quarta-feira, 18 de abril de 2018

Direito das pessoas com transtornos mentais


    Abaixo o texto de um amigo que tenho no facebook, que fala sobre os direitos das pessoas com algum tipo de transtorno mental. Na hora dos direitos somos considerados loucos, antissociáveis, etc..
Somente na hora dos deveres e obrigações somos considerados normais e aptos. 
    No meu caso em particular, não serei operado de uma fratura no pé por causa da minha condição de portador de esquizofrenia. O médico simplesmente não quer me operar, apesar do parecer favorável do psiquiatra do CERSAM, aqui em Belo Horizonte. ...


   "Enquanto alguns batem panelas por políticos de estimação somos ignorados, abandonados e esquecidos.
    Esta parada na Câmara dos Deputados proposta que acrescenta direitos e garantias às pessoas com transtorno mental, como depressão, esquizofrenia ou transtorno bipolar. O objetivo é igualá-las às pessoas com deficiência física e incluí-las socialmente e também no mercado de trabalho. Transporte público gratuito, reserva de vagas de emprego e proteção contra a discriminação são alguns dos pontos previstos no Projeto de Lei 5907/16, do deputado Francisco Floriano (DEM-RJ), que altera a Lei da Reforma Psiquiátrica (Lei 10.216/01).
    Para efeitos legais, o projeto de Francisco Floriano considera a pessoa portadora de transtorno mental como pessoa com deficiência. Um dos pontos do texto, inclusive, determina que os editais de concurso público incluam expressamente as pessoas portadoras de transtorno mental no item que trata das vagas destinadas às pessoas com deficiência.
    O argumento do projeto é que hoje as pessoas com transtornos mentais não são contempladas em programas e incentivos governamentais destinados às pessoas com deficiência física. “No Brasil, existem mais de 24 milhões de pessoas com deficiência e mais de 23 milhões de portadores de algum tipo de transtorno mental. Contudo, a legislação brasileira visa garantir ações necessárias ao exercício dos direitos básicos somente aos deficientes físicos”, aponta o parlamentar. Ele observa que vários países do mundo já consideram a pessoa com transtorno mental severo como pessoa com deficiência.

                                                          Crime de discriminação
    O texto também classifica como crime de discriminação contra a pessoa com transtorno mental impedir seu acesso a qualquer cargo público, negar-lhe emprego ou trabalho e dificultar-lhe o acesso à assistência à saúde ou a operações bancárias, entre outros atos. A pena é reclusão de dois a quatro anos.
    Nos períodos de internação, o texto determina que o paciente seja tratado com humanidade e respeito. Nos casos de descumprimento da regra, o gestor ou responsável pelo hospital será responsabilizado na esfera civil, administrativa e criminal, podendo também ser afastado imediatamente das atividades.
    Ainda segundo o texto, para que a pessoa com transtorno mental receba a pensão por morte dos pais ou se aposente por invalidez, basta a ela comprovar sua incapacidade mediante perícia médica realizada pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), sem exigência de interdição do paciente.
    O projeto também assegura atendimento domiciliar pela perícia médica e social do INSS, pelo serviço público de saúde ou pelo serviço privado de saúde contratado ou conveniado que integre o Sistema Único de Saúde (SUS) e pelas entidades integrantes do Sistema Único de Assistência Social (Suas), quando o paciente estiver impossibilitado de se deslocar".

Obs: Na CDE, você encontra o projeto de lei que visa modificar e melhorar os direitos das pessoas com transtornos mentais.
https://drive.google.com/drive/folders/0B1dxTb_oy7qweEIzMnpvN2tWemc


Link para acompanhar o andamento do projeto:
http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2092777

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Paranoias diárias do dia a dia de um esquizofrênico-2


