativos da esquizofrenia. Não vai ser uma pílula diária que irá me dar a felicidade. A sertralina não irá acabar com a discriminação contra um cabeludo mochileiro que anda de chinelos
ipanema( é melhor e mais barato do que o havaianas, pode confiar). O antidepressivo também não vai fazer com que eu ache graça nas conversas da maioria dos abrigados. Agora tenho que esperar até as oito e meia da noite, para assim entrar em um quarto mais tranquilo e poder dormir. Os caras mais agitados entram bem mais cedo. A maioria não trabalha e por isso ficam até tarde da noite gritando e fazendo zoeira. Eu, quando tinha energia de sobra, procurava gastá-la fazendo caminhadas e praticando esportes, mesmo quando trabalhava o dia inteiro. Felizmente nem todo mundo do abrigo é assim, tem muita gente boa por lá.
    O que ocorre com a tristeza pode ocorrer com a falta de sono. Os pans da vida não irão pagar suas dívidas ou resolver os problemas que estão atrapalhando o seu encontro noturno com Morfeu.
    Então, pensem bem antes de tentar um antidepressivo e medicamentos para dormir. E, se o exame for realmente eficaz, creio que ele deva ser divulgado para um maior número de pessoas possível. Ou será que existe um interesse em vender um maior número de medicamentos possível?

sábado, 27 de setembro de 2014

Missão quase impossível?

 
    A coisa está tão complicada que estou cogitando ir à igreja de São Judas Tadeu, o santo das causas impossíveis. Estou tão deprê que penso que esse lance de inferno astral não é realidade mesmo. A tristeza, aliada à mania de perseguição, me faz pensar se alguém não colocou algo em minha comida para me envenenar. Já deixei de frequentar certos lugares, e presto muita atenção quando peço algo em um estabelecimento: quando como um pão com manteiga, sigo sem desgrudar os olhos as mãos da balconista.
    Penso em voltar a tomar a sertralina, mas não quero ficar dependente de remédios. Usei esse medicamento uma vez, e me lembro que deu até um resultado. Certo domingo me peguei achando graça naqueles programas que passam de tarde, parecia que estava usando alguma droga para ficar feliz. O momento é complicado, estou ciente disso, e sei que antidepressivo não vai resolver estes problemas de origem financeira. Morar em albergue tem a vantagem de não se ter muitas despesas, mas não adianta se não temos liberdade e paz. A galera que fuma no abrigo fica uma fera quando os descobrem, ficam tentando achar o "caguete", mas não admitem que vacilaram, pois este abrigo tem até guarda municipal. Outro dia disse para o cara não dar bobeira, pois se o guarda não descobrir quem estiver fumando, todo mundo do quarto tem que dormir na rua. Ou seja, por causa de um fumante todo mundo tem que dormir na pista, no relento... E esses caras quando são pegos na maioria não assumem, e ai o barraco tá formado... Para mim, podem fumar a vontade, mas que segurem a onda e sejam homens.
o santo das causa impossíveis
    Mas voltando ao início, fui a igreja de São Judas Tadeu quando tinha por volta de uns sete anos. Estava lotada, deveria ser o dia dele. Em uma sala, as pessoas depositavam algumas provas de seus milagres: geralmente cartas ou então réplicas  de membros para simbolizar a graça alcançada, dentre outras coisas.
    Quando cheguei em frente da imagem, a minha madrinha me pediu para colocar uma fitinha na testa e fazer um pedido:
    -Quero passar de ano... - foi o que surgiu em minha mente naquele momento.
    Na verdade, não tinha muito o que pedir: não faltava bola para brincar nas ruas, jogava war e banco imobiliário na casa dos muitos amigos que tinha, principalmente no prédio vizinho. Alguns moradores chegaram a pensar que eu morava no prédio, pois não saia de lá. Ah! E jogava também Atari, que era o vídeo game sensação da época.
Do you remember? 

