quinta-feira, 23 de junho de 2016

Diazepan e outros pans da vida, o desmame

    Gostaria de esclarecer, antes de tudo, que essa postagem não foi feita para incentivar ninguém a parar com seus medicamentos, é apenas uma ajuda para aquelas pessoas que pretendem parar com os remédios por acreditarem que podem viver sem nenhum tipo de droga ou que então já estão prontas para viver a vida normalmente. O que posto é resultado de minha própria experiência na difícil tentativa de parar com o diazepan. 
    Os ansiolíticos, os antidepressivos e em alguns casos os antipsicóticos deveriam ser receitados ou indicados para serem usados em um momento específico de nossas vidas. Momentos em que não nos sentimos bem e precisamos de uma ajuda extra para conciliar o sono e realizar algumas tarefas, e, no caso dos antipsicóticos, de organizar os nossos pensamentos.
    O problema maior é que algumas vezes não somos avisados sobre o risco que esses medicamentos têm de causar uma forte dependência física e psicológica. Os médicos ou estão sem tempo para nos avisar ou então estão sendo displicentes mesmo, pouco ligando para a saúde de seus pacientes. Claro que existem exceções, não vamos generalizar. 
    No meu caso em particular, me foi receitado o diazepan sem nenhuma ressalva ou aviso sobre o risco da dependência. Foi a minha primeira consulta com um psiquiatra e não demorou mais do que dez minutos. Havia saído do meu primeiro e mais grave surto psicótico e sai praticamente diagnosticado e com as receitas na mão nesse curto intervalo de tempo.
    Recebi as cartelas na farmácia do posto de saúde. A bula não recebi, e, caso tivesse recebido, provavelmente não a leria, de tão pequena que são as letras e também pelo vocabulário usado nestas bulas serem de origem acadêmica, de difícil compreensão.  Confesso também que foi um erro meu, a falta de informação sobre esse tipo de medicamento. Na minha mente eram pílulas milagrosas, capazes de me proporcionar o sono dos justos e consertar a minha cabeça maluca e sonhadora. 
    No início não senti dificuldades, tomava um comprimido de 10mg e conseguia acordar por volta das sete horas da manhã, pois ainda estava morando nas ruas e dormia em frente ao instituo estadual de florestas, aqui em Belo Horizonte.
    Mas, com o tempo, a memória começou a ficar prejudicada, principalmente a recente. Consigo lembrar quase que perfeitamente de fatos da minha infância e antigos, mas esqueço com uma facilidade enorme o nome de uma pessoa que me foi apresentado há pouco tempo. Nome de ruas então, nem pensar em tentar decorar, o jeito é escrever em um papel mesmo ou anotar no celular. E, por falar em celular, já desisti há muito tempo de decorar telefones, nem o número do segundo chip que comprei há pouco tempo consigo decorar, mas o que comprei há mais de dez anos lembro-me com facilidade... 
    E, além do prejuízo da memória que constatei, ainda se tem notícias que o uso prolongado desses benzodiazepínicos podem causar outros problemas como fala arrastada, cansaço, a tradicional ressaca na parte da manhã. Esses são efeitos a curto prazo, já a longo prazo se comenta muito que pode causar até Alzheimer e demência.

Efeitos dos ansiolíticos a longo prazo
    Efeitos adversos tardios produzidos pelos benzodiazepínicos incluem uma deterioração geral da saúde mental e física que tendem a aumentar com o tempo. Nem todos, porém, enfrentam problemas com o uso a longo prazo. Os efeitos adversos podem incluir também o comprometimento cognitivo, bem como os problemas afetivos e comportamentais: agitação, dificuldade em pensar de forma construtiva, perda do desejo sexual, agorafobia e fobia social, ansiedade, depressão maior, perda de interesse em atividades de lazer e incapacidade de sentir ou de expressar as emoções. Além disso, pode ocorrer uma percepção alterada de si, do ambiente e nas relações sociais.

    Então, a solução que encontrei foi parar enquanto não aparecesse os sintomas mais complicados. 
    Na primeira tentativa, desisti logo no início, que foi o método mais radical: parar de tomar de uma vez e pronto! Mas no meu caso veio uma pressão interna na cabeça bem forte, parecendo uma dor de cabeça, na altura da testa, bem perto dos olhos. De início pensei que fosse alguma besteira que havia comido, mas, pesquisando na internet, vi que outras pessoas também tinham esse sintoma. Além desse incômodo, notei que também estava ficando mais agitado e me irritava com facilidade. Resolvi voltar a tomar o diazepan e a dor de cabeça, juntamente com os outros sintomas sumiram. 
     Na segunda tentativa, não obtive muito sucesso também. O método aplicado foi de tomar um comprimido de diazepan dia sim, dia não, ou melhor dizendo, noite sim, noite não.
     Não achei esse método eficiente, pois como há uma grande dependência psicológica, senti muita dificuldade de pegar no sono nas noites em que não tomava o comprimido do pan nosso de cada dia. 
    A terceira tentativa foi a que deu mais resultado e que estou aplicando até hoje. O método é simples: ir diminuindo gradativamente até a dose mínima sem sentir os sintomas mais fortes da abstinência. Cheguei a tomar 20mg por noite, diminui para 10mg e depois de alguns meses consegui diminuir para 5mg, o que é um grande feito para quem não conseguia sair de casa sem estar com uma cartela do diazepan no bolso, pois no meu caso particular o medicamento funcionava também como um SOS para evitar as crises paranoicas que tive e ainda tenho. Estava com uma mania de perseguição absurda e, do nada viam crises de pânico e uma vontade enorme de me esconder. E, como ainda estava trabalhando na época, tive então que usar o diazepan como um sos mesmo, pois os antipsicóticos me deixavam com muito sono e lento, podendo causar um acidente de trabalho, pois tinha que carregar caixas de som e ficar algumas noites acordado durante as festas.
     Com esse terceiro método vou tentando parar. Fico chateado, pois não pedi para ter esse vício, que é o único que tenho, tirando o chocolate e outras besteiras. Creio que todos os médicos deveriam alertar seus pacientes sobre os riscos da dependência física e psicológica desses medicamentos, e que eles não fazem milagres, pois, se estamos devendo “a Deus e ao mundo”, nossas contas não serão pagas pelos pans da vida.
     Creio que com os antidepressivos também deve ser usado esse terceiro método. Já ouvi dizer que não precisam de desmame esses medicamentos, mas como o nosso organismo não ficaria acostumado com algo que é feito por pílulas e que deveria ser feito por ele mesmo? Neste caso cito a serotonina, que é produzida naturalmente pelo nosso organismo, e que, de repente é ajudado por um comprimido a liberar o neurotransmissor. Não ficaria acostumado, viciado o nosso organismo? Creio que sim. 
    No caso do diazepan e outros remédios para ajudar a conciliar o sono, além do método citado, é aconselhável também a praticar exercícios físicos, que ajudam a diminuir o stress e a ansiedade. E também ajudam no bem estar, caso a pessoa esteja querendo se livrar de algum antidepressivo. Reduzir o consumo de café e outros estimulantes também é aconselhável, principalmente no período da noite. 
   Já estou tirando um pedacinho do meio comprimido do diazepan de 10mg. Devo estar tomando por volta de 3,5 à 4mg por noite.  O próximo passo será diminuir para 2mg. Na rede pública aqui em Belo Horizonte não se encontra o diazepan nessa dosagem, só em farmácias mesmo. Mas mesmo assim irei comprar, apesar da crise e do orçamento curto. Poderia diminuir o comprimido de 10mg em quatro pedaços para se chegar a dosagem de aproximada de 2mg mas, além de ser um pouco difícil a divisão, ainda se tem a dependência psicológica. Vou explicar melhor:   me sinto melhor tomando um comprimido inteiro de 2mg do que tomando um pedacinho de um mesmo comprimido de 10mg. 
         Claro que se pudermos contar com um bom profissional para nos ajudar neste difícil empreitada é melhor, mas, caso o mesmo não ajude, devemos procurar enfrentar essa batalha sozinho mesmo. No meu caso particular, o “psiquiatra” do posto de saúde do meu bairro quer que eu pare com o diazepan, mas trocando por um antipsicótico chamado stelazinne ou então por uma injeção de haldol... Nem vou comentar, pois até hoje não entendi esse psiquiatra, como pode querer tirar a dependência do diazepan me fazendo viciar em um medicamento ainda pior, que causa tremedeiras e vários outros efeitos colaterais indesejáveis? 
      Nessa difícil jornada de tentar se livrar do vício dos ansiolíticos devemos ouvir, antes dos médicos, o nosso próprio organismo. Devemos estar atentos se algo não está se modificando à medida que vamos diminuindo a dosagem dos medicamentos. Se não há uma dor de cabeça, um cansaço, um nervosismo que não tínhamos antes. Nosso organismo nos avisa de quase tudo o que está acontecendo de errado com ele, e sempre há tempo de consertamos o que não está bem. 

CDE- Central de Downloads do Esquizo
    Nesta postagem estou disponibilizando o livro "Uma análise dos efeitos do uso a longo prazo de antidepressivos", que pode nos ajudar a esclarecer se esses medicamentos podem ou não causar dependência ao paciente.

