sábado, 19 de julho de 2014

Vivendo e aprendendo... a ser assaltado?


     Finalmente consegui dar um tempo na comilança, e consegui juntar uma grana para realizar a primeira etapa do meu projeto: comprar um notebook.
    Queria fazer isso somente quando estivesse na minha terrinha, no mais Belo Horizonte do Brasil. São Paulo ainda não é uma cidade totalmente conhecida para mim e por isso tenho o receio de ficar andando por ai com uma mochila para notebooks. E, além disso, a minha exacerbada desconfiança de tudo e de todos me impedia de deixar o produto no bagageiro do albergue em que estou no momento. "Se alguém tentar roubar o meu notebook, terá que passar por cima de mim primeiro!" pensei.
    Mas, certo dia, ao passar pela rua Santa Ifigênia, não resisti ao me deparar com um notebook em uma loja de produtos para informática. O note era o que eu queria, nem muito fraco e nem com configurações poderosas, para rodar os jogos mais modernos. O produto era seminovo, estava em um ótimo estado, o preço estava bom, e o cara me deixou testa-lo por mais de uma hora. Não tive dúvidas, saquei na hora a grana no caixa eletrônico mais próximo. Apressadamente comprei uma mochila para o note e passei a andar segurando na alça, olhando para todos os lados e para trás, para ver se alguém estava me seguindo. Agora entendo o porquê de muitas mulheres fazerem o mesmo. Sempre achava que elas estavam com o medo específico de minha pessoa, era como se estivessem me chamando de ladrão.Eu ficava muito chateado com essa situação, cheguei a pensar  em comprar um terno para ver se paravam com isso. Hoje, quando cruzo com uma mulher segurando a alça da bolsa, é como se estivessem me dizendo: "Bem vindo ao clube dos paranoicos de andar pelas ruas do centro de São Paulo..."
    Já na praça da Sé, não resisti. Abri a mochila, liguei o note e acessei o wi fi da prefeitura, apesar de saber que o local é um pouco perigoso e é próximo do parque Dom Pedro, um reduto de usuários de crack. É a primeira vez que adquiro um note, e tudo é novidade para mim, e não reparava nada em minha volta, até a bateria acabar. Não cansava de abrir e fechar programas, ver fotos, até me acostumar com a sensibilidade do local que é usado no lugar do mouse.
    Na chegada ao albergue, apesar de achar um pouco imprudente, liguei o note na tomada e comecei a organizar as fotos que guardo no pen drive. Alguns albergados paravam, olhavam curiosos e alguns me perguntavam o preço do aparelho. Na minha cabeça eles já estavam calculando  o valor do produto do futuro furto. A verdade é que nos albergues grande parte das pessoas são honestas, que trabalham ou que estão procurando emprego. Outros estão lá por algum motivo específico, uma dificuldade passageira. Mas sempre têm aqueles que não querem nada com trabalho, e vivem pulando de albergue em albergue, praticando pequenos furtos, talvez para sustentarem um provável vício em drogas ou álcool.
    Mas, como disse, grande parte trabalha, já encontrei alguns caras do albergue distribuindo panfletos nos sinais de trânsito, ou melhor, no farol, como dizem os paulistanos. Mas, por causa da minoria que não gosta de trabalhar, tive que amarrar o notebook no beliche na hora de dormir. A noite foi complicada, e acho que não dormi em nenhum momento, pelo menos foi essa a sensação que tive às cinco horas da manhã no dia seguinte, quando o monitor acendeu as lâmpadas dos quartos.
    -É, vou ter que ficar grudado com o note até chegar em Belo Horizonte...'- imaginei.
a FIFA até cogitou em proibir as baianas de venderem o acarajé nas proximidades da Fonte Nova

    Tive que deixar de correr e me exercitar no parque Belém. Não podia dar mole, e também estava acordando indisposto pelas noites mal dormidas.
    Na lan house tiro um print com os pontos de wi fi da cidade de São Paulo. O site da prefeitura sobre este assunto está fora do ar, por causa das eleições, e acessei então um outro site, que não me lembro o nome no momento. Haviam muitos pontos, para minha surpresa. Seguindo então o que estava indicado, fui até à uma praça no bairro Belém, mas não encontrei nenhum sinal por lá da prefeitura. Então fui até o ponto mais próximo, no Brás. Era feriado em São Paulo, e o bairro, tradicionalmente agitado em virtude do comércio de roupas, estava muito tranquilo. Alguns bares abertos, uma loja do Ponto Frio mostrando suas mercadorias e poucos moradores de rua estavam sentados nos bancos da praça do Largo da Concórdia. Então abri a mochila e liguei o notebook, mas novamente não encontrei nenhum sinal wi fi da prefeitura. Havia um sinal forte, mas que pedia uma senha. Era de uma lanchonete, e eu, distraidamente comecei a andar com a intenção de achar o estabelecimento, para tomar um lanche e acessar a internet, é claro. De repente, ouvi a palavra, que, só de lembrar, me dá uma tristeza enorme:
    - Perdeu!!!
    Foi tudo muito rápido. Acho que eram três caras. Me lembro que fui derrubado e então segurei o note com todas as minhas forças. Enquanto um cara tentava toma-lo de mim, os outros me davam fortes chutes na cabeça, próximos as têmporas . Se eu tentasse reagir, revidando a agressão, provavelmente iria perder o note, afinal estava com as duas mãos ocupadas, segurando o aparelho que me custou tão caro.
    Então a solução foi me fechar como um tatu e aguentar os chutes, à espera de uma quase improvável chegada da polícia, apesar de haver uma cabine dos homens da lei, à cerca de 70 metros do local. Haviam poucas pessoas nas ruas, a maioria estava no bar tomando cerveja. Alguns haitianos ou nigerianos vendiam fones de ouvido e outras coisas em cima de improvisadas caixas de madeira. Os chutes doíam um bocado, mas no momento só pensava no esforço que fiz para realizar parte do meu sonho de consumo, e então iria segurar o note até que minhas forças fossem embora.
   Era dia de jogo da copa, no Itaquerão. Os corinthianos preferem que chamemos o estádio de arena Corinthians, mas o que tem de mal nisso, para quem incentiva o time aos gritos de "vai curintia"?
   Como quase todo o efetivo da polícia militar deveria estar dando segurança para os gringos, desisti de esperar a ajuda dos homens da lei. Só para se ter uma ideia, a radial leste, uma avenida que liga o centro da cidade ao estádio, é toda monitorada. Dizem que ninguém pode ficar na avenida de bobeira, todos são abordados e aconselhados a se retirarem, para evitar um possível atentado ou coisa parecida com as delegações das seleções que jogaram em Sampa.
    Então continuei resistindo até que um senhor de idade apareceu, gritou algo e tirou do bolso um objeto, que parecia ser um celular, e os caras saíram correndo na hora. Será que o senhor tirou do bolso na verdade um revólver? Não sei...
    Então me levantei  e, como estava meio zonzo, me fiz algumas perguntas para constatar se estava tudo bem com a minha caixola:
    - Qual é o seu nome? Em que ano você nasceu? O que você está fazendo em São Paulo?
    Após constatar que todas respostas estavam corretas, cheguei a conclusão de que, apesar das dores, estava tudo em ordem e que não precisaria de ir a um hospital. Comecei a cuspir um pouco de sangue, e, com a língua, conferi se todos os dentes estavam em seus devidos lugares. Também tudo certo, apenas tive uma pequena ferida no lábio inferior. Na queda ralei o joelho e a calça acabou se rasgando. Machuquei também a mão, mas nada de muito grave.
    Um sentimento de alívio então tomou conta de mim. Era como se eu tivesse ganho um notebook de presente. Mas, entrando um pouco na realidade percebi como fui bobo, tolo e ingênuo ao querer usar de qualquer maneira o notebook. Como pode um cara ficar andando em pleno Brás, de um lado para outro, com um notebook aberto à procura de um sinal wi fi? Eu tinha aquela sensação de que essas coisas só acontecem com os outros. Também me sinto protegido por seres superiores, que costumo chamar de anjo da guarda. Já fui roubado diversas vezes, mas essa é a primeira vez em que a violência foi empregada pelos marginais. Nas outras vezes em que fui roubado, não estava presente. Me lembro que, quando trabalhava na cidade em que tive os surtos, fui roubado duas vezes. O ladrão entrou em meu quarto, já que eu morava na firma e roubou uma quantia equivalente a meio salário mínimo. Isso aconteceu duas vezes, e acho que eram dois ladrões diferentes, pois um deles foi "bonzinho", ao não pegar toda a grana que havia no quarto.
    Mas voltando ao assunto violência, os policiais pedem para não reagirmos aos assaltos, ou seja, que entreguemos tudo para esses caras numa boa, sem fazer nada. Então, a única coisa que podemos fazer é o boletim de ocorrência, apenas para bloquear o celular na operadora, pois já sabemos que nada irá ser feito. Em São Paulo, apenas 2% dos casos são esclarecidos. Muito pouco né?
    Então não tive outra opção. Segurei o notebook como se fosse a minha própria vida, como se tivesse defendido um chute perigosíssimo em uma final de campeonato, e que os atacantes adversários estivessem esperando um rebote. Percebi que os ladrões já estavam pensando em desistir do assalto, já que não conseguiam tirar o aparelho de mim. Cansei de ser roubado, nos pedem para ficar calmos em um assalto, mas, e os ladrões? Existe um assalto politicamente correto? Seria menos drástico se o roubo fosse feito com boa educação, se, ao invés de dizer perdeu, o safado dissesse:
    - "Você está sendo roubado, poderia por favor me passar a quantia total que você tem em sua carteira?
    Seria menos drástico se roubassem somente os ricos e poupassem os pobres, que, com enorme dificuldade compram uma televisão LCD? Acho que seria menos drástico sim, mas não sou a favor dessa teoria. Roubo é roubo e pronto. Se uma pessoa tem uma boa situação financeira por que ralou para isso, então por que seria correto roubá-la? Já ladrão que rouba de ladrão é outra história...
    Confesso que fiquei feliz por que quase tudo ocorreu bem durante a copa, acho que quase tudo funcionou, menos a seleção. Mas continuo com a mesma opinião, copa do mundo é para quem pode, os problemas no Brasil continuam, nos transportes, na saúde, na segurança e um monte de coisas.
    Quem sabe se os policiais naquele dia estivessem em seus devidos lugares, ao invés de darem segurança  para os gringos, eu não seria assaltado? E ainda vou ter que torcer, por exemplo, para não pegar dengue e ficar quase um dia inteiro no corredor para ser atendido em uma UPA ou hospital. Naquele local onde fui assaltado comumente os policiais fazem uma ronda, mas naquele dia estavam à serviço da FIFA. Essa entidade até cogitou em proibir as baianas de fazerem o seu acarajé, passando esse serviço a uma rede de fast food qualquer. Mas  o povo baiano é arretado, e a fifa teve que voltar atrás nesta decisão. Afinal, o que eu ganhei com a copa? Eu não sou dono de bar, de hotel, de agência de turismo e tampouco fabrico as bugigangas que são compradas pelos torcedores nesta época. A única coisa que ganhei foi uma humilhante derrota em campo, que fez vir à tona o que acontece fora dos gramados no Brasil.