 
  Antes de começar o relato sobre as minhas dificuldades no dia a dia, vamos tentar definir o que é paranoia. Pesquisando no google em sites que considero confiáveis, a melhor e mais abrangente definição sobre o assunto que encontrei foi no site Info Escola.
    "A paranoia, também denominada pensamento paranoico (ou paranoide), consiste em uma psicose caracterizada pelo desenvolvimento de um pensamento delirante crônico, lúcido e sistemático, provido de uma lógica interna própria, sem apresentar alucinações.
    Nesta patologia, o indivíduo desenvolve uma desconfiança ou suspeita exacerbada ou injustificada de que está sendo perseguido, acreditando que algo ruim está para acontecer ou que o perseguidor deseja lhe causar mal."
    Esses pensamentos são quase que incapacitantes, o que me leva as pessoas a terem uma vida pouco ou com quase nenhuma atividade social. Em um vídeo que gravei no youtube, cheguei a brincar, afirmando que as minhas camisinhas estão com o prazo de validade vencido... 
    Qualquer atividade que envolva gente se torna um tanto o quanto complicada, o que me leva a ter uma vida mais reclusa, e geralmente me leva a conseguir a contar quantas palavras foram proferidas pelos meus lábios carnudos durante o dia.  
   A citação sobre a boca carnuda é zoação, mas infelizmente sobre o número de palavras proferidas durante o dia não é.... 
    Falo pouco, sou monossilábico, a não ser quando estou jogando bola e tem aqueles caras fominhas que não tocam a bola de jeito nenhum. A gente corre, se desloca para receber a bola, mas os caras não tocam, só pensam em chutar a bola e marcar o gol e se gabarem. E depois ainda tenho que voltar para a defesa para evitar o gol, pois eles gastam a energia somente para atacar. 
    Mas, deixando a brincadeira de lado, convivo bem com meus pensamentos, então meu quartinho se torna um lugar agradável para o meu sossego e paz interior, que só é um pouco interrompido quando saio para o exterior do meu cantinho...
    Qualquer situação que envolva pessoas gera um certo stress, talvez por isso gosto tanto de percorrer os "Caminhos da estrada real", pelo interior da minha Minas Gerais. Me lembro que quase entrei em êxtase, ao ouvir o bater de asas de um pássaro em uma estradinha de terra....
   Abaixo algumas situações que mais me incomodam no momento, mas já foi pior um dia...
  
Na padaria...
Eu, na padaria... 

    Como bom mineiro que sou, uma visitinha a padaria era um dos melhores prazeres que tinha: pão de queijo, pastel de queijo, broa de queijo, biscoito de queijo,  rocambole, bolo de fubá e torta de chocolate era o que eu mais consumia. Ah, e tinha o doce de leite, também, com queijo, é claro...
    Era uma delícia ir na padaria e satisfazer um dos sete pecados capitais. Às vezes (muitas vezes para dizer a verdade), comprava mais do que conseguia comer, era o tal do olho maior do que a barriga. E então me empanturrava até não conseguir sair da cama. Ficava que nem um jacaré depois de comer um boi e esperando a digestão aliviar um pouco o estufado estômago...
    Ainda continuo indo a padaria, só deixarei de ir se o caso ficar grave mesmo. Mas é complicado. Quando peço algum quitute e a balconista pede para que eu pegue a fichinha antes, logo penso que ela esteja me confundindo com algum meliante e que eu vou sair correndo sem pagar. 
    - Tá pensando que eu sou ladrão? Trabalhei 17 anos como operador de som!!!- é o que me dá vontade de responder, mas procuro ficar sempre calado nessas situações. Só fico mais sossegado quando vejo a balconista fazendo o mesmo procedimento com outros clientes do estabelecimento. 


Supermercados e bancos... 