Resumo
   Não é de hoje que a humanidade busca remédios para atenuar, tratar e curar os mais
diferentes tipos de sofrimento. Com as ”doenças da alma/corpo” a história não tem sido
diferente. Pesquisamos os efeitos do uso a longo prazo de antidepressivos a partir do
relato de cinco pessoas, que utilizam o remédio há mais de três anos. O estado
subjetivo da depressão e os antidepressivos são as contingências que fornecem os
relevos para respondermos sobre a existência de um sofrimento remanescente ao uso
do psicofármaco. Deste modo, na pesquisa investigamos como a medicalização da
depressão entra num dispositivo que faz dela a realidade do tratamento dos transtornos
psíquicos, o contexto no qual a depressão se insere e a sua função no intercâmbio
social. Desdobramos as múltiplas faces dos psicofármacos, resgatando, o conflito
inerente ao phármakon. A prescrição do phármakon no tratamento em saúde mental
traz a necessidade do debater da dimensão ética, pois ao mesmo tempo em que os
psicofármacos podem ser aliados importantes, não devem retirar o protagonismo do
sujeito no seu tratamento. Sendo assim, revisitamos e procuramos realocar o discurso
dos entrevistados como elemento essencial para a análise. As entrevistas relatam
vivências que nos mostram que o estado depressivo é, antes de tudo, uma experiência
sensível e não é apenas consequência de um déficit neuroquímico, passível de ser
corrigido com antidepressivos. Os relatos guardam histórias de diversos tipos de
violência, tentativas de suicídio com uso de psicofármacos, internações hospitalares
etc. Trata-se de histórias que foram escamoteadas no processo de medicalização.
Deste modo, amparados na psicanálise, posicionamo-nos a partir da ética do bemdizer,
tendo como prerrogativa que o antidepressivo não pode tamponar a palavra do
sujeito em sofrimento psíquico. Sabemos, por meio de Freud/Lacan, que a queixa
sintomática é apenas o início do tratamento e que o trabalho se dá a partir dela.
Concluímos que o antidepressivo após o uso a longo prazo pode dificultar com que o
sujeito se reaproprie da sua história, impossibilitando com que se implique no seu
sofrimento. Percebemos que as “terapias da fala”, conjuntamente com antidepressivos,
podem ser um modo de o sujeito “mudar para ficar o mesmo”, não se implicando com
seu sintoma. Assim sendo, não podemos desconsiderar o sintoma psicanalítico
enquanto tangente da via desejante. Concluindo, nosso trabalho aponta para uma
possível realização das potencialidades do sujeito, de modo a fomentar um cuidado de
si e a criação de uma estilística da existência.
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quarta-feira, 8 de junho de 2016

Gratidão

    Antes de fazer alguns agradecimentos nesta postagem chamada gratidão, tenho que explicar o motivo pelo qual estou fazendo estes agradecimentos.
    Novembro de 2014, ainda estava nas minhas andanças, ora morando na minha barraquinha de camping, ora dando um tempo em um abrigo qualquer.
    Foi em uma dessas paradas para recuperar as energias e descansar minhas canelas é que tive um acidente, que, se não foi fatal, mas me deixou profundamente triste: estava caminhando por um parque ecológico, quando, de repente, bati a "tampa do dedão" na raiz de uma grande árvore. Doeu um bocado, mas não fiquei muito preocupado naquele momento, achando que iria melhorar como das várias outras vezes que me machuquei jogando futebol ou andando por ai nas trilhas da estrada real.  Sempre achei o tempo o melhor remédio para as feridas, tanto físicas como emocionais  (hoje "tô inspirado!!!).
   Desde pequeno fui sempre de andar muito e praticar esportes. Me lembro muito bem que passava o dia inteiro jogando bola na rua, no bairro Prado, aqui em Belo Horizonte.  Naquela época não havia tanto trânsito naquela região, e pouco se falava em assaltos e bandidos, a não ser  nos filmes de Hollywod. Nos finais de semana e durante as férias, a turma do bairro ia até o colégio Loyola para jogar bola em um dos vários campinhos de terra que havia por lá. Disse "havia" mesmo sem ter certeza, pois provavelmente já devem ter construído algo naquele enorme espaço no lugar dos campinhos, pois, além do fato da diminuição das áreas de lazer nos grandes centros ser uma realidade, a garotada  hoje em dia só quer saber de estar "conectada" mesmo nas redes sociais, só jogando futebol nos vídeos games. Com certeza os estudantes do Loyola na hora do recreio hoje em dia estão mexendo nos seus smartphones e tablets, ao invés de estarem correndo atrás de uma pelota e gastando suas energias.
    Me lembro muito bem daquela época. Depois de quase duas horas jogando bola, ainda voltávamos a pé para casa, que ficava distante cerca de 2km do colégio. Às vezes pedíamos carona na Avenida do Contorno, o que era conseguido rapidamente e sem complicações naquele época.
    Já de noite, brincávamos de queimada, war, banco imobiliário, e esconde esconde. Mas a área do esconde esconde não se limitava à algumas dezenas de metros, era permitido se esconder no quarteirão inteiro! Entrávamos nos edifícios, subíamos nos telhados das casas, escondíamos nos jardins das residências que ainda não tinham muros na entrada.
durante quase dois anos essa foi a minha humilde residência
    E assim fui crescendo, sempre jogando o meu futebolzinho para tirar o stress do dia a dia. Mas a idade foi chegando e notei que, a partir dos 40 anos, a galera da pelada onde frequentava na cidade de Ipatinga passou a me apelidar de "o goleirão", pois, a partir daquela fase de minha vida começaram sempre a me escalar para atuar debaixo das traves. Até que gostava, me considero um bom goleiro. É uma sensação boa voar até a bola, evitar um provável gol e ver a cara de raiva dos atacantes quando praticava uma boa defesa. Mas, convenhamos que,  correr, suar e fazer um gol é muito melhor e mais saudável também. E fora que ainda tinha que ouvir a galera zoando quando tomava um frango. Os caras faziam gracinha querendo driblar todo mundo, perdiam a bola e eu ainda tinha que me esfolar todo no campinho de terra para evitar o gol do adversário. Aquela pelada era tradicional em Ipatinga, muito concorrida, às vezes chegava a ter três ou quatro times de "fora". ('time de fora" na pelada são os ruins de bola, os mais velhos, os que sobraram na hora de escolher os times no par ou impar. Geralmente cada partida dura dez minutos, a não ser que um time faça dois gols primeiro).
    É jogando futebol que consigo esquecer quase que totalmente as minhas paranoias. Às vezes pinta sim uma mania de perseguição, pensando que todos estão olhando para mim, mesmo que a pelota não esteja nos meus pés. Também assistindo um bom filme consigo um pouco fugir da realidade desse mundo em que vivemos.
     Infelizmente é um pouco difícil encontrar uma galera na faixa dos 45 aos 50 anos para jogar um futebolzinho, e então me arrisco a jogar com a garotada mesmo.  E aí alguns caras ficam dando uma de "Neymar" para cima de mim, fazendo gracinhas, dando pedaladas, etc... Ai haja paciência e fôlego para ficar correndo atrás dessa galera,  confesso que de vez em quando dou umas entradas meio fortes, só para avisar que não estou para brincadeira, mas não é nada sério, é só um "chega pra lá mesmo". Mas, modéstia à parte, se eu jogar com caras da minha idade, ainda "mato a pau", isso se antes me deixarem pegar um ritmo de "pelada", pois quando fico muito tempo sem correr tudo fica enferrujado,
    Então, a solução que encontrei para tirar o stress do dia a dia foi correr sozinho mesmo, apesar dessa prática ser um pouco monótona na minha opinião. Correr e andar é uma necessidade para mim, não somente para aliviar o stress provocado pelas minhas paranoias como também para ajudar o organismo a produzir a tal da "endorfina" e outras "inas" mais....
a topada na árvore causou a redução dos espaços interfalangeanos... 
    Bem, voltando ao problema que tive no dedão do pé esquerdo, pensei que se tratasse de mais uma das inúmeras lesões que tive ao longo de minha vida que melhoraram com um pouco de gelo e com o passar do tempo. Mas não, a cada dia que se passa, parece que a dor ao caminhar aumenta mais, pois o local é onde apoiamos o nosso corpo ao caminhar, principalmente nas subidas. A sensação que tenho é que tem um osso encostando em um outro osso...
    Na minha primeira ida ao posto de saúde por conta dessa lesão, o médico, "super atencioso" nem olhou para o meu pé e apenas recomendou passar água morna no local. Talvez seja aquela água milagrosa que cura os jogadores profissionais: quando o time está ganhando, os caras caem em campo, fazem cara feia, rolam de um lado para outro, esperam a maca chegar para serem retirados do campo. Ai o médico joga uma água na canela deles e num passe de mágica estão de pé pedindo autorização ao juiz para entrar em campo novamente. O médico do posto de saúde só não me avisou em qual farmácia posso comprar dessa água milagrosa.
    Confesso que naquele momento deu uma vontade enorme de falar algumas coisas para aquele "doutor", que ficou apenas escrevendo algo em uma folha que estava sobre sua mesa. Mas consegui me conter.  Com o passar do tempo a dor foi só aumentando e então tive que desistir das minhas andanças e cancelar o meu objetivo de conhecer o centro oeste e o norte do Brasil. Se já não é nada fácil andar com uma mochila de 11kg nas costas em boas condições, imagine com o pé machucado. A verdade é que a mochila durante esses dois anos se transformou em parte do meu corpo, era como se tivesse engordado 11kg de uma hora para outra. Até dava uma sensação esquisita de alívio quando dava para caminhar sem a mochila.
     Com endereço fixo, procurei outro posto de saúde e tive um outro tipo de atendimento, como podem verificar na carteira nacional de saúde que recebi quando era um "caminhante"  e a que recebi quando estava com um endereço fixo.... Claro que o médico também foi muito legal comigo, além de me ouvir, mostrou realmente que trabalha com vontade e seriedade. Não sou só de criticar, existem sim bons profissionais no sus, que não se aproveitam da condição de funcionário público...
acima, o cartão que recebi quando era um "caminhante"
abaixo, o cartão que recebi quando passei a ter um endereço fixo
    Foi solicitado então um raio x, que demorou cerca de seis meses para sair. Foi constatado que houve uma redução dos espaços interfalangeanos do dedão do pé esquerdo. Então, mais uns seis meses tive que esperar para ser atendido pelo ortopedista, que me receitou um medicamento e algumas sessões de fisioterapia. Ou seja, da contusão até o início da fisioterapia passaram-se cerca de um ano e seis meses, isso por que fui insistente. Quando detonei o meu tendão de aquiles na minha primeira andança, foi pré agendado uma consulta com um ortopedista, mas até hoje não me chamaram... Isso foi em 2012, mas, por sorte a dor dessa lesão foi diminuindo aos poucos, até sumir por completo. E ainda tem gente que diz que o sus (letra minúscula mesmo) é um serviço eficiente....
    Nesse tempo todo de espera, tive que parar com as minhas caminhadas, com os exercícios físicos e apenas na hora de almoçar é que ando uma certa distância, o que é muito pouco para uma vida saudável. Engordei 3kg e estou todo enferrujado, como se tivesse envelhecido dez anos em um ano e seis meses.
    Além da perca de qualidade de vida na parte física, tem a parte mental e psicológica também. É aquela velha frase: "men sana in corpore sano". O exercício físico tira o stress, relaxa, libera a endorfina e melhora o humor, o que é essencial para aguentar algumas zoações, principalmente de estranhos. Como sempre digo, nunca escondo a minha condição, pois sou aposentado e tenho que comprovar a minha renda para os donos dos imóveis de quem alugo um quarto.  Infelizmente tem que ser quarto, meu sonho era poder alugar um barracão, ter a liberdade, privacidade e ficar sozinho mesmo, até que gosto da minha companhia, convivo muito bem com meus pensamentos. Quem tem medo de ficar sozinho talvez tenha medo de seus próprios pensamentos, pois a solidão geralmente leva à reflexão e a algumas conclusões.
http://www.asomadetodosafetos.com/2016/05/a-solidao-pode-transformar-voce-em-uma-pessoa-feliz.html#comment-2095
 
