sexta-feira, 3 de abril de 2026

21º dia pedalanças Belo Horizonte à Belém do Pará-Subindo a montanha sagrada na Chapada dos Veadeiros

 08/08/2024
Um dia de muita paz na Chapada dos Veadeiros

Precisa falar que o lugar é maravilhoso?

    Acordei por volta das quatro da manhã, mas tive que esperar o sol clarear para desmontar o acampamento e não acordei ninguém da pousada.     Como era um dia da semana, o local estava vazio e a noite foi bem tranquila. Apenas sons de pássaros e insetos na madrugada. 
    Estava com um misto de sentimentos. Alegria por ter conhecido Alto Paraíso e o Vale da Lua, mas por outro lado estava um pouco triste por saber que 99% dos locais turísticos da Chapada dos Veadeiros tem entrada paga. Gostaria de conhecer outros lugares, mas estava satisfeito. Só o fato de pedalar por ali e sentir aquela energia fora do comum já me satisfazia. Não sei o que acontece, mas os lugares mais altos tem o ar puro e isso parece dar uma boa oxigenada em nosso cérebro. A chapada está a 1272 metros acima do nível do mar, o que explica as subidas para se chegar à essa região mágica. Essa magia me deixou mais calmo, tranquilo, sem pressa de pedalar e chegar logo em Alto Paraíso. A estrada é bela demais para não ser curtida. 
                                                               

     A dona da pousada acordou cedo também, por volta das seis da manhã. Fez suas meditações e estava consultando os números para ver como seria o seu dia. O seu sócio apenas acendeu um baseado  e começou a limpar o local, que não estava muito sujo. Ajudei a limpar  o terreiro e fazer algumas coisas, pois o desconto foi bom e tinha que ajudar em alguma coisa. 
    Depois do café pego a estrada para Alto Paraíso. Estou com o mínimo de pressa possível, e um pouco triste por ser o último dia na Chapada dos Veadeiros Aquela estrada era uma delícia de ser percorrida. Acho que já falei sobre isso umas quinhentas vezes em duas postagens. Mas era o que estava sentindo, uma leveza e uma energia que não sabia de onde vinha. Sei que o ambiente influencia em nosso bem estar, mas nessa região isso ficou muito evidente em mim. Não queria saber de facebook, de redes sociais, nem se meu time havia ganho o último jogo... Queria apenas sentir, o ar puro, a energia do lugar e a paz, principalmente a paz que emana naquela região. 
      Se não fosse as chuvas acho que iria viver por ali mesmo, montaria minha barraca no mato e todo dia moraria em um lugar diferente. A sensação que eu tinha era que aquela estrada fosse um lugar a parte do mundo, onde o tempo não corria, ou melhor não tinha tempo nem hora. Uma sensação de paz incrível que contagiava à todos. Não vi nenhuma discussão ou pessoa alterada nesses dias. 

                                                    Subida tranquila para o monte. 


     Logo passo pela montanha que tem uma convidativa trilha. Como havia prometido, iria subir  até o topo, pois fiquei hipnotizado por ela desde a primeira que a vi, na ida para São Jorge. Não era tão alto assim e nem tinha subidas íngremes. Consegui subir numa boa, sem ficar muito ofegante. Quem tiver um preparo físico mais ou menos sobe numa boa. Tive que deixar a Margarida em um restaurante próximo da trilha. 
    Não tem muitos obstáculos. Mas se bobear podemos pisar em falso e cair e sair rolando morro abaixo. Em determinado ponto começo a sentir tontura, pois tenho medo de altura. Então subo só olhando para o lado da montanha, às vezes sentando-me para filmar e curtir o visual da Chapada dos Veadeiros. Me arrisquei a olhar para o lado da BR apenas para tirar algumas fotos e gravar um vídeo. Me dava uma bambeza nas pernas olhar para baixo. 


                        A quinta série não saiu de mim. Espero que deixem os bichinhos ali para sempre

     E cheguei no topo rapidinho. De início fiquei fazendo bichinhos com as pedras. Depois parei para ouvir o som do silêncio e curtir o visual incrível da Chapada dos Veadeiros. De qualquer vista ou ângulo, o lugar é lindo. Muitas pousadas na região, e é abençoado quem mora ali. Não fiquei refletindo sobre a vida, o passado, nada. Apenas parado, sentindo a energia do lugar e recarregando as energias. 
    Depois de mais de uma hora resolvo descer. Estava revigorado, aquele local tem uma energia especial. Aquela trilha não estava ali ou foi feita ali por acaso. Existem lugares na terra que tem uma energia especial, não é misticismo ou algo parecido que estou falando. É algo inexplicável. 





