sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Passos dos Jesuítas: 2º dia


08/01/2014

    A viagem foi ótima, tirando o frio que passei por causa do ar condicionado. Mas também o mané aqui até hoje não aprendeu que os ônibus modernos usam o ar condicionado também nas viagens noturnas... Sai de Belo Horizonte às nove da noite e cheguei à capital paulista por volta das quatro horas da manhã, um pouco antes do previsto, talvez pelo bom estado de conservação das estradas e também por serem retas em sua maior parte.
    A rodoviária terminal Tietê de São Paulo é bem grande e com um visual moderno, ao contrário da atual de Belo Horizonte. O metrô de SP também é mais amplo e veloz, fazendo com que  de BH se pareça com uma carroça. Tive que pegar o metrô para chegar na outra rodoviária de São Paulo, o terminal Jabaquara.
    Aos poucos o meu receio de pisar em terras paulistas foi desaparecendo, havia até escondido o meu celular dentro da mochila, tamanho era o meu medo da grande metrópole. Imaginava que iria encontrar um assaltante em cada esquina. Mas o que vi foi me deixando mais tranquilo: pessoas serenas (mas também eram 4 da manhã né?) e atenciosas na hora de darem informações.
    Peguei então uma topic às seis da manhã e cheguei em Peruíbe às 8:30. A demora se deu pois o motorista deixou cada passageiro em seu ponto.
    Fui então tentar tirar o cartão para fazer o caminho, pois fiz a inscrição pela internet para ganhar um certificado no final da viagem. Mas a impressora do terminal turístico não estava funcionando.
    Perguntei à várias pessoas sobre a seta que indica o início do caminho, e, após muitas tentativas, consegui achá-la. Deu para perceber que a maioria das pessoas não conhece o caminho. Também notei  que quase ninguém é de Peruíbe, que deve parecer um deserto fora da alta temporada.

poucas pessoas pelas ruas em Peruíbe
    Achar uma padaria foi um custo. Um cara me fez andar uns sete quarteirões, me indicando um sofisticado café. Claro que não entrei, o cara tava pensando que eu sou um turista rico?
    Consegui achar uma lanchonete e tomei um cafezinho com um pastel de queijo. Preço salgado...
Às nove e meia já estava caminhando. Peruíbe é uma linda cidade, com praias de ondas tranquilas e constantes. Casas bonitas e bem cuidadas, mas, tirando o centro e as praias, quase não se via pessoas pela cidade. Sempre pensei em morar na beira da praia em uma cidade pouco movimentada.
    Poucas nuvens no céu e muito calor no litoral paulista. Mas, por ser reta, estava conseguindo andar em um bom ritmo. Às 11:30, depois de algumas pesquisas, encontrei um rango legal por onze reais. Mais uma vez pensei se não teria sido melhor ter viajado fora da alta temporada...
ruínas de abarebê
    Depois do almoço passei pelas ruínas de abarebê e segui uns seis quilômetros por uma praia semi-deserta até a divisa com Itanhaém. No meio do caminho, adivinhem o que me aconteceu? Um cara aparentando uns 35 anos se aproximou de mim e me cantou, em plena luz do dia, com um sol de aproximadamente 35Cº! Ele queria fazer bobice ali na areia mesmo, com um sol daqueles! Me despedi educadamente e apressei os meus passos, chegando em Itanhaém por volta de uma hora da tarde. A verdade é que, andando por volta de quatro horas seguidas, e com onze quilos nas costas, poderia me aparecer a Cléo Pires que eu não iria querer saber de nada.
    As praias no início de Itanhaém não me agradaram. A maioria dos quiosques estavam fechados e abandonados, apesar de um certo movimento nas praias, maior até do que em Peruíbe. O sol na parte da tarde estava de rachar. Se o termômetro estivesse indicando uma temperatura de 35ºC, provavelmente a sensação térmica no asfalto seria de 40ºC, por causa do vapor que sobe. Não dava para andar pela praia, pois a caminhada na areia fofa não rende, e ainda tinha que visualizar as placas que indicam o caminho.
tá legal toninho "cexta" feira eu tomo umas ai...
    Por volta das quatro da tarde, na maior cara de pau, ao ver uma torneira no corpo de bombeiros, pedi para tomar um banho. Expliquei a minha situação, o que estava fazendo, etc. Os caras foram super gente boa comigo, e até quiseram fazer uma vaquinha para comprar uma passagem até Ubatuba, mas expliquei que o grande barato da viagem mesmo é o caminho, e a pé, de preferência. Não entendo por que as pessoas ficam tão surpresas e até assustadas quando conto a minha intenção de fazer a viagem a pé... Em Minas Gerais os moradores dos vilarejos e das pequenas cidades sempre me perguntavam se eu estava fazendo penitência ou pagando alguma promessa.
     Depois do banho tomado, veio o que eu não esperava: a assadura! Havia me esquecido de passar a pomada na parte da manhã e o resultado não poderia ser pior: ardência e queimação nas virilhas...
    Mas, mesmo assim resolvi andar mais uns dez km a fim de conhecer a famosa cama de Anchieta. Reza a lenda que o católico usava esse lugar para descansar quando não estava catequizando os índios. O lugar é incrível, vale a pena visitar. Deu até vontade de montar a barraca por ali mesmo, mas ainda era cedo para parar, ainda mais por estamos no horário de verão.
essa era a "cama" onde o padre Anchieta descansava
    Andei até às cinco e meia da tarde. Cheguei a praia mais movimentada de Itanhaém, Cebratel. Não gosto de muito movimento, mas foi o que deu para andar neste primeiro dia de caminhada. Esperei escurecer um pouco, mas o movimento ainda era muito grande. Muita gente nadando ainda, alguns caras jogando bola, e muita gente só conversando, se refrescando com a brisa da praia. O jeito é esperar mais um pouco até que a praia se esvazie totalmente, pois tenho que descansar e ter uma boa noite de sono, já que o primeiro dia geralmente é muito extenuante. Se preparar fisicamente antes da viagem é muito importante, mas o ritmo de caminhada mesmo costumo pegar no terceiro dia.
sol de rachar em Peruíbe...
praia do Cepratel, em Itanhaém