A "fisioterapia"
   Terminei, sem sucesso e nenhuma melhora, as vinte sessões de fisioterapia indicadas pelo ortopedista. Comprei a glucosamina, que é um suplemento um pouco caro para os padrões de um aposentado. Como ganho um salário mínimo e ainda tenho que pagar aluguel, não tive dúvidas em apelar para o blog e os leitores. E fui prontamente atendido! Com a grana que recebi comprei o medicamento e deu também para pagar as passagens do metrô aqui de Belo Horizonte, que, na verdade é apenas um trem um pouquinho mais rápido. O ar condicionado é bem fraco e, além de lento, chacoalha bastante.  Apesar do desconforto, prefiro ainda pegar o metrô de Belo Horizonte do que o de São Paulo...
metrô de Belo Horizonte
    Muito obrigado de coração aos que me ajudaram, sem essa ajuda provavelmente teria que fazer um empréstimo ou então vender alguma coisa que tenho, ou a TV ou o home theather. Mas sempre é complicado vender algum aparelho eletrônico por um preço razoável. As pessoas sempre querem um descontinho, dão aquela pechinchada, ai temos de início colocar um valor acima do que queremos, para, quando for baixar o preço, ai sim conseguir vender pelo valor que desejávamos.
    Tive uma contribuição misteriosa: apareceu na minha conta salário um valor que não foi possível descobrir a origem, nem mesmo instalando o plugin da caixa econômica no meu notebook. E esta conta que recebi a contribuição não divulgo atualmente aqui no blog, por questões paranoicas e de segurança também. Já divulguei essa conta há alguns anos atrás, mas agora consegui abrir uma conta alternativa para vender o livro. Seria então a dilma (com letra minúscula mesmo) fazendo uma gracinha com os aposentados numa desesperada tentativa de não ser afastada ou então aumentar o rombo para o seu sucessor? Brincadeiras à parte,  provavelmente foi uma pessoa que fez o depósito em uma agência lotérica e não quis se identificar. Então vai o meu agradecimento pelo blog.
    Mas logo desinstalei o aplicativo da caixa, pois esse plugin pode deixar a internet lenta e o computador também
http://www.creditooudebito.com.br/por-que-aplicativo-seguranca-banco-sempre-trava/
    Voltando ao assunto, essa inatividade toda, além de me fazer ganhar peso, também me deixou mais estressado, impaciente, cortando mais da metade do meu pavio, que creio ser bem longo. O psiquiatra queria até me passar um antipsicótico forte e chegou a"sugerir" uma injeção de halol, que recusei, é claro. Ele simplesmente bloqueou o diazepan e me receitou também um antipsicótico leve chamado stelazinne. Fiquei desesperado quando fui tentar pegar o pan nosso de cada dia no posto de saúde e constatar que o mesmo havia sido bloqueado para o meu uso. No outro dia voltei ao psiquiatra e foi uma confusão danada, sendo necessário chamar o segurança do posto de saúde. Mas não saí de lá com  a receita do diazepan. O problema é que alguns profissionais da área da saúde mental enxergam o indivíduo apenas como uma mente e um cérebro, creio que deveriam nos olhar como um todo, ou seja, algo real está me deixando irritado, que é a dor no meu pé e a péssima qualidade no atendimento. Estou uma ano e seis meses andando com dores no pé, e creio que o problema poderia ter sido resolvido facilmente se fosse tratado no início. Ou seja, o psiquiatra estava imaginando que um antipsicótico qualquer me faria aceitar a situação, ser humilhado e não ficar revoltado com toda esse descaso. Como disse, o primeiro médico nem chegou a olhar para o meu pé, apenas mandando passar água morna afirmando que o problema seria solucionado. Resumindo, o antipsicótico me deixaria um pouco dopado, e assim aceitaria ser mal atendido nos postos de saúde. Simples assim.
    Considero uma revolta normal, aceitável, seria estranho se aceitasse tudo passivamente... Estranho como que todos podem se exaltar, chutar o balde, fazer caras e bocas... Todos, menos quem tem um tipo de transtorno mental, por que logo imaginam que vamos sair por ai quebrando tudo o que vemos pela frente... 
   E, por falar em antipsicóticos, os exercícios físicos, as caminhadas, além de serem um vício, são também bons antipsicóticos. Tudo o que nos  ajuda a não pirar é antipsicótico: ocupar a mente, fazer algo que gostamos e por ai vai...
     E, de repente, sou impedido de continuar com essa prática tão sadia. Agora já não tenho certeza se o meu pé irá melhorar, afinal foram-se um ano e seis meses sem atendimento e andando forçadamente com esse problema, o nosso corpo é uma máquina que se desgasta se não for utilizada corretamente, não tem como fugir disso.
    Era um problema simples, que agora virou um drama para mim. Me sentia feliz nas andanças, apesar dos perrengues que passava, Agora, além de ter que lutar contra um inimigo interior chamado esquizofrenia, agora tenho que aprender a convier com essa limitação física?
     Sempre digo que não tem como comparar o sofrimento físico com o mental, São duas coisas bem distintas, o problema no sofrimento mental é que, além da dor na alma temos que conviver com a incompreensão das pessoas, achando que estamos de frescura e que somos preguiçosos.
     Me compadeço de quem está em situação pior do que a minha, mas não uso a miséria alheia para me confortar e assim ficar mais feliz. Se todos seguissem esse raciocínio, o mundo não teria tristeza, afinal sempre encontramos alguém em pior situação do que a nossa. Não irei ficar feliz por não ter uma perna por saber que existem pessoas que não possuem as duas pernas...
     Mas não vou desistir, apesar de estar sem energias para lutar. Ainda tenho esperança de voltar a andar normalmente, jogar um futebolzinho, voltar com as minhas andanças para completar os quatro caminhos da estrada real. Aliás, agora são cinco caminhos, pois criaram um caminho religioso, que começa em Caeté, aqui pertinho de Belo Horizonte, e termina em Aparecida do Norte, no interior de São Paulo. Mas esse caminho não pretendo fazer, pois 70% dele é o caminho velho da estrada real, que fiz há alguns anos atrás.
http://www.portalterrasaltas.com.br/novidades-detalhes.php?cod=86
    Foi uma decepção a fisioterapia, esperava, no mínimo, um melhor atendimento e ser ouvido. Apenas fazia alguns exercícios para reforçar a musculatura da perna, vinte minutos por cada sessão. Cheguei a perguntar se poderia fazer outros exercícios em casa e a fisioterapeuta apenas disse que podia. Também perguntei se poderia indicar exercícios mais específicos para o dedão do pé, mas ela disse que aqueles que eu estava fazendo eram suficientes.
    É uma das piores fases da minha vida essa que estou vivendo agora. Me pergunto como pode uma simples topada do dedão do pé em uma raiz de uma árvore  me impedir de andar? Vou viver o resto da minha vida assim, tendo apenas condições de andar um pouco por dia, um limite? Ou vou ter que usar bengala? A fisioterapeuta parece que não acreditou na dor que estou sentindo, pois sempre me indicava os mesmos exercícios do que todos estavam fazendo lá. Oras, se os problemas são diferentes, por que os exercícios têm que ser os mesmos? Apenas fazia pressão com o pé usando uma bola, andava em linha reta olhando para frente, e subia em um aparelho para testar o equilíbrio. Queria fazer algo mais, insistir mais no tratamento, mas parece que não queriam a minha rápida recuperação. E as fisioterapeutas que me atenderam não gostam de serem contestadas, já até me mandaram procurar a gerência para reclamar. O que elas gostam mesmo é de ficar no whatsapp boa parte do tempo...
o melhor "plano" de saúde é não adoecer...
    É uma pena que os profissionais da saúde mental no Brasil não olhem condição física da pessoa ao fazerem o diagnóstico, dando a impressão que somos apenas um cérebro e que não temos mais nada além disso. E a solução para tudo são os antipsicóticos e antidepressivos. Eu me recuso a tomá-los, pois não quero ficar mais calmo e assim aceitar essa imoralidade que é o atendimento pela rede pública. Não quero ficar feliz com uma pilula milagrosa, ela não irá "consertar" o meu pé, não irá devolver o meu direito de andar por ai. Sei quando preciso me acalmar, sei quando estou chateado por um motivo real, sempre faço minhas orações pedindo para que a única pessoa prejudicada com essa minha condição de "esquizofrênico" seja eu mesmo. Resolvi colocar aspas por que hoje em dia a mídia parece fazer questão de dar uma ênfase a qualquer deslize que uma pessoa que tenha esquizofrenia cometa, e esquecendo que os ditos normais não fazem coisas piores. E para piorar, essas pessoas cometem certos crimes em nome de um "amor", por causa de um real, e por ai vai.
Mas é isso, acho que foi um dos posts mais tristes que já fiz, mas não tem como disfarçar. Cada passo que dou hoje em dia é uma dor no sentido literal mesmo. Não quero aqui dar uma de coitadinho, que tenham pena de mim. Esta postagem é apenas mais um desabafo sobre o atendimento pelo sus. Em minha mente paranoica cheguei a pensar que esse tratamento era apenas para mim, que o sus também estava contra a minha pessoa. Mas não, sei que a realidade é essa para todos, basta ir em algum hospital ou Upa para constatar que toda a população é maltratada.
     Sinceramente não sei o que fazer, Será que vou ter que estudar fisioterapia para encontrar uma solução para o meu caso? Pois, quando descobri que o que tinha era um transtorno chamado esquizofrenia, tive que aprender a usar o computador, conhecer pessoas que tinham o mesmo problema do que eu para começar a entender melhor o assunto, e, consequentemente, a mim mesmo.
    Mas, agora, o problema é físico, e a situação é a mesma. Os profissionais da saúde parecem não gostar de nos esclarecer sobre o que temos, pois não obtive nenhuma resposta para os problemas que estou enfrentando neste momento em razão da minha atual limitação para andar. Na época dos surtos mais graves, caía, me estrepava todo, quase fui dessa para outra, mas tinha condições físicas para lutar, o que, sem poder andar, não sei como vou conseguir sair dessa.
    O jeito vai ser consultar o "Dr. Google" mesmo...

