Havia até respondido às perguntas e salvo no word, mas, na hora de ficar frente à câmera, o incômodo falou mais alto e desisti. Resolvi então publicar aqui no blog, e também abrir este canal. Quem quiser fazer perguntas, podem me enviar por email (juliocesar-555@hotmail.com) que responderei aqui no blog com o maior prazer. Claro que se a resposta estiver ao meu alcance.
Então, vamos as perguntas:
1- Com qual idade você recebeu o diagnóstico de esquizofrenia?
Bem, eu não recebi um diagnóstico. As psicólogas apenas me faziam um monte de perguntas e anotavam tudo em uma folha de papel. Já os psiquiatras apenas perguntavam o que eu estava sentindo e então receitavam os medicamentos em poucos minutos. Só fui saber o que eu tinha quando fui fazer a minha primeira perícia no INSS, aos 35 anos de idade. Havia surtado pela primeira vez aos 32 anos, tentei voltar ao trabalho algumas vezes, mas, como o trabalho de operador de som é um pouco estressante, sempre tive recaídas e, em uma delas cheguei à conclusão de que não estava mais conseguindo trabalhar e a aposentadoria seria a única solução para o meu caso.
Li o laudo que o psiquiatra me passou e constatei que o que estava atormentando a minha mente era uma tal de F-20, chamada esquizofrenia paranoide. À princípio imaginava que se tratava de algo espiritual, ia na igreja, e, quando o pastor chamava as pessoas para ir à frente do altar para receber a oração, mil caíam a minha direita e dez mil à minha esquerda, mas eu não caia de jeito nenhum. Cheguei a pensar que o espírito que estava em mim era muito forte e que somente tirando a minha vida é que o problema seria resolvido.
2- Que sintomas apresentava?
Além dos sintomas clássicos, que são as alucinações auditivas e visuais, e uma mania de perseguição absurdamente exagerada, eu também tinha alguns delírios, principalmente os místicos e os de grandeza. As vozes no início só comentavam o que eu fazia, ou então falava coisas banais, colocando defeitos em mim. Depois, como a mania de perseguição aumentou, as vozes começaram a se tornar ameaçadoras: "Vamos pegar ele hoje?" Foi o que cheguei a ouvir há alguns anos atrás, quando me aproximei de algumas pessoas que estavam sentadas em uma mesa de bar. Os meus delírios eram mais relacionados ao misticismo, a religiosidade. Pensava que era um ser superprotegido por forças sobrenaturais, acreditando que nada de mal poderia me acontecer, e, por causa disso, passei por algumas situações complicadas. Por exemplo, quando morava em uma cidade do interior de Minas Gerais, havia ouvido falar que uma certa rua era a mais perigosa da região, que havia muitos crimes, brigas e até mortes. Resolvi, de um dia para outro, ir à esta rua. Era bem estreita e escura, mas não tive medo. Fui até o fim dela e depois voltei sem que nada me acontecesse. Talvez eu tenha um anjo da guarda bem atento...
3- Qual medicação você faz uso? Via oral ou sub cutânea?
No momento, estou tomando somente o diazepan, pois não me dei bem com nenhum dos vários antipsicóticos que já experimentei. Como moro sozinho, tenho que ter um pouco de disposição para fazer certas coisas, como lavar a minha roupa, ir ao restaurante, ir ao centro para resolver alguns problemas, e os medicamentos não me deixavam fazer isso. Quando sinto que estou começando a ficar agitado, volto a tomar a clorpromazina e o fenergan. O último que cheguei a experimentar foi a quetiapina, mas esse medicamento, além de me deixar muito dopado, me dava muita fome. Não tenho condições de comprar tudo o que dava vontade de comer quando estava sob o efeito deste antipsicótico. E também não quero estragar a minha saúde, aumentando as taxas de colesterol e triglicerídeos. Já cheguei a tomar injeção de haldol, mas no meu caso foi sofrível, pois fico com uma reação adversa muito desgastante, que é a acatisia. E, como a injeção tem o efeito de um mês, passei 30 dias muito complicados. Considero válida tomar antipsicóticos através de injeção, mas somente no caso da pessoas estiver completamente adaptada ao medicamento, preservando assim o fígado e o aparelho digestivo. Não estou aqui fazendo campanha contra os medicamentos, conheço algumas pessoas (não muitas) que se deram bem usando e que têm uma vida bem próxima do normal.
4- Como os seus familiares reagiram ao diagnóstico? E os amigos?
Essa é uma pergunta a qual não posso respondê-la em sua totalidade, pois saí de casa aos 17 anos e comecei a trabalhar como operador de som. Sempre gostei de morar sozinho e ter liberdade.
Já os amigos, também fica difícil responder, pois o meu círculo de amizades se restringia aos "colegas" de trabalho.