    Será que vou ter que virar um monge budista e seguir o ensinamento de que o o sofrmento é causado pelo desejo? Ou seja, se não queremos nada, não vamos ter nada e assim não teremos mais nenhuma preocupação, teremos enfim a tão sonhada paz. Afinal, quem irá se importar com alguém que não tem nada para ser roubado ou invejado? No primeiro surto que tive, senti algo parecido. Estava nas ruas e a única coisa que tinha era a roupa do corpo. Estava meio fora da realidade, é verdade, mas o fato de não ter nada me dava uma tranquilidade que não me lembro de ter depois de atingir uma certa idade. Não tinha horário para nada, nada para esquentar a minha cabeça. Não queria impressionar ninguém para conseguir um trabalho, quase não me preocupava com comida. Belo Horizonte é uma cidade hospitaleira, e ajuda aos moradores de rua nesta questão até que não falta. Confesso que tenho uma certa saudade desse estado mental que experimentei, mas não da situação em que me encontrava. Me lembro que conseguia dormir tranquilamente na calçada, sem cobertor e nem ao menos um pedaço de papelão. Será que o segredo da vida é esse? O não querer e o não ter?
    E agora que estou um pouco mais paranoico, vou tomar mais remédios? Mas como irei reagir a um próximo assalto, se estarei dopado? Se não fosse o peso da mochila, a questão da higiene, a alimentação, eu viveria eternamente nas minhas andanças pelo interior de Minas Gerais.
Iria conhecer cada cantinho desse estado tão maravilhoso e, principalmente de um povo tão simples e acolhedor. Na minha estrada real, o pão de queijo brota aos montes nas árvores, e as vacas vão ao nosso encontro para nos oferecer o mais puro e delicioso leite que já experimentamos...  


            

Flávio Venturini

Andarilho de luz
 
Uma estrela caiu
E nos desejou
Um amor maior que os andes
Das geleiras azuis
A montanha acordou
E emaranhou
Viajante solitário
Avião e vapor
Lua lua luou
E gravou no céu
O seu disco flutuante
Minha vista nevou
Andarilho de luz
Veio me trazer
Un sendero luminoso
Gavião e condor
Nas trincheiras do sol
Todos os irmãos
Mesma trilha guerrilheira
Violão e cantor
Quem pintou amanhã
Paz de bom pastor
Sentimento quebra gelo
Coração e calor

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Último post final


  Bem pessoal, no penúltimo post havia afirmado que não iria postar mais. Infelizmente uma infeliz afirmação de um ser que se diz psicólogo me fez mudar de opinião. Para resumir, o cara disse que o esquizofrênico não consegue raciocinar, criar, enfim, não pode e não tem capacidade de fazer nada. Disse também que não tenho esquizofrenia por que consigo escrever e fazer um blog. Fui excluído do seu grupo no facebook. Mas não poderia ficar quieto né? Respondi e provei através de prints que esse cara é na verdade um baita de um mal intencionado e oportunista.
    Mas este post é realmente o último e por isso vamos falar de coisas positivas. Aliás, o que tinha que dizer sobre a esquizofrenia,  já disse. Quer dizer, sempre falta algo para se dizer sobre o assunto, de tão complexo que é.  O negócio agora é divulgar o blog. Nas minhas andanças vou sair distribuindo panfletos. Vou continuar com as minhas andanças com a minha mochila e com a minha barraca. Esse contato com a natureza não tem preço. Quer dizer, tem um preço, e é caro shahasuhsuas  Para mim o jeito é ir na barraca mesmo. Vou postar no blog o diário e as fotos das próximas andanças. É muito bom reler e rever as aventuras de um certo tempo.
    Resolvi publicar o blog por vários motivos:
    -sempre gostei de escrever
    - queria ajudar a diminuir o preconceito e o estigma que cerca a esquizofrenia.
    - queria também me sentir útil e ocupar um pouco a minha ociosa mente de aposentado.
    Mais explicações sobre o motivo está no post "por que escrever um blog?"
    Não tinha muitas pretensões nos posts, de início.  Mas, com o tempo o blog foi caindo no gosto dos internautas que lidam com o tema. Até algumas pessoas que não lidavam com o assunto, me diziam que gostavam de ler os posts. Também comecei a ser olhado meio como um psiquiatra, ao receber tantas perguntas sobre o assunto. Infelizmente não tenho as respostas para a esquizofrenia. Não sou inteligente, apenas procuro me esforçar e fazer sempre o melhor que posso. Algumas críticas eu recebi, mas os elogios e agradecimentos foram em maior número. (creio que recebi uns dois comentários negativos apenas). Isso me deu forças para continuar.
o blog tem tido um bom número de visualizações...