     Não precisava pedir proteção para o santo, afinal o mal só existia para mim nos filmes de terror. Até o Drácula naquela época não era tão ruim assim. Ele só queria um pouquinho de sangue, de preferência de uma linda mulher, e, em troca lhe dava a juventude eterna. Quem se arriscaria? shasuahsuashuashs
     Então, passar de ano foi o único pedido que fiz, não gostava de estudar, só fazia isso o suficiente para não tomar bomba.  Hoje sei que isso não é nada legal, ainda mais quando nos é dado a chance de se estudar em um colégio particular aqui no Brasil.
    Hoje, penso em voltar a essa igreja, mas os pedidos seriam muitos: saúde mental e física, bens materiais, proteção contra os inimigos, etc... Esse seria o primeiro pedido:
    - Livrai-me da esquizofrenia...
    O segundo seria:
    - Livrai-me dos inimigos...
    Ai paro para pensar. Que inimigos? Os que eu tenho de verdade ou os que eu imagino ter? Teria que mudar o pedido, para saber distinguir o que é coisa de minha cabeça da realidade...
     Acho que esse caso nem São Judas Tadeu resolve...
    Deixa para lá São Judas, se livrar o meu time da segunda divisão já está de bom tamanho...
Em breve irei publicar e imprimir um livro contendo os posts mais acessados e comentados do blog, juntamente com os que eu considero os melhores. Quem se interessar é só entrar em contato por email:
juliocesar-555@hotmail.com
O preço ainda não tenho ideia, ainda não tenho certeza de quantas páginas será o livro.

-obs: hoje em dia não tenho religião, tenho a minha crença e respeito a opinião de todos.

Você Se Lembra? 
Nós nunca falamos sobre isso, mas ouço que a culpa foi minha
Eu ligaria para pedir desculpas
Mas eu não queria desperdiçar seu tempo
Porque eu te amo, mas não consigo suportar mais
Tem um olhar que eu não consigo descrever em seus olhos
Se nós tentassemos, como tentamos antes
Você continuaria a me dizer aquelas mentiras?
Você se lembra?

Parecia que não tinha jeito de fazer as pazes
Porque parecia que você tinha tomado sua decisão
E o jeito que você me olhou me disse
É um olhar que eu sei que jamais esquecerei
Você poderia ter vindo pro meu lado
Você poderia ter me deixado saber
Você poderia ter tentado ver a distância entre nós
Mas parecia longe demais para você percorrer
Você se lembra?

Durante toda a minha vida
A despeito de toda a dor
Você sabe que as pessoas são estranhas as vezes
Porque elas apenas não esperam se machucar de novo
Me diga, você se lembra?

Existem coisas que não vamos recordar
E sentimentos que nós nunca acharemos
Está demorando tanto para ver isso
Porque nós nunca pareciamos ter tempo
Havia sempre alguma coisa mais importante para fazer
Mais importante para dizer
Mas "eu te amo" não era uma dessas coisas
E agora é tarde demais
Você se lembra?


Link: http://www.vagalume.com.br/phil-collins/do-you-remember-traducao.html#ixzz3EWLhFbFP

sábado, 20 de setembro de 2014

Divagações esquizofrênicas


As pancadas que a vida nos dá


  
futebol, crimes e fofocas sobre famosos, essa é a fórmula do sucesso do jornal...
   Estava meio pra baixo(totalmente, para falar a verdade) quando vi a frase acima em um jornal que costumo comprar, aqui em Belo Horizonte. Ele custa apenas 25 centavos, até que tem algumas coisas interessantes, mas não foge muito do formato que atrai a maioria das pessoas: tragédias, futebol e fofocas de famosos, principalmente mulheres.
    Tirando as fofocas e os crimes, até que dá para se ler alguma coisa: cultura, notícias interessantes e as palavras cruzadas de nível de dificuldade médio.
     Incrível como as palavras tem uma força, um poder invisível e às vezes invencível de nos motivar ou nos afundar mais ainda. 
    Acho que fiquei uns 15 dias nesta fase meio down. Às vezes chego a pensar que sou bipolar. Nem participei do campeonato de futebol entre os "cersams" de Belo Horizonte. Estava muito animado para participar, incentivei a galera para treinar para não fazer feio, mas, no dia da primeira partida estava mais sem graça do que o vilão quando cai o pano. Sou fominha de bola, jogo até me esgotar completamente, mas, quando bate esse desânimo... Semana passada nem pensei em publicar um post. 
    Meu estado de ânimo muda tanto e com tanta facilidade que procuro evitar de marcar compromissos. Há alguns anos atrás um psiquiatra que me atendeu em uma certa emergência chegou a me indicar o lítio. Mas o que me acompanhava normalmente disse que não era necessário. Hoje sei que a esquizofrenia e a bipolaridade tem alguns sintomas em comum e que não é raro o mesmo paciente ter diagnósticos diferentes. 
    Mas, voltando à frase, quando a vi me lembrei do momento em que tentaram me roubar o notebook em São Paulo. Eram três caras: um me derrubou por trás e os outros dois ficaram chutando a minha cabeça. Se reagisse, provavelmente perderia o note. A solução que encontrei foi me encolher como um tatu bola e ver até quando iria aguentar as pancadas, até quando iria resistir. Os caras estavam quase desistindo e, para minha sorte apareceu um senhor de idade que sacou algo de seu bolso e que assustou os meliantes. Se era um celular ou um revólver, não sei dizer... Quase não havia policiais nas proximidades, era dia de jogo de copa do mundo no Itaquerão, e a polícia estava trabalhando para a fifa protegendo os gringos... 
    Não recomendo à ninguém que faça o mesmo. Mas é difícil entregar assim com tanta facilidade algo que conseguimos comprar com tanto esforço. O negócio hoje está tão complicado que daqui a pouco rico vai ter que se fantasiar de pobre para não ser incomodado.
    Quando morava em Ipatinga, resolvi comprar um PC ao invés de um notebook. "Assim o ladrão vai ter  mais trabalho na hora de praticar seus delitos, por causa do monte de fios... " pensei. 
    Hoje em dia minhas compras estão condicionadas aos ladrões. Hoje tenho um celular bom, mas simples. Ele não é touch e não é da Samsumg, o preferido dos assaltantes. Tinha um com tv digital e era touch, mas, certa noite, quando dormi com o rádio do aparelho ligado, um @#$%  cortou a minha barraca e o levou embora. Nem pensei em correr atrás do meliante, até eu abrir os quatro zippers da barraca... 
    Hoje, com esse celular a minha preocupação é menor. Percebo que ele não atrai tantos os olhares da galera como o anterior, que custou bem mais caro. Também já passei da fase de querer ficar tirando onda com celular. Tem gente que fica mexendo no aparelho só por mexer, para mostrar mesmo. 