Passos dos Jesuítas 1º dia

7/01/2014-terça feira

   Ontem passei boa parte do dia por conta da reforma da minha barraca, que foi detonada pelas formigas cortadeiras durante a minha última viagem, o "Caminho de Sabarabuçu, da estrada real. Tinha que reparar os danos causados por essas formigas, para evitar que outros insetos me incomodassem durante a noite. Esses"insetosinhos"  fizeram vários rombos na minha barraca, se ficasse mais dois dias acampado naquele lugar não iria sobrar nada da minha humilde residência 
    Tive que andar por um bom tempo pelo centro de Belo Horizonte, até encontrar a fita adesiva ideal para tampar os pequenos buracos, já que os grandes foi preciso costurar mesmo. Creio que as lojas de camping e pesca não gostem muito de vender artigos para reformar barracas, o que eles gostam mesmo é de vender as barracas...
    Demorei a encontrar o filó, que é o tecido que impede que os pernilongos entrem em berços e barracas. Paguei dez reais para um colega que estava no abrigo para costurar a barraca, já que não sou muito bom com agulhas. O resultado ficou bacana, apesar de não ter ficado uma brastemp. Ficou uma gambiarra bem feita, o importante é que não entre pernilongos e nem água durante uma chuva.
a barraca foi parcialmente destruída pelas formigas cortadeiras
    A passagem para São Paulo comprei hoje mesmo, não gosto de comprar passagens com antecedência. Vai que acontece algo neste intervalo de tempo? Vai que eu encontre o grande amor de minha vida? Vai que eu tropece em alguma pedra e machuque o meu dedão?
    A passagem não é nada barata: 102 reais! Tentei, em vão, encontrar um "clandestinão" até a capital paulista. E ainda tinha que pegar um outro ônibus até Peruíbe, onde está situado o primeiro pórtico da viagem. Não sei o motivo, mas o trajeto válido é o do litoral sul até o litoral norte de São Paulo. O inverso já não é válido para se pegar o certificado de conclusão do caminho.
    Hoje foi um dia de pequenas compras para a viagem. Protetor solar, balões de festa para colocar na parte de cima da barraca para evitar que a mesma fique molhada durante uma chuva, repelente e várias cositas mas...
    Só disse que iria embora do abrigo para o "rabugento carioca", um cara de uns 50 anos que vive reclamando de tudo. Ele tenta dar uma de durão, mas dá para se notar em seu olhar que é um cara sensível.
o ex jogador Edmundo dava uma de durão, mas chorava com facilidade....
    Talvez o jeito rude pode ser um meio de defesa das pessoas muito sensíveis. Acho que o ex jogador Edmundo seja um pouco assim, pois quando era jogador dava uma de durão, etc mas constantemente seus olhos ficavam marejados com uma certa facilidade.
    Não disse que iria embora para o resto da galera, pois como já disse, detesto despedidas. Talvez seja um até breve. Gostei muito dos bairros que cercam o abrigo, tem três parques ecológicos e também o centro de convivência para pessoas com transtornos mentais. Quem sabe eu não more por lá um dia em um quarto? Mas, por enquanto vou morando em minha barraquinha...
    Aqui em BH está um sol de rachar. Espero que em São Paulo também. Estou ansioso e receoso ao mesmo tempo. Acho que só o tempo mesmo é que irá acabar com esses pensamentos negativos que tenho em relação ao estado de São Paulo. Fico sempre imaginando que todas as cidades do estado sejam violentas e que o povo não seja muito receptivo. Mas, mesmo assim, resolvi fazer este caminho.  Sei que isso é coisa de minha cabeça, pois, na viagem à Paraty, andei um bom trecho em terras paulistas e não tenho do que reclamar.
    São seis horas e oito minutos da tarde. A viagem é às nove e já estou sentado na rodoviária, que está lotada. Por um momento pensei se não seria melhor ter planejado a viagem para depois do período das férias.