    Sigo o caminho lentamente para Alto Paraíso. Já são uma e meia da tarde quando avisto à minha esquerda um restaurante simples com a placa avisando “Arroz feijão ovo frito e carne” por 17 reais!”. Nessas minhas viagens descobri que os lugares mais simples tem o tempero mais gostoso. E não pensei duas vezes em parar ali e rangar. 
     Apenas duas mesas tinham pessoas. Um cachorrinho e o dono, um cara alto na faixa dos sessenta anos. E a sua esposa, que deveria ter uns dez anos a menos. Pedi o prato do anúncio e fiquei ali, sem falar nada, aproveitando para curtir mais um pouco o visual daquela estrada maravilhosa E curtir a paz do local. Sei que em breve irei encontrar rodovias super movimentadas. 


          A carne é frita na hora e demorou um pouco para sair. Mas estava sem pressa. E valeu a pena  a espera. A comida estava uma delícia, com aquele tempero caseiro da hora!
     Ficamos conversando eu o dono do restaurante e sua esposa. De sobremesa ele me ofereceu um delicioso suco de abacaxi e uns biscoitinhos deliciosos. E a conversa rendeu. Falei sobre a viagem e um pouco sobre a minha vida, como é a minha família, etc... Uma das principais curiosidades das pessoas que me abordam na viagem é sobre a família, se sou casado, se tenho filhos, se a minha família não se preocupa comigo. Digo apenas que saí de casa muito cedo e sou sozinho no mundo. E viajamos por aí, eu e Deus, é claro. 
     Ele falou um pouco sobre sua vida. Disse que também viajou boa parte do Brasil, só que de carro. E foi zagueiro em diversos times brasileiros. Times de menor expressão, na verdade. Uberaba, Santa Cruz, etc... Mas na década de 80 o campeonato brasileiro tinha cerca de 80 participantes de todos os estados brasileiros. Ele teve oportunidade de jogar contra os times grandes do Brasil e teve o trabalho de marcar jogadores como Zico, Reinaldo, etc...
                   Você moraria em um lugar desses? Até na barraca eu moraria se não fossem as chuvas

    Foi tanta conversa que o sono chegou. E nos despedimos. O ruim de conhecer pessoas legais na viagem é que tem a hora da despedia. Ou quem sabe é um até logo, pois a região ficou no meu coração e pretendo voltar algum dia. 
    E voltei a pedalar em direção à Alto Paraíso. Uma molezinha diferente estava tomando conta de mim desde o almoço. Não era o sono habitual que temos depois do almoço. Fiquei refletindo se era possível colocar maconha ou algo parecido em um suco de abacaxi. Me lembro que a esposa do dono fez um ar de reprovação quando ele me ofereceu o suco. E ela disse “não” para ele. Me lembro bem disso. 
      Estava pedalando o mais lento possível. A estrada estava chegando ao fim. A estrada mais gostosa que percorri em minha vida. Pensei em voltar e perguntar se o cara havia colocado algo em minha bebida, mas pensando bem, ele não iria dizer nunca, caso tivesse realmente feito isso. Ou quem sabe diria?
     E a estrada chegou ao fim, estava novamente em Alto Paraíso. Era como estivesse acordado de um sono profundo e que havia tido um belo sonho e voltado à realidade.  Um sonho de ter estado em um lugar maravilhoso, cheio de paz, boas energias e tranquilidade. A cidade de Alto Paraíso também é especial, mas aquela estrada é diferente... 
    Tomei um lanche na padaria do lado mais simples da cidade, onde as coisas são mais baratas, porém não menos gostosas. Tinha uma torta de chocolate maravilhosa. Mas apesar do lanche, estava triste. Um vazio imenso começou a tomar conta de mim. Amanhã irei voltar a pedalar, gosto da estrada, mas Alto Paraíso já está me deixando com saudades. 


Esse portal parece nos levar para um lugar mágico, onde só existe paz