Preconceito
    O preconceito contra os moradores do albergue é tão grande, que, certo dia, quando entrei em uma sorveteria, uma mulher, ao me ver, ficou assustada e correu até a mesa para pegar o seu celular. 
    - "Eu tenho um celular, não se preocupe, e ele é original..." ironizei.
    - O meu também é original, e custa 900 reais!- disse, com toda a pompa, a moradora do bairro. 
    Essa moradora do bairro 1º de maio, além de ser "mitida", provavelmente não deve pensar muito. Eu estava com uma mochila de 11kg nas costas. Como iria sair por ai para roubar? Ela não tem uma perna, usa prótese, mas com certeza correria mais do que eu com todo esse peso nas costas. 
    Então pensei: por que se sacrificar para comprar um celular e ficar estressado por causa da preocupação de vê-lo sendo roubado? Rico, quando é roubado, geralmente nem liga para o valor do produto, fica mais chateado com o trabalho de recuperar o número e os contatos. 
palavras podem machucar mais do que gestos

    Mas, voltando ao assunto, não falo das pancadas da vida no sentido literal. Essas muitas vezes são curadas, nem deixando cicatrizes em alguns casos. Falo de coisas que acontecem que são bem piores do que um soco na cara. O preconceito é uma delas. Até que não sofro tanto preconceito por causa da esquizofrenia, sou aposentado e não tenho que tentar me ingressar no mercado de trabalho. Também posso viver mais retirado, sem ter muito contato com as pessoas. Mas, no momento, como morador de rua o negócio é complicado, é preciso ser forte para relevar certas situações, como o mau atendimento no posto de saúde do bairro 1º de maio. Sou tratado como um lixo quando os funcionários descobrem que moro no abrigo. Creio que os outro albergados também sejam. Sou melhor atendido em outros bairros quando falo que sou morador de rua mesmo e que durmo na minha barraca. Prefiro pagar o metrô e ir para outro posto de saúde para pegar o meu pan nosso de cada dia.
    Algumas pessoas do bairro 1° de maio me parecem ser um pouco prepotentes, sei lá, acho que pensam que moram na Savassi... Já almocei em alguns restaurantes caros em outros bairros, com a minha mochila e com roupas simples, e não sofri nenhum tipo de preconceito, como acontece aqui neste bairro do abrigo. Está certo que alguns albergados aprontam, mas generalizar não é o melhor caminho. Procuro sempre ficar na minha e evito confusão, não mereço ser tratado como se fosse um bandido. Aliás, os comerciantes do bairro provavelmente não falam nada quando avistam um traficante entrando em seus estabelecimentos. 
    Mas não existiu pancada em minha vida tão forte como a esquizofrenia. Parece um direto no queixo, que quase nos leva à nocaute. Ficamos no chão, caídos, atordoados, sem saber o que está acontecendo. A contagem regressiva não dura oito segundos, pode durar meses ou anos, depende de cada um. Os remédios funcionam como um intervalo entre os rounds de uma luta, onde podemos nos recuperar do golpe, que, infelizmente, pode ser o fim da luta pela vida. Recentemente um colega de grupo do facebook faleceu por causa da esquizofrenia. Ele tinha um canal no youtube, cantava bem pra caramba e chegou até a aparecer no programa da Eliana, mas a música era outra sem ser essa do vídeo.