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Adeus abrigo

4/01/2014 Sábado
cidade de Peruíbe

    Último fim de semana aqui no abrigo. Terça feira estarei viajando para São Paulo, a fim de fazer os Passos dos Jesuítas. O que estou sentindo neste momento? Sinceramente não sei. É um misto de sentimentos e sensações. Claro que estou alegre e ansioso por voltar a caminhar e, o melhor, pelas praias do nosso Brasil. Estou um pouco receoso também, por não conhecer bem o povo e as terras paulistas. 
    Bem, isso é o que consigo descrever com facilidade, as palavras que aparecem em minha mente sem fazer esforço algum. Mas e em relação aos companheiros do albergue? Muito difícil de descrever essa situação. O que sinto, além da tristeza em ver tantas pessoas em dificuldades? Fiz muitas amizades por lá, apesar do meu jeito caladão de ser. A verdade é que me sinto mais á vontade ao lado de pessoas humildes. Claro que vale a pena ressaltar que humildade não tem nada a haver com a questão financeira da pessoa. Ser humilde para mim, como já disse, é não se achar melhor do que os outros. Uma outra verdade é que algumas pessoas ficam humildes apenas nas dificuldades. Depois que a situação se normaliza, voltam a sua arrogância e prepotência de sempre. 
     Muitos usuários do abrigo acabaram de sair da cadeia, não sei se por causa de roubo, tentativa de homicídio ou próprio homicídio. Não tenho medo deles, pois sei que não sou de confusão. Entrei no abrigo na maior humildade e vou sair na humildade também, não me achando melhor do que ninguém por ali. Respeitei todos ali e acho que também fui respeitado pela maioria dos caras lá do abrigo. Aprendi que a humildade vale ouro e que pode valer a nossa vida também. Não é complexo messiânico, mas, se Jesus andava ao lado dos pecadores, por que eu, que não sou nenhum santo, não posso conviver com pessoas que cometeram e ainda cometem erros em suas vidas? Não saio por ai com os outros caras do abrigo, sempre gostei de ficar na minha mesmo, passo a maior parte do tempo no parque ecológico, curtindo a natureza e a solitude. 
    Tirando o dinheiro, sempre que pude ajudá-los, o fiz com o maior prazer. Isso me fez sentir mais útil. No início, como a galera sabia que sou aposentado, não me deixavam em paz. Era cinquenta centavos para um, um real para outro e, se desse bobeira, no final do dia já tinha desembolsado uns cinco reais só para "fortalecer"# a galera.
    Resolvi cortar a grana mas eles continuaram a ter consideração comigo. Me senti mais respeitado no abrigo do que em uma firma onde trabalhei por bastante tempo, em uma pequena cidade do interior de Minas Gerais. Os outros funcionários não gostavam muita da ideia de um cara da capital ganhar mais do que eles. Até a esposa do dono da firma tinha um pouco de ciúmes. O que eu tinha a haver se eles já não se davam bem como no início? 
    Mas, voltando ao abrigo, lá não só tem caras caras que já tiveram passagens pela policia. Tem muitos caras de outros estados a procura de emprego na capital do mais Belo Horizonte do Brasil. Podemos dizer que existem muitas tribos no abrigo, e que convivem pacificamente umas com as outras. Têm os trecheiros, os que estão a procura de emprego, os que estão fugindo de trabalho, os usuários de drogas que fazem tratamento no CERSAM e os usuários que não fazem tratamento. Tem também alguns aposentados, alguns caras que trabalham mas que não ganham o suficiente para pagar um aluguel, enfim, vários perfis de usuários do abrigo. Tem também muitos idosos e as pessoas que estão com algum problema de saúde e que ficam na permanência.
     Então, como podemos ver, tem muita gente boa por lá, mas nem todo mundo ali é um santo. Não posso dar bobeira, infelizmente tenho que "confiar desconfiando"  de todos por lá. A maioria sabe o que sou aposentado, não sei esconder essas coisas, não gosto de ficar inventando situações que não correspondem a realidade. Outro dia um cara jogou uma indireta, ao dizer que o crack não é uma droga tão viciante assim, e que qualquer um pode usar e parar a hora que quiser. Talvez ele estivesse querendo que eu experimentasse, sei lá. Tenho que estar atento o tempo todo, quando eles se aproximam de mim. Fico triste por estar podendo cometer uma injustiça, ao pensar que todos estão querendo tirar vantagem de minha aposentadoria, mas já fui roubado uma vez por um cara que se dizia meu amigo e que se aproximou de mim apenas com essa intenção.
    Gostava muito quando eles me pediam para ajudá-los, principalmente quando tinham alguma dificuldade em relação aos celulares mais modernos, para ativar um chip, etc. Ficava trocando músicas via bluetooth com eles, e sempre me chamavam para responder alguma dúvida que tinham, por me considerarem um cara inteligente( o que não sou, é claro).
    Vou sentir saudades do abrigo sim, a verdade é essa. A convivência acaba fazendo com que nos apeguemos as pessoas. Vou sentir saudades, apesar de ter que acordar às cinco da manhã em pleno horário de verão. Vou sentir saudades, apesar da cantoria noturna do galo do vizinho. Vou sentir saudades, apesar das filas: fila para entrar, para deixar a mochila no guarda volume e pegar a toalha, da fila para tomar o banho, da fila para entregar a toalha e da fila para jantar. Vou sentir saudades, apesar das pequenas discussões e dos roncadores, que vez ou outra me tiravam o sono. Vou sentir saudades, apesar de todos os perrengues, por que, apesar de tudo fui respeitado e considerado pela maioria, apesar dos meus defeitos e de ser um 22.
    Talvez eu seja um louco mesmo. Louco pela vida, louco por achar que só irá me acontecer coisas boas durante minhas andanças. Louco por pensar que não existem pessoas mal intencionadas por ai. Se os medicamentos me fizerem enxergar uma triste realidade, prefiro ficar sem eles e viver em meu mundo, onde nem tudo é perfeito, mas é onde o respeito e a paz prevalecem sempre.
-obs: não sou contra os medicamentos, mas, creio que, no meu caso específico e na minha situação atual, não é o mais indicado para mim.
    Bem pessoal, é isso ai. O importante é tirarmos sempre lições de todas as situações em nossas vidas, principalmente as mais difíceis. Uma lição que aprendi é dar valor aos bens materiais que conquistamos, independente de serem os mais modernos ou não. Que saudades da minha antiga TV de tubo e dos filminhos velhos da sessão da tarde! Da minha cama, com o colchão novinho que comprei. Podia acordar a hora que o meu corpo pedisse para ser acordado. Mas, bola pra frente, sei que o que fiz foi o correto, não iria aguentar viver e conviver com usuários de crack que trocam a noite pelo dia e que fazem de tudo para sustentarem o seu vício. Essa droga tomou conta do lugar onde morava, e, se a própria polícia não deu conta do recado, não vai ser eu quem irá consertar esta situação, pois o complexo de salvador da pátria também não mais o tenho. . Até o próximo post, provavelmente em uma lan house no litoral paulista, pois irei também postar o diário da viagem, além das fotos, é claro.