    Como não poderia deixar de ser, ir a bancos e supermercados também é uma tarefa que gera um certo stress, pois a realidade é que hoje em dia as pessoas ficam um pouco tensas quando mexem com dinheiro. Ou seja, fico tenso e a tensão das outas pessoas me deixa mais tenso ainda... 
    Logo quando chego a um estabelecimento e vejo o segurança falando no rádio de comunicação logo penso que estão falando:
    - Ele chegou...
    -  Você quer olhar os meus documentos? Tenho cara de assaltante de banco?- é o que dá vontade de responder, mas, também nessa situação prefiro ficar calado. 
    Penso que os seguranças estão imaginado que eu estou armado e que a qualquer momento vou sacá-la e fazer todo mundo refém. Quando o detector de metais apita mesmo deixando o celular e as chaves do lado de fora é que a situação fica complicada. Então levanto a camisa e mostro  a fivela do meu cinto sem cerimônia e aí sou logo liberado. 
    Fico chateado também quando vou no caixa para sacar um dinheiro e o segurança fica me olhando. Penso que ele pensa que eu esteja hackeando  o sistema operacional do caixa, que ouvi dizer que ainda é o velho e bom windows xp... Então, quando o equipamento solta o dinheiro, faço logo questão de contar as notas virado para o segurança, com um certo ar de vingança... 
    - Sou aposentado por que trabalhei honestamente e ininterruptamente 17 anos como operador de som!!!- É o que tento dizer com um certo olhar soberbo. 
    

Shows... 

    Ir à shows era uma atividade tão prazeirosa que, como já relatei, acabei virando um operador de som. Mas antes ia aos shows e conseguia ficar totalmente distraído, reparando apenas na banda que estava se apresentando no palco. Prestava atenção nos instrumentos, no guitarrista quando fazia o solo, se por acaso algum músico errasse alguma nota... O local poderia estar lotado, mas para mim era como se não tivesse ninguém ao meu lado, até que a última música fosse tocada pela banda. 
    Desde quando me aposentei, em 2005, acredito que fui apenas em dois shows. E não foi muito legal. Músculos tensos, a sensação de que todos estão deixando de prestar atenção na banda para ficarem olhando para mim. Sei que é um absurdo, afinal a pessoa gasta o seu dinheiro justamente para ver a banda ou o cantor. Por que iriam ficar olhando para um pacato cidadão? Nem sou bonito para ficarem olhando para mim. Quando alguém pega uma câmera aí é que a situação fica tensa, pois logo imagino que estão a me filmar...  Mas a verdade é que boa parte dessas pessoas que ficam filmando o show quase não curtem o espetáculo, para depois postarem nas redes sociais que estavam vendo o show de fulano ou ciclano. 
    E depois que comecei a escrever o blog ai que penso que o mundo inteiro sabe que tenho esquizofrenia. Até tirei a minha fotinha que ficava na página inicial. Os vídeos nem gosto muito de gravar e divulgar por aqui. O blog ajuda e atrapalha ao mesmo tempo. Me ajuda na questão de me tornar um ser humano melhor, de me sentir um pouco útil,  pois muitas pessoas relatam que ajudo de alguma maneira com os meus escritos. Mas atrapalha um pouco, ao imaginar que todos estão debochando da minha condição de uma pessoa com esquizofrenia. Mas hoje em dia o que as pessoas pensam ou falam de mim, sendo real ou não, pouco me importa, pois, como já relatei várias vezes, o fato de me preocupar com a opinião alheia foi um dos gatilhos da esquizofrenia. 

    Então não tem jeito. As paranoias diárias fazem parte da minha vida. Com remédios talvez possa não tê-las, mas também teria um sono quase que eterno, pois a prostração causada pelos antipsicóticos geralmente acabam por completo no meu caso por volta das 4 horas da tarde, e, como costuma dormir cedo, teria cerca de cinco horas por dia com alguma disposição para realizar alguma tarefa. 
    Esses pensamentos me perseguem, não adianta mudar de bairro, cidade, estado ou país. A solução é encontrar um bom ambiente para se morar, e onde as pessoas se respeitem. Um bom ambiente já é um bom  caminho para a estabilidade emocional e mental. Se afaste de pessoas negativas, entre em contato com a natureza, procure se elevar espiritualmente de acordo com suas crenças. Enfim, lute, batalhe para se tornar uma pessoa mais forte e não se abalar facilmente. 

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Psicocirurgia, uma modernização da lobotomia?