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Eu que sou doido? -3

 
    -"Não sai por ai falando que você tem "problema na cabeça"... - me aconselhou a proprietária do imóvel onde estou morando atualmente, antes de fechar o contrato de locação.
    Respondi que não tenho vergonha nenhuma da minha condição, dos problemas pelos quais passei e ainda passo e que me sinto até uma pessoa protegida por uma força superior, por ter sobrevivido à tudo que enfrentei em minha vida. Ela me falou sobre o preconceito das pessoas, mas disse à ela que vergonha eu teria se tivesse roubado, traficado ou prejudicado alguém para me sustentar.
    A verdade é que não tem como esconder a minha condição, principalmente pelo fato de morar de aluguel e ter que comprovar a minha renda. Vou dizer que me aposentei por ter problema na coluna? Ou uma outra mentira qualquer?
    Não sou santo, mas mentir não é o meu forte. Às vezes deixo de falar a verdade, mas não invento mentiras, é muito bom não precisar ficar pensando no que havíamos dito para continuar um diálogo.
    Então, por causa dessa minha maneira de ser e agir, os vizinhos e muitas outras pessoas sabem que tenho esquizofrenia. Não sofro preconceito por causa disso, ou, se sofro, não sei, pois quase não tenho vida social. Mas já aconteceu de ter um ou outro deboche, como estar andando normalmente na rua e alguém, dentro do carro, gritar:
   - "Ô doido"!!!
   Isso aconteceu duas vezes na minha última andança, o "O caminho dos Jesuítas", pelo litoral do estado de São Paulo. Estava descansando, sentando na beira da BR, tomando um lanche e me reidratando, quando ocupantes de carros luxuosos abriram a janela e me chamaram de maluco e doido. O que tem demais em sair por ai, com uma mochila e uma barraca? Oras, sou apenas um turista de baixa renda, que ama a liberdade e a natureza, e que não se priva de conhecer novos lugares pelo simples fato de não possuir um luxuoso carro e condições de pagar um hotel.
    Mas o que essas pessoas não sabem é que, para me ofenderem, teriam que me chamar de normal. É isso mesmo!!! Me sinto cada vez mais normal ao ver os noticiários na TV e na internet. Gente cuspindo umas nas outras e dizendo que é coisa normal, outras pessoas definhando fisicamente para se adequarem aos padrões de beleza, gente defecando e urinando na rua em cima de cartazes com fotos de políticos e por ai vai...
cuspir é normal???
    Na primeira parte dessa série de postagens chamadas "Eu que sou doido?", falei sobre um fato ocorrido com o ator Marcelo Faria, que simplesmente deu uma garrafada em um segurança de uma casa de shows, pelo simples fato de ter sido barrado no momento em que tentava entrar no camarote vip. O funcionário da boate teve que levar seis pontos na cabeça, e depois não apareceram mais notícias sobre o caso. Provavelmente o ator global não foi punido e o caso foi abafado. Já pensou se atiro uma garrafa em alguém?
    - "Ele é doido, tem que viver preso, internado"... - provavelmente diriam os comentaristas de plantão...
    E agora dois fatos me chamaram a atenção, também envolvendo os famosos. O primeiro fato, creio que todos já sabem, foi o que envolveu o ator José de Abreu, que simplesmente cuspiu em um casal. A alegação do ator é que foi ofendido dentro de um restaurante e por isso reagiu dessa forma, afirmando que conseguiu se se "segurar" para não entrar nas vias de fato. Ele também afirmou que isso é uma reação normal de um ser humano "normal". Bem, que eu saiba quem sai cuspindo nos outros é um animal irracional chamado lhama, e que só age assim quando se sente ameaçada ou irritada. Acho que foi isso o que aconteceu com o José de Abreu, se sentiu irritado e, como todo ser humano normal, cuspiu no casal. Já pensou se a moda pega? Até acho que está começando a pegar, pois aconteceu fato semelhante com o deputado Jean Willys durante a votação do processo de impedimento da presidente Dilma (disse impedimento, estou com preguiça de consultar o google para escrever essa palavra corretamente, mas vou chutar aqui, acho que se escreve impeachment.)
  Imaginem se sou eu cuspindo em alguém? Seria preso, levaria umas cacetadas, seria chamado de louco, falariam que deveria ser internado,etc...
    Um conselho para o Jose de Abreu, como ele estava em um estabelecimento fechado, quando uma situação semelhante acontecer, é só chamar o proprietário do mesmo, relatar o acontecido e a situação será resolvida da melhor maneira possível.
e se a moda pega?
    Já perdi a cabeça uma vez, creio que foi em 2012. O pessoal da saúde estava em greve, o meu diazepan estava acabando e, depois de tentar o medicamento em vão no postos de saúde do centro e no hospital Raul Soares, acabei meio que "apelando" ao chutar o portão de um outro posto de saúde, ao me ser negado o medicamento, pois os funcionários estavam de greve, assistindo televisão dentro do posto de saúde. E a receita estava carimbada, e não tinha como comprar, pois já havia pego 30 comprimidos, pois os postos de saúde não liberam os 60 comprimidos de uma vez.
    Sabia que poderia pirar sem o diazepan, isso já havia acontecido comigo. O que iria fazer? Uma consulta de 350 reais ou mais com um psiquiatra particular? Chutei o balde, quer dizer, o portão do posto de saúde, até que me atendessem... Pois não adiantou falar educadamente, tentando explicar a situação, que poderia ter um surto sem o medicamento, etc...
    Mas pirei para evitar a piração maior, que é um surto psicótico. Foi um a piração sim, chutar o portão do posto de saúde, mas não tinha outro recurso a fazer. Mas não agredi ninguém, e cuspir é sim uma agressão, que pode doer tanto quando um soco na cara. Esse pessoal da saúde deveria ter mais responsabilidade na hora de fazer greves, deveriam pelo menos colocar uma escala mínima para atende casos de pessoas que tomam remédios controlados de uso contínuo.

    Mas um outro caso, que não é grave, mas que acho que foi uma piração, aconteceu com a apresentadora Patrícia Poeta, que emagreceu cerca de 10kg, talvez por não se achar magra o suficiente para estar dentro dos padrões impostos pela sociedade. Ou pode ser piração dela mesmo, se enxergar mais fofinha no espelho, a tal da anorexia.
    Porém neste caso não vou dar pitacos, o corpo é dela, ela faz o que bem quiser, mas que ela era linda do jeito que estava antes, isso era. A impressão é que está doente, mas sem estar com o rosto abatido e bem vestida. O que acham?
Qual Patrícia Poeta vocês preferem? Enquete ao lado da página.


terça-feira, 19 de abril de 2016

Ser bipolar

    Bem, resolvi colocar o nome do blog como "Memórias de um esquizofrênico" apenas para seguir o óbvio, e ser uma referência nas buscas pelo google, e também é claro, por ser realmente as memórias e pensamentos de uma pessoa que tem esquizofrenia. Mas isso não quer dizer que a minha vida seja somente relacionada à esse transtorno que atinge 1% da população mundial.
    Como podem ver nas postagens, falo sobre vários temas: as minhas andanças, saúde física, "abrobrinhas" e outras coisas do nosso cotidiano. E a bipolaridade e outros transtornos não poderia deixar de falar, principalmente o de humor, já que alguns sintomas são bem semelhantes com os da esquizofrenia, sendo que alguns psiquiatras chegam a ter uma certa dificuldade em dar um diagnóstico final, na dúvida se a pessoa tem o transtorno de humor ou se realmente tem esquizofrenia. Prefiro dizer "pessoa ou indivíduo que tem esquizofrenia", pois, para mim não existe "o esquizofrênico", que é um rótulo criado pela sociedade e que é quase um sinônimo de agressividade, falta de raciocínio, loucura, etc... Não culpo as pessoas por terem esse preconceito, também tive antes de ter os surtos, falta mais ação da mídia em geral, que procura fazer o maior alarde quando uma pessoa que tem esquizofrenia comete um ato de violência, dando a impressão que isso não acontece com os "ditos normais". Me sinto cada dia mais normal quando vejo a programação da TV aberta, quanto mais baixaria, melhor para eles. De tarde é uma disputa acirrada entre dois apresentadores para ver quem apresenta mais assassinatos e outras baixarias, e eles mesmo parecem não saberem que foram cometidos por pessoas que não têm esquizofrenia. E, quando acontece de alguma pessoa que tem esquizofrenia cometer um ato de violência, o chamam de louco, que deveria estar enjaulado, etc. Não estou aqui querendo passar a mão na cabeça de ninguém, se cometeu um crime, que a lei deva ser cumprida, mas creio que quem tem esquizofrenia realmente deve ter uma atenção maior no que se refere as condições de seguir um tratamento adequando enquanto se resolve a sua condenação ou não.
    Cada pessoa que tem esquizofrenia tem a sua maneira de ser, e, como acontece nas pessoas "ditas normais" alguns podem sim ser agressivos, outros nem tanto, e já outros bem calmos. E, em relação à inteligência, o mesmo acontece: existem pessoas com esquizofrenia com a inteligência na média, outros acima da média e já outros abaixo da média, como também acontece na população "normal".
    Mas voltando a falar sobre as oscilações de humor em uma pessoa com esquizofrenia, no meu caso em particular, é algo bastante complicado. Às vezes fico tão animado que resolvo vender "tudo o que tenho"(uma tv de tubo CCE, um home theather, um frigobar, e um computador), comprar uma mochila e uma barraca e seguir por ai, na estrada real, a pé, andando 710km entre as cidades de Ouro Preto e Paraty, no Rio de Janeiro. Também andei pelo litoral do Espírito Santo, São Paulo, e por outras cidades do interior de Minas Gerais. Foram dois anos de andanças, e o diário com as fotos das viagens podem ser acessados clicando nas imagens no lado direito da página.
    Mas, quando vem o desânimo, tudo se complica: fico um tempo sem escrever para o blog, fico cansado só de digitar um pequeno texto, isso quando aparece algo que ache interessante para postar. Fazer exercícios físicos, nem pensar. O desânimo é tão grande que, aliado à mania de perseguição, me faz crer que alguém me envenenou. Para de tomar cafezinho na padaria e nos bares, evito de aceitar comida de qualquer pessoa, e por ai vai. Quando estou desanimado, chego até a chorar quando me lembro das andanças, como que consegui energia para andar 30km em um dia com uma mochila pesando 11 kg nas costas?
    Mas essa postagem é para divulgar um texto que achei nas minhas andanças virtuais. Faço parte de vários grupos do facebook, não somente os de esquizofrenia. Entro em qualquer grupo que me identifico, pois acredito que as pessoas que sofram de algum transtorno mental devem se unir para ajudar umas as outras. Às vezes rola um ou outro perrengue no grupo, acredito pelo fato da maioria das pessoas que sofrem de transtorno mental serem mais sensíveis que a maioria da população, e ai qualquer postagem que acreditem que seja uma indireta pode virar uma pequena confusão.
    Esse texto achei muito interessante, nada melhor do que ouvir ou ler sobre um transtorno de alguém que sente na pele esses sintomas nada agradáveis. No começo das minhas paranoias e surtos, cheguei a consultar vários sites de psiquiatras e psicólogos falando sobre o assunto, mas que não me ajudaram muito, por usarem muitos termos acadêmicos. Foi ouvindo e conversando com outras pessoas é que passei a entender melhor esses sintomas.
    Então, sem mais delongas, abaixo o texto, que, prefiro não divulgar o nome, por causa do preconceito que cerca os transtornos mentais, se bem que hoje em dia, muita gente pensa que bipolaridade é uma "doença chique", coisa de artista, de cantor, etc.