     
    O acaso vai me proteger, enquanto eu andar distraído...





# o termo fortalecer é muito usado, quando se pede ou se ganha alguma coisa, é em relação a amizade. 

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Cem mil visualizações, Dicas para mochileiros e pesquisa sobre ronco


Dicas de viagens para mochileiros de primeira viagem
    Se você tem disposição para sair viajando por ai, com uma mochila e uma barraca nas costas, ai vão algumas dicas de quem tem um pouco de experiência nesta prática. Também sou um principiante, mas já aprendi bastante coisa nestas minhas andanças. . Para saber como foram minhas viagens é só clicar nos links abaixo:
-Caminho do Padre Anchieta
Estrada Real: caminho velho
Estrada Real: caminho de Sabarabuçu
    A próxima viagem farei no início de janeiro, pelo litoral de São Paulo. Esse caminho se caminho se chama passos dos Jesuítas, e tem um total de 370km.
rota do caminho dos Jesuítas, no litoral de São Paulo


1- Vestimentas
    Não vá viajar com um short da adidas ou com o tênis nike novinho que você acabou de ganhar. Dê preferência a roupas mais usadas, e, se tiverem um rasgadinho, melhor ainda. Caso um meliante o interpele pelo caminho, você poderá dialogar com ele, mostrando que suas atuais condições financeiras não são das mais favoráveis. Provavelmente ele irá se compadecer de sua situação e é até capaz que ele lhe dê algum trocado.

2-mochila

    Não dá para economizar na hora de comprar uma mochila. A primeira que adquiri foi uma do Paraguai e durou menos de dez dias, a costura da alça não suportou o peso. Imaginem se a mochila arrebenta no meio do mato? Vai ter que rezar para aparecer uma carona de um jegue  ou então carregá-la no ombro por um bom período. A mochila trilhas e rumos tem um ótimo custo x benefício. Existem mochilas mais caras do que a da trilhas, ai vai de acordo com a condição financeira de cada um.

3-Peso da mochila
na viagem à Paraty não respeitei o limite da mochila e a costura da alça começou a se desfazer no meio do caminho

    Por falar em peso, é muito importante respeitarmos o limite da mochila. O cálculo do peso é bem simples: basta dividir a litragem da mochila por três. Ex: uma mochila de 50L suportará mais ou menos 16,5kg, já que 50:3= 16.6. Eu carrego um dois quilos a menos, por medida de segurança. E o mais importante em relação ao peso é o nosso próprio limite, é claro. Quantos quilos iremos conseguir carregar na mochila? Quanto pesa a barraca? A manta? As roupas? Também existe um cálculo para isso, de acordo com o peso da própria pessoa, mas sinceramente acho esse cálculo perigoso. Isso vai de acordo com cada pessoa, a idade, as condições de saúde, o percurso, etc. Então só a prática irá resolver esta questão. Vale lembrar que, se a mochila está pesando 10kg na parte da manhã em uma viagem, já na parte da tarde a sensação pode ser de que estamos carregando o dobro, dependendo das condições  climáticas e do percurso também(se tem muitas subidas, etc).

4-Qual mochila escolher?

    Parece que não existe nenhuma complicação na hora de escolher uma mochila, mas não é bem assim. Assim como uma roupa, temos que nos sentir bem ao usar este item, que praticamente fará parte de nosso corpo durante a viagem. Então, na hora de comprar peça ao vendedor para experimentá-la, colocando algum peso dentro dela. Dê uma volta na loja e veja se você está se sentindo confortável. Claro que ninguém vai estar 100% confortável carregando peso, mas, com a ajuda da regulagem das alças e da barrigueira, dá para melhorar um pouco a situação. Qualquer coisa peça orientação ao vendedor.

5-Água

    Nas duas primeiras viagens, carreguei a água dentro da mochila, em duas garrafas de água mineral de 500ml. Em dias quentes, na parte da tarde, só conseguia beber dessa água se não houvesse outra alternativa. Se a mochila não tem na parte lateral um lugar para abrigar as garrafinhas, o ideal é investir em um cantil de 900ml, que vem com uma proteção que ajuda a conservar a temperatura da água. E ainda ela tem um lance que dá para carregar o cantil na barrigueira da mochila, tirando assim um quilo de suas costas, já que um litro de água pesa aproximadamente um quilo. Existe um produto chamado clor-in, que é vendido em lojas que vendem barracas e que serve para melhorar as condições da água em relação aos micróbios.

6- Onde montar a barraca?
fujam das formigas "cortadeiras", elas podem causar um enorme estrago em sua barraca

    Essa é uma questão complicada. Já passei por várias situações inusitadas nessas minhas andanças por causa da minha humilde residência. Se você gosta de acampar no mato e tem uma boa barraca, não tem problema nenhum, com exceção da chuva e das formigas cortadeiras, que parecem ser carnívoras e adorarem detonar uma barraca.
    Mas e se a viagem for em cidades coladas uma nas outras? E a questão da violência?
   Nas minhas andanças, várias vezes montei minha barraca no perímetro urbano das cidades. Isto fez com que eu conhecesse várias pessoas bacanas por ai. Mas também podemos correr certo perigo, pois convenhamos que não é algo comum uma barraca montada em uma cidade, ainda mais se for uma cidade pacata e pequena. Já chamaram a polícia para mim, sem ao menos ter feito nada. Mas não tenho nada a reclamar das abordagens da polícia aqui de Minas Gerais. Depois de fazerem as perguntas de praxe e olharem a documentação, eles sempre conversaram comigo, me dando dicas do caminho a ser seguido.
    Aconselho a montarem a barraca em locais onde não irá atrapalhar a passagem de pedestres. Também é sempre bom bater um papo com os seus "vizinhos", explicando o motivo de estar naquele local. Fiz boas amizades, além de ganhar lanches, bolo, feijoada, um cafezinho, etc.