Mas as pessoas em geral se afastaram de mim, principalmente aquelas que eu procurava ajudar com os meus conhecimentos em eletrônica e sonorização. Chegava a consertar e instalar equipamentos de som em igrejas sem cobrar nada, pensando que estaria ajudando diretamente no trabalho de Deus, e na verdade estava era poupando o bolso do padre e do pastor da igreja em que cheguei a montra o som.
A pior situação ocorreu no trabalho mesmo, pois era um bom profissional. Quando os surtos vieram, acontecerem situações bem complicados em relação a um certo dono de uma empresa em uma cidade do interior de Minas Gerais. Não respeitaram nem o meu auxílio doença, sendo obrigado a trabalhar (ou pelo menos tentar) quando estava de licença, pelo simples fato de morar nos fundos da firma.
5- A esquizofrenia tem vários subtítulos, tipo paranoica, qual a sua?
A minha esquizofrenia é a paranoide, que é a mais comum. O sintoma principal, como o próprio nome diz, são as paranoias. Mas cada portador tem a sua esquizofrenia única, costumo dizer que não existe a esquizofrenia, e sim as esquizofrenias. A esquizofrenia, na minha opinião, é um transtorno mental muito mais complexo do que o excesso de dopamina no cérebro, que é a teoria mais aceita no momento pelos psiquiatras para a causa desse transtorno mental que acomete cerca de 1% da população mundial.
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| tipos de esquizofrenia |
6- Quais as dificuldades encontradas no convívio com outras pessoas no seu dia a dia?
A principal dificuldade no relacionamento com as pessoas é devido à mania de perseguição exagerada. Não é nada fácil conviver com e interagir com o mundo em nossa volta se pensamos e às vezes temos a certeza em nossas mentes que algumas pessoas estão contra a gente e bolando algo para nos prejudicar. Sou duplamente desconfiado: primeiro por ser mineiro, e também por ter esquizofrenia.
Outra dificuldade é o fato das pessoas me acharem um cara estranho e calado. Não vejo nada demais em falar pouco, é como se fosse um defeito grave. Acho que falar demais é bem pior.
7- Existe alguma atividade que você não possa executar por conta da esquizofrenia?
Infelizmente a esquizofrenia é um transtorno mental incapacitante na maioria dos casos. No meu em particular, não me permitiu mais trabalhar, pois a partir de um certo momento o som alto começou a afetar a minha mente e a me deixar estressado. Sem contar o fato de que esta profissão exige um contato com multidões, e hoje tenho uma certa fobia social. Mas, a vida social também é muito prejudicada. Hoje praticamente saio de casa para almoçar pois só sei fazer ovo cozido...
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| frustrada tentativa de fazer um omelete super proteico... |
8- Já sofreu algum tipo de preconceito por causa do seu diagnóstico?
Preconceito explícito não, mas sempre tem aquele preconceito velado, escondido. Sinto que as pessoas chegam a pensar que eu possa ser uma pessoa agressiva, que a qualquer momento posso enlouquecer e cometer algum ato violento. Esse preconceito é um pouco parecido com o que acontece com os negros no Brasil, todo mundo diz não tem preconceito, mas o que vemos, principalmente no mercado de trabalho, não é bem assim. Mas no geral, não tive problemas mais sérios devido à esta condição, pois procuro sempre me manter tranquilo.
9- Como é para um esquizofrênico se inserir no mercado de trabalho?
É praticamente impossível um portador de esquizofrenia conseguir um emprego em uma entrevista se ele revelar a sua condição e dizer que toma antipsicóticos. É muito comum um portador de esquizofrenia ser mandado embora de uma firma quando volta do auxílio doença.
Há pouco tempo saiu uma lei que equipara os portadores de esquizofrenia aos deficientes. Ou seja, quem tem esquizofrenia pode tentar uma vaga na cota reservada para deficientes em empresas que tem mais de cem funcionários. Fora isso, a chance é quase zero, se for revelado a condição.
10- Quanto aos sintomas: notou alguma melhora com a medicação?
Como já disse em uma pergunta anterior, experimentei vários antipsicóticos. Alguns até chegavam a melhorar alguns dos sintomas, mas o preço a ser pago no meu caso era alto demais. Ficava muito sonolento, acordando por volta do meio dia. O raciocínio também ficava lento, ficava com muita fome, pois os antipsicóticos alteram alguma coisa em nosso cérebro. Deve ser algo parecido com a "larica" provocada pelo uso da maconha, não posso dizer com exatidão, pois não faço uso dessa substância.
O antipsicótico também me deixava meio robotizado emocionalmente, cortava as minhas sensações, não achava graça em nada, nem mesmo quando o meu time marcava um gol...