Ser um bipolar
É odiar quem você ama
Maltratá-lo tanto... E se arrepender tão amargamente, como o veneno de uma serpente.
É não saber quem você é, o que realmente quer,
Mesmo que o mundo todo te disser...
É ser tão sábio e tão tolo tão igualmente
Que facilmente o pratica mentalmente.
É não dormir, só dormir
Sorrir e te fazer sorrir.
Se iludir e te persuadir sem você ao menos interferir,
Te ferir e me ferir...
Chorar até as lagrimas secarem
Acordar como se fosse "dono dos sete mares"
É estar bêbada sem freqüentar bares...
É ver meus neurônios torrando
É sentir me afogando
E estar só boiando.
É pensar primeiro
Acordar por ultimo
E se sentir sempre um inútil.
Sentir que a solidão habita em você,
Que com você esta todo o poder,
De só querer e acontecer...
É pensar que nunca posso te perder
Pois sem você eu posso perecer.
É ter uma mente tão grande que não cabe no corpo.
Olhar pro teu rosto,
E sentir aquele mesmo gosto
Do desgosto do mês de agosto.
É ser extremamente inteligente... Coerente
Ser tão indiscreto que chega a ser indecente
Ser tão elegante que te deixa ofegante.
É te matar de inveja,
Igual quando o céu troveja,
E atrapalha quem veleja.
É ser tão carente,
Que sem perceber derrepente,
Acabo me achegando a “Dementes”.
É ser tão ausente
Até ser transparente...
É não ter nenhuma confidente,
Para dizer que estou 
Extremamente doente...

Fonte do texto:
Kristine


"Ser bipolar é se fechar em um casulo num dia (semana, mês), e no outro se abrir feito um paraquedas."
    Essa frase é de um integrante de um grupo no facebook.
    O vídeo abaixo é de uma banda de rock que creio que a maioria deva conhecer, chamada Evanescence, cujo título é Lithium, que é um dos medicamentos mais usados no tratamento da bipolaridade. Como toda música, não devemos interpretá-la no sentido literal das frases, pois há controvérsias se a vocalista seja bipolar ou não.
http://www.evan-heart.com/desvendando-lithium/

Perrengues...
    Nunca fui de pedir coisas, seja ela o que for. Quando tive o meu primeiro surto psicótico e fui parar nas ruas, até que nos primeiros dias, logo depois que comecei a entrar na realidade e a sentir uma fome absurda, cheguei a pedir dinheiro para as pessoas para comprar pão. Mas pedir é algo um pouco complicado para mim, e confesso que nos primeiros dias cheguei a comer lixo de uma padaria que ficava perto do centro de Belo Horizonte.
    Mas o que venho a pedir hoje não é dinheiro em troco de nada. Venho pedir uma ajuda, para que eu possa chegar ao final do mês sem pedir dinheiro emprestado à ninguém, pois a verdade é que não conheço ninguém que me possa emprestar algum dinheiro. A razão do pedido é por que fiz um empréstimo pela caixa econômica, e a atendente me informou no momento que o valor iria demorar no máximo uns três dias para cair na minha conta. Então me programei contando com essa grana. Mas, passados os três dias, fui tentar sacar o dinheiro mas o mesmo estava bloqueado. Telefonei para o atendimento da caixa, e me foi informado que, para aposentados o dinheiro costuma demorar cerca de 18 dias, já que o pedido de empréstimo primeiro tem que passar pelo INSS. Ou seja, dentro de alguns dias a grana vai acabar, e vou ter que sair por ai pedindo dinheiro emprestado, a não ser que apareça algum computador ou notebook para formatar.

   Mas, como ia dizendo, não estou pedindo dinheiro, peço a quem puder, que compre o meu livro, que já estará me ajudando e muito. Tem no formato PDF, que custa 7 reais, e o impresso, que custam 32 e 35 reais, respectivamente. O link com todas as informações para adquiri-los está logo abaixo, ou então é só clicar na imagem no lado direito superior da página:


Como adquirir o livro Mente Dividida


http://memoriasdeumesquizofrenico.blogspot.com.br/2012/08/mente-divida-memorias-de-um.html

Como adquirir o livro Divagações Esquizofrênicas

    E, para piorar a situação, terei que comprar um medicamento um pouco caro para o meu padrão. É um medicamento que serve para diminuir inflamações nas articulações. Depois de quase um ano e meio de espera, finalmente consegui uma consulta com o ortopedista, que me indicou este medicamento e mais a fisioterapia. Às vezes aparece um outro serviço de formatação de computadores, mas não é algo certo, e o meu problema no pé está me deixando muito cansado, pois tenho que andar usando mais a perna direita do que a esquerda. 


    Vou precisar de 60 saches desse medicamento, e, pesquisando na internet vi que ele é vendido em caixas com 30 saches, e o preço não é nada agradável. Mas irei ao médico para fazer duas receitas de 30 saches cada, para melhorar um pouco a situação, já que me parece ( alguém entende letra de médico?) que tenho que tomar um sache por dia (ou será dois?). 
     Não tenho vergonha de pedir, tenho a consciência tranquila, pois, sempre quando me foi possível, procurei ajudar as pessoas na época em que trabalhava como operador de som, e, hoje, tento da melhor maneira possível ajudar as pessoas que estão passando hoje o que passei há alguns anos atrás.
Obrigado a todos os leitores do blog, que sempre me apoiaram nos momentos difíceis. Estou há bastante tempo sem postar, infelizmente esse problema no pé tirou um dos poucos prazeres que ainda me restam, que é de caminhar e sair por ai sem rumo e sem documento, brincadeira, documento eu levo no bolso. Mas ainda tenho que fazer as minhas andanças e também quero ter o direito de ir e vir, sem sentir dores pelo corpo. 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O esquizo responde - parte 2

 
    Mais uma postagem com perguntas e respostas sobre o tema esquizofrenia. Não sou estudante, nunca frequentei uma faculdade, mas a vida me ensinou muito e sempre procurei aprender com os meus erros, além de ser uma pessoa bastante curiosa. Tudo isso aliado a experiência prática no tema me fez sentir capaz de responder algumas perguntas, ou pelo menos tentar ajudar a tirar um pouco as dúvidas das pessoas sobre essa tema tão complicado e ainda cercado de mistérios que é a esquizofrenia. Sintam-se à vontade para fazerem mais perguntas, que irei deixando acumular até dez questões, que acho um número interessante para uma postagem.

1- Você já sabe diferenciar o que é real do que não é real?
    Atualmente não tenho tido tantas alucinações como no início, por volta do ano de 2002. Existe uma classe de sintomas da esquizofrenia que são chamados de sintomas negativos, que é a apatia, o desânimo, a falta de interesse, etc. Creio que estou mais nessa fase dos sintomas negativos e não tenho tido tantas alucinações. Só a mania de perseguição que ainda me persegue. Esse tipo de sintoma até hoje não sei como vencê-lo, mas já lido melhor com ele do que há uns dez anos atrás. Infelizmente no momento em que ocorre essas situações, não tem como saber se são reais ou não, se tem algum fundamento para tê-los, creio que pela tensão que ficamos na hora em que ouvimos uma voz, por exemplo.
   Por exemplo, "penso que os traficantes pensem" que eu seja algum informante da polícia, e também chego a pensar que a polícia pensa que eu seja um traficante, um usuário de drogas. Tenho que ficar analisando os fatos, para tentar "administrar" essa paranoia, se ela tem algum fundamento ou não. Talvez os traficantes possam pensar que eu seja um "caguete" por ser um cara calado e pouco conversar com as pessoas. E por outro lado chego a pensar que a polícia pense que eu seja um traficante, por não estar trabalhando e ter uma renda e morar relativamente perto de uma "boca de fumo".
     Esse tem sido um grande desafio para mim, conviver com esses delírios persecutórios e ter uma vida próxima do normal. Já as alucinações auditivas hoje em dia são bem raras, e, quando acontecem, no momento penso que são reais, pois são bem nítidas as vozes. No dia seguinte analisando melhor a situação, às vezes consigo chegar à conclusão de que não foi real aquela voz, de que não foi ninguém que disse aquilo que ouvi.