    Por um momento cheguei a sonhar que seria convidado a sair por ai falando sobre a esquizofrenia. Mas eu não sou totalmente a favor dos medicamentos. Experimentei vários e, na minha opinião, são todos meio parecidos. Falta muito para se chegar a algo no mínimo aceitável, que dê condições aos portadores de continuarem a estudar, a trabalhar, enfim, de viverem. Infelizmente, dá para se contar nos dedos a quantidade de portadores que tiveram uma significativa melhora e que voltaram aos estudos e ao trabalho sem maiores problemas. Falo isso por que há anos convivo virtualmente com portadores, desde as comunidades do orkut. Se eu falasse por ai que estava bem, que a esquizofrenia é como a hipertensão e que os medicamentos são uma maravilha, talvez seria convidado a participar de algum programa de televisão. Mas eu não sigo a cartilha de certas pessoas, e nem quero aparecer, vou até tirar a minha foto do blog.  Quero apenas falar o que penso e o que sinto, quero apenas falar a verdade. Quero ser apenas eu mesmo, não quero ter os meus sentimentos congelados por medicamentos que irão aumentar a minha taxa de colesterol e de triglicerídeos. Não quero ficar o dia inteiro sonolento, sem memória e talvez com o fígado detonado com o passar dos anos.
    Não sou totalmente contra os medicamentos. Se uma pessoa está surtada, agressiva, não há outra solução. Quer dizer, acho que não existe. A solução talvez seja o medo de muita gente que lucra com a loucura e deixaria muitos sem fonte de renda.
    Mas esse post é uma despedida(espero que sim, espero que o pessoal do outro grupo me esqueça). Agradeço a todos que acompanharam o blog. Considero todos como amigos e sempre respondi os comentários com o maior prazer, como se estivesse falando realmente com amigos de verdade. Mas, como disse em um post, acho que esqueci de tentar de esquecer a esquizofrenia e o passado.

    Sempre procurei tirar lições dos momentos difíceis e, com a esquizofrenia não foi diferente.
    -Aprendi que podemos ser mais fortes do que imaginávamos. Olhando tudo o que passei, ainda me pergunto como consegui passar por todas aquelas situações.
    -Aprendi também que a solidariedade das pessoas ainda existe! Num mundo cheio de crimes, falsidade, de miséria, ainda existem pessoas que se preocupam com o próximo. Por questões de dias eu não fui dessa para outra. A solidariedade humana foi o melhor remédio para a minha melhora no primeiro surto. Engordei 20kg em um mês, havia dia em que tive que recusar alimentos, quando estava nas ruas. Sem contar a palavra amiga das pessoas que paravam apenas para conversar comigo.
     -Aprendi a tirar lições das coisas negativas
    - Aprendi que, conhecendo melhor a esquizofrenia, estarei aprendendo um pouco de mim mesmo.
    Não devemos acreditar que o psiquiatra ou o psicólogo sejam os donos da verdade. São humanos como nós e tem suas falhas. Devemos é saber separar o bom dos maus profissionais. Questione sempre o seu psiquiatra, se não concordar com o que ele diz procure outro profissional. Se eu fizesse o que sempre me diziam, provavelmente hoje estaria pesando uns 120kg, com colesterol e triglicerídeos altos. E provavelmente estaria dormindo em meu quarto. Não é isso o que quero para mim. Espero que os bons profissionais entendam o que estou dizendo. Felizmente é apenas uma minoria que só quer saber de lucrar com a desgraça alheia.
    É isso ai. Meus empréstimos já estão quase quitados. Quero voltar a ter uma vida normal. Sair viajando por ai é bom demais, mas tem a questão da higiene e da segurança. Se morássemos em um país sem violência eu continuaria a dormir em minha barraca. Mas também tem a questão do peso, não dá para ficar o resto da minha vida carregando uma mochila com quase 12kg. Alguns filmes nos fazem pensar que é uma maravilha sair por ai, sem destino. Mas não é bem assim. Mas não me arrependo do que fiz, vou continuar a viajar sim, mas quero ter o meu cantinho e as minhas coisinhas.
    Meu trabalho no blog foi como a história de um pequeno pássaro que tenta apagar o incêndio na floresta, mas o bico é pequeno demais para apagar o fogo. Mas pelo menos tentei. Queria sair por ai dizendo para o maior número de pessoas que nós, os esquizofrênicos não somos uns monstros. Às vezes sim ocorre um episódio de violência envolvendo um portador. E a mídia parece dar tanta importância a isso, que chega a me dar a impressão de que os ditos normais não fazem isso também. Mas, se compararmos os índices de violência entre os esquizofrênicos e os ditos normais, chegaremos a conclusão de que, se não é igual, pelo menos não é tão diferente assim.
    Só queremos compreensão, respeito, melhores medicamentos e preços mais acessíveis. Queremos tratamentos mais adequados, queremos ser tratados individualmente, pois não existe a esquizofrenia, e sim as esquizofrenias. Fico chateado quando perguntam:
    -"O esquizofrênico é assim, ele faz isso?"
    É o velho rótulo. Não existe "o esquizofrênico". Existem pessoas, portadoras de esquizofrenia, com suas histórias, cada uma diferente da outra e que precisam ter sua individualidade respeitada no tratamento. Não é só ouvir a história e dar o mesmo medicamento de sempre, com a dose mínima.
    Teria muita coisa para falar. Mas acho que já falei boa parte. São quase 200 posts, mas sempre vai ter algo para dizer, pois é um assunto cercado de mistérios ainda e muito complexo.

Gosto muito dessa música. A letra não tem muito a haver com o post, mas o som dos violões me remetem ao campo, sempre que escuto essa música me vejo andando por ai pelas estradas de Minas. Mas creio que eu seja um pagão psiquiátrico shasuashaushaushas

Caminhos Pagãos


Dê uma olhada em sua Tv,

é uma janela limpa e luminosa,
Outra esposa trocada,
O que isso tudo significa?
Irmão mais velho, você não erra,
Mostra pessoas fracas agindo como fortes,
Então eu olho para fora,
Para ver o verde.



(Refrão)

Você sonha em beber do Graal?
Que a verdade está inserida num conto,
e que Arthur está adormecido, esperando para voltar?
Você sabe que Jack mora no Verde,
Que as coisas nunca são como parecem,
e que a vida é mais do que o dinheiro que você ganha.



Rhiannon cavalga em seu cavalo

É somente um conto é claro,
uma história antiga,
de tempos que se foram.
Mas sente-se comigo nesta colina,
Veja como as coisas ficam imóveis,
E quem é aquela Senhora,
Cavalgando alto?



Primavera chegou e você viu,

Os Morris dancers no verde?
Só um pouco de divertimento,
Para passar os dias.
Mas existe mágica em sua dança,
A estação é abençoada e não é por acaso,
Então eu ergo minha taça,
aos Nossos Caminhos Pagãos.