7-Calçado

     Ai vai do gosto de cada um, tirando o sapato, é claro. Existem botas específicas para trilhas e caminhadas, que evitam torções e derrapagens. Chegam a custar 300 reais ou até mais. Eu, particularmente, prefiro um bom tênis macio e usado, com meias próprias para caminhadas longas. Essas meias são mais grossas e têm menos algodão em sua composição, diminuindo o suor e as chances de bolhas indesejáveis nos pés. Sem contar o chulé né? Eu uso o talco granado no dia a dia para diminuir o mau cheiro, mas, para caminhadas longas isso não é bom, pois esse produto resseca o pé, o que faz com que o mesmo fique ardendo nas viagens. Na próxima  irei experimentar outra marca.

8-Barraca
evite barracas simples
    Por experiência própria, recomendo que não comprem as barracas sem coberturas. Elas não suportam nem uma chuva leve, ficando toda encharcada. Compre barracas com a "casinha" e a cobertura separadas. Uma dica: Não deixa a cobertura na parte de cima encostar na barraca, essa área poderá ficar úmida e até deixar cair alguns pingos em caso de uma forte chuva. Uma solução para isso são os balões de festa. Isso mesmo! Encha os balões(não totalmente)  e coloque-os na parte de cima, entre a casinha e a cobertura. Tem que ser balão de festa hein galera! Não vale ir ao posto de saúde e sair com as duas mãos cheias de camisinhas!

9- Remédios
esses recipientes são ótimos para se armazenar remédios
    Eu sou meio suspeito, como um hipocondríaco, a falar sobre este assunto, mas vou dar o meu pitaco mesmo assim. Leve o essencial. Anti-inflamatório, paracetamol(para dores em geral). Aconselho a comprar a nimesulida, que é um ótimo anti-inflamatório, antes de viajar, pois esse medicamento é encontrado pelo preço de 4 reais em algumas farmácias. Nas cidades do interior, já encontrei a nimesulida por doze reais. E é óbvio que o vendedor não irá abaixar o preço, ainda mais sabendo que você está machucado e precisando muito desse medicamento. Eu também levo o pan nosso de cada dia , já que sou viciado nesse ansiolítico. Costumo guardar esses medicamentos em recipientes de remédios que são usados em conta gotas. Jogo o conteúdo fora e faço uma boa lavagem no recipiente, deixando secar bastante no sol. Se os medicamentos forem parecidos  e você não estiver com a memória boa, compre uma caneta para retroprojetor e escreva o nome do medicamento na embalagem.

10- Informe-se sobre os lugares que irá visitar

     Procure se informar sobre os lugares que irá percorrer, para saber sobre as condições climáticas, pontos turísticos, etc. Assim você não irá passar o frio que passei no sul de Minas Gerais, por não ter comprado um saco de dormir e pensar que não iria fazer frio nessa região fora do inverno. Procure se informar se o local não é perigoso, se não tem muitos assaltos, etc. Não recomendo mulheres a viajarem sozinhas, por questões de segurança. No facebook encontrei uma que  viaja de carona pelo Brasil inteiro, ela realmente é muito corajosa, mas também é fácil arrumar carona né? Ela tem uns 25 anos, é bunitinha... Já arrumou até carona com a polícia. Eu não sou uma simpatia em pessoa, sou caladão, sério, cabeludo, barba por fazer às vezes, os traços meios rudes, ai fica difícil arrumar carona né? Vale a pena dar uma olhada na página dela no facebook:
https://www.facebook.com/100Dinheiro100FrescuraE1000Destinos


11- Alimentação

    Já me recomendaram a carregar uma panela e comprar miojo, mas, na minha opinião, isso não é muito legal. Se temos que nos alimentar bem no dia a dia, imagine caminhando o dia inteiro com um peso nas costas. Devemos manter uma rotina dentro das possibilidades, tomando café da manhã e almoçando nos horários certos. No almoço não pode faltar o tradicional arroz com feijão e carne, além de uma salada. Costumo carregar granola também. Como muita banana, por causa do potássio, que ajuda a prevenir cãibras. Laranja, mamão, maçã também é bom comer.

12- Pedra Hume
    Essa é uma dica para quem é desastrado como eu e se machucou e quer que o ferimento cicatrize rápido. Outro dia, ao ver uma bola rolando no parque, o fominha aqui correu atrás dela igual cachorro, mas, só que, na hora de chutar para devolvê-la para a galera, errei o alvo e chutei mais chão do que bola. Resultado: quase arranquei a tampa do dedão do pé. Um colega meu do abrigo me indicou a pedra hume. Não levei muita fé naquele troço parecendo água, mas, acreditem, em quatro dias o ferimento estava seco. Claro que isto não substitui o bom e velho merthiolate, mas ajuda a secar o ferimento. 
 