2- Como são as suas alucinações visuais? Você vê pessoas que na verdade não estão ali?
    No meu caso em particular as alucinações visuais foram em menor número do que as auditivas, mas foram bem estranhas de se explicar. Certa vez, quando estava surtado, vi algo parecido com um machado vindo em minha direção, me lembro que no momento até me abaixei para desviar dele. Hoje sei que não foi real, pois não me lembro de ter ouvido nenhum barulho, pois era para o machado ter batido na parede ou no portão. 
    Também vi várias pessoas, e em alguns casos foi possível chegar à conclusão de que foram realmente alucinações, ao fazer a análise dos fatos. Por exemplo, quando estava perambulando pelas Br's, cheguei a ver dois colegas de trabalho, que não via a cerca de 16 anos atrás. Mas eles estavam com a mesma aparência, até o carro que o dono da firma dirigia continuava no mesmo estado, um fiat 147. No momento é claro que pensei que era real, pois eles pararam bem em minha frente. Não disseram nada, me lembro que o carona chegou a me oferecer algo, mas nem havia prestado atenção, de tão surpreso que estava. Hoje sei que não era possível aquilo ter acontecido, pois, além de não terem mudado a aparência, não falaram nada comigo, sendo que o dono da firma era uma pessoa bem extrovertida e sorridente. Sinceramente até hoje não sei explicar como aconteceu aquilo, pois no final eles foram embora, dando a partida no carro. E não eram parecidos com eles, eram os caras mesmo que estavam dentro do carro, só que com a mesma aparência de 16 anos atrás, até estavam usando o uniforme azul da firma.
    Tive várias outras alucinações visuais, durante os surtos. Via pessoas que conheci em outras cidades em Belo Horizonte, passando por mim e me olhando. Se fosse realidade, pelo menos algumas delas teria falado comigo. Na Br, de noite, cheguei a ver um vulto parecido com a "morte" meio que deslizando pela estrada. Confesso que na hora fiquei muito assustado, e tinha a certeza que ela queria algo comigo. Mas ela passou direto, e, quando a vi pela segunda vez já estava acostumado e não cheguei a me assustar. Hoje sei que foi uma alucinação, pois não poderia ser uma pessoa, pois não estava andando, e sim deslizando pela Br, e naquela velocidade uma pessoa teria que correr.
    Os temas místicos muitas vezes aparecem nos surtos psicóticos, é como se fosse um eco da mente, em que nossos medos e receios saem do nosso inconsciente e podem aparecer por meio das vozes e alucinações visuais.


3- Como é o delírio persecutório?
    Como já relatei na primeira pergunta, imagino que as pessoas estão contra mim. Penso que os traficantes querem me pegar por que "penso que eles pensam" que eu seja um "caguete". E penso que os policiais desconfiam de que eu seja um traficante, por não trabalhar e ter uma renda.
    Andando pelas ruas, penso que estão todos olhando para mim, apesar de não encontrar motivos para atrair a atenção das pessoas. Não adianta analisar os fatos, esse tipo de pensamento é um pouco difícil de não ter. Se por acaso riem, penso logo que estão rindo de mim.  E se estão sério demais, penso que é por que fiz algo de errado e estão me censurando. Também chego a exagerar no número de câmeras, penso que estão em todos os lugares, em todas as ruas. 
    A situação fica mais complicada quando tenho algum tipo de alergia ou então fico doente, e então logo imagino que algum "inimigo" conseguiu me envenenar, colocando algo em minha comida. Resumindo, no delírio persecutório chego a imaginar que tudo gira em torno de mim, e que todo o mundo está contra mim.

4- Você tem instabilidade de humor em questão de minutos?
    Sim, e creio que muitas pessoas também têm, independentemente de serem ou não portadoras de esquizofrenia. Mas no meu caso, isso é muito recorrente, e chega a prejudicar a vida social, pois não tem como marcar alguma coisa, pelo simples fato de não saber como estarei naquele dia marcado. Essa variação de humor é mais comum na bipolaridade, mas também pode ser um dos sintomas da esquizofrenia, tanto é que alguns psiquiatras chegam a diagnosticar um portador de esquizofrenia como bipolar, e o contrário também chega a acontecer. Abaixo um link com as semelhanças e diferenças entre a esquizofrenia e bipolaridade.
http://entendendoaesquizofrenia.com.br/website/?p=3733

5- O que preciso fazer para namorar uma pessoa esquizofrênica? Já estou namorando, só preciso saber os cuidados, e o que não devo fazer, pois gosto muito dela e quero ajudá-la a ser feliz.
    Bem, é uma pergunta que tem uma resposta simples. Seja você mesmo, sem mentiras, sem falsidades. Não existe a pessoa "esquizofrênica". Cada pessoa que tem esquizofrenia tem a sua maneira de ser e pensar. Tem suas qualidades e defeitos. Não existe um padrão de pessoa com esquizofrenia, infelizmente é um rótulo que a sociedade nos colocou.  Existe sim alguns comportamentos que são os sintomas da esquizofrenia: desconfiança exagerada, o retraimento, isolamento e outros sintomas parecidos. O que você pode fazer é se informar ao máximo sobre o assunto, para assim lidar melhor com o seu companheiro(a).
    E também tratá-la como se fosse uma pessoa normal, que não tem nenhum problema. A melhor maneira de tratar uma pessoa com "problemas" é tratá-la como se não tivesse problemas. Quero dizer com isso é que o sentimento de pena, dó, não é muito legal. Mas às vezes é preciso ter paciência em algumas situações, deixar algumas questões para serem resolvidas depois. Mas no geral não tem nada demais, nenhum cuidado exagerado deve ser tomado. Claro que tudo depende da gravidade do caso e do tipo também.

6- Qual a relação entre a depressão com a esquizofrenia?
     Bem, se considerarmos que a depressão é uma doença endógena, podemos então dizer que não existe muita relação entre a esquizofrenia e a depressão. Existem sim os sintomas negativos da esquizofrenia que são bem parecidos com os da depressão, que são: a apatia, a falta de energia, de interesse, o embotamento afetivo, etc.
     Creio que, depois do primeiro surto psicótico principalmente, possa bater uma tristeza tão grande na pessoa que possa ser confundida com a depressão. O diagnóstico pode também causar um desânimo muito grande. Então, devemos em primeiro lugar saber diferenciar tristeza, desolamento da depressão.
    Hoje em dia também se fala na depressão exógena, que acontece em razão de circunstâncias de nossas vidas: uma perda, um trauma, etc. Creio que o diagnóstico da esquizofrenia, as incertezas, o preconceito, tudo isso possa levar à esse tipo de depressão, se bem que prefiro usar a palavra tristeza mesmo. Pois, na minha opinião, quando existe um motivo para essa situação, não se deve chamar de depressão, pois não existe medicamento que cure a tristeza de uma alma.

7- Você faz algum tipo de terapia psicológica?
    Já fui em diversos psicólogos (as). Mas no meu caso em particular não surtiram efeito ou melhoraram a situação, pois nas terapias apenas me faziam perguntas e anotavam tudo em um caderno. O que mais precisava no início era de informação sobre o que eu realmente tinha, pois vivia indo nas igrejas para espantar o "tinhoso", pois pensava se tratar de algo puramente espiritual. Mas nas igrejas ficava ainda mais confuso, pois, quando ia na frente, muitas pessoas caíam, menos eu. Cheguei a pensar que o espírito que estava em mim era muito forte, e que precisaria de um exorcismo. Como disse antes, as questões religiosas e místicas podem estar muito presentes, principalmente durante os surtos.

8- Como são seus delírios?

     Existem definições diferentes sobre a definição da palavra delírio, mas na psiquiatria ela quer dizer basicamente pensamentos que não correspondem com a realidade. 
    Antes de surtar, tinha um delírio de que era superprotegido pelo meu anjo da guarda e então não temia praticamente nada, chegando a me envolver em situações complicadas. Não sei se foi coincidência ou não, sempre passava por essas situações ileso. Acho que passava tanta autoconfiança nessas situações que as pessoas sentiam um pouco de medo de mim. Me lembro que cheguei a encarar um cara bem forte quando tinha uns 16 anos. Parecia um lutador de sumô e estava dando porrada em todo mundo, aplicando alguns golpes de alguma arte marcial. Quando se deparou com a minha pessoa, fiquei encarando-o firmemente nos olhos, com a certeza de que seria protegido. O cara simplesmente não fez nada e seguiu atrás de outros caras. 
   Hoje em dia o que mais me atrapalha são os delírios persecutórios mesmo. Por exemplo, penso que todas as pessoas pensam que eu seja um ladrão. Se uma mulher segura sua bolsa com firmeza perto de mim é como se estivesse me chamando de ladrão. E quando não segura só falta eu agradecer a pessoa por não desconfiar de mim. Quando entro em algum estabelecimento penso que todos os seguranças estão me monitorando. Se algum por acaso fala no rádio de comunicação, então é o fim para mim, tenho certeza absoluta que estão falando de mim. 

9- O que as suas vozes costumavam falar?
    No início, as vozes eram comentaristas, ou seja, apenas comentavam algo sobre a minha pessoa. Comentavam se eu estava gordo, se estava magro, se estava com a mesma roupa do dia anterior, enfim sobre a minha aparência, sobre algo que havia feito, etc. Também ouvi algumas vozes me culpando por tudo o que havia feito de errado em minha vida, e depois sobre tudo mesmo, até mesmo coisas que não havia feito. O sentimento de culpa exagerado é um dos sintomas da esquizofrenia também.  À medida que a situação foi piorando as vozes passaram a ser ameaçadoras, chegando a ouvir que queriam me pegar, me matar, etc. Felizmente não tive muitas vozes de comando, me pedindo para fazer coisas. 
    Durante os surtos as vozes ficavam descontroladas, parecia tagarela mesmo. Fica até difícil lembrar com detalhes os diálogos que tive com elas. Me recordo que às vezes tinha que ficar lendo os outdoors imaginando que as pessoas liam a minha mente e ficavam falando na minha cabeça. Então, para espantá-las ficava lendo e repetindo as coisas para que as supostas pessoas parassem de ficar lendo os meus pensamentos. 


10-As suas vozes já pediram para você fazer algo que pudesse trazer danos à sua vida (ou de outras pessoas)?
    À vida das outras pessoas até que não. À minha vida sim, pois uma voz chegou a afirmar que eu era uma alma penada, e então parei de me alimentar, chegando a perder cerca de 25kg e me refugiei no meio do mato. Mas não cheguei a ouvir as vozes de comando, que pedem para fazer coisas contra as pessoas. As vozes quando são muito intensas e insistentes, chegam a prejudicar a nossa saúde, pois não dormimos e nem nos alimentamos direito, sem contar o stress que elas podem nos causar. 