 Obrigado a todos os esquizofrênicos e aos não esquizofrênicos que curtem o blog. Continuem
lutando, não falo muito em Deus, pois respeito a crença de cada um. Eu acredito no meu Deus, e creio que ele está feliz comigo pois acho que cumpri a minha parte.
    Agora tenho que tentar a voltar a ser o cara distraído como era antes dos surtos, se vou conseguir não sei, mas tenho que esquecer o passado.



quarta-feira, 18 de junho de 2014

Esquizofrenia e inteligência


    No último post afirmei que não escreveria mais. Estou um pouco estressado, para falar a verdade. Estava um pouco desanimado quando escrevi o post anterior a esse. Mas meu humor, que prefiro chamar de estado de ânimo, oscila quase como o de um bipolar. Um psiquiatra chegou a me sugerir um tratamento com lítio, no início da patologia, por volta do ano de 2003.
    Mas o fator principal de voltar a postar aconteceu ontem, terça feira,(17/006/14), ao ficar sabendo de algumas coisas. O senhor Evanio, que se diz psicólogo, estava questionando o meu caráter, mais precisamente o fato de eu ter esquizofrenia ou não. Chegou a afirmar que eu uso um personagem nas redes sociais e principalmente no blog. Veja a imagem abaixo:
como assim um esquizofrênico não tem condições de criar um blog? Reparem na seta que o comentário foi editado, pois a princípio ele havia me elogiado. 

eu afirmei que várias psicólogas deveriam ter conversado comigo sobre esquizofrenia, e que não deveria ficar sabendo somente quando recebi um laudo para fazer uma perícia no INSS. Nunca afirmei que fiz o meu próprio diagnóstico. Aprendi um pouco sobre a esquizofrenia através de estudos. 
    E sabem por que ele questiona esse fato? Como podem ver na figura acima, ele afirma que um portador de esquizofrenia não tem condições de criar um site, um blog, enfim, de raciocinar.
Para mim a esquizofrenia não interfere no fato da pessoa ser inteligente ou não. Conheço esquizofrênicos com inteligência acima da média, na média e um pouco abaixo da média. É algo semelhante na população em geral. Creio que seja um mito também dizerem que todo portador tem uma inteligência acima da média e que "piraram" por causa disso. Claro que o excesso de informações podem contribuir para que uma esquizofrenia desencadeie. Gostaria de ressaltar que estou me referindo a esquizofrenia paranoide, que é a que tenho e que é a mais comum também. Não conheço suficiente os outros tipos de esquizofrenia para fazer um comentário.
     Eu nem tenho muito o que dizer sobre esse comentário infeliz desse psicólogo. Sei que a maioria dos profissionais não pensam assim. Creio que é algo pessoal mesmo, pois eu o critiquei por me abordar em seu grupo. Ele insistira em fazer uma consulta on line comigo e pretendia cobrar uma taxa de 50 reais. Chegou até se oferecer por menos. Como disse no post "consultas on line, pode? sou totalmente a favor de que a psicologia deva acompanhar os avanços da tecnologia, mas a ética tem que estar em primeiro lugar. Acho uma falta de sensibilidade entrar ou criar um grupo de portadores de transtornos mentais e depois oferecer os seus serviços, já que a descrição do próprio grupo afirma que as pessoas está lá para se ajudarem.
    Então, por questão de vingança, ele resolveu fazer os seus comentários, ou melhor, editar os comentários.  A princípio ele me elogiava pelo vídeo que postei no youtube. Mas, depois do post em que eu o critiquei, mudou de opinião. Veja na imagem abaixo que o comentário foi editado:
além de editar o comentário, ele dá diagnósticos pela net... Gostaria de saber qual patologia que ele acha que eu tenho. 
    Como já disse várias vezes, não sou totalmente contra os medicamentos, psicólogos, etc. Não é por que não me dei bem com os medicamentos é que irei sair por ai pedindo para todo mundo não tomá-los. Já disse várias vezes que os remédios são um mal necessário em alguns casos, mas que existe uma certa "medicalização" dos sentimentos e que estão banalizando a tristeza, por exemplo.
    Também uma fake do grupo do Evanio está me caluniando. Amigos em comum me alertaram sobre o fato. Essa fake disse que eu iria para Porto Alegre atrás dela e que sou um andarilho. Todo mundo sabe pelo blog que estou há pouco mais de um ano andando por ai, não tenho o que esconder. Mas não sou um tarado, e, além de tudo, não gosto de frio. Já até recusei o convite de uma amiga para morar em Blumenau-SC, ao saber que as temperaturas por lá de madrugada rondavam a faixa de 0°C. Vejam nas imagens abaixo o fake que me caluniou e um pouco do diálogo que tive com ela. Eu a procurei ajudar, pois dizia que seu pai havia saído de casa há vários dias e não tinha voltado, e que ele era portador de esquizofrenia. Tenho o print screen do diálogo completo, gostaria que essa fake mostrasse o print provando que eu sou o que afirma.
eu procurei ajudá-la, mas agora me calunia. Será que essa fake é amiga do Evanio?


  Não sou um santo, já disse isso algumas vezes.  Já conversei sobre sexo com algumas mulheres pela internet. Mas para mim isso é normal, desde que a outra pessoa também queira conversar sobre o assunto. Desrespeitar o próximo é fazer o que ele não quer, o que ele não goste, é caluniar, etc. Creio que até muitos casais se separam pela falta de diálogo sobre esse tema, que é cercado de mitos e tabus.
    Então Alessandra Alisson, invente outra, que essa não colou. Ou melhor, diga quem você é, se é que pode fazer isso. Mostre o print que prove que eu sou o que você afirma. Me senti muito mal ontem. Estou um pouco estressado aqui em São Paulo. Confesso que esses comentários do Evanio e essas calunias da fake Alessandra me fizeram mal. Ontem estava no Brás para acessar a internet e depois do ocorrido comi muita besteira apressadamente. Resultado: tive que vomitar tudo. E, para piorar, tinha toda aquela confusão por causa do jogo do Brasil: buzinas, sirenes, trânsito caótico. Por sorte encontrei um parque que estava quase que totalmente vazio e pude relaxar pois não estava carregando uma cartela de diazepan.
    Mas nada como um dia após o outro. Gostaria de agradecer a todos que me apoiaram ontem. Não sou dono da verdade e nem tenho a pretensão de ser, mas procuro ser ético pelo menos. E, quando erro, procuro aprender com as minhas falhas.

   O "Dr" Evanio também disse que eu não recebi nenhum diagnóstico, que uso um personagem, como podem ver na imagem abaixo.