O antipsicótico também me deixava meio robotizado emocionalmente, cortava as minhas sensações, não achava graça em nada, nem mesmo quando o meu time marcava um gol...
11- Precisou de tratamento fonoaudiológico? Como foi?
No meu caso em particular não foi preciso. Creio que a esquizofrenia em geral não atrapalhe na comunicação do indivíduo, seja no ato de falar, como também na audição. Talvez atrapalhe quando o indivíduo tenha também um déficit mental, ou então o uso contínuo e exagerado de medicamentos dificulte um pouco na fala, pelo fato de atuar no sistema nervoso central, ou seja, deixar a pessoa dopada.
12- Junto aos medicamentos, faz terapias?
Particularmente não gosto de ir à psicólogas, mas não tenho nada contra quem gosta de fazer este tipo de terapia. Na minha opinião, a melhor terapia é ter um sentido para a vida, ser útil, fazer o que gosta, aprender algo novo, enfim se exercitar física e mentalmente.
13- Se ficar sem tomar remédio, os sintomas voltam? Tem consciência de quando eles voltam?
Na maioria das situações, sinto quando estou prestes a surtar, sei quando estou começando a ficar meio agitado. A gente vai aprendendo a conviver com os sintomas, a se conhecer melhor. Costumo dizer que ter surtado teve o seu lado positivo, pois, a partir desse momento, passei a estudar melhor o assunto e a encontrar respostas para várias questões sobre a meu jeito de ser.
Como não uso os antipsicóticos continuamente, uso o diazepan como um SOS, sempre levo alguns comprimidos no bolso da calça quando vou sair. Mas nem sempre desconfio que estou prestes a surtar. O stress é um gatilho para a esquizofrenia, e às vezes não reparo que estou prestes a ter um surto.
Mas, quando sinto que a situação está piorando, volto a tomar os antipsicóticos por um tempo até me estabilizar novamente.
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| os portadores reclamam muito dos efeitos colaterais dos antipsicóticos.... |
14- Tem namorada? Leva uma vida saudável, normal, ou perto disso?
Depois que tive os surtos, nunca mais tive um relacionamento. Antes, tinha facilidade de arrumar uma namorada, devido ao meu trabalho como operador de som. Tinha uma boa aparência, e, apesar da timidez excessiva, namorava, mas nada sério e duradouro.
Atualmente não levo uma vida saudável. Tento praticar alguns exercícios físicos, para manter a musculatura normal e assim não atrofie. Em uma fase difícil, tive dificuldades em subir uma escada, pois ficava o dia inteiro dentro do quarto e na hora de subir os degraus quase não tive forças para chegar ao segundo andar de um prédio. A partir daí, decidi a fazer pelo menos um mínimo de exercícios físicos. Mas os chamados sintomas negativos da esquizofrenia costumam ser bem parecidos com os da depressão, ou seja, falta de energia, desânimo, etc. Passo a maior parte do dia em frente do notebook ou então assistindo TV. Creio que a psiquiatria tenha que se preocupar não somente com os sintomas positivos, que são as alucinações. Os sintomas negativos são tão incapacitantes quanto os positivos. Infelizmente os profissionais afirmam que os mesmos medicamentos dopantes usados para tratar os sintomas positivos podem ser usados no tratamento dos sintomas negativos. Particularmente não entendo como que um remédio que deixa a pessoa sonolenta seja indicado para tratar alguém que tenha os sintomas parecidos com os da depressão.
15- Falo o que quiser para a turma e divulgue o seu trabalho
Bem, o meu trabalho é esse, divulgar, através do blog, o que é a esquizofrenia na visão de um portador. Tento, da melhor maneira possível, mostrar que o portador de esquizofrenia não é um ser agressivo, violento e que rasga dinheiro. Sei que é pouco, mas procuro fazer a minha parte, como o pássaro que tenta apagar o fogo na floresta jogando água com o seu pequeno bico.
A informação é a melhor arma para se combater o preconceito, só através dela é que poderemos deixar de ser discriminados pela sociedade.
Creio que nas mais de 200 postagens que já publiquei no blog tenha bastante informação sobre o assunto, mas não vou parar de publicar, mas aceito sugestões de postagens e também abri esse canal de perguntas e respostas. Para me enviar uma ou mais perguntas, é só usar o seguinte email:
juliocesar-555@hotmail.com
A informação é a melhor arma para se combater o preconceito, só através dela é que poderemos deixar de ser discriminados pela sociedade.
Creio que nas mais de 200 postagens que já publiquei no blog tenha bastante informação sobre o assunto, mas não vou parar de publicar, mas aceito sugestões de postagens e também abri esse canal de perguntas e respostas. Para me enviar uma ou mais perguntas, é só usar o seguinte email:
juliocesar-555@hotmail.com




