 Cem mil visualizações do blog

    Pessoal, neste fim de semana o blog atingiu cem mil visualizações. Não tenho como agradecer, palavras seriam muto pouco para isso. Esse blog é para mim uma terapia, além de me fazer me sentir útil em alguma coisa. Além dos amigos que tenho por aqui.
    Pode parecer pouco, mas cem mil é um número expressivo para quem está falando de um assunto que não é assim tão atrativo. Só o nome esquizofrenia causa espanto nos leigos no assunto. Além de tudo, não sou um profissional da área de saúde mental, vários grupos do facebook nem publicam os meus posts.  Não me sinto "o cara", mas fico muito feliz com este número, pois, há doze anos atrás, no meu primeiro surto, não fui dessa para melhor por questão de dias, por não me alimentar, tentando fugir dos inimigos que estavam em  minha mente e das vozes. Cheguei a perder 25kg, mas, como já disse várias vezes, fui muito ajudado por várias pessoas e aqui estou escrevendo este blog. Ainda conta o fato de que, até aos 40 anos, eu nunca havia encostado um dedo em um teclado de computador. Pensava que iria  desconfigurar o PC todo ao encostar em uma tecla errada. Resolvi fazer então o curso de informática, um pouco receoso, pois na sala só havia meninas e caras de 20 anos. O esquizo aqui pensou que iria  passar vergonha, mas o que aconteceu foi justamente o contrário, pois, graças a muito esforço, consegui assimilar as matérias e tirei boas notas, tanto que, no dia das provas, os outros alunos até brigavam para sentarem ao meu lado para pegarem uma colinha....
-obs: gostaria de dizer que o meu livro, Mente Dividida, Memórias de um esquizofrênico, ainda está sendo vendido, pelo preço de dez reais, no formato PDF, no momento não estou podendo imprimir e encaderná-lo. Para adquiri-lo é só seguir as instruções no lado direito da página.



Pesquisa sobre ronco




     Segundo o IPE(instituto de pesquisas esquizofrênicas) 20% da população masculina brasileira ronca. Pude constatar isso após cinco meses dormindo em um abrigo aqui em Belo Horizonte.
    Cada quarto possui dez beliches, comportando assim vinte pessoas. Toda noite sempre tinha que ter um cara que roncasse, isso quando não tinha a infelicidade de dormir em um quarto com dois roncadores. Raros foram as noites em que não havia um roncador. Já perceberam que esses caras pegam no sono com uma facilidade enorme? Era só apagar a luz que o temível ruído começava. Alguns roncavam tão alto que a galera não aguentava e dava um cutucão para o cara acordar. Mas não adiantava, esses caras pegam no sono muito rápido. Na minha opinião, o abrigo tinha que cadastrar todos os roncadores e os colocarem  no mesmo quarto, que teria que ter um isolamento acústico especial, para não atrapalhar os quartos vizinhos. Imagine vinte elementos roncando em uníssono? Ouçam no vídeo acima que ronco tenebroso de um cara que gravei enquanto ele dormia. Não consegui dormir naquela noite.


   No mais, um agradecimento especial a todos os leitores e um feliz ano novo, com muita saúde e paz, que é o mais importante.

















sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Nas ruas: comparações


  Não é a primeira vez que estou por ai nas ruas. Já estive nesta situação anteriormente. Foi no ano de 2002, em razão do meu primeiro surto psicótico. Fiquei nas ruas por um período de cinco meses, perambulando pelas ruas da grande BH, até me recuperar por completo das alucinações brabas que tive. Se não fosse a ajuda de muitas pessoas provavelmente não estaria aqui escrevendo este post. Poderia ser mais um morador de rua, sem nenhuma renda e nenhuma perspectiva de vida.
    Mas hoje em dia, depois de quase dez meses de andanças, posso dizer que muita coisa mudou em relação aos moradores de rua.
    Naquela época fui muito ajudado por diversas pessoas, e, na minha opinião, esse foi o principal remédio para que eu me livrasse de um surto tão intenso e tenebroso. Na minha fuga desesperada para fugir dos inimigos que só estavam em minha mente cheguei a perder 25kg. Não adiantava  mudar de cidade, andar pela BR ou me esconder no mato: aonde quer que eu fosse, as vozes ameaçadoras me seguiam.
    Mas a solidariedade das pessoas conseguiu reverter o quadro psicótico. Pouco a pouco s inimigos fugiram de minha mente e consegui recuperar cerca de 20kg em apenas um mês. Houve noites em que tive que recusar alimento, pois a minha fome estava completamente saciada.
   E a ajuda não era somente material: várias pessoas paravam para conversar comigo e me dar uma força. Confesso que não iria conseguir sair daquela situação se não fosse esse auxílio. Fica até complicado citar essas pessoas, pois foram muitas e eu poderia estar cometendo alguma injustiça.

    Mas hoje em dia muita coisa mudou: o crack, que antes era consumido por pessoas menos favorecidas economicamente, já está se alastrando pelas pequenas cidades do interior do Brasil e já é usado por pessoas que possuem um poder aquisitivo mais elevado. Estive há pouco tempo no pequeno município de Raposos-MG e, um morador da cidade comentou que hoje em dia já não deixa a porta de casa aberta como fazia antes.
    O problema está tão sério que foi preciso implantar CAPS-AD em várias cidades do país. A internação compulsória agora é lei. Os adultos estão com medo até de crianças.
    Principalmente por causa dessa droga as pessoas já não estão tão dispostas a ajudarem um morador de rua. Antes se evitava dar dinheiro aos moradores com receio de que eles fossem comprar cachaça. Hoje em dia a recusa é por causa do crack.  A cachaça, pelo que pude perceber, não traz tantos problemas em relação à roubos, já que é uma droga barata. Alguns moradores de rua dizem que algumas cachaças em certos bares são mais baratas por conterem misturas. Já o crack é uma droga barata que acaba saindo cara, pois o "barato" dessa droga dura apenas alguns segundos, pelo que pude saber através de alguns moradores de rua.
    Outro dia vi uma cena muito triste: uma garota aparentando uns 21 anos, de classe média, chegou a me perguntar se eu sabia onde ficava um ponto de venda de crack. Ela estava bem vestida e trazia uma caixa de sapato cheia de perfumes caros, para trocar pela droga. Com certeza já deve ter se desfeito de outros pertences e de seu dinheiro para consumir essa pedra maldita.
    Conheço um cara lá no abrigo, que veio do nordeste. Ele é gente boa, tem uns 50 anos e trabalha o dia inteiro descarregando andaimes. Ele é magrinho, baixinho, mas é bom de serviço, pois está neste trampo do andaime por mais de um mês. O máximo que consegui ficar foi dois dias, e o que ganhei, além de oitenta reais, foram dores por todo o corpo. Ele me disse que é usuário de crack. Um outro dia chegou a me pedir emprestado um real, ou seja, provavelmente o dinheiro do seu suado suor foi usado para apenas sustentar esse vício.
    O problema maior acontece quando já não conseguem trabalhar e partem para o roubo. Claro que tem caras que podem trabalhar para sustentar o vício, mas não fazem isso por uma questão de caráter mesmo, preferindo roubar o dinheiro de um trabalhador. As mulheres são consideradas boas freguesas pelos traficantes, já que a maioria chega a vender o corpo para fazer o pagamento da droga à vista.
   O crack traz paranoias  tanto para quem usa como para quem não usa. Hoje em dia as mulheres andam apressadas pelas ruas do centro de Belo Horizonte, sempre com uma das mãos segurando firmemente a alça de suas bolsas. Qualquer pessoa que não esteja muito bem vestida pode ser um possível usuário desesperado pelo crack. Essa paranoia para mim é o principal motivo pela rejeição pelos moradores de rua aumentar mais ainda. Claro que existem pessoas caridosas que ainda ajudam os mais necessitados: espíritas, evangélicos, católicos saem pela cidade distribuindo comida, principalmente à noite.