CDE- Central de Downloads do Esquizo

    Esta semana na CDE estou disponibilizando o livro Holocausto Brasileiro, que retrata como era o tratamento dos considerados loucos pela sociedade durante boa parte do século XX. Pelos relatos, não só os considerados loucos, mas os que eram excluídos pela sociedade eram levados de trem até esse hospital, na cidade de Barbacena, em Minas Gerais. 
   Neste livro-reportagem fundamental, a premiada jornalista Daniela Arbex resgata do esquecimento um dos capítulos mais macabros da nossa história: a barbárie e a desumanidade praticadas, durante a maior parte do século XX, no maior hospício do Brasil, conhecido por Colônia, situado na cidade mineira de Barbacena. Ao fazê-lo, a autora traz à luz um genocídio cometido, sistematicamente, pelo Estado brasileiro, com a conivência de médicos, funcionários e também da população, pois nenhuma violação dos direitos humanos mais básicos se sustenta por tanto tempo sem a omissão da sociedade.
Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros da Colônia. Em sua maioria, haviam sido internadas à força. Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental. Eram epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, gente que se rebelava ou que se tornara incômoda para alguém com mais poder. Eram meninas grávidas violentadas por seus patrões, esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento, homens e mulheres que haviam extraviado seus documentos. Alguns eram apenas tímidos. Pelo menos 33 eram crianças.

   Para acessar a CDE, basta clicar no link abaixo ou então na imagem situada no lado direito superior do blog.
https://onedrive.live.com/?cid=A884A13FCDDC52A3&id=A884A13FCDDC52A3%21118
   Quem tiver algum link de algum livro sobre qualquer tipo de transtorno mental, se puder me passe, para disponibilizar para as pessoas. A informação é a base de tudo e a melhor arma contra o preconceito e a falta de respeito contra as pessoas consideradas "diferentes" pela sociedade. 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Galeria de arte


    Cíntia Cardoso

    Mais uma postagem da série Galeria de arte, em que procuro divulgar o trabalho artístico de meus amigos portadores de esquizofrenia. Como sempre costumo dizer, existe uma relação bem intima entre a "loucura" e as artes em geral. Talvez essa relação aconteça por causa de uma qualidade em comum entre a arte e a loucura, que é a sensibilidade. Ao longo de anos de observação, pude perceber que as pessoas mais sensíveis talvez estejam mais propensas a algum tipo de transtorno mental do que os que tem pouca sensibilidade, e são chamados de mais "fortes". E, para ser artista, nem é preciso dizer que se tem que ter muita sensibilidade...
    No meu caso em particular, desde pequeno me apeguei à leitura, viajava em qualquer livro que encontrava na estante. A música também sempre esteve presente, e trabalhei a minha vida inteira como operador de som. Era uma alegria trabalhar com bandas, música, shows, festas. Só não gostava de trabalhar em eventos com muita formalidade, em que não havia música, só pessoas falando. Era um martírio quando tinha que fazer algum evento dentro da Usiminas, na cidade de Ipatinga...
"Segredo de Eva", escultura em argila
    Quem expõe seus trabalhos desta vez é uma amiga virtual, de São Paulo. E nada melhor do que ela própria para se apresentar:

    "Meu nome é Cíntia Cardoso dos Santos, curso Artes visuais na Instituição de ensino Cruzeiro do Sul em S.P, sou diagnosticada com esquizofrenia neuro psicótica cid F24 desde os meus 26 anos. 
Em minha obras costumo retratar o que eu vivo. A vida de um esquizo é difícil pois tenho fazes que eu consigo me cuidar, relacionar estudar trabalhar e muito mais, e há momentos de total psicose nestes eu fico dentro de casa e não falo com ninguém até passar, a arte me ajuda muito pois faz passar esta paranoia e outros sintomas por alguns instantes. O meu conselho para quem tem este diagnostico e para quem não tem: nos momentos que não estiver em surto tentar fazer um quadro de rotinas coloca na parede e escreva o que vc tem que fazer todos os dias e inclua momentos de lazer e o que você  gosta de fazer, se afaste do que te faz mal, por que você também é gente e respeite os seus limites por que assim crescemos como seres humanos". 
"Bem arguido" esboço para tela em lápis de cor
Duas vidas                                                                                      Litigio 
Meu diário (esboço)                                                                                Auto retrato
"Baby Toy", escultura em argila 

   É isso ai, quem estiver afim de apresentar seu trabalho é só entrar em contato comigo, pelo blog ou através do email juliocesar-555@hotmail.com  Não é necessário ser somente pintura, qualquer atividade cultural é bem vinda, como poesia, textos, música, esculturas, etc. 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Divagações esquizofrênicas 13


 
     Mais uma postagem da séria divagações esquizofrênicas, e, como não poderia deixar de ser, as paranoias diários do nosso cotidiano são o tema principal.
   Ano novo, vida nova, novos pensamentos e aquela baboseira de sempre. É como se precisássemos de uma data para refletirmos sobre nossas vidas e tentar mudar algo que não está dando certo.
    O ano é novo mas as paranoias são as mesmas de sempre, a diferença para dez anos atrás é que já estou meio acostumado com elas. Por exemplo: como bom brasileiro, gosto de ver um jogo de futebol, e, como nessa época os jogadores profissionais estão de férias, estou assistindo alguns jogos da copa são paulo de futebol júnior. Não tenho TV a cabo, então conecto o notebook na entrada HDMI da TV e assisto alguns canais pela internet mesmo, com uma qualidade de imagem meio ruim e algumas travadas. E foi numa dessas travadas que algumas paranoias minhas foram ressuscitadas. Estava assistindo um jogo normalmente, a partida estava dura,  empatada em 0x0 e aí,o site travou.... Quando voltou, o time que torço havia inaugurado o placar. A alegria tomou conta de mim, mas logo veio a tristeza. Pensei: "pô, por que o meu time só fez o gol quando não estava assistindo?"  Não é aquela simples sensação de ser um pé frio, é algo um pouco pior. Foi um drama, fiquei no velho dilema: assistir ou não os jogos do meu time? Sempre penso que, quando ele perde e estou assistindo, a culpa é minha. E o contrário também acontece: se perdeu e não assisti, a culpa foi minha, pois, como bom torcedor, tenho que assistir e dar aquela força. Depois de um pouco pensar, resolvi continuar a assistir, afinal, é uma das poucas diversões que ainda tenho. Com o passar do tempo, o meu time fez mais alguns gols e ganhou com facilidade. Não sei quando essa "cisma" começou, mas creio que desde os treze anos de idade tenho esse tipo de pensamento. Me lembro que estava no estádio mineirão, assistindo o jogo do atlético mineiro contra um outro time, que não me lembro o nome agora. E, quando a locutora do estádio anunciou no serviço de auto-falante que o meu time estava perdendo um jogo decisivo comecei a chorar. Disse para o meu amigo que foi ao jogo comigo que a culpa era minha, pois desde pequeno ouvia os jogos do meu time, que é de outro estado, naqueles rádios antigos valvulados. Mas chorei muito mesmo, tinha a plena convicção de que a culpa era minha, pois sabia que o meu time estaria jogando naquele horário, e mesmo assim resolvi ir ao mineirão assistir o jogo do atlético mineiro.

                                                  seleção brasileira de "Júnior"

   Até hoje fico nesse dilema, penso que se perdeu a culpa é minha mesmo. Sei que isso deve acontecer com outras pessoas que não tem esquizofrenia, mas no nosso caso tudo é superdimensionado e chega a prejudicar o nosso dia a dia. 
     Em relação à imagem acima, só quem acompanhou o futebol na década de 80 e 90 irá entender. Quem souber a resposta irá ganhar um livro Mente Dividida em PDF. É só enviar a resposta nos comentários. Os três primeiros que responderem ganharão. 