   Outro dia desses me deparei com o vídeo acima circulando pelas redes sociais. O procedimento foi anunciado como uma nova esperança no tratamento da esquizofrenia, onde o paciente apresenta um quadro de agressividade extrema, segundo o apresentador do programa de uma emissora de TV do norte de Minas Gerais. 
    O tratamento foi denominado como "psicocirurgia" e, segundo o apresentador e o repórter do programa, o resultado foi extremamente satisfatório, "controlando" toda a agressividade do paciente, como se pode observar no vídeo.  
    Mas, após assistir completamente a matéria  me veio uma dúvida: essa psicocirurgia não seria uma modernização da lobotomia? Essa "pequena lesão controlada", citada pelo neurocirurgião Gustavo Lages (Montes Claros-MG), não seria uma retirada de um pedaço do lobo pré-frontal, como se fazia na década de 40? Dá-se a impressão que a única diferença é que antigamente se fazia o procedimento com um picador de gelo e muitas vezes até sem anestesia. Essa pequena lesão ou retirada,  não é a morte de parte importante de alguma função cerebral? São apenas questionamentos, pois neurologia está longe de ser a minha especialidade...
    Para quem não conhece, a lobotomia é um procedimento cirúrgico que foi muito usado na década de 40, em pacientes com quadros graves de esquizofrenia e agressividade. Consistia basicamente em retirar ou lesionar um pedaço do cérebro, que seria responsável pelo planejamento das ações e pelos movimentos. Essa região do cérebro também é responsável por outras funções, mas a finalidade do blog não é acadêmica, por isso não irei me aprofundar muito nessa questão, o que desviaria e muito a intenção desta postagem. 
     Foi muito questionada na época a lobotomia pelo simples fato de tornar o paciente um vegetal. Como podem observar na figura abaixo, o procedimento mais barato consistia em usar um picador de gelo para causar o dano ao lobo pré-frontal. 
 

    Ao ver a matéria acima do vídeo, não foi possível evitar a comparação. Não seria essa psicocirurgia uma lobotomia modernizada? O repórter e tampouco o médico entraram em detalhes sobre exatamente o que seria essa "pequena lesão controlada". Mas, o que se pode constatar é que esse procedimento considerado uma nova esperança na reportagem parece consistir basicamente no mesmo conceito da antiga lobotomia, que é a de lesionar ou retirar um pedaço do lóbulo pré-frontal, e assim deixar o paciente sem reações e ações, como podemos observar no vídeo. 
    Confesso que ficaria extremamente triste se visse um parente ou amigo em uma situação dessas. A impressão que se dá que é uma outra pessoa que está no corpo do operado, ou que é apenas um resto da pessoa que está ali. 
     Mas também devemos nos colocar na posição dos pais do paciente da reportagem. Afinal, como eles mesmo relataram, foram mais de 20 anos de sofrimento, agressividade e tentativas frustradas de tratamento. Me pergunto também se nesse estado de agressividade não teríamos a sensação de estamos com uma outra pessoa... 
    Não sou de ficar em cima do muro, mas confesso que não sei e não tenho condições de opinar sobre o assunto. Creio que só quem está sentindo o problema na pele é quem pode responder com propriedade se é ético e moral realizar essa chamada psicocirurgia. 
   E você, o que acha? É um avanço ou retrocesso? Submeteria um parente à esse procedimento? Atualmente não existem outras soluções?
    Vote na enquete, o sigilo é total...  

Obs: Pesquisando sobre o assunto no google, vi uma matéria do início deste ano falando sobre esse "novo" procedimento no site de um jornal da cidade de Montes Claros, no norte de Minas Gerais, onde foi realizado esse primeiro procedimento na região. Ou seja, a cirurgia deve ter sido realizada no ano de 2017.
    Leiam a matéria, chega a soar como irônica a matéria quando os termo "moderno" é citado várias vezes...

https://gazetanortemineira.com.br/noticias/saude/psicocirurgia-santa-casa-realiza-procedimento-cirurgico-para-controlar-agressividade