    Fiz estes comentários não como uma reclamação, pois eu mesmo tenho um pouco dessa paranoia, apesar de não andar com muita grana no bolso. Este post é apenas uma observação, pois tenho a minha aposentadoria e estou nesta situação por que acho complicado uma pessoa gastar metade do que ganha para pagar um aluguel de um quarto. Se quiser quarto barato, é só ir em lugares onde o tráfico de drogas impera. Mas eu só quero paz e tranquilidade. Prefiro ficar andando por ai do que morar em lugares complicados. Não estou aqui para que as pessoas me ajudem nas ruas, não é isso. É apenas o que eu vejo pelas ruas, uma droga que pode mudar o comportamento de uma sociedade inteira. Só gostaria de não ser julgado por andar de mochila nas costas e morar em uma barraca. Os piores bandidos andam por ai de helicóptero e estão em em suas mansões.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Falta pouco...

    Pessoal, falta pouco para que o blog chegue a marca de 100.000 visualizações! Nunca esperava chegar a essa marca. Nunca me importei com números, a minha intenção ao criar o blog era e ainda é tentar ajudar a desmistificar a esquizofrenia. Então, nesse caso, os números têm uma certa importância, já que quanto o maior número de visualizações, maior o número de pessoas informadas sobre a patologia. Não acho legal colocar um contador de visitas no blog, isso pode ser fraudado, já que a maioria dos contadores dão a opção de não começar do zero, ou seja, a pessoa pode colocar o número que quiser de visualizações.
    Obrigado a todos os leitores do blog, tanto as pessoas que têm alguma relação com a esquizofrenia, como as que apenas acessam para se informar um pouco sobre a patologia. Um agradecimento também aqueles que gostam de ver o relato de minhas viagens. Enfim, um obrigado a todos de coração mesmo.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Quetiapina


quetiapina

  Relato de um paciente que usou a quetiapina


 Já fazem cinco meses que estou no abrigo. Fora me dado um prazo inicial de permanência de dois meses. A assistente social não me havia procurado até então, e fiquei até agora quietinho no meu canto, sem fazer nenhum furdunço para não chamar a atenção.
    Mas hoje lá estava ela, sentada na recepção, no horário de entrada, que é entre cinco e oito horas da noite.
    - E ai Júlio, já foi no CERSAM?
    - Eu não, sei que se eu for lá irão me dar haldol...
    -Mas para continuar aqui você tem que estar frequentando o CERSAM.- ela retrucou.
    - Tá legal, eu vou lá sim, mas só vou tomar medicamento se for a quetiapina, pois as pessoas falam muito bem dele.
    Conversamos mais um pouco em sua sala. Ela disse que eu poderia surtar e tals, mas eu disse que existem pessoas bem mais loucas do que eu e que estão andando por ai, e que entrar para o abrigo me fez sentir a pessoa mais normal do mundo. Ela fez o encaminhamento e me deu quatro vales-transporte.
     No dia seguinte, às seis e meia da manhã já estava sentado em frente ao CERSAM nordeste, meio sem esperanças de conseguir a quetiapina, que custa mais ou menos uns oitenta reais.
    Já havia experimentado o melleril, o haldol, tanto em comprimido como o injetável, stelazine, olazanpina, cropormazina, olazanpina, risperidona e mais uns dois que nem me lembro o nome.
    Tirando a cropormazina, não tenho boas lembranças dessas minhas tentativas com os medicamentos. O haldol me causou acatisia e rigidez muscular. O stelazine idem. A risperidona me deixou muito dopado e lenta, além de me dar uma fome danada. Mas nada foi pior do que a minha experiência com a olazanpina, que custa cerca de 700 reais a caixa.
    É uma burocracia danada conseguir este medicamento pelo governo, mas, depois de um mês, chegou para mim uma caixa da olanzanpina. Estava esperançoso, pois, pelo preço, pensei que iria me fazer muito bem, e de que se tratava de um medicamento totalmente diferente dos que eu já havia experimentado. Mas o que me aconteceu foi bastante desolador. Apenas um comprimido me fez ficar deitado dois dias consecutivos. A única coisa que consegui fazer nesse período foi me arrastar até a padaria e comprar um bolo e um "lidileite"