BBP Big Brother Paranoico
    Onde moro tenho vizinhos que trabalham muito, chegam cansados do trabalho por volta das sete horas da noite. Não sou muito de conversar com eles, prefiro manter certa distância, pois, não sei se é por que tenho cara de idiota ou um outro motivo, os vizinhos estão sempre me pedindo favores. Quando não é dinheiro, pedem para consertar alguma coisa, uma ferramenta, fita crepe, isolante, ebulidor, etc...
    Para mim é extremamente difícil pedir algo emprestado, a não ser em caso de urgência mesmo. Alguns vizinhos seio um pouco acomodados mesmo.  Por exemplo: os caras não querem fazer uma vaquinha para comprar uma vassoura, mas têm dinheiro para comprar a erva danada, e, quando compro a vassoura, só faltam pedir emprestado para varrerem seus quartos.
    Já ouvi indiretas sobre uma suposta vida boa que levo, ficando o dia inteiro na internet, assistindo televisão, sem ter que trabalhar. Me pergunto que vida boa é essa, sendo praticamente um prisioneiro, só que sem grades.  Mas para que grades se o que nos prende é um vilão que tememos que é a esquizofrenia? Esse vilão nos permite sair de onde estamos presos, mas nos segue por todos os lugares onde vamos. No meu caso ele não me incomoda tanto quando estou aqui no meu quarto.
    Não trocaria a minha vida antes da esquizofrenia por nada, nem por uma aposentadoria de três salários mínimos. Não tem preço poder andar por ai sem paranoias, despreocupadamente, ir aos shows das bandas que gostamos, ou então ficar de bobeira mesmo, ir ao  zoológico dar pipoca aos macacos ou no parque das mangabeiras, por exemplo.
    Se me fizessem uma proposta, de ter que passar por tudo o que passei durante os surtos para conseguir uma bela aposentadoria, provavelmente a minha resposta seria não, pois tenho certeza de que não conseguiria passar por todo aquele sofrimento físico conscientemente. Quando estamos fora da realidade perdemos a noção de muitas coisas, e conseguimos andar por vários quilômetros sem parar para descansar, por exemplo. No meu caso a sensação de fome desapareceu, é como se a região do cérebro responsável por essa parte tivesse sido desativada. Só sentia muita sede.
    Mas me lembro do dia em que andei  praticamente o dia inteiro, das nove da manhã até por volta da uma hora da madrugada do outro dia. Estava sentado em um ponto de ônibus, na BR, em uma cidade no sul de Minas. De repente, um cachorro foi atropelado por um carro que estava em alta velocidade, e ai logo ouvi o dono dizer que a culpa era minha. Se foi alucinação ou não, até hoje não sei responder. Logo pensei que o dono do cachorro iria chamar seus amigos para me linchar, esquartejar, etc. Então peguei a estrada e por todo o caminho ouvia as pessoas falando de mim. E imaginava que eles não só queriam me matar, mas antes queriam que eu sofresse muito, ou seja, seria uma morte lenta e dolorosa. No caminho, parei para comer algumas mangas que estavam deliciosas. Não tem como comparar, as frutas dos supermercados não tem o gosto das frutas tiradas direto do pé e sem os agrotóxicos e outras coisas que são colocadas para crescerem mais e ficarem mais bonitas. As mangas estavam deliciosas mesmo, no ponto, me lambuzei todo, mas, no final, ouvi um garoto, que estava no outro lado da estrada, dizer:
    - As mangas estão envenenadas!
    Não tive dúvidas:  enfiei o dedo na goela e pus tudo para fora, aquelas mangas deliciosas, que as do supermercado não conseguem imitar o sabor e nem o aroma. E foi assim pelo caminho, ouvindo acusações por todos os lados e imaginando o pior, chegando ao ponto de ir à uma delegacia, para pedir ajuda, mas o policial não me deu atenção e então tive que continuar a minha jornada. Por volta da meia noite, cheguei em uma cidade, próxima à Belo Horizonte, e a mania de perseguição estava no seu grau quase máximo. Quando o sino tocou as doze badaladas noturnas, pensei que era o padre anunciando para a cidade que eu havia chegado, e não que o relógio era automático e que realmente era meia noite! A solução que encontrei foi me refugiar no mato, e passei a noite inteira acordado, ouvindo pessoas tramando alguma maneira de me pegar. Assim que o sol raiou continuei a minha fuga dos inimigos que estavam somente em minha mente.
    Por que estou contando esses fatos com detalhes agora? Como disse, não iria aceitar a proposta de passar por tudo novamente em troca de uma boa aposentadoria, pelo simples fato de saber que uma pessoa em condições mentais normais não conseguiria ficar tanto tempo em estado de alerta, ainda mais sem se alimentar. Acho que é a adrenalina e outras inas mais que nos permitem fazer coisas que normalmente não conseguiríamos.
http://super.abril.com.br/ciencia/em-situacoes-de-risco-nosso-corpo-ganha-superpoderes
   Me lembro também dos dias que passei no meio do mato, quando pretendia seguir a pé para o Rio de Janeiro, pois em Belo Horizonte estava imaginando que meus inimigos iriam me pegar mais dia menos dia. Toda noite dormia em um local diferente, para não ser pego. Imaginava que os catadores de materiais recicláveis queriam me matar de qualquer maneira.
   Nesses dias que passei no meio do mato, não comi nada. Tive a sorte de encontrar uma fonte de água para matar a minha sede. Era verão, e o sol estava me castigando e me deixava tonto, estava muito debilitado, havia perdido cerca de 25kg. As noites pareciam intermináveis, principalmente quando chovia. Fazia frio naquele ponto da BR, pois era bem alto o local e cercado de mato. E estava usando apenas uma camiseta e uma calça comprida de praticar esportes. De tarde, por volta das quatro horas, mosquitos de várias espécies, cores e tamanhos me visitavam e não deixavam um ponto do meu braço sem ser picado. Até a calça alguns mosquitos costumavam atravessar com suas picadas...
    Outro "teste" físico que foi dificílimo aconteceu também quando estava no meio do mato. Comecei a imaginar que, para obter a salvação e me livrar de todos aqueles inimigos, teria que alcançar o alto da montanha. Comecei a escalá-la assim que escureceu, pois receava que algum inimigo pudesse me avistar e assim me perseguir. As horas foram se passando, e subia a montanha com todas as forças que haviam me restado. Mas a sensação era de que não avançava, pois o alto da montanha continuava sempre distante. Depois de um certo tempo, o terreno com mato e grama deu lugar a um terreno cheio de pedras pontiagudas. Como estava descalço, retornei ao mato e improvisei um sapato, enrolando capim seco no pé. E voltei a minha peregrinação ao alto da montanha, pois imaginava também que, do outro lado, iria avistar o paraíso e assim me livrar de todo aquele sofrimento. Vejam que a questão mística e religiosa está muito presente neste surto que tive. A verdade é que a montanha está presente em várias religiões do mundo inteiro. Voltando ao assunto, com o passar do tempo, as minhas energias foram se esgotando e o cume da montanha parecia ainda muito distante. Senti que não teria forças para chegar ao final e também não conseguiria voltar ao local onde estava. Deitei-me então naquele terreno pedregoso, me senti como um faquir, pois as pedras eram muito pontiagudas mesmo. E, para piorar ainda mais a situação, formigas começaram a subir pelo meu corpo e a me picar. Não tinha outra alternativa, fiquei a noite inteira me desvencilhando das formigas em cima daquelas pedrinhas pontiagudas...
    Esses foram apenas alguns dos vários "testes" pelos quais passei, até me aposentar. E ainda tenho que ouvir de caras que mal começaram a trabalhar que tenho vida boa... Durante os surtos, não comi o pão que o tinhoso amassou, comi o lixo mesmo... De noite costumava ficar  perto de uma padaria, à espera dos sacos de lixo que os funcionários colocavam na calçada. Tinha que ser rápido, pois o caminhão de lixo não demorava para passar. E encontrava dentro daqueles sacos alguns pães que não estavam velhos, apenas um pouco ressecados. Também costumava encontrar bolos e um certo dia achei um sanduíche ainda quente e inteiro, a dona da padaria provavelmente pediu para colocar lá no saco, pois eu sempre deixava o local limpo, e fechava os sacos de lixo, para não sujar a calçada. Chega a dar um pouco de nojo quando me lembro dessa situação, mas, quando estamos com uma fome absurda, tudo fica gostoso... Me lembro como era difícil passar em frente de uma padaria, ver aqueles pães de queijo novinhos, aquelas tortas de chocolate...
   E, na minha opinião, tão ruim como esse sofrimento físico foi o psicológico. Aliás, era o sofrimento psicológico que me fazia ter o sofrimento físico, pois tudo aquilo que fiz foi para tentar fugir dos inimigos que imaginava estar em toda parte, mas que na realidade estavam em minha paranoica mente.
    E você, abdicaria de uma vida aparentemente normal, sem paranoias, com saúde mental, e principalmente paz, para ter uma aposentadoria de um salário mínimo e ainda ser prisioneiro de uma doença chamada esquizofrenia?
    Não quero dar uma de coitado, mas precisava desabafar, pois é complicado ouvir indiretas de caras que mal começaram a trabalhar e pensam que tenho uma vida boa, que nunca precisei trabalhar e que foi só ir ao INSS e dizer que estava doente para me aposentar. Tudo isso que descrevi é apenas uma parte do que passei, me considero não um vitorioso, apenas um sobrevivente de uma aventura em um mundo desconhecido chamado esquizofrenia.
     E ainda temos que conviver com a falta de compreensão da sociedade, que imagina que o que sentimos é frescura, que não existe o sofrimento mental. É fácil ser compreendido quando não temos uma perna ou braço, mas quando temos algum tipo de transtorno psicológico somos chamados de preguiçosos, que queremos ter vida boa, etc.. É óbvio que não quero comparar o sofrimento físico como mental, imagino como deve ser uma vida de uma pessoa sem uma perna, por exemplo. Confesso que chego a ficar com vergonha quando vejo na TV exemplos de pessoas que superaram suas deficiências físicas e conseguiram dar a volta por cima e ter uma vida praticamente normal. Mas a mente humana ainda é um mistério para a psiquiatria...

Livro Mente Dividida
    Por falar no que passei, ainda estou disponibilizando o livro Mente Dividida, em que narro tudo o que passei, antes, durante e depois dos surtos até o momento em que me aposentei. Para maiores informações é só clicar no link (palavras na cor azul) ou então no anúncio no lado direito da página.
O livro tem 127 páginas e conta um pouco da minha relação com o transtorno. Se a Bruna Surfistinha pode narrar suas aventuras e até a Geysi Arruda também, por que não posso escrever um pouco do que passei e, que posso ajudar um pouco as pessoas com a minha experiência?
    Também escrevi um outro livro, chamado "Divagações Esquizofrênicas", que é uma compilação do blog, em que seleciono as postagens relacionadas com o tema esquizofrenia, já que também escrevo sobre outros assuntos. É uma boa para quem não gosta de ficar muito tempo em frente de uma tela de um computador. Maiores informações no link abaixo, só que ainda tenho que pedir que me enviem um comprovante do pagamento, podendo ser uma foto ou então scanner, pois tentei usar o internet banking e o pessoal da caixa pede para baixar um plugin para o computador e que deixa a internet muito lenta. Retirei o plugin mas a lerdeza continuou, e tive que formatar o notebook Pesquisei na internet e isso aconteceu com muitas pessoas, e com outros bancos também.
http://memoriasdeumesquizofrenico.blogspot.com.br/2015/09/adquira-o-livro-mente-dividida-atraves.html


A crise tá braba...
   Bem, esse blog é um blog sem regras, sem muitas pretensões e sem muitas regras. Falo sobre esquizofrenia e outros assuntos, pois a minha vida não se resume somente a esse transtorno, só uns 90%...
   Sempre usei desodorante barato, de embalagem plástica. Usava um que não tinha perfume, pois o cheiro desses desodorantes mais baratos são um pouco fortes. A marca que usava era boa, não manchava a camisa e não deixa o cecê tomar conta do nosso corpo. Mas, com o tempo foi se tornando cada vez mais difícil encontrá-lo, até saber que a fabricação dele já havia se encerrado.
O jeito foi investir em um desodorante spray mais caro, com um perfume menos forte. É caro, para quem ganha um salário mínimo, custa cerca de 13 reais(pelo menos mês passado era esse o valor...)  E durava exatamente um mês. Mas já repararam que nos comerciais desses desodorantes os caras ficam meia hora direto apertando o spray? E o que fazemos? A mesma coisa, meio que inconscientemente, mas fazemos. Resolvi fazer um teste, dar apenas dois jatos breves nas axilas. E não é que me protegeu, mesmo quando jogava um futebol? E agora o spray chega a durar quase dois meses... É isso ai, é o blog do esquizo, com dicas de economia para você.

   E, como a crise tá braba, tento ganhar algum dinheiro extra para me manter. Agora estou formatando computadores e notebooks a preço sem concorrência no mercado!!! Garanto bom preço e qualidade no serviço. Já havia feito alguns cursinhos, mas coloquei tudo em prática usando o meu notebook. E hoje aprendi a formatar com o windows 10, o 8, o 7 e até com o velho e bom windows xp, que é o que estou usando no momento. Só que dei uma incrementada no visual dele, usando o tema do windows vista, que foi um fracasso de vendas por parte da microsoft. Quem for de  Belo Horizonte e estiver precisando formatar seu computador ou notebook pode entrar em contato comigo pelos comentários do blog ou então por email:
juliocesar-555@hotmail.com
atualmente estou usando o "X-Vista" o xp com o visual do vista