    Ai está o meu laudo. Fiquei cinco anos fazendo perícias no INSS até me aposentar. Será que sou um bom ator para enganar os peritos do INSS e os psiquiatras que me diagnosticaram?
    Por falar no assunto, já tive que usar um personagem por volta do ano de 2003, quando ainda estava trabalhando. Estava muito triste com o que estava acontecendo comigo. Ainda estava muito confuso sobre as alucinações e paranoias, pensando que poderia ser algo de origem espiritual. Alguns clientes da firma onde trabalhava reclamaram que eu estava de cara fechada. Então eu tinha que ser uma pessoa alegre, e por isso usei alguns personagens, pois eu não poderia ser eu mesmo. Usei tantos personagens naquela época que quase tive uma crise de identidade. Por exemplo, quando pediam para que eu fizesse um aviso no microfone durante um  evento,  logo pensava em um locutor de rádio e falava como tal. Mas isso não era planejado, era por instinto mesmo. Não sou um bom imitador, mas naquela época  parecia que imitava bem as pessoas, mas por causa das circunstâncias. Eu não queria que os clientes reclamassem de minha cara fechada. Procurava fazer o meu melhor no trabalho, mas eles queriam uma pessoa sorridente também. Mas eu não tinha motivos para sorrir naquela época. Cheguei a tentar o auto extermínio duas vezes. Treinava o sorriso no espelho, para que as crianças não percebessem que eu estava triste, pois eu gostava muito de conversar com as crianças. Aliás, eu fui um crianção até antes de surtar, para falar a verdade.
    Me lembro que cheguei a usar um outro personagem: a de um bêbado. Foi por volta dos 16 anos, na minha fase metaleira. Tinha cabelo grande, usava calças jeans rasgadas e camisas de bandas de heavy metal. Mas uma coisa eu tinha uma coisa de diferente da galera: não gostava muito de beber cachaça e só usei a maconha três vezes na minha vida.  Meu estômago não se dá bem com bebidas destiladas e quase sempre vomitava tudo o que bebia. Sem contar o vexame que eu dava, e, o pior é que nem lembrada do ocorrido. Então, para me enturmar com a galera, eu fingia que bebia e fingia que ficava bêbado, assim tinha um bom pretexto para fazer as minhas palhaçadas de "aborrecente". Me lembro certa vez que, no DCE, onde a galera se reunia, cheguei a ganhar dois ingressos para uma peça de teatro. Como estava "bêbado" naquela noite, resolvi falar em prol da cultura e da arte. A produtora da  peça, depois de ouvir o meu caloroso discurso, me cumprimentou e me brindou com dois convites. Eu estava são, mas, ela, por entender de teatro, percebeu que eu estava fingindo que tinha tomada umas cachacinhas.

    Resolvi assumir que tenho esquizofrenia por vários motivos:
- Achei que seria benéfico seguir o primeiro passo dos alcóolicos anônimos, só que adaptado para a esquizofrenia. Até publiquei um post sobre o assunto:
http://memoriasdeumesquizofrenico.blogspot.com.br/2013/10/os-12-passos-do-esquizofrenico.html
Creio que o primeiro passo para enfrentar a esquizofrenia é assumirmos a patologia para nós mesmos. Só assim iremos procurar ajuda e tratamento. Não precisa sair por ai dizendo para todo mundo.
- Na internet, que conheci a partir de 2010, tinha um outro personagem sim, pois não queria falar para os meus amigos virtuais que tinha esquizofrenia. Com o tempo, fui revelando para alguns que tinha o transtorno, e fui adicionando portadores que conheci nas comunidades do orkut. Então, o que começou a acontecer quando entrava no antigo msn e no orkut? Eu, na verdade, era duas pessoas, a que tinha e a que não tinha esquizofrenia, e isso em  um perfil só. Tinha muitos amigos, e então a coisa começou a ficar confusa, pois no final das contas eu não tinha certeza de quem eu era para cada amigo.
- O que esse senhor postou abaixo também me inspirou a assumir a esquizofrenia e postar o vídeo que foi criticado pelo Evanio. O cara fala sobre a síndrome de asperger e foi bastante esclarecedor para mim. Esse vídeo conseguiu prender a minha atenção do começo até o fim, e achei muito interessante o próprio portador falando sobre a sua patologia.

    Atualmente não posto mais vídeos, pois, como grande parte dos portadores de esquizofrenia, não gosto muito de câmeras. Às vezes nas viagens que faço posto algumas fotos minhas(selfies), mas tenho que estar muito animado no dia para isso. Além de não me achar bonito, tenho que estar com muito bom humor. Às vezes quando estou com bom humor me acho um cara interessante. sahsuashaushaushas Me lembro de um selfie que tirei de manhã em Aparecida do Norte que tive que deletar da câmera imediatamente.
   Nem sei o motivo do meu vídeo não aparecer nos resultados de busca do google, pois ele se chama esquizofrenia apenas e tem mais de vinte mil visualizações. Um outro que fiz e que tem apenas três mil aparece na frente desse principal. Para quem ainda não viu, ai vai o link:
http://www.youtube.com/watch?v=jBl7FpmQuXA
    Quando gravei o vídeo, estava me sentindo bem. Tinha o meu cantinho, o quarto era relativamente bom, arejado, etc. Eu tinha uma TV de tubo, um bom PC, um home theather e um frigobar. Não era a vida que pedi a Deus, mas não tinha muito do  que reclamar, em visto do que já passei nesta vida. Havia acabado de pintar e reformar o quarto, só saia de lá para almoçar. Ah! E umas duas vezes por semana ia a um centro de convivência para pessoas portadoras de sofrimento mental, na cidade de Ipatinga-MG.
    Morei oito anos neste lugar, mas o tráfico de drogas, principalmente o crack, fizeram com que eu tomasse a decisão de sair por ai viajando pelo Brasil(quer dizer, pela região sudeste né?). O crack transformou aquele local em um inferno, que literalmente pegou fogo, pois um usuário teve o seu quarto incendiado, talvez por não ter pago a droga que havia pego. Estava ficando insustentável viver ali. Funk rolando dia e noite, até depois das 22 horas. Muitas brigas e confusões, a polícia baixava quase todo dia no lugar onde estava morando. Não estava dormindo direito. E, quando a polícia baixava e encontrava algo, os caras ficavam procurando quem era o "caguete". Como eu não conversava muito com eles, era um dos suspeitos de ter telefonado para os homens da lei. E o pior é que os homens da lei achavam que todo mundo que morava no local era usuário de drogas. Ou seja, estava cercado dos dois lados sem ter nada haver com  a bagunça. Não tenho grana para ficar escolhendo muito o local de morar, o preço era bom e o quarto também, mas ficou impossível de viver ali. Sei que tomei a decisão certa ao sair, não gosto de brigas e confusões. Bens materiais dá para se recuperar depois.
    Não me arrependo de fazer algo que sempre pensei em fazer, que é sair viajando por ai. Será loucura? Acho que não. Se fosse, teriam que construir um manicômio do tamanho do Maracanã na Espanha, visto que milhares de pessoas percorrem os 900km do caminho de Santiago a pé.
    Voltando ao assunto personagens, me lembro de um comentário de uma pessoa afirmando que as pessoas às vezes me tratam como se eu fosse um psiquiatra. Me senti muito lisonjeado, claro. Mas também não banco esse personagem.
    Fiz o segundo grau completo e estudei eletrônica. Mas resolvi seguir a carreira como operador de som. Sim "Dr" Evanio, o esquizofrênico pode raciocinar sim. E não uso personagens, gosto de ter a liberdade de ir e vir, e de, acima de tudo, ser eu mesmo. Hoje em dia, com o Dr. Google, podemos fazer várias coisas. Eu nem tinha ideia de como criar um blog, mas pesquisei e achei, não sabia que era tão fácil. Difícil é aguentar calúnia e difamação.
hoje(18/06/14) ele apagou o post em que questionava a inteligência dos portadores de esquizofrenia e publicou outro em seu lugar. Acho que avisaram para ele que os esquizofrênicos são sim capazes de fazer diversas coisas.
"fui eu quem fez" shaushasuahsuas
                         
ele tentou colocar várias pessoas de seu grupo contra a minha pessoa

quarta-feira, 11 de junho de 2014

A minha esquizofrenia atual

 
     Seja na mídia em geral, em conversas com profissionais da área da saúde mental e, principalmente conversando com pessoas que não tenham nenhuma ligação com a esquizofrenia, podemos facilmente chegar a incompleta e equivocada conclusão de que essa patologia é basicamente uma loucura, os surtos, os delírios e a mania de perseguição.
    -"A esquizofrenia apareceu em minha vida aos 32 anos" - eu costumava dizer, pois foi com essa idade que tive os meus primeiros surtos.
    Mas, depois de vários anos estudando o assunto, aliado a uma indesejada e relativa "experiência" com a patologia, pude chegar à conclusão de que a maioria das pessoas se esquecem de outros elementos que compõem o transtorno da mente dividida.
    Analisando a minha infância e adolescência, pude perceber que já havia algo de estranho comigo. Me achava um cara esquisito, diferente. Algumas pessoas que me conheciam também achavam:
    - Mas ninguém é igual a ninguém... - procurava argumentar.
    - Mas você é muito diferente! - certa vez uma amiga me respondeu.
    Sempre que ouvia esse tipo de comentário, não dizia nada, ficava apenas calado. Afinal não tinha resposta para dar e nenhuma explicação por ser tão diferente.
    Cheguei a ter uma fase agressiva na infância, brigava muito na escola(mas só brigava com os menores do que eu, só parei de bancar o machão quando levei uma surra de um cara do segundo ano)
    Tinha meus momentos de alegria, mas era uma criança triste. Confesso que não gostei nem da minha própria festa de aniversário, quanto eu tinha uns cinco anos. Fiquei de cara fechada a festa inteira, nem na hora que liberaram os doces fiquei contente. Acho que por isso a minha avó nunca mais fez festa de aniversário para mim. Me lembro que meus colegas ficaram meio sem graça naquele dia. Um silêncio meio constrangedor tomava conta da casa, só quebrado por um "parabéns pra você" um tanto o quanto sem graça e meio forçado. Será que foi por causa disso que até hoje não gosto da data do meu aniversário ou é pelo simples fato de ficar um ano mais velho?
    Creio que a infância e a adolescência sejam importantíssimas na formação da pessoa, seja ela esquizofrênica ou não. Não cheguei a conhecer o meu pai, e minha mãe não conversava com ninguém(nem comigo). Hoje sei que ela tem alguns elementos da esquizofrenia, mas, na época pensava que não gostava de mim. Estou procurando respostas para a minha esquizofrenia na psicanálise, mas confesso que é um caminho meio complicado. Não tenho paciência hoje em dia para esse tipo de leitura, mas vou tentar decifrar algo por esse campo da investigação da mente humana.
até que gostaria, mas é muito difícil para mim entender o que esse cara diz
     Fui crescendo e continuando a me sentir um estranho. Era até um cara engraçado, mas não me sentia bem nas maiorias. Na escola fazia parte da tribo dos roqueiros, composta por uns cinco ou seis alunos em uma turma de trinta pessoas. Mas era um cara tranquilo, sempre fui um pacato cidadão mesmo. Era distraído, não reparando em nada em minha volta. (hoje, apesar do esforço de andar sempre olhando para baixo, fico reparando em tudo!).
    Certa vez, quando tinha uns 22 anos, uma garota chegou para mim e disse:
    - Nossa, como estou a fim de tomar uma cervejinha...
    - Ali naquela esquina tem um monte de bar! - respondi meio "bobamente", não prestando atenção ao tom de voz da garota e pensando que aquela frase era apenas uma simples afirmação e não um subentendido convite. Anos depois é que fui sacar que a garota queria sair comigo e me deu um arrependimento, pois ela era bonita, era dançarina de uma banda chamada Veludo Cotelê.
    Eu era meio bobão mesmo, a verdade era essa. As coisas tinham que ser ditas bem claramente para que eu pudesse entendê-las, principalmente no campo sentimental.
    Em um desses carnavais em que trabalhei como operador de som, uma garota se aproximou de mim e perguntou:
    - Você pode me fazer um favor?
    - Sim. - respondi.
    - Pode me dar um beijo? - ela perguntou, com um pouco de timidez e singeleza.
    - Até dois, se quiser! - respondi sem titubear. Ai sim saquei que uma garota estava a fim de mim.
    E na maioria das vezes foi assim. Não bastava um simples olhar. A garota ou mulher que desejasse me conhecer teria que ser desprovida de qualquer preconceito sobre quem deve tomar a iniciativa em um relacionamento.
    Mas eles não duravam muito, não mais do que três encontros. O que mais durou foi a menina que me pediu "o favor" dos beijos. Nos encontramos duas vezes no carnaval e uma semana depois fomos ao cinema para assistir Ghost, do outro lado da vida. (eu queria assistir filme de terror, mas ela acabou me convencendo que aquela era a melhor opção).
    Perdi várias oportunidades de conhecer outras mulheres, por causa da timidez ou por causa de uma latente esquizofrenia que nos faz pensar que ninguém gosta da gente. Mas o conselho que dou é que, independente de ter transtorno mental ou não, devemos tentar,  pois o máximo que poderemos levar é um fora( escuto essa frase desde criança rsrsrs). Parece simples, mas a coisa não é tão fácil assim para quem não tem auto estima em alta.(está correto dizer "auto estima em alta"?)
    Então, analisando esse e outros comportamentos que tive e ainda tenho, posso dizer que nasci esquizofrênico ou então adquiri esse transtorno muito cedo, quando era criança mesmo, pois a esquizofrenia não é somente os chamados sintomas positivos. Os outros sintomas, chamados de negativos, são tão ruins como os positivos( aliás, o que tem de positivo nas alucinações?).
    Hoje em dia não tenho mais surtos, mas isso não quer dizer que estou livre da esquizofrenia. O que está pegando no momento é o desânimo, a apatia e não achar graça em quase nada. E sem contar o tal do embotamento afetivo. Parece que as emoções ainda estão dentro de nós, mas que, por algum motivo o nosso cérebro não consegue mais acessá-las. por isso que às vezes ficamos com a face sem expressão e com o olhar vago. No meu caso em particular, acho que, por ter sido emotivo demais, ainda os meus olhos às vezes brilham por algum motivo. São vagas recordações de um passado livre de paranoias. Acho que ainda existe uma "pinguela" para a região do meu cérebro responsável pelas emoções. Ou será que esse lance de química e razões biológicas para as emoções e sentimentos é pura balela? Para mim não é. Por exemplo, se estamos gostando de alguém tudo fica azul, o fato de nos sentirmos bem faz com que nosso cérebro produza as substâncias que nos dão o bem estar. O inverso também acontece, se ficamos irritados e estressados, podemos ter uma gastrite, úlcera, etc. Ou seja, mente e cérebro estão muitissimamente ligados.
    O pior de tudo nos sintomas negativos é que eles são pouco conhecidos e comentados. Então somos chamados de preguiçosos e fingidos e que tudo o que estamos passando é frescura. Os psiquiatras parecem ser meio relutantes em receitar anti-depressivos para os portadores de esquizofrenia, talvez por aumentar as chances de auto-extermínio(li isso na bula de um anti-depressivo).
os sintomas negativos são muitas vezes confundidos com preguiça por quem está de fora 
    Já cheguei a experimentar o prozac e a sertralina, mas não obtive nenhum resultado positivo. Apenas na primeira vez que usei a fluoxetina é que fiquei um pouquinho animado, mas creio que o efeito foi apenas psicológico, afinal eu estava usando a famosa "pílula da felicidade".
    O "engraçado" de tudo isso é que, para os sintomas negativos os psiquiatras receitam medicamentos que nos dão muita sonolência. Oras, se com esses sintomas o que sentimos é uma imensa vontade de não fazer nada e ficar na cama o dia inteiro, para que remédios que nos dão moleza? A risperidona é um dos mais usados nesses casos.
    A única coisa que sei é que os sintomas negativos são uma merda. Nos positivos eu surtava, caia, ir para as ruas, perambulava pelas BR's, mas, depois da tempestade eu tinha ânimo e forças para começar tudo do zero de novo e me levantar. Hoje em dia, a única coisa que quero é ficar no meu cantinho e continuar as minhas andanças por ai. O próximo roteiro será o caminho dos diamantes da estrada real. Que saudades dos quitutes da culinária mineira, das cachoeiras, de andar pelas estradas de terra que ligam os povoados e cidades!
    Em São Paulo parece que o inverno já chegou. Mas é um inverno cinzento, úmido, com garoa e chuva. Sem contar o forte vento frio que corta o dia inteiro. Em Belo Horizonte o inverno não é tão rigoroso e os dias são quentes, e o sol sempre dá o ar de sua graça para nos aquecer de manhãzinha.
    Acho que só vou esperar essa confusão de copa do mundo passar para voltar para BH. Mesmo morando nas ruas, me sentirei em casa, pois é onde que eu nasci e me sinto à vontade.
    Esse é um dos últimos posts do meu blog. Creio que fiz um bom trabalho nesse meu projeto. Quero dar um novo rumo a minha vida. Já estou com a grana para comprar a TV, só falta agora juntar mais um pouco e comprar um notebook e acabar de quitar os empréstimos que fiz. Não preciso de muito para viver. Só quero paz. Pretendo continuar com as minhas andanças e postar o diário das viagens e as fotos aqui no blog, mas creio que só vou fazer mais alguns posts sobre a esquizofrenia.
    Quero parar de falar sobre esquizofrenia. Quero esquecer o passado, apesar de me sentir útil ao escrever o blog. Acho que esqueci de tentar de esquecer a esquizofrenia( tô meio romântico, acho que é por causa do dia dos namorados sahsuashaushas). Claro que gosto de ajudar as pessoas que estão passando neste momento o que eu passei há alguns anos atrás. Acho que é uma obrigação de todo portador que está estabilizado ajudar o seu semelhante. Mas eu já estou um pouco desgastado com tudo isso, já não tenho mais complexo messiânico, não tenho a intenção de ser o salvador da pátria.  Gostaria muito que divulgassem o blog, pois foi feito com muito esforço e carinho. Os psiquiatras e psicólogos ganham muito bem e cobram caro para resolverem, ou melhor, tentarem resolver os mistérios da mente.
    Bem, amanhã é o dia dos namorados, não vou escrever nada sobre o assunto, já publiquei um post sobre o assunto dois anos atrás, bem no começo do blog, e até hoje as coisas não mudaram muito não. Então, é só reler o post, basta clicar no link abaixo:
http://memoriasdeumesquizofrenico.blogspot.com.br/2012/06/post-especial-do-dia-dos-namorados.html
 Parabéns a todos os casais, sejam eles esquizofrênicos ou não.
     Então, como homenagem, vai esta música do Lionel Ritchie. Essas músicas me fazem lembrar da professora Beth, que dava aula de inglês no colégio Nossa Senhora do Monte Calvário. Ela usava muito essas traduções de músicas para melhorar o aprendizado de inglês(mas acho que no meu caso não adiantou muito não shasuahsashaushas)



Gamado em você 
Gamado em você
Tenho essa sensação no fundo da alma que não posso perder
Imagino que estou a caminho
Precisava de um amigo
E do jeito que me sinto agora penso que estarei com você até o fim
Imagino que estou a caminho
Estou muito feliz por você estar aqui

Estou gamado em você
Tenho estado feito bobo por tanto tempo que acho que é hora
De eu voltar para casa
Imagino que estou a caminho
Difícil de ver
Que uma mulher como você pode esperar de um homem como eu
Imagino que estou a caminho
Estou muito feliz por você estar aqui

Oh, estou partindo no trem da meia-noite de amanhã
E eu sei exatamente onde vou
Eu embrulhei meus problemas e os joguei fora
Porque desta vez, querida
Estou indo para ficar

Gamado em você Tenho essa sensação no fundo da alma que não posso perder
Imagino que estou a caminho
Precisava de um amigo
E do jeito que me sinto agora penso que estarei com você até o fim
Imagino que estou a caminho
Estou muito feliz por você estar aqui


Link: http://www.vagalume.com.br/lionel-richie/stuck-on-you-traducao.html#ixzz34LLZ2U6t

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Anjos e demônios

 
     "Se não se comportar direitinho, papai noel não vai te dar presente no natal não..."
    "Se fizer bagunça, papai do céu vai castigar... "
    Quem nunca ouviu uma dessas frases quando criança? Creio que 99,9% dos leitores responderam que sim e que já ouviram outras ameças do além contra pirralhos mal comportados.
    E quando crescemos as ameaças contra os "fora do sistema" continua, só que usando outras palavras e termos, ou seja, outras histórias, mas também aterrorizantes.
    Em algumas igrejas, fala-se mais no "tinhoso" do que propriamente em seu suposto dono: Deus. Alguns  líderes religiosos dizem que, se não seguirmos as doutrinas dessas igrejas, seremos severamente punidos e queimaremos para sempre no fogo eterno. Não podemos nem pecar em pensamento. Temos que ser santos. Não estou inventando ou exagerando, tudo isso eu vi e ouvi após frequentar várias denominações religiosas.
    - "Não existe pecadinho e pecadão, quem não seguir as doutrinas vai para o inferno!"- já ouvi alguns pastores dizerem essa frase. Creio que esse tipo de líder religioso quer manter sua igreja fiel mais pelo medo da figura do diabo do que na crença em Deus.
   Essas pregações me faziam mais mal do que bem. O som alto, e, principalmente a gritaria me estressavam. Saia da igreja com um sentimento de culpa enorme pelos meus erros cometidos desde a infância. Nunca fui um santo. Sou apenas um ser humano cheio de falhas e que já errou muito nessa vida.
    Algumas denominações pregam que basta entrar na igreja que todos os nossos problemas serão resolvidos, até os financeiros. Basta ter fé, não precisa trabalhar e correr atrás, Deus fará tudo, basta que façamos algumas "contribuições". Já vi algumas pessoas realmente muito felizes em algumas igrejas, mas também já vi muitas pessoas tristes. "Por que será que não fui abençoado?" Chegava a me perguntar algumas vezes, depois de frequentar por um tempo uma dessas igrejas e constatar que a minha vida não havia mudado em muita coisa.
esse templo custou cerca de 700 milhões. Quem pagou?
    A questão céu x inferno fixou-se em minha mente na infância e só a abandonou alguns anos depois do meu primeiro surto, quando comecei a me entender melhor como pessoa.  Foram muitos anos encucado. Várias questões não me eram respondidas e me inquietavam:
    - "Se quem não seguir a bíblia for para o inferno, o que acontecerá com os indígenas e os hindus que nunca tiveram acesso as escrituras sagradas?"
    - "Se não sou um santo para ir para o paraíso e nem tão mau para ir para o inferno, será que irei para um plano intermediário, ou virarei uma alma penada?"(coisa de mineiro...)
    Para a primeira questão, ouvi duas respostas, que não me foram convincentes:
    1- Não serão salvos, pois a bíblia será pregada ao mundo inteiro, e só depois virá o fim do mundo. Mas e os que já se foram sem ao menos ter acesso a pelo menos um versículo da escritura sagrada?
    2- As pessoas que não conheceram a bíblia serão julgadas de acordo com sua consciência, ou seja, se sabiam que estavam praticando o mal.
    Julgamento final, apocalipse, céu, inferno, anjos e demônios foram algumas palavras que povoaram a minha mente por muitos anos. O que era certo? E o que era errado?
    Tive uma fase esotérica. Comecei a acreditar em fadas, gnomos, etc. Era curioso e lia quase tudo o que via pela frente. Li sobre as cartas de tarot, sobre magia(só li rsrsrs), Paulo Coelho e por ai vai. Viajava para São Thomé das Letras em busca do sobrenatural. Minha vida já era um tédio e queria por que queria que algo de sobrenatural acontecesse em minha vida. Ficava andando pelo mato, até de madrugada, mas nenhum ser quis dar suas caras para mim. Na época do et de Varginha, fui para essa cidade do sul de Minas, mas não vi nenhum disco voador. Creio que, se por acaso visse, não iria ficar com medo, acho que até iria pedir para dar uma voltinha com eles em uma dimensão qualquer. shaushasuahsuahs
    Pode parecer brincadeira a questão da alma penada na minha vida, mas é sério. Por um bom tempo achei que esse seria o meu destino. "Nunca conseguirei ser um santo, mas também não sou um cara mau..." ficava me matutando o tempo todo.
    Me recordo certa vez, ao ir a um show, um contador de piadas se apresentou antes da atração principal. Estava com uns 28 anos na época e não tinha paranoias, apenas algumas neuroses mal resolvidas. O cara contou uma piada sobre almas penadas e, no final todos aplaudiram e riram muito. Pensei no momento que a piada era direcionada a minha pessoa. Fui embora e não assisti o show principal. Fiquei desolado. Isso já era um sinal do que estava por vir. Não demorou e os surtos vieram.

"Em alguns casos ocorre interesse demasiado por temas exóticos, místicos, religiosos, astronômicos ou filosóficos, que passam a dominar o cotidiano da pessoa. Dúvidas acerca da sua existência, explicações filosóficas sobre coisas simples da vida e uma necessidade permanente de buscar significados podem deixar a pessoa mais introspectiva e isolada socialmente."  fonte: entendendo a esquizofrenia
http://entendendoaesquizofrenia.com.br/website/?page_id=144

    Quando já estava perambulando pela BR 040, fugindo dos inimigos que só estavam em minha mente, ouvi claramente uma voz me dizer que eu era uma alma penada. Estava descansando na sombra de uma árvore. No momento em que a ouvi, chorei muito. Não foi um choro de alegria e nem de tristeza. Era de alívio mesmo. Afinal, tudo estava terminado. Todo o martírio e o sofrimento acabariam com a minha transformação de ser humano para alma penada. A perseguição, os inimigos, os boatos, enfim tudo estava terminado. Os que queriam o meu mal não iriam poder fazer mais nada, afinal eu "estava invisível". Não teria uma morte sofrida mais, pois imaginava que meus inimigos queriam me castigar e muito, fazendo com que eu tivesse uma morte bem lenta. Talvez o complexo messiânico tenha influenciado um pouco nessa questão.
    Então, depois do descanso, já como alma penada voltei a andar pela BR que liga Belo Horizonte ao Rio de Janeiro. A minha intenção inicial era tentar fugir dos vários inimigos que estavam atrás de mim na capital mineira. O incrível é que estava me sentindo mais leve e feliz, caminhando até com mais facilidade. Afinal, ser uma alma penada era melhor do que a vida que estava tendo ultimamente. Estava me sentindo tão leve que pensava em passear por João Pessoa, na Paraíba. Já não precisaria de me alimentar e nem me preocupar com mais nada.
    Mas de repente uma forte chuva de verão caiu e me deu um banho de realidade. O frio me fez duvidar se era realmente uma alma penada. Corri assustado para um posto de gasolina e por ali dormi naquela noite. No dia seguinte, cheio de dúvidas, continuei a caminhada. Parei exatamente na entrada de um restaurante. Queria tirar as minhas dúvidas sobre o que a voz havia me falado. Se as pessoas passassem por mim sem dizer algo, realmente eu já não era mais um humano. Mas, se me pedissem para sair, eu ainda era gente!
   Não demorou muito e um funcionário do restaurante educadamente pediu para que eu me sentasse em outro lugar. Mas aquilo não foi o suficiente para acabar com as minhas dúvidas. "Por que não morri ao tomar a caixa de veneno de rato"? Essa pergunta não saia de minha cabeça. (anos depois telefonei para o laboratório e fiquei sabendo que o veneno não mata pessoas). Um fato curioso é que não sentia fome durante boa parte desse primeiro surto, era como se a região do cérebro responsável pelo apetite e pela saciedade estivesse desligada. Só sentia muita sede. Cheguei a perder 25kg nesta história. Já de noite, ao passar por um condomínio às margens da BR, vários cachorros começaram a latir.
    - "Realmente sou uma alma penada, pois os cachorros sentem a presença dos espíritos"- pensei.
 
eu seria uma alma penada do bem shaushaushas
    E então veio a madrugada, que parecia não ter fim. Fiquei andando de um lado para outro angustiado. Parecia que esse seria o meu castigo eterno, viver naquela escuridão. Queria ser uma alma penada, mas queria ver o sol. Fiquei muito triste naquele momento, mas, depois de uma quase interminável noite, o dia enfim chegou e um belo sol veio me reanimar para continuar a batalha contra os demônios que povoavam a minha conturbada mente.
   E assim segui por um bom tempo, surtado, sozinho, andando pela BR com o bem e o mal duelando dentro da minha imaginação. As vozes que ouvia seriam da minha consciência? Ou seriam os meus medos que criaram vida? 
    Essas dúvidas me seguiram por um bom tempo. Mas, com a ajuda das pessoas me recuperei desse surto. Tive outros, mas hoje estou estabilizado. Depois de estudos, aprendizado com outros portadores, e o auto conhecimento, descobri que tudo isso foi resultado de vários fatores, que juntos desencadearam esses surtos psicóticos. 

-obs: esse post não é uma crítica as igrejas. Existem os bons e os maus líderes religiosos. Já disse várias vezes que fui muito ajudado por evangélicos quando estive nas ruas. Fui atendido por um pastor psicólogo chamado Márcio, que foi muito legal comigo. No início deste ano conheci o pastor Rogério, que guardou a minha barraca enquanto não viajava para o litoral paulista, aliviando um pouco o peso da minha mochila. 
   Para mostrar que não tenho nada contra, vou postar mais uma música evangélica no blog. A primeira postei no último dia da viagem da estrada real Ouro Preto-Paraty Tenho várias músicas evangélicas no meu celular, só não gosto de som alto e muita gritaria. Essa música também gosto muito:



Quem eu sou? 
Quem sou eu? Para que o Senhor de toda a terra
Se importaria em saber meu nome?
Se importaria em sentir minha dor?
Quem sou eu? Para que a brilhante estrela da manhã
Escolhesse iluminar o caminho
Para meu coração vagante?

Não por causa de quem eu sou
Mas por causa do que tens feito
Não por causa do que eu tenho feito
Mas por causa de quem tu és

Eu sou uma flor que logo desbota
Aqui hoje e amanhã não existe mais
Uma onda quebrada no oceano
Um sopro no vento
Tu ainda me ouves quanto eu te chamo?
Senhor, tu me seguras quando estou caindo
E tu me dizes quem eu sou
Eu sou teu, eu sou teu

Quem sou eu? Para que os olhos que vêem meu pecado
Me olhem com amor e me vejam reerguer?
Quem sou eu? Para que a voz que acalma o mar
Me chame através da chuva
E acalme a tempestade em mim?

Eu sou teu
A quem temerei?
A quem temerei?
Já que eu sou teu
Eu sou teu


Link: http://www.vagalume.com.br/casting-crowns/who-am-i-traducao.html#ixzz33m1dFGiQ