    Voltando ao assunto do post, fui muito bem atendido no CERSAM nordeste, para minha surpresa. Uma longa entrevista com dois caras no acolhimento e duas consultas marcadas: uma com a psicóloga Vera e a outra com a psiquiatra Nathália(lembrei dos nomes por que está escrito no receituário).
    A conversa com a psicóloga foi mais ou menos parecida com a do acolhimento. É complicado e um pouco triste ficar relembrando tudo aquilo, mas no geral me senti bem, é sempre bom conversar com alguém. O atendimento também foi muito bom, acho que fiquei meia hora nesta consulta.
    O pessoal lá é tão gentil que conseguiram adiantar a consulta com a psiquiatra e no mesmo dia já sai com quatro caixas de amostras grátis de quetiapina. A psiquiatra também foi super atenciosa, não tenho do que reclamar. A diferença é muito grande em relação ao SUS em outras cidades.
    A Nathália me receitou dois comprimidos de 25mg nos três primeiros dias, aumentando a dose para 100mg no quarto dia. Como as minhas experiências com os outros medicamentos não foram muito agradáveis, resolvi tomar só um comprimido de noite. Estava na cama conversando com os vizinhos do quarto quando o sono foi aos poucos tomando conta de mim. É só isso o que me lembro. Tive uma boa noite de sono e não acordei nenhuma vez de madrugada, mesmo com a presença do galo do vizinho, que todo noite, pontualmente às três horas começa a sua cantoria. O canto é sempre o mesmo, curto e repetitivo. Muitos caras lá do abrigo já chegaram a perguntar se aquela cantoria era uma gravação.
     Dormir eu conseguir, mas o problema foi acordar.
    -Alvorada! Bom dia meu povo!- pontualmente às cinco da manhã, o monitor anunciou o novo dia, que ainda estava escuro, por causa do horário de verão.
    A sensação era de ressaca, e das brabas. Cuidadosamente e vagarosamente desci do beliche. Não tive ânimo para tomar o banho matinal. A única coisa que queria era dormir de novo. Tomei rapidamente o café e foi para o parque tirar um cochilo, para passar a ressaca, que só foi acabar por volta das dez horas da manhã. O efeito da quetiapina só foi sumir mesmo por completo por volta das quatro horas.
    - Amanhã vai ser melhor, pois irei me acostumar com o medicamento aos poucos. - pensei.
    Mas não foi bem isso o que aconteceu. O segundo dia foi mais complicado ainda para me levantar e acabei tirando um cochilo no passeio mesmo, perto do albergue. A ressaca durou o dia inteiro, mas tenho que dizer que a minha mente ficou mais tranquila, apesar de não tomar a dosagem recomendada. A presença de estranhos já não me incomodava tanto assim, estava menos temeroso, as paranoias não me afetavam tanto assim.
    - Que dia irão inventar um medicamento que atue só na mente sem prejudicar o físico? - me lamentei, pois estava me sentindo bem emocionalmente.
    No terceiro dia resolvi não tomar o medicamento, mas fiquei ainda com um pouco do efeito dele. Estava super relax, o dia inteiro deitado no banco do parque, contemplando a natureza, sem dar importância a nada. Naquele estado não iria viajar para São Paulo, parecia que eu estava sob o efeito da maconha, apesar de não estar rindo à toa(já experimentei umas três vezes, mas não uso mais). Estava tudo bem para mim naquele terceiro dia, apesar de um pouco lento.
     Posso dizer que a quetiapina estava me fazendo um bem danado, tenho que reconhecer, não sou radical na minha opinião sobre os medicamentos. Mas no meu caso em específico é complicado usar esses medicamentos. Tenho que acordar às cinco horas da manhã no abrigo e, quando durmo na minha barraca por ai, não posso ficar muito dopado. Se aparecer algum ladrão de madrugada é capaz de roubarem até a minha humilde residência sem eu perceber. Mas para quem tem essa possibilidade de acordar tarde e não se deu bem com outros medicamentos, recomendo que experimentem. Sinto que sou meio fraco para esses antipsicóticos, se fiquei muito sonolento com apenas 25mg, imaginem o que aconteceria se tomasse a dose recomendada, que é de 400mg.
    Um outro efeito negativo que notei foi em relação  as emoções. Se por um lado os pensamentos negativos e complicados foram controlados, as boas emoções também desapareceram. Estava meio robotizado, tanto fisicamente com emocionalmente, não achando graça em nada do que via e no que pensava enquanto estava sob o efeito do medicamento. Provavelmente não iria achar graça nenhuma em sair viajando por ai, nas minhas andanças, ir a um show,etc. É um dilema e dos grandes decidir se toma ou não os medicamentos, é preciso fazer uma profunda análise dos prós e contras, como já disse várias vezes, a expressão "cada caso é um caso" na esquizofrenia tem uma dimensão ainda maior.

   Por fim gostaria de dizer que não sou contra os medicamentos, já teve psiquiatra me enviando comentários pedindo para me retratar de algumas coisas do que posto. O que posto não é a verdade, não sou dono dela, apenas posto o que sinto e o que penso, é algo que gosto de fazer e muitas pessoas acham que o que posto ajuda de alguma maneira a entender esse mundo tão complicado que é a esquizofrenia.
    Gostaria também de agradecer aos grupos do facebook que autorizam o link de algumas postagens minhas. Não sei o motivo de muitos grupos lá do face proibirem a divulgação do meu blog, talvez seja por eu não ser um profissional da área de saúde, e o que já passei e pesquisei não sirvam para nada.
-obs: me desculpem alguns erros de português, algumas palavras repetidas e tals, mas, na lan house é difícil de ficar revisando o texto, pois o tempo é dinheiro nessa situação. No mais, boas festas a todo mundo, feliz natal e também feliz todos os dias de nossas vidas.