    Sei que vou sofrer um pouco de preconceito por causa da esquizofrenia na hora de alugar um quarto. Não tem como esconder que sou aposentado. Afinal, fico o dia inteiro no meu canto. Vou dizer o que? Vou inventar? Você alugaria um quarto para um portador de esquizofrenia? Vote na enquete, mas vote com a sinceridade, não ficarei magoado com o resultado. Eu entendo um pouco o preconceito em relação a esquizofrenia. Eu também tinha muito preconceito, antes de surtar. Pensava que um vizinho era doido e não esquizofrênico. Ele tinha movimentos involuntários da face e dos membros, e não parava de andar. Às vezes eu o encontrava dormindo nas calçadas da cidade onde morava. Confesso que cheguei a imitá-lo de brincadeira. Ele não dava sinais de loucura. Apenas ficava a maior parte do tempo sentado na calçada em frente de sua casa. Cumprimentava todos, mas seu rosto não expressava nenhum sentimento. 
    Hoje sei que ele andava sem parar por causa da medicação. Ele tomava haldol e a acatisia é uma reação adversa muito incômoda. E os movimentos involuntários são a tal da discenesia tardia, também provocada pelos medicamentos, principalmente os mais antigos. O rosto sem expressão provavelmente é o embotamento afetivo, e hoje eu tenho um pouco disso. 
    Eu tinha aquele preconceito não por ser uma pessoa má, e sim pela falta de informação. Ninguém me falou nada sobre o que era esquizofrenia. Para mim era simplesmente o nome de um disco da banda Sepultura, daqui de Belo Horizonte. Por isso escrevo o blog, mas não quero e nem gosto de aparecer. Se quisesse chamar a atenção faria outra coisa ou abordaria um outro tema que chamasse mais a atenção.
a minha intenção é atingir também quem não tem ligação direta com o assunto...
    A maioria das pessoas chegam a este blog por terem alguma ligação com o assunto, por isso estou saindo por ai colando panfletos do blog. Quem quiser pode fazer o mesmo, não irei reclamar sahsuashasuahsuashs
Queria que um número maior de pessoas entendessem de verdade  o que é realmente a esquizofrenia e que não somos esses monstros que a mídia(ou parte dela) insiste em mostrar. Queria que todos soubessem o quanto ficamos tristes quando somos marginalizados e discriminados. Monstros e loucos vemos todos os dias, basta abrir as páginas dos jornais.

esta "linda" mulher cortou o pênis do ex-noivo por não aceitar o fim do relacionamento
Eu que sou doido?
     Notícias como a da foto acima são muito comuns e passam quase desapercebidas pelas pessoas. É normal, faz parte do dia a dia. Além dessa "linda" mulher da foto, uma outra cortou o pênis do seu companheiro alegando que iria fazer sexo oral... Homens que matam mulheres também parece ser considerado normal. "Se não vai ser minha, não vai ser de ninguém", é o que esses caras devem pensar. Mas, e quando um esquizofrênico comete algo? Aí é o maior escândalo, vira manchete nacional e alvo de discussões. Nem questionam se o cara não está "dando uma de louco", seguindo a orientação de seu advogado, para cumprir a pena em um manicômio judicial ou então ter a mesma reduzida ou até mesmo ser considerado inimputável.


Adotem o Chimbinha!
juro que não pensei no guitarrista do Calypso na hora de batizar o cachorro, olhei para a cara dele e vi que tinha cara de Chimbinha...
  No início ele se aproximava um pouco de mim, lá no parque. Mas, quando eu me movimentava, ele saia assustado. Na terceira vez que me viu ele não correu. Então o acariciei e a partir daí não largou mais de mim. De manhã, ele chega a ser quase um chato, insistindo em receber um carinho por ter ficado tanto tempo longe de mim. Não me deixa ler o jornal. Quando um outro cachorro se aproxima, mostra os seus dentes e rosna ameaçadoramente. Mas ele é muito dócil e brincalhão e parece estar saudável. Ele é sem raça definida(vira latas mesmo) mas é uma boa companhia. Se pudesse, o adotava. Quem quiser ou souber de alguém e for de BH e se interessar, entre em contato comigo por email. Provavelmente o dog vive feliz no parque, livre e solto, com espaço de sobra para correr.  Os funcionários do parque dão um pouco de ração de pato e resto de suas refeições para ele. Mas creio que Chimbinha deve sofrer com o frio e com as chuvas de noite, e com os cachorros maiores também. Conheço muita gente que gosta dos vira latas, quem sabe não consiga uma casa para o Chimbinha. 
ele é vira latas mas é